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stay awake for now (for me, please)

Summary:

Até que, em meio a toda a movimentação ao redor de Ferette, no chão, sangrando, ela viu.

Lorena, apoiada em uma viga, com uma clara expressão de dor no rosto, segurando seu ombro, e sangue nas suas mãos.

Lorena, que estava logo atrás de Ferette, em um tiro que claramente pegou de raspão. Lorena, que a meia hora atrás estava lhe provocando, pedindo um beijo em pleno horário de trabalho. Lorena, que iria ser a futura mãe dos seus filhos.

Lorena foi atingida.

___

E se Leonardo tivesse insistido que Lorena o acompanhasse no evento da Chacrinha, mas isso acarretasse que o tiro, que acertou em Ferette de raspão, lhe acertasse em cheio?

Notes:

minha grande mutual nay jogou essa ideia no ar, num post do twitter, e eu decidi pegar pra mim

eu escrevo outras coisas, que posto em outras contas, mas não consegui me aquietar enquanto não terminasse essa

um beijo nay!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Eduarda varria a praça com o olhar, hábito enraizado no seu treinamento policial, mas que agora lhe servia para achar Lorena em meio a todas aquelas pessoas.

Ficou surpresa em saber que sua namorada iria ao evento da Fundação Ferette na Chacrinha. Logo ela, que desde sua expulsão, fazia de tudo para se distanciar da empresa da família. Mas, ao descobrir a traição que sua sogra havia sofrido, sua aparição agora fazia mais sentido; Ela queria apoiar sua mãe.

Então quando o Delegado Jairo anunciou que ele e seus investigadores favoritos também estariam presentes no evento, ela ficou feliz com a oportunidade de ver sua mulher, mesmo que por pouco tempo, pois estaria ainda em horário de trabalho.

Então ali estava ela, procurando por um flash de cabelos morenos sedosos e olhos verdes brilhantes. Quando a viu, não conseguiu segurar o ímpeto de correr ao seu encontro, abraçando Lorena firmemente, e girando junto com a namorada. Discretamente, Eduarda se aninhou em seu pescoço e sentiu seu cheiro, as notas de pêssego de seu hidratante favorito, e ao fundo as notas de algo inerente a Lorena, seu cheiro natural.

Eduarda estava morrendo de saudades. Mesmo que tivessem se visto a dois dias atrás.

 

— Até que enfim, eu te encontrei! A minha princesa saiu do castelo e veio para a quebrada? — Eduarda disse, segurando as mãos de Lorena. Seu rosto se rasgava em um sorriso de orelha a orelha.

— Pois é, eu vim. Mas eu posso ir embora. É só você me resgatar no teu cavalo branco que eu vou na hora. — A voz de Lorena era travessa, e ela lhe encarava de cima a baixo, com um sorriso ladino, provocante. Eduarda percebeu que seria difícil manter o profissionalismo perto dela.

— Você não fala isso, Lorena Ferette, que eu te beijo aqui mesmo.

— E porque não beija? — Ela disse, se aproximando lentamente, como quem testa as águas. Mulher profana.

— Acho que não é uma boa ideia, né? — Eduarda disse, olhando diretamente para onde Paulinho e o Delegado se misturavam em meio a multidão. Lorena seguiu seu olhar, e entendeu o recado. Mas não sem antes revirar os olhos, sorrindo.

— Tudo bem, tudo bem. Você está aqui a trabalho, e não para ver a sua namorada gata. — Eduarda riu, e retirou uma mecha de cabelo que caia em frente ao rosto de sua amada.

— Mas é só enquanto durar o evento, meu amor. Acabando aqui, o Delegado vai me liberar, e a gente pode fazer alguma coisa juntas. Você não falou algo de jantarmos juntas com a Maggye?

— É verdade, mas acho que não podemos ir direto daqui. Eu meio que arranjei algo para fazer nesse evento… — O tom de Lorena era incerto, e Eduarda levantou uma sobrancelha, questionando silenciosamente sua namorada.

— É que o Leonardo me mandou mensagem mais cedo — Ela disse, passando as mãos em seu cabelo, como sempre fazia quando estava nervosa — Você viu ele, ali em cima. Ao lado da Arminda, que depois de tudo que aconteceu, quis tomar o lugar da minha mãe ao lado do meu pai, agindo como esposa.

— Realmente, eu estranhei a falta da Zenilda ali em cima. Mas eu imaginei que depois do que aconteceu, ela não queira ver o seu pai nem pintado de ouro.

— Ela bateu nele, sabia? — Lorena disse, e Eduarda riu sem ao menos tentar mascarar a satisfação em ver Ferette lidar com a consequência de seus erros.

— Então ela realmente não aparece hoje? Eu gostaria de dar um oi para a minha sogrinha.

— Ela me ligou mais cedo, disse que vai aparecer com uma surpresa, mas não sei o que é. — Ela pausou sua fala, mexendo no cabelo novamente. Eduarda não entendia o motivo de tanto nervosismo. — Acontece que o Leo me pediu um favor. — Ela encarou a lateral do palco, onde Leonardo, Arminda e Ferette discutiam ao mesmo tempo. O seu cunhado parecia visivelmente estressado com o casal em sua frente. — Ele pediu pra eu subir ali também. Dar apoio pra ele, ele não quer passar por essa exposição sozinho.

 

Eduarda não conseguiu segurar seu choque, nem seu descontentamento com a ideia. Não queria Lorena perto de seu pai de jeito nenhum. Não depois de todas as atrocidades que disse sobre a própria filha, sobre o relacionamento das duas, e do abandono paterno que sofreu.

Eduarda também não ia muito com a cara de Leonardo. Não gostou do posicionamento dele em relação à expulsão de Lorena, e como ele ainda se mantém debaixo das asas do pai, mesmo depois do monstro que ele demonstrou ser com a própria irmã. Mas Lorena não sabia disso, porque seu apego com o irmão ainda era muito grande, e ela ainda se sentia na responsabilidade de correr atrás dos erros e problemas dele.

Um exemplo claro era o que se desenrolava na sua frente.

 

— Meu bem, você tem certeza? Acha que isso não ia enfurecer seu pai? Ele parece já estar bem estressado em ir a público logo depois de ter um caso com a Arminda divulgado em página de fofoca.

— Por isso mesmo, vai ser muito divertido tirar a paz do grande Comendador Ferette. Não que ele ainda tenha alguma, mas acho que ele ainda nem sabe da matéria no Teo Pereira. Se não, não subiria com a Arminda — Ela falava, extremamente satisfeita em irritar o próprio pai. A ruiva respirou fundo, ainda receosa de concordar com essa maluquice.

— Amor, eu não sei não… Não acha que ele pode fazer uma cena com você, ali em cima?

— Deixa eu te contar um segredo, só tem uma coisa que meu pai preza tanto quanto o dinheiro: A imagem dele. Ele é obcecado em manter a imagem da família tradicional brasileira perfeita. Eu, por exemplo, sou um ponto fora da curva. Por isso que ele me quis fora — O tom de voz divertido foi morrendo, aos poucos. No fim, a expulsão ainda lhe machucava muito. — Exatamente por isso que ele está tão estressado. Ele subiu só com um filho, e a amante. A esposa acabou de romper com ele por descobrir uma traição, e ele sobe junto com a amante? Não seria melhor se a filha dele subisse também, para dar apoio?

 

O sorriso de Lorena beirava o cruel. Ainda havia muito ressentimento guardado ali, e talvez esse foi o jeito que ela encontrou de expiar. Eduarda se preocupava com a namorada, lógico. Mas também não podia simplesmente algemá-la e trancá-la em sua viatura para não realizar esse pedido de Leonardo, que, sinceramente, ela achava estúpido. Não podia fazer nada além de confiar em sua mulher, e protegê-la de longe.

 

— Olha, eu não sou a maior fã dessa ideia, mas se você quer tanto isso, eu vou te apoiar. Mas toma cuidado, por favor. E se ele começar a se esquentar muito, lembra que sua policial favorita tá bem aqui, okay?

— Duda, você é a única policial que eu conheço.

— Então eu não sou sua favorita? — Eduarda perguntou, fazendo bico.

 

Sua namorada sorriu, e rapidamente roubou um selinho. A ruiva se sobressaltou, checando para ver se seus colegas de trabalho não viram nada. Lorena dava risadas.

 

— Amor! Eu estou trabalhando!

— Você faz um biquinho lindo desses e eu não posso beijar? Injustiça isso.

