Chapter Text
Vou me casar.
Eduarda não se considera exatamente o rosto do estoicismo, por assim dizer. Se às vezes é um pouco áspera, não é da sua natureza. Não importa quantas vezes tente, nem quantas vezes enfrente o caos com um sorriso de canto e uma sobriedade calculada, essa não é a sua essência. No fim das contas, não passa de uma armadura. Uma que pode ser removida com facilidade, dando acesso direto à carne e ao osso. À pessoa física por trás do aço.
Pesa na sua consciência o fato de que, por baixo dos coletes à prova de balas, do distintivo e de toda aquela parafernália, ela não é mais forte do que aquela menina que costumava chorar nos braços da babá toda vez que os pais viajavam por meses. Talvez agora seja mais corajosa. Muito mais teimosa, sem dúvida. Ainda assim, Eduarda continua sensível ao toque, se quebrando ao menor sussurro de pele contra pele. Tanto que se convenceu de que seria prudente entrar em uma instituição que considera a fragilidade um pecado capital, só para engrossar a própria pele. Ou, no pior dos casos, aprender a ser uma impostora melhor.
Ele me pediu em casamento na sexta passada.
Mas, para o seu azar, no treinamento da academia de polícia nunca houve um módulo que ensinasse como lidar com uma sequência de palavras que, quando fazem sentido, doem mais do que uma bala no peito.
Então não. Não é o estoicismo da sua versão adulta, nem a sensibilidade da sua versão mais jovem, que impede Eduarda de desabar em lágrimas ao ouvir as palavras de Lorena. É apenas choque. Violento. Paralisante.
Por mais que tente manter essa informação fora do alcance dos próprios pensamentos, ela sabe que Lorena está namorando alguém há cerca de nove meses. Um cara com credenciais impecáveis. Um médico que trabalha no hospital da Fundação Ferette e faz trabalho voluntário em Chacrinha. Inteligente. Gentil. Paciente. Filho da presidente da Fundação Ferette. Um velho conhecido. E, justamente por isso, a melhor escolha.
Eduarda mal o conhece. E não por falta de esforço de Lorena em integrar os dois lados da sua vida, mas pela própria falta de vontade. Conhecê-lo significaria tornar real o homem que roubou seus sonhos. E, sinceramente, quem é corajoso o bastante para olhar nos olhos a antítese da própria covardia? Aquelas janelas castanho-escuras pertencem a um homem que, no imaginário de todos, é a encarnação do sucesso – o mesmo sucesso que sempre jogaram na cara de Eduarda, dizendo que lhe faltava ambição para alcançá-lo.
É aí que ela percebe que cometeu um erro fatal.
Eduarda nunca teve amor-próprio suficiente para aceitar que Lorena nunca seria sua. Então, ao descobrir que Lorena decidiu pertencer a outra pessoa, resolveu juntar os pedaços do próprio ego em silêncio. E, por causa dessa mesma distância que deixou crescer entre elas, esse homem sem rosto, que deveria ser apenas uma ameaça passageira, em breve estará ligado a Lorena para sempre.
Como seu marido.
O futuro marido de Lorena.
O amor da vida de Eduarda vai se casar.
— Meu Deus, parabéns! — João Rubens é o primeiro a reagir, com o entusiasmo de sempre.
Eduarda sente o olhar de Maggye queimar em seu rosto, implorando por qualquer reação que não seja puro choque. Mas ela não consegue. O coração martelando nos ouvidos, a bile fervendo no estômago, os lábios tremendo, as mãos frias – tudo toma conta dela.
Júnior, ao lado da namorada, analisa a situação com cuidado, sabendo que qualquer passo em falso pode tirar o mundo do eixo.
Ele se vira para Maggye, sentada em silêncio, e para Eduarda, pálida como um fantasma. — Vocês já sabiam?
Maggye olha para ele, incrédula. — Claro que não, tá maluco?
Júnior dá de ombros.
— Duda, meu amor… você sabia? — Maggye sussurra, envolvendo o pulso de Eduarda com os dedos.
Ela engole seco, negando com a cabeça. — Tô sabendo agora.
Kasper e Lucélia cercam Lorena, enquanto João segura sua mão com delicadeza, admirando o brilho do anel em seu dedo anelar. O rosto dele transmite uma calidez que Eduarda não consegue decifrar, e uma consternação tão bem disfarçada que ela desvia o olhar antes que as lágrimas comecem a brotar.
O vazio deixado por Maggye ao se levantar do sofá não se compara ao vazio em seu peito. Ainda assim, Eduarda também se levanta e caminha até Lorena. O eco de seus coturnos contra o chão soa como tiros de canhão, o som da batalha que tenta explodir dentro da sua cabeça e que, inevitavelmente, ela vai perder.
Enquanto os amigos parabenizam Lorena, Eduarda tenta reorganizar os próprios pensamentos com o único objetivo de não machucá-la.
