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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-04-30
Completed:
2026-05-13
Words:
13,735
Chapters:
2/2
Comments:
34
Kudos:
428
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34
Hits:
7,273

Conversa de Madrugada

Summary:

Uma conversa às 3 da manhã sobre algumas coisas inadiáveis.

Notes:

Eu prometi a mim mesma que não escreveria nada sobre esse casal mas sou uma mulher de promessas vazias.

Mexi no canon e na linha do tempo, dei um talento e um emprego na Fundação para a Lorena porque alguém tinha que dar, inventei uma história para a família da Eduarda. É bom ou ruim que eu não sou estagiária do Aguinaldo? Não sei.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter Text

Lorena estava atrasada. Não era uma surpresa, exatamente, pelo menos não na última semana, quando a coincidência de quatro noites de festival e o período de fechamento contábil a tinha mantido no bar até muito mais tarde do que seu expediente normal. Além disso, na Fundação, uma mistura de nepotismo e talento com números significava que Lorena tinha sido facilmente absorvida pelo Departamento Financeiro para ajudar na árdua tarefa de separação entre contas legítimas e contas ligadas às iniciativas mais... alternativas de Santiago Ferette, o que significava que, nos últimos tempos, ela saía cedo e voltava tarde e ela e Eduarda mal se viam.

Eduarda se recusava a ver problema nisso. Seus próprios horários na delegacia eram – ou, até muito recentemente, tinham sido – no mínimo imprevisíveis, e ela não queria ter um relacionamento que vacilava sob o peso das responsabilidades fora de casa, então ela não seria o tipo de namorada – noiva, esposa, tudo ao mesmo tempo – que criaria confusão com horários ruins e cargas de trabalho caóticas. Ela nem tinha energia para isso.

Mas já passavam de duas da manhã, e o bar fechava à uma, e Eduarda tinha um turno que começaria às oito e ela definitivamente deveria estar dormindo, mas Lorena estava atrasada e Eduarda precisava falar com ela. Inadiavelmente. Estava no sofá desta vez, porque nas últimas 5 noites ela tentara esperar Lorena na cama mas o cansaço e o desgaste emocional tinham falado mais alto e ela acabara dormindo e acordando em uma cama vazia, com apenas indícios de que Lorena tinha estado lá em algum momento da noite. Desta vez, ela estava decidida a não dormir, decidida a esperar o tempo que fosse, nem que para isso precisasse virar a noite sentada naquele sofá e se contentar com um cochilo no sofá da sala do delegado no dia seguinte.

Não foi necessário. O barulho de chave na fechadura cortou o silêncio do apartamento às 2:23 – Eduarda checou – e Lorena entrou devagar, claramente focada em não fazer barulho enquanto fechava a porta e descartava sua bolsa e jaqueta na entrada. Eduarda observou em silêncio enquanto Lorena tirava e chutava suas botas para o lado de qualquer jeito e o suspiro involuntário que soltou diante da bagunça foi suficiente para fazer Lorena perceber sua presença e travar por um segundo.

– Oh, meu amor – Lorena disse em pouco mais de um sussurro. Não tentou disfarçar a surpresa. – Você ainda está acordada?

Eduarda tentou forçar um sorriso que ela imediatamente soube que não saiu certo.

– Oi – respondeu, mexendo distraidamente na almofada em seu colo para ter o que fazer com as mãos.

Lorena franziu o cenho, aproximando-se devagar.

– Está tudo bem?

Eduarda hesitou e viu Lorena travar de novo antes de alcançar o sofá. Abraçando a almofada, ela tentou ignorar o coração acelerado e controlou conscientemente a respiração que tentava perder o ritmo.

– Mais ou menos – respondeu, mantendo a voz propositalmente baixa e calma. Não queria que a conversa virasse uma discussão, e Lorena podia ser... reativa às vezes. – Eu queria falar com você sobre uma coisa.

A postura de Lorena se endireitou. Eduarda às vezes se perguntava se Lorena percebia que geralmente se curvava para falar com ela mas se aprumava quando queria colocar distância entre elas. Era o jeito mais fácil de perceber quando Lorena estava tensa.

– Sobre o quê? – Lorena perguntou, Eduarda conteve o suspiro que quis sair quando registrou o tom defensivo. – Se é sobre meus horários, você sabe que...

– Não é – Eduarda interrompeu. Não gostava de fazer isso, mas não queria perder tempo com um não-assunto. Estava com sono e sabia que tinha um dia péssimo pela frente, então os bons modos que sua família tanto valorizava podiam deixá-la em paz por alguns minutos. – Senta, Lorena, por favor.

Lorena não aquiesceu imediatamente. Ainda em pé entre o hall de entrada e a sala, ainda travada na postura ereta, ainda com o cenho franzido, ela encarou o sofá, sua poltrona favorita e Eduarda até finalmente decidir sentar-se na mesa de centro da sala, diretamente na frente de Eduarda. Agora parecendo mais preocupada do que na defensiva, Lorena se inclinou e apoiou os cotovelos sobre os joelhos para olhar o mais diretamente possível nos olhos de Eduarda.

– O que aconteceu? – Lorena perguntou, a voz ainda baixa, mas sua perna vibrava com uma agitação mal contida. Eduarda encarou um ponto acima do ombro de Lorena para não ver aquela mesma agitação nos olhos dela. – Duda...

