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O som do bico de ferro de uma pena colidindo com o chão ecoa pelo silêncio horripilante que se instalou na sala, ninguém ali parecia estar ao menos respirando, nem a própria natureza ousava penetrar na quietude assombrosa do ambiente após a decisão inesperada tomada pelo monarca naquela mesa de reunião. Então o rangido de metal quebra o silêncio, chamando a atenção dos olhares perplexos para o cavaleiro que estava ao lado da cadeira do rei, os cabelos longos e escuros como a noite caíam sobre seu rosto, escondendo a tempestade de sentimentos que dançavam em seus olhos, como raios em uma tempestade de verão.
Pac estava em completo choque, ele era o segundo comandante da guarda — designado a exclusivamente a proteger os membros da família real — e foi a única pessoa que foi colocado como opção para a cláusula de casamento arranjado, uma das alternativas propostas no acordo de paz que os dois reinos, atualmente em conflito, acordaram. Virando lentamente o rosto para o lado, Pac vê o semblante de sua majestade, neutro, sem expressar qualquer demonstração que pudesse estar equivocado ou arrependido de sua decisão enquanto o encarava assim como todos os demais presentes na sala, mas o semblante do rei Roier fez algo se quebrar dentro do peito do guarda.
— Hermano…por que? — a voz do moreno sai quebrada, seus punhos se fecham com força sobre a mesa, fazendo o metal da armadura choramingar.
Um novo indivíduo se moveu para o lado do guarda ao ouvir o som do equipamento, uma mão firme repousando em suas costas para demonstraram apoio em seu estado sensível, que como um Dente-de-leão, poderia se desmanchar com um mísero toque. Spider também olhava para seu rei, seu rosto se contorcia em uma mistura de emoções negativas, algo que o próprio não gostava de sentir ou manter por muito tempo em seu coração, odiando conflitos, e o'que mais parecia o frustar era a indiferença com o qual o monarca estava tratando aquela situação, como se não tivesse acabado de vender um de seus irmãos para um governante conhecido por sua força, voracidade e conhecimento brutal.
— Porque você traiu nosso povo — a resposta de Roier veio com uma tranquilidade amarga.
Juan, atual general da guarda, estava prestes a se levantar e bater seus punhos na mesa em protesto a frase do monarca, seus olhos deixavam claro sua raiva crescente e medo haviam sido plantados sob um solo arado; mas uma voz poderosa e autoritária se eleva sobre a confusão, impedindo que a discussão fosse além das barreiras políticas daquela sala, chamando a atenção de todos para as palavras ditas em alto e bom tom do outro lado da mesa:
— Betrayal? — a língua nativo de Vacuus era o inglês, tal qual era o principal motivo de existir pessoas responsáveis pela tradução de ambos os lados da mesa — Seu subordinado estava apenas sendo cordial, atitude muito admirada por mim, deveria ser algo estimado e não condenado, graças a essa atitude que estou sendo complacente para que cheguemos a um resultado agradável a todos
Os olhos afiados do monarca encaram a alma do dono daquelas terras com uma frieza de arrepiar os ossos, uma mensagem sendo passada entre as letras miúdas. Mas assim que encontrou o olhar do guarda de cabelos negros, quase de maneira imperceptível, seu olhar suavizou, trazendo uma garantia silenciosa para aquele que foi tão hospedeiro com os estrangeiros. Pac não pode evitar relaxar sobre a promessa silenciosa feita pelo rei, mas seu coração ainda estava agitado devido às atitudes tomadas pelo monarca que ele havia jurado lealdade, pois, aquela situação era mais profundo do que os visitantes de Vacuus poderiam imaginar, caso alguma informação saísse daquelas paredes, havia chances do reino interior se voltar contra a corte, pois no meio daquela bagunça escondida atrás de um palco amaldiçoado, apenas os moradores do castelo sabiam que o atual rei não era digno ou merecedor legítimo do trono onde se sentava.
Quando o Vegetta ainda era vivo, ele trouxe para dentro das paredes do palácio uma criança suja, conhecida por roubar com perspicácia. Foi uma confusão que durou meses dentro do castelo, até que o pequeno Pac foi acolhido nas asas do comandante Foolish, crescendo e treinando em prol de se tornar o guarda pessoal do príncipe que herdasse o trono. Mas apesar dessa decisão, Pac constantemente era visto ao lado dos jovens príncipes: Os três legítimos e os três bastardos, aprendendo junto a eles, com o rei demonstrando um carinho especial pelo garoto que parecia exclusivo, único.
Foi só em seu leito de morte que o homem admitiu, Pac era sangue do seu sangue, fruto do amor que o rei nunca foi capaz de cultivar, descobrindo da existência do filho anos depois, quando a carta de sua antiga paixão chegou em suas mãos com um último pedido, acolher o menino que ela não conseguiu cuidar.
Depois da descoberta, todos os trabalhadores do castelo, que já eram encantados pelo príncipe bastardo por seu charme e carisma, espalharam os rumores que por ser o mais velho dos filhos do Rei, seria aquele que o primeiro a ser digno do trono e o único com o sangue do rei correndo em suas veias, pois os mais novos vieram do ventre de outros amores antes do arranjo matrimonial não oficial com o conde Foolish, tornando o pequeno bastardo o único que ainda mantinha o sangue real vivo de fato, não faltando testemunhas ou documentos que comprovem este ponto. Os rumores já não eram tratados como tal, considerados por todos como uma verdade absoluta — Então imagina o espanto de todos quando Pac negou o título de príncipe herdeiro quando forá chamado para sentar-se no trono, suas justificativas iam desde que ele não era digno e de que não seria justo com seus meio-irmãos.
O testamento do rei foi motivo de confusão desde a noite de seu falecimento por conta suas cláusulas, junto aos discursos intermináveis de Pac, que negava com veemência a ideia do conselho de o colocar como herdeiro da coroa desde o início. No final, uma enorme sujeira havia sido feita e jogada para debaixo do tapete — Há única exigência do testamento de sua majestade que todos juraram cumprir, era que seus filhos ainda estivessem juntos durante o próximo reinado, mas para manter as aparências o general adotou Pac de forma oficial o dando seu sobrenome, fazendo do bastardo apenas mais um das famílias mundanas aos olhos da grande massa, mas aquele novo título vinha acompanhado de um segredo obscuro, apenas aquele que atravesse a se aventurar na escuridão, descobriria o único fio que ainda mantinha Pac sobre as sombras da realeza.
Lembrar tudo o'que estava escondido atrás daquela sujeira, fez um grito se formar na garganta do guarda, uma fúria que ele nunca havia sentido antes, não apenas por estar sendo usado como moeda de troca devido ao seu sangue real, qual ele se esforçou tanto para fazer desaparecer, mas por aquela decisão estar ferindo o último desejo do homem que era seu pai, que apenas pediu que os três irmãos reinasse na glória daquele reino em união.
Mas até a única exigência estava sendo quebrada.
— Isso não estaria acontecendo se mantivesse sua lealdade — Roier ignora propositalmente as palavras do outro rei em uma clara postura de desrespeito, excluindo também a mensagem que era passada — E você confia nas palavras de um inimigo em potencial!
— Isso não estaria acontecendo se você tivesse me escutado! — Pac quase grita, batendo seu punho na mesa, sua raiva incomum assustou a todos, até mesmo o monarca se encolheu mediante ao tom de suas palavras ríspidas — Qual o problema em admitir que estava errado? Qual a dificuldade de aceitar que ofendeu a honra de um povo que nunca nos mostrou qualquer perigo? Pare de ser tão orgulhoso, seu orgulho ainda destruirá essa nação!
Um silêncio ensurdecedor recaiu sobre a sala novamente, mas a tensão instaurada poderia ser cortada com uma tesoura naquele ponto, uma erupção estava se formando dentro do peito de Pac, uma raiva que não era dele. Um suspiro pesado sai dos lábios do rei, poderia se dizer que algo também borbulhava em seu coração, mas que não deixaria que isso passasse por suas barreiras, suas mãos entrelaçadas tremem sobre a mesa de reunião mas sua expressão permanece neutra, e sua voz não falha ao abrir a boca novamente:
— Já fiz minha escolha — Roier olha para o outro governante na ponta oposta da mesa, buscando um objetivo óbvio, finalizar o acordo.
A lava borbulhante no peito de Pac esfriou em questão de segundos, dando espaço para que algo se quebrasse, talvez fosse seu coração, ou o sentimento fraterno que nutria pelo jovem rei, mas agora onde deveria ocupar aquela emoção estava um vazio gelado, sua garganta havia secado e sua mente estava confusa demais para raciocinar mais alguma coisa. Pac não disse mais nada, tranquilizando seu irmão Spider, o instruindo a voltar ao seu posto, enquanto ele mesmo recobrava sua postura, mas era nítido para todos da mesa o quanto abalou não só o guarda, mas todos ao redor da mesa.