— Você é tão sortuda, Lorena —Lucélia diz—. Zé Maria é um homem dos sonhos. Você não poderia ter escolhido um marido melhor. O doutor Ferette deve estar radiante que você finalmente vai dar os netos que ele tanto quer.
Quase sempre, muitas vezes sem nem perceber, os impulsos mais violentos de Eduarda acabam recaindo sobre a prima de Maggye. A criatura mais insuportável que já conheceu.
E, dessa vez, não é diferente.
— Lucélia — dispara Maggye —, cala a boca.
Quando a distância que a separa de Lorena se reduz a um metro, e Eduarda é a única que ainda não a parabenizou, sente o corpo à beira de desmoronar. Ainda assim, tudo o que faz é apoiar a mão na cintura de Lorena e apertar o tecido da jaqueta listrada como se fosse um salva-vidas.
— Não acredito que você vai se casar —Eduarda sorri, ignorando os olhos verdes que procuram os seus—. Passou na frente do Júnior e da Maggye.
— Opa, eu tô trabalhando nisso aí —Júnior diz.
Lorena ri, leve. A melodia que antes enchia o coração de Eduarda de carinho agora é a trilha sonora do seu pior pesadelo.
— Pois é —suspira, olhando para ela com cautela, como se qualquer palavra de Eduarda pudesse ser uma sentença final—. Eu também não esperava.
Anos na polícia civil facilitaram a tarefa de perceber a menor contração no rosto de alguém. Além disso, não é comum ver medo em Lorena. Pelo menos não assim, tão claro.
Um alerta dispara dentro dela quando as feições da melhor amiga se contraem, como se estivesse pedindo, em silêncio, a aprovação de Eduarda.
— Mas é o que você merece —ela diz—. Fico feliz em saber que ele percebeu o quanto você é incrível.
Lorena acaricia devagar o braço de Eduarda, arrepiando-a. — Você sempre me lembra disso.
— E vou lembrar quantas vezes for preciso. Eu te conheço há anos, Lorena Ferette. E você sabe que eu não minto.
— Só porque você é péssima mentindo.
Eduarda deveria rebater. Deveria ter coragem de olhar nos olhos da melhor amiga e dizer que é uma das melhores mentirosas que o estado de São Paulo já viu. Se não fosse, Lorena já teria percebido que Eduarda está apaixonada por ela desde o dia em que Maggye apresentou as duas.
— Minhas habilidades no engano eu guardo pro trabalho, lá na delegacia, quando tenho que lidar com bandido.
As covinhas de Lorena se aprofundam quando ela sorri.
É a mulher mais linda que Eduarda já conheceu.
— Você se acha muito engraçada, né?
— Tô falando sério! —Eduarda resmunga—. Pergunta pro Paulinho ou pro delegado Jairo. É por causa disso que eu sou uma ótima investigadora.
Ela assente, tentando segurar o riso. — Não duvido, Duda.
O coração dela tropeça ao ouvir o apelido. Mais uma peça na sua devoção por Lorena.
Alguns minutos depois, após se deixar hipnotizar pela proximidade de Lorena, ela decide se afastar um pouco. Criar espaço entre as duas, para não ser consumida pelo cheiro da mulher que mais ama na vida. E, ao mesmo tempo, a que mais a machuca.
Eduarda enfia as mãos nos bolsos da calça, balança levemente sobre os calcanhares e respira fundo. — Então… quando é que eu vou poder conhecer o seu futuro marido?
Seu escritório está uma bagunça. Pastas de depoimentos e processos empilhadas umas sobre as outras, se acumulando num espaço que, exceto por hoje, costuma estar impecável.
Quando Eduarda suspira pela quinta vez em menos de dez minutos, revirando todas as gavetas enquanto procura a garrafa de água, Paulinho resolve interromper a busca.
— O que foi, garota? —ele pergunta, deslizando a cadeira até parar ao lado dela—. Tá com cara de que não dormiu nada.
— Passei a noite em claro —responde—, acordei quebrada. Você viu minha garrafa?
Paulinho olha para ela como se estivesse ficando louca, antes de apontar para trás do computador, onde a garrafa de vidro vermelha acumula poeira.
— Você não ia jantar na casa dos Damatta? —ele cruza os braços, franzindo a testa—. O que aconteceu? Por que você tá com essa cara de que sequestraram o Tony e o Fred O Papagaio?
Eduarda se vira bruscamente para ele, lançando um olhar feio.
— Nem fala isso —repreende—, meus filhos estão sãos e salvos em casa.
Paulinho dá de ombros. — Então o que foi? Eu sempre falo tudo para você.
— Você faz isso porque quer.
Ele solta um suspiro indignado. — Nossa, como você é grossa. Você vive me obrigando a contar tudo, do que você tá falando?
Ela também dá de ombros, bufando. — Ai, não me enche. Vai.
