Work Text:
A pele perfaz a dela e, alfim, naquele balanço distintivo, insólito, infrequente, o efeito dele é cafeína. O devaneio inicial sobreleva-se à escuridão, consciente dos antebraços abaixo dos joelhos, em torno das costas dela, assim como os braços ao redor do pescoço dele.
É e não é certo. É e não é errado.
— Você pode... Me carregar ao banheiro?
Segurá-la avezava sentidos dessemelhantes em noites passadas. Sobretudo ao bater à porta dele depois das oito da noite em uma quinta-feira. Torna-se singularmente precioso se desprender do fato de que nunca andaram contíguos como estão. Com um árbitro reproduzindo prudência além de organismos intercomunicando-se. Poder conhecer o quarto dela e aceitar as palavras o conferem a recepção de novas nuances desimpedidas no íntimo das interações propriciadas por ambos. E isso encoraja, instiga a meditação da subsistência de uma região onde ela confie nele.
O observar dela fisga-o, não tão assonorentada quanto teria de. Cochichando em garantia, ele move-se pelo assoalho e avança pelo sanitário. Ela firma os pés no chão, o sumiço da calidez injetando a algidez idiossincrática de outubro na epiderme.
Fiona ainda não regula e não se sente merecedora do calor e do cuidado dele. Ela não projeta inquirir motivos pela presença dele e auferir dissoluções com um velar onusto de compaixão. E, em virtude disso, ela granjeia de aclarar outra vez — uma mitigação —, conjecturando que identifique o que efetua, se preenche a lucidez de que está perto demais de alguém que ele não considera família, amiga ou par romântico:
— Eu vou... Tomar um banho. Você pode ir embora quando quiser.— ela poderia vê-lo fugir e seria menos doloroso descobrir o que ele pensa dela depois de tudo isso acabar. Frost o concede um espaço que ele, em verdade, não quer. Física, metafisicamente. Ela insiste em repelir toda e qualquer afirmação de que ele está fazendo isso de modo consensual, de que ela não está obrigando-o a nada. Mesmo assim, ele não dá dois passos para trás e some da visão dela.
Fiona não entende. O que isso quer dizer, o que deveria dizer, o que ela deveria aprender e guardar sobre isso. Ela não sabe o que quer dizer cuidar de pessoas que não significam nada para você, apesar de fazer isso todos os dias. Ela entende sobre inconsciente, não sobre observação e tempo de qualidade. Não inteirar, não conseguir encaixar e não tocar os significados dele para ela dispõem-na de ponta cabeça.
Relacionamentos não funcionam assim, ela acha. Ambiciona uma intermitência, uma partida, deseja revelar que apesar de querer que ele fique não estar preparada para trabalhar com os recentes acontecimentos. Martírio claustrofóbico que carcome as entranhas como endoparasitas. Frost, intimamente, mortifica-se por não decifrar o que carece de executar para ultrapassar a insuficiência devastando-a. Esquadrinha o próprio ímpeto indúctil e incomplexo: separação. O peito sopesa, as pernas doem ao fraquejar, o estômago desorganizando sob a ostensiva aparição de iniquidade, prostação. Encosta-se na pia, encolhendo-se, vasculha a recuperação de um resquício de destemor, bebe de um rompante de vê-lo desistindo sem pretensão. Não adianta. Briar persegue-a, acode-a numa conjuntura de remissão.
Ao envolvê-la, a invernia preponderante fenece de imediato. Ele descansa o toque na cintura dela, entrega-lhe o fitar de solitude que dilacera em contrição por apreciá-lo quando não deveria. Fiona exala uma frustração incomensurável. Resfolega a mágoa impertinente desguando além dos fatos passados. Uma sensação iniciada a partir do não entendimento, uma dor de cabeça aguda impelindo o cérebro a fritar de cenários nímios, uma estimulação que tem a expressão dela enrolando-se de novo num liame desgostoso. Lábios vacilando, ressequindo, o pranto espavorindo exaustivamente, instabilidade misantrópica pondo-a às avessas. Ela assimila necessitar ser menos escandalosa, inoportuna, mas não encontra, especificamente agora, como.
— Desculpa.— o mínimo a oferecer. Um reverberar rumorejante deslocando a impressão de voz junto da frase. Treme, é fraco, péssimo, deixa-a mais do que pegajosa. Fiona coloca as mãos no rosto quando o primeiro soluço sai dela. Abriga em mente que talvez Yuri esteja cansado, queira virar as costas e nunca mais voltar, que ele permanece porque é educado demais para simplesmente rejeitá-la. Acabar isso deve ser a melhor forma de livrá-lo dos meus problemas. Um contraste ao perceber o afago nas costas dela, a busca por desconstruir o refúgio dela para secá-la o pranto. Porque ele não é frio que nem ela. Porque ela realmente não merece ele.
Os polegares dele estão gelados e o beijo que deposita na têmpora dela é alentador como deitar em nuvens. Briar a puxa para frente ao entrelaçar os dedos nos dela, guia-a ao vaso sanitário em intentar acalmá-la. Não pensa duas vezes antes de ajoelhar-se diante dela, soltando-a para conseguir limpar a face úmida de uma melhor forma. Estendendo-se para ficar na altura dela, os dedos migram para as coxas dela quando apreende que trilhar desenhos desconexos a induz ao relaxamento. Então a destra dele envolve a nuca dela e puxa-a para o ombro dele, a testa encostando-se por ali antes de se sentir confortada. Ele é tão quente. Os soluços dela contornam os azulejos e tornam-se um amontoado de fungadas e tremulares. Yuri corre os dedos de cima para baixo no pescoço dela, deixa que ela envolva os braços ao redor dele.
— Desculpa, Yuri.— a declaração vem toda cheia de falhas e estridente. Fiona não aceita. Quer parar e não consegue.— Eu não queria chorar. Eu não quero atrapalhar você. Me desculpa.— o tecido da camiseta dele mergulha nas lágrimas dela. Pendendo a cabeça para o lado, as têmporas deles encostam-se, ele a embala na medida do aperto o abraço. Briar enleia o antebraço nas costas dela e sussurra:
— Não fala assim.— é quase uma repreensão. Ele se afasta um pouco só para encostar as costas na parede. Presenteia-a com um olhar de espaço quando a convida para se aconchegar perto dele, estende as pernas para ela saber que ele está ali. A mente dela a impele a não ir, ela afasta as queixas e encara-o disposto para ela. Fiona se esquece de pensar sobre as circunstâncias: ele não está aqui por isso; ela não é importante para ele; ele não deveria estar fazendo isso por ela; eles não são nada além de vizinhos. Yuri pressiona a mão dela e parece que a visão que possui dele omite o que ele enxerga nela. Não parece que ele vê fraqueza, não parece que ele sente pena. Frost, assim, busca pelo colo dele. Por uma quentura que não costumava receber quando criança. E toda aquela proteção ao redor de si mesma desfaz. Ela encosta a cabeça o peitoral dele e lamenta enquanto o braço dele cinge-a contra o corpo. Briar acaricia-a os cabelos. Balança-se de um lado para o outro intentando pacificá-la.— Está tudo bem chorar, meu coração. Chore o quanto precisar.
Meu coração. Frost se repreende. Assente, ainda perdida.
— Dói tanto, Yuri.— ela quase se afoga na fala. Ele confirma. Derrama selares entre os ombros, o pescoço, acarinha a lombar dela, premendo-a. Não a impede de sentir.
— Eu sei, coração. Eu sei.— o meio-tom dela se esforça em massagear a desconfiança até que se dissipe, não exerce nada além de confirmar, ela vê um acolhimento e compreensão que não dá espaço ao temor no fundo do cérebro dela.— Eu preciso que você deixe esses sentimentos saírem até que a dor se amenize, ao menos um pouco.— ela enterra o rosto na suavidade dele. A pausa dela é tocável. Ele acaricia os fios dela e sente as lágrimas espalhando-se pela pele dele. Segue os conselhos. Não retesa e chora por longos minutos antes de encostar as bochechas no ombro dele e concentrar-se no formato dos ladrilhos da parede. Com o nariz entupido e o rosto quente. O cerne bate na cabeça.