Os próximos minutos passaram como um borrão para a mente do cavaleiro, que apenas encarou um ponto quarto numa parede ao longe, sem focar em nada e nem em ninguém, seu coração estava partido e a única coisa que ele conseguia se lembrar era das palavras de seu pai, um homem que lhe cobrou tanto e manteve uma postura rígida em frente as suas ações, mas em seu leito de morte disse o quanto estava orgulhoso dos garotos que ele criou, do quando amava eles. Lágrimas silenciosas rolam pelas bochechas do guarda, aquela cena causou revolta em algum dos presentes, pois foi possível escutar um gemido muito alto de dobras de metal se torcendo.
Quando a reunião teve seu fim, Pac esperou a corte estrangeira sair da sala e seus passos desapareceram ao longe no corredor, para tomar qualquer outra ação. Um suspiro pesado escapa dele quando ele mesmo começa a marchar para fora do salão, sendo seguido de perto por outra cavaleira que estava com o coração na boca devido a sua preocupação com o seu superior.
— Pac! Pare aí mesmo! — a voz de Roier aparece, acompanhada de um barulho alto da cadeira arrastando no assoalho.
Uma das mãos do guarda se seguram na moldura da porta, seus dedos cravando na estrutura de madeira. Ele se recusava a olhar ou ouvir algo de seu antigo rei, então, ele olha apenas por cima de seu ombro, visualizando o momento que Roier vacila em seu comportamento, a labareda que estava no coração do monarca perde forças até que só sobrem brasas, seus lábios se torcendo em uma expressão de desespero e desamparo, tudo isso por ter sido atingido pelo olhar de decepção do mais velho.
— Isso é para o bem do nosso povo, Pac, não seja um ¡principito mimado! — repreendeu.
Os dedos do cavaleiro cravam na madeira, os nós dos dedos ficando brancos pela força colocada. Seu olhar afiado encarava o rei com frieza, vendo cada micro mudança em sua postura, mas seu coração estava frio demais para se importar com a rispidez de suas palavras:
— Você, mais do que ninguém Roier, sabe o quão doloroso é ser prometido em um casamento arranjado — Os dentes rangem em pura frustração — Mas mesmo assim, você fez isso comigo
Pela primeira vez em muito tempo, Roier pareceu se abalar de verdade com a fala do irmão, mas Pac não se importou, seus olhos focaram justamente naquele que estava ao lado do rei; Gabe, híbrido de peixe vindo do Condado do Portusil que sustentava seu olhar com choque e tristeza misturados. O romance daqueles dois começou devido a uma das cláusulas do testamento do antigo rei, aquela onde ele oferece a mão de Roier a Condensa Pressea das mesmas terras que o híbrido, com a única saída para a quebra daquele acordo, era se o príncipe estivesse um amante que desejasse se casar com, algo que doeu muito em Roier, pois o mesmo havia perdido aquele que ele disse ser sua alma gêmea anos atrás deixando seu coração frio como pedra para o amor.
A amizade entre Roier e o conde peixe já era antiga, surgirá das inúmeras viagens da família real ao condado em acordos comerciais e retiros de ferias, foi ali onde nasceu uma relação amigável e cheia de implicâncias entre os dois nobres. Ainda estava fresco na memória de Pac o dia em que forá como acompanhante de Roier a uma “viagem” ao Portusil, onde o príncipe se ajoelhou aos pés de Gabe, implorando por sua ajuda, prometendo que não passaria de um arranjo falso onde só as aparências e títulos importavam, que traria benefícios a ambos com o North tendo mais acesso a tecnologia e o condado tendo passe livre para exportação e proteção do exército; Mas a convivência, as implicâncias e o companheirismo que se fez a partir da convivência por causa do simples contrato de comprometimento, acabou por terminar com as alianças em seus dedos carregando um peso que não era mais fingimento, gravados com um amor puro, intenso e caloroso.
Eles foram a exceção a regra.
Pac range os dentes, fechando os olhos com força o suficiente para embaçar sua visão, seus ombros tremendo com as lembranças lhe trazendo mais tormento. Ele percebe quando passos tentando se aproximar dele, mas a última coisa que ele gostaria naquele momento era ter companhia.
— Se não precisam mais de mim, estarei me retirando — aquele tom frio em sua própria voz lhe deu arrepios.
Os dedos deslizam da moldura da porta, se soltando devagar do aperto rígido que foi imposto antes, seus passos já não eram uma marcha mas uma caminhada lenta em direção ao corredor dos aposentos, sua mente correndo a mil, enquanto seu peito era dominado por uma dor fria. Ao longe ele escuta o grito de frustração de seu irmão, mas aquele som de desespero já não o comovia mais, ele apenas queria pegar todas as suas emoções e a jogar pela janela e se derreter sob sua cama como uma massa sem vida.
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Iria marcar oficialmente três meses que a corte com o rei de Vacuus estavam hospedados nas terras de North, devido a uma ação imprudente de seu monarca ao ofender a honra de um povo quieto a aliança antiga entre as duas nações ficou por um fio, podendo acarretar em uma hostilidade indesejada para ambos os lados, pois a última coisa que queriam eram reviver confrontos antigos. E naquele mesmo dia, iria fazer uma semana desde que foi proposto um novo acordo de paz entre os territórios, na qual tinha como meio principal a junção das famílias por meio de um matrimônio entre dois membros da nobreza para selar a união de ambos os reinos até que a morte os separassem. O casamento arranjado era uma das opções em uma lista com inúmeras outras possibilidades que não agradavam a todos, em especial aquela pois nenhum dos reis parecia estar interessado em forçar um casamento, tanto que nem citaram aquele objeto listado, bem, no final ela foi a escolhida.
A realeza de Vacuus não deriva do sangue, mas aqueles que são considerados sangue real são restritos, com apenas o atual rei e seu filho sendo considerados dignos da nobreza após a morte do soberano Madagio, então, a única opção para ter sua mão oferecida no casamento era o próprio Fit, pois não era do interesse de ninguém ter uma criança no meio desses acordos. No Norte não era muito diferente, apesar que a família que ocupa o trono poder acolher mais pessoas sobre seu brasão se assim o comandante da nação desejasse, mas naquele período, apenas os quatro filhos legítimos do antigo rei eram considerados da realeza, ou assim era para ser, pois foi Pac que havia sido colocado para cumprir aquele papel, sendo usado como objeto de troca por ser um bastardo escondido sobre as asas do exército.
Apesar de tanto tempo ter passado e o sol e a lua concluírem seus ciclos dia após dia, ainda parecia que os eventos da chegada de Vaccus ao North pareciam ter acabado de acontecer. As lembranças daquela manhã fatídica ainda era frescas na mente, tudo aconteceu muito antes mesmo do sol nascer, com um guarda entrando no escritório do general tão desesperado que parecia que seu coração estava na garganta, apenas Pac estava a postos naquele momento cobrindo o turno de Juan que estava do outro lado do reino, mas mesmo assim não hesitou em atender com urgência o desespero de seu subordinado, que o levou a ser o primeiro a estar cara a cara com a cavalaria do atual Rei Bárbaro das terras de Vacuus. Quando o moreno tomou consciência da situação que seu irmão os meteu, Pac só pode cair de joelhos na frente do soberano e se desculpando profusamente pelas atitudes de seu rei, ele implorou por uma resolução tranquila, tentando evitar o confronto indesejado.
Santa sagrada seja as deusas, pois o pedido foi aceito sem pestanejar; Se foi por um respeito antigo ou por pena, ele não desejava saber.
A aproximação do segundo comandante com o rei de Vacuus aconteceu de forma muito orgânica e respeitosa durante aquele período de estádia, apenas por pura diplomacia e a busca por uma solução para uma confusão que, em teoria, seria fácil de resolver, mas estava se estendendo além dos limites por pura teimosia e orgulho de vossa majestade Roier. Foi inevitável a relação entre o guarda e o rei deixar de ser apenas formal para se tornar algo amigável e pacífico. Pac tentou ser o melhor anfitrião em nome de seu superior durante todo aquele longo período desgastante — ele nem sabe dizer se dormiu ou comeu durante aqueles dias turbulentos.
Pac até mesmo presenteou Fit com flores, rosas vermelhas cultivadas direto da estufa, buscando manter o ambiente pacífico e agradecer pela recém amizade construída.
“Sabe vossa alteza, quem nos vê de fora pode achar que nossas conversas meramente diplomáticas e amigáveis, podem ser muito mais profundas do que realmente são, sua ousadia em me dar rosas é intrigante” — Foi o'que o rei Fit disse quando Pac lhe entregou o buquê na porta de seu respectivo aposento, nenhum deles poderia imaginar que de fato suas ações pudessem ser mal compreendidas, pois naquele dia, eles riram juntos da piada exagerada do rei.
Com o príncipe bastardo sendo julgado como traidor do reino, tendo como sua sentença viver uma vida em um casamento na qual não desejou, com um título em sua cabeça que não almejava.