Eduarda reconhece sua tendência a perder a paciência quando está de mau humor. Mas com Paulinho sempre foi diferente. Ele é a única pessoa no mundo que conhece todo o espectro das suas emoções – das piores às mais aceitáveis socialmente. Ele conhece cada micro expressão dela, já viu como ela lida com cada estado de espírito. Por isso mesmo, sabe que ela não tem como mentir para ele e sair impune.
Paulinho se aproxima ainda mais, puxando a manga da jaqueta dela para chamar sua atenção. — Tô falando sério, Juquinha. Me conta.
— Você vai ficar me atazanando o dia inteiro?
— Com certeza.
Por mais acostumada que esteja com a intensidade do colega, Eduarda não consegue evitar revirar os olhos. — Você é mais irritante que pedra no sapato, sabia?
— Cê me lembra disso todo dia —ele sorri, batendo de leve no joelho dela com uma caneta—. Desembucha. Tô todo ouvidos.
Ela joga a cabeça para trás. — Aff… menino fofoqueiro.
— Do jeitinho que você me ensinou.
Quanto mais pensa, mais faz sentido contar a Paulinho o que está sentindo.
Se ninguém mais tem coragem de fazer isso, ela confia que ele vai lembrá-la do quanto foi idiota por deixar o tempo escorrer pelos dedos, atravessando como um espectro as ruínas da sua amizade com Lorena. Confia que ele nomeie cada erro e esfregue tudo na cara dela, só pra garantir que não fuja das consequências.
Além disso, não é como se tivesse outra pessoa a quem recorrer. Ou pelo menos ninguém que não esteja emocionalmente envolvido. Não que considere Paulinho uma segunda opção. Mas, para tudo que envolve os dilemas da vida real, Lorena sempre foi sua primeira escolha.
E, dessa vez, Lorena é o problema.
— Você lembra do José Maria, o namorado da Lorena?
— Então tem a ver com a Lorena —Paulinho diz, como se fosse óbvio—. O médico lá de Chacrinha? Lembro sim, a Gerluce fala dele o tempo todo.
— Sim.
— O que tem ele?
Eduarda aperta a mandíbula, a garganta travada pelo choro. — A Lorena vai se casar com ele.
Paulinho levanta num pulo.
A cadeira bate com força na mesa ao mesmo tempo em que o delegado Jairo aparece na porta do escritório.
— Que clima pesado é esse? Quem morreu?
— O quê?! —Paulinho solta, quase gritando.
Ela respira fundo. — É isso mesmo. Ela deu a notícia ontem, quando a gente tava na galeria.
Paulinho leva as mãos à cabeça, claramente abalado. Enquanto ele anda de um lado pro outro, o delegado resolve se meter.
— O que aconteceu?
— A Lorena vai casar com um cara com quem ela tá há menos de um ano —Paulinho responde.
Eduarda estreita os olhos. Ele tem razão.
— Qual Lorena? —pergunta o delegado.
— Ferette.
— A filha do todo-poderoso Santiago Ferette, o cirurgião renomado?
— Essa mesma.
— Aquela moça bonitinha? —ele insiste, olhando para Eduarda—. Juquinha, não é aquela com quem você vive andando pra lá e pra cá? Aquela por quem você sempre foi apa…
Eduarda abaixa o olhar, desejando que o chão se abra e a engula. Qualquer coisa para escapar da própria miséria. Por isso, nem percebe Paulinho fazendo sinal pro delegado ficar quieto, nem o olhar de pena que os dois trocam ao entenderem a situação.
— Juquinha… —o delegado chama— e você… o que pretende fazer?
— Eu? Nada —Eduarda responde, seca—. O que tá feito, tá feito.
— Não se feche, não. Já sabe como vocês dizem… mente aberta —ele continua, sentando-se na mesa—. Tem gente que ama demais. E daí? Culpa nossa ter um coração grande? Nunca. Vai que a Lorena é tipo um polvo e tem mais de um coração, um para seu namoradinho e outro pra você.
Quando Eduarda vê Paulinho tentando segurar o riso, dá um soco no peito dele.
— Não fala isso pra ela, delegado! —Paulinho reclama, esfregando o peito—. Não percebeu que tá falando com a Maria monogamia?
Ela aponta para ele, concordando, antes de mexer com a corrente do distintivo. O metal frio ajuda a pacificá-la. — Nunca tive que dividir nada. Não vejo por que começaria agora. Muito menos pra dividir uma mulher.
— Ainda mais se for a Lorena, né? —Paulinho provoca—. Coisa de filha única.
— Oxi… esqueceu que você também é?
— Sim, mas eu sou legal de um jeito que você nunca vai ser.
— Ah, ñao, começou —Eduarda empurra a cadeira dele com o pé—. Vai embora. Vai. Esses depoimentos não vão se escrever sozinhos.