– Eu fui ameaçada. – Eduarda sentiu mais do que viu Lorena travando de novo, e continuou antes que ela pudesse dizer alguma coisa. – Algumas vezes. Mais do que o Delegado conseguiu tolerar. E na semana passada eu fui seguida por uns... Enfim. Eu vou ter que andar com escolta. Ordem da Delegacia Geral, por solicitação do Delegado Jairo. Não pude recusar.

O silêncio que envolveu o apartamento foi pesado, tenso, e pareceu se estender por milênios. Eduarda encarou um ponto fixo na parede para não olhar para Lorena. Estava frustrada consigo mesma e com a situação – ela sabia por experiência própria como a escolta era um transtorno não só para a pessoa sob proteção como também para os familiares, e a última coisa que queria era que Lorena fosse afetava por seu trabalho. Mas Paulinho e o Delegado tinham reagido mais energicamente do que ela esperara quando contara a eles que tinha sido seguida até sua casa por agentes da Delegacia da Chacrinha, e agora...

– Quem? – Eduarda piscou e desviou o olhar da parede para ver que Lorena a encarava de um jeito que ela nunca tinha visto. – Quem, Duda?

Eduarda apertou a almofada contra si.

– A Delegada da Chacrinha – ela respondeu, torcendo para que Lorena não perguntasse mais que isso. Foi em vão.

– A mando de quem, Eduarda? – Aquele tom também era novo, e Eduarda cravou as unhas nas palmas das mãos e não respondeu.

Nem precisaria. O que quer que Lorena tenha visto em seu rosto foi suficiente para fazê-la levantar-se da mesa e começar a andar de um lado para o outro na sala. Eduarda via a agitação crescendo, via a forma como Lorena passava a mão pelo cabelo, murmurava incessantemente para si mesma e olhava para os cantos do apartamento como se alguma coisa fosse sair das sombras a qualquer momento. E Eduarda entendia a reação, ela realmente entendia, mas não precisava de tudo aquilo.

– Lorena, senta – ela pediu mais uma vez, mas dessa vez Lorena apenas parou no meio da sala e a encarou. Eduarda suspirou. – Olha, eu sei que é chato, mas a sua vida não vai mudar muito. Você não corre risco nenhum. Seu pai não vai fazer nada com você, então você vai poder continuar sua rotina sem preocupação. – Lorena ainda a encarava, aparentemente incrédula, então Eduarda continuou. – Confia em mim. Meu pai já teve que andar com escolta quando estava no primeiro grau e o caso dele foi bem pior, foi por mais de um ano e... Lembra que eu te contei que morei na Itália com minha mãe quando tinha 14, 15 anos? Foi por isso, porque eu e minha mãe também fomos ameaçadas. Mas meu caso não tem nada a ver com o do meu pai, sua vida não vai mudar...

– Você acha que eu ligo para isso, Eduarda?!

– Lorena, a vizinha.

Foda-se a vizinha! – Eduarda respirou fundo. Nunca tinha visto Lorena daquele jeito. – Meu pai... Aquela coisa está ameaçando a mulher da minha vida e você quer que eu... Duda! – Eduarda hesitou, agora um pouco incerta sobre o que dizer, e os segundos de hesitação foram suficientes para Lorena aparentemente decidir o que fazer. – Eu vou lá.

Eduarda levantou do sofá em um pulo quando viu Lorena cruzando a sala a passos largos para calçar suas botas de novo.

– Lorena – ela tentou, mas foi em vão. Quando Lorena terminou de colocar os sapatos e pegou a jaqueta e a bolsa do gancho, Eduarda correu para se colocar entre ela e a porta. – Lorena, Lorena, para...

– Dá licença, Duda. – Lorena tentou passar por ela e Eduarda seguiu o movimento. – Dá licença, Duda – ela repetiu, mais enfática desta vez.

– Para com isso, Lorena. – Mais uma vez, Lorena tentou passar por ela e Eduarda manteve-se entre ela e a porta. Lorena não olhava para ela, encarava a porta por sobre sua cabeça, e Eduarda nunca tinha estado tão consciente da diferença de altura entre elas. – Lorena, pensa um pouco.

– Pensar no quê, Duda?! Naquele merda soltando a cachorra dele em você? Nos capangas dele encostando em você? Nele... Eu vou lá.

Eduarda novamente acompanhou o movimento quando Lorena tentou passar por ela.

– Vai lá fazer o quê? – perguntou, mantendo a voz baixa e acompanhando os passos que Lorena dava tentando passar por ela. – Vai aparecer lá às 3 da manhã e dizer o quê?

Lorena não parecia ouvi-la.

– Dá licença, Duda – ela repetiu, então andou para frente e Eduarda acompanhou até encostar as costas na porta. Lorena finalmente olhou para ela com olhos estranhamente ilegíveis. – Dá licença, Duda – ela disse mais uma vez.

Eduarda não se mexeu.

– Não – ela respondeu, e Lorena soltou um barulho de frustração, deu as costas para ela e jogou a jaqueta e a bolsa contra a parede.

Ela estava ainda mais agitada. Impedida de sair do apartamento, Lorena voltou a andar pela sala em passos largos, mais uma vez murmurando para si mesma. Eduarda parou no arco entre o hall e a sala e encarou as botas desamarradas, a barra da calça repuxada, a camisa amarrotada e o cabelo bagunçado, viu a forma como Lorena abria e fechava as mãos como se não soubesse o que fazer com elas, ouviu a respiração entrecortada e esperou até que Lorena de repente parou e olhou para ela.