 

As duas se encararam por mais alguns momentos, aproveitando o que parecia ser a calmaria antes da tempestade que com certeza estava por vir. Mas eventualmente, havia chegado a hora de Ferette subir ao palco novamente, se o caminhar nervoso de Leonardo fosse algum tipo de indicativo.

 

— Lorena! Já vamos subir de novo. Decidiu se vai querer enfrentar essa missão? — Leonardo estava suando, visivelmente abalado. Parece que o peso de ser o herdeiro Ferette estava começando a incomodar, sem Lorena ou Zenilda para aliviar seus ombros. — Ah, oi Juquinha. Não sabia que meu pai tinha chamado policiamento além dos da Chacrinha.

— Ele não chamou — Eduarda respondeu, sorrindo, e Leonardo sorriu junto, entendendo nas entrelinhas.

— Eu vou, Leo. Mas eu espero que ele não venha fazer nada comigo.

— Ele não tá doido, eu vou junto — Eduarda cruzou os braços, decidida.

— Acho que se vocês aparecerem juntas, ele tem outro infarto.

— E? — Sua voz já aumentava de tom, entrando completamente na defensiva. Leonardo levantou as mãos em rendição, mostrando que não queria briga.

— Amor — Lorena interviu — Eu nem acho que deixariam você entrar na lateral do palco, é uma área reservada.

— Eu sou policial, Lorena. Não existe isso de não deixarem entrar.

— Vamos fazer assim — Leonardo falou, com calma. Ele parecia ter medo de Eduarda. Bom — Eu tenho certeza que ele não vai fazer nada, mas você pode ficar por perto. Só não aparece na frente dele, porque eu sei que ele vai fazer o delegado da Chacrinha te tirar daqui.

 

Eduarda respirou fundo, irritada. Mas Leonardo tinha razão. O próprio delegado disse para não chamarem atenção ali e não correr o risco de alertar a delegacia da Chacrinha, que não gostava nem um pouco dela e de seus colegas.

Os três seguiram pela área lateral, reservada para os funcionários da fundação e lógico, Ferette e sua “família”. Eduarda ficou para trás, enquanto Lorena e Leonardo seguiam. Atenta para qualquer movimentação estranha, a policial se encostou atrás de uma das vigas de suporte do palco montado, e escutou.

 

— Vamos Leo, já está na hora da gente subir de novo e… — A voz de Ferette morreu em um engasgo, tamanha a surpresa. — O que ela tá fazendo aqui?

 

O escárnio na voz pingava, e Eduarda soube imediatamente que Lorena se afetaria demais. Sua vontade era intervir, não queria ouvir de jeito nenhum sua namorada ser diminuída e ninguém vir em sua defesa.

Mas ela não precisou.

 

— Eu que chamei ela, pai. Acha que eu vou passar por essa vergonha de ser apresentado junto com sua amante e não vou exigir ter minha irmã do meu lado?

 

O silêncio de Ferette chegava ser assustador. Dali, Eduarda não conseguia ver o que estava acontecendo, mas sabia que Ferette sufocava no próprio ódio.

 

— Se você acha que eu vou subir ali junto com você — Ele falava diretamente com Lorena — Passar essa vergonha, você tá muito enganada. — A voz já era somente um sibilo, tamanho o ódio que ele tentava conter. Eduarda deixou a mão mais perto do coldre, por precaução.

— Vergonha maior do que subir nesse palco ao lado da sua amante, depois de pregar tanto sobre ser um homem de valores e prezar pela família?

 

A voz de Lorena era altiva, carregada de certeza, e escárnio. Eduarda sentiu um orgulho imenso, e ao mesmo tempo vontade de se aproximar, espiar, para enxergar o que ela tinha certeza que era sua namorada de nariz empinado, fúria no olhar, e nenhum sinal de medo.

Seu corpo reagiu sozinho. Agora não era hora.

 

— A última pessoa que pode falar de família é você, visto que destruiu a nossa!

— Eu? Em que momento? Quando eu juntei todas as minhas coisas, depois de ser expulsa, e segui minha vida em frente quietamente, quando eu poderia muito bem ter te exposto como o péssimo ser humano que você é?

— Você nunca teria feito isso, Lorena. É covarde, sempre foi.

— Não. Nunca foi sobre covardia. Foi sobre eu me importar com você mais do que deveria. E também porque eu não queria que minha mãe nem meu irmão acabassem em fogo cruzado. Mas agora o Leo tá no meio dessa cena ridícula com a sua amantezinha, então eu não vou deixar ele passar por essa sozinho.

— Não fala assim de mim! Eu sou a esposa nova! — A voz estridente de Arminda se fez presente, e pela comoção, Eduarda presumiu que Leonardo a afastou de Lorena.

— Se coloca no seu lugar de amante, Arminda. É óbvio, como você destoa dessa família, ele só te aguenta do lado dele porque ninguém mais quer essa posição — Lorena ofegava, despejando tudo que estava guardando desde sua expulsão.

 

O silêncio de Ferette lhe assustava, porque sabia que aquele homem nunca aceitaria ter verdades jogadas assim em sua cara. Mas a comoção ao redor deles aumentava. O evento chegava em seu ponto mais alto, e cada vez mais moradores da comunidade se aproximavam. Tudo ali era muito aberto. Se Ferette reagisse mal, todos veriam.

 

— Mas fica tranquilo pai. Minha intenção aqui não é fazer confusão nenhuma. Eu não vou me meter no seu evento de fachada. Não quero falar, não tenho interesse nenhum em dividir esse palco, mas não vou deixar meu irmão sozinho. Se você ousar me impedir de ficar ao lado do meu irmão, eu subo nesse palco, e conto detalhadamente nesse microfone como você merece ganhar o prêmio de pai e marido do ano.

 

O silêncio era palpável. O evento seguia, a Chacrinha continuava viva, com a música da comunidade estourando as caixas de som, mas naquela bolha, a única coisa que se ouvia eram as respirações exaltadas dos Ferette.

 

— Eu não quero você perto de mim. Não quero que nem ouse olhar para mim. Se quiser, fique na parte de trás, no palco. Não te quero do meu lado.

— Poxa, mas como você vai vender sua família perfeita de comercial de margarina se a sua filha não ficar ao seu lado? — o sarcasmo era óbvio. Eduarda sorriu, orgulhosa. Lorena estava começando a adquirir seu humor ácido. — Não se preocupe, não tenho interesse nenhum em fazer o papel de filha. Ali eu só serei irmã.

— E você, Leonardo. — O foco de Ferette mudou. — Chamando a irmãzinha pra te defender? Que tipo de homem você é?

— Não sei, pai. É que o único exemplo que eu tive na minha casa é o canalha que traiu minha mãe.

 

Eduarda se surpreendeu com a postura de Leonardo. Pelo visto, seu senso de proteção com Zenilda era grande o suficiente para o retirar do feitiço imposto pelo pai. Ainda se incomodava com a posição que ele havia tomado na expulsão de Lorena, mas pelo menos agora ele estava defendendo a irmã.

Ainda não era o suficiente para mudar sua visão sobre o herdeiro Ferette, mas pelo menos agora ela confiava que Lorena não ficaria desamparada naquele palco.

 

A familia foi chamada mais uma vez, e todos subiram juntos. Ferette se colocando o mais longe que era aceitável de Lorena. Leonardo estava ao seu lado, com a mão nas costas de Lorena, lhe guiando. Eduarda se sentiu tranquila para voltar ao lado de Paulinho e Jairo, em meio a plateia, e poder observar Lorena de longe.

Algumas pessoas foram chamadas para o palco. Moradores da Chacrinha que usufruiam dos remédios da Fundação Ferette, entre eles um senhor cadeirante, incrivelmente simpático. O desconforto de Leonardo e Ferette era palpável, completamente deslocados em meio a pessoas de fora da sua classe social. Mas Lorena, em meio deles, brilhou. Conversou com o senhor com paciência, um sorriso genuíno no rosto, e demonstrava prestar total atenção no que ele dizia.

Os fotógrafos encaravam a cena como um banquete. Por mais que a face da Fundação sempre fora Santiago, seu jeito engessado de interagir com o povo não tinha chance para a empatia que se exalava em cada ação de Lorena, que interagia com todos com um sorriso tão grande que evidenciava suas covinhas.

 

— Ela ali em cima faz toda a diferença — Paulinho disse, puxando sua atenção.

— Dá até um ar de humanidade nessa patacoada que nem o Ferette, nem o filho conseguem — O Delegado Jairo adicionou.

— Bom, que pena que nenhum deles conseguiu perceber isso antes de cortarem a Lorena da vida deles, né? — A voz de Juquinha era irritada, desgostosa com a ideia de sua namorada ter algum tipo de associação com aquela Fundação — Que pena pra eles, porque eu não acho que a Lorena seria feliz nessa posição.

 

Ela teria continuado a conversa, se sua atenção não tivesse sido completamente tomada por várias crianças subindo ao palco. Ferette apertava a mão de algumas, completamente desconfortável com as poucas que tinham a coragem de lhe abraçar. Leonardo se absteve completamente de interagir, ficando recluso ao lado de Arminda.

Lorena foi a única que se abaixou, ficando no mesmo nível que elas, e falou com cada uma animadamente. Conversava com elas sem desmerecê-las, abraçou, riu, e recebeu os desenhos, elogiando cada traço, cada rabisco.

Na cabeça de Eduarda só se passavam as vezes que conversavam sobre formarem uma família, terem filhos, serem mães. Ela conseguia quase enxergar uma menina linda, ruiva, e com os olhos e covinhas de Lorena. Ver sua mulher se abaixar para falar com ela da mesma forma que estava fazedo.

Ela sentiu os olhos encherem. Limpou rapidamente. Ali não era a hora, nem o lugar para se emocionar. Mas pensou no jantar que teriam mais tarde, pensou na viagem que estava planejando para Campos do Jordão, e como planejava pedir Lorena em casamento.

Não podia esperar pela hora de poder viver o resto de seus dias ao lado da mulher de sua vida.

 

Enquanto Juquinha ainda se perdia em seus próprios devaneios, Zenilda foi chamada ao palco. O choque foi o suficiente para lhe fazer entrar em alerta. Lembrou de Lorena comentando que sua sogra apareceria com uma surpresa, então ficou atenta a seus passos em cima daquele palco. Mesmo estando de óculos escuro, seu carinho ao ver os dois filhos juntos era óbvio. Assim como o descontentamento com Ferette e sua amante.

De longe, era possível ver uma discussão se iniciando. Acalorada pela parte de Arminda, que estava visivelmente irritada em perder seu lugar ao lado de Ferette, e ter que ver, de fora, a família inteira subir ao palco.

Mas aquele não parecia ser o plano de Zenilda, pois ela subiu sozinha, e a felicidade do público era contagiante. Afinal, sempre fora Zenilda a subir ao lado de Ferette em todos os eventos da Fundação. Seu rosto que era reconhecido, e não o de Arminda.

Mas seu discurso sobre a Fundação, em nada se referia a Santiago. E o choque foi generalizado quando ela chamou ao palco alguém que realmente se preocupava com o bem estar das pessoas. De longe, Rogério Dantas, o ex-morto, caminhava em meio ao povo da Chacrinha, que não conseguia reagir, devido ao choque.

Paulinho e Jairo, ao seu lado, já estavam com todos os seus alertas ligados, mas nenhum deles podiam fazer nada a não ser observar todo o desenrolar, por causa da maldita jurisdição.

Rogério subiu, se pondo ao lado de Ferette, que estava visivelmente nervoso e irritado com a entrada triunfal de seu antigo sócio, mas tentava salvar aquele evento, oferecendo a mão para Rogério, que demorou segundos agonizantes, antes de aceitar. Ao fundo, Zenilda olhava orgulhosa para tudo que estava acontecendo, satisfeita com o circo que acabara de armar. Leonardo estava confuso, e ainda em choque de ver Rogério naquele palco.

 

Lorena estava feliz. Simples assim.

Eduarda sabia que sua namorada tinha muito apego a Rogério, lhe considerava um tio, e sabia que muito de sua personalidade idealista e desafiadora era influência dele, que em seus anos de adolescência sustentava longas e longas conversas que iam de literatura brasileira até as mais desafiadoras pautas sociais.

Era estranho, pois Eduarda era uma das investigadoras responsáveis pelo o caso que envolve a falsa morte de Rogério, mas ver Lorena tão feliz em ter seu tio de volta, fazia Eduarda querer resolver logo todo esse mistério, e deixar sua namorada curtir a volta dele em paz.

 

Havia chegado a hora do discurso final de Ferette, que pouco lhe interessava. Ele tomou a frente do palco, no microfone, regurgitando palavras claramente ensaiadas, que não passavam um pingo de verdade saindo daquele homem. Sua família seguia logo por trás. Arminda era a que estava mais perto, visivelmente descontente em dividir espaço com Zenilda – essa que claramente não estava interessada em pagar de boa esposa – e por último, Leonardo e Lorena conversavam algo entre cochichos, rindo disfarçadamente.

Era bom saber que, apesar da situação péssima que sua namorada fora colocada, ela conseguia sentir alguma leveza em meio disso, ao lado de sua mãe, seu irmão, e feliz com seu tio. Relutantemente, ela marcou mais um ponto para Leonardo em sua contagem mental.

Eduarda baixou a cabeça, tentando enxergar a tela de seu celular em meio ao sol, para mandar uma mensagem para Lorena, avisando que não conseguiria vê-la logo após o evento. Tinha certeza que o Delegado os puxaria de volta para a Aclimação imediatamente, tendo em vista as novas informações do caso de Rogério.

Tinha acabado de apertar “enviar”, quando ouviu o estampido seco.

Um tiro. Inconfundível.

Por alguns milésimos, sua mente ainda estava tranquila. Eles estavam na Chacrinha. Infelizmente, naquele lugar, tiros eram escutados com frequência. Podia ter sido em qualquer lugar. Longe do evento, longe de todas aquelas pessoas.

Longe de Lorena.

Mas logo após, vieram os gritos.

Seu corpo agiu antes que conseguisse processar, o treinamento que se tornou memória muscular, tomando conta. Juquinha se abaixou, puxando sua arma imediatamente, seus colegas ao seu lado fazendo o mesmo.

Ela fez uma varredura do local, procurando pelo autor do disparo, ou por algum atingido.

Correndo os olhos pela área sistematicamente, ela viu. Ao chão, com a mão na lateral da cabeça, ensanguentada, estava Ferette. Macedo, seu braço direito, já havia se posto em sua frente, o protegendo. Arminda gritava, Zenilda havia se abaixado, procurado abrigo, Leonardo foi de encontro a seu pai, desesperado, e Lorena…

Onde estava Lorena?

Jairo já avisava que eles não deveriam fazer nada, devido ao conflito de jurisdição. Paulinho estava protegendo Gerluce e Viviane. Eduarda não conseguia achar Lorena.

Até que, em meio a toda a movimentação ao redor de Ferette, no chão, sangrando, ela viu.

Lorena, apoiada em uma viga, com uma clara expressão de dor no rosto, segurando seu ombro, e sangue nas suas mãos.

Lorena, que estava logo atrás de Ferette, em um tiro que claramente pegou de raspão. Lorena, que a meia hora atrás estava lhe provocando, pedindo um beijo em pleno horário de trabalho. Lorena, que iria ser a futura mãe dos seus filhos.

Lorena foi atingida.

 

— Paulinho, eles acertaram a Lorena — Seu tom de voz estava incrivelmente monótono, o lado racional de seu cérebro tentando tomar controle, para evitar que ela empurrasse todos a sua frente para chegar até sua mulher.

— Mentira Juquinha. Onde?

— Bem ali Paulinho, porra! Ela tá sangrando pra caralho, meu Deus. — O desespero já tomava conta de si, e ela ensaiou correr até o palco, quando dois policiais se colocaram em seu caminho. Ela precisou de muita força de vontade para não apelar para agressão física ali mesmo.

— O que você pensa que está fazendo, bonitinha? Aqui não é a área de vocês. — O delegado da Chacrinha falava, com um tom altivo.

— Fica tranquilo, a gente sab–

— Eu tô pouco me fudendo para jurisdição Delegado, manda seus cãezinhos de caça saírem da minha frente agora. — Ela cortou seu próprio supervisor, o sangue já quente. Precisava ver como Lorena estava, Duvidava que alguém ali em cima perceberia que ela foi atingida

— Juquinha! — Paulinho lhe repreeendeu, e lhe segurou pelos ombros. Ela se desvencilhou com facilidade.

— Jairo, Jairo… Acho bom você controlar melhor seus investigadores queridos. você não vai querer que sua filha ruiva seja suspensa.

 

Eduarda respirou fundo. Ela não tinha tempo para aquela merda. Lorena foi atingida. Estava com dor, provavelmente sangrando muito, e naquele palco todos só se importavam com o maldito Santiago Ferette, que até pose de mártir estava fazendo.

 

— Escuta aqui — Eduarda olhou para o Delegado e Paulinho se desesperou, com medo que ela avancasse nele. — O seu problema é eu agir como policial na porra do seu território? Então pronto. — Ela se virou para Jairo, entregando seu distintivo. — Eu não quero subir lá como policial. Eu tô pouco me fudendo pro tiro que o Ferette tomou, fica à vontade pra investigar esse pepino. Eu vou subir ali porque a minha mulher foi atingida, e eu espero que ninguém seja doente de me impedir de ver ela — Sua reação foi tão inesperada, que paralisou todos ao seu redor, e quando ela tentou passar novamente, empurrou levemente os dois policiais, que agora já não tentavam mais impedir sua passagem.

 

Sua respiração começou a ficar dificultosa, os batimentos acelerados, e Eduarda tenta ao máximo se controlar. Aquele não era o momento para entrar em panico. Lorena precisava de seu lado racional, precisava de ajuda.

Quando chegou na lateral do palco, Leonardo e Arminda já estavam desesperados em relação a Ferette. Eduarda não enxergou necessidade nenhuma daquela comoção, pois mesmo de longe era óbvio que, apesar do sangue e vermelhidão, parecia ter pego só de raspão. Leonardo gritava por um médico como se sua orelha tivesse sido arrancada fora.

Ele não notou que Lorena fora atingida?

Eduarda subiu ao palco, assustando Leonardo, Zenilda e principalmente Ferette, que já abria a boca para reclamar de sua presença ali. Porém, ela passou reto por todos eles.

Chegou em Lorena, que estava apoiada nas vigas de sustentação do palco, segurando seu ombro. Sua blusa social rosa já manchada de vermelho, e a mancha se alastrava. Sua expressão, além de carregar dor, também tinha muito medo.

 

Duda… — A voz saiu fraca, e Eduarda quis desabar ali mesmo.

— Calma, meu amor. Eu to aqui com você. Me deixa ver com que tá, por favor… — Ela segurou a mão e o ombro atingido com muito cuidado, e Lorena retirou a mão devagar.

 

Ainda sangrava, muito. A perfuração estava aberta, profunda, e provavelmente a bala estava alojada dentro dela. Estava bem feio.

 

— Amor, eu estou com medo. — Sua voz era sôfrega, quase choramingando. Ela estava ficando pálida, perdendo muito sangue. Eduarda precisava agir, e rápido.

— Ei, fica tranquila, tá? Sua policial favorita tá aqui pra te ajudar e te proteger. Não vou deixar nada acontecer com você, meu amor, eu prometo.

 

Eduarda tirou sua jaqueta, passou pelo ombro atingido, sem se importar se o sangue mancharia sua roupa.

 

— Meu bem, olha pra mim, rapidinho. — Com dificuldade, Lorena sustentou o olhar — Eu vou amarrar minha jaqueta no ferimento, agora. Para estancar o máximo possível de sangue. Eu preciso apertar forte. Vai doer, tudo bem? Mas eu prometo que é rapidinho, e é pro seu bem.

 

Lorena concordou, hesitante, mas sabia que era necessário. Eduarda respirou fundo, se preparando para a reação de sua namorada, e apertou o ferimento.

Ela não conseguiu segurar o grito de dor. Grito esse, que chamou atenção de todos ali.

Ferette estava sendo atendido por um médico da comunidade. Leonardo estava incrivelmente aflito, e Arminda parecia assustada com a possibilidade de mais tiros. Zenilda encarava o desenrolar de longe.

O grito de Lorena quebrou a redoma ao redor da família, que finalmente percebeu que mais alguém havia sido lesado naquele atentado.

 

Lorena? — A voz de Leonardo era trêmula, ainda não conseguindo processar tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo.

— Meu Deus, minha filha! — Zenilda gritou, demonstrando a primeira preocupação genuína depois que o tiro foi disparado — Acertaram ela, Juquinha? Acertaram a minha menina?

 

Eduarda ajudou Lorena a se levantar, com muita dificuldade. Ela estava bem fraca. Zenilda largou sua bolsa e óculos, e foi de amparo às duas.

 

— Ela foi atingida no ombro, sogra. A bala ficou alojada. Tá bem feio, e ela tá perdendo muito sangue. A gente precisa ir ao hospital agora.

— Vamos chamar uma ambulância?

— Não precisa, até ela chegar a Lorena já perdeu muito sangue. Vou com ela na minha viatura, é mais rápido.

— Tudo bem, vou logo atrás de vocês, no carro do Rogério.

— Ei. — A voz grossa de Ferette cortou a conversa. — Quem sofreu o atentado foi eu. Eu, o alvo original, não deveria ser a sua prioridade?

 

A policial respirou fundo. Queria poder voar em Ferette, gritar em sua cara que a filha dele estava em uma situação muito pior, e ainda assim ele tentava fazer tudo ser sobre ele. Mas Lorena era sua prioridade, e sempre seria.

 

— Doutor — Ela chamou o médico da comunidade, com uma voz calculada para não demonstrar emoção alguma — Qual a situação dele?

— Ah, hum… Ele está bem. A bala realmente pegou de raspão, só é necessário fazer alguns pontos. — Zé Maria falou, claramente nervoso com a situação que estava.

— Então, nessa situação, quem é a prioridade: O homenzinho que levou um raspão na orelha e fez disso um espetáculo para a mídia se deleitar, ou a minha mulher, que está com uma bala alojada no ombro e perdendo muito sangue? — Ela falou com escárnio na voz, despejando todo o seu ódio a Ferette na fala, para evitar voar naquele homem.

— Ela é prioridade, definitivamente. Dependendo de onde foi a perfuração, pode afetar a movimentação do braço dela, além do risco de infecção.

— Então pronto. Além do mais, Comendador Ferette — O ódio de sua voz ainda não tinha se diluído — Eu não posso fazer nada em relação ao seu atentado. Não é minha jurisdição. Isso você pode pedir pra sua delegacia de estimação, aqui da Chacrinha. Nesse momento minha única prioridade é a minha namorada.

 

Seu celular vibrou rapidamente, curto, duas vezes. Era a configuração que havia deixado para mensagens do número profissional de Paulinho. Uma mensagem que ela não podia ignorar. Mas quase considerou, imaginando ser alguma atualização sobre o atentado a Ferette. Por desencargo de consciência, olhou apenas para poder ignorar sem culpa.

 

P. Reitz: Peguei a viatura, o Del. Jairo liberou

Vou levar vocês para o hospital

 

Eduarda respirou aliviada, feliz em contar com o apoio do parceiro naquela situação horrível. Mostrou a Zenilda, ao seu lado, que confirmou e mandou uma mensagem para Rogério vir lhe buscar também.

Lorena cambaleava ao seu lado, e reclamou de dor.

 

— Você deveria se envergonhar, Ferette. Sua filha levou um tiro, e você só se preocupa consigo mesmo. — A voz de Zenilda também continha desgosto.

— Ela não é minha filha.

Que bom — Lorena disse, com a voz trêmula, e se esforçando ao máximo para levantar a cabeça. — Assim eu não preciso fingir me preocupar com você.

 

Era mentira. Lorena com certeza, mesmo em meio a toda a sua dor, estava preocupada com seu pai. Eduarda sabia disso, Leonardo e Zenilda provavelmente sabiam. Mas Santiago não.

E para Lorena atingir seu pai desse jeito, sem demonstrar remorso algum, ou ela estava muito irritada com a situação que foi colocada, ou a dor estava nublando seus pensamentos e baixando seus filtros.

Provavelmente a segunda opção. Isso deixou Eduarda mais nervosa.

Exatamente nessa hora, uma viatura da polícia parou ao lado do palco, subindo a calçada, e deu dois silvos curtos na buzina. Paulinho.

 

— Zenilda, vamos pro pronto socorro do Hospital Vila Nova, tudo bem? — Eduarda disse, apoiando Lorena até o caminho do carro.

— Eu vou logo atrás, com o Rogério.

— Mãe. — Leonardo chamou, com incerteza na voz, sem saber exatamente o que fazer naquela situação. Seus olhos estavam cheios, mas as lágrimas não ousavam cair.

— Meu filho, fica com o seu pai. Seria bom ele ter alguém ao lado dele, além de lógico, a amante — Zenilda disse com deboche — Eu te atualizo sobre a sua irmã, okay? Aí depois que seu pai for liberado, eu te passo o endereço do hospital.

— Tudo bem, mãe. Fica bem tá, Lô. — A Ferette mais nova concordou, com dificuldade.

— Então é assim? Eu sofro um atentado contra a minha vida, e a minha família me abandona? — Eduarda tinha a resposta na ponta da língua, mas Zenilda foi mais rápida.

— Que nem você abandonou sua filha?

 

Lorena cambaleou de novo, e Eduarda cansou de esperar pelas brigas de família se encerrarem. Seguiu até o carro, e quando chegou perto, Paulinho abriu a porta de trás por dentro, e Eduarda se sentou junto de Lorena.

Era óbvio como a consciência da morena começava a vacilar.

 

— Paulinho ela tá querendo desmaiar meu Deus, o que eu faço?! — Todo o treinamento que fez sobre primeiros socorros sumiram de sua cabeça no segundo que viu os olhos de Lorena querendo revirar, e sua cabeça pender para frente.

— Ei Lorena, fala comigo! Se você me der um oi, eu te conto uma história constrangedora da Juquinha, que tal? — Paulinho falou, olhando para as duas no banco de trás pelo retrovisor.

 

Lorena, apoiada no ombro de sua namorada, derretia, perdendo a força de cada membro, um a um. Mas ainda assim, ela sorriu pequeno, as covinhas aparecendo em seu rosto pálido.

 

— Oi Paulo, conta — A voz dela quase não saiu, e foi o estopim para as primeiras lágrimas de Eduarda finalmente saírem.

— Quer tanto assim ouvir minhas vergonhas, amor? — A ruiva falou, mas a voz já se engasgava com os soluços que tentavam escapar. As lágrimas não pararam mais.

— Amor, não chora — Lorena levantou o braço que não estava ferido, com um sacrifício imenso, e pousou a mão na bochecha de Eduarda. Estava gelada, bem gelada.

— Eu te amo tanto, você não faz ideia — Os soluços já vinham sem pena, tamanho o medo que sentia. Estava vendo a consciência de Lorena se esvaindo aos poucos, seus lábios ficando sem cor, cada vez mais pálida. E o que podia fazer, já tinha feito. Agora dependia de Paulinho e do trânsito de São Paulo.

— Eu também, te amo muito. — As palavras já se embolavam, e ela se aninhou mais em Eduarda, como quem se prepara para dormir.

— Ei meu amor, nada de dormir, por favor. — Ela tentou afastar Lorena de seu colo.

— Tanto sono…

— Você não pode dormir, se não eu não te contou da viagem que eu preparei pra gente.

— Viagem? — Ela abriu os olhos com dificuldade, e Eduarda sorriu em meio às lágrimas .

— Sim, vamos pra Campos do Jordão, na casa de serra dos meus pais. — Sua namorada sorriu, e as covinhas apareceram novamente — A gente pode fazer um piquenique no jardim, curtir a lareira, cozinhar, o que você acha? — Ela olhou para Lorena, que não respondeu. — Amor?

 

Eduarda cutucou sua namorada levemente, lhe chamando pelo nome, mas ela não lhe respondia mais. Ela tentou chamar, cutucar, e considerou até chacoalhar, mas nada adiantava.

 

— Paulinho, ela não tá me respondendo Paulinho. Ela não tá acordando Paulinho, meu Deus. — As lágrimas voltaram, sua garganta ameaçava fechar, e seus batimentos cardíacos já estavam completamente desregulados. — Paulinho! — Ela gritava, como se seu parceiro pudesse fazer algo.

— Lorena, ei Lorena! Eu não te contei as histórias da Juquinha, você precisa acordar pra que eu conte — Sua voz também estava desregulada, com choro entalado — Uma vez uma detenta deu em cima dela, pelas barras da prisão, você acredita?

 

Ele tentou rir, mas o som era mais próximo de um soluço, ou uma tosse. Lorena não reagiu. Eduarda sentiu seu mundo inteiro fugindo de suas mãos. Agora era a sua própria visão que ficava turva, com a pouca quantidade de ar entrando em seu pulmão, devido sua respiração entrecortada.

 

— Calma Juca, a gente tá perto. Ela já vai ser atendida, ela é forte. Vai dar certo.

Tem que dar certo, Paulo. Porque eu não sou nada sem ela. — O carro seguiu em absoluto silêncio.

 

5 minutos depois, Paulinho parou em frente a porta do hospital, e ajudou as duas a saírem. Eduarda já gritava por socorro, avisando que era policial e exigia atendimento imediato. Os enfermeiros acolheram Lorena em uma maca, correndo para dentro das salas. Uma bolsa de ar era bombeada em sua boca, e Eduarda tentava acompanhar a maca, explicando todo o ocorrido e a situação que ela se encontrava.

 

— Foi um tiro no ombro. Não consigo dizer se pegou em algum tendão ou ligamento, mas sangrou bastante. Ela perdeu bastante sangue e perdeu consciência no meio do caminho. — Ela seguiu a maca junto com os médicos até a porta da ala de cirurgia.

— Muito obrigada, senhora. Você fez o melhor que podia e sua ajuda foi essencial para salvar a vida dela, mas agora ela precisa operar para fazer a retirada do projétil. Por favor, se você puder aguardar na sala de espera.

 

E Lorena foi levada. Sem consciência, sem ter lhe dado um último beijo, um último cheiro no pescoço, sem um último sorriso com seus dentinhos tortos.

Ela sentiu um toque no ombro e se sobressaltou, mas era Paulinho. Ela ficou alguns segundos paralisada, sem saber reagir, mas quando seu melhor amigo abriu os braços, ela se atirou no abraço e desabou.

 

— Juquinha, fica calma. O caso dela não é grave, apesar da perda de sangue. Vai ficar tudo bem.

 

Eduarda não falou nada, apenas chorou no peito de seu amigo.

Zenilda chegou apressada na sala de espera logo depois, seus olhos estavam inchados, provavelmente havia chorado o caminho inteiro. Rogério, ao seu lado, tentava confortar a amiga como podia.

 

— Juquinha, cadê minha filha? Cadê a minha bebê?

— Ela entrou na sala de cirurgia logo agora, sogra. — Eduarda se desvencilhou do peito de Paulinho para falar com Zenilda. — Ela desmaiou Zenilda. No meio do caminho ela desmaiou, perdeu muito sangue — A voz embargou novamente, e os olhos de Enilda encheram imediatamente.

 

As duas se abraçaram, chorando em conjunto. Zenilda ainda tentava consolar sua nora, em meio a tanta dor, repetindo que não era um ferimento de risco, mas nenhuma das duas conseguia parar de chorar.

 

— O Leonardo mandou mensagem. Ele já terminou com Ferette, no posto da Chacrinha. Ele só tomou alguns pontos na orelha, já foi liberado. Está vindo para cá. — Rogério avisou, sem saber muito bem como agir naquela situação.

— Só ele? — Eduarda falou, imediatamente — Eu espero que seja só ele. Se eu ver o Ferette aqui, fingindo se importar, eu não respondo por mim.

Juquinha — O tom de Paulinho veio repreensivo — Você não pode impedir ele, ele é pai dela. Além do mais, não tem como você culpar ele por tomar um tiro.

 

A policial passou as mãos nos cabelos, nervosa (um hábito que adquiriu da namorada) e respirou fundo. Sabia disso. Sabia que não era culpa de Ferette, que Lorena só foi azarada de sobrar atrás do pai, e na trajetória da bala. Mas precisava culpar alguém por aquilo.

Alguém além de si mesma, que falhou em proteger a mulher da sua vida.

Ela se sentia derrotada. Sentia que de nada adiantou todo o seu treinamento tático, sua arma e distintivo, todo o seu preparo. A ruiva sentou-se em uma das cadeiras de plástico desconfortáveis, na sala de espera, e apoiou o rosto nas mãos. Sua cabeça estava estourando.

 

— Paulinho — Ela chamou, a voz calculada, tentando não tremer — O Delegado Jairo falou alguma coisa? Sobre quem disparou a arma?

— Ele já voltou pra delegacia. Não tinha nada que podíamos fazer. Mas ele acredita que nem o Delegado Fausto tenha conseguido achar o culpado.

 

Ela apertou o rosto mais forte contra suas mãos. Sua vontade era vasculhar pessoalmente cada canto da Chacrinha para achar o culpado. Mas além de não ter permissão alguma para fazer isso, naquele momento, nada importava mais do que Lorena naquela sala de cirurgia.

 

O tempo passava devagar. Eduarda se recusou a olhar qualquer relógio. As coisas aconteciam aos poucos, mas parecia que mesmo assim, as horas não passavam.

Eduarda ligou para seus pais, avisando do ocorrido, e eles cogitaram adiantar a volta de sua viagem para o exterior, tamanha a preocupação com sua nora, mas Eduarda garantiu que não havia necessidade, que não fora algo grave. Viu Leonardo chegar, abraçar sua mãe, perguntar de Lorena, e se sentar, preocupado, junto com todos. Viu Paulinho precisar se despedir, voltar para delegacia, que já não podia ficar sem algum de seus investigadores, mas ele garantiu que Jairo havia lhe liberado para ficar ali, esperando por Lorena.

Viu tudo, menos sua namorada sair daquela maldita sala de cirurgia.

Quando estava prestes a enlouquecer, a porta do centro cirúrgico se abriu.

 

— Família de Lorena Esteves Ferette?

— Sim, estamos aqui, sou a mãe dela — Zenilda se levantou, de supetão, puxando Leonardo junto. Eduarda não sabia se tinha forças para levantar.

— Sua filha está bem, a cirurgia foi um sucesso — Eduarda sentiu todo o peso do mundo ser retirado de suas costas, e quase desmaiou com uma repentina queda de pressão — A bala foi retirada, e nenhum tendão ou ligamento foi comprometido. Ela terá que usar uma tipoia por algumas semanas, para não forçar o local do ferimento, mas tudo ficará 100%.

— A gente pode ver ela? — Leonardo perguntou, e Eduarda finalmente teve força para levantar. Precisa ver Lorena, segurar sua mão, acariciar seu rosto.

— Ela está inconsciente, em repouso, nesse momento, devido a perda de sangue. Transferimos ela para um quarto para ficar em observação. Podemos liberar a visita de duas pessoas. Vocês são a família, certo? Mãe e… — O médico encarou Leonardo, esperando uma resposta.

— Irmão, sou o irmão mais velho dela.

— Posso liberar vocês dois por agora.

 

Eduarda encarou todos à sua frente. Não poderia ver Lorena? Logo ela, que foi a única que percebeu que algo de errado tinha acontecido? Ela que socorreu sua namorada, que estancou o ferimento, que quase agrediu policiais de outra delegacia para chegar até ela?

Não queria comprar briga com a família de Lorena, de jeito nenhum. Mas precisava ver sua mulher de qualquer jeito.

Enquanto ela se praguejava por ter entregado o distintivo para Jairo, já que lhe seria muito útil para justificar sua entrada no quarto, Leonardo lhe chamou atenção.

 

— Juquinha, entra lá — Ele falou, tranquilo.

— Oi?

— Entra lá, com a mãe. Eu posso esperar pra ver ela depois. você é namorada dela, foi a primeira a perceber que tinha algo errado, e só Deus sabe o que poderia ter acontecido se ela tivesse demorado mais para ser atendida. Vai lá.

 

Não havia ressentimento no tom dele. Era honestidade pura. Ele estava tranquilo em ver Lorena só depois, para dar prioridade para Eduarda. Ela sorriu, verdadeiramente, para Leonardo. Impressionante a quantidade de vezes que ele subiu em seu conceito, em um só dia.

Ela e Zenilda foram juntas até o quarto, e no meio do caminho, sua sogra lhe deu a mão. Ela estava visivelmente nervosa em ver a filha numa cama de hospital. Eduarda tentou lhe tranquilizar na medida do possível, mas também estava inquieta.

Quando chegaram no quarto, a primeira coisa que a mente de Eduarda registrou foi o cheiro de antisséptico. Um cheiro característico da limpeza de um hospital, que lhe remetia os tempos em que um de seus avós paternos ficou internado, e mesmo sendo pequena, ela ainda lembrava o quanto aquele cheiro incomodava. Era impermeável demais.

A segunda coisa foi o bipe constante, ritmado. Era um bom sinal, significava que, apesar da perda de sangue, o coração de Lorena seguia batendo forte. Mas ainda assim era desesperador ouvir uma máquina de monitoramento cardíaco acoplada ao coração de sua amada. O único jeito justificável de ouvir seu coração era encostada em seu peito, aconchegada, depois de uma noite de amor.

A terceira coisa foi, curiosamente, os pés de Lorena. O responsável por trazê-la ao quarto e cobri-la com os cobertores esqueceu de cobrir seus pés. Isso lhe incomodou, os pés eram onde Lorena sempre sentiu mais frio. Às vezes, mesmo no calor paulista de 27 graus, ela ainda dormia de meia. Em uma das noites que dormiram juntas, ela perguntou para Eduarda se aquilo a tornava menos sexy. Eduarda fez questão de mostrar para sua namorada, durante a noite toda, que nada lhe deixava menos sexy.

Ela se aproximou da cama, ainda sem coragem de levantar o olhar para encarar Lorena propriamente, e cobriu seus pés corretamente. Depois, respirou fundo, e olhou para sua mulher.

Lorena ainda estava pálida. Um pouco menos que o tom acinzentado que ela viu em seus braços, naquela viatura, mas seu rosto ainda não tinha voltado ao tom rosado de sempre. Eduarda chegou mais perto, e se sentou na cadeira logo ao lado da maca. Seu rosto não estava sereno, como o de quem dormia, tinha alguns vincos entre seus olhos, como se estivesse tendo um pesadelo em meio ao sono. Ela olhou para o ombro ferido. Seu braço descansava em uma tipoia, mas o ombro inteiro estava enfaixado.

Com uma mão, Eduarda segurou a de Lorena. Com a outra, tocou levemente em seu rosto, acariciando sua bochecha.

O monitor seguia bipando. Um, dois, três.

No quarto bipe, Eduarda desabou.

Chorou feio, soluçando, as lágrimas pingando sem freio. Como se seu coração tivesse sido arrancado e estivesse ali, batendo, ao lado de Lorena.

 

Me perdoa, meu amor. Por favor, me perdoa. Eu deveria ter impedido, eu deveria ter feito alguma coisa. De que merda adianta eu ser policial se eu não posso te proteger? — Ela chorava como uma criança, com o rosto escondido no peito de Lorena, que, inconsciente, nada sabia da angústia que sua namorada sentia.

— Anjinho… — Zenilda interrompeu, e a ruiva se sobressaltou, havia esquecido completamente da presença da sogra ali — Não foi culpa sua…

Foi sim! Foi, porque eu deveria ter feito alguma coisa. Devia ter percebido uma pessoa estranha naquele meio, deveria ter subido naquele palco junto com ela, ou ter impedido ela de ter aceitado essa patacoada pra começo de conversa! — As lágrimas ainda caiam irrefreadamente.

— Você não tinha como prever isso, Juquinha.

— Mas eu devia ter feito algo, sogra. Eu falhei.

E você fez! — Seu tom de voz aumentou um pouco — Você percebeu de longe que havia algo errado, você largou tudo pra ajudar a Lorena, você que tinha o treinamento certo pra lidar com o machucado dela, e eu aposto que o braço dela só está intacto pela velocidade como você resolveu tudo.

 

Zenilda se aproximou, também visivelmente abalada pela visão de sua filha em uma cama de hospital. Ao mesmo tempo que passava a mão pelos cabelos de sua filha, também repousou as mãos na costa de Eduarda.

 

— Você não falhou, anjinho. Pelo contrário. Eu nunca senti minha filha tão bem cuidada e protegida, como eu sinto desde que você entrou na vida dela.

 

Eduarda não respondeu. Não concordou ou discordou, só ficou lá, encarando o peito de Lorena subir e descer, lentamente, em seu repouso. Seu olhar era vago, vazio, como se estivesse faltando algo ali.

E estava. O sorriso de sua mulher. Sua voz rouca, sua risada melodiosa, seus cheirinhos no pescoço.

 

— Eu não vou investigar quem deu o tiro nela, sabia? — O silêncio foi quebrado repentinamente, e Zenilda se sobressaltou.

— Conflito de interesse?

— Antes fosse. Isso não é um problema muito grande na nossa delegacia. A corregedoria não se importa muito, já que está faltando investigadores na nossa área. Na verdade, é porque não é nossa jurisdição. — Eduarda se levantou, ainda sem tirar os olhos de Lorena. Ela tirou algumas mechas que caiam sobre seu rosto.

— O tiro aconteceu na Chacrinha. Cai na delegacia de lá, que coincidentemente é a delegacia que seu marido tem no bolso.

— Ex-marido, por favor. Vou dar entrada no processo de divórcio assim que possível. — Apesar da situação, Zenilda ainda conseguiu tirar um riso genuíno de Eduarda.