— Oi, Juquinha, me conta… você tá bem, né?
Deitada no chão de uma piscina abandonada que ela e Paulinho encontraram por acaso durante uma operação anos atrás, Eduarda tenta traçar as estrelas que se espalham pelo céu noturno de São Paulo, denso e profundo mesmo com a camada de poluição que o torna opaco.
A pergunta do amigo cai sobre ela como um soco no abdômen. Suave o bastante para não quebrar suas costelas, mas forte o suficiente para deixá-la sem ar.
Eduarda se vira para olhar Paulinho. Seu rosto está parcialmente iluminado pelos faróis da viatura, deixados acesos para cortar a escuridão.
— Sim —ela diz—. Não. Não sei, pra ser sincera. Minha cabeça tá uma bagunça.
Paulinho, deitado a alguns metros dela, solta a fumaça do cigarro pelo nariz antes de dar um gole na cerveja. — Pensei que você era a esperta em assuntos do coração.
— Não nos assuntos do meu coração, aí eu sou péssima. Um desastre total. Até o ponto de que o amor da minha vida vai se casar e eu vou acabar sendo a madrinha.
O cerne da questão.
Embora Lorena ainda não tenha pedido formalmente, Eduarda supõe que sua melhor amiga espera que ela esteja lá no dia mais importante da vida dela. Sem precisar assinar contrato algum. Mas o pensamento de não ser ela quem vai dividir o altar com Lorena, obrigada a assistir de longe, rasga sua alma em pedaços; faz seu coração se estourar, cada estilhaço aumentando a sensação de ter sido despojada de um amor que um dia a fez se sentir inteira.
Cada degrau que as separe naquele dia fatídico será um círculo do inferno pessoal de Eduarda.
— Você realmente não vai dizer nada? —ele pergunta, uma mecha de cabelo caindo sobre os olhos.
— Não. Lorena já disse sim para ele duas vezes. Quando começaram a namorar —Eduarda levanta o mindinho, depois o anelar— e quando Zé Maria pediu ela em casamento. Não dá pra competir com isso.
— E você vai ficar aí, de braços cruzados? Sabe melhor do que ninguém que orgulho não leva a lugar nenhum.
Ela solta um suspiro e pressiona a ponta dos dedos nos olhos com força, até ver flashes brancos atrás das pálpebras.
Acusações assim têm o poder de arruinar o dia. Por mais vazias que sejam. Eduarda se orgulha de não estar tão consumida pela condição humana a ponto de deixar algo tão pequeno como orgulho dominá-la.
— Se o único que me impedisse de falar com Lorena sobre meus sentimentos fosse orgulho, ela já saberia —ela diz, torcendo a anilha de uma das latas vazias de Paulinho.
— Então…
— Não é tão simples assim —admite Eduarda—. Eu sei que vocês não pensam igual. Você me disse. Maggye me disse. Leonardo me disse. Porra, até a dona Zenilda me insinuou isso. Mas se eu sou tão relutante com meu relacionamento com Lorena, é pra proteger tanto os sentimentos dela quanto os meus.
— E se Lorena não quiser que você a proteja?
Eduarda faz uma careta. — Não somos apenas duas pessoas nessa equação, Paulinho. Não seria justo… não posso falar algo sem pensar em como afetaria José María. Não posso me arriscar sabendo que haverá dano colateral. Se eu disser algo e der errado, não será só nossa amizade que se estragará. Então… assim como é minha culpa ter perdido tanto tempo por medo e ter achado que Lorena e eu estávamos na mesma página, é meu dever aceitar as consequências.
Resignação.
É a medida de contenção escolhida, um mecanismo de defesa moldado pelos seus medos.
Que Eduarda tenha isolado tudo de si para fazer de Lorena o centro da própria realidade é um defeito quase solipsista, visto de certos ângulos. Mas foi o que fez. E agora, enterrada nas trincheiras da solidão, sabe que perdeu o direito de reclamar por alguém que, percebe tarde demais, nunca foi realmente seu.
É com essa epifania e uma celeridade implacável que o andaime que sustenta suas percepções começa a desmoronar.
— Às vezes eu esqueço que você é uma adulta funcional e equilibrada —Paulinho diz, ligeiramente surpreso.
— Graças a Henrique e Violeta Fragoso, que investiram na minha psicóloga desde o jardim de infância.
— Então saúde a eles —Paulinho suspira, esticando o braço em direção a ela—. Quer uma tragada?
Eduarda olha com desdém para o cigarro que ele oferece, cinzas caindo devagar no chão. — Colocar minha boca onde esteve a sua? Obrigada, mas não.
— Afff… a gente come do mesmo prato, bebe da mesma garrafa…
Ela se senta de repente. — Que garrafa? Me fala… de que garrafa você tá falando?
O silêncio que recebe é resposta suficiente.
