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Veja bem: mudar para o apartamento de Sasuke não era bem uma coisa ruim. Era prático. Era lógico. Era, podia-se argumentar, até o correto a se fazer.
Para a surpresa de zero pessoas (nem mesmo Sakura tinha algum tipo de esperança naquele sentido), assim que ele e Naruto foram considerados aptos o suficiente depois de constatarem que, realmente, nenhum dos dois cresceria um braço de volta, Sasuke caiu no mundo; uma missão secreta, obviamente, e não havia suborno capaz de convencer Kakashi a contar para alguém o destino. Nada era mais persuasivo do que a fúria incontrolável de Tsunade, pelo menos, especialmente quando ela estava tão ocupada com os cuidados médicos do pós-guerra que tinha batido o recorde de dias sem tocar em nenhuma bebida.
O período de recuperação depois da luta final entre Sasuke e Naruto não tinha demorado muito. Tinha sido bem pouco, inclusive, caso alguém quisesse saber a opinião de Naruto sobre o assunto. Mas ninguém queria, naturalmente, porque tinha muito a ser feito por ele em outras frentes de trabalho. A Vila da Folha estava sob pressão não somente dos próprios moradores, mas externa – os senhores feudais, especialmente do País da Tempestade, não estavam tão felizes com a destruição que permanecia depois da luta contra uma besta ancestral e um bando de alienígenas. O chakra de Naruto, ele aprendeu, não era somente útil no combate (ou para o sexy no jutsu, convenhamos): as reservas incansáveis da Kyuubi são mais do que bem-vindas na reconstrução de vilas, cidades e países inteiros.
O palpite de Naruto é que Sasuke ficara com a reconstrução do Vale do Fim. Era algo que se encaixaria com a perversão sádica da Vila da Folha. Uma autoflagelação em forma de missão.
— Você o viu por lá? — Naruto perguntou um dia para o mais simpático do grupo na ausência de Gai: Rock Lee, obviamente.
— Sasuke? — As sobrancelhas de Lee formaram uma configuração bem rara de ser vista, mesmo em tempos de guerra: confusão. — Era para eu ter visto?
— No País do Fogo? Espero que sim — Naruto devolveu, risonho. — Não sei se já deu tempo de tirarem ele do Bingo Book nos outros países.
Lee deu de ombros, o bom humor voltando às suas feições.
— Ah, meu amigo, fique tranquilo quanto a isso. Tenho plena certeza de que não existe alguém capaz de capturá-lo neste planeta — e, olhando Naruto de soslaio, o cutucou com o cotovelo e acrescentou: — nem você conseguiu! Tenha fé. Tenha confiança!
— Uau — Naruto pronunciou a palavra sem emoção alguma, propositalmente impassível. — Você é um ótimo amigo. Muito encorajador da sua parte. Fiquei até com saudades do Gai! Mas tenha fé — e cutucou Lee de volta. — um dia você chega aos pés dele!
A risada de Lee foi mais alta desta vez. As pessoas em volta, felizmente, já estavam habituadas ao nível de decibéis que os dois eram capazes de chegar e não prestavam mais atenção. Ou era o que Naruto achava, pelo menos.
𖦹
O modo sábio tem inúmeras vantagens, desde as mais óbvias até as mais pessoais (era um jeito de matar a saudade de Jiraya). Uma das heranças menos utilizadas por Naruto até essa noite, de longe, era a percepção sensorial, já que ele nunca foi exatamente conhecido por ser – ou precisar ser – sutil. Mesmo fora do modo sábio, ele sentia os arredores com mais firmeza, até as coisas que não eram táteis: o som, o cheiro, o jeito que um movimento deforma o ar.
Ele já estava com a kunai na mão esquerda e o chakra da Kyuubi queimando nas veias antes que quem quer que fosse se aproximasse do quarto. Desde que se mudou para o apartamento de Sasuke, Naruto não se preocupou em colocar nenhum tipo de proteção, o que, em retrospecto, foi de uma burrice imensa. Nada. Nenhum selo, o que o envergonha mais ainda – ele queria aprender direito parte desse conhecimento que também entendia como uma herança da mãe e, por razões que só o luto conhece, continuava postergando.
