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Doce Demais

Summary:

Essa é um breve conto que escrevi sobre meu personagem no RPG em que estou jogando, demonstrando um pouco sobre as dinâmicas familiares dele e como ele reage a certo tipo de drama familiar e suas responsabilidades do dia a dia como irmão mais velho de 2.

Notes:

Essa história contem descrição de ataque de pânico e menção a convivência complicada com a mãe do personagem, então se esse tipo de tópico te deixa desconfortável, recomendo pular a leitura :D

Work Text:

Doce demais

 

Era para ser um dia normal. Era. Loui tinha acordado às 5:30 como sempre fazia, sempre fez questão de acordar mais cedo que todos da casa para garantir que seriam acordados com café da manhã pronto, e assim o pequeno fez, levantou da cama ainda dopado de sono após outra noite mal dormida, Louise tinha pedido (de novo) para dormir com o mais velho, e o mesmo, sem saber dizer não para sua irmãzinha mais nova, deixou. Passou a noite preocupado com Louise, se ela teria outro pesadelo sobre “um bidoof gigante que comeu a cidade inteira”, e com a pequena brutalmente jogada sobre si, que convenhamos, apesar de estar apenas com 6 anos, já era mais forte que qualquer outra criança da idade da mesma. 

Depois de tentar se desvencilhar gentilmente do grude da irmã, Loui começou a se arrumar para o dia, foi direto pro banheiro para escovar seus dentes e lavar o rosto, ao olhar no espelho, viu o que já estava acostumado, cabelo rosa meio bagunçado, rosto inchado de ter acabado de acordar, pequenas olheiras embaixo dos olhos, o de sempre. Loui vestiu suas roupas confortáveis de costume e desceu as escadas, mas não sem antes checar se Leo ainda estava dormindo em seu quarto, e como já esperava, o outro pequeno ainda estava dormindo, Loui fechou a porta do quarto com o mesmo cuidado que abriu, e finalmente desceu as escadas, sem fazer barulho para não acordar os outros membros da família.

E assim começou, vestiu seu avental de sempre, pegou os mesmos ingredientes de sempre, e fez o de sempre, era a rotina de Loui, o mundo em que ele vivia fazia mais de 4 anos, desde que seus irmãos viraram sua responsabilidade e tinha assumido a maioria das tarefas da casa. Depois de alguns minutos, quando estava terminando de fazer os ovos, escutou os passinhos habituais, levemente descendo a escada, era Leo, seu irmão tinha acabado de acordar, e foi recebido com o doce sorriso do mais velho.

- Bom dia Leo, acordou cedo hoje, não? - Loui disse, sorrindo pro mais novo, que ainda estava com aquela carinha de sono que dava vontade de apertar.

- Bom dia, maninho - Ele respondeu, ainda bocejando e esfregando os olhos, já chegando mais perto do mais velho - Só um pouco mais tarde que você, não é tão diferente assim… 

- Você não precisa acordar cedo assim, sabe? Pode dormir mais um pouquinho se quiser - Loui disse, bagunçando um pouco o cabelo de Leo de uma maneira afetiva, depois virando sua atenção novamente para a frigideira.

- Eu vou te fazer companhia aqui - ele disse, se sentando no banquinho da cozinha, esperando pacientemente que seu irmão terminasse o café da manhã,

 

Loui deu outro sorriso pro mais novo e continuou com suas tarefas, terminou de servir o café de leo: torradas, ovo mexido e uma xícara de chá, simples, mas que demonstrava o carinho que o irmão tinha pelos mais novos. Logo depois desceu Louise, que em contraste de Leo, já desceu as escadas que nem um furacão, gritando para a casa toda ouvir.

 

- BOM DIAAAAAAA! - ela atravessou a casa que nem um foguete, já correndo para baixo das pernas de Loui, agarrando na barra da sua bermuda - Maninho! Maninho! Eu to com fome! O que tem pra hoje?