— Que palhaçada é essa? Você bebeu da minha garrafa? —pergunta antes de dar um tapa na canela dele com a ponta do coturno—. Aquela lá na delegacia?
Eduarda não resiste e acerta outro tapa quando ele começa a rir e engasga com a cerveja.
— Que nojo, Paulinho.
— Chega de ser chata —ele oferece de novo, e desta vez ela aceita—. Isso tudo me parece tão irreal.
Ela ri, mas o som não tem traço de humor. — Diga pra mim.
Paulinho sacode a cabeça, como para organizar os pensamentos, antes de se sentar ao lado dela. — Juquinha, quando você voltou de Londres depois de visitar Lorena, eu achava que vocês iam começar a namorar.
— Eu também —admite, mordendo o lábio—. Mas já se passaram quatro anos, e Lorena nunca disse nada. E eu também não. Talvez o que aconteceu em Londres não significou nada pra ela.
— Eu achei que… não sei… achei que ia dar samba.
— Ah, não. Não deu samba, little Paul —Eduarda dá uns tapinhas no ombro dele—. Deu merda.
— Quantos anos tem a Lorena? 23?
— Sim.
— Vocês ainda são jovens, sabe? Talvez não agora, mas no futuro…
— Não diga isso —ela sussurra, a voz quebrando—. Não vou alimentar falsas esperanças. Muito menos ser aquela amiga que quer que o casamento de alguém dê errado. Não seria justo para nenhuma das duas.
— Tá, tá. Foi mal —Paulinho se desculpa—. Você tem a vida inteira pela frente. Talvez… não agora, mas com o tempo… você poderia conhecer alguém mais.
No arsenal que Eduarda acumulou ao longo dos anos, nunca havia considerado o tempo como a arma mais perigosa de todas. Não até que ele se voltou contra ela, como uma granada com o pino defeituoso. Nunca tinha levado em conta que a continuidade progressiva da existência carrega consigo consequências mais cruéis do que qualquer invenção da tecnologia bélica.
Foi ingênua ao acreditar que o tempo teria a audácia de observá-la e dizer: você merece um tratamento especial.
E agora… já não há esperança de amanhã, nem segurança do ontem; só resta o hoje, do qual não se pode abstrair. O medo do desconhecido e a sensação anacrônica de que, quando Lorena se casar, Eduarda não pertencerá mais a lugar nenhum.
— Não sei. Não quero ser teimosa e me fechar pra nada, mas nunca me apaixonei por mais ninguém —ela dá de ombros—. Não sei amar alguém que não seja Lorena.
— Ainda dá tempo de aprender.
— Supongo que sim —ela diz—. Me sinto tão estúpida, sério. Ela já tá construindo a vida dela, e eu fiquei parada esperando sabe-se lá o quê.
— Não é o fim do mundo.
— É a Lorena —Eduarda insiste, como se isso explicasse tudo.
E, de certo modo, explica.
— Mas não é o fim do mundo —ele repete—. Você me ensinou a abrir o coração, esperar o inesperado. E se não der certo, estou aqui. Aqui nos tens. Gerluce quer você mais que a mim.
— Ela tá certa nisso.
— Chata —Paulinho revira os olhos e a empurra de leve com o ombro— Tô morrendo de fome. Vamos embora antes que a autoridade nos veja e nos prenda por invasão de propriedade.
— Nós somos a autoridade.
O parceiro a ajuda a se levantar. Seguindo atrás dele, Eduarda tenta limpar o jeans o melhor que puder, tomando cuidado a cada passo para não pisar nos lugares onde a vegetação rasteira esconde poças de lama e água estagnada. Paulinho se abaixa para atravessar a grade quebrada e a segura para que ela faça o mesmo, mas a solta cedo demais, e Eduarda sente o arame farpado rasgar a pele da clavícula.
— Puta que pariu! Quase me leva o olho, seu diota!
— Ai, meu Deus, desculpa —Paulinho cora—. Você é tão pequena que achei que não conseguiria te arranhar.
— Vou me certificar de que te prendam por atentado à vida de investigadora.
— Para com isso. Vamos comer, eu pago. Como desculpa.
Eduarda o fulmina com o olhar antes de entrar na viatura.
Seus dedos se enredam no volante como trepadeiras. Com mais paciência do que tem, respira o ar frio com entusiasmo, sentindo a ardência nos pulmões.
— Eu pago —diz Eduarda, apertando a bolsa contra o peito de Paulinho—. Segura isso.
Ele recua um passo, segurando a bolsa antes que caia ao chão. — Eu disse que eu convidava. Você tá triste, não sou tão sem noção pra te fazer pagar.
Ela resfolega pelo nariz. — Tô triste, mas a grana ainda tenho.
— Gastando dinheiro normalmente fico mais triste.
Isso, pelo menos, a faz gargalhar. — São só cachorros-quentes, Paulinho. A gente tem crédito infinito pros cachorros-quentes.