Mas também, quem seria o animal que invadiria o apartamento de Sasuke Uchiha? Apartamento este que, como toda a vila sabia, abrigava atualmente a porra do salvador do mundo? A criança da profecia? O filho do quarto hokage, o pupilo de um grande sennin, o aluno do sexto hok–
Quando viu, compreendeu rapidamente. No caso, não era “quem”, mas o quê. Um enxame de abelhas se aproximou rapidamente do rosto de Naruto, que pouco fez, em choque, mais do que engolir um grito e se pôr de pé em um instante, saltando o mais rápido possível em direção ao banheiro da suíte onde dormia (é claro que ele dormia na cama de Sasuke. Onde mais? No sofá? Me poupe).
Uma voz metálica preencheu o ar antes que a água começasse a cair, mas já era tarde demais; não tinha mais como evitar o banho gelado. Berrava: ESPERE AÍ.
Atordoado, Naruto desligou o chuveiro e encarou o enxame. Era difícil não encarar de qualquer forma. Era uma coisa bem hipnotizante.
NÃO POSSO TE DIZER ONDE ELE ESTÁ AGORA, ecoaram as abelhas em um perfeito uníssono. Naruto não precisou perguntar quem era “ele”; sabia de quem se tratava. Saberia sempre. MAS TENHO UM RECADO DELE PARA VOCÊ.
“Pois não?” Naruto balbuciou. Podia ser espalhafatoso, mas jamais mal-educado.
TRATA-SE DE UMA LISTA DE COMPRAS. ELE GOSTARIA DELAS FRESCAS NESTE APARTAMENTO NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA. ACHA QUE CONSEGUE FAZER ISTO?
Ele estava maluco ou as abelhas estavam falando com uma certa ironia?
“Claro,” respondeu, levemente ofendido.
PEGUE UM PAPEL E CANETA, MENINO. NÃO TEMOS A NOITE TODA.
Eu já vi aliens, pensou Naruto enquanto saía nu pelo apartamento atrás de algo que pudesse usar para escrever. Um dos pequenos luxos que ele se dava quando não estava em missões era dormir pelado. Foi exatamente assim que as abelhas o encontraram. Já derrotei aliens, lembrou. Um enxame de abelhas não é nada.
A forma como elas ditavam uma lista de compras e ingredientes para ele, sentiu Naruto, tinha um tom bravo quase maternal. Amanhã eu vou começar a estudar selos.
𖦹
Assim que saiu do hospital, Sasuke rumou para aquela que seria sua última parada antes de deixar Konoha novamente. Mesmo sem convite, Naruto o acompanhou. Sasuke também não fez nenhuma objeção à companhia; pelo contrário, fez perguntas a Naruto durante todo o trajeto. Onde tinha ido parar uma determinada loja? Os pais de Sakura ainda moravam naquela rua? A floricultura dos Yamanaka ainda funcionava? O que mais tinha ido embora com o ataque de Pain, além da vila da família Uchiha? Muitas coisas, Naruto explicou. Quase todas, pra ser sincero.
Sasuke falava mais desde o Vale do Fim, mas a verborragia parecia estar somente direcionada a Naruto – o que o envaidecia profundamente. Quando chegaram ao apartamento, Sasuke murmurou educadamente um “sinta-se em casa”, o que (talvez) Naruto tenha tomado de forma mais literal do que era a intenção.
Ao partir, Sasuke explicou que tinha uma missão “mais pessoal do que profissional”. Naruto ficou assombrado tentando entender se isso era uma espécie de piada ou brincadeira da parte dele. Achou que ele voltaria antes de ir definitivamente; só estava equipado com uma capa enorme, semelhante a um poncho. Naruto só tinha visto aquele tipo de vestimenta mais ao norte, nas montanhas de Otaru. Devia ter desconfiado que aquela era a partida porque, antes de se dirigir à porta, Sasuke aproximou-se dele e tocou o braço que havia sido fragmentado durante a luta final – um toque suave com a ponta dos dedos, quase fantasmagórico. Naruto sentiu o braço inteiro formigar, independentemente de ele ter sido amputado ou não. Não conseguia tirar os olhos dos de Sasuke. Perguntou-se se o rinnegan o fazia enxergar seu corpo como ele já tinha sido. O sharingan se lembra de todas as cicatrizes feitas por ele, todas as que a Kyuubi curou? Ele quis perguntar, mas Sasuke falou antes.