Aquela uma semana entre a finalização do acordo e os preparativos para a partida de Pac para o reino de Vacuus foram cheias de uma melancolia palpável, pois o moreno odiava despedidas e se recusava a ter que encarar seus irmãos depois daquela reunião, correndo pelas sombras da noite nas poucas vezes que saiu de seu quarto. O cavaleiro ficou sabendo do que acontecia no restante do palácio graças a Gabe e as duas damas de companhia que estavam sempre cuidando do príncipe — ele poderia odiar esse título, mas ele não poderia mais negar seu sangue nobre naquele ponto — elas lhe contaram como a notícia do noivado foi espalhado para a população, e como o castelo inteiro estava desolado pela falta que sentirão da presença do moreno no palácio, desejando vê-lo uma última vez, mas como já dito o príncipe odiava despedidas, e mesmo que fosse doloroso a ideia de partir sem ver sua família pela última vez, talvez a aflição fosse menor se não os visse.
Mas apenas uma pessoa ele não conseguiria fugir de se despedir.
Batidas suaves chegam aos ouvidos do príncipe, enquanto ele fechava sua mala, nada muito grande, não havia grandes coisas que ele precisava levar além de suas vestes e pequenos itens pessoais. Sua espada e armadura ficariam para trás, seus móveis também não iriam com ele, deixando aquele quarto como uma assombração da pessoa que um dia viveu ali. A última coisa que ele colocou dentro de sua bagagem, foi um pequeno álbum de foto que era mais importante do que qualquer quantia de ouro, dentro daquela capa de couro, entre as folhas amareladas, existam imagens fotograficas de momentos especiais, inúmeras pessoas apareciam naquelas fotos, mas uma pequena criatura ali era o principal motivo de Pac amar tanto aquele álbum, e a razão de lhe causar tanta dor a ideia de nunca mais o vê-lo e o simples pensamento de esquecer qualquer um de seus detalhe era como um golpe certeiro em um ponto vital.
— Pac? — a voz de Graf sai abafada por estar fora do quarto, sim, ele era a única pessoa que ele teria que se despedir. Com um pequeno rangido da porta, o cavaleiro dá pequenos passos para dentro do cômodo — Só falta você, precisa de ajuda para levar algo?
— Tá tudo bem moço — a voz de Pac ainda era suave como sempre, mas existia aquela pequena entonação no fundo que entregava o quão abatido estava — Só preciso da sua companhia
Quando o príncipe se virou para seu amigo, era uma das raras vezes que o capacete de Graf estava fora de sua cabeça em horário de serviço, segurando embaixo do braço. O canto de seus olhos estavam enrugados devido ao sorriso presente em seu rosto, mas por trás daquela curva sorridente e da barba impecável, as lágrimas se formavam e ameaçavam sair em cascata, quebrando a norma em prol da amizade, ambos largam qualquer coisa que estivessem segurando e correm um para o outro, se chocando em um forte abraço.
— Eu vou sentir tanto sua falta — Graf se permite estremecer pela primeira vez, soluçando enquanto as lágrimas desciam por seus olhos — Não se esqueça de mim, por favor
— Não, nunca que vou me esquecer de você — os braços de Pac intensificam seu aperto — Irei te escrever toda semana, você receberá um dragão errante na sua janela todas as manhãs
— Vai ser meu novo galo!
Em meio a uma despedida iminente, ter a possibilidades de compartilharem uma última risada em conjunto aliviou o clima, permitindo que a conversa pudesse fluir durante o caminho. A lua já havia partido, mas o sol ainda não tinha surgido no horizonte, deixando o céu tingindo de um azul anil e um brilho dourado que se fortalecia conforme os segundos passavam. Os corredores do castelo estavam vazios naquele horário, deixando com que as risadas dos dois velhos amigos enchesse o ambiente decorado, como cada sala daquele castelo que tinha grandes janelas e móveis por toda parte, mas de alguma forma elas foram completamente ignoradas, por mais que Pac visse todas elas durante toda sua vida naquele lugar, as decorações sempre o deixavam maravilhado, mas agora não passavam de quinquilharia para encher o ambiente.
A enorme e imponente porta de entrada do castelo era leve, de forma assustadora, mas suas dobradiças ainda rangeram quando Graf empurrou uma delas e a segurou para que Pac passasse com sua bagagem, mas o príncipe congelou no lugar ao ver que o paralelepípedo da entrada do castelo não estava apenas com a corte de Vacuus o esperando, mas havia pessoas que o moreno não estava preparado para ver pela última vez. Enquanto seu corpo tinha congelado e seus olhos estavam fixos no pequeno grupo de pessoas à sua frente, duas das pessoas presentes no grupo correm até o homem e o quase derrubam no chão pela força do impacto, uma delas enterrou o rosto logo abaixo de seu peito, enquanto a outra envolveu ambos e os segurou perto, um aperto quase esmagador vinha de ambas, que só recuaram quando Pac choramingou de dor.
— Maldición, não acredito que vou perder meu melhor amigo — disse uma das garotas, que possuía cabelos pretos e brilhosos, com olhos grandes iguais a esmeraldas.
— Eu vou perder meu irmão, isso não é nem um pouco justo! — exclamou a outra entre soluços, seus olhos caramelos brilhando com lágrimas não derramadas.
Dando um meio sorriso, Pac acaricia a cabeça da menina a sua frente, que inclina sua cabeça contra a mão estendida como um cachorrinho buscava carinho, Leo havia se apegado muito a ele desde o falecimento do general Foolish, seu pai biológico, oque tornava seus fungares ainda mais sinceros. Ele não deixa a outra de fora, apertando sua bochecha como se fosse uma criança, o rosnado de dor é o doce sim da vingança por todas as vezes que a mesma lhe fez o mesmo no passado, mesmo ele sendo muito mais velho que ela.
— Irei mandar cartas para vocês também! Eu prometo — Pac consola, abraçando ambas mais uma vez — Leo, Molly, muito obrigado por tudo, vocês foram damas de companhias incríveis, nunca poderei agradecer o suficiente o quanto agradeço ter tido vocês como irmãs
— Lembre de escrever as cartas, se não eu mesma vou até Vacuus te meter o cascudo! — Leo ameaça, mas tendo convivido com a tal a vida inteira, sendo criados sobre o mesmo teto, era sabido que tal advertência não era sem fundamento.
— Não duvido — os dois sorriem de forma terna um para o outro, uma leveza estranha dada o momento.
Havia mais uma pessoa que estava ali, mas conhecendo a índole e comportamento do homem, Pac achava que não iria receber algo tão caloroso quanto estava ganhando de suas irmãs e de seu amigo, mas a tensão e a frieza que se instalou no ar da manhã lhe deixou ansioso, soltando lentamente os braços dos ombros das duas garotas. Ambas sentiram um choque subir por suas espinhas, as arrepiando como gatos assustados e pulando para trás do príncipe, que já olhava atrás delas, vendo a figura imponente do general Juan Guarnizo se aproximando, seu rosto sempre estoico e com sua postura intacta.
Unidos pelo sangue nobre, irmãos de espada, renegados do trono; havia muitas definições que poderiam descrever a relação dos dois, mas nunca houve um rótulo pregado. Eles se olharam por longos segundos que pareceram minutos, uma inquietação se formava no peito do príncipe ao imaginar que estava fazendo o rei esperar demais, então uma mão pousou no topo da cabeça de Pac, lhe fazendo arregalar os olhos ao notar o carinho tão leve em seus cabelos.
— Você tem mais uma pessoa para mandar cartas — disse Juan.
Um leve tremor escapada da voz do general mas seu tom era suave, mas em um timbre que não lhe era familiar, tanto que até ele mesmo enrijeceu quando notou, afastando sua mão e tossindo de maneira descarada para recuperar sua postura. Os outros três engasgaram com o evento, mas Pac só conseguiu sorrir, sorrindo por finalmente ter arrancado uma lasca da verdadeira essência do homem.
— Foolish estaria orgulhoso de você — responde, pela primeira vez não agindo de forma diplomática na frente de seu senhor.
É possível escutar um bufo saindo de Juan, as lentes de seu óculos embaçam e ele da um sorriso trêmulo antes de abaixar a cabeça e dar um passo para o lado, permitindo que Pac finalmente visse com mais clareza toda a guarda de Vacuus á sua espera. Apesar de não saber todas as informação sobre o reino aliada, algo que era de conhecimento geral sobre as terras ancestrais era a enorme quantidade de dragões que habitam o território, essa informação se torna mais concreta ao notar que as montarias padrões da corte eram Drakes, lagartos terrestres gigantes e quadrúpedes sem asas, usadas tanto para combatê, meio de transporte ou trabalhos braçais; naturalmente essas criaturas rivalizavam com o tamanho dos cavalos, mas eram muito mais rápidos e fortes, além de saberem escalar e nadar com maestria.