— Já tô começando a ver as vantagens de ter uma amiga patricinha, como o pessoal fala.
Eduarda se apoia num poste enquanto Paulinho faz a fila, os olhos varrendo a área como quem faz reconhecimento, mesmo horas depois de ter deixado o distintivo na delegacia. Mas essa observação virou um ritual pra ela: algo quase sagrado.
Sua mãe sempre dizia que, por mais que cada mente seja um universo único, é a alteridade que dá verdadeiro sentido ao mundo real. E essa cartografia de seres sociais, buscando se encontrar, entender e se conectar, é o tecido que constrói a sociedade. É, em grande parte, por essa razão que ela tenha se juntado à polícia: para ser mediadora quando uma comunidade parece se fragmentar, para ver no outro o que lhe faltava para ser melhor.
A voracidade de dissecar cada detalhe de alguém que desperta seu interesse – um olhar que se suaviza, uma expressão que muda – é o que a mantém alerta. E em dias como hoje, quando se sente exausta e sem vento nas asas, é isso que a mantém viva.
É sábado à noite, e as ruas de São Paulo estão lotadas de pedestres à espera das distrações do fim de semana. O asfalto, rachado e ainda quente, treme com a passagem dos carros. Mas o tráfego diminui conforme o relógio se aproxima da meia-noite.
Um grupo de amigos passa perto dela, e uma garota de no máximo 18 anos lhe oferece um sorriso envergonhado depois de quase trombar com ela, distraída no celular. Eduarda, sem pensar duas vezes, sorri com naturalidade.
Paulinho volta com dois cachorros-quentes nas mãos, e arrasta a única cadeira vazia que encontra para o lado, indicando que Eduarda se sente.
— Sem milho pra você.
— Valeu.
— Gerluce me falou e perguntou se você queria passar a noite com a gente —Paulinho quebra o silêncio depois de um tempo, jogando o lixo no saco.
— Meus filhos me esperam em casa. Diz a ela que obrigada, de qualquer forma. E que tô bem. Não vou me jogar de um prédio nem nada parecido.
Paulinho levanta uma sobrancelha. — Promete?
— Prometo.
— Sabe que pode me ligar a qualquer momento se você precisar.
— Eu sei.
Eduarda termina de comer e se desfaz do lixo. Sobrecarregada com a sensação da gordura escorrendo pelos dedos, olha ao redor atrás do porta-guardanapos mais próximo, mas o único que encontra está vazio. Para seu desgosto e incredulidade, Paulinho lhe oferece os jeans dele para se limpar.
— Sério?
Ele olha para ela indiferente. — Nem aí, Domingo é dia de lavar roupa.
Eduarda debate consigo mesma, mas balança a cabeça. Do bolso, tira lenços umedecidos e entrega um a Paulinho. — Um dos dois tem que ser civilizado.
— Só tava tentando ser cavalheiro.
Os lábios de Eduarda se estendem em um sorriso zombeteiro. — Aprendeu bem comigo, né?
A porta do apartamento se fecha atrás dela com um suave clique.
Eduarda se vira e encosta a testa na madeira fria, inalando até sentir o diafragma protestar contra o esforço. Os músculos das costas e do pescoço estão em chamas depois de tantas horas encolhida diante do monitor na delegacia, e pensar no banho que vai tomar é a única coisa que a mantém de pé.
Quando sente o dorso de um dos seus gatos esfregando-se contra a panturrilha, Eduarda olha para baixo e sorri ao encontrar os olhos verdes de Tony. Apesar do cansaço, ela se agacha rapidamente para pegá-lo, coçando atrás da orelha dele.
— Oi, meu amor —sussurra contra a cabeça dele—. Cadê seu irmão?
Eduarda segue pelo corredor em busca de Fred O Papagaio. As luzes amarelas se inclinam contra a parede, escorrendo como mel. Ao chegar à sala de estar, algo no peito dela derrete ao ver o gato laranja no colo de Lorena, deitada no sofá com o olhar fixo na televisão.
— O porteiro me disse que você estava aqui —diz Eduarda, com a voz mais suave que o habitual—. Não sabia que viria. Aconteceu alguma coisa?
Lorena se vira, e seu rosto se ilumina com o tipo de sorriso que faz os olhos se fecharem. Ela caminha até Eduarda, e o traidor de Tony salta para os braços dela, buscando seu lugar favorito na curva do pescoço macio dela.
— Nada aconteceu —Lorena assegura—, mas já estava morrendo de saudade de você.
— Os horários esta semana na delegacia estavam horríveis, sinto muito por isso.
Tony, vendo Fred O Papagaio circular livremente ao redor das pernas das duas, se solta do abraço de Lorena e vai atrás do irmão mais velho.
Lorena balança a cabeça, o cabelo negro como a noite seguindo o ritmo dos movimentos. — Tudo bem.