— Você não pode esquecer de cuidar disso aqui — e tocou (acariciou?) a ponta do braço perdido. Era confuso: o tom era de bronca, o toque evocava preocupação. Mas Naruto preferia assim: Sasuke falando.
𖦹
Quando Sasuke entrou novamente pela porta do apartamento naquela quarta-feira, Naruto escolheu lançar uma pergunta como uma shuriken em vez de adotar um tom educado de boas-vindas.
— Agora você é Anbu?
— Olá para você também — Sasuke murmurou enquanto tirava os sapatos calmamente, usando os calcanhares em vez das mãos – da mão.
As abelhas, Naruto entendeu horas depois, eram, obviamente, uma cortesia de Shino. Por que diabos Shino seria um garoto de recados de Sasuke? Por que diabos Shino, e não ele? Só durou uma ida ao Ichiraku com Kiba. Shino tinha sido promovido na Anbu; entre as designações do cargo, uma delas era cuidar das comunicações da forma mais segura e eficiente possível. Naruto compreendeu que ele era uma exceção às sutilezas. Um enxame de abelhas não foi exatamente discreto. Eficiente? Com certeza. Ele demorou três horas para conseguir dormir. Teria se lembrado da lista mesmo se não tivesse anotado.
Mais chocante ainda era a informação de Sasuke responder a Shino. Ou contar com ele. Naruto conseguia imaginar poucas coisas que eram menos do feitio de Sasuke do que servir uma instituição tão subordinada à Konoha.
E, de novo, Shino? Com todo respeito. Shino?
— E aí? — Naruto questionou. De repente, se deu conta de que parecia uma senhora recebendo seu marido com décadas de casamento. Descalço na cozinha, picando legumes, pano de prato apoiado no ombro.
Sasuke virou-se para encará-lo e pareceu pensar a mesma coisa. Ao menos, foi assim que Naruto interpretou o sorriso malicioso que brotou no rosto dele. Ficou incrédulo.
— E aí?
— Shino me devia um favor — Sasuke explicou, agora tirando o poncho cuidadosamente. Meticulosamente. Muito lentamente até para os padrões de asseio de Sasuke Uchiha. — Ainda me deve, para falar a verdade.
Lívido, Naruto resmungou:
— Me deixa ver sua cara.
Sasuke parou no meio do movimento, congelado por mais longos segundos. Naruto ficou ainda mais lívido, dessa vez por outro motivo: Sasuke obedeceu. Em vez de retirar o poncho, voltou com ele para o lugar anterior. O cabelo dele estava mesmo longo, Naruto percebeu. Ele tirou a mão da faca para fazer um movimento curto, próximo ao rosto, indicando para Sasuke retirar a franja do olho. Foi neste momento que Sasuke percebeu o novo braço de Naruto. A expressão se retorceu, mais curiosidade do que ojeriza.
— Você primeiro — Sasuke impostou a voz no apartamento pequeno. Esse tom, Naruto pensou, eu não escuto desde a guerra.
𖦹
A verdade é que, desde o Vale do Fim, Naruto estava incompleto.
Não de um jeito dramático ou metafórico. Era meio óbvio: tinha perdido o braço. Nas primeiras horas depois de recobrar a consciência pós-luta, atribuiu o sentimento de vazio a isso. Kurama foi bem meticulosa dessa vez, mais carinhosa do que Naruto jamais tinha sentido: fez tudo da forma mais cuidadosa e veloz possível, lamentando profundamente não poder crescer um braço novo para ele. Naruto, como não podia deixar de ser, ficou comovido. Era mesmo estranha a sensação.
Em poucas horas, já podia andar pelo hospital. Primeira constatação: ninguém tem coragem ou até mesmo vontade de parar o cara que salvou o mundo. Segunda: ninguém tem muita vontade de cuidar do cara que quis matar o cara que salvou o mundo. Naruto não encontrou resistência alguma em chegar ao quarto onde Sasuke estava.
Por dias, Sasuke dormiu. Era difícil associar a figura tão poderosa de poucos dias antes, cheia de força e sentimento, à figura flácida e temerosamente imóvel na cama. Eles – ele, na verdade; Naruto não devia estar ali, mas, curiosamente, ninguém pareceu surpreso em encontrá-lo lá – receberam visitas ao longo de quase uma semana. Naruto não se lembrava de quanto tempo se passou. Ele ainda não se lembra.