– Larga o caso dele – ela disse.

Eduarda piscou, respirou fundo, contou até três.

– Não é tão simples assim – ela respondeu. – Se eu sair, outra pessoa assume no meu lugar e vira alvo. Ou então seu pai foca no Paulinho de novo. Não faz sentido...

– Antes eles do que você, Eduarda! – Surpresa, Eduarda sentiu a voz morrendo na garganta. Lorena aparentemente tinha ainda mais a dizer. – Larga a polícia, sai desse inferno. Você não precisa disso. Vai advogar no escritório do seu tio. Vai administrar as fazendas com seus avós. Vai ajudar sua tia na exportadora. Vai, sei lá, trabalhar com os advogados que administram o patrimônio. Você já vai herdar tudo mesmo.

Eduarda franziu o cenho. Lorena não tinha o costume de falar sobre o dinheiro de sua família, muito menos sobre a herança que a falta de primos garantira que seria toda de Eduarda.

– Lorena...

– Vive de ser herdeira. Vive de ser minha esposa, sua mesada e o que eu ganho é suficiente para nós duas. Ou eu posso alterar meu portfólio e sacar os dividendos. Sai daquele lugar, você não precisa daquilo. Vai ficar lá para quê? Para ser escudo de um monte de marmanjo? Para... Diz alguma coisa, Duda, pelo amor de Deus!

Eduarda não respondeu de imediato, nem sabia muito bem o que dizer. Aquela versão de Lorena era e não era conhecida. A impulsividade, a reatividade, a incisividade não eram novidade – esses ela conhecia desde o início. O desnorteamento quando alguma coisa não acontecia do jeito que ela queria também era familiar e lembrava Eduarda de... outra pessoa com a qual ela já tivera que lidar. Mas Lorena nunca antes tentara controlar o que ela fazia, e isso também lembrava Eduarda de outro Ferette.

Não sabia se era justo pensar dessa forma. Ela sabia que Lorena não estava pensando direito, sabia que o assunto Santiago Ferette em geral era uma ferida aberta para Lorena, sabia que a ideia de parecer com o pai em qualquer coisa era um ponto sensível, e Eduarda não queria magoar Lorena. Mas às vezes... às vezes o brilho determinado nos olhos de Lorena e a linha confrontativa de seus ombros lembravam Eduarda de outras interações, em outros ambientes, com outro tom.

Eduarda nem achava que essas semelhanças eram ruins, necessariamente. Tinha se apaixonado por Lorena por inteiro, não apesar de algumas partes dela, e o sentimento não diminuía só porque sabia de onde essas partes tinham vindo. A determinação nos olhos de Ferette, o movimento autoconfiante da boca, a postura arrogante podiam ser estranhamente familiares quando ele lhe fazia ameaças mal veladas sob as sombras da delegacia, mas era com aquela mesma determinação que Lorena falava sobre o futuro delas juntas, era com aquela mesma autoconfiança que Lorena a abraçava nos dias difíceis, era com aquela mesma arrogância que Lorena sussurrava em seu ouvido que Eduarda era sua. Era com o ímpeto de Ferette de tirar tudo e todos do caminho que Lorena a amava, e Eduarda não conseguia ver nisso um defeito. Mas sabia que, para Lorena, as coisas não eram tão simples.

Então Eduarda suspirou e, em vez de dizer que a Lorena que ela estava agindo como o pai, disse:

– A escolta é uma precaução. – Lorena soltou outro barulho frustrado e balançou a cabeça em negativa. – Me escuta, Lorena, é uma precaução. Eu já conheci as agentes, Paulinho e o Delegado as vetaram, eles confiam nelas. O DGP confia nelas.

Eu não confio!

– Lorena, fala baixo, pelo amor de Deus.

Lorena a ignorou.

– Eu não confio nelas, não confio nesse DPG...

– DGP.

– ...não confio no Delegado, não confio no Paulinho. – Eduarda puxou as mangas da camisa de botão de Lorena que usava para conter a própria ansiedade. – Eu confio em mim. Eu conheço meu pai, você é minha mulher, o quê que eles sabem sobre te proteger?

– Lorena, se acalma.

Inalcançável, Lorena voltou a andar pela sala, voltou a murmurar para si mesma, voltou a correr as mãos pelo cabelo e puxar os fios, aérea, agitada e confusa, e então, de repente, parou e se sentou no chão, abraçou as próprias pernas, escondeu o rosto entre os joelhos e começou a chorar.

Eduarda ouviu os soluços, encorou as costas tremendo e, vergonhosamente, travou. Lorena muito raramente chorava, e nunca daquele jeito, e Eduarda não sabia muito bem o que fazer. Certa vez, ainda no início do namoro, Lorena mencionara que nunca tinha visto o pai chorar, e Eduarda, privativamente, achara graça que ambas tinham puxado aos respectivos pais nesse quesito. Agora, parecia menos engraçado: Lorena sabia o que fazer quando ela chorava; Eduarda hesitava.

Incerta, hesitante, apavorada com a possibilidade de errar, Eduarda respirou fundo, tentou pensar no que Lorena fazia quando ela chorava e se aproximou devagar até finalmente se ajoelhar diante de Lorena. Quando suas mãos pousaram sobre os joelhos de Lorena, ela levantou o rosto e a encarou com olhos inchados e vermelhos.