Para se livrar da sujeira e do suor acumulados ao longo do dia, Eduarda deixa a bolsa e as chaves sobre a mesa da cozinha, desamarra as botas e joga-as em qualquer canto do apartamento.
— Já jantou?
— Sim, mais cedo —responde Lorena, puxando Eduarda pela cintura do jeans para aproximá-la e ajudá-la a tirar a jaqueta—. Cê tava com o Paulinho? Tá cheirando a cigarro.
Eduarda faz um som de confirmação. — Fomos comer depois do turno.
— Eu imaginei.
A pele dela se arrepia ao sentir um par de mãos nos ombros. Mais o couro da jaqueta, e a tensão nos músculos de Eduarda faz Lorena tirar a peça de roupa devagar.
— Oi —Lorena exclama. Seus dedos longos e fortes envolvem o pescoço de Eduarda com firmeza—. Que isso?
O arranhão que ela sofreu na grade da piscina abandonada agora está vermelho escuro, com gotas de sangue seco e ferruginoso escorrendo pelo peito.
Eduarda dá um sorriso torto, usando o brilho nos olhos para fazer Lorena esquecer. — Foi um erro de cálculo.
A diferença de altura entre elas faz com que Lorena olhe para baixo para ficar no mesmo nível do olhar de Eduarda. E Lorena, mordendo o lábio para segurar um sorriso, fecha os olhos. A exasperação que Eduarda provoca nela é visível no rosto.
—Você vai me fazer processar o Estado se continuar voltando para casa machucada — Lorena tenta brincar, mas os olhos verdes dela mostram um leve tom de preocupação.
— Você e o Dr. Fragoso são farinha do mesmo saco. Mas desta vez teria que processar o Paulinho, e eu sentiria falta do meu parceiro se algo acontecesse —Eduarda informa. Ela abre a geladeira, pega uma cerveja e olha para a amiga—. Vai beber alguma coisa?
— Água com gás, por favor —Lorena diz—. Juro que algum dia um de vocês vai acabar matando o outro.
Com as duas garrafas em uma mão, Eduarda segue a amiga de volta para o sofá, esperando que Lorena escolha seu lugar favorito antes de se sentar. Como sempre, é o canto direito. Um dos muitos cantos da casa que tiveram sua forma original transformada para acomodar a presença constante de Lorena.
Eduarda afrouxa a tampa da garrafa de água antes de entregá-la. Um gesto automático. Cansada, coloca os pés sobre a mesa de centro, mexendo os dedos para aliviar a tensão, e vira a cabeça para a direita, procurando sua vista favorita. Lorena está com as pernas encolhidas, o cotovelo apoiado no encosto do sofá e o punho cerrado, protegendo o rosto.
Por algum motivo, a morena sorri, divertida, como se estivesse pensando em uma piada para as duas que ainda não contou.
— Como está sendo a faculdade?
Ela faz um barulho com os lábios. — Intensa, mas emocionante. Cê se lembra do pessoal da aula de fotografia que me convidou para ser modelo da última coleção deles?
— O ensaio foi esta semana, certo?
Lorena acena com a cabeça. — Quarta-feira. Mas eles me enviaram as fotos hoje. Quer me dar sua opinião?
Eduarda a observa, estudando seu rosto em silêncio.
No fim das contas, tudo se resume a Lorena. A língua que Lorena fala. As ações que Lorena toma. Os pensamentos que Lorena concebe. Como segundos, minutos e horas habitam dentro de Lorena.
—Claro — ela pigarreia.
A distância entre elas agora é mínima, tão estreita que nem um átomo conseguiria se infiltrar entre elas. A fragrância amadeirada e doce que Lorena usa envolve Eduarda em uma nuvem enquanto ela se aproxima, telefone na mão, encostando seu peso no corpo de Eduarda.
Como ela esperava, todas as fotos ficaram perfeitas. Bonitas demais.
Talvez Eduarda não seja a pessoa mais indicada para dar opinião, tendenciosa como sabe que é. Porque é impossível para ela considerar conceito, composição ou a luz natural que entra pela janela e beija a pele pálida. A única coisa que seus olhos veem é Lorena. Lorena, com um halo invisível acima da cabeça; um fulgor congênito à sua divindade.
Enquanto sua respiração se interrompe, Eduarda sente a de Lorena colidir contra seu pescoço. Quente. Instável.
— Espera, volta para a anterior —ela diz, sentindo o coração galopar, e segura o pulso de Lorena, galopante também.
Lorena está usando blusa preta e jeans claros. Nada de mais. Mas seu cabelo conserva os cachos naturais, descendo sobre o rosto com delicadeza. A mandíbula definida… os lábios grossos e rosados, o fruto proibido que Eduarda anseia voltar a provar.
— Você gostou? — Lorena pergunta em voz baixa.
— Adorei — Eduarda confirma com entusiasmo—. Minha mãe vai adorar vê-las.