Ele sabe, no entanto, que foi na segunda noite naquele quarto que percebeu que o vazio físico deixado pelo braço era impossível de acessar. Até mesmo Kurama permaneceu em silêncio. Raiva do Uchiha, talvez, mas Naruto não sentia nenhuma centelha de rancor por parte da besta.
Dormiu bem pela primeira vez em anos.
No dia seguinte, dolorido pela posição em que passou a noite, foi em busca de uma cadeira mais confortável. Novamente, ser um herói ajudava: foi fácil se acostumar a ser tratado bem. Ser tratado como gente. Todas as macas e camas estavam ocupadas, pediram mil desculpas, ainda lidavam com as consequências da guerra. Mas, para ele, trouxeram a poltrona da sala da direção do hospital. Tsunade em pessoa a trouxe para o quarto.
Ele arrastou a poltrona para perto da cama, sentando-se prontamente nela e apoiando os pés no lençol. Ali, ele começou a falar com Sasuke. Talvez seja por isso a verborragia que veio depois. Ou não; Naruto sempre falou com Sasuke, para Sasuke, sobre Sasuke. Quando ele acordou, Naruto estava falando. Foi tão natural a transição – em coma/acordado – que parecia enxergá-lo acordando como em qualquer outra manhã, exceto que era de madrugada e Naruto sussurrava em vez de dar bom dia. Estava contando para Sasuke sobre quando conheceu a mãe. Me lembro até do cheiro dela, Naruto contava enquanto ele abria os olhos, talvez lembrando-se da sua também.
A dor do vazio, a dor da falta, só voltou a assombrá-lo depois que Sasuke saiu de poncho e não voltou mais. Ele esperou no apartamento. Depois, não quis mais sair dali. Era mais prático, mais no centro de Konoha, mais perto de tudo, até do Ichiraku. Sasuke não se importaria. Porra, se ele visse o estado do apartamento em que Naruto cresceu, talvez até tivesse oferecido antes.
Ele pensou que, no apartamento, a dor voltaria a passar. Não passou. Não era bem uma dor, para falar a verdade. Era um eco vazio, um vácuo forte e incômodo demais para ser ignorado, pulsante como um segundo coração. Ele não teve tempo de perguntar se Sasuke sentia o mesmo. Queria fazê-lo pessoalmente, tocar o braço da mesma forma que ele tocou o seu.
Com a demora da missão, aumentou o fluxo de soluções sugeridas por Tsunade e a equipe médica. Naruto não teve força para negar a opção das células de Hashirama; via em Tsunade uma saudade que ele também sentia, exceto que a dele era por alguém ainda vivo. Talvez essa fosse a solução: iria tapar o vazio, fazer algo crescer nele. Não adiantou, mas essa parte ele nunca contou. A física correu muito bem. Aos olhos dos médicos e enfermeiros, o projeto foi um sucesso. Aos olhos de Sasuke agora, no meio da cozinha do seu apartamento, ele parecia mais quebrado do que antes. E os olhos de Sasuke eram mais confiáveis do que quaisquer outros no mundo.
𖦹
Naruto contou toda a história, assim como Sasuke a dele. Começaram conversando na cozinha, depois com o poncho devidamente retirado, depois na sala, depois no quarto, terminando agora, no banheiro, com Naruto tentando falar enquanto escovava os dentes. Sasuke limpou um pouco de pasta no queixo dele enquanto ele tentava explicar a logística do transplante de células pela quinta vez.
— Eu não sei se quero entender — Sasuke alegou, os olhos cansados, mas vivos.
Naruto cuspiu na pia.
— Nem eu, agora que eu parei pra pensar.
Sem perder um segundo, Sasuke emendou:
— Vamos dormir?
— Claro — Naruto concordou mecanicamente. — Você deve estar cansado. Vou pegar meu travesseiro.
— Por quê?
Naruto o fitou, metade riso, metade incredulidade.
— Você é escroto assim mesmo? Me deixar dormir sem um travesseiro nesse seu sofá fora do normal de tão duro? Aliás, como é que você tolera isso? Só mesmo você pra ter um sofá tão duro. Só mesmo você, com sua posturinha tão perfeita, — Naruto pontuou a acusação cutucando Sasuke bem no meio do peito com o cabo da escova de dente. — para sentar numa merda daquelas sem sentir dor nas costas. É uma bosta. Sinto em lhe informar.