Fiona passa as costas das mãos sobre os resquícios. Escuta a respiração e os sinais vitais dele dentre a contiguidade consentida. Ela olha para ele por fim, a visão embaçada pelo resto do sofrimento, ele é lindo mesmo através do ponto de vista borrado dela. Briar ainda não se cansou de limpá-la o rosto, escrutinando-a gentilmente, com tantas palavras presas na língua que o instalam em questionamento idém. As digitais dela alcançam uma mecha escura caindo pelo nariz dele em função dos abraços que estavam trocando, afastam-na sem que tenha que parar de encará-lo. Ela consegue manter uma respiração completa e pacífica pela primeira vez na noite, espera que o plangor tenha se apartado dela. Briar cola os lábios perto das orelhas dela, carrega-a para mais perto pelas coxas, sente o corpo mole contra o seu e delineia as mãos trêmulas contra a cintura dele. Eles se viram sem todas as camadas de roupas, mas não sem todas as camadas de autoproteção. Estar perto como estão chega além da intimidade que compartilharam. Assusta mais do que ela demonstra. Yuri tem a chance de decifrar as nuances e que tipo de expressões e movimentos ela tem em mãos enquanto está chateada. É um passo a mais para lê-la, um passo perigoso que também pode causar a ruína dele se não analisar com cuidado.
— Dias frios são melhores com um bom banho e uma boa comida.— Fiona se lembra das definições de bons dias frios para ele, queria resgatar a percepção de que dias como esses devem ser amenizados com filmes de duas horas sem falas, e não tem forças para encontrar o tipo de humor para proferir a asserção. Ele a oferece um banho, comida, e é dessa maneira como interpreta. Sem tentar cobrir as sentenças ou ser a Fiona que ele costuma conhecer, aquela que não ligaria para as declarações e o largaria para trás, aquela que o convenceu a esquecer que ela chorou por vinte minutos agarrada a ele no meio do corredor. Ela bebe de uma coragem guardada há muito tempo, tenta desviar os más pensamentos e deixar os desentendimentos entre os dois para outra hora:
— Posso pedir para você ficar quando eu voltar a dormir? — ele coloca os cabelos dela para trás, segue os olhos dela com uma sinceridade que dói. Assente, e ela aceita, mesmo sabendo que vai atrapalhá-lo. Faz uma decisão mental para mais tarde.
— Eu só vou embora quando tiver a certeza de que você está melhor ou quando você me pedir para ir. E se isso for daqui a vinte dias ou um ano, eu continuo aqui com você. Eu fico. Hoje. Amanhã. Semana que vem. Quando você quiser. Sem pedir nada em troca, meu coração. Sem um pedido de desculpas. Só por estar perto de você. Eu fico.— ele revolve à devoção que Fiona aprendeu a desconhecer, porque sabe como é fácil desviar sentimentos singelos de pareceres mélicos. Ela resolve escutá-lo como um bom vizinho. Em contrapartida, anela que poderia ser ele um melhor amigo e, porventura, seu romance. Fixando-o, parece que ela é a única coisa que ele quer enxergar agora, apesar de fisgar poder se confundir em noventa por cento das vezes. Agradecida, Frost tem a sensação de que ele é um motivo oportuno para querer tanto viver mais um pouco. A sensação de que ele poderia ser um pouco mais do que só um passatempo. E de que isso também não pode ser algo demais. Ele só é bom em ajudar pessoas. Porque policiais protegem cidadãos. Policiais amparam a quem precisa. Yuri me enxerga como qualquer pessoa precisando de um pouco de ajuda.
Fiona não intenta analisar, desta vez, o porquê de vir atrás dela. Nem o fato de odiar cuidado quando direcionado a ela. Enquanto ele está ali, ela apaga qualquer tipo de asseveração. Prestando atenção apenas nele ao passo que Yuri se estende e abre o chuveiro esperando que esquente, estendendo as mãos para ele ao passo que ele se propõe a ajudá-la se levantar, não estremecendo ao toque dele à maneira que, cuidadosamente, ele a desune das peças de roupa depois de ter a confirmação de que o frio não a pegará de surpresa. Sempre verificando-a, mantendo contato visual, investigando por erros que poderia ter feito ao pedir por permissão antes de desfazer a fechadura do sutiã dela. As peças da vida dela sempre estiveram tortas ou desencaixadas e o acolhimento nunca foi mais do que uma idealização, até o momento. Ela não sente medo e desconfiança, mas acolhimento, Yuri causa isso nela. Causa com tanta força que ela mal percebe estar no chuveiro até que a água quente atinja-a às costas. Com ele à frente. Pés descalços, sem camiseta e com a calça jeans que ela sabe ser alguns números maior do que ele. Que talvez seja cara o bastante para não se molhar em água quente. Ele mal se importa quando divide o chuveiro com ela e os pingos respingam na peça de roupa.
Frost escora-se nele em uma conduta enigmática de retribuição. Ele contorna a fisionomia dela em uma tenuidade que ocasiona-a torpor. Talhe de tenuidade que elucida e ilustra a benevolência do amor romântico em estágio tão somente lhano. Talhe — em razão de ser a única a discernir. A iminência por enlaçá-lo, situar-se limítrofe sem que seja a regra estarem embaraçados, anseio incoercível de dialogar com ele, aprender da vida dele, vasculhar cada miudeza dos hábitos dele como não tencionava há meses. Consternação que inunda de fio a pavio por não tolerar se esgueirar para um recinto longínquo, que o propiciou visitá-la como inconscientemente sempre quis. Intempérie hediondo, mal-comportado, periculoso, tenaz em perserverar impérios adentro dela. Ainda que Fiona não queira e esteja, relutante, disposta a entregá-lo à Chloe. Ela o merece mais.
— Você está bem? — ela percebe que desligou por alguns segundos antes de deparar-se com os olhos dele buscando por uma resposta dela, as mãos firmes na face dela e a água que deveria entrar nos ouvidos escorrendo pelos dedos dele. Enxergar os vidros embaçados é o informe de tempo corrido. Pensando nele. Não acho que você deveria cuidar de mim, é o que ela formula. Mas o que, seguido de um tremor, escorrega pelos lábios dela é:
— Dor de cabeça.— ele assente, as meias verdades dela atingindo-o. Briar posiciona as digitais na testa dela, segue uma massagem ao fim do nariz. Fiona deveria achar meio ridículo, mas funciona, de alguma forma. Ele se afasta um pouco, pega a esponja dela em mãos.
— Depois que você comer...— a frase dele ganha uma interferência pela frase pausada no momento em que estende a mão para molhar o sabonete e esfregá-lo na esponja. Ele aproxima-a dos ombros dela e, antes de prosseguir, pede uma permissão silenciosa — ainda que tenha decorado todas as marcas dela por tê-la visto nua quase todos os dias nos últimos quatro meses — respondida com um assentir de bom grado.— Posso te dar algum remédio.— o contato visual perdurando mais do que nunca agora. Ele começa pelos braços dela, ainda com a leveza que nenhum homem que conheceu parecia saber usar. Fiona murmura, um murmúrio de confirmação. Há aquele parecer secreto de que esta é a primeira vez que ela não se sente inútil por receber ajuda. Quando Yuri limpa a nuca dela e passa o sabonete pelo colo e pela barriga dela, a inutilidade não passa perto de ser uma coisa. Um respeito mútuo se instala entre eles quando ele continua entre verificar o estado e ajudá-la a se limpar depois de uma crise de choro. Esfregando as costas dela, ele toma cuidado para que os cabelos dela não fiquem encharcados, os dedos acabando nos pés momentos depois. Ela se enxagua, uma olhada rápida nele a fazendo perceber como as manchas de água aumentaram no tecido da última peça de roupa visível que ele tem.
— Nós podemos dividir o chuveiro.— ela se aproxima, sem nada de intencional, apenas a voz rouca pelo pranto.— Você tinha acabado de chegar de viagem ontem à noite.— não tem nada além de agradecimento na oferta dela. A ponta do nariz dela ainda abriga a vermelhidão característica da mágoa. Ele quer deixá-la descansar o mais rápido possível.
— Não quero incomodar...— como quem diz quem precisa de cuidado é você, não eu. Ela balança a cabeça. Quase chega a tocar os braços dele ao olhar para cima.
— É só uma troca justa. Você está aqui quando poderia estar em qualquer outro lugar.— as mãos dela levantam-se, para buscar por ele. Ela recorda não precisar ser tão invasiva em tocá-lo. Yuri a encara por um bom tempo antes de decidir se despir dos únicos tecidos que tinham nele. Ela se desvia para poder dar espaço para ele entrar debaixo da ducha; Briar não gosta de pensar na última vez em que eles partilharam um chuveiro, quase toca o enxovalho outra vez antes de ter uma única coisa tirando-o das memórias. Fiona coloca um pouco do xampu dela em mãos e ele não consegue se impedir de sorrir. É a mesma marca com um monte de consoantes que ele encontrou depois de, à toa, maquinalmente, tentar adivinhar o cheiro do cabelo dela ao passar em perfumarias ou o mercado caríssimo no fim do centro. Yuri estende a cabeça para ela de prontidão, engolindo a felicidade quando ela volta a vê-lo.
