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A Proposta

Summary:

"Haymitch e eu somos duas pessoas que não deveriam se apaixonar, mas... aconteceu". Quando você se vê prestes a perder tudo o que construiu, uma mentira desesperada parece a única saída.

Inspirado no filme "A Proposta",
com Sandra Bullock e Ryan Reynolds.

Notes:

estou postando em pt no wattpad e ia postar só em inglês aqui por ver que maior parte do fandom que usa ao3 ("usa" como se fosse uma droga porque é mesmo) fala inglês. masssss, vi algumas br's curtindo e comentando e decidi postar ela em pt aqui também... nem sempre a tradução para o inglês transmite o mesmo sentido, né?

espero que gostem! ❤️

Chapter Text

​O som dos saltos de Effie Trinket contra o mármore do corredor era preciso, rápido e autoritário. Ela não precisava olhar para o relógio de ouro em seu pulso para saber que eram exatamente 06h50 da manhã. Sempre chegava na empresa dez minutos antes do expediente às 07h00 começarem. Nem um minuto a mais. Nem um minuto a menos. Pontualidade era uma de suas maiores qualidades.

O aroma de chá de jasmim no copo em suas mãos flutuava pelo escritório, misturando-se ao cheiro de cera de móveis e papel novo. ​Effie ajustou sua peruca – hoje de um loiro rosa tão pálido que quase se fundia à pele – e verificou seu reflexo na porta de vidro antes de entrar. A maquiagem era sua armadura. Sem ela, sentia que qualquer um poderia ver o tremor em suas mãos ou a sombra de ansiedade que a perseguia desde o café da manhã. Ela era a personificação da capital: impecável, coordenada e, acima de tudo, útil.

Ela precisava ser útil. Em um regime liderado pela Presidente Coin, onde cada cidadão era apenas uma peça em uma engrenagem de produtividade... ela não podia ser "apenas bonita". Tinha que ter todo o conjunto da obra. Só assim, ela poderia ser aclamada e respeitada.

​—Octavia, por que a correspondência do Distrito 12 está na pilha de 'Urgentes'? Não era o Sr. Abernathy quem cuidaria disso? - fez uma careta.

Naquele dia em específico, ela já tinha chegado estressada, como se pressentisse que algo iria acontecer.

—Quando decidir acordar e aparecer. - completou, bufando.

—Ele já está aí, Effie. E por incrível que pareça, acordado. - a mulher de peruca levantou as sobrancelhas, surpresa.

Trinket bufou. Haymitch Abernathy era imprevisível. Uma bomba-relógio. Era a pedra no seu sapato há duas décadas.

Ela o conhecera quando ele era apenas um jovem editor brilhante, ousado e autodestrutivo, e ela, uma assistente bastante ambiciosa. Eles subiram os degraus da empresa juntos: ela organizando o caos que ele deixava para trás, ele fornecendo o gênio literário que mantinha os lucros altos. Viviam naquele círculo vicioso: ela gritava com ele por causa do cheiro de bebida, ele zombava da obsessão dela com a etiqueta, mas, no final do dia, nenhum dos dois sabia como operar sem o outro. Formavam uma boa dupla – por isso ainda trabalhavam juntos depois de tantos anos. Funcionavam bem assim.

—Você está... - olhou para o relógio, entrando na sala de reuniões. —Quase cinco minutos adiantado para a nossa reunião, Haymitch. Isso é... um progresso assustador. - ela disse, jogando a bolsa na mesa e ajeitando a peruca.

Seu ritmo estacou ao ver a figura jogada em seu sofá de veludo. Haymitch parecia ter dormido ali – e provavelmente dormiu. O cabelo loiro estava mais bagunçado que o normal e havia uma caneca de café (com um cheiro suspeito de algo mais forte) em sua mão.

—E você está dois tons mais rosa que ontem, princesa. Meus olhos doem. - ele resmungou, com a voz rouca, se ajeitando no sofá e fazendo a mulher revirar os olhos.