– O quê que eu vou fazer sem você, Duda?

Eduarda soltou um suspiro entrecortado. Não queria chorar, não era seu momento de chorar, mas a voz de Lorena era... sofrida, perdida, doída de um jeito que apertava dentro de seu peito, e Eduarda precisou de alguns segundos para se recompor. Ela nunca esquecia ou duvidava que Lorena a amava – não era isso –, mas às vezes Lorena falava ou fazia alguma coisa com uma intensidade que a deixava um pouco perplexa. Às vezes Lorena a olhava como se Eduarda fosse a única coisa no mundo e Eduarda saía um pouco do eixo.

– Lorena, me escuta – ela sussurrou, chegando um pouco mais perto. Lorena a encarava como se ela tivesse a resposta para todos os seus problemas. – Você pode não confiar neles, mas confia em mim quando eu te digo que minha escolta é uma precaução muito mais do que uma necessidade. As agentes e a equipe de apoio são treinadas para isso, eles são todos profissionais muito qualificados. – Lorena soltou outro grunhido frustrado e Eduarda continuou antes que a agitação pudesse cegá-la novamente. Elas vêm me buscar aqui de manhã, você pode conhecê-las pessoalmente, conversar com a comandante. PM não é muito bom de conversa, mas ela deve conseguir te explicar como as coisas vão funcionar. Confia em mim, meu amor, nem meus pais estão tão preocupados assim. É só uma pre...

De supetão, Lorena se ajoelhou. O movimento a trouxe para mais perto e Eduarda hesitou, surpresa com a proximidade repentina e a forma como Lorena a encarava. E então, no momento seguinte, Lorena sentou-se sobre os calcanhares, puxou Eduarda pela cintura e enterrou o rosto em seu decote formado pelos botões abertos. Eduarda se apoiou nos ombros de Lorena para manter a estabilidade.

– Sai da polícia, Duda – Lorena repetiu, a voz agora arrastada e abafada contra a pele de Eduarda, o abraço em sua cintura apertado e quase desesperado. – Larga aquilo para lá.

Eduarda suspirou. Lorena tinha muito do pai, mas às vezes – só às vezes – ela deixava claro quem era seu irmão.

Eduarda não gostava de Leonardo. Era educada quando se viam e mantinha todos os bons modos que seus três sobrenomes pregavam, mas nunca gostara dele e desconfiava que nunca gostaria. Sua participação no esquema de falsificação de remédios e a forma como provavelmente se livraria com um leniente, conveniente, fraterno acordo de delação premiada deixavam um gosto amargo na boca de Eduarda que ela sabia que teria que aprender a superar – não era mais problema dela, ela sabia disso, mas a indignação não era uma emoção tão facilmente controlável.

Leonardo era irresponsável, inconsequente e imaturo. Participara de um esquema criminoso e saíra com um braço quebrado e o equivalente a uma bronca judicial, destratara Lorena por anos e – até onde Lorena lhe contara – nunca pedira desculpas, passara meses chamando Eduarda de “amiga” de Lorena e nunca se retratara. E, durante a festa de noivado na Chacrinha, para a qual Eduarda fora puramente por consideração a sua futura concunhada, Viviane bebera um pouco demais e contara uma história sobre suas primeiras interações com Leonardo que deixara Eduarda tão horrorizada que ela fingira uma dor de cabeça para ir embora mais cedo.

Lorena não tinha nada a ver com Leonardo. Ela era empática enquanto ele era egoísta, correta enquanto ele era passivo, obstinada enquanto ele era preguiçoso. E Lorena nunca, nunca, nunca desrespeitara Eduarda – a mera ideia lhe parecia inconcebível. Lorena não tinha nada a ver com Leonardo... exceto quando ela resolvia fechar os olhos para a realidade.

Eduarda não gostava de pensar em qualquer semelhança entre Lorena e Leonardo. Ferette era um psicopata, um criminoso sem solução, mas Eduarda tinha um respeito relutante pela forma como ele não vacilava mesmo com o mundo caindo à sua volta, ela via até certa comicidade quando interagia com Ferette e percebia traços de Lorena nele. Mas Leonardo era... intragável, fraco, aparentemente emocionalmente dependente de Viviane e instável de um jeito que fazia Eduarda tremer um pouco diante de um futuro cada vez mais provável.

Porque, se nada mudasse, Lorena provavelmente manteria uma relação com Leonardo pelo resto da vida, e a única coisa que Eduarda queria de Leonardo era distância. Porque Lorena provavelmente iria querer criar os filhos tendo contato com o tio, e Eduarda não queria Leonardo perto de seus filhos de jeito nenhum. Porque Lorena provavelmente iria querer contato com os próprios sobrinhos, e Eduarda não tinha certeza se queria que seus filhos fossem criados com os primos. Porque Lorena amava Leonardo, e Eduarda não sabia como dizer para ela que mal o tolerava.

E Lorena não tinha nada a ver com Leonardo, mas às vezes – só às vezes – Eduarda olhava para ela e via em seus olhos o mesmo olhar que vira nos olhos de Leonardo no dia da briga na frente da delegacia, via a mesma impaciência, a mesma agonia, a mesma inquietação. Às vezes Eduarda olhava para Lorena e via um autocontrole tênue demais.