— Estava sorrindo? — ele fecha os olhos. Frost, por fim, escorrega as pontas dos dedos nos fios escuros dele, espalhando o xampu pelo couro cabelo, sem demorar para fazer espuma. Yuri tem os cabelos mais macios do mundo e, mesmo que ela já tenha colocado as mãos nele, agora parece diferente. Ele abaixa um pouco a cabeça para ela continuar o trabalho, o cheiro de baunilha e cereja prendendo-se às narinas dele e rebobinando todas as noites que acabavam com ele demorando-se nesta fragrância tão imersiva. Às vezes, quando ela permitia, ele a apertava contra o peito e relaxava na respiração ofegante cruzando com a audição dela. Um minuto e meio a mais que não pareciam nada para ela, e para ele era o presente. Memória. Calor. Pertencimento. O ato de estar e o ato de ficar.
— Gosto do cheiro do seu cabelo. Então eu fiz apostas comigo mesmo: senti o cheiro de cada xampu de baunilha e cereja que encontrei por Berlint.— Briar admite, manso, esperando que possa tirar dela algo além de soluços dolorosos, os olhos ainda fechados ao deixar a água cair na cabeça.— Esta marca foi minha conclusão final. Agora eu tenho certeza.— ele a analisa sob a pálpebra esquerda, abrindo-a. Fiona quase cruza os braços, não ri ou arregala os olhos, em vez disso morde os lábios em um riso imperceptível, sinalizando para que ele se vire antes que ela tenha vontade de beijá-lo.
— Você deveria ter simplesmente perguntado.— as unhas dela encostam-se na nuca dele suavemente, logo substituídas pela esponja.
— Desafios combinam comigo. E você não responderia. Posso descobrir coisas sobre você sem perguntar: você gosta de café, de framboesa, filmes do Fritz Lang, de canela, de azul e rosa, mais de ler os seminários do Lacan do que Ferenczi...
— Você não tem certeza disso.— ela interrompe, quase mesmerizada. Frost não acha que tenha prestado tanta atenção nele assim, para além do explique a natureza da necessidade inevitável que ele tem de agradar a todos.
— Não tenho. Mas não estou errado, ou estou? — o suspiro dela chega aos ouvidos mesmo com o barulho da água.
— Não está.— ele se torna para ela mais uma vez, piscando antes que ela possa fazê-lo virar as costas. Ela pensa em responder algo a mais antes de ter o vislumbre da pele dele por um momento; Fiona não se impede de aproximar-se, de tocá-lo.— Ei.— o tom de voz e o assunto transformam-se depressa, ela passa os dedos delicadamente pelas costas dele, traceja um lugar que ele sabe bem qual é.— Por que essas cicatrizes? — aí está. Ela percebe que conhece o corpo dele de uma forma tão rasa quanto o que eles têm. É mais sobre que reação ele teria ao contatá-lo e não um mapeamento que a viabiliza reconhecer por onde ele andou. Yuri não hesita em explicar:
— Tinha acabado de fazer dezoito anos quando entrei no exército. Agir como adulto ainda não fazia total sentido para mim. E eu nunca tinha ficado tanto tempo longe da minha irmã. Não poder falar com ela me deixava maluco e eu era um bebê chorão também. Escutar meus veteranos sempre me levava a cair nas piores brigas possíveis. Eu quebrei o braço de um deles antes de resolver parar. Meus pais e minha irmã não gostariam que eu fosse violento com as pessoas ao meu derredor.— ela assente sem que ele possa ver, termina de ajudá-lo a se limpar, deixa que ele esfregue os próprios braços e pernas e o arrasta para trocar de lugar com ele no chuveiro. Fiona está na frente dele agora. Yuri fecha os olhos ao se enxaguar e, em uma forma de impedi-la de voltar aos pensamentos silenciosos, ele continua: — Eu tenho uma na cabeça também.— é uma curiosidade dita com um sorriso, mas ela quase franze o cenho. Ele se afasta da ducha para vê-la com uma feição curiosa, as batidas cardíacas sobressaem-se com representação de uma das poucas reações que ele conseguiu tirar dela. Briar desliga o chuveiro, pega a toalha para embalá-la no tecido. Ela verifica-se do lado de fora antes de expelir:
— Você pode me contar sobre isso. Se quiser.— Frost o perde de visão, seca os pés e se vira para vê-lo longe de pisar no tapete. Ela levanta os dedos, graciosa como costuma ser, os olhos ainda um pouco vermelhos, chacoalhando os órgãos dele por um terço de minuto, e diz: — Só... Espera.— ele pode vê-la correndo pelo quarto, enrolada na toalha e um pouco afobada como se ansiosa para escutar a anedota dele, o que o alastra alívio por cumprir o afastamento de uma ínfima parte do luto dela. Briar está secando os cabelos com uma toalha de rosto e com as solas pingando no chão quando ela oferece uma toalha azul-escura e limpa para ele. Tem o cheiro dela em sua mais intrínseca forma. Não é baunilha nem cereja. Há notas de jasmim que denunciam o amaciante que ela usa para lavar as roupas. E é neste segundo trivial, com ela, no quarto dela, com a toalha dela, no banheiro dela e o cheiro dela, que Yuri se permite experimentar a sensação doméstica e íntima com a qual ele esteve sonhando nestes meses em que vinha destramando o sentimento que geriu por ela. Fiona fica parada como se esperasse aprovação dele. Ela já está vestida com calças cinzas e uma camiseta maior do que ela também cinza. Isso o faz repensar que talvez ele ame cinza se isso significar que ela estará vestindo-o.
— Você... Vai buscar suas roupas? — ela diz baixo, estancando a forma como ele provavelmente ficou piscando tal qual um idota, talvez interpretando o medo de ele sair e não voltar. Yuri coça as sobrancelhas, não encontra muitas sílabas ao admitir o que esteve querendo.
— Minha mala... Está na sua porta.— Frost quase estranha. Demora a perceber que ele provavelmente nem pegou as chaves da casa dele em mãos. Ele amarra o pano na cintura à medida que as perguntas chegam à cabeça dela. Ele não foi para casa. Não sabia o que estava acontecendo. O que tinha para falar para ela pretendia durar menos de vinte minutos. Um assunto tão curto que o impedia de ir para casa apenas poderia ser...— Eu... Só queria, precisava, ver você.— Briar a estarrece. De corpo inteiro ali na frente dela. A franja irregular arrastando-se aos olhos dele; Fiona tem as mãos ao lado do corpo, desmonta a parede que tentava erguer entre os dois mais uma vez.
Fiona sabe que não deveria deixar isso se infiltrar nela. Baixar tanto a guarda, mas desta vez, só desta vez, consente os ombros caírem e o corpo amolecer, guardando tudo o que tem de ruim para depois, não querendo estar errada por uma noite. Esperando que não seja nada. Rogando para que não seja nada.
Mais do que bem-querer, ela, dentre esta asserção — "Só queria, precisava, ver você" — conceitua o reconhecimento com um atributo jamais inserido na rotina dela. Algo tão bom que ela preserva e não precisa desencadear.
Pelo menos não agora.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ
Os instantes antecedentes tampouco converteram-se em inquéritos opressivos. Ela se desloca em consonância com as passadas dele, ainda ensaiando surrupiar calidez e encostá-lo em incidente ao acender a luz. Os cabelos dele alumiam umidade e, quieto ali, ela contata a indagação de quando passou a vivê-lo com a perspectiva de agora: justaposto em harmonia no ambiente pessoal dela, vestindo pijamas surrados perto dela, refulgente como noites de estio em luas cheias. Esboça agradecê-lo uma vez mais na conjuntura em que averigua-a de cima a baixo — engendrando se o mutismo dela é parâmetro para o desabafo —, porém estorva-se. Os pés dela colidem com o pelo macio de Mabuse ao que delineia atropelá-la para subir no balcão. Ela não pondera antes de aclimatar-se ao lado do felino; eles vigiam os pequenos conflitos provocados pelo desconhecimento de Yuri enquanto ela o guia para buscar os ingredientes certos nos armários certos.
Ao lecionar-se sobre o luto, ela não presumia ser capaz de vivenciá-lo contíguo, pertencente assim. Fiona matutava, sem exclusão, estágios atrás, que talvez ela pudesse ser parte da parcela da população com o mínimo de sentimentos. Porque não há nada inabalável em uma pessoa que entende como a mente humana funciona e pode tratar com calma as situações do cotidiano. À contramão, ela fez de si paciente e dissimulou as próprias elucidações. Enganou-se quando não precisava, sucumbiu neste abismo pertinaz há muito assentado como abrigo. E, por ora, não atina o que exerceria se Yuri não tivesse acordado-a com o ruído da tranca automática. Porventura tivesse ficado estirada à frente da televisão vendo os mesmos episódios de desenhos obsoletos, resguardando o pranto até que os ossos atrofiassem e ela morresse. Porventura estivesse na expectação de uma nova ligação, ou da sombra da mãe dela em meio à nevoas e um traje imaculado advinda de uma inspeção para desconjurá-la à semelhança habitual.