Não era atoa que ninguém queria se tornar inimigo de Vacuus, se seu menor pião eram aqueles, ninguém queria imaginar como seriam as torres de seu tabuleiro de xadrez.
O ar frio da manhã estava congelando os ossos de Pac, fazendo arrepios subiram por sua espinha e arrepiaram os cabelos de sua nuca. Não querendo deixar mais o rei esperando, o príncipe caminha em passos lentos até estar bem à frente do líder de Vacuus, os olhos do homem corpulento eram gentis e empáticos com toda a situação, um pequeno alívio para o moreno, pois apesar da fama que pairava sobre a cabeça de Fit, seu comportamento só era ríspido e grosseiro quando lhe ofereciam hostilidade.
Um singelo sorriso apareceu nos lábios do rei, sem alcançar os olhos ou mostrar os dentes, mas assim que ele iria oferecer a mão para explicar e guiar Pac, seu rosto fica atento a algo vindo das costas do príncipe, que estranhando tal ação, se vira para ver o'que estava distraindo o rei. De um dos lados do jardim, uma pequena criatura avançava enquanto se esquivava de guardas que tentavam o impedir de se aproximar do local. O causador da confusão era um dragão filhote, suas escamas em toda a extensão de seu corpo eram verdes enquanto as extremidades, como patas, focinho, asas e cauda eram azuladas, mas seus olhinhos eram de um amarelo brilhante e irradiam calor, mas naquele momento eles estavam desesperados para alcançar algo.
— Richinhas? — Pac fala no mesmo segundo que seus olhos pousam no pequeno dragão que corria exatamente em sua direção.
A menção do nome do réptil parece impulsionar ainda mais seu correr desesperado, alcançando o casal em poucos pulos e se chocando contra Pac, que apenas não caiu no chão por ter batido contra o peito do rei. Richas estava de pé nas patas traseiras, as frontais agarravam as laterais do príncipe com força, mas sem usar as unhas, sua cabeça estava sendo pressionada dolorosamente na boca do estômago do moreno, enquanto latia e gorjeava com temor de cortar o coração.
O pequeno dragão, classificado como uma espécie anfíbia, estava na posse da família real desde sua primeira aliança com Vacuus, os antigos reis ainda eram vivos e não havia uma previsão de coroação tão cedo. Como forma de selar aquela aliança na época, os reinos trocaram presentes, então um ovo adormecido foi entregue para o Norte; ninguém imaginaria que quando o objeto oval fosse entregue nos braços de Pac para que o levasse para a sala dos troféus após o fim da reunião, o pequeno iria acordar de seu sono eterno e mostrar sinais de vida.
Levou alguns meses sob supervisão dos arquimagos para que o ovo chocasse em um pequeno e frágil réptil esverdeado e azul. Um pequeno dragão muito menor do que o previsto e defeituoso. O filhote se tornou o entretenimento de todos os habitantes do castelo e amado pelo povo, mas o alegre dragão tinha alguém especial na qual prestou sua lealdade e devoção, aquele que o acordou de seu sono e seu semelhante.
— Nenê venha aqui! — Molly chamou pelo dragão.
— Vem aqui, Richinhas! — tentou Leo.
Mas o pequeno réptil não se soltou do moreno, na realidade, cada vez que seu nome era chamado por outra pessoa, mais ele se pressionava contra o corpo do homem que ele considerava família. Pac sentiu tudo engasgar em sua garganta, com medo de falar e acabar desabando na frente daquelas pessoas que ele queria proteger do sofrimento, e na frente de quase desconhecidos; tentando se ancorar no atual presente, suas mãos seguram com cuidado a cabeça do pequeno dragão, acariciando suas escamas para acalmar seus sons de sofrimento.
Então ele se lembrou de quem estava atrás dele.
Pac vira a cabeça para olhar Fit nos olhos, com a intenção clara de pedir perdão pela confusão e o comportamento que estavam exibindo, além de explicar toda a situação com o dragão que estava a sua frente. Mas todas as palavras morrem em sua boca ao ser banhado pelo olhar do rei, um brilho empático existia em suas pupilas, uma suavidade e compreensão inesperada, fazendo Pac sobressaltar e um calor vergonhoso cobrir suas bochechas com uma velocidade embaraçosa. Fit sorriu com o canto dos lábios, uma de suas sobrancelhas levantadas, encarando a expressão do príncipe; Pac não suporta tal gesto, voltando seus olhos novamente para Richas, que havia se acalmado, mas ainda segurava seu dono com força.
Quando as palavras parecem ter voltado a fazer sentido, mais uma vez um ato surpresa faz qualquer fala se dissolver; um peso leve é posto sobre os ombros de Pac, com uma textura leve e macia descendo e o abraçando como um casulo. Olhando novamente para o rei, ele estava mais concentrado em ajustar o tecido se sua capa sobre o corpo do príncipe, quando se sentiu satisfeito, ele apertou o focinho de Richas, fazendo o pequeno dragão rosnar e espirrar.
— Se o deixar aqui, ele irá adoecer sem sua presença — Pac estremece com o timbre da voz do rei, como se arrancasse de um vez um curativo de um machucado — Não me importo que você o leve contigo, em Vacuus ele crescerá com mais saúde do que aqui, e temos todo o maquinário necessário para tratar de suas dificuldades
Os olhos de Fit caem para a pata travesseira do dragão, vendo a prótese improvisada. Pac se sente um pouco ansioso em ter seu trabalho avaliado por um especialista, o próprio príncipe havia feito a pata de metal para o filhote com o auxílio de alguns ferreiros locais. Ele poderia ter ido atrás de estudar sobre essas informações, mas talvez ele só quisesse que Richas conseguisse alguém com quem se identificar, então um modelo similar de prótese poderia ser um caminho.
— E-eu não acho que ele vai me largar de qualquer modo — Pac diz, acariciando atrás das orelhas de Richas — Vá se despedir dos outros nenê
O pequeno réptil gorjeia, esfregando seu focinho contra o estômago do príncipe para depois se afastar e correr para o pequeno grupo, sendo recebido pelas duas garotas e Graf em um abraço coletivo, enquanto Juan apenas observou de longe e deu alguns tapinhas na cabeça do réptil de forma educada, o'que não agradou Richas, que pulou em cima do general arrancando xingos do mesmo e risadas do resto do grupo.
Uma pequena faísca de felicidade se acendeu enquanto a cena de desenrolava a sua frente, mas por trás da leve risada que saiu dos lábios do príncipe, um espinho de desconfiança havia se espetado em seu coração, pois por mais que Richas sentisse saudades, seu quarto estava situado longe da entrada com um número limitado de pessoas com a chave de acesso, o pequeno dragão não conseguia se soltar sozinho e nem ter sido um descuido de um funcionário, já que nenhum deles tinha a chave para o quarto. Enquanto sua mente vagava, os olhos de Pac se movem para as janelas do castelo, seus instintos atentos logo notam algo diferente, uma fresta em uma das cortinas, aquela cor tão específica de um cômodo único que o cavaleiro conhecia com a palma da mão.
A luz do amanhecer, com a escuridão do cômodo, não permitia que a pessoa naquela localização fosse identificável, mas não existia dúvidas da pessoa que os observava. Uma enxurrada de confusão e indignação invade a mente de Pac, uma névoa cobriu todos os sentidos do guarda, uma dúzia de perguntas vagavam no consciente do príncipe. As cortinas se fecham, fazendo Roier desaparecer dentro de seu aposento, limpando a névoa que ocultava os sentidos de Pac, fazendo seu corpo tremer em meio a uma tempestade de emoções que ele não conseguia processar. Uma mão pesada trás o moreno de sua mente tempestuosa, arrancando uma aspiração pesada do peito do príncipe que tosse para disfarçar seu constrangimento por ter se distraido.
— Temos que ir — um arrepio passou pela espinha de Pac, surpreso ao ouvir a voz ríspida de Fit pela primeira vez em muito tempo — A viagem até Vacuus é longa e precisamos chegar antes das mudanças das marés, perdi tempo demais com os acordos políticos
Pac sentiu seu estômago embrulhar, lembrando das longas viagens que fazia enquanto ocupava o papel de segundo oficial no comando, ou quando precisava acompanhar os irmãos em viagens democráticas, e a sensação gratificante de quando voltava a pisar no solo de sua terra amada, então entendia em certa parte a necessidade que sua majestade em retornar ao seu lar.
— Eu tenho alguém pra quem voltar — as palavras foram ditas em um tom muito mais baixo, com uma suavidade que não pertencia a alguém que era chamado por títulos horrendos.
Pac sentiu seu corpo enrijecer de forma momentânea e tudo oque ele achava saber evapora de sua cabeça, uma ideia hedionda passando como um raio por todos os seus nervos; mas então ele lembrou, sim, havia um pequeno garoto que deveria estar ansioso pelo retorno do pai. Isso não impediu que uma nova descarga de energia nervosa disparasse pelos ossos do príncipe, pedindo aos deuses e deusas que o garoto não o odiasse por manter seu amado pai tanto tempo longe de casa.