Isso não queria dizer que Eduarda achava que Lorena se descontrolaria como Leonardo fizera se o pior acontecesse entre elas – na verdade, nem gostava de pensar na hipótese de um término –, mas sim que ela às vezes temia o lado menos racional de Lorena. Não por si mesma, porque Lorena nunca faria com ela o que Leonardo fizera com Viviane durante o período de separação, mas sim por Lorena, que não conseguia controlar sua esperança de que Ferette se tornaria uma pessoa melhor, que muito menos conseguia controlar seu ímpeto de tentar tornar Leonardo uma pessoa melhor, que vivera em pé de guerra com o pai por anos para proteger a mãe, que aparentemente perdia o rumo diante da ideia de que alguma coisa acontecesse com Eduarda.

E Eduarda odiava Ferette, não gostava de Leonardo e não entendia a passividade e a ausência de Zenilda em relação à filha, e, portanto, ela não queria ser para Lorena a mesma fonte de descontrole que a família era.

Suas mãos saíram dos ombros de Lorena para acariciar seu cabelo lentamente, e Lorena apertou ainda mais o abraço em sua cintura e soltou um suspiro pesado no decote de Eduarda.

– Está tarde – Eduarda sussurrou. – Você está cansada, eu também estou. De manhã a gente conversa melhor sobre isso.

Lorena a segurou com ainda mais força.

– Você vai sair da polícia? – ela perguntou.

Eduarda respirou fundo, contou os segundos, manteve o carinho no cabelo de Lorena.

– Não, Lorena, eu não vou sair.

Lorena não se mexeu.

– Então eu não quero conversar – ela disse, a voz pouco mais que um resmungo contra a pele de Eduarda, o abraço apertado o suficiente para restringir sua respiração.

Respirando fundo mais uma vez, Eduarda manteve-se em silêncio. Já eram quase 3 da manhã e ela sabia que o dia terminaria em uma enxaqueca horrorosa, mas precisava fazer Lorena pelo menos aceitar a situação – mesmo que não entendesse – antes de sua escolta aparecer às 7:30 em ponto para buscá-la. Seu joelho esquerdo, lesionado anos antes pelo balé, começava a incomodá-la e ela sabia que tinha que sair daquela posição, mas Lorena não parecia disposta a soltá-la, e Eduarda tinha a impressão que manter Lorena como estava era a melhor maneira de mantê-la calma.

– Quando meu pai estava no primeiro grau – Eduarda começou, mantendo a voz propositalmente sussurrada – ele foi por muitos anos juiz do júri. Ele gostava bastante, trabalhava muito com um promotor que virou amigo dele, conversava com os jurados, fazia amizade com o pessoal da copa. Às vezes, quando era um júri mais tranquilo, ele me levava para assistir. O promotor amigo dele, César, dizia que eu tinha que virar promotora. A defensora que de vez em quando aparecia dizia que eu tinha que ir para a Defensoria. Eu gostava bastante deles.

“Um dia,” ela continuou, “caiu para o meu pai um caso de certa repercussão. Não tinha nada de muito especial no fato em si, mas o caso chamou a atenção da mídia porque envolvia parente de político. Uma disputa de terras no Mato Grosso tinha virado um homicídio aqui em São Paulo. Eram vários réus – não lembro quantos –, entre executores e partícipes, e nem todos eram tão perigosos assim – alguns nem tinham antecedentes.

“Mas o mandante era outra história. Ele era um fazendeiro bem conhecido no interior de Minas e de Goiás, meus avós até conheciam de vista de um ou outro leilão, e ele... Lembra da Vitória, que você conheceu no shopping naquele dia? A mãe dela hoje é procuradora, mas naquela época ela era promotora do meio ambiente e ela dizia que o MP do Pará estava atrás dele há algum tempo por desmatamento ilegal, grilagem, invasão de terras indígenas, essas coisas. Mas ele era escorregadio e a fronteira agrícola é meio terra sem lei, né? Então era difícil.”

Eduarda sentiu o abraço de Lorena relaxando um pouco e, mantendo o carinho em seu cabelo, continuou:

– Os ataques contra meu pai começaram ainda no início do processo, logo depois que ele aceitou a denúncia. De primeira eram só umas provocações na mídia, depois umas quase-ameaças. Meu pai não deu muita atenção; ele achava que era só uma estratégia da defesa para tentar forçar uma suspeição, então ele ignorou.

“Mas então meus pais e meu motorista começaram a notar que nossos carros estavam sendo seguidos. E um dia enviaram para o gabinete dele fotos minhas saindo da escola, indo para o balé e para o tênis, chegando em casa... O presidente do TJ solicitou proteção para ele no mesmo dia, mas o Estado só fornece escolta para agentes do Estado, não para familiares, e meu pai não queria aceitar proteção se eu e minha mãe ficaríamos sem. Meus pais até pensaram em contratar seguranças particulares, mas eles não queriam que eu tivesse que ir para a escola com um segurança armado me seguindo e no fim a família achou melhor eu e minha mãe sairmos do país.”

Lorena suspirou contra a pele de Eduarda e afrouxou o abraço um pouco mais.