- Bom dia Louise - Loui fez um carinho no topo da cabeça da menor, soltando um riso cansado, mas feliz com entusiasmo da mesma. - O menu do chefe diz que tem torradas, o acompanhamento você escolhe, ovo mexido ou geleia de pecha berry - ele aponta pra mesa, onde as coisas estavam delicadamente postas - suco ou chá, o que a senhorita deseja? - ele disse, já entrando na brincadeira

- hmmmmm…..- Louise senta na bancada ao lado de Leo, ela dá uma olhada no prato dele 

- Você precisa sair gritando desse jeito? A mamãe vai acordar assim - Leo soltou um resmungo, olhando pra Louise - Tira o olho do meu prato! Essas torradas são minhas! - Ele diz, já tirando o prato de vista da Louise 

 

Loui, como se já soubesse o que ia acontecer, aparece na frente de Louise com um prato cheio de torradas com geleia e um pouco de ovo mexido ao lado, ele sabia que ela iria querer os dois, ele conhecia seus irmãos melhor que qualquer um.

 

- Aqui Louise, tem um temperinho especial que eu coloquei só pra você - Loui piscou pro Leo, o pequeno entendeu que era apenas pra chamar atenção da menina, as torradas eram as mesmas.

- Você é incrível irmãozão! - ela disse, já enfiando três torradas diferentes na boca. Leo só olhava pra ela com um olhar misturando confusão e espanto, apesar de conviver com ela desde que nasceu, ele nunca se acostumou 100% a espontaneidade de Louise.

- Delicada que nem um rhyhorn. - Leo disse, seco, encarando a irmã com um olhar de desdém que guardava só pra ela. O caos era de costume, dessa vez Loui deixou passar, mas só dessa vez.

 

Loui continuou ajeitando as coisas da cozinha e terminando de preparar o almoço para o dia enquanto beliscava seu próprio café da manhã e escutava seus irmãos conversando, ele tentava manter o mesmo ritmo que estava acostumado, mas a noite mal dormida estava alcançando ele. Em um momento de descuido acabou misturando o sal e o açúcar, adoçando o caldo da carne que estava preparando, o mesmo não percebeu e continuou fazendo tudo como se nada tivesse acontecido. Assim que terminou de fazer o almoço e embalar para que sua mãe pudesse levar para o trabalho, deixou o potinho de comida em cima da bancada para que ela pegasse quando estivesse saindo. Alguns minutos depois ela desceu, já vestida para o dia, com seu jaleco rosa e as roupas nos tons de cinza habituais, afiada como sempre.

 

- Bom dia. - ela se dirigiu aos filhos, os 3 olharam para a figura de Amélie Joy descendo as escadas da casa.

- Bom dia, mãe - Loui foi o primeiro a responder, já estava arrumando a lancheira de Leo e Louise - Já vai?

- Já - ela olha pro almoço em cima da bancada e vai na direção da cozinha para pegar o mesmo - Os dois já estão prontos?

- Não, vou dar banho neles agora, tava terminando de fazer o lanche deles - Ele disse, fechando as mochilas - O almoço tá em cima da bancada, é só esquentar no pokecenter.

- Bom dia, mãe - Leo tomou coragem e depois de um tempo respondeu

- Bom dia - Logo seguido de Louise, que já não transbordava aquele mesmo entusiasmo de mais cedo e estava mais recolhida na sua cadeira.

 

Amélie olhou para os filhos novamente, antes de se dirigir à porta da casa, pegou sua bolsa, chaves, guardou o almoço preparado pelo filho e se dirigiu a eles novamente:

 

- Eu volto mais tarde hoje, não precisa me esperar para o jantar - abriu a porta e saiu, como sempre fazia

 