Com timidez, suas bochechas tingidas com um rubor suave, Lorena deixa o celular de volta sobre a mesa. Antes de se virar novamente para Eduarda, toma um gole de água.
— Maggye me contou que as aulas ultimamente têm sido muito pesadas.
— Estamos prestes a terminar o semestre. Além dela trabalhar na galeria e eu no bar, não sobra muito tempo para mais nada —Lorena diz—. Mas eu gosto. A pressão, a rapidez… me faz sentir revitalizada, sabe? Como se esse fosse meu lugar no mundo.
Ela sorri. — Eu amo como você fica cada vez que fala disso.
— É porque finalmente estou onde quero estar. Depois que saí da faculdade de Direito para estudar design, tudo foi tão… complicado. Juro que, se não fosse porque minha mãe e o Leo me ajudaram a guardar o segredo, o Dr. Ferette já teria me expulsado de casa.
Ao sentir seu sangue ferver pensando no pai de Lorena, Eduarda franze a testa. — Eu sei que ainda é seu pai, mas é uma pessoa tão…
— Horrível?
— Demais. Ele não merece uma esposa como dona Zenilda, e tampouco filhos como Leonardo e você. Você não merece uma pessoa como ele.
Lorena desvia o olhar, incomodada com a situação.
— Você sabe que… —Eduarda começa com uma cadência firme— esta é sua casa também, né? Logisticamente, é mais fácil ficar com a Maggye na galeria, mas… se algum dia precisar, aqui sempre será bem-vinda, Lorena.
Visivelmente afetada, Lorena respira fundo, expandindo o peito.
— Mesmo se quiser, minha família tem dinheiro e eu posso te bancar —Eduarda diz com um sorriso, tentando aliviar o clima.
— Eu sei, eu sei que você faria isso. E aprecio que se ofereça sem pensar —põe a mão sobre o pescoço dela, o polegar roçando a área do arranhão—. Mas eu acho que não tenho vocação para isso. Meu trabalho não é dos mais bem pagos, mas estou fazendo algo por mim mesma. Estou construindo minha própria identidade, separada da maldição de ser uma Ferette.
— E por isso me sinto tão orgulhosa de você.
— Além disso, não posso ir embora e deixar minha mãe e Leonardo naquela casa assombrada. Se meu pai fizesse algo a eles por tentar me proteger...
É uma das poucas coisas que Eduarda nunca conseguiu decifrar sobre sua melhor amiga.
Desde o dia em que conheceu Lorena, percebeu que suas melhores intenções eram dedicadas à proteção da mãe e do irmão. Mas, por mais que Eduarda adore essa peculiaridade do caráter dela, o cuidado às vezes se torna obsessivo – priorizado acima do próprio bem-estar. Uma autoproclamação de ser a redentora que beira o sádico, anos carregando uma cruz que não lhe pertence.
E isso só se intensificou depois que Lorena voltou do intercâmbio.
— É impressionante a maneira como você cuida deles, Lorena. Acho que você é tão admirável, tão valente e resili–
— Não sou nem metade dessas coisas —ela murmura, fazendo Eduarda olhá-la confusa. Num gesto carinhoso, Lorena desliza a ponta do dedo pelo nariz de Eduarda. É então que, surpresa, ela percebe que Lorena não tem o anel. —. Mas ter você torna tudo um pouco mais fácil. Eu me sinto tão protegida, tão amparada por você– e por… por Maggye também.
O coração de Eduarda dispara como um cometa, machucando seu esterno enquanto bate mais rápido.
Se Lorena Ferette é sua ruína, se ela é destruição e devastação, aquela sobre a qual Eduarda um dia foi alertada nos textos apocalípticos – se o presságio do fim do mundo começa com covinhas, abraços que embriagam e um par de olhos verdes que carregam mais gravidade do que o planeta inteiro, Eduarda já sabe que receberá sua extinção de braços abertos.
Mas, infelizmente para ela, o mundo não vai acabar tão cedo. A vida continua. Com ou sem Eduarda. E ela, com ou sem Lorena.
E se o rumo da sua vida já está traçado, com os planetas alinhados para submeter Eduarda à tortura de ver a mulher que ama casar com outro, ela não é ninguém para impedir. Nem para reescrevê-lo completamente. É por isso que ela precisa se conter antes que qualquer confissão escape de seus lábios e piore ainda mais a situação.
— Nós somos sua família, e nada no mundo vai mudar isso —Eduarda promete—. E agora que você tem o José Maria, sempre terá um lugar para chamar de seu.
Por um breve instante, Lorena parece surpresa com as palavras de Eduarda, como se não esperasse tamanha sinceridade. Mas logo se recompõe, com um sorriso trêmulo e um olhar transbordando afeto.
Seja afeto por Eduarda ou por outra pessoa, ela sente que não quer saber.