— Não, você não sente em me informar, não — Sasuke respondeu, o tom monótono. — Se pudesse, você me esfaquearia com essa escova agora mesmo.
— Eu deveria — admitiu Naruto, com uma certa diversão.
— Me poupe, por favor, ó, herói salvador — Sasuke seguiu no mesmo tom de tédio. — Eu vou me sacrificar, em nome do povo de todos os países, e dormir no sofá duro.
— Absolutamente não.
— Desde quando você fala absolutamente?
— O apartamento é seu.
— Você está morando aqui.
Silêncio. Naruto quis rir, mas algo no rosto de Sasuke indicou uma certa seriedade. Ele se perdeu. Automaticamente, tirou uma mecha da testa do outro, frustrado para lê-lo melhor.
— Você quer que eu faça o quê? Me mude?
Sasuke pareceu mais exasperado.
— O que você quer de mim? — Naruto perguntou em um tom muito pouco característico. Baixo.
— Você fez as compras — Sasuke argumentou debilmente, mas ainda com autoridade na voz.
— Você mandou.
— Eu pedi.
— Você mandou um enxame de abelhas mandar em mim.
— Eu não sabia que seria um enxa– Você tem medo dos insetos do Shino?
— Para o seu governo, sharingan, muita gente na guerra teve medo dos insetos do Shi–
— Você teve medo dos insetos do Shino dentro da sua casa, completamente seguro, sem nenhuma guerra à vista, sabendo quem é o Sh–
Naruto sorriu. Sasuke ficou um pouco impressionado com quão felino aquele sorriso o fez parecer. Ficou mais impressionado ainda com quão bonito achou tudo isso.
— Onde eu estava?
— Na sua casa — Sasuke confirmou. Não estava caindo em pegadinha nenhuma. Ele queria dizer cada palavra que saía da boca dele.
— E o sofá?
— Impróprio para uso, como você acabou de me dizer.
— Você diria que o sofá também é meu?
Sasuke bufou e fez menção de sair do banheiro.
— Pelo amor d–
Ele parou não porque Naruto o segurou, mas porque ele foi muito gentil ao fazê-lo.
— Se a casa é minha…
— Eu já estou indo para a porra do sofá — defendeu Sasuke. Como é que Naruto tinha ficado ainda mais felino? Seria a Kyuubi tomando forma? Nem assim o sharingan tomou vida. Estou seguro aqui, Sasuke sabia. É meu lar.
— Se o sofá é meu, eu te proíbo de dormir nele.
Sasuke não aguentou. Riu. Um riso curto, rápido, que tirou toda a aparência felina de Naruto.
𖦹
Nenhum dos dois calou a boca para dormir. Naruto falou mais, Sasuke mais ainda. O mais impressionante, no entanto, foi quando finalmente dormiram e, em dado momento, Naruto acordou sobressaltado, suando. Pouco característico dele; seu corpo já era mais quente que o normal e ele sempre preferiu o calor, dificilmente suando. Entendeu quando foi se mexer e sentiu o peso da perna de Sasuke entrelaçada à sua. Não se mexeu. Dormiu novamente em pouco tempo, o sol já acariciando a cortina.
Acordou com a ponta dos dedos de Sasuke percorrendo o novo braço.
— Você sente isso? — Ele perguntou assim que Naruto o fitou longamente, ainda bêbado de sono, metade naquele mundo, metade em outro. — Quando tocam nesse braço?
Ele fez que sim com a cabeça. Sasuke estava o observando, o rosto complacente, mas os olhos ansiosos. Era tão pouco característico vê-lo assim. Em vez de alarmá-lo, no entanto, só conseguia se sentir enternecido.
— Ainda posso sentir o meu às vezes — continuou Sasuke, dedos ainda percorrendo seu braço, olhos ainda no rosto dele. Pelos cálculos de Naruto, ele estava fitando suas bochechas.
— Dói? — Naruto perguntou.
Foi a vez de Sasuke confirmar com a cabeça, os olhos ainda percorrendo o mesmo lugar. Naruto mastigou a própria saliva, repentinamente ansioso, uma bola de energia subindo a garganta. Sentiu os lábios formigarem. Agora Sasuke olhava para eles.