Depois de toda a angústia e da apresentação da alvorada, Frost ficaria encarando a conta bancária, sentindo as olheiras consumindo-a, sentada no chão encarando aquela grande quantia de dinheiro transferida para o velório dela e perguntando se valeu a pena. Ela entraria em transe com as idealizações e o discurso de Sylvia sobre não necessitar oferecer o seu melhor para quem te faz mal. Porque talvez seja uma reflexão dos seus traumas passados. Porque ninguém merece se acostumar com a forma como é tratado quando se está em desenvolvimento. Está tudo bem não sentir empatia por aqueles que perpetuaram o seu sofrimento, não voltar ou não querer contato não a faz uma pessoa ruim.
Fiona acha-se à vontade por exprimir-se na presença dele, ao menos, disposto a equilibrá-la. Proseando qualquer coisa para acalmá-la. Intentar não relembrar ou aldravar a insegurança dela não se enquadra, por outro viés, alcançar uma condição em que subsista a trégua e um pretexto profícuo para que Briar queira, inocentemente, ampará-la não se concretiza; Fiona não raciocina e nem entende o que as pessoas querem dizer quando revelam gostar de uma pessoa como ela. Ela tenta estar bem consigo mesma ao entender que não foi feita para estar em relacionamentos de reciprocidade, ademais sob a concepção um liame idealista. O cerne estreita dentre o vórtice de desprezares desprotegidos e, antes que possa resgatar, o recordar e repetir a atinge antecedente de perguntar coisas desencaixadas a ele: ela é para ele uma distração. Ele não sente o que ela sente por ele. Ela não tem espaço na vida dele. Yuri está fazendo por ela o que faria por qualquer outra pessoa. Mesmo quando... No momento em que ele coloque os olhos nela... Não seja nada mais do que um olhar comum. Desprovido de sentimentos românticos. Só com a mais pura e completa gentileza.
Gentileza. Gentileza. Gentileza. Ele está aqui por gentileza. Não é carinho. Não é nada disso. Eu posso guardar a dor e o questionamento para quando ele for amanhã. E depois seguir como quando ele disse que não queria dizer que me amava.
Briar se vira para ela, com os lábios levemente levantados. A tigela de vidro em mãos, uma colher, farinha de trigo e ovos no interior. Retornando à consciência, é uma indicação para que ela fique ao lado dele. Fiona coloca os pés no chão, desta vez Mabuse não a acompanha. Não perde-a de visão mesmo quando ela troca de lado com Yuri. O corpinho firme para não deixá-la desmoronar enquanto vigia-a. Ela analisa a parede, tentando não olhar para o vizinho dela, mas a voz dele ainda insiste em achá-la. Porque ele sabe que tem algo de errado, que não pode deixá-la tempo demais pensando nos próprios defeitos e querendo empurrá-lo para longe do que ele sabe sobre ela.
— Ele cuida de você tão bem, não é, coração? — Briar rumoreja ao entregá-la os ovos e piscar para Mabuse. O gato corresponde, manso. Yuri tira os ingredientes de dentro da tigela, incentiva-a quebrar o resto deles. Mabuse não se move.
— Ele é um bom guardião.— há uma renitência em acolher a afabilidade e a polidez dele, a emissão vocal ainda confrangida e comedida ao permitir que as gemas caiam com um barulho fraco contra o vidro. Ele busca pelo óleo e pela manteiga ao passo que ela enche um copo de leite. Eles juntam tudo em silêncio até que ela pegue o açúcar e ele coloque a farinha de trigo no recipiente. O corpo dela desvanece da perspectiva dele por alguns segundos; uma variação de posição o possibilita vê-la quieta, encarando algo que descobre ser o pote de ração de Mabuse. Fiona suspira uma repreensão baixa antes de se mover atrás da comida do felino.
Briar intercorre o vislumbrar pela guisa dela de conduzir-se, abrindo o último armário ao lado esquerdo dele para alcançar o mantimento, guiando-se à vasilha de cerâmica de Mabuse — coisa essa fina, já que ele é um gato mimado —, curvando o dorso após aferir a quantidade certa e servir. Os fios liláses beijam o pescoço nu dela como ele costuma fazer e ele não sabe, não entende mesmo, as circunstâncias que provocam a palpitação que atinge o estômago dele por um segundo. Percursos depretensiosos entregam-na tudo aquilo e de ora em diante, a seguir de partilharem o chuveiro e a angústia dela, Yuri anda ainda mais fisgado pelo fulgor que tem ela a oferecer. Não importa que ela só tenha dado dois passos e feito uma coisa simples assim. Às vezes, com ela, as coisas parecem literárias demais.
Ele pestaneja um intervalo. Mabuse não demarcava o intuito de desertar o posto de guarda-costas para usufruir do lanche da madrugada, antes jantar. Frost deixa dois tapinhas entre as orelhas pontudas que viram um ronronar pra lá de derretido antes de voltar a fazer companhia para ele. Briar preme o vaso entre as falanges, mantém as faúlhas viscerais ingerindo-o de fio a pavio recolhidas, condensadas, aglomeradas na receita envolta pelo vidro, espichado na premência por deteriorar tudo. Sabe que eu te amo? E sabe que eu amo muito? Se soubesse o quanto eu sinto, talvez eu pudesse ficar para sempre? Pode deixar que eu faça parte deste tipo de rotina mesmo quando significar a perda?
— Eu não era o mais disciplinado.— ele começa, impedindo-se. Ela ladeia a cabeça para vê-lo, e antes que a dúvida chegue, continua: — No exército.— Fiona assente. Encosta-se ao lado dele ao oferecer-se para mexer a receita.— Eu arranjava jeitos de sair escondido depois do toque de recolher. Perdia meu quépi a cada esquina. Vestia meias de cores diferentes. O que parece ridículo agora, mas era muito sério quando se tratava de se 'portar como sargento'. Eu costumava demorar mais no telefone coletivo quando tinha chance de falar com Yor. O que fazia a maioria das pessoas me odiarem, mas eles nunca tentaram me obrigar a beber vinte litros de água de cabeça para baixo, então não deviam me odiar tanto assim. em determinados momentos eu era visto como 'exemplar', por aprender rápido. Isso fazia com que os cadetes ignorassem o meu mau comportamento até um certo ponto.— quando a mistura fica homogênea, ela procura por uma frigideira. E eles ficam de frente para o fogão. Yuri liga o fogo e deixa a panela vazia antes de gracejar e explanar: — Aí eu cuspi no sapato de um coronel.
Frost investiga as pilhérias alastradas no tocante à expressão ridente, e a forma como o maxilar dele se tenciona não indica nada muito bom. Os músculos dele petrificam. Ela pressente o frêmito escalando os pulsos dele. Concede-se, por conseguinte, aprumar os ombros e consolidar uma observação.
— Não precisa sorrir.— é mais um comando, benevolência ao mecanismo de defesa dele. Ela se desapega dos próprios obstáculos e se concentra em encerrar o obstáculo dele. Condicionando-se para a entonação que manuseia com os seus pacientes. Ele não indica distinguir o impacto instintivo, relaxa em um ímpeto. Ela espalha a massa de panqueca na panela quente em função da distração dele. E, esperando-a cozinhar, ela o escrutina.— Você não está tentando me agradar e essa não é uma situação de estresse social. Eu não quero rir dos seus traumas. Somos só eu e você.— ele quase testemunha o em torno, embora ela não indique, e capta a supressão de sonidos. Fiona examina a expressão, o fitar enfocado no lampejo particular que povoa a perturbação, ao emitir: — Para de apertar seus dedos assim.— Yuri se sente bem com a observação. E ela para de olhá-lo. Coloca a primeira panqueca em um prato e continua o processo.— Se eu não te olhar, você se sente confortável? — ele balança a cabeça, ela quase não vê.
Ela é tão cuidadosa.