—Se os seus olhos doem, a vista deve estar pesada pela dor de cabeça causada pela ressaca. - pegou a caneca da mão dele, levando até perto do nariz para sentir o cheiro. —Não são nem oito da manhã, Haymitch. Pelo amor de Deus.

—Consegue parar de ser chata? - fez uma careta, mas ofereceu a ela um tablet com os contratos do dia. —Aqui está o contrato. O autor do Distrito 7 assinou. Tive que ganhar dele numa aposta de bar, mas assinou.

—Aposta de bar? - soltou o ar pelo nariz. Negou com a cabeça, quase sorrindo porque, apesar dos métodos, ele sempre conseguia bons resultados.

Ela era a ordem que ele precisava para não afundar; ele era o talento que mantinha o nome dela no topo. Já tinham passado por crises, brigas e até alguns flertes bêbados em festas de fim de ano que ambos fingiam ter esquecido.

​A porta abriu bruscamente. A interrupção, antes mesmo que pudessem dizer algo, veio na forma de um homem de terno cinza metálico. Dr. Plutarch Heavensbee entrou na sala com um sorriso enigmático que nunca chegava aos olhos.

—Bom dia. Senhorita Trinket. Senhor Abernathy. - acenou com a cabeça para ambos. —Sempre bom vê-los.

—Bom dia, Plutarch. - respondeu sorrindo, apesar de estranhar a aquela aparição repentina do homem. —No que posso ajudar? Veio para mais revisões de contratos? Pensei que tivesse enviado tudo ontem... - caminhou até a mesa pegando sua pasta rosa e se sentou, pronta para conferir os documentos, mas foi interrompida antes de seguir.

—Infelizmente, Effie, hoje estou aqui como representante do Conselho de Cidadania. - ela engoliu em seco. —A presidente Coin revisou pessoalmente os registros de produtividade e os status de residência. Ela disse que o seu visto não será renovado. E a sua petição de residência permanente foi indeferida.

O estômago de Effie pareceu dar uma cambalhota.

—Indeferida? - a voz dela saiu fina, quase quebradiça. —Plutarch, eu estou aqui há vinte anos! Eu construí esta agência! Isso não tem cabimento!

Heavensbee respirou fundo. Sabia que seria difícil dizer isso à ela. Não queria, mas estava cumprindo ordens. Ou não. Na verdade, é impossível saber o que realmente se passa na cabeça do homem. Era uma verdadeira incógnita.

—Coin acredita que seu cargo pode ser ocupado por um software de logística. Sem um vínculo familiar sólido em Panem ou um patrocínio que o governo considere 'vital para a sobrevivência do Estado', você será transferida para um assentamento de reassentamento no interior. Depois de amanhã. Suas contas serão congeladas para cobrir os custos do seu transporte.

Depois de amanhã. Perder a casa. Perder o guarda-roupa que era sua única proteção contra o mundo. Perder a dignidade. Perder o respeito e a admiração. Para Effie, ser mandada de volta para a obscuridade de um distrito pobre era, talvez, muito pior do que a morte; era deixar de existir. Ela olhou para as próprias mãos, as unhas perfeitamente pintadas começando a tremer de forma incontrolável.

Haymitch, que até então observava tudo com um desdém preguiçoso, endireitou as costas. Ele viu o pânico real – não o pânico de um horário perdido ou um cronograma adiado, mas o pavor de uma mulher que não tinha para onde ir e ninguém a quem recorrer. Ele a conhecia. Sabia que por trás das perucas, das maquiagens, dos modos e da etiqueta, havia uma mulher paranoica que morria de medo de ser descartada e de se sentir mais sozinha.

Aquela agência era tudo para ela. Trinket não tinha mais ninguém. Apenas Panem. Foi onde ela se encontrou. Onde ela se sentiu útil. Onde ela se sentiu admirada. Admirada como era pelos seus avós ou pela sua irmã mais nova, que havia perdido em um acidente.

Ela não podia voltar para um Distrito.

—Reassentamento? - Abernathy logo interveio, a voz rouca ganhando um tom de autoridade que ele raramente usava. —Cara, você sabe que Effie move essa empresa. Não podem simplesmente jogá-la num trem e esquecê-la. Essa agência vai quebrar sem ela.

—Eu concordo, Haymitch. Mas a Coin não. - Plutarch deu de ombros. —As leis são claras. A menos que haja uma mudança drástica e legal no status civil dela que a vincule permanentemente a um cidadão de status pleno...

Effie sentiu o ar faltar. Ela olhou para Haymitch. O homem que a irritava, que bebia demais, que era um desastre ambulante na maior parte do tempo, mas que era o seu parceiro a única constante em sua vida nos últimos vinte anos. Tinha que agir. Pediria desculpas depois, que seja. Precisava sair dessa.

—Mas... houve - ela disparou. O som da própria voz a surpreendeu. Não acreditava que realmente diria isso, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado clamando por liberdade. —Uma mudança drástica.

Haymitch e Plutarch a encararam. Quando a mulher de peruca quase rosa olhou nos olhos dele, ele pareceu entender. Ou não. Preferia não entender, se fosse o que estava pensando. Effie, não faz isso.

A súplica de seus olhos não adiantou.

​—Nós não queríamos anunciar ainda devido à política da agência sobre relacionamentos internos, mas... -  ela continuou, levantando-se com toda a graça que conseguiu reunir e caminhando até o loiro. —Mas diante desse... bem, diante desse equívoco burocrático... não posso mais esconder. Haymitch e eu estamos juntos. Noivos. - colocou a mão sobre o ombro dele, como se buscasse equilíbrio para não cair.

​O silêncio que se seguiu foi absoluto. Haymitch sentiu o peso da mão dela – ela estava cravando as unhas no ombro dele, num pedido mudo, desesperado e vulnerável que parecia gritar um "por favor, Abernathy, não me deixe cair".

​—Noivos? - Plutarch repetiu, uma sobrancelha subindo com um interesse renovado.

—Sim, nós vamos nos casar. - deu duas batidinhas de leve no ombro dele. —Nós vamos nos casar. - repetiu, talvez mais para si mesma do que para os dois.

—Nós... - ele mal conseguia falar. —É...

—Eu sempre desconfiei de vocês, mas isso é definitivamente uma surpresa. - Haymitch e Effie se olharam. —E estão nisso há quanto tempo?

—Oh, estamos juntos há meses! - ela soltou uma risadinha nervosa, sua máscara voltando ao lugar por puro instinto de sobrevivência. —Vinte anos de convivência, Plutarch... a gente acaba se tornando essencial um para o outro. Não é mesmo, querido?

Ela olhou para Haymitch. O olhar dele era uma mistura de choque, um pouco de fúria e talvez algo que parecia... piedade. Ele viu as lágrimas contidas nos olhos dela, a fragilidade, o quase pedido de socorro. Se ele dissesse "não", ela perdia tudo. Plutarch chamaria os seguranças e ela seria levada em um trem de carga. Se ele dissesse "sim"... ele não tinha nem tempo para pensar no que iria acontecer.

O filho de Willamae soltou um suspiro pesado, o som de um homem que estava aceitando a sua sentença. Ele olhou para Plutarch e depois para a "noiva" paranoica ao seu lado, colocando sua mão por cima da dela em seu ombro.

​—É. ele resmungou, a voz carregada. Effie quase suspirou. —Eu cansei de ouvir ela reclamar da minha bagunça só aqui na agência e decidi dar a ela o direito legal de reclamar pelo resto da vida. - usou um tom divertido. —O amor faz essas coisas, meu amigo.

Ela sorriu, quase aliviada.

—Bem, Plutarch, a verdade é que Haymitch e eu somos duas pessoas que não deveriam ter se apaixonado, mas... aconteceu. - disse como se fosse algo sem escapatória.

E era.

—Todas aquelas noites no escritório... fins de semana... hum... alguma coisa aconteceu. - sorriu, sem graça.

—Aconteceu. - ele apenas repetiu, espelhando o sorriso, olhando para ela. —Meio difícil de resistir, não é?

—É. - balançou a cabeça. —Está tudo bem? Tudo certo? Está feliz com isso? Porque, bem... nós... - esboçou em seu rosto um sorriso radiante. —Estamos.

—Eu? Encantado. - sorriu de um jeito que fez a mulher sentir nojo. —Mas a Presidente Coin não aceita palavras sem provas, não sei se sabe. Vou enviar os formulários de investigação. Se for só um noivado de fachada para burlar o Estado... ambos enfrentarão penas severas. - se afastou, andando em direção à porta.

Quando a porta se fechou, Haymitch se livrou da mão de Effie como se estivesse queimado. Ele se levantou e foi até o minibar, servindo-se de algo forte com as mãos levemente trêmulas.

​—Você ficou louca, Trinket? - ele explodiu, virando-se para ela com fogo nos olhos cinzentos. —Casamento? Viagem? Investigação? Penas severas? Você tem noção do que acabou de fazer com a minha vida?

—Como se ter você como meu noivo não fosse uma calamidade. - sua voz saiu embargada, sentando-se no sofá, no mesmo canto onde Abernathy estava sentado antes.

Ela cobriu o rosto com as mãos, esquecendo por um segundo de se preocupar com a maquiagem que ficaria borrada.

—Eu não tive escolha, Haymitch. Eles iam me levar. Eu não tenho nada lá fora. Eu não sou ninguém lá fora!

—E você acha que a solução é me arrastar para o altar? - ele virou o copo de uma vez, os olhos cinzentos faiscando de fúria. —Eu não vou fazer isso. Eu vou lá fora, chamo o Plutarch e digo que você teve um surto psicótico causado pelo excesso de laquê na peruca.

—Não! - ela soluçou, uma única vez, correndo até ele. —Por favor... são... só alguns meses. Até a papelada ser aprovada. Eu faço o que você quiser.

Haymitch parou, a encarando, o copo a meio caminho da boca. Ele olhou para aquela mulher – tão brilhante, tão ridiculamente bonita e tão profundamente assustada. Ele suspirou, sentando-se no canto da mesa dela.

Apesar de estar levemente comovido por vê-la daquela forma, um brilho de malícia cruzou seus olhos cinzentos. Se ele ia entrar naquela fogueira, definitivamente não seria de graça.

—É, eu tenho minhas exigências para abdicar da minha vida de solteiro convicto. - balançou a cabeça, bebendo em um gole tudo o que estava no copo.

—O que você quer, Abernathy? - piscou os olhos marejados repetidas vezes, deixando cair duas lágrimas teimosas.

—Quero dizer que, se vamos oficializar isso, eu quero o meu nome como Editor-Chefe da ala de Ficção. E aquele aumento de 20% que você me negou no mês passado? Acho que agora é uma ótima hora para reconsiderar. - ele deu de ombros, observando a cor subir ao rosto dela. —Além disso, eu sou um romântico à moda antiga, Effie. Você deu a notícia, mas ainda não fez o pedido.

—Ah, não. - negou com a cabeça.

Ela olhou para o chão de mármore, para seu vestido de grife e depois para a expressão de triunfo de Haymitch. Ela realmente estava encurralada.

—Você... não está falando sério. - ela murmurou entre dentes.

​—Ah, eu estou. De joelhos, Trinket. No meio da sala. - Haymitch provocou, apontando para o chão à sua frente.

—Mas eu estou usando um vestido de seda! - tentou.

​—Então aproveite a seda enquanto você ainda a tem, porque no assentamento de reassentamento para onde a Coin quer te mandar, o tecido padrão é juta. - Haymitch disse, dando de ombros e fazendo menção de caminhar até a porta. —Vou chamar o Plutarch.

​—Espere! - o grito dela ecoou na sala.

O loiro parou, com a mão na maçaneta, um sorriso de triunfo escondido no canto da boca.

Effie respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. Por um lado, o reassentamento e a perda de sua identidade. Por outro, a humilhação diante do homem que mais a irritava no mundo. A sobrevivência venceu. Com um movimento coreografado e tenso, ela se ajoelhou, o tecido da saia espalhando-se pelo chão.

Ela fechou os olhos, engolindo em seco. Fez uma pausa na respiração, como se contasse até dez internamente.

—Haymitch Abernathy. - ela disse, a voz tremendo de fúria contida, mas soando estranhamente doce. —Quer casar comigo? - soltou a frase, sem mais nem menos, louca para levantar dali logo.

Haymitch saboreou o momento por longos cinco segundos. Ele se inclinou para frente, ficando cara a cara com ela.

—Não. - respondeu. —Achei sem emoção. Não me convenceu. Tem que pedir com vontade. - reclamou com uma careta, recebendo um olhar fuzilante em resposta.

Ela respirou fundo.

—Haymitch, meu querido.

—Sim, Effie?

—Doce Haymitch.

—Estou te ouvindo, querida.

—Você, por favor, com mil coraçõezinhos, rosas e borboletas, poderia aceitar se casar comigo?

—Olha, sinceramente, não gostei muito do seu sarcasmo... - franziu o nariz.

—Quer ficar sem a sua promoção?

A analisou por quase mais um minuto. Sorriu. Estendeu a mão para ela, para poder ajudá-la a se levantar.

—Aceito. Então temos um acordo, Sweetheart. - apertou a mão dela, que fez o mesmo com a dele. —Ah, e mais uma coisa. Se vamos fazer esse teatro, eu quero ver você se empenhar.

—Posso fingir qualquer coisa. - disse, olhando nos olhos dele. —Mas duvido que você possa ser...

Ela não conseguiu terminar de falar. O irmão de Sid deixou o copo de lado, em cima da mesa. Agarrou-a pela cintura, chocando os corpos um no outro. A respiração dela falhou.

—Também sou mestre em fingir. - retribuiu o olhar dela. —Vamos ter que enganar muita gente. Espero que valha a pena.

—Vai... - engoliu em seco, tentando manter a postura. —Vai valer.

Se encararam por mais um segundo. Estavam perto demais.

—Eu odeio você. - ela sentenciou.

​—É recíproco. Mas não é isso que você deveria dizer para mim. - ele respondeu, voltando para sua bebida com um meio sorriso. —Agora, você é oficialmente a minha noiva. É bom começar a praticar o olhar de apaixonada, porque as pessoas precisam acreditar. Uma cela é pequena demais para nós dois, querida.

Effie ajustou a peruca, pronta para sair daquela sala.

—Eu sou uma excelente atriz, Haymitch. Ninguém no mundo vai perceber.

​—É o que vamos ver. - ele murmurou, o olhar ficando quase sombrio.

Ela bufou, endireitando a postura, voltando a ser aquela que todos conheciam em poucos segundos.

—Agora, ombros para trás, sorriso largo! - disse, ordenando, como estava acostumada a fazer sempre. —Temos que ir ao Departamento de Imigração. Hoje é um dia muito muito importante!

Saiu da sala, sem esperá-lo, mas sabendo que ele iria atrás dela.

—Sem dúvidas... - murmurou, enchendo seu copo mais uma vez. —Inesquecível, Trinket. Inesquecível. - virou o copo, sentindo o líquido queimar goela abaixo, antes de finalmente segui-la.

No Departamento de Cidadania e Imigração, precisavam rever o visto de Effie e oficializar a relação deles.

—Não estou com um bom pressentimento. - Haymitch disse, ao entrar na sala do juíz e se sentar.

—Não era você quem estava confiante ao ponto de me desafiar e até me agarrar? - debochou. —Relaxa!

Assim que Effie se sentou na cadeira ao lado dele, o oficial Flavius entrou, depois de bater duas vezes na porta da própria sala.

—Srta Trinket?

—Oh, olá! - se virou para ele com o seu melhor sorriso. —Sou eu.

—Eu sou Flavius. Flavius... - estendeu as mãos para os dois. —Devem ser Effie Trinket e Haymitch Abernathy.

Se sentou, recebendo das mãos de Effie uma pasta azul clara, cheia de glitter, onde estavam os seus documentos.

—Agradeço a sua gentileza em nos atender tão rapidamente, senhor. - ela agradeceu, sendo cordial. Ele ignorou. O loiro soltou um breve riso anasalado.

—Imigração... visto... Distrito... - a autoridade dizia palavras desconexas enquanto fazia a leitura. —Eu tenho uma pergunta para fazer aos dois.

Ambos respiraram fundo.

—Por acaso vocês dois estão cometendo fraude para evitar que ela seja deportada e assim possa continuar como presidente da Agência Panem?

O coração dela pareceu sair pela boca.

—Isso é ridículo. - negou com a cabeça.

—Onde ouviu isso? - ele perguntou.

—Recebemos uma ligação mais cedo de um homem chamado... - franziu o cenho, parecendo não lembrar direito.

—Seria de Plutarch Heavensbee?

—Heavensbee. Plutarch Heavensbee. Ele mesmo.

Effie e Haymitch se entreolharam.

—Ah, Plutarch. - ela suspirou. —Plutarch é meio decepcionado com a vida, quer inventar coisas... hum... - pensou no que mais dizer. —Eu peço desculpas, nós sabemos que o senhor deve ter muitas pessoas para atender agora, então se puder apenas nos dizer qual o próximo passo que devemos dar, nós iríamos embora rápido e eu agradeceria mui...

—Senhorita Trinket, por favor. - a interrompeu. —Deixa eu explicar uma coisa para vocês, desse processo que vão abrir. O primeiro passo vai ser uma entrevista marcada. Vou colocar cada um numa sala e fazer perguntas que um casal de verdade saberia responder.

—Mas precisa de tudo isso só pra...

—Haymitch. - ela o cortou, entredentes.

—Segundo passo, vou mais a fundo, vejo os registros telefônicos, falo com seus colegas de trabalho e seus familiares e, se suas respostas tiverem alguma divergência, você - apontou para a mulher. —Será deportada indefinidamente. E você, meu caro, terá cometido um crime. Terá de pagar uma multa de duzentos e cinquenta mil dólares e uma detenção de cinco anos.

Sorriu, quase maquiavélico, os olhando.

—E então... Haymitch? Você quer dizer alguma coisa? - Flavius perguntou. Ele negou com a cabeça. —Não? - balançou a cabeça de novo. —Sim, então?

—Bem, Dr Flavius... a verdade... - Effie olhou para ele, já com o coração na mão.

Não faz isso comigo, ela quase implorava. Ele tem direito, mas... não, Haymitch, por favor, não faça isso.

—A verdade é que Effie e eu somos duas pessoas que não deveriam se apaixonar, sim. Mas... aconteceu. - disse a frase de uma vez só, como se a tivesse decorado desde que a ouviu falar e só esperado para usar no momento certo.

A Trinket sorriu. Talvez o sorriso mais sincero que havia dado naquele dia. Sabia que podia confiar em Haymitch, mas ter provas disso era muito valioso.

—Nós não podíamos contar para ninguém ainda por causa da minha promoção que vai acontecer.

Ela o encarou de volta. Seus olhos estreitaram enquanto seu sorriso se tornava amarelo. Não se pode mais nem ser grata a alguém, pensou.

—Promoção? - o juíz arqueou uma das sobrancelhas.

—A sua... promo... - ela nem conseguiu terminar.

—Nós dois achamos que seria muito inapropriado eu estar para ser promovido a Editor-Chefe...

—Editor-Chefe... - ela repetiu, baixinho, quase sem acreditar que ele dizia aquilo na frente de uma autoridade.

—Enquanto estávamos... bem, você sabe. - meneou a cabeça, dando um sorriso ladeado.

Flavius coçou a cabeça.

