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PARATISE - Ivantill (Versão Português)

Summary:

Till.

Sua cor, seu calor, seu olhar.

Ele queria ser uma flor para sempre acompanhar Till. Entretanto, Ivan estava longe de ser uma flor. Ele era um inseto. Miserável.

Ele queria ser algo. Uma larva, uma doença, um parasita, uma praga! Qualquer coisa que pudesse o manter com Till. Queria rasgar as feridas do jovem, se enfiar em sua carne e se tornar parte de seu ser. Ele queria uma migalha, uma miserável misericórdia. Algum olhar. Algum sinal!

Ele realmente era... Tão... Tão...

- Tão perfeito.

°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•°•∆PARATISE∆•°•°•°•°•°•°•°•°•°

Com o punho banhado em sangue causado pelo soco repentino, Ivan se vê em uma situação na qual ele não sabia dizer ser satisfatória ou seu pesadelo.
Ele estava acostumado a ser invisível para Till, se contentava com os breves diálogos.

Mas e se de repente as coisas mudassem?
E se de repente ele sentisse a necessidade de ter a atenção que em via Mizi ganhar sem esforço?

E se ele não quisesse mais ser invisível?

Work Text:

O baque chamou a atenção dos presentes, interrompendo a conversa animada que se desenrolava anteriormente. Os olhares dos que dialogavam segundos atrás convergiram para um único ponto. A parede branca, adornada com rabiscos infantis desgastados, apresentava uma leve mancha de sangue.

Sangue?!

Uma pessoa específica presente no local engoliu em seco. O desenho antigo havia sido criado por ela, e embora a memória não fosse nítida, lembrava vagamente as pequenas mãos gordinhas segurando o giz preto e as linhas confusas traçadas com o corpo na ponta dos pés para alcançar a enorme parede.

Alguém estava ao seu lado na época, mas a identidade dessa pessoa não era relevante em comparação com a criação daquele desenho, então ele definitivamente não lembrava, e nem se importava. Ao se aproximar hesitante, seus dedos, agora finos e longos, arrastaram-se levemente sobre a parede, manchando-se com o sangue fresco.

— Alguém se machucou? — A voz doce e melancólica ecoou ao fundo.

A garota de cabelos pretos permaneceu imóvel ao lado de Minzi, um pouco mais afastada.

— Mas não havia ninguém aqui... — Till murmurou, confuso.

A pessoa que se machucou teria sido tão rápida que ninguém notou sua saída logo após o barulho?

— Talvez tenha sido... Um dos superiores — a garota de cabelos rosas sugeriu, insegura se estava sendo ouvida ou não por aqueles que ela definitivamente não queria chamar a atenção.

Superiores, seus donos. Till sentiu um enjôo repentino ao ouvir aquelas palavras. Com um sorriso torto, ele se afastou um pouco da parede rabiscada, tentando disfarçar a ansiedade forte que o oprimia.

— Não. Isso é sangue humano...
— Ah! Não consegui enxergar daqui... — Ela coçou os cabelos.
— Isso é porque você está sem seus óculos!

Till riu, entregando os óculos redondos que estavam no canto. Sua o olhou de canto, sem expressar muito. Minzi agradeceu com um sorriso gentil, causando um leve rubor no rosto do garoto de cabelos acinzentados.

Droga... Ele adorava ver aquele sorriso radiante de Minzi.

[•|∆—PARATISE—∆|•]

A respiração de Ivan era serena e estável, um reflexo da monotonia que parecia impregnar sua existência. Seu olhar, um pouco vazio, permanecia inalterado, semelhante ao de muitas outras pessoas naquele ambiente, cujas circunstâncias da vida pareciam ter esvaziado a vitalidade de seus olhos. Ivan não era exceção; sua expressão era estática, vazia, com apenas os olhos se movendo lentamente, como se seguissem preguiçosamente o andar de um inseto à sua frente.

Um miriápode.

Carnívoro com um par de patas por segmento do corpo e glândulas de veneno utilizadas para caçar e se defender. — Uma lacraia; centopeia peçonhenta.

A observação desse pequeno animal trouxe à dura realidade. A percepção sombria que o acolhia e engolia.

Um ser insignificante e asqueroso, capaz de ser eliminado em segundos pelos superiores. Nada mais do que um mero incômodo, útil apenas enquanto servisse a um propósito específico. Fora isso, era apenas um obstáculo a ser removido com um sorriso. Algo descartável.
Em um mero pisar de alguém maior findava aquela vida. A vida de Ivan não passava de negócios. De todos ali.

Nojo.