— Eu gosto quando você me olha.— é difícil prosseguir com a admissão. Briar experimenta que esta é a primeira vez que têm uma comunicação limpa no que se refere dizer o que preferem e querem ou não. Ela coloca a segunda panqueca no prato, revolve-se, encara-o.— Eu ainda estava no fim da puberdade. Me achava exuberante demais para um pirralho que quiçá tinha um músculo aqui e outro ali. Eu lia demais para o meu próprio bem; lia, inclusive, livros que não eram permitidos naquela área por serem persuasivos demais: você não deve ensinar moleques sendo formados para invadirem territórios o quão ruim é invadir territórios. E, juntando a minha força de vontade para me esgueirar pelas áreas proibidas da biblioteca e uma língua afiada, me sobrou o senso de justiça e uma vastidão de questionamentos. Óbvio, culturamente tem todo aquele ritual de humilhação imposto pelo exército. Eu nunca lembro em detalhes o que me levou a fazer o que eu fiz, mas tinha um garoto recém-chegado e desengonçado do seu próprio jeito que estava com os cabelos desalinhados, fora de corte, e um botão da farda estava no lugar errado. Eu entrei em discussão por algo a mais do que só o sermão feito para o garoto. Lembro de ser consumido por uma raiva desconhecida ao chamar o coronel de inútil.— ele não continua, Fiona entende ser os efeitos de reviver com palavras imagens que reprimiu por, provavelmente, diversos anos. Briar parece estagnado, volta a apertar os dedos como ela tinha impedido. O maxilar tenciona até que ele consiga recuperar um estado aceitável e controlar a respiração disparada adjunta do estômago revirando.— Tinha uma sala muito escura. Eu não sei quantas pessoas me bateram, quantas vezes meu crânio encontrou a viga de metal ou quantos chutes eu levei nas costas, no pescoço, no rosto, mas eu me arrastei por um bom tempo antes de... Voltar para o treinamento. Não faço ideia daquele fim de tarde. Fiquei internado por alguns dias e a minha memória se confundia entre antes e depois de eu perder meu pai. Eles disseram que eu não podia contar para Yor, me deram um contrato para assinar, nada de notícias ou denúncias, um segredo de estado que preserva a dignidade de todos aqueles comandantes. Nos dias em que voltava para casa, usava todo tipo de agasalho para esconder os hematomas. Depois eu voltei, mais revoltado do que antes, mas eu não fiz mais nada além de deixar o cabelo crescer para esconder. As noites se intercalaram e eu não quis me destacar pelo meu próprio conforto. Yor precisava de mim ajudando em casa e sair não era uma opção.
Ao ultimar, o semblante estabiliza-se à prateleira ao fim do corredor, as costas encostadas na pia dela. Yuri abandona o oxigênio, larga-o esvaindo a duras penas pelas narinas, sorve acidez, exasperação acimentando-se nas espaldas dele. Ela emudece, perspetivando-o de perfil. Era decorrente lidar com este tipo de relato. É que não tinha nenhum vínculo com as pessoas anteriores. E, escapando do código de conduta, quando as íris dele anuviam, Fiona rastreia o ponto de equilíbrio dele para aduzi-lo à concretude. Não pondera afirmação genérica alguma além de sentir as injúrias que repartia com ele permutarem-se em injúrias dele repartidas com ela.
— Você... É a primeira pessoa para quem eu falo isso, Frost.
Os vocábulos perecem e fenecem e falecem nos lábios dela.
Ela teria de conservar-se filtrando a avença dele, do contrário se arrevesa. Delonga um ínterim ao soltá-lo as mãos, as palmas ajustadas às dela em um bailado tênue. Sonda quaisquer discursos de refrigério e prossegue em ausência. Concorda, expectando articular mais do que controla e do que atinge.
— É um... Bom sinal.— significa que você confia em mim? — Para algumas pessoas, reviver períodos difíceis pode fazer bem quando externados através de conversas. Fazer piadas, reprimir memórias ou não dar a devida atenção a elas pode ser perigoso. Fale para alguém que você confia na próxima vez que quiser descarregar esta carga emocional. Isso vai te ajudar a reconhecer com algo melhor que desespero.— a voz dela não sobe o tom. Não tem coragem. Solta-se. Liga o fogão outra vez. Espera que ele raciocine o discurso dela.
— Posso voltar sempre para você? Te contar a mesma história quando eu lembrar de algo? — ele toma o lugar dela na função de fazer panquecas, desvia o olhar assim como Fiona. E ela, perdida, responde baixinho:
— Se você quiser.— ela finge que tem algo de interessante em olhar para a mistura homogênea dentro da vasilha. Não sustenta a intimidade de agora há pouco.
Em vez de continuar cozinhando, Yuri se acerca. Mais moroso do que o arquitetado. Frost matuta do retorno à normalidade deles porque ele vai beijá-la e aquilo definhará no áspero e amargo axioma sobre eles. À contramão, o que, com efeito, experimenta são os braços dele rodeando-a. Briar inclina-se, jaz a testa no ombro dela e ela... Ela se abriga, ligeira, ligeira, uma exigência sem-fim. Sente o almíscar de baunilha e agaturra-o a cintura efêmera, instantânea. Trocando acolhimento, alicerçando-o mutuamente como não decorria vezes como estas. Reteira a inspirar a fragrância dele, cautelosa, que tem até um pouco dela e ele aparenta, também, o lar dela. Em segundos, enquanto ela o aprisiona, embarga, ele almeja à declaração: "Eu sou seu. Só seu. Aqui. Agora. Para sempre. Você é minha também?" Até que ele deite a cabeça no ombro dela e os dedos dela busquem de imediato acariciá-lo e aquelas traiçoeiras palavras se fazem presentes: "Eu te amo. Eu te amo tanto, Fiona."
Há uma oscilação ao afastar-se. Querendo voltar a dormir. Querendo, mas não precisando, que ele vá. Um desvio pelo próprio bem, retirando o apoio dele da lombar dela e coagindo-se a não entrelaçá-lo. Transferindo dois passos para trás. Semelha uma perda completa ao que ela abaixa o mirar e esfrega as mãos nas coxas. Fiona se recompõe. Ladeia a própria face. Um momento pequeno de distração, é a nomeação do aconchego vigente.
— Você pode continuar... Com as panquecas.— Fiona interpreta uma programação digital ao indicar o fogão para ele. Yuri confirma. Tenta não pensar na estranheza. Aproxima-se da frigideira outra vez. Vê ela virando as costas e pensa em dizer algo ao que anda até a geladeira para buscar frutas. Frost desiste de dizer que faz isso porque sabe que ele não gosta de canela. Adaptar-se aos gostos de alguém é intimidade demais, também.
O escrutínio das reticências clamorosas exora por uma estilha de solicitude. Ao montarem o prato no vão da taciturnidade. Ao remexer, espicaçar o lobo frontal esquerdo uma ou duas vezes para divulgar algo a ela e renunciar. Ao, reflexamente, cortar as panquecas dela — espatifando a exígua lonjura entre eles — em um fluxo de brio intempestivo e ela ficar atônita. Briar demora a perceber. Eles se encaram até que ele solte os talheres com um barulho fraco.
— Sinto muito. Eu nem perguntei se...— ela balança a cabeça. Queria, mesmo, ser açúcar para derreter sobre ele sem ter explicações; cortar os limites entre os dois e apertá-lo entre os braços a ponto dos ossos dela quebrarem; enchê-lo desses beijos de agradecimento que fazem-na mergulhar em esquecimento sobre a aflição perpetua no cerne. Enunciar a ele o esquecimento de quem é e o que merece como se ela fosse uma pessoa íntegra, feita e feliz sem todos os problemas constantes à volta dela a contar do tempo em que ele está. Frost tateia as próprias clavículas antes de se manter sã, pisca e engole em seco.
— Eu... Não estou acostumada com alguém colocando meu prato. Não tem problema.— ele confirma. Então aproxima o garfo da boca dela, um pedaço significativo da receita deles.
Fiona acata, acata por apetecer ademais deste desvelo: ela apetece os gestos amistosos, a calidez, o aspecto de atendê-la agora. Anela ter essa íntegra vagarosidade, e apreço, e diligência, sem fim à vista. E, estruturando-o sob os ápices em que a cognição dele centra-se além da aparição dela, aferrolha as sílabas: "Eu me importo com você, Yuri. Obrigada por me entender. Por me contar as coisas. Por ficar aqui.", reveza-as por um elementar e sossegado contato que a propulsa a entrelaçar os dedos nos dele.
Não cobiçando o discernimento das circunstâncias que o fizeram vir.
Em uma iniciativa infeliz de empunhar-se a ele e não vê-lo ir.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ
Acima da cabeceira, o relógio sinala cinco e cinquenta ao forrar os cobertores sobre os lençóis dela. No exterior, as ramagens alaranjadas ajustam-se em montículos acanhados sobre o pavimento, dirigindo-o ao alerta de que a invernia ascenderá de antemão ao fechar a janela, a resistência do Sol em emergir embora o horário comercial esteja iminente. Ela escova os dentes, solidificando-se no batente para aguardá-lo. A idealização preexistente comparece com asserção de que a presença dela parece estar em cada particularidade ao desligar as luzes: os cômodos mergulham em tons de marrom, azul-escuro e o matiz mais claro de róseo, em complemento ao cheiro do amaciante e dos produtos de beleza, ruindo como uma realização sobre o topo da cabeça dele. O som do interruptor a tem parada, encarando-o sobre uma escuridão mais confortável do que medonha. A ausência da cintilância matutina substancia isso.