—E contaram aos seus pais, avisaram as famílias, pelo menos, sobre essa paixão tão secreta?

—Bem, seria impossível. - Effie ajeitou a peruca. —Meus pais estão mortos. Também não tenho mais a minha irmã mais nova. Nem os meus avós.

—Ela adora pesar o clima... - resmungou, para ninguém ouvir.

—Bem, e você? - olhou para Haymitch. —Você também não tem família?

—Eu?

—Ah, ele tem. Estão vivos. Vivinhos da Silva. - assentiu.

—É, sim, estão. Só não o meu pa...

—Nós, inclusive, estamos de viagem marcada para contar tudo a eles neste fim de semana. - sorriu, com uma empolgação ensaiada. —É aniversário de noventa anos da vovó, a família toda reunida... achamos que será uma oportunidade perfeita!

Ele a encarou.

—Então, vocês vão para...?

Effie não tinha certeza.

—Oras, para a casa dos Abernathy, os pais do Haymitch.

—E essa casa fica...?

—Por que só eu estou falando? - disse mais como uma indireta, apesar de parecer descontraída. —É a casa dos seus pais, querido, vamos, diga.

—Seam. Costura. Distrito 12.

Os olhos dela se arregalaram por um segundo ao olhar para ele. Ele quis rir. Ela engoliu em seco, tentando manter a compostura.

—Então, vocês vão para Seam neste final de semana? - o juíz levantou as sobrancelhas.

—Bem, nós...

—Vamos. Nós vamos. - ele respondeu.

—É. Nós vamos. É de lá que... - fez um breve carinho nos cabelos loiros do homem ao seu lado. —Que o meu Haymitch veio. Da Costura.

Ele segurou a mão dela por um instante, ela se incomodou puxando de volta.

—Bem, então é assim que vai ser. Já que vão viajar agora, quero ver vocês dois aqui segunda-feira para a entrevista. - escreveu algo em um papel, entregando para Haymitch que já tinha se levantado ao ver que a reunião estava sendo encerrada.

O homem no papel de autoridade deu um sorriso ladeado os vendo sair.

—Isso vai ser divertido.

Eles saíram do local. Effie já estava com o celular na mão, pronta para resolver todas as coisas, como sempre.

Haymitch estava meio desnorteado.

—Ok, então... é o seguinte. Nós vamos até lá, vamos fingir que somos namorado e namorada, vamos contar para a sua família que somos noivos...

—Effie.

—Oh, usa milhagem para as passagens. Bem, acho que vou ter que pagar para você ir comigo na primeira classe, mas de qualquer forma, tente usar as milhas. Se não conseguir, tudo bem...

—Effie.

—Ah, e por favor, confirme comida vegetariana, tá? Porque da última vez eles deram para outra pessoa e me forçaram a comer uma salada morna, pegajosa, com uns talheres horríveis...

—Effie! - praticamente gritou.

—Eu... o que foi?

—Você não estava naquela sala?

—Bem... eu estava. - respondeu, incerta de onde ele queria chegar com aquilo.

—Você o ouviu. Uma multa de duzentos e cinquenta mil dólares e cinco anos em cana. - balançou a cabeça em negação.

—Ah, mas isso é...

—E que história é essa de enganar a minha família?

—Haymitch...

—Você acha que é fácil simplesmente chegar na minha cidade, para a minha mãe, meu irmão, minha vó, meus amigos... e mentir assim?

—Haymitch, me desculpa. - ela disse, sincera, olhando nos olhos dele. —Eu sei que... com família não se brinca. Mas nós não vamos ficar lá por muito tempo, muito menos casados por muito tempo. É só até toda essa papelada sair. - respirou fundo, se aproximando dele um pouco mais. —Depois disso, voltaremos a ser o que éramos antes. Eu prometo.

Ele não disse mais nada. Bufou.

—Te vejo amanhã no aeroporto. - e a deixou para trás, ambos precisavam mesmo ficar sozinhos com os seus próprios pensamentos.

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