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Amar é permitir doer

Summary:

O retrogosto do inferno fez com que toda a tenda tivesse cheiro de enxofre. Nada tinha cor, nada mal tinha forma. E mesmo quando o mundo entrava em cadência ao seu redor, era em Pomni que o os olhos de Jax se perdiam.

(ep. 8 spoilers)

Notes:

Eu precisava de um abracinho na alma depois do episódio 8.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Aquele lugar nunca havia sido tão silencioso antes. Um silêncio tão pesado que os batimentos cardíacos martelavam nos ouvidos. Os tons de cinza pareciam confundir a visão também, tudo com as mesmas cores pois nada mais possuía cores. Nada além deles mesmos. Nada além de Pomni.

Tocar a própria pele foi a forma de garantir que ainda estava ali, que ainda existia. O calor do próprio tato ao apertar os braços. Jax não soube se se abraçava como uma âncora ou como uma garantia de que sua pele continuaria grudada ao corpo. A sensação não era de dor, mas como um fantasma do frio áspero que sentiu ao ser exposto.

Mesmo assim, não tirava os olhos de Pomni. Não que estivesse olhando para ela, foi coincidentemente onde seus olhos decidiram travar. Assim ele pensou. Uma mentira na qual queria acreditar. Ele era bom nisso. Uma das únicas coisas na qual ele era bom.

Nada estava certo em naquilo tudo. Ela parecia presa na própria cabeça, os olhos fixos no chão, tentando digerir seja o que tivesse acontecido com ela. Mas Jax conhecia aquela expressão. Ela estava segurando um choro que, se estourasse, levaria longos minutos de soluço até cessar. Ele nunca tinha visto isso acontecer, claro, mas, de alguma forma, sabia.

Não ter controle era um dos piores sentimentos que existiam. Ser condicionado a situações que você não quer e não conseguir fazer nada para mudar. Por isso, foi agonizante quando seus pés se moveram sozinhos, sem qualquer permissão, para perto dela. Ele fez sem pensar e só percebeu quando já estava na metade do caminho, e isso foi a sorte dele. Deu tempo suficiente para sentar perto, mas não tanto assim dela. Não que ela tivesse notado.

Os lábios dela estavam tremendo, as mãos agarravam os próprios braços e ninguém tinha cabeça suficiente para notar o quão quebrada ela estava. Jax também não deveria ter notado. Ele tinha outras coisas com que se preocupar. Ela era parte do motivo daquele inferno. Talvez ela fosse todo o motivo. Mas quando ela mordeu o lábio inferior Jax soube que seria a gota d'água. por impulso e por um lampejo de loucura, ele sussurrou, com a voz rouca do choro que ele mesmo engolia há tanto tempo:

— Eu te odeio.

Pomni relaxou a boca e abriu um pouco mais os olhos, olhando um pouco ao redor antes de olhar assustada para Jax, como se só então percebesse onde estava e com quem. Ela sempre pareceu feita de porcelana, mas nunca pareceu tão… frágil. Mais uma vez, ela tentou digerir a situação sozinha. Por outro lampejo, ele vomitou palavras para que ela ouvisse. Se ele precisava encostar, ela precisava escutar.

— Você estragou tudo. Eu tava muito bem antes de você chegar.

Os olhos dela eram o que Jax almejava. Da mesma forma que não conseguia parar de caçá-la, queria que ela se perdesse consigo também. Queria que ela ficasse com raiva, que gritasse com ele, que batesse nele, qualquer coisa. Queria sentir alguma coisa e fazê-la sentir também. Talvez conseguisse de brinde que ela se afastasse. Olhá-la de longe sempre foi mais confortável do que ter que lidar com todo o drama e intensidade de conviver.

No entanto, diferente do que ele esperava, ela se aproximou, se arrastando no chão para um pouco mais perto. Por reflexo, ele se afastou o mesmo tanto.

— Você é maluca. Meteu a gente numa furada em menos de um ano aqui. Sabe há quantos anos eu tô aqui? E eu nunca vi nada igual a isso — e estendeu o braço para todo o caos que os cercava.

As paredes rachavam enquanto o vácuo se derramava ao redor, tudo parecia congelado no tempo e no espaço, e não havia qualquer caminho que fosse seguro seja para entrar seja para sair. Os olhos de Pomni acompanharam tudo isso, mas, mesmo assim, sua reação foi agarrar nas alças da jardineira de Jax, o puxando contra si. Ele se preparou para a gritaria, esperou ansioso para que ela estourasse em uma briga e o abandonasse logo depois, dando a permissão que ele tanto queria para se afastar sem culpa.

Acontece que a perturbação daquele rostinho de olhos grandes deu lugar a um sorriso. Não foi nada demais, só um sorriso, mas Jax enrijeceu-se inteiro, confuso como se ela fosse louca. E talvez ela fosse mesmo porque, então, as mãozinhas mornas de luvas coloridas seguraram o rosto dele com tanta delicadeza. Uma gentileza com a qual ele já não sabia mais lidar. E teve que prender a respiração quando ela se aproximou o suficiente para colar as testas de ambos.

— O que…

A pergunta foi cortada por um abraço. De novo isso. De novo ela tentava ocupar um espaço que não a pertencia. Mas ele não teve coragem de empurrá-la daquela vez. Não teve força.

— Eu fico feliz que você tá aqui.

Um calor inconveniente atingiu os olhos amarelos. Como aquilo se inverteu tão rápido? Não que ele fosse chorar, ele não ia. Ele não podia. E teria sido mais fácil se ela não tivesse continuado:

— Fico feliz que você não me abandona — a respiração dele tropeçou — Que tá sempre do meu lado do seu próprio jeito, completamente torto — ela riu e fungou o nariz, vibrando contra a pele de Jax — E fico feliz se você me deixar ficar também. Você me deixa ficar?

Jax não soube respirar, se mover ou sequer piscar os olhos até que aquelas palavras tivessem passado centenas de vezes no seu cérebro. Ele mal as havia terminado de digerir quando percebeu que havia um choro pendente dos olhos. Ele não precisava passar por aquela vergonha. Limpou a garganta e expulsou o choro como se ele nunca tivesse sido uma ameaça, rindo, soltando ar pelo nariz.

— Você realmente é maluca mesmo.

Daquela vez, não houve maldade em sua voz, mas alívio e traços de carinho, como se fosse uma confidência, assim como o abraço que ele, sob muito esforço, a devolveu.

Jax sempre pertenceu demais a ela. Mais do que ele queria, mais do que conseguia suportar. Mas ali, naquele abraço, foi quando sentiu que ela também pertencia um pouco a ele; as mãos dela agarradas ao pelo ralo, o rosto enterrado entre o pescoço e o peito; enquanto ele se permitiu envolver com os braços aquela cabeça do tamanho de um planeta, deixando as mãos se enterrarem entre os fios de cabelo negro, por debaixo do chapéu.

Se sentir exposto sempre foi um pesadelo. Entregar de bandeja todas as suas fraquezas, todos os motivos de uma provável futura humilhação. Mas Pomni era impossível de se evitar. Ela o lia e o tinha na mão como mais ninguém. E, naquele segundo, naquele pequeno infinito que cabia entre os corpos de um e outro, se expôr para ela foi se permitir descansar em um lugar seguro. Ele tentou tanto evitar, tentou de verdade… mas era tarde demais. O que restava era esperar a próxima dor que esta escolha carregava em seus grilhões.

Notes:

Abraço mútuo funnybunny cannon quando???