Fiona se oportuniza direcioná-lo ao colchão, pisadas deliberadas e a evidência do acompanhamento dele. Ao derramarem-se acerca de travesseiros, depois de remédios e chá de camomila, que não condiziriam com ela se não estivesse ebulindo de lassidão corpórea e psíquica, ele ordena-a e aconchega-a com as mantas dela. Yuri deita-se do lado direito e não manifesta ao ceder que ela respalde a cabeça no imo dele. Soa acolhedora a contiguidade. A interação de energia térmica. O cafuné alentador para amainá-la. Fiona ainda não acha o porquê de ele estar aqui com ela e não dormindo em um hotel no litoral, com Chloe. Divertindo-se com ela, perto dela — sem tê-la sugando sua energia —, exalando todo o lustro e alegria e piadas que ela tem.
— Você pode ir embora depois que eu dormir.— Frost não valoriza os entraves interiores. Insistir em não se preocupar não adianta de nada. As resoluções e os nocivos indícios anímicos intimidam-na a desamarrá-lo de comprometimentos que não careceriam de serem dele, no remanso lúgubre do arremate das cinco da manhã. A calidez dele permeia-a pelas bochechas, e ela se sente ludibriada por si mesma quando essa sensação atravessa o aconchego e consente a experiência de uma sonolência dissipada há alguns minutos.
Há uma lacuna plácida. As nuvens sobrecarregadas rasteiam pelo céu com gradação de procelas acercando-se.
— Você quer que eu vá? — Yuri sibila. Os músculos dela entesam. Ele pleiteia uma decifração e ela subsiste em inércia. Enrola as falanges na quentura do colchão, retrucando à altura:
— Não. Eu quero que você fique... Aqui. Perto de mim.— ela não teria de. Yuri afaga os cabelos dela, perpetua as falas prévias, esclarecendo que faria isso quantas vezes precisasse:
— Eu não vou pedir nada em troca por cuidar de você, Fiona.
Por quê? Por que quer tanto cuidar de mim?
— Eu sei.— ela alteia a mirada. Mantém os dígitos na camiseta branca dele, o pavor de resvalar em soluços, em melindre, outra e outra vez — Mas você tem as suas preocupações, 528. Você tem os seus problemas, não é? Eu não consigo enxergar um momento onde isso seja justo... Não é da sua conta. E se... Você não quiser estar aqui, eu entendo.— Frost figura aterramento ao encerrar. É justo e é da minha conta e porque eu quero cuidar de você e porque eu preciso te ver bem. Não é relatado. Briar não recupera o apánagio de espalhar este encargo no colo dela enquanto a desestrutura engole-a os órgãos. À contramão, oferta a ela a comodidade. Agarra-a a cintura. Puxa-a para mais perto.
— Quero estar aqui. Quero que seja, também, um problema meu.— ele não encaixa os porquês. Ela se cala, sente a comida do estômago revirando-se. Frost pisca algumas vezes antecedente de desviar o olhar dele. Sem abandoná-la em uma entrevista com o obscurantismo do alquebramento, ele desenha mais círculos nas têmporas dela, afundando-a na próxima afirmação. Ele inicia uma anedota.
— Minha vó era péssima com a minha mãe, mas acho que isso nunca a fez ser péssima.— ele traça constelações nos cabelos dela e ela se aconchega mais contra ele, concentrando-se na trepidação da voz instalando-se nos ouvidos dela. Vogais e consoantes que viajam ao peito como uma massagem.
— E você se lembra dela? — as digitais dela percorrem a cintura dele pouco a pouco, o tecido fazendo parecer que é um rastro de fogo. Enquanto isso, Yuri solta uma risadinha.
— Impossível não se lembrar de como ela fazia dos almoços de família um inferno. Feriados com ela são fragmentos dos três até os seis anos que eu lembro com uma nitidez anormal. Ela era absurdamente colorida, mas cada palavra que saia da boca dela mais torturava do que trazia alegria.— o relato dele traz uma calmaria que torna os batimentos cardíacos dela menos apreensivos. Ele fica em silêncio por alguns minutos, formulando as expressões corretas, acariciando-a, aconchegando-a.— Ela faleceu em uma sexta-feira fria de um inverno mais frio do que o normal. Minha mãe derrubava rios de lágrimas e eu me perguntei, pelas próximas semanas e até a data de sua morte, como e por que chorar por alguém que não a amava como filha? — ele traça a textura do teto com os olhos, por instinto, mas não encontra nada de anormal na escuridão. Uma mania ruim de procurar qualquer entidade que seja, para ver se sente algum tipo de medo, mesmo que isso nunca aconteça. No exército ele costumava pensar que seria bom ser assombrado, ter a alma retirada para se tornar ignorante ao que acontecia em volta e, assim, não sentir as dores de si próprio e de seus colegas tão intrinsecamente.— Alguns dias antes, lembro do nosso último almoço em família. Minha vó disse que pediu a deus para ver a própria filha morta antes de dar à luz. Minha mãe não disse um ruído sequer. Nós levantamos da mesa, fomos embora. Aquela foi a única vez que eu vi meu pai dizer que não queria mais vê-la perto daquela mulher. Ela não contestou, assim como no velório. Não chegamos perto de prestar condolências.— o coração dele bate como um coelho saltitante, e depois desacelera — Às vezes ela passava madrugadas a fio chorando em silêncio. Eu lembro de saber que tinha algo errado e abrir uma fresta da porta do quarto deles para encontrá-los do jeito que estamos agora, meu pai ajudando-a amparar-se. Um apoio simples, algo que balançava algum tipo de diferença nos dias difíceis de prosseguir.
As citações evaporam ali. Ele cerra as pálpebras, assim como ela. Sorve daquela pressão específica no tórax e das mechas dela, ademais meio orvalhadas, triscando o queixo dele. Frost motiva as unhas assomarem aos braços dele, a contestação de que ainda está acordada.
— Até os meus quinze anos eu ouvi meu pai dizer o cuidado é a melhor forma de presentear alguém.— poderia ser uma finalização, um enigma para as pistas de onde principiam e totalizam as ideias dele. Briar desata transmitir, não por completo, aquilo que ela deveria possuir constância: — Você estava lá quando eu pedi. Fez uma viagem de cinco horas de carro comigo. Fingiu ser minha noiva para eu não magoar minha irmã. Te amparar é o mínimo que eu posso fazer por você, ainda que como um passatempo ou um vizinho de porta, Fiona.
Ela se aproxima um pouco mais com a declaração dele. Levanta a cabeça.
— Yuri.— a voz dela estabelece. Ele mesmo não diz nada, mas ela sabe que deve continuar. Fiona esbarra nos próprios pensamentos e o sono que a consome irrompe uma batedeira pra lá de acelarada no peito dela. Os pensamentos dela estancam, barrados por aquelas íris em tom de paixão que a prendem desconexa, viajando entre um sim e um não incerto. Os minutos passam com ela não arranjando algo para se conter e eles quase não pensam em se mover. A palma direita dela encontra a ponta dos dedos dele subindo até ali, os rostos próximo demais quando ela coloca os cabelos dele atrás da orelha para vê-lo um pouco melhor entre a escuridão. Ela não deveria, mas ele faz parecer simples cuidando dela assim.— Eu te...— "Não leva a sério o que eu disse no chuveiro, tá?" Ela engole as palavras, um erro que conserta sem nem pensar duas vezes. Devo estar maluca.— Eu...— ela pigarreia na própria mágoa, as mãos começando a suar, essas que são afastadas dele de imediato.— Eu te acho cuidadoso. Você é prestativo. Prestativo comigo. Com todos... Eu acho, quer dizer... Isso é admirável. Obrigada.— ele resolve convencer a si mesmo de ter escutado algo errado quando não questiona. Tem certeza de que criou toda essa ilusão porque era o que queria que ela tivesse dito. Ele finge que o coração não está descompassado, decepcionado, e ela finge que não ia cometer mais um de seus inúmeros erros. Eu não sou o tipo de pessoa que ela amaria?
Yuri contorna a situação para acabar com os gritos dentro da própria cabeça.