– Eu não queria ir – Eduarda continuou. – Não queria ficar longe do meu pai, não queria mudar de escola, não queria perder contato com meus amigos. Mas meus pais – minha família toda, na verdade – estavam assustados. Eles tentaram esconder de mim, de primeira, mas eu os ouvia conversando com meus tios e meus avós, e eu sabia que não adiantaria resistir. Meus avós paternos não entendiam como alguém poderia ameaçar um juiz e a família dele daquele jeito, mas minha família materna conhece há gerações gente como o Vergueiro.

O abraço em sua cintura era menos desesperado agora, e Eduarda aproveitou a oportunidade para se afastar um pouco,

– Lorena, me escuta – ela disse, as mãos migrando para o rosto de Lorena para tirá-lo de seu decote de fazê-la olhar para Eduarda. – Seu pai é peixe pequeno. Todo o patrimônio dele está preso em São Paulo, ele tem dois ou três capangas restantes e uma lista de contatos que não vão suportar por muito mais tempo a exposição do nome dele, e a maior autoridade a que ele parece ter acesso é uma delegada de uma quebrada que comanda 4 agentes. O Vergueiro tinha propriedades imensas nos principais estados produtores do país, empregava dezenas de ex-PMs e tinha um irmão na CCJ da Câmara. Ele era perigoso, e mesmo assim a escola do meu pai não falhou, mesmo assim o Tribunal confiou neles para proteger meu pai.

“E a minha escolta... eles foram na casa dos meus pais ontem – as agentes e algumas pessoas da equipe de apoio –, porque a casa vai ser um dos meus locais autorizados. E meu pai conversou com eles, ele confia neles. Você confia no meu pai para me proteger?” Eduarda viu Lorena hesitar por longos momentos, mas então, finalmente, ela assentiu devagar. Eduarda se permitiu sorrir. “Então confia no julgamento dele sobre a escolta, conversa com ele se você quiser. E me deixa sair dessa posição porque meu joelho está doendo.”

Lorena a soltou imediatamente e a ajudou a se sentar no tapete. Ela se aproximou até estar ajoelhada entre as pernas estendidas de Eduarda e sua mão direita pousou sobre o joelho lesionado, massageando-o distraidamente.

– Desculpa – ela sussurrou.

Eduarda deu de ombros, apoiando as mãos no tapete atrás do corpo.

– Está tudo bem – ela respondeu. – Você sabe que meu joelho é ruim.

Lorena balançou a cabeça veementemente.

– Eu surtei, me desculpa – ela repetiu. Seu olhar ainda era um pouco frenético, percorria o rosto de Eduarda sem aparente ponto fixo, mas sua voz estava controlada agora. Devagar, ela se aproximou o máximo possível, a mão encaixando no joelho de Eduarda para trazê-lo consigo e manter a massagem. – Eu te amo tanto, Duda – ela continuou. – Às vezes eu sinto que a única coisa que eu sei fazer é te amar. E eu não quero jogar esse tipo de peso em você, não é justo com você. – Ela respirou fundo e endireitou os ombros. – Eu sei que você tem medo de que eu fique igual ao Léo, eu vejo como você olha para ele e para a Viviane às vezes, e eu te prometo, Duda, eu te prometo que eu não vou ficar daquele jeito.

Eduarda tentou conter a própria surpresa, engoliu em seco e lutou para controlar as lágrimas que ela sentia queimando nos olhos.

– Você não tem como prometer isso – ela disse.

– Tenho – Lorena respondeu com uma certeza que deixava claro que ela já tinha pensado sobre isso. – Tenho, porque eu te amo, porque eu quero te fazer feliz, porque eu não vou ser um... fardo emocional para você. – Eduarda balançou a cabeça, pronta para refutar a noção, mas Lorena continuou antes que ela pudesse encontrar as palavras. – A ideia de ficar sem você me apavora, Duda, ela me paralisa. Às vezes eu vejo que fiz alguma coisa que te irritou e o medo de que você vai terminar comigo me enlouquece um pouco. Mas isso é problema meu, não seu, e eu vou resolver. Porque eu quero ser sua parceira, eu quero que você possa me contar as coisas sem medo de que eu surte, sem que você precise me acalmar porque eu estou fazendo alguma coisa que é sobre você virar sobre mim.

Eduarda só percebeu que estava chorando quando sentiu uma lágrima pingando de seu queixo. Lorena levou a mão livre ao seu rosto para secar as lágrimas em sua bochecha.

– Eu estou com medo – Eduarda finalmente admitiu, tanto para Lorena quanto para si mesma. Lorena assentiu lentamente, o polegar ainda acariciando a bochecha de Eduarda. – Racionalmente, eu penso em tudo que eu te falei, penso na competência da equipe de escolta, na experiência do meu pai, no Delegado e no Paulinho escolhendo as agentes a dedo... Mas, emocionalmente, eu penso que ninguém é à prova de falhas, penso que todo mundo tem um dia de azar e que talvez o meu esteja chegando. E eu não quero... deixar de ter uma vida com você por uma besteira, por um descuido.

Lorena respirava devagar, mantinha a massagem em seu joelho e a carícia em sua bochecha, a olhava com olhos agora mais calmos. Seu olhar ainda passeava pelo rosto de Eduarda, mas agora era mais deliberado.

– Eu vou ligar para seu pai amanhã – ela disse. – Vou conversar com ele, vou entender tudo, sem surto. Posso conversar com as agentes também. Qual é o nome delas?

Eduarda secou uma lágrima no queixo e deu de ombros.