Com um movimento quase automático, Ivan se levantou e, com um passo deliberado, esmagou a lacraia que havia observado por quase 15 minutos. Ele esfregou o pé suavemente, ouvindo a chilopoda chiar esmagada. Morta

A porta do quarto se fechou suavemente atrás dele enquanto ele caminhava pelos corredores, deixando um rastro de pegadas manchadas no chão brilhante e polido. Uma careta de desagrado surgiu em seu rosto ao perceber que seu sapato estava sujando aquele lugar imaculado.

Imaculado no físico, degradado no propósito.

Ao olhar para a sola, viu o corpo esmagado da lacraia ainda preso ao seu sapato.

No entanto, algo o perturbou. O sangue do inseto era escuro, mas as marcas no chão eram vermelhas. A incoerência o fez praguejar baixinho. Ele se dirigiu ao banheiro, arrastando-se com um sentimento de repulsa. Sua mão ainda sangrava do soco que havia dado na parede, um gesto que parecia ter sido mais do que apenas um momento de raiva.

[•|∆—PARATISE—∆|•]

O banheiro quase que inteiramente branco, como quase todo o lugar que viviam, estava totalmente vazio.

O barulho das gotas da torneira mal fechada ecoaram como explosões no ouvido de Ivan. Ele apertou os punhos. O reflexo parecia distorcido. Sua mente estava.

Ele não quis olhar.

Focado nos punhos nos quais as falanges sangravam deliberadamente, ele as enfiou água abaixo. A ardência não incomodou. O machucado não o incomodou. Nada quase nunca o incomodava. Ser um Pet não incomodava.

Mas havia algo que incomodava. Algo que ele lutava para tirar de si.

Lutava? Não. A guerra já havia sido perdida há tempos.

Algo que ele queria, que ele precisava, que ele já considerava seu por direito. Algo que já era dele, mas que ele não podia ter.

— Uh? Ivan?...

A voz levemente arranhada entorpeceu seus sentidos. Ele olhou no espelho, evitando totalmente seu reflexo, focando totalmente no garoto atrás de si.

— ....Till...

Hesitante, Till se aproximou, olhando com uma pequena careta para o sangue que escorria na pia.

— Você se machucou? O que foi isso? — Perguntou alheio. Ele não tinha reparado, nunca reparava. Ivan quis rir. Ou chorar.
— Um pequeno arranhão.
— ...
— Desenhou hoje?
— Uh?
— Perguntei se você fez algum desenho novo...
— Ah. Não. Não tenho tido tempo.

Ele desviou o olhar, sem dar muito foco à resposta. Mas Ivan já sabia a verdadeira resposta. Ele lavou as mãos sangrentas, secando-as e encarando o menino que estava visivelmente desconfortável.

Till não sabia mentir.
Ivan não sabia não olhar para Till.

— ... Quer desenhar?
— ... Não tenho tempo.
— Não perguntei sobre tempo...

Till mexeu os dedos um pouco nervoso. Ele não entendeu o que Ivan quis dizer. Na verdade, entendeu. Apenas fez questão de não raciocinar nada para não sofrer mais com o absurdo que havia entendido a anos. Ele preferia continuar a manter Ivan assim, invisível, um npc, um estranho.

— Ficarei de olho... Assim que possível, iremos.
— Não quero...
— Você quer.
— Já disse que não quero, droga!

Aquele tom de voz, irritado, enojado. Pressionado. Ivan conhecia bem aquele tom. Era o tom que sempre foi lhe direcionado por parte de Till.

Ivan ficou em silêncio. Till ficou frustrado, desconfortável, e com passos apressados saiu dali, deixando Ivan sozinho.

[•|∆—PARATISE—∆|•]

O refeitório estava levemente barulhento. A conversa solta ecoava de cantos e cantos. Diversas cabeças alinhadas lado a lado, frente a frente, comendo a refeição que parecia possuir o mesmo gosto depois de anos comendo a mesma.

Ivan estava de frente para o oponente que enfrentaria futuramente. Eles não se encaravam, apenas trocavam segundos de olhares ocasionalmente.

— Eu te vi mais cedo.
—...

Sua falou baixo. Seu tom era sempre baixo.
Ivan não podia dizer que nutria sentimentalismo por boa parte dos participantes de Alien Stage. Com exceção de um, é claro. Mas Sua era praticamente a única pessoa na qual ele sentia algo. Não era empatia. Talvez respeito? Ele não tinha um adjetivo para aplicar, mas sabia que apático não era em relação a garota.

— Sua mão está dolorida?
— ....Não.
— ... Já conversamos sobre isso.

Conversar. Eles possuíam diálogos de no máximo 5 ou 10 minutos. Ivan não era alguém sociável, e Sua muito menos. Mas ambos conseguiam dialogar em certos momentos. Entretanto, a conversa sempre finalizava com um gosto amargo. A dor da realidade. Era difícil conversar.

— Apenas... Não é como se eu pudesse evitar.
— Então por que não fala para ele?

Ivan largou o talher, finalmente a encarando. Os olhos mortos, violetas encontrando o abismo negro de lua avermelhada.

— Eu pareço com a sua namorada? — Sua se mexeu desconfortável com a palavra "namorada" ecoando tão seriamente dos lábios gélidos.
— Ela não-
— Pois então você já tem sua resposta.

Ele voltou a focar no prato vazio. Sua suspirou, desviando o olhar para a garota de cabelos rosas ao longe. Seus olhos se encontraram. A menina sorriu.

— Então você prefere continuar do jeito que está apenas porque sabe que não vai ser correspondido?
— Ser ignorado é o suficiente. Pelo menos ainda terei a oportunidade de olhar para ele.
— Rejeitado ou não. Você continuaria na mesma situação que está agora.
— Não. Não estaria.
— E o que seria diferente? Você seria ignorado como já está sendo.
— ... Ele me olha com confusão. Não sei se é genuíno ou se ele finge, mas é com confusão.
— E?...
— E se eu disse tudo que guardo aqui dentro, eu nunca mais verei seu rosto novamente.
— Como você tem certeza?
— ...Você sabe que eu tenho...

Sua suspirou. Ela não queria admitir que Ivan estava certo, porque além de seres humanos serem totalmente imprevisíveis, toda ação tem uma reação. E ela não acreditava fielmente de que Till era tão fácil de ler assim.

Entretanto, olhando para o garoto de cabelos cinzas do outro lado das mesas, admirando Minzi de longe, um amargo surgiu em sua garganta.

— Sinto muito.

Ivan estava certo.

— Não sinta... Eu já entendi isso a muito tempo.
— Que triste...

E com um silêncio acolhedor, quase dissipando a tristeza que pairou ali, eles voltaram a mexer nos talheres, se distraindo em pensamento e ocasionalmente em algumas discussões pequenas sobre música ou aliens.

[•|∆—PARATISE—∆|•]

Livre. Ivan vestia o uniforme branco do lugar. Era confortável.

Nas últimas cinco horas, Ivan foi submetido a seguir seu Alien para uma reunião. Como garoto propaganda de diversas marcas patrocinadas pelo Alien Stage, e diversos aliens da alta sociedade curiosos para conhecê-lo, era completamente normal que ele fosse arrastado para diversos eventos caros e chiques. Sendo apresentado como o bom cachorrinho que ele era.
Ele não poderia dizer que era totalmente nojento, era apático a muitas coisas. Mas havia uma coisa que ele odiava nesses eventos. A hora. O tempo!

Quando chegou à base em que todos os pets ficavam no programa, ele foi instruído a tomar um banho e trocar de roupa para descansar.

Sendo o único que podia andar livremente pelos corredores após o toque de recolher, ele se banhou com certa pressa. Seus passos ecoaram de forma silenciosa pelo lugar.

Andares e mais andares até se livrar do corredor dos dormitórios. Seus passos largos alcançavam a área de tortura e experimento.
As portas eram inúmeras, o corredor parecia não ter fim. Mas ele andou em direção a um lugar específico.

De frente pata porta de metal tão familiar e conhecida, ele respirou fundo, digitando a senha antes do barulho chamar a atenção no lugar silencioso. Escuro. O interior era extremamente escuro.
Entretanto, com a luz suave do corredor, Ivan sentiu seu coração parar.

A sala estava vazia.

Sua expressão ficou mais séria. Uma ânsia subiu na garganta. Fechando a porta, seus passos se tornaram pesados. Ele sabia para onde tinha que ir.

[•|∆—PARATISE—∆|•]

— Nghm....

O coração gélido quebrou. As rachaduras eram incontáveis, os furos impossíveis de reparar.
Ele se aproximou do sofá no centro daquela sala vazia.
Ivan conseguia observar diversas coisas. Copos de bebida, vidro pelos lados, microfones, roupas...
Tudo espalhado.
Ele ignorou, focado e dedicado a um único propósito. Seu próprio propósito.

Seus dedos deslizaram suavemente, como quem tem medo de tocar. Ivan não tinha medo de tocar, pelo contrário , tocava até demais. Mas sabia que naquele momento aquilo não seria bom. Ele não podia evitar, seu coração estava destroçado e ele não podia demonstrar. Nem saberia caso quisesse.

O bolo que se formou em sua garganta ficou difícil de engolir. Ele se abaixou, na altura do corpo apagado no sofá. Sua bochecha tocou suavemente na do garoto desacordado, esfregando com gentileza. Com a pureza que Ivan jamais teria, mas que guardava para momentos como esse.

— Vamos... Vou levar você para desenhar...

Ivan não obteve respostas. Ele sabia que não teria, afinal, Till não o enxergava. Ele era invisível.

Com os braços fortes, ele segurou Till nos braços, o levando dali.

[•|∆—PARATISE—∆|•]

A água quente contrastava a pele fria de Ivan. As mangas estavam arregaçadas, suas mãos tocavam com cuidado o corpo que havia despido. Ele tinha que ser rápido. Ele sempre precisava ser rápido. Mas a vontade de demorar uma eternidade ali sempre o consumia. Ele queria continuar ali. Ele sempre desejava mais, mais do que ele poderia ter.

Menino ganancioso. Menino arrogante.

A quantidade de vezes que ele havia feito aquilo, banhar Till enquanto o garoto estava desacordado, eram inúmeras. Mas ele sempre fazia num período de tempo em que Till permaneceria adormecido. Ele sabia que o garoto iria surtar de vergonha caso acordasse.

Com um suspiro suave, ele passou a mão molhada suavemente sobre o hematoma na costela. O corpo estremeceu. Seu peito apertou com o rosto agonizado de Till.

Ele deslizou pelas cicatrizes, pelas manchas de algo que não deveria estar no corpo do garoto de cabelos cinzas. Ele limpou tudo, cuidou de tudo. A paciência e lentidão que usará era surpreendente. Ele era um cara paciente acima de tudo.

Ivan lavou e cuidou do corpo desmaiado. Seu olhar gélido não suavizou em momento algum, o nojo estampado em sua íris. Aquele corpo não havia sido feito para isso. Não merecia.

Ele apertou os punhos, desviando o olhar.

Até a banheira parecia algo asqueroso naquele momento. Ele não queria que nada tocasse Till. Ele queria parar o ar se fosse possível.

Secando Till cuidadosamente, seus toques invisíveis, quase poeira. Ele levantou o garoto em seus braços novamente, totalmente enrolado nas toalhas.

[•|∆—PARATISE—∆|•]

Ivan permanecia imóvel, sentado no chão ao lado de sua própria cama enquanto observava a respiração serena de Till, fazendo seu peito subir e descer, totalmente adormecido e acomodado. Ele estava devidamente vestido, sem nenhum amarrotado em seu uniforme branco. Foi quase tão fácil para Ivan vesti-lo quanto para banha-lo. O costume daquela situação o deixava cada vez mais habilidoso em fazer tudo sem incomodar Till.

Por outro lado, ele queria incomodar Till. Queria que aquela expressão confusa o encarasse naquela situação. Queria que Till soubesse que tudo era feito por ele.

No fundo, ele sabia que Till sabia. Ele só queria ver... Queria ter alguma migalha para se agarrar.

Seus dedos acariciaram a mão nua, tão gentil quanto todo o tratamento que dava ao garoto.

Ivan o admirou por quase uma hora inteira sem piscar. Dor.

Vencer ou Perder.
Viver ou Morrer.
Era tudo o que Ivan conhecia desde seu nascimento. Não havia nenhum calor dentro de si ou em suas músicas. Todas apáticas, nada vitalício.

Ele estava bem com isso. Neutro.

Entretanto, o caminhão que o atingiu veio em formato de ser humano. Um pequeno garoto correndo atrás de flores vermelhas.

Till.

Sua cor, seu calor, seu olhar.

Ele queria ser uma flor para sempre acompanhar Till. Entretanto, Ivan estava longe de ser uma flor. Ele era um inseto. Miserável.
Ele queria ser algo. Uma larva, uma doença, um parasita. Qualquer coisa que pudesse o manter com Till, em Till. Queria rasgar as feridas do jovem, se enfiar em sua carne e se tornar parte de seu ser. Ele queria uma migalha, uma miserável misericórdia. Algum olhar. Algum sinal!

Ele realmente era... Tão... Tão...

— Tão perfeito.

Ele sussurrou. Um segredo, uma revelação. Seus dedos se entrelaçaram com as de Till. O segredo que ele sempre enterrou no fundo de seu coração.