— Você é desajeitada quando se trata de elogiar.— ele solta um riso baixo, empuxa ao precipício como ele pensou que ela iria dizer aquelas palavras. Ela fica envergonhada. E o meio-tempo em que passa procurando consolos é o suficiente para Mabuse deixar as patas afundarem com barulho no chão de madeira, comprovando a própria presença. No breu, as únicas coisas visíveis nele são os olhos grandes e verdes contrastando com as orelhas em branco e preto.
— No sentido ruim? — Fiona o olha e ele sonha com isso virando uma rotina. Fantasia, nesses pequenos segundos, com a conversa que eles vão ter quando ela estiver melhor e não o que ela vai fazer com a presença dele assim que o luto passar. "Sei que não estabelecemos nada e talvez nem nos conheçamos direito, mas eu estou preso a você de todas as formas, coração. Eu não menti quando disse tudo aquilo. Eu te amo. Eu quero e preciso ficar com você. Não preciso de Chloe nem de mentir sobre os meus sentimentos. E se... Você realmente não quiser ninguém na sua vida..." Briar desiste. Não.
— Você nunca me disse algo que parecesse com um elogio. É como se você estivesse juntando informações para me dizer isso agora. E isso te faz...— ele desvia o visar para ver Mabuse encarando-os na escuridão.— Te faz tão sincera, Frost.— ela não responde, manda mensagens inaudíveis por outro lado. Ele deslinda o relaxamento do corpo dela, a forma como ela prende os lábios entre os dentes sob a luz fraca de uma janela minimamente aberta. O assunto finda quando voltam toda a atenção para Mabuse e suas orelhas pontiagudas.
— Você sabe por que o nome dele é Mabuse? — ela pergunta baixinho quando Mabuse aconchega-se entre eles e os dedos de Yuri viajam por instinto às orelhas do gato. Ele ronrona e se espreguiça, uma graça da magia felina. Briar confirma não verbalmente, assiste ela se deslocar um pouco mais para o lado e se ajeitar mais no ombro do que no peito dele.
— Dr. Mabuse, o Jogador. De Fritz Lang.— Fiona assente, estende o braço para acariciar o queixo do gato. Ele parece extasiado com o carinho duplo. Derrete contra eles em uma vibração que perpassa pelas pernas dos dois, os olhos fechados ao levantar o queixo e mexer os bigodes à proporção da consciência do carinho. Briar recorda imediatamente, as imagens dando um salto e esclarecendo repentinamente.
— Quando eu o vi naquela feira de adoção, a única pessoa que ele teve vontade de se aproximar foi você. Eu fiquei no parque, vendo-o sozinho, pequeno, trêmulo por horas inteiras esperando que alguem adotasse-o. Você estava ao lado de um cara loiro e agia como se o verão não estivesse derretendo seus ossos. Lembro que comentou algo sobre não poder levá-lo para casa e... Eu tinha acabado de descobrir que alguns filmes antigos continuavam sendo exibidos em cinemas de rua. Tinha um objetivo meio raso de assistir os filmes de Fritz Lang porque passava os fins de semana sozinha; Sylvia tinha algumas aulas semanais comigo, mas eu não pensava que ela poderia escutar o que eu tinha a compartilhar em dias livres e Loid era interessante demais para mim, mas eu não tinha coragem de falar que nós tínhamos coisas em comum e que deveríamos estar próximos. Num momento onde eu não era invasiva o suficiente para comentar o que eu estava fazendo com os meus amigos ou conversando sobre coisas que eu realmente gostava, você estava lá. Com meu ingresso na mão, um sorriso afobado, uma animação opressiva, me dizendo que você só não gostava tanto do filme que eu iria assistir porque Dr. Mabuse era o seu favorito.— ele fica estarrecido.
— Você... Se lembra, coração? — ela se vira para ele. Parece um rogar.
— Você não? — sai como se Frost não se importasse, uma frase simples, sem nem olhá-lo, uma mágoa adormecida. Yuri abre um sorriso no escuro.
— Todas as pessoas estavam de regata e shorts, mas você era a mais estilosa entre elas. Quer dizer, eu nunca vi alguém estilizar uma saia xadrez tão bem quanto você. Com toda uma curiosidade que fazia você parecer tão brava.— ela quer sorrir, mas se desvia de Mabuse para circundar a cintura dele com os braços, prendendo-o no colchão como se ele pudesse fugir. E isso o faz se sentir especial, deve ser especial ter a atenção compartilhada com Mabuse.
— Você era o único maluco com farda de inverno.— ele ri. Acaricia os cabelos dela, quase vendo-a cantarolar ao fechar os olhos. Briar tem certeza que a verá dormindo em poucos segundos, mas Fiona murmura uma coisa importante:
— Dr. Mabuse é o meu segundo filme favorito do Lang hoje.
Os dedos dela permanecem enrolando a lateral do tecido da camiseta dele, um movimento de relaxamento.
— E o primeiro?
— A Morte Cansada.
Yuri puxa o cobertor um pouco mais para cima, esconde os ombros dela e a maneira como ele a abraça por ali.
— O meu segundo é Depois da Tempestade.— ele revela, diminui o tom, as risadas.
— Hmm.— é mais como se ele tivesse acabado de acordá-la — Você tem um bom gosto.
Eles passam outros cinco minutos em completa surdina, a respiração regulando adjunta das batidas cardíacas dele, o gato ajeitando-se em um vão entre os dois e os dedos correndo pelo tom lilás cada vez mais lentamente. O Sol quase ameaça a aparecer, uma abstração inquietante surge na mente dela no início de um sono quase sem desprazeres.
— Ei.— apesar dos olhos fechados, ele ainda está bem acordado. Aperta o braço dela como um espaço para vê-la prosseguir. — Quais animais você gostava de estudar nas aulas de zoologia? — Fiona já está meio lenta. Briar não perde a oportunidade:
— Anfíbios. Salamandras especificamente. Todos os tipos delas. Mas eu sempre me dei melhor com axolotes e salamandras-de-fogo.
Frost solta um ruído que parece uma risada baixinha e embriagada. Ela não sabe se esperava que ele pudesse ser como ela em determinados quesitos.
— Sabe, Sylvia tem axolotes de estimação na sala de atendimento dela.— ele fica absorto, por pouco não deixa escapar um barulho de animação. As unhas dela apertam o tecido da camiseta dele ao procurar mais pela quentura envolvendo-o. Os cabelos dela fazem cocegas no queixo dele. Yuri não interrompe o cafuné.— Entrar lá sempre me mantém hipnotizada porque vê-las nadando em sincronia com seus rostos sorridentes me tranquiliza, parece que vejo milhares dela desempoeirando meus pensamentos depois de um dia cansativo com seus pequenos tamanhos e pequenas vassouras.— ela esconde o nariz no pescoço dele e parece que Briar encontra o paraíso. Tão concentrado no aninho dela encaixando-se perfeitamente que a revelação chega em picos espaçados, rouca, desigual: — Às vezes você me faz sentir isso, 528. Sentir que eu posso esquecer o que passei ou posso passar. Estar com você deixa esquecida, de uma forma boa, subjetiva.
Ele se pergunta se ela pode escutar o coração dele desregular. As palavras somem de imediato depois do ponto final. À medida que Mabuse afunda as patas nas pernas escondidas pelo edredom, preparando-o para servir de cama, Briar se sente vivo. Ele já se sentiu vivo, mas não assim. E fica uma dúvida diminuta. Você pensa em mim desde o momento em que adotou um gato com qual eu tive uma pequena interação? Isso quer dizer que você gosta de mim e, mais do que gosta de mim, você confia em mim, há de me enxergar além do que decide demonstrar? Há, por baixo de toda essa sua armadura, algo que você me queira revelar?
Aí ele sente a respiração dela contra ele e o suspiro que deixa o felino antes de esconder o rosto entre as patas e cair no sono.
A solidão que fingia satisfazê-lo desaparece tão somente assim.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ
É ímprobo abrir os olhos consoante do discernimento de mostrar-se lúcida. O reverberar dos trovões ao ar livre provocam-na a presumir espirais em tom de hematita agrupando-se pelo céu. As mechas violáceas que repousam sob o nariz dela apoquentam, mas não são retiradas de cena ao inferir-se confiscada pelo mormaço dele. Ela não elabora como moveram-se à posição de agora: com o braço esquerdo dela entre eles, com ela de bruços, a mão dele enrolando-a firmemente a cintura, os dedos entrelaçados ao que os cabelos dele impelem cócegas amenas, os suspiros baixos depauperando-se no pescoço e nos ombros dela. A calidez debate contra o gelo do outono e esquenta como uma canção de ninar. Os trovejares afluem um estampido mais alto ao puxar os dedos doloridos, perfaz que segurava-o para não desaparecer, e arrumar os travesseiros devagar. Ele não esperta, não ouve, o fôlego comedido por ali. Dispondo os fios teimosos atrás da orelha, o aguaceiro varre a metrópole de uma só vez, a sinfonia trilhando o quarto de ponta a ponta.