–  A comandante chama Teixeira, eu acho. As outras eu não lembro, elas não me deram muita bola. Eu conversei mais com o pessoal da equipe de apoio.

Lorena deu um sorriso de canto.

Você não conseguiu fazer alguém conversar com você? – ela perguntou com certa provocação, e Eduarda soltou uma risada quase envergonhada.

– Eu disse que PM não é bom de papo – ela respondeu.

 O sorriso de Lorena ficou mais gentil.

– Eu não vou vacilar, meu amor – ela sussurrou, inclinando-se para mais perto. – Pode sentir medo, eu vou estar aqui com você no final do dia. Sem surto, eu juro. E se você está com medo de que aquele... de que ele roube nosso futuro, pode deixar que eu mantenho a confiança por nós duas. Não tem nada, nada nesse mundo que vai tirar de mim a chance de me casar com você, de ter uma ruivinha igualzinha a você correndo pela casa, de envelhecer com você. – Com um sorriso agora arrogante, Lorena se inclinou ainda mais sobre Eduarda e a mão em sua bochecha migrou para se juntar às mãos de Eduarda no tapete. – Você é minha – Lorena sussurrou. – Você acha mesmo que eu vou deixar alguém tirar de mim a chance de te ver naquele vestido de noiva que você insiste em mentir que não está pronto?

A risada surpresa escapou antes que Eduarda pudesse pensar em controlá-la. O sorriso de Lorena pareceu ficar ainda mais arrogante.

– Você percebeu? – Eduarda perguntou.

Lorena chegou mais perto.

– Você mente muito mal – ela sussurrou. Eduarda sentia sua respiração pesada no rosto. – Você odiou mesmo a ideia de um casamento duplo, né?

Eduarda soltou um suspiro aliviado diante do tom leve da pergunta.

– Você sabia que eu odiaria – ela respondeu.

Lorena ainda sorria.

– Sabia – ela disse. – Eu estava torcendo para você recusar. Você sabe que eu tenho dificuldade de dizer não para o Léo, mas aff. – Eduarda riu. – Eu só não achei que você mentiria na cara dura que sua designer ainda não tinha terminado seu vestido.

Eduarda sorriu inocentemente.

– Na primeira vez que eu disse era verdade.

– Ah, é? – Lorena perguntou. A mão que estava no joelho de Eduarda subiu para a coxa. Eduarda assentiu. – E agora?

Eduarda deu de ombros. Logo após a oficialização do noivado, sua mãe trouxera de Nova York uma amiga de longa data, Emily, com sua equipe para fazer o vestido de Eduarda. O aceite do convite viera tanto como uma gentileza pessoal quanto pela oportunidade de assinar o vestido de noiva da única filha da grande Violeta Fragoso, e tinham sido semanas de planejamento e meses de confecção e ajustes, mas, depois de 4 meses de dedicação exclusiva, nem mesmo o perfeccionismo forjado nas masmorras da Oscar de la Renta tinha sido capaz de adiar o inevitável. O vestido finalizado estava esperando havia duas semanas em seu antigo quarto na casa dos pais, Emily e a equipe já tinham voltado para Nova York e voltariam para o Brasil apenas na semana do casamento para vesti-la, o vestido que Lorena comprara – com seu próprio dinheiro, como ela dissera com um sorriso orgulhoso, como ela prometera que faria quando recusou a oferta de Violeta de contratar um designer também para o vestido de Lorena – estava no closet delas havia várias semanas, as alianças que elas tinham encomendado ficariam prontas ainda naquela semana e as empresas de eventos que sua família preferia já tinham, dentro do possível, começado os preparativos. Para todos os efeitos, não havia mais motivo para adiar a escolha de uma data.

E Eduarda queria decidir o dia, queria se casar com Lorena assim que possível, queria olhar para a aliança em seu dedo todos os dias e saber que Lorena a tinha colocado ali. Às vezes ela acordava de manhã, via Lorena dormindo ao seu lado e não conseguia entender por que ela ainda não tinha um papel que dizia que aquela era a pessoa em quem ela mais confiava no mundo, não conseguia entender por que ainda não tinha o nome de Lorena gravado no interior de uma aliança pressionado contra sua pele, não conseguia entender por que Lorena ainda não era sua esposa. Mas então ela pensava na náusea que sentira quando Lorena lhe contara da ideia de Leonardo de um casamento duplo e a demora para escolher uma data lhe parecia absolutamente razoável.

Eduarda não gostava que Leonardo tinha esse tipo de influência sobre sua vida com Lorena, mas ela sabia que, se cedesse sobre isso, Lorena não conseguiria dizer não. E Eduarda não tolerava a ideia de dividir um altar com ninguém além de Lorena, principalmente um menino mimadinho que queria pegar carona na cerimônia delas porque seus bens estavam congelados. A possibilidade de olhar para baixo durante o próprio casamento e ver a marca de uma tornozeleira eletrônica ao seu lado lhe causara uma ojeriza tão grande que Eduarda ficara um pouco irritada até mesmo com Lorena, que, com um tom confuso que entregara que ela não ligara os pontos daquela sugestão ridícula até onde Eduarda o fizera, repassara a ideia do casamento duplo a ela em vez de cortar aquilo pela raiz imediatamente.

Pelo menos agora ela sabia que Lorena a apoiaria quando Eduarda encontrasse a melhor forma e recusar aquele horror sem dizer que dividir um altar com Leonardo a faria sentir como se estivesse se casando dentro de um presídio. Ela queria, a bem da verdade, dizer exatamente aquilo, de preferência na frente de Viviane para ver se ela acordava para a vida, mas não queria arriscar ter que lidar com o lado clínica de reabilitação de um pobre menino rico de Lorena, e muito menos queria continuar pensando em Leonardo, então apenas disse:

– Agora você espera para me ver no meu vestido e eu espero para te ver no seu.

O sorriso convencido de Lorena cresceu e ela se inclinou ainda mais sobre Eduarda, que teve que se recostar sobre os cotovelos para continuar olhando nos olhos de Lorena. A mão em sua coxa subiu lentamente por seu corpo até para na cintura.

– Agora eu espero para tirar seu vestido – Lorena sussurrou.

A respiração de Eduarda falhou e a mão de Lorena subiu de sua cintura para desabotoar o botão na altura dos seios de Eduarda.

– Lorena... – Eduarda murmurou, sentindo a voz falhar quando Lorena se inclinou para beijar seu pescoço. – Lorena, está muito tarde.

Lorena produzira uma almofada de algum lugar que Eduarda só percebeu quando Lorena a guiou para se deitar no tapete e descansar a cabeça na almofada.

– E daí? – Lorena sussurrou contra o pescoço de Eduarda, descendo lentamente até o vale entre os seios agora descoberto.

Eduarda riu, um pouco sem fôlego.

– E daí que a gente trabalha, né, amor? – ela respondeu. De uma vez, Lorena soltou o peso sobre Eduarda, forçando outra risada sem fôlego de seus pulmões. – Ai.

– Desculpa – Lorena murmurou, o rosto ainda escondido no pescoço de Eduarda.

Respirando lentamente contra o peso sobre si, Eduarda começou um carinho leve no cabelo de Lorena e perguntou:

– Você já comeu? – Em resposta, Lorena murmurou alguma coisa que Eduarda precisou de um segundo para interpretar. Quando entendeu, a risada foi involuntária. – Olha o sexto ano, Lorena – ela disse, tentando controlar o riso e ignorando o sorriso que sentia contra sua pele. Esperou mais alguns segundos daquele jeito, depois deixou tapinhas leves nas costas de Lorena. – Vai tomar banho, eu faço alguma coisa para você comer.

Lorena grunhiu e balançou a cabeça.

– Eu quero ficar aqui – ela respondeu, a voz rouca e arrastada.

Eduarda sorriu.

– E amanhã vai trabalhar como? Ou hoje, no caso, né? – perguntou.

– Uma gostosa embaixo de mim e você quer que eu pense em trabalho.

Desta vez a risada de Eduarda foi alta e desinibida.

– Eu quero que você pense que, se nós duas passarmos o dia todo mortas, à noite a única coisa que a gente vai fazer é dormir. – Com mais um grunhido mas sem hesitação, Lorena rolou para se deitar no tapete ao lado de Eduarda, que riu de novo. – Fácil assim? – ela perguntou, sentando-se e abotoando novamente o botão que Lorena soltara.

Ainda deitada no tapete, Lorena levantou a mão e soltou dois botões de uma vez, agora até abaixo dos seios de Eduarda.

– Deixa assim – ela disse com um sorriso presunçoso.

Eduarda olhou para o sorriso, depois para o decote profundo, depois para Lorena de novo.

– Deixo – ela respondeu. – Se você for tomar banho.

O sorriso de Lorena cresceu.

– E se nós formos tomar banho? – ela perguntou.

Eduarda soltou outra risada incontrolável.

– Meu Deus do céu, Lorena – ela disse, depois se levantou e estendeu a mão para ajudar Lorena. – Anda, levanta, vai tomar banho. E tira o sapato antes de entrar no quarto.

Lorena grunhiu mais uma vez mas segurou a mão estendida de Eduarda e se levantou, depois puxou Eduarda para mais perto e deixou um beijo demorado em sua testa.

– Mandona – ela disse contra a testa de Eduarda. – Você não deixa eu me divertir.

– Cria vergonha, Lorena – Eduarda respondeu, ainda rindo. – Eu faço tudo que você quer.

Lorena beijou sua testa de novo.

– A única coisa que eu quero é você – ela sussurrou, então deixou um selinho nos lábios de Eduarda e finalmente se afastou para ir para o quarto, lembrando-se de tirar as botas no caminho e deixá-las perto da parede ao lado da porta.

Ainda em pé no meio da sala, Eduarda a observou até Lorena parar no batente da porta do quarto e olhar para ela de novo. Por alguns longos segundos, o mundo parou e elas permaneceram daquela forma, olhando uma para a outra no apartamento delas no meio da madrugada. Eduarda viu o pequeno sorriso no rosto de Lorena, viu a forma como ela olhava para Eduarda, viu a calma em seu rosto e a segurança em sua postura e viu a Lorena por quem tinha se apaixonado, viu a Lorena que tinha se revoltado contra os crimes do pai, a complacência do irmão e a passividade da mãe e que tinha reconstruído a vida inteira só porque era o certo a se fazer. Por alguns segundos – minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, uma vida inteira –, Eduarda viu a Lorena que a escolhera acima de tudo e pensou que nunca tivera outra opção senão escolhê-la também.

E então Lorena entrou no quarto e Eduarda foi para a cozinha e o mundo continuou girando.