“Dói muito,” Sasuke continuou. “Estou acostumado.”
— O meu também — Naruto apressou-se em concordar, aflito em superar o nervosismo que parecia tão infundado. Sentiu o momento voar delicado entre eles e, atordoado, sentia medo de que a força das pequenas coisas, até mesmo da sua voz, pudesse quebrá-lo se Naruto não fosse habilidoso o suficiente. Imaginou a energia palpitante de um rasengan, poderosa e tão fluida. Empunhou aquela energia tantas e tantas vezes. Mas aqui não é guerra, não é luta, pensou Naruto. Aqui é lar, reconheceu. Conceito estrangeiro. Nervosismo explicado. — É tipo um vácuo — ele tinha menos sorte com as palavras que falava do que com as que pensava. Tudo era mais bonito na sua cabeça. Maior, mais brilhante. — Dói sem parar.
Silêncio, mas um silêncio elétrico. Naruto lembrou que aquela também era a natureza de Sasuke – poderosa e, em vez de fluida, considerada descontrolada. Sasuke se mexeu primeiro com os olhos; os tirou do rosto de Naruto e baixou até seu braço novo, reluzente, oco. Naruto assistia, mas sem compreender o que via. Sentiu antes de entender a boca de Sasuke pressionada sobre o interior do seu pulso, onde ele ainda sentia o fantasma de onde os dedos passaram minutos antes. Percebeu que o vácuo não doía mais.
— Ainda sente? — Sasuke perguntou, boca ainda rente à pele de Naruto. — Dor? — Ele acrescentou pouco depois, provavelmente devido ao silêncio estupefato que seguiu a pergunta. Ele parecia estar apreensivo em fitar Naruto de novo, preferindo manter os olhos baixos.
Naruto fez que não com a cabeça. Percebeu que Sasuke não podia vê-lo, mas certamente sentiu o movimento, já que teve o ímpeto de, agora sim, voltar a olhá-lo.
— Não sente nada? — Sasuke perguntou.
— Tenta de novo — Naruto devolveu rapidamente. Sua voz parecia um eco do menino que ele foi na academia, observando Sasuke de longe, sentindo que era observado de volta. Ele pensou que Sasuke crispasse os lábios, o xingasse, até mesmo que risse. Mas ele voltou o rosto novamente para o braço, agora beijando o tecido delicado da dobra, onde terminava o antigo e começava o novo braço. Aquele era um animal completamente novo; Naruto não esperaria aquilo em um milhão de anos. Ao se maravilhar, percebeu que desejava aquilo por muito tempo também. Desejando – o desejo o atingiu em cheio. Explodiu o vácuo, preencheu seu corpo, pareceu se estender até a alma. Ficou tonto, mas não a ponto de não sentir a boca de Sasuke tocando mais uma, duas, três vezes sua pele nova.
— Queria poder beijar a sua — Naruto pareceu vomitar as palavras. Assim que elas saíram, sentiu-se mil vezes mais aliviado. Assim que Sasuke virou-se para fitá-lo, o alívio virou eletricidade.
— Mas você pode — ele devolveu.
Naruto bufou, parcialmente impaciente, parcialmente maravilhado.
— Você pode me beijar onde quiser — Sasuke continuou, como quem diz que a grama é verde.
Dali a exatas duas semanas, quando seria o aniversário do Sasuke, Naruto diria essa mesma frase para ele, naquela mesma cama, só que sem o sol banhando as cortinas. Ele já teria entendido como era apaixonado pelo peso, pelo som, pelo teor e pelo gosto da boca dele. Por ele inteiro. Naquele momento, no entanto, para entender ele precisava ceder à vontade. Todo o pulsar dolorido que um dia ele já sentiu doer no vácuo agora pulsava quente, derretendo na ponta da própria língua.
Sasuke se aproximou lentamente, como prestes a atacar, exceto que Naruto conhecia bem cada ataque dele e sabia dizer que esse era inédito. O mais letal de todos.
— Posso? — Sasuke perguntou bem em frente ao seu rosto, olhos nos olhos, o vermelho do sharingan começando a sangrar na pupila.
— Sinta-se em casa — Naruto sussurrou, sentindo a vontade escorrer da língua para os lábios. Parecia que ele ia desmaiar.
— Eu estou — Sasuke sussurrou de volta antes de extinguir o vazio.