Mais uma vez, Fit estendeu a mão a Pac, que desta vez aceitou sem distrações, sendo guiado até um Drake de escamas verdes, cada uma de com tonalidade diferente, com a cor destacando os olhos afiados e rosados. A sela em suas costas tinha um aspecto de nova, como se não tivesse sido usada muitas vezes, deixando uma pequena dúvida surgir na mente de Pac, que franze as sobrancelhas em questionamento enquanto olhava para o enorme réptil. O primeiro a se aproximar e fazer uma apresentação amigável foi Richas, que se aproximou pela frente do dragão terrestre, se sentando sobre as patas traseiras e elevando o tronco para ficar um pouco próximo da altura dos outros do Drake. O réptil maior olha para baixo, visualizando o anfíbio que tentava o dizer um “olá”; o grandalhão bufou uma lufada de ar no rosto do menor e o dando um leve empurrão com o focinho.
— Esse rapaz é um selvagem, resgatado e treinado após a recuperação para servir na cavalaria de Vacuus — Fit explica, seus olhos tão fixos na interação dos dois dragões quanto o príncipe — Feras assim possuem um nome próprio, e você precisa descobrir qual é ele e o seu timbre para poder domá-lo. Eles até aceitam que alguém os monte por um tempo, mas depois irão negar sua presença
O encanto feito pela pequena interação das feras é quebrada quando uma mão se faz presente de repente ao lado das coisas de Pac, lhe fazendo recuar por instinto, congelando suas ações ao ver que aquele que pegava sua bagagem, era o fiel guarda do rei que o olhava com um pedido silencioso de permissão, fazendo o moreno suspirar e soltar com vagareza sua mala, permitindo que o soldado a levasse, prendendo a bagagem sobre o flanco do animal.
— Espero que sua viagem com ele seja tranquila, não gostaria de te obrigar a dividir a montaria com alguém tão cedo. Além do mais, você tem um dragão, não seria difícil tomar outro
— Estás me superestimando, vossa majestade — Pac não consegue conter o sorriso brincalhão quando responde a fala do rei, brincando envolta dos títulos reais.
Os lábios de Fit se erguem em um sorriso ladino, um brilho descontraído piscando em suas pupilas amendoadas.
— Pelo contrário — a voz do rei estava baixa, como se estivesse prestes a contar um segredo — Ouvi sobre tudo o'que você é capaz, e acho que você apenas se subestima vossa alteza, pois eu reconheço um homem forte quando vejo um
Pac sente cada grama de oxigênio se esvair de seus pulmões, um tanto atordoado pelas palavras lisonjeadas dirigidas a ele de forma tão deliberada, não era comum e muito menos algo que o cavaleiro esperava receber, principalmente de alguém que o conheça a apenas quatro meses.
— O-obrigado Fitch…Fit! Fit…sorry — o rei murmurou algo ao seu lado, talvez uma garantia que estava tudo bem, mas o príncipe não dá ouvidos, desviando sua atenção para o dragão terrestre a sua frente.
O enorme Drake ainda brincava com o pequeno dragão anfíbio, soprando baforadas de ar na cara do menor, que gritava toda vez que recebia o ar quente contra seus olhos. Por alguma razão, o enorme réptil fez memórias antigas se sua infância reacenderem; entre paredes frias de pedra e uma infelicidade gravada na pobreza próxima aos limites do Norte, Pac se lembra dele em um balanço, uma das crianças mais velhas do orfanato, vendo o exato momento em que um garotinho mais novo estava sendo intimidado.
Foi a partir daquele dia que ele ganhou, não só um amigo fiel, mas um irmão no qual ele poderia confiar e viver seus próximos dias. Ele se lembra vagamente se seu rosto, seus cabelos de uma coloração avermelhada, refletindo um brilho rosado em seus fios quando atingido pela luz, igualando com o cintilar em seus olhos. Mas em algum momento as memórias se perderam e o contato foi perdido quando Pac foi levado para o coração do Norte. Aquele dragão, por algum motivo lhe lembrou dessa pessoa que a tanto tempo não ouvirá notícias, e em seu coração era de suma importância nunca mais esquecer essas memórias, homenagear aquele que ele chamou de irmão parecia a coisa certa a se fazer:
— Mike… — ele deixa o nome dançar em sua língua, uma alegria infantil ao dizer aquele nome que marcou parte de sua vida.
Um ronco irrompe do dragão, fazendo Pac entrar em guarda, vendo o enorme réptil se virando para olhá-lo, suas pupilas em fenda agora estavam dilatadas, seus olhos demonstravam uma delicadeza e familiaridade incomum em ver no rosto de um dragão. Respirando fundo, Pac estende a mão para próximo do focinho do Drake, se surpreendendo pelo enorme lagarto descansar contra sua palma, se entregando ao comando do príncipe. Apesar da surpresa, um sorriso vitorioso cresce nos lábios do príncipe, como se tivesse conseguido uma grande conquista. O'Que não era uma mentira, Richas foi uma exceção, já que reconheceu Pac desde cedo como seu dono, mas ter conquistado a confiança de um dragão adulto era algo muito diferente.
— Uau… — a voz do rei faz o moreno se virar, vendo o rosto de surpresa de Fit, mas adornado por um sorriso e um brilho triunfante nos olhos, como se seu ponto acabasse de ser provado — Ainda não se acha capaz, vossa alteza?
Um mix de sentimentos se instalou no peito de Pac, ele queria retratar o'que o rei estava falando, ao mesmo tempo que queria explodir de vergonha com tal brincadeira, desejando socar o braço de Fit, mas escolheu ignorar todas aquelas emoções e subir na sela de Mike, Richas pulou logo atrás, se acomodando nas costas do humano, enrolando sua longa cauda ao redor de sua cintura, se segurando. Um pouco nervoso, Pac quase sobressaltou ao sentir um toque em sua coxa, se virando para ver a mão do rei sobre sua perna, mas seus olhos não estavam voltados para seu rosto mas sim para sua prótese. Os músculos do príncipe enrijeceram ao ver o rosto carrancudo do rei, era óbvio, ele também sabia oque era ser um amputado e por mais que Pac já fosse capaz de controlar seus passos, mesmo com a dor surda, talvez ele só pudesse esconder seu mau hábito daqueles que não entendiam por completo sua situação.
— Com nossa cavalaria a viagem até Vacuus durará dois dias, temos tempo até que a maré suba — Fit vira sua cabeça devagar em direção ao rosto do príncipe, seu olhar atento e penetrante, esperando que suas palavras gravassem na mente do príncipe — Não hesite em pedir para pararmos caso necessário
Lentamente, Pac assente com a cabeça, ele queria acalmar as preocupações de Fit, mas já havia decidido não atrasar o retorno do rei em reencontrar seu filho, foi por sua causa que o homem esteve preso em um reino estrangeiro por mais tempo do que o necessário, precisando voltar com um compromisso que ele não desejava, mas precisou aceitar para o bem de todos. Ele não seria o motivo para mais atrasos ou empecilhos na vida daquele homem, então ele se vira uma última vez, vendo aquele quarteto reunido que se esforçou para se despedir, ele acena para eles de longe com o maior sorriso que conseguia por no rosto vendo-os sacudir as mãos, retribuindo o sorriso e gritando despedidas e mensagens de boa sorte e apoio.
Essa seria, por um longo tempo, a última vez que os veria.
°
Em meio a neblina prateada do amanhecer, Pac vê ao longe a forma imponente do reino de Vacuus se erguendo da luz do amanhecer, era deslumbrante. O vento frio do amanhecer batia contra o rosto do moreno, deixando suas bochechas vermelhas, enquanto Richas ainda dormia enrolado ao seu redor. Com um respiro profundo, Pac percebe seu hálito quente condensando em pleno ar, enquanto o grupo parava um pouco antes de descerem a montanha para chegar na ponte principal.
— Estamos quase chegando! — a voz do rei ecoa enquanto ele passava por entre os soldados e logo dando meia volta parando logo ao lado do príncipe, sua voz descendo uma oitava para conversar com o moreno — Quando chegarmos, eu preciso resolver um assunto muito importante com você, logo depois você estará livre para descansar
— Claro majestade — afirmou em voz baixa.
— Alteza…você não precisa me chamar com tanta formalidade — um bufo bem humorado faz o peito do rei tremer — Em Vacuus, isso não é a coisa mais comum, principalmente entre aqueles que são mais próximos
Um silêncio recai sobre eles, apenas o zumbido da brisa do amanhecer, enquanto Pac piscava os cílios um tanto atordoados com essa informação. Em sua cabeça, um teatro passava por todas as vezes que ouvirá alguém falando com o rei até aquele momento, e nenhum deles as pessoas próximas a Fit haviam sequer se referido a ele pelo seu título, o'que deixou o príncipe um pouco envergonhado por não ter reparado naquele pequeno detalhe antes.