Frost deveria retornar ao sossego, consentir a cadência do temporal embalá-la, perfilhar cautela com o braço dormente dela. Caso a diminuta vibração ao lado não fosse apta para sustentar o martelo na cabeça dela operando. Ela vasculha por um recado ou ligação do pai dela, absorvendo que os rastros apagaram-se em conformidade com a transferência bancária proporcionada a ele. A certeza da situação só se fez concreta, de fato, porque os familiares a avisaram. Com toda aquela pateticidade e indiferença em perguntar se ela estava bem, se ela, como filha, gostaria de algum tipo de amparo. Não é o tipo de notícia que ela previa, não é um aviso de como a mãe dela será enterrada. Ao contrário, uma anunciação sem essência de uma rede social. E Fiona, que com escassa frequência entra em redes sociais recheadas de anúncios intragáveis e gente desvairada que ela pode reaver no trabalho, é atraída pela publicação mais frívola possível.
A princípio ela devaneia oh. E as circunstâncias atrelam-se. O melhor dia da minha vida, comparece como a legenda selecionada por Yor para o conglomerado de memórias. Na primeira foto, ela e Anya estão alinhadas em um grande sorriso e Frost sabe que o lugar para onde olham fixamente tem Loid como principal ponto. Cultiva o retrato dele correspondendo com a câmera em mãos. Na segunda, Yuri tem o braço ao redor dos ombros dela, conduzindo-a para um beijo na bochecha robusto de afago. A irmã o abraça e graceja, não refugia timidez. Há ela e Loid exibindo as alianças à proporção da nitescência do vestido. Há os quatro numa profusão exultante que solidifica o discurso de Yuri sobre serem família. Ela suporta um intervalo maior nas fotografias em que ele expõe uma contentamento díspar. Averigua o rosto magistral ainda que digitalmente e estima o âmago palpitando mesmo sabendo que ele está ao lado dela. E, por fim, a última foto.
Bagunça de faces desconhecidas e insuficiência de aprumo que, em verdade, viabiliza uma construção harmônica e visualmente estética. Ninguém está na mesma colocação, mas o centro sempre são os noivos. Anya é segurada por Franklin e, além, do lado esquerdo, ela o alcança. Yuri. Com uma fulguração irrepreensível, um riso mais e mais portentoso, íntegro para esfuziar um cômodo todo. Chloe se faz companhia. Apegada ao bíceps dele com as duas mãos, a têmpora reclinada no ombro dele. Entre avistar os lampejos impostos pelo registro momentâneo, ela prefere a ele, a fisionomia pueril dogmatizando o vínculo dela. A canhota arrimada no quadril dela, as covinhas ostentadas no conglomerado de regozijo.
Frost torna-se imbuída por uma prodigalidade de rememorações. Ah. Ontem, quando chegou afobado e com malas em mãos mão, era uma intenção clara de que não planejava ficar. Ontem, quando disse a ela que queria vê-la, ele precisava falar com ela por menos de dez minutos. Porque ele veio atrás dela, precisava vê-la, para anunciar que — que surpresa! — ele e Chloe reataram. E quando disse que ficaria, quando contou histórias a ela, quando abraçou-a, era só um atalho que se estendeu noite adentro. Para confortá-la. Porque ele não planejava estar aqui quando está comprometido, ele não planejava estar aqui enquanto ela chorava. Mas Fiona, como sempre, estragou tudo. Obrigou-o mentir, ficar, não quis perguntar porque ele veio pelo próprio egoísmo e, pasmem, quase estragou tudo ao, por pouco, dizer que ama ele.
Fiona vive um definhamento inconcusso. Habita a inaptidão. Constrange-se.
Aparta o antebraço largado na cintura dela com a placidez restante, distancia-se acautalada, sem a pretensão de desadormecê-lo. Quando arrima as solas no piso, as costelas dão uma guinada claustrofóbica ao resfolegar. Ela alisa as mãos no tecido das vestimentas e as coisas degradam ao virar-se. Mabuse estar deitado bem em cima dele apenas atribui oscilação às estruturas dela. Eles compartem um minguado local, esparramados de uma mesma maneira em espaços diferentes. O felino se camufla na coberta, oculta o focinho com as patas. Yuri tem a aparência recôndita pelos cabelos cor azeviche, esticado no colchão dela. Vem-lhe à memória, por milissegundos, de ter para si mesma, ao papearem ontem, que eles poderiam ser quase uma... Pequena família.
A apatia penetra a pele, uma advertência da sensação desamparada, um balançar de ombros mesmo sem a proximidade da janela. O tempo se agita entre nuvens e ventania, e a contar daí ela não conquista o pressentimento ou a insinuação do que programou para esta ocasião. Fiona sabia que iria chegar, o que acontece é que ela se vê em uma despreparação gritante. Os passos trespassam o quarto em direção à porta aberta depreendendo que ele não objetiva ultimar a situação entre ambos. Pelo pânico de instigá-la o pesar outra vez. "Eu só vou embora quando tiver a certeza de que você está melhor. E se isso for daqui a vinte dias ou um ano, eu continuo aqui com você. Eu fico. Hoje. Amanhã. Semana que vem. Sem pedir nada em troca, meu coração. Sem um pedido de desculpas. Só por estar perto de você. Eu fico."
O achaque a invade de súbito. As mãos resvalam pelo crânio, respingando no propósito de rasgá-lo com garras caso paralise a agonia e o queimor perdurando abaixo do esterno. Singra pelo apartamento em um desconsolo invisual tal qual estrangular e não rascunhar conformação de tornejar a libitina. Ela calcorreia à lavanderia e antes de olhar o monte de roupas que não lavou nos últimos dias, abre a janela e enfia a cabeça no ar gelado da manhã ostaniana. As gotas desesperadas da chuva quase atingem-na.
Não dá tempo para raciocinar. Frost respira pela boca como se alguém tivesse rosqueado-a dentro de uma garrafa de vidro, tosse nitrogênio, procura ser invadida pelos ruídos metropolitanos. Força os ouvidos a concentrarem-se nas buzinas altas ainda longe e menos na tormenta. Agarra-se aos gritos das crianças em algum lugar distante, uma perturbação para apagar a angústia. Ela procura por uma risada alta, o soar de um violão, de um violino, de um trompete, de um cantar. Fiona tenta sair do próprio corpo e falha miseravelmente. Escora a cabeça na tela de proteção, tenta não pensar, e falha miseravelmente.
Deixar o próprio corpo carregá-la a permite escorregar e sentar-se ao lado da lava e seca, um vão curto e frio que Mabuse se perdeu inúmeras vezes nos últimos meses — quando o espaço era novo demais para ele. As pernas dela estão esparramadas no chão e a resposta está desregulada de uma forma que a emprega certeza de que se resolverá quando o organismo dela se encontrar com ao menos dois litros de café.
Frost fecha os olhos. À contramão, em luta com os ruídos, o esforço para apagar-se, tudo o que ela consegue lembrar é dos dois últimos dias da vida dela.
Ela só desiste. De acreditar. De ouvir. De sentir.
Encara um ponto fixo na parede e estrutura os pensamentos dela. Ele não prometeu. Em nenhum momento. Ela só escutou errado. Ele não disse que ficaria como par romântico dela. Então ela decide que o que ela considerou dele como mentiras fossem só... Frases genuínas. Frases de educação. Tudo bem. Confusões acontecem. Sempre acontecem. "Você é a primeira pessoa para quem eu conto isso, Frost." Em que recinto será que limitam-se as inverdades expelidas por ele?
Ela encosta a cabeça no metal, rebobinando tudo o que ele disse para ela. Estabelecer que ela não deveria levar a sério as palavras dele era um mapeamento. Fiona entende. Porque tudo aquilo. Os apelidos. Os pedidos. O cuidado. A confirmação. Era o desejo em seu mais genuíno arquétipo. Ela estudou teses como essas por tantos anos. A concupiscência é um estágio inconsciente e apresenta-se antecedente da estrutura imposta pelas idealizações, projeções e fantasias.
Ele a vê com pena. Como alguém tão quebrada que ele precisa calcular o peso das palavras para não machucá-la mais. Frágil, talvez confiável, mas nunca a pessoa que ele passaria o resto da vida. A noite passada deve ter firmado ainda mais essa idealização. Um problema que ele tinha que resolver. Ele nunca planejou ficar. Ela deveria saber disso.
Onde está o direito dela de ter o direito de pensar que ela foi trocada quando nem sequer foi algo além de um passatempo que eles inventaram?
Cadê o direito dela, então, de amá-lo quando ele nem considera isso?