— Vou sair, ligar para os meus pais, avisar que está tudo bem. Os coitados estavam considerando até adiantar a volta deles de Milão, tamanha preocupação. — A policial deixou um beijo casto na bochecha de sua amada, e se dirigiu até a saída — Vou chamar o Leonardo para entrar, mas vou ficar aqui fora, tudo bem? Me avisa qualquer coisinha, por favor.

— Aviso sim meu amor. E Juquinha — Eduarda travou, na porta, sem olhar para sua sogra — Obrigada, de verdade.

 

Os olhos dela marejaram, ela sorriu para Zenilda, e saiu.

 

Estava sentada em uma das cadeiras desconfortáveis da sala de espera. Já havia avisado seus pais, Paulinho, e até Maggye, que soube do ocorrido e logo lhe mandou mensagem perguntando sobre Lorena.

Ela encarava as luzes brancas fluorescentes do teto. Seu rosto já estava todo marcado pelo rastros das lágrimas que caíram o dia inteiro, e a essa altura do campeonato, ainda caiam. Queria voltar para aquele quarto, e só sair com Lorena ao seu lado, acordada e chamando Eduarda de chorona. Era estúpida, essa maldita regra de duas pessoas por quarto.

 

Foi tirada de seus devaneios pela voz de Zenilda e Leonardo, que voltaram juntos.

 

— Juquinha — Leonardo chamou — Entra lá, fica com ela. Vou ver como meu pai está, antes que ele se jogue de um prédio, dramaticamente, por ter sido abandonado.

— E eu preciso pegar o resto das minhas coisas naquela casa, não quero ter que pisar ali mais nenhum dia. Não depois de ver a nojenta da Arminda toda pomposa fazendo papel de esposa ao lado daquele crápula. — Zenilda disse, e puxou Eduarda para um abraço — Quer que eu peça pra alguém te trazer umas roupas limpinhas? Já escureceu, esfriou, e bom, a sua jaqueta…

 

Eduarda olhou para a jaqueta, jogada no banco ao lado, suja de sangue. Não tinha lembrado dela, e pra ser sincera, nem tinha percebido que estava sentindo frio até Zenilda citar. Se sentia anestesiada, alheia ao mundo externo, como se fosse telespectadora da própria vida.

 

— Não precisa, sogra. O Paulinho já me avisou que assim que sair da delegacia, vai passar na minha casa para pegar tudo que eu preciso, já que ele tem a chave de emergência. Até disse que vai junto com a Gerluce, porque, segundo ele, ela que vai saber quais as minhas “necessidades femininas” e o que ele vai ter que trazer — Os três riram juntos, conseguindo ter algum tipo de leveza naquele desastre todo.

— Tudo bem anjinho, então nós vamos — Ela segurou Juquinha no rosto, e olhou no fundo de seus olhos — Cuida da minha menina, tá bom? Não tem ninguém que eu confie mais pra deixar nesse papel do que você.

 

Eduarda engoliu seco, o peso da confiança de Zenilda deveria ser sufocante, mas na verdade, lhe tranquilizava. Intuição de mãe era algo poderoso, a própria Dona Violeta sempre disse, então passar no radar da mãe de sua namorada era uma honra.

 

— Pode deixar, vou cuidar dela com todo o meu coração. — Zenilda sorriu, e passou o dedo de leve na ponta de seu nariz, de forma carinhosa. O coração de Eduarda apertou. Aquele gesto era tão inerente de Lorena, que fazia sempre, que não era surpresa saber que vinha de sua mãe.

— Vai atualizando a gente, tudo bem? — Leonardo pediu, e a ruiva confirmou. De forma bem desengonçada, ele a envolve em um meio abraço, não tendo a intimidade o suficiente para um abraço completo. Ela dá dois tapinhas em suas costas, como costuma fazer com seus colegas homens na delegacia.

 

Sua relação com Leonardo era estranha, mas depois de tudo que aconteceu naquele dia, já não era nem de longe a inimizade que começou sendo.

 

Eles se foram, e Eduarda voltou para o quarto, com uma pequena chama de esperança de que abriria aquela porta para dar de cara com sua Lorena de sempre, sorridente, com suas covinhas à mostra, seus dentinhos tortos, pedindo chamego.

Querendo ou não, era um balde de água fria, dar de cara com a mesma cena de antes. Lorena, ligada a aparelhos, dormindo um sono que não parecia ser tranquilo. Eduarda respirou fundo, puxou uma poltrona para o mais perto que possivelmente conseguiria colocar, e encostou a cabeça no braço que não havia sido atingido.

Lorena já não tinha mais seu cheiro de sempre, de pêssego. Ou do perfume caro que costumava usar quando saiam para jantar. Nem mesmo o cheiro próprio dela, que ficava acentuado toda vez que Lorena suava, na maioria das vezes, quando estavam fazendo amor.

Tudo que conseguia sentir era aquele maldito cheiro de hospital.

 

Encostou a cabeça em Lorena, de novo. Estava exausta, tinha sido um dia interminável, que começou na delegacia, foi parar na Chacrinha, e agora terminou ali, no hospital.

Seus olhos pescavam, o ruído do bipe ritmado, o frio do quarto e da noite afora, e as luzes baixas do quarto, tudo contribuia para seu sono chegar. Mas não podia dormir, precisava estar acordada caso Lorena acordasse, precisava velar seu sono.

 

— Eu te falei da viagem, né? — Ela falou, com o rosto ainda escondido no peito de sua namorada. Precisava ficar falando, ou ia acabar dormindo.

— Eu deixei tudo planejado. Peguei muitos plantões esses dias, você lembra. Até reclamou que a gente estava se vendo menos. Por isso fiquei feliz que a gente se viu hoje mais cedo — Ela engasgou nas próprias palavras. Era melhor evitar falar desse assunto — Mas foi por um bom motivo. A gente ia nesse final de semana. Peguei folga o suficiente para passarmos 4 dias lá. Amor, é tudo tão bonito, aposto que você ia se encantar com o jardim que tem lá, o caseiro cuida muito bem.

 

Sua voz embargou, e ela engoliu o choro. Estava cansada de chorar.

 

— Já tinha até deixado no meu carro, as coisas que íamos levar pra lá, e um casaco inteiro que crochetei pra você. Eu nunca te contei, né? Que gosto de crochetar. É meu momentinho de paz, abrir um vinho, colocar uma música pra tocar e me perder no crochê, e eu fiquei muito feliz em fazer isso pensando em você, fazendo isso pra você.

 

Ela levantou a cabeça, para poder encarar sua mulher e acariciar seu rosto, que já tinha bem mais cor que antes.

 

— A gente ia fazer um piquenique, no friozinho mesmo. Tem uns vinhos brancos lá, muito bons. Quem sabe você até não tomava uma tacinha comigo. Eu também ia tentar cozinhar um prato vegano pro nosso almoço. Eu cozinho bem, até. Mas comida vegana eu nunca fiz. Você acha que daria certo?

 

Uma pausa. Como quem espera resposta, mas a resposta nunca veio. Ela sabia que não viria, mas esperou mesmo assim.

 

Eu tinha… — A voz embargou de novo, e as primeiras lágrimas começaram a cair, dessa vez, silenciosas — Eu tinha mais uma surpresa preparada. Uma das grandes. Eu estava tão nervosa de imaginar como eu faria. Ainda estou, na verdade. — Ela se escondeu de novo em sua amada, abafando a sua voz, e suas lágrimas — Eu comprei um anel lindo. Ouro branco, com uma única pedra. É a sua cara, meu amor. Eu não sei, talvez seja muito rápido, mas eu senti no meu coração essa vontade. Na verdade, depois de hoje é a maior certeza que eu tenho, que eu realmente quero ficar o resto da minha vida ao seu lado. — Ela funga, as lágrimas manchando a roupa de hospital que Lorena usava — Será que você ia aceitar?

Aceitar o que?

 

Eduarda levantou tão rápido que viu estrelas, jurou que estava maluca, que desejou tanto que sua namorada acordasse que estava alucinando com sua voz. Mas quando ela encarou a mulher à sua frente, ela estava acordada. Com dificuldade, os olhos semicerrados, mas a respiração já era menos profunda, mais viva, e ela sorria.

Lorena estava sorrindo. As covinhas apareciam aos poucos, mas ela estava sorrindo. Sorrindo para a sua namorada.

 

— Aceitar o que, meu amor? Eu só ouvi essa parte.

 

Em um soluço seco, Eduarda desabou. Abraçou Lorena apertado, mas cuidando para não lhe machucar, e chorou no vão de seu pescoço. Tentava formular alguma frase, contar de suas saudades, da preocupação que sentiu, pedir perdão pelo seu erro, mas nada além de soluços podia ser escutado.

 

— Oi meu amor, o que foi? — Lorena tentou levantar o braço para confortar sua namorada, mas sentiu uma fisgada, e gemeu de dor. Eduarda se afastou no mesmo segundo.

— Não faz isso, meu Deus. Não se mexe, fica quietinha — Ela segurou a mão de Lorena para impedir que ela se mexesse, e parou para observar o rosto de sua amada. Ela estava sorrindo, mas visivelmente cansada

— Como você tá se sentindo, meu bem?

— Grogue, cansada, e dolorida. Como se tivesse sido atropelada.

— Não fala isso, por favor — Eduarda falou, preocupada, e Lorena riu — É sério. Nem brinca com essas coisas.

— Me desculpa amor. E você, como tá? — Ela tentou, novamente, levantar o braço, mas Eduarda não deixou. Ela apertou a mão da namorada ao invés disso.

— Lorena, quem tá na cama de hospital não sou eu.

— Mas você parece cansada. Dormiu? Comeu alguma coisa?

 

Eduarda abriu a boca para responder, mas não emitiu nenhum som. A verdade é que a última refeição que se lembra de ter feito foi seu café da manhã antes de ir para a delegacia. E nem ousou piscar por muito tempo, desde que Lorena fora atingida, quem dirá dormir.

 

Amor! Você nem ao menos comeu nada?

— Eu não parei pra pensar nisso, nem senti fome.

— Pois você vai sair daqui agora e comprar alguma coisa para comer nessas máquinas que eu sei que tem por aqui, vamos.

— E deixar você sozinha? De jeito nenhum!

— Você pode chamar alguma enfermeira.

— Lorena, não. Eu não vou sair do seu lado nenhum segundo, não depois do que eu deixei acontecer — Ela puxou seu celular para mandar mensagem para seu parceiro — O Paulinho tá vindo aqui me trazer uma muda de roupa, peço pra ele trazer comida também, pode ser?

— Amor… — O tom de Lorena era inquisitivo, e a ruiva soube exatamente do que ela estava se referindo, sua fala sobre “o que deixou acontecer”.

— Eu sei o que você vai dizer, que não foi culpa minha. Assim como disse o Paulinho, sua mãe, até o Leo. Mas, eu não sei amor. Foi tão desesperador, tudo que aconteceu, e como aconteceu, eu não consigo parar de me culpar…

— Meu bem, vem cá — Lorena chamou, e aproveitou para finalmente levantar o braço fora da tipoia, com cuidado, e segurou o rosto de sua namorada — Eu não me lembro muito bem de como tudo aconteceu, e nem do depois. Mas eu lembro da sua voz, das suas mãos, e do seu cuidado. Mesmo numa situação desesperadora como aquela, eu não me preocupei hora nenhuma, porque eu estava com você.

 

Eduarda voltou a chorar, o que era surpreendente, pois podia jurar que já não havia água o suficiente em seu corpo para gerar mais lágrimas. Lorena riu, e visivelmente se segurou para não chamar sua namorada de chorona. Ela puxou o rosto de Eduarda para mais perto, e beijou suas lágrimas.

 

— Vem cá, deita aqui comigo. — Ela se afastou, abrindo espaço na maca para caber mais uma.

— Amor, eu tenho quase certeza que isso não é permitido.

— Duda, já tá bem de noite, nenhuma enfermeira vai entrar aqui a essas horas, eu queria descansar mais um pouquinho, e você claramente precisa dormir. Eu estou errada em querer um chameguinho? — Eduarda riu, mas obedeceu sua mulher mesmo assim. Se alguém reclamasse, ela usaria a mesma carteirada de sempre, mesmo sem estar com seu distintivo em mãos. — Além disso, eu tomei um tiro, eu deveria poder fazer tudo sem que reclamassem comigo.

— Amor, para de repetir que você tomou um tiro, por favor. — Lorena riu alto, e Eduarda revirou os olhos, mas deixou escapar uma risada também.

— Eu tava com medo, okay? — Eduarda disse, já deitada na cama com sua namorada, com o rosto apoiado em seu ombro saudável.

— Estava, é? — Lorena já estava de olhos fechados, aproveitando o cafuné que Eduarda fazia em seus cabelos.

— Claro, sua besta. O amor da minha vida toma um tiro e eu não ficaria preocupada?

— Eu sou o amor da sua vida? — Lorena perguntou, com os olhos abertos e repentinamente atenta — De verdade?

 

A mão que fazia o cafuné parou, de repente, tamanha a confusão da ruiva. É sério que Lorena estava perguntando isso?

 

— Meu amor, Lorena, é claro que você é o amor da minha vida. Eu já tinha plena certeza disso antes, mas agora? Lorena, você vai ser a mãe dos meus filhos. Eu quero casar com você, eu quero que a gente tenha gatinhos desde filhotes, e veja eles crescendo, eu quero uma menininha com seus olhos verdes e suas covinhas, eu quero envelhecer do seu lado. — Ela olhou no fundo dos olhos de Lorena, que já estavam cheios d'água — Lorena Ferette, você é o amor da minha vida, o amor para a minha vida, você é a minha vida.

 

A primeira lágrima caiu, depois a segunda, e a terceira. Ao lado da maca, os bipes na máquina aceleraram, e Eduarda se assustou.

 

— Meu Deus, seu coração Lorena, seu coração acelerou! Será que tá tudo bem? É taquicardia? Eu vou chamar a enfermeira — Eduarda se desesperou, já tentando se levantar da cama, mas Lorena a segurou.

— Meu bem, calma, isso não é nada. — Lorena puxou Eduarda até que ela se deitasse novamente — Meu coração sempre fica assim quando eu estou com você, a diferença é que agora você tá ouvindo.

— Não, eu ouço também quando a gente dorme juntas, e eu durmo com a cabeça no seu peito. — Lorena riu, e Eduarda retomou o cafuné que estava fazendo.

— Ei Duda.

— Oi, meu bem.

— Eu te amo muito.

— Eu também te amo muito. Mais que tudo.

 

Os bipes desaceleraram, à medida que o coração de Lorena se acalmava, e sua respiração ficava mais pesada, indicando que o sono estava lhe levando. Eduarda também não estava muito diferente. O calor de sua namorada, e agora a certeza de que estava tudo bem, finalmente lhe tiraram do estado de alerta, e o sono chegou como uma onda, lhe arrebatando. Mas nos últimos segundos de sua consciência, ela ouviu sua namorada lhe chamar.

 

— Duda.

— Oi, meu bem.

— Que história é essa de surpresa em Campos do Jordão? Eu lembro vagamente de você falando sobre. A gente ainda pode ir? O ombro não vai atrapalhar a surpresa, né?

 

Eduarda respirou fundo. Não imaginava que sua namorada ia lembrar disso.

 

— Dorme, Lorena. Amanhã a gente vê isso — Lorena riu, mas fechou os olhos novamente, e deixou o assunto morrer.

 

Eduarda ainda lutou contra o sono, até ter certeza que Lorena dormiu primeiro. Ficou ali, velando o sono de sua amada, pensando como foi um dia desastroso, e muita coisa ainda lhe esperava pela frente. A investigação do autor do crime, todo o cuidado que teria com Lorena daqui para frente (será que ela aceitaria se mudar para sua casa, pelo menos enquanto estivesse com o braço imobilizado?) e provavelmente ter que remarcar a viagem para Campos, por mais que sua namorada fosse reclamar.

Mas ali, naquele momento, nada disso importava. Porque era o fim do dia, e ela estava dormindo ao lado de Lorena. E no dia seguinte, iria acordar ao lado dela. E esse era seu objetivo de vida principal, dormir e acordar ao lado da mulher que ama, todos os dias.

Então por alguns momentos, Eduarda se permitiu esquecer do evento da Chacrinha, do tiro, de sua própria culpa, do cheiro antisséptico irritante e do bipe que (graças a Deus) não cessava.

Ali, naquele momento, tudo que importava era dormir ao lado de Lorena.

Notes:

eu ainda consigo desenvolver esse universozinho de forma melhor, talvez contar o processo de recuperação da lorena em outra parte, mas por enquanto, deixo essa história por aqui

mas se tiverem interesse em uma parte dois, podem me dizer nos comentários.

grande beijo!