Suspirando, sentindo o ar quente de seu sopro condensar no ar, Pac ajeita os ombros e olha diretamente nós olhos do rei, que estava preste a voltar ao seu local original na liderança, quando a voz do moreno o para no meio do caminho:
— Claro Fitch, e você pode me chamar de Pac — ele oferece um sorriso contido, se segurando para não rir do momento em que vê os olhos arregalados do rei.
E se as bochechas do príncipe começassem a arder quando o careca deu um sorriso ainda maior, Pac iria culpar o ar frio da manhã pela coloração.
— Estou de acordo com isso, Pac — Fit se vira para liderar a tropa, dando uma risada profunda, e mais uma vez o moreno iria culpar o clima por seu rosto queimar.
O caminho até o reino foi banhado por um silêncio pacífico, os sons da nova natureza das enormes ilhas de Vacuus se misturando com aquela que eles estavam deixando para trás. A enorme ponte que ligava a ilha principal, onde estava localizado o coração do reino, estava começando a ser coberta com água devido a mudança das marés, incomodando todos os Drakes que eram atingidos pelas pequenas ondas, apesar de serem ótimos nadadores, isso não significava que as gigantes criaturas gostassem da água. Mike também não foi exceção, grunhindo e levantando as patas dianteiras tentando se livrar da sensação fria toda vez que alguma onda o atingia. Pac se compadece com a situação de seu companheiro, acariciando a lateral de seu pescoço para o consolar, sussurrando garantias que logo eles estariam em terra firme novamente. O conforto pareceu funcionar, pois o dragão pareceu andar com mais confiança entre seus demais companheiros, alcançando a frente da cavalaria, ficando apenas atrás do próprio rei e de seu guarda.
Conforme se aproximavam cada vez mais, a arquitetura de Vacuus se erguia diante dos olhos do príncipe estrangeiro, fazendo sua garganta secar devido ao nervosismo, mas isso não lhe impedia de admirar o quão deslumbrante era aquele lugar e como ele se mostrava diante de seus olhos. Construções feitas de materiais não inflamáveis, estruturas firmes e com marcas da natureza destrutiva daquelas ilhas, em junção a sua fauna única e exótica. O castelo do reino não ficou para trás, a enorme fortaleza era magnífica e com uma grande história por trás de cada pedra que constituía sua base, deixando Pac viajar por cada detalhe que pudesse absorver daquela paisagem que ele ainda custava a acreditar que seria seu novo cotidiano.
A cavalaria adentrou pela ponte levadiça, sendo acolhidos pela praça principal do castelo, com caminhos que cortavam um enorme gramado e canteiros floridos. O rei levanta a mão, dispensando a todos, então, um por um, os guardas desmontam de seus companheiros quadrúpedes e desarmaram seus pertences, seguindo adiante para levar os Drakes para seus estábulos, mas Pac permaneceu sobre a cela de Mike por mais alguns instantes, processando o ambiente e os sentimentos caóticos em sua mente.
Respirando o ar gélido do amanhecer de Vacuus, Pac desce de sua montaria, chiando com a pele irritada do membro residual em contato com o material da prótese. Richas acordou de repente e não perdeu tempo em descer e tentar levantar a perna do humano, quase fazendo o moreno tropeçar e se segurando na cela do réptil maior para não cair, mas a atitude do pequeno fez Pac rir e apreciar o cuidado que seu filhote tinha com ele. Seus dedos acariciam atrás da orelha do pequeno dragão, garantindo com vagareza que estava bem, esperando até que sua perna fosse abaixada e finalmente pudesse retirar sua bagagem do flanco do seu novo amigo gigante. Desfazer as fivelas não foi difícil, os clicks suaves foram subindo um por um, até que a mala simples de Pac estivesse livre e em suas mãos novamente, dando um tapinha gentil como agradecimentos ao dragão terrestre, que, virou a cabeça em direção ao humano, aquele olhar tão incomum e terno para um lagarto gigante ainda estava ali, deixando um gosto doce na boca após tantos pensamentos amargos.
A enorme fortaleza de erguia diante de Pac, havia muitas possibilidades do que ele poderia fazer agora, mas ele se sentia como uma criança perdida no meio de um festival, sem saber para onde ir e sem ter ninguém para o orientar. Óbvio que o rei estava ali, mas Fit parecia ocupado, já que um grupo de pessoas havia aparecido logo depois que a tropa foi dispensada, oque só deixou o príncipe mais nervoso com o pensamento de se aproximar e acabar atrapalhando a conversa, levando em consideração que havia um homem de cabelos loiros e vestes verdes que parecia profundamente magoado e irritado com o soberano.
Entre a incerteza de se aproximar do rei e se perder tentando encontrar seu próprio caminho, o som de botas de couro batendo contra os tijolos do chão fazem o corpo do guerreiro entrar em alerta, se virando para encontrar uma mulher um pouco mais alta que ele com roupas bem arrumadas se aproximando em passos firmes, seus cabelos longos estavam presos em um penteado alto, fios loiros prateados deixavam em destaque uma única mecha castanha solta. Os olhos da mulher eram de um azul aconchegante, como o céu de uma tarde primaveril, sua postura também mostrava hospitalidade e um sorriso pequeno aparece assim que ela para próxima ao cavaleiro, se inclinando para frente.
— Olá vossa alteza — o corpo do moreno se contrai um pouco — Me chamo Bagi, é um prazer conhecê-lo, foi uma surpresa quando Fit te citou na última carta
A menção de uma correspondência vez o príncipe lembrar de Molly lhe dizendo que o rei ainda havia pedido para que ela arrumasse um corvo mensageiro. Não houve explicação, apenas que era uma carta que precisava ser entregue com rapidez, com um enorme selo de Vacuus mantendo a mensagem bem lacrada. Tendo essa informação agora, era fácil entender todo o alvoroço que estava acontecendo ao redor do rei, segundo sua fama, status e personalidade, talvez não fosse esperado que a viagem intitulada como “Guerra ou misericórdia”, acabasse com vossa majestade trazendo um noivo nos braços ao retornar de sua expedição sanguinária.
— Prazer em conhecê-la Bagi, pode me chamar de Pac — ele finalmente responde, com um sorriso um pouco maior, em resposta, a própria mulher parece relaxar e suavizar sobre a atitude cordial.
— O Fit me pediu para te mostrar o caminho para seu aposento — os olhos da mulher se movem para os dois répteis que acompanhavam o príncipe — Seu Drake vai ser escoltado pelo Bad assim que ele terminar de falar com o Fit, enquanto o pequenino pode ir conosco, mas já peço desculpas pelo quarto simples, sua chegada deu muito trabalho
— Sem problemas! — ele garante enquanto se despedia de Mike, prometendo o visitar em breve, e se apresentando para acompanhar os passos da senhorita, com um Richas sonolento e mal-humorado em seu encalço.
Os três começam a andar, quase lado a lado, indo em direção aos enormes portões de madeira escura. Era opressivo, mas havia uma curiosidade escondida em saber como seria sua vida dentro daquelas paredes, mesmo que o medo ainda nublasse sua percepção e a saudades floresce em seu coração. Apesar do que se passava internamente na mente de Pac, seus instintos ainda estavam alertas e suas orelhas capturaram parte da conversa dos três indivíduos juntos ao rei. Além do próprio Fit, que parecia bem impaciente apertando a ponta do nariz com dois dedos, enquanto sua testa estava enrugada, havia dois guardas que compunham a pequena rosa, um deles já era familiar para Pac, ele havia feito a guarda do rei por todo o período de tempo que estiveram fora, se o príncipe não estiver perdido em suas memórias, tem certeza que seu nome é Etoiles.
Ao lado do guarda de cabelos platinados, havia outra pessoa vestida com armadura, este qual Pac desconhece, mas percebe o ar brincalhão que flutua ao redor do guarda. Por último, quem parecia estar mais dando dor de cabeça a sua majestade, era um homem de longos cabelos loiros, olhos brilhantes como pequenas joias azuis cheias de descrença, um enorme chapéu verde e branco escondiam as pequenas expressões raivosas de seu rosto, se assemelhando a um pássaro raivoso. Era um vocabulário em inglês que deixava a mente de Pac um tanto confusa, mas ele conseguiu captar o contexto do falatório. Mas com o canto dos olhos, ele encontra o olhar de Fit, que também o encarou de soslaio enquanto passava seguindo os passos de Bagi, mas logo o gesto muda e o tronco do homem se vira para os dois, seu movimento sendo emitado pelo moreno, sem que nenhuma palavra fosse trocada de início, o'que faz o rei sorrir, um pensamento passando por sua cabeça chegando na conclusão que as coisas estavam caminhando de forma satisfatória.