Loui soltou um “bom trabalho” baixinho mas não sabia se a mãe tinha escutado, já estava de volta ao frenesi da manhã, olhou para o relógio, já eram 7:43, precisava se apressar, colocou as mochilas perto da porta, seu avental no lugar e saiu guiando os gêmeos pro andar de cima, para terminarem de se arrumar para e escola. Pegou as roupas para eles, Leo fez questão de escolher sua própria roupa, segundo ele já tinha idade o suficiente para fazer isso sozinho, enquanto Louise foi o de sempre, deixou Loui escolher seu vestido e seu penteado, e recebia o tratamento de princesa que o irmão fazia questão de dar, enquanto Leo resmungava que Loui mimava demais ela e que ela tinha que se virar sozinha, “que nem gente grande”. Loui ria e brincava com os irmãos enquanto dava banho nos dois e aproveitava para tomar banho ele mesmo, eram momentos de risada assim entre os três que suavizavam a rotina e deixavam as coisas mais fáceis, Loui olhava pro sorriso genuíno dos dois e pensava, “vale a pena”, como um sentimento quente que surgia em seu peito e amolecia todas suas preocupações, mas ao mesmo tempo fazia seu senso de responsabilidade gritar cada vez mais alto, como se ele fosse obrigado a manter aqueles sorrisos, afinal eles eram seu precioso tesouro. 

Depois que os três estavam prontos para o dia, Loui pegou a mão dos irmãos e os saiu guiando para a saída de casa, os três seguindo o caminho para escola, conversando sobre coisas bobas, Leo comentava sobre o desenho que tinha visto outro dia, Louise estava distraída com os pokémon que passavam, Loui escutava os dois e fazia comentários pontuais, fazendo questão de manejar sua atenção entre os dois irmãos igualmente.

Chegando na porta da escola, eles se despediram, Leo e Louise foram para um lado, enquanto Loui se dirigiu para sua sala, encontrando Serena, sua melhor amiga, no caminho:

 

- Queridooo!!! Bom diaaa!!! - Ela já recebia ele com um sorriso e aquele abraço apertado, quase se jogando encima de Loui completamente.

- O-oi Serena, bom dia! - Ele retribui o abraço, já acostumado com aquele caos diário de Serena.

 

Os dois seguem em direção a sala de aula, Serena comentando sobre uma loja nova que tinha aberto em Lumiose, em como eles precisavam ir lá no final de semana pra checar tudo, Loui claro, tentava responder no mesmo entusiasmo, mas hoje era diferente, ele estava cansado, óbvio, tentava não transparecer e soar como sempre soava, mas pra quem já estava acostumada a conviver com Loui todo dia, sabia que algo estava errado.

 

- Loui? - ela comentou depois de um tempo.

- Hm? Oi… - ele respondeu, meio arrastado.

- Você tá legal? Aloooou, terra para Loui!! - Ela abanava a mão na frente dos olhos do mais novo

- A-ah! eu tô sim, relaxa - ele passou a mão atrás da nuca, rindo um pouco nervoso - Só com um pouco de sono, mas é normal.

- Aposto que você foi dormir tarde de novo vendo aqueles vídeos sobre pokémon, sério fofucho, você tem que cuidar mais de você mesmo, vai acabar com rugas antes dos vinte assim!! Você só tem quatorze anos, não pode dormir tarde. 

 

Ela continuou falando, Loui escutou… bom mais ou menos, ele só respondia acenando a cabeça e com uns “sim” arrastados, enquanto os dois continuavam caminhando para a sala de aula.

 

O dia escolar fluiu de uma maneira diferente, Loui não levantou da cadeira com a mesma frequência que ele fazia sempre, ele continuou em sala de aula com aquele ar de quem realmente não estava ali, alguns achavam normal, principalmente os professores que já estavam acostumados com o ar desatento do menino. Loui continuou sentado, rabiscando algumas coisas em seu caderno, olhando pela janela eventualmente, ele até viu um pokémon, mas pensou “amanhã eu procuro outros… eles tão sempre no jardim…”, deitou a cabeça na mesa enquanto continuava olhando pela janela, dormiu, com direito a baba e tudo, Serena viu, só suspirou e deixou Loui descansar um pouco durante o intervalo, enquanto achava outro amigo para conversar. Loui acordou assustado com o som do sinal, olhou ao redor ainda meio perdido devido ao breve cochilo, viu que ainda estava em sala de aula e se ajeitou na cadeira como se nada tivesse acontecido. 