Seus batimentos cardíacos aceleraram. Uma intensidade absurda que fez sua respiração cortar. Ele apoiou as mãos na borda da cama, pairando sobre o rosto sereno. Morto.

— Em algum lugar das suas músicas... Será que tem... Algum trecho para mim?... Não quero ser o título, nem a musa, muito menos o refrão... Eu sei que tudo isso pertence a ela... Mas no fundo. Talvez em algum intervalo....

Seus lábios pararam extremamente próximos aos de Till. Suas pupilas vermelhas totalmente dilatadas.

— Porra....

Ele tremeu. Sempre tão gélido, mas por dentro desesperado.
Ele desviou o olhar, hesitante. Não. Ele não faria. Ele não desceria tão baixo a esse ponto. Mas doía.

Tão perfeito. Por que?

— O que você está fazendo?...
— ... Boa noite... Meu universo.

Ivan sorriu triste, observando o olhar sonolento e totalmente surpreso de Till.

Till sabia onde estava, ele sempre esteve ciente. Apesar de inconsciente, ele sabia quem era a única pessoa que podia andar livremente pelo Alien Stage. Ele sabia quem podia ser a única pessoa a ter acesso a sua sala de tortura, a sala em que seu Alien dava festas, a sala em que ele era largado. Ele sabia. Ele sempre soube.

Como nas outras vezes, seu corpo estava limpo e cheiroso, as roupas confortáveis, a cama macia, o calor de acolhimento. Ele sabia que vinha daquele corpo gelado que estava sobre ele agora.

Aquilo o deixava em pânico.

— ...Ivan...
— Sim?

Suas vozes estavam baixas. Pela primeira vez Till não desviou o olhar. Seu coração batia rápido.

— Obrigado...

Saiu mais baixo que um sussurrou, mais baixo que um segredo. Talvez aquilo fosse mais difícil de dizer do que ele confessar a Minzi seus sentimentos. Aquilo definitivamente era mais difícil.

— Eu quem agradeço... Obrigado.
— Pelo o que?...
— Por ser a vítima das minhas emoções frias e superficiais...

Till engoliu a seco.

Ele sabia. Ele sempre soube. Mas ele escolheu não enxergar. Fechar os olhos e vomitar aquele sentimento que havia sido empurrado em sua garganta de forma assustadora.

Aquele prato de centopéias que ele foi forçado a comer no momento em que a realização veio.
Ele escolheu guardar o prato em um armário e comer as pétalas lindas e convidativas avermelhadas. Rosadas. Esquecendo-se que aquele prato de centopéias estava ali.

As centopéias continuaram a procriar e se multiplicaram mesmo estando no escuro, fazendo com que em algum momento o prato rachasse com a sobrecarga.

E agora o prato rachado, derrubando lacraia por lacraia, estava ali na sua frente.

Trêmulo, suas mãos envolveram o pescoço de Ivan.

— .... Eu não quero desenhar hoje...
— ....Tudo bem...

Ele se aconchegou mais contra Till, o puxando para mais perto em um abraço.

Seu coração doeu mais. O ar o deixou como um sufoco guardado a anos.

Ele finalmente não estava mais invisível.
A migalha que ele tanto buscava caiu como uma refeição adorável, como um banquete de desculpas pela espera.
Ele sorriu, abraçando Till.

Apesar de diferente e estranho, Till se sentiu seguro, se permitindo de aprofundar mais naquele abraço.

Ele não deixaria o prato quebrar novamente. Afinal, era aquele porcelanato quebrado que sempre o reconstruia na calada da noite.

— Não soque a parede de novo... — Till sussurrou, seus dedos passando suavemente sobre as falanges machucadas de Ivan. Ivan se aconchegou ao seu lado, enfiando o rosto em seu pescoço, suspirando e sentindo estar em um sonho. Sua voz veio baixa, quase hipnotizada.

— Não vou...
— Mesmo?...
— Mesmo...

....

— Eu gosto de você...
— Eu sei...
— ...
— Não vai me perguntar se eu gosto de você de volta?
— Eu sei sua resposta... Não precisa... Estou satisfeito de estar onde estou. Não sou ganancioso....
— ...

Ivan fechou os olhos, poucos a pouco se entregando ao sono. Till também sentiu a exaustão voltar, e abraçou mais Ivan, fazendo as bochechas do garoto ganharem cor.

— ... Eu te vejo...

Seu coração errou algumas batidas. Aquilo definitivamente era melhor que qualquer resposta que Till poderia dar. Ele sorriu meio bobo, apertando mais Till em seus braços.

— Boa noite, Ivan...
— Boa noite, meu universo...