— Pac, após você se instalar, peço que desça até a sala do trono — uma mão pesada vai sobre o ombro do moreno, o metal frio fazendo uma leve pressão ali, tão gentil quanto possível devido ao calibre da prótese — Há algo muito importante que preciso fazer e necessita sua presença para isso
— Estarei lá Fit — Pac garante com firmeza, erguendo a mão livre e deixando com que segurasse o metal em seu ombro.
Não havia indício que houvesse alguma runa que permitisse que o rei fosse capaz de sentir o toque através do metal, mas o simples gesto pareceu ter acalmado os músculos do monarca. Eles eram amigos, isso era certeza, mais de dois meses se vendo com frequência, com Pac sendo o responsável por manter a ordem e apresentar hospitalidade, conversas que deixavam de ser diplomáticas em algum ponto e passaram a ter um clima amigável e profundo, tocando em assuntos de forma tão natural e com uma leitura tão fácil do que deixavam implícito.
Eles não eram íntimos, mas o título de “Bons amigos” era algo inegável, então porque todos ao redor pareciam surpresos com a troca de contato tão casual? Não deveria ser algo tão surpreendente.
Foram alguns segundos duradouros até que ambos se afastasse e seguissem com suas próprias coisas, Fit tendo que retornar com sua postura de rei, enquanto Pac seguia Bagi para um pequeno passeio de reconhecimento pelo castelo, e uma breve pausa para colocar suas coisas onde seria o local de repouso pelo restante de seus dias como habitante daquele reino.
A caminhada foi confortável, as conversas entre Pac e Bagi eram fluidas, apesar dos insistentes questionamentos vindos da mulher. Entre as anedotas contadas entre as explicações sobre os salões e corredores, o príncipe aprendeu mais sobre aquela que o guiava e conhecia tão bem aquele interior; Bagi também não é nativa de Vacuus, tendo nascido na Ilha de Alcatraz — Pac já esteve lá, tendo o sangue daquelas terras isoladas correndo por suas veias por conta de antepassados — o'que tornou a comunicação entre eles muito mais natural, pois Norte e Alcatraz compartilhavam o Português como um dos seus idiomas principais.
Fofocas foi o que não faltou entre os dois, com Bagi deixando claro que existe muita história entre aqueles que trabalhavam no castelo, e que a maioria dos contos de fora das fronteiras é uma imagem um pouco retrógrada do que é o atual reino de Vacuus. Mas talvez o que mais deixou Pac intrigado foi o quão amorosamente Bagi falava sobre a feiticeira da corte, uma mulher de origem mística chamada Tina; ele esperava a conhecer em breve.
°
O sol já brilhava com intensidade, o frio do amanhecer havia sumido e o calor invadia o pequeno quarto que foi designado para ele, nada que fosse importante ser notado, uma cama simples no centro com um baú aos pés e um tapete feito de pelé felpuda ao lado, uma escrivaninha abaixo da única e grande janela do cômodo, um guarda-roupa simples ao lado de uma pequena porta com acesso a um banheiro privado. Pac não fez muita coisa após receber as chaves do aposento e reconhecer a sala, apenas retirou as roupas da mala e as colocou em seu devido lugar, sua demora veio das memórias dos pequenos itens que trouxe consigo — além, dele ter certeza que seu amigo e irmãs colocaram coisas há mais dentro de sua bolsa quando ele estava distraído com o general.
Havia pequenas coisas ali que o fizeram mergulhar em um mar de memórias que já lhe trazia saudades, mas doíam tanto quanto. Ele engoliu as lágrimas, esfregando os olhos com o pulso para afastá-las, enquanto acariciava a cabeça de um Richas sonolento que dormia nas cobertas aquecido pela luz do sol que entrava pela janela. Com um último chamego de despedida no seu dragãozinho, Pac inspira e expira ao ajeitar sua postura para sair da sala, encontrando o olhar sorridente de sua primeira companhia naquelas novas terras ao abrir a porta; Bagi sorria para ele enquanto estava há sua espera, tendo decidido deixar Pac ter seu primeiro momento de privacidade no castelo, já que eles teriam muito tempo para conversar quando as coisas fossem postas em seus devidos lugares.
Os corredores do castelo estão mais iluminados, mas ainda passam uma sensação de frieza devido a cor e a pedra das paredes, com a falta de decoração fazendo o espaço parecer vazio ao ponto do eco dos seus passos serem possíveis serem ouvidos ao pisar fora do carpete. A conversa com a mulher — que Pac descobriu ocupar a função de governanta do castelo — o distraiu durante a caminhada, mas quanto mais próximos ficavam do salão do trono, uma sensação pesada caía sobre seu peito, como uma nuvem densa de tempestade que treme com seus trovões, avisando que a chuva logo chegaria.
A porta lateral se abre, mostrando mais uma vez o enorme salão onde dois tronos brilhavam com elegância com a luz reluzente do sol banhando cada centímetro da sala. As tapeçarias balançavam com a brisa suave que corria por ali, um enorme tapete guiava o olhar da porta principal até o pedestal onde o trono estava, mas diferente de quando ainda era amanhecer, agora o ambiente estava vivo com a presença de pessoas, entre guardas e funcionários, eles estavam em posição, sempre guiando para a presença das duas figuras sentadas ao trono; um homem grande com presença marcante, mesmo que sua voz estivesse silenciada, apenas seu olhar era preciso para sentir sua imponência, fazendo jus a coroa que estava agora em sua cabeça; ao lado do homem, um garotinho bem arrumado que exalava a notoriedade de seu título, não era difícil perceber, que aquele garoto com o mesmo olhar afiado do pai, era o príncipe Ramon.
Mãos gentis passam sobre os ombros de Pac, fazendo-o se virar para olhar para Bagi, vendo-a retirar de seus ombros a capa que usava — aquela mesma que o próprio rei pôs sobre si quando se despediram de sua antiga terra. A governanta tinha um sorriso encorajador em seu rosto, acenando lentamente com a cabeça, incentivando o príncipe a seguir em frente, enquanto ela cuidaria do resto; Pac suspirou, abaixando o olhar enquanto começava seus passos em direção ao pedestal, seu coração batia forte em seu peito, um nervosismo crescente a cada centímetro que se aproximava dos tronos, nem percebendo quando chega aos primeiros degraus da pequena escada, notando uma pequena almofada posicionada logo aos pés do rei.
Os olhares de ambos se cruzam quando Pac levanta a cabeça para verificar tal detalhe, demorando um pouco enquanto admirava os olhos do rei. Mas sua atenção logo é puxada para o príncipe, que, parecia uma mistura inquietante de hesitação e curiosidade ao ter uma pessoa totalmente nova que faria parte de sua vida — Pac pensa consigo, rezando para que o garoto não o visse com maus olhos devido a razão pela qual ele estava ali, mas nem mesmo o próprio sabia com clareza o'que estava preste a acontecer, seu conhecimento se limitava ao que havia vivido até aquele momento, e pela postura do jovem príncipe, Ramon com certeza tinha mais noção do que estavam fazendo ali.
Olhando novamente para a almofada sobre seus pés, Pac leva mais um tempo, pensando, surpreso pelo acolchoado estar ali — tentando ignorar as borboletas pela implicação da gentileza e cuidado para consigo, mesmo estando grato pela mesma — optando por seguir pelo seguro, o joelho descansa na almofada, enquanto sua prótese se dobra de forma confortável para cima e seu braço descansava sobre sua coxa, com os dedos da outra roçando o chão, fazendo um suspiro de alívio sair do peito do moreno, um que ele mesmo não sabia que estava segurando ao se encontrar naquela situação.
Um silêncio se instaura no salão, alguns passos dos guardas e dos trabalhadores, até que eles também param. Leva alguns segundos, mas logo o rei se levanta de seu assento, com o som de seus sapatos denunciando cada passo, até que eles ficam visíveis no campo de visão do príncipe, que sem pressa, levanta a cabeça para ver o homem que governa aquelas terras com punho de ferro, mas o tratou com tanto apreço.
— Eu ouvi sobre seus feitos, presenciei suas façanhas — começou o rei, sua voz alta e poderosa, deixando com que todos ouvissem suas palavras com clareza — Diante desse trono, não irei apenas te consagrar como futuro rei consorte de Vacuus — passos ecoam novamente pelo salão, um serviçal para ao lado do rei, uma almofada cerimonial em mãos, portanto de uma espada curta e enfeitada, que brilhava com a luz do sol, deixando as pedras de citrino no punhal em evidência — Perante a mim, te tornarei meu escudo e minha espada, um general que protegerá o coração desse castelo, um guardião que vela e zela pela vida daqueles que fazem dessas paredes o seu lar
O ar se esvai dos pulmões de Pac, seus olhos estavam vidrados no rei, incapaz de desviar o olhar da figura perante a ele. A luz do sol contornava toda a forma de Fit, deixando com uma aura etérea ao seu entorno com o brilho azul das safiras em sua coroa dançando ao redor, uma imagem admirável e imponente que deixava a boca seca e as palavras engasgadas na garganta, não ajudava o fato daquela nova informação que foi lhe dada, uma honra que ele não achava que merecia mesmo que seu valor estivesse sendo marcado em pedra e sendo dito em voz alta pelo rei.