O dia continuou até a hora do almoço, quando os alunos se dirigiam de volta a suas casas para terem suas refeições, Loui ajeitou suas coisas e foi direto para a entrada da escola, esperando seus irmãos para poderem voltar para casa juntos, Serena veio logo atrás, como de costume. O caminho era curto, moravam relativamente perto da escola, cerca de 7 minutos depois já estavam chegando em Vaniville, Loui continuou meio quieto durante o percurso, ainda parecia meio distante, mais distraído, Leo parecia notar que algo estava fora do lugar, mas não comentou, ninguém ali fez.

Quando chegaram em casa Loui foi direto para a cozinha para esquentar o almoço para todos, estavam apenas os 3, Leo e Louise estavam na sala assistindo algo na TV enquanto Loui terminava de colocar a comida na mesa, quando terminou, chamou os irmãos para que pudessem almoçar juntos.

 

- Leo! Louise! A comida já tá na mesa - ele disse terminando de colocar a última panela à mesa.

- Obaaaa! O que tem pra hoje, maninho? - Louise disse enquanto corria de braços abertos para a cozinha, Leo estava logo atrás dela, muito mais contido que a irmã.

- Você não tá vendo que é carne ensopada? - Ele disse suspirando, já se sentando à mesa - Você devia prestar mais atenção nas coisas, Louise.

- Leo, relaxa, o importante é que a comida já tá posta - Loui deu um sorriso cansado para os dois, servindo seus irmãos.

- Só to falando que essa macaca tinha que prestar mais atenção…

- Essa O QUE? - Louise já se levantava, encarando Leo.

Loui deu um suspiro cansado

 - Vocês dois. pelo amor de Arceus, será que a gente pode ter só uma refeição em paz? Por mim?

 

Leo já estava pegando seus talheres para começar a comer em silêncio enquanto Louise estava enfiando uma colherada na boca, ao fazer isso, o semblante de Louise parecia… confuso? Tinha algo de errado.

 

- O que foi agora? - Leo perguntou pra ela, encarando a irmã torto.

 

Louise continuou mastigando, como se estivesse processando, depois abriu um sorriso quase eufórico, virando para seus irmãos com a maior naturalidade.

 

- Hmmm!! Que diferente! A carne tá DOCE! Arrasou, maninho! - ela disse enquanto já colocava outra colherada na boca.

- Doce?! - Loui e Leo disseram ao mesmo tempo.

- Como assim doce? Você tá maluca agora? - Leo decidiu finalmente colocar uma colherada na boca… silêncio.

 

Loui franziu suas sobrancelhas, ele tinha certeza que tinha colocado sal na carne, então decidiu testar por ele mesmo, ao colocar a carne na boca o menino sentiu o gosto doce. Foi nesse momento que tudo começou a ficar mais devagar, ele ficou encarando o prato, incrédulo, como tinha conseguido cometer um erro tão ridículo?

 

- Maninho… tá gostoso, é-é sério… - Leo mentiu. Loui sabia.

 

O silêncio após a fala de Leo é ensurdecedor, Loui não reage, ou pelo menos ele aparenta não reagir, a única mudança notável no exterior seria sua mão se fechando com força por baixo da mesa. Ele não tem tempo pra isso. Não agora.

 

- Tá tudo bem, Leo, você não precisa falar isso pra me agradar - Ele sorri novamente pros irmãos, não é aquele sorriso genuíno de sempre, é o automático. - Eu vou ver se tem alguma coisa na geladeira de ontem, vocês não precisam comer isso. - Ele se levanta e se vira em direção da geladeira, antes que qualquer resposta surja.

- Loui… n-não precisa…

- Eu já disse que tá tudo bem, Leo - ele sorri de novo, agora por cima do ombro, olhando pro seu irmão - Não deixa a Louise comer mais, por favor, muito doce faz mal pra ela.

- T-tá - Leo respondeu, pegando o prato da irmã - O maninho disse pra você parar de comer, você não escutou?

- Mas nem tá ruim! Tá docinho!

 

Loui congelou na hora que ela repetiu isso, era como se fosse um tapa na sua cara.

 

- Tá, Tá! A gente já entendeu isso, Louise! Para de repetir! - Leo disse em um cochicho desesperado para que só a irmã conseguisse ouvir.

- Por que você tá falando baixo? - ela continuou em um tom completamente normal, alto o suficiente para que todos escutassem.

 

Aos poucos as vozes dos irmãos foram se tornando borrões dentro da cabeça de Loui, ele escutava, mas já não entendia a minutos.

Elas foram substituídas por uma voz mais alta. Mais cruel, e pior: vinha de dentro.

 

“Você errou.”

“Mais uma vez.”

“Você decepcionou eles.”

“Falhou no seu único trabalho.”

“Eles não merecem isso.”

“A culpa é sua.”

 

Seus olhos corriam pelas prateleiras da geladeira freneticamente em busca de algo para que seus irmãos comessem, qualquer coisa. Eles não podiam comer aquilo. Não enquanto ele estivesse ali.

Então eles param na cesta de ovos, era rápido, fácil, combinava com tudo…

 

- Eu vou… fritar alguns ovos pra vocês, ok? Rapidinho, leva 5 minutos.

 

Leo tinha se levantado e pegado os pratos que estavam à mesa, levando-os em direção de Loui, ele os colocou cuidadosamente sobre a pia, tudo aquilo também angustiava Leo, ele sabia que seu irmão não tinha feito por mal, ele sabia que ele estava cansado e que as tarefas excessivas o deixavam assim, e acima de tudo ele se sentia sufocado por não conseguir ajudar, não o suficiente.

 

- Aqui, maninho… e-eu lavo pra você.

- Obrigado, Leo.

 

Foi tudo que Loui disse enquanto fritava os ovos, o silêncio era desconfortável, cheio de palavras não ditas. O olhar de loui era focado, tenso, ele evitava olhar pros lados e pros irmãos, como se aquilo fosse o lembrar de seu erro. Em sua cabeça o barulho do óleo era alto demais, o cheiro dos ovos era quase angustiante, como se tudo fosse milimetricamente projetado para tornar a situação cada vez mais frustrante para Loui.

Ao terminar, Loui se dirigiu à mesa novamente, com os ovos servidos em um prato à parte, ele se sentou, serviu seus irmãos novamente, e comeu em silêncio. Os dois tentaram conversar, Leo principalmente, ele tentou puxar alguns assuntos com o irmão, mas era tarde demais, Leo sabia que ele estava preso em seus pensamentos e não responderia mais do que frases formadas por 2 ou 3 palavras curtas ditas de maneira distraída. Loui continuava sentado à mesa, mas já não estava mais ali.

E Leo… Leo não fazia ideia de quando ele voltaria.

 

Alguns minutos haviam se passado desde o almoço, Loui tinha se levantado da mesa e já tinha começado a lavar a louça, Louise e Leo estavam terminando de recolher suas coisas para seguirem para suas atividades extra classe, quando Leo se aproximou de Loui de novo:

 

- Maninho, já tá quase na hora do clube.

- Uhuul! A tia disse que hoje a gente vai pro tatame!! - Louise disse animada. - Eu vou SOCAR todo mundo! - Ela disse imitando um golpe.

 

Leo puxou de leve a barra da camisa de Loui, fazendo com que seu irmão finalmente olhasse para ele.

 

- Hm? Oi Leo…

- Eu vou levar a Louise hoje. Sozinho. - Ele tentou parecer firme.

- Boooo! Eu quero ir com o maninho!! - Louise deu língua pra Leo.

- Não precisa Leo, eu já to acabando. - Loui disse enquanto terminava de lavar o ultimo prato

- Eu vou sozinho!! Tchau! - Ele disse, pegando a irmã pela mão e a puxando para fora de casa.

- NÃaaaoooooo…… Louiii!!

- Leo, espera…! - Loui estendeu o braço como se tentasse alcançar eles, como se quisesse puxar os dois de volta, mas a porta já tinha se fechado.

 

Loui parou seu caminho na metade da cozinha, ele ficou ali, encarando a porta e decidindo se iria atrás ou não. Passaram diversas coisas em sua cabeça… mas por fim ele decidiu ficar em casa.

Pela primeira vez deixou seus irmãos irem, foi pela imposição repentina de Leo? Por cansaço? Ele não sabia, não viu os minutos passarem enquanto encarava a porta com esperança de que eles voltassem para buscar algo, ou talvez ele mesmo.

Foi quando o barulho da televisão o arrancou do transe, quanto tempo ele tinha ficado ali parado?

Loui piscou, assustado. Finalmente decidiu se mover, foi em direção da TV e a desligou, deixando a casa em um silêncio absoluto.

Sem vozes, sem risadas, sem passos.

Só Loui, e o peso de tudo que ele ainda não conseguira soltar.

“Chega.” ele pensou para si mesmo “Eu não posso fazer isso.” E foi assim que ele mergulhou novamente no ritmo de sua rotina diária, lavou, secou, estendeu as roupas, guardou… qualquer coisa que o fizesse se sentir mais prestativo, trabalhava como se tudo aquilo fosse apagar seu erro posterior, e no fundo, ele tinha esperança de que realmente iria.

Foi no final do dia, enquanto esperava seus irmãos voltarem de seus respectivos clubes que Loui finalmente parou, ele já tinha revirado cada canto da casa, a casa estava mais limpa que jamais estivera, ele estava deitado no sofá encarando o teto com fones de ouvido, provavelmente escutando algum álbum de um artista que gostava para se distrair, ele escutou a porta se abrindo e rapidamente sentou para checar quem era, e eram seus irmãos.

 

- Louiiiiii! - Louise foi correndo para o sofá e se jogou em cima do colo do irmão.

Loui soltou uma risada fraca e acariciou o cabelo da irmã

- Também senti sua falta, Louise.

Leo também se aproximou, ficou parado de frente pro irmão, como se estivesse o examinando.

- E ai Leo, como foi a aula? - Loui perguntou, sorrindo pro irmão e bagunçando seu cabelo afetivamente.

- Legal, o professor me ajudou a montar um robô - Ele pegou o robôzinho da bolsa e mostrou cuidadosamente pro irmão mais velho

- Que bonitinho, Leo! Eu tô muito orgulhoso de você.

 

Leo corou instantaneamente, estava acostumado com a sinceridade de seu irmão mais velho e como ele tinha facilidade de demonstrar afeto pelos dois, depois de alguns momentos encarando o chão Leo tomou coragem e falou, baixinho:

 

- E-eu também tô orgulhoso de você, maninho. - Ele apertou o robô contra o peito.

- Eu também!! - Louise continuou, levantando a cabeça do colo do irmão e olhando para ele, com um sorriso banguela.

 

Loui ficou surpreso, ele não estava esperando aquele tipo de resposta, não depois do dia que teve.

 

- Mas eu não fiz nada… - Ele piscou, sentiu seus olhos se umedecerem um pouco, mas nenhuma lágrima foi derramada.

- E-eu só senti que eu tinha que falar isso! - Leo virou o rosto, segurando o choro e saiu correndo escada acima, Loui só escutou a porta de seu quarto batendo com força.

 

Ele olhou para baixo para Louise, que ainda estava esparramada em seu colo e continuou ali, fazendo carinho no cabelo de sua irmã enquanto ela tagarelava sobre como as outras crianças viviam correndo dela na aula de Judô e como ela não entendia o por quê. Com esse clima mais calmo, a reafirmação sutil dos irmãos, Loui por um momento se sentiu mais leve, se deixou aproveitar o momento e relaxar, seus olhos se fecharam lentamente e o menino acabou cochilando ali mesmo, no sofá, com Louise em seu colo e sua mão gentilmente entre os fios de cabelo da irmã.

O silêncio da casa foi ficando cada vez mais profundo, até que o barulho de chaves  surgiu do outro lado da porta, que logo se abriu e lá estava a figura de Amélie Joy. A mãe tinha sua aura exausta de sempre, parecia que havia trabalhado por todos no pokecenter, e convenhamos, provavelmente tinha.

Ela rapidamente examinou o ambiente, a casa estava extremamente limpa, tudo estava no lugar. Ela entrou pelo corredor, colocou suas chaves e bolsa sob a mesa de entrada. Foi aí que seus olhos pousaram em Loui e Louise, que estavam dormindo um encostado no outro, no sofá da sala, enquanto uma coberta cobria os dois. 

Ela olhou por alguns segundos, depois desviou o olhar e foi estender seu jaleco no cabideiro. Após alguns minutos, Loui finalmente começou a despertar, ele coçou seus olhos e olhou ao redor, piscando lentamente, viu a figura de sua mãe de costas, indo em direção a cozinha. O garoto se endireitou em seu lugar instantaneamente, esquecendo completamente que sua irmã estava escorada nele, a fazendo deslizar pelo sofá, mas continuou dormindo.

 

- O-oi mãe, boa noite… - ele começa a se levantar - Eu já tava indo fazer o jan-

- Não precisa. - Ela disse, ainda de costas.

- M-mas eu sempre faço…

- Tenta não explorar muito com temperos na próxima vez. - Ela disse enquanto tentava consertar o erro no tempero da carne.

 

Loui parou. Nem raiva, nem grito. Só aquilo. uma frase que soava leve como papel, mas vindo de Amélie, era pesada como chumbo.

Seu olhar baixou instintivamente como se seus olhos estivessem grudados no chão, seu peito começou a apertar lentamente e sentiu seu estômago revirar. Ele precisava sair dali. Agora.

 

- A-ah… Eu vou… terminar o dever de casa… - Ele se virou e começou a andar lentamente em direção a escada, como se seu corpo estivesse cada vez mais pesado.

 

Quanto mais Loui avançava os degraus da escada, mais sentia a necessidade de apertar o passo, a sensação era tão sufocante que parecia que a escada estava cada vez mais longa, como se vencer cada degrau exigisse força de vontade, da qual ele claramente não tinha agora.

Ele segurava o corrimão como se dependesse dele para continuar em pé, e talvez realmente dependesse. Quando chegou ao segundo andar, a única coisa que escutava eram seus passos apressados pelo corredor e sua respiração desregulada, Loui não pensou duas vezes, segurou a maçaneta de seu quarto e abriu a porta com tudo.

Ele sabia que aquele momento iria chegar eventualmente, mas será que fazia doer menos? A voz seca de sua mãe era como se fosse a confirmação que precisava, ela não falava muito, mas apenas o suficiente para o pequeno sentir que estava decepcionada.

Foi quando Loui fechou a porta e caminhou lentamente para sua cama, se sentando, que sentiu que todo o controle que ele tinha conseguido segurar durante o dia estava escorrendo entre seus dedos. Ele encarava as mãos trêmulas na penumbra do quarto, sentia sua visão embaçando lentamente enquanto as lágrimas começavam a surgir. Foi um choro quieto, No fundo Loui sentia que era o mínimo que poderia fazer, se fosse para ser um peso, que pelo menos fosse um peso silencioso, que não causa incômodos. 

Os minutos foram se passando enquanto Loui tentava se esconder do mundo entre suas cobertas, ele apertava um de seus plushies como se fosse o proteger de algo. 

 

Ele escutou uma batida leve na porta, outra… mais outra… quando uma leve voz interrompeu o momento, vinda do outro lado da porta:

 

- Maninho… A janta tá pronta. - Era Leo.

 

Loui rapidamente limpou suas lágrimas, se levantou como se sua vida dependesse daquilo e tentou espalhar papéis em sua mesa para fingir que estava fazendo algo caso Leo abrisse a porta.

 

- E-Eu não tô com fome Leo, já comi - Ele respondeu, mas sua voz soava mais trêmula do que havia planejado.

Silêncio, era como se Leo estivesse pensando como prosseguir do outro lado da porta.

 

- Maninho…? 

“Droga” Loui pensou, “Ótimo, agora ele escutou essa sua voz de pidgey assustado.”

 

- Oi Leo - Loui tentou soar mais firme agora - Eu to terminando uma coisa aqui, depois eu desço pra comer alguma berry ou sei lá… Pode ir-

 

Leo não obedeceu, ele decidiu abrir a porta.

Ele se deparou com a imagem de Loui parado no meio do quarto, coberto por uma manta, claramente assustado, como se tivesse sido exposto. Seus olhos estavam levemente inchados e vermelhos devido ao choro, dava pra ver alguns lenços na sua mesa de cabeceira… e principalmente, os Plushies que Leo sabia que haviam sido dados para ele por sua mãe.

Loui, envergonhado de ter sido pego por seu irmão nesse estado, desviou o olhar e tentou falar com as últimas forças que lhe restavam:

- E-eu pedi pra você ir jantar…

 

Leo não escutou de novo, ele fechou a porta atrás de si mesmo e saiu correndo na direção do irmão, o abraçando como se sentisse medo de que seu irmão fosse desabar entre seus braços, diferente de Loui, o choro que veio de dentro de Leo era um choro barulhento, desesperado. 

 

- L-Leo… - Loui o encarava em choque, não estava esperando aquele tipo de reação de seu irmão mais novo.

 

Mas Leo não soltou, só abraçou o irmão com mais força. Loui encarou o teto por um segundo, suspirou como se tivesse tentando segurar o próprio choro de novo… ele se abaixou para ficar da altura de Leo, limpou suas lágrimas (sem muito sucesso, Leo ainda estava chorando), ele não disse nada, mas não precisava. O abraço que veio a seguir foi caloroso, Loui tentava confortar seu irmão, fazendo carinho em suas costas e posicionando a cabeça do pequeno em seu ombro, enquanto passava seus dedos em seu cabelo.

 

- Tá tudo bem, Leo, eu tô aqui. - A sua voz quebrava, ele estava tentando ao máximo não chorar também.

- E-Eu não gosto de te ver assim… - Leo fungava entre as lágrimas.

- … me desculpa.

- I-idiota! - Leo deu um soquinho fraco no ombro do irmão. - P-para de fazer isso… não pede desculpas…

 

Loui suspirou, ele abraçou o irmão mais forte.

 

- Eu só não queria que você tivesse me visto assim…

- V-você nunca quer, esse é o problema…

 

Aquelas palavras o acertaram como um caminhão, ver seu irmão mais novo, daquele jeito vulnerável e exposto, como se fosse um espelho a ele mesmo mexia mais com Loui do que qualquer coisa. Ele finalmente quebrou o abraço, mas não se afastou de Leo, pegou sua mão entre as dele e disse:

 

- Olha Leo… você é um menino muito inteligente… as vezes isso acaba dificultando a minha imagem de irmão forte… - Ele dá um riso anasalado - mas… o-obrigado… por sempre estar aqui…

 

Leo caiu no choro de novo, como se estivesse aliviado, Loui também sentiu seus olhos enchendo d’água, ele levantou, guiou seu irmão para sua própria cama, deitou ele e se ajeitou ao seu lado, o abraçando.

Os dois continuaram ali, enquanto Leo colocava tudo para fora e Loui gentilmente aconchegava seu irmão. Era como se mesmo depois de um dia difícil, os dois finalmente tivessem encontrado um porto seguro um no outro, como sempre faziam. E foi assim que, ao final do dia, os dois acabaram adormecendo juntos, como se a paz que proporcionam um ao outro fosse o que realmente importava no final das contas.