— Se entregue de alma e corpo, renegue seu passado. Renasça como um novo ser diante a coroa de Vacuus, para se tornar meu guardião — um brilho intenso refletia nos olhos de Fit, uma chama que se alastrou e incendiou toda a alma do guerreiro.
Pac sentiu seu coração parar na garganta, aquela oferta ia muito além de todas as situações que sua imaginação poderia lhe proporcionar, achava que serviria apenas como moeda para o acordo de paz, se tornando apenas um fardo para os ombros do soberano, mas Fit não parecia pensar assim, oferecendo ouro onde ele achou que só encontraria ferro. Todo o discurso do rei fez algo novo surgir na mente e do coração de Pac que o fez tremer; O Norte lhe deu um presente, uma família na qual quando pequeno ele nunca imaginou que poderia ter, mas Vacuus estava lhe dando um propósito, algo para construir e agarrar, um motivo para de se orgulhar, uma chance de não viver nas sombras de alguém mas construir algo próprio.
Escolher aceitar tal destino e servir aquele povo, era escolher abandonar tudo aquilo que ele deixou para trás quando cruzou a fronteira entre os dois reinos, abandonar o título de príncipe, era tão simples, tão tentador se livrar do peso que ele carregou por toda sua vida, mas era uma decisão que não teria mais volta assim que tomada, tinha que ser feita com cautela, pois não se tratava de apenas fugir de algo que o assombrou por anos, se tratava de recomeçar do zero, como uma nova pessoa.
Os dedos que tocavam o carpete deslizam para frente, sua palma virada para cima se estende em direção ao rei que não desviou seu olhar por um segundo. Fit observa por um tempo o braço estendido, sua expressão neutra mesmo que o questionamento batesse em seu peito e refletisse em sua postura ao levar a mão protética a descansar contra a palma de Pac. O moreno fecha com cuidado os dedos ao redor dos de Fit, puxando-o para perto de si até que sua testa descansasse contra os pequenos nós de metal que imitavam as articulações, arfando ao sentir a frieza do material contra sua pele quente, escolhendo com cuidado as próximas palavras que diria em voz alta naquele salão, selando sua escolha:
— Diante do trono de Vacuus e as testemunhas aqui presente, te entrego todo o meu coração — Pac respira fundo, intensificando seu aperto em torno dos dedos da majestade — Meu rei a ti pertenço
Levantando a cabeça, o príncipe beija os dedos metálicos do rei, que havia aberto um largo sorriso em seu rosto, seus olhos se enrugando nas bordas e uma eletricidade que não o fez perder tempo em agarrar o punhal da espada com a mão livre, o sol refletia nas pedras preciosas com brilho forte que rebatia pela sala. Pac solta a mão protética do rei, ajeitando sua posição e abaixando a cabeça com os olhos fechados enquanto a lâmina era elevada sobre a coroa do rei, a luz rebatendo no metal, então ela desce com cuidado e maestria até o material quente tocar contra o ombro direito do homem ajoelhado.
— Pelo poder investido em mim, te proclamo como minha espada — a lâmina se afasta, mudando para o lado esquerdo — E meu escudo. Levanta-se Pac
A ordem foi atendida com rapidez, com o guerreiro se levantando e ficando de pé sobre os degraus e subindo, ficando ao lado de sua majestade. A espada que o nomeou descansava nas mãos do rei, que as estende para Pac, seus olhos brilhavam enquanto encarava o guerreiro como se tivesse encontrado algo precioso, um tesouro, e ser olhado daquele jeito causava uma sensação opressora, com mais uma vez sua mente tentasse lhe convencer que não havia chance de alguém ter de fato aquela opinião sobre si, mas seu coração batia forte em seu peito, com uma sensação calorosa que lhe trazia algum orgulho, por ter sido notado, apreciado.
Os olhos de Pac demoram na lâmina a sua frente, absorvendo cada detalhe, desde os entalhes no punhal até o trabalho de calcogravura no centro da espada. Os dedos levantando para deslizar sobre o local, engolindo em seco com a mão pairando sobre o objeto que era oferecido, com medo de finalmente adquirir aquilo que agora lhe pertencia. Seus olhos se erguem novamente para o rei, que, parecia lê-lo como um livro aberto, pois seu sorriso vitorioso se suavizou, um brilho mais gentil em seus olhos e uma expressão mais acolhedora, acenando a cabeça com positividade, dando ao moreno a confiança necessária para que seus dedos se fecharem em torno do punhal da espada.
O couro abaixo da palma parecia queimar, fazendo a sensação se alastrar por todo o corpo do príncipe, o incendiando mais do que a luz do sol com um calor reconfortante e ardente. Pac solta um suspiro que nem percebeu que estava segurando, uma onda de alívio o invadindo e intensificando aquela sensação calorosa que invadia toda a sua alma. Ele se sentia em chamas quando o toque frio do seu rei lhe trouxe de volta, ainda o olhando com aquela expressão suave que o deu forças para assumir seu novo papel.
— Seja bem-vindo a corte, General — a voz de Fit foi baixa mas ecoou pelo salão, acarretando em uma salva de aplausos de todos os presentes.
Os dois homens de viram, vendo aquelas pessoas celebrando a conclusão do pequeno ritual, aquelas palmas pareciam sinceras, e apesar dos sorrisos pequenos em seus rostos, eles compartilhavam do mesmo brilho intenso que rivalizava com o sol, esta mesma chama que brilha no olhar do rei ao ver Pac aceitar carregar aquele título que tinha uma enorme importância. Um daqueles que aplaudiam para abruptamente enquanto o coro continuava, se aproximando das suas majestades com uma bainha em mãos, quase esquecendo de pedir permissão ao se aproximar do mais novo General da corte — Pac só conseguiu rir do modo desengonçada e nervoso do trabalhador ao se aproximar dele; O mesmo servo que trouxe a espada agora prendeu em torno de sua cintura e perna, o objeto que segurava aquele arma de tão grande valor — a bainha era feita de couro de algum réptil, sua dureza e pequenas saliências denunciavam o material, mas ao redor delas estava desenhado vários ramos de roseiras, o'que inconscientemente, fez o moreno questionar se aquilo foi por acaso, ou pura coincidência do destino o objeto que agora portava ter as mesmas flores que ele presenteou seu rei.
Quando os barulhos vão se silenciando, Pac consegue ouvir um pigarrear ao seu lado para chamar sua atenção, virando a cabeça para o lado para ver o príncipe Ramon parado bem próximo dele, sua postura era digna da nobreza, com as costas retas e os braços atrás do corpo com os ombros altos e peito estufado. Era impossível não sorrir ao ver tal nível de etiqueta ser exibida pelo garoto, com idade entre seus 8 há 10 anos — de certo modo, aquele modo de agir lembrava muito o comportamento do próprio rei, deixando evidente, mesmo que de forma indireta, como o menino se inspirou no pai. Ajeitando a própria postura, ainda ostentando seu sorriso, Pac cruza uma mão nas costas, enquanto a outra repousa sobre o peito enquanto se curva alguns graus para frente em respeito ao mais novo e as palavras saírem com alegria, mas um respeito verdadeiro para a alteza em sua presença:
— Pequeno príncipe, é uma honra conhecê-lo, ouviu muito sobre você dos lábios de sua majestade — Pac só conseguiu sorrir ao ouvir o suspiro profundo do rei, imaginando ele se virando para ver aqueles que falavam de si.
A imagem séria que Ramon tentava manter se quebrou por alguns segundos, seus olhos brilhando com aquele olhar infantil e encantador, suas mãos voltando para frente do corpo com os dedos nervosos se enrolando no pequeno lenço branco envolta de seu pescoço, suas bochechas rechonchudas ganhando uma coloração avermelhada que brilhava na luz do sol. Mas aquela pequena brecha logo se fecha com um balançar feroz da cabeça do garoto, seus cachos antes alinhados agora pareciam uma nuvem fofa de fios, deixando para avista aquela imagem de criança que tentava esconder com uma postura séria.
— É-é um prazer conhecê-lo também General, também ouvi muito sobre você
— Oh é mesmo? — Pac tentou conter seu tom irônico, mas era muito difícil quando os olhos do rei estavam grudados em sua nuca — Espero que tenham sido coisas boas, alteza
— Claro que foram!! — Ramon se exalta, seus olhos brilhando com admiração pura, mas não dura muito para a infelicidade do mais velho — E graças a todas as coisas boas que eu ouvi, dou minha bênção para que no futuro, você se case com meu pai
O cérebro de Pac parece entrar em curto circuito, parando até mesmo de entender o que as pessoas ao seu redor estavam falando. Apesar do motivo principal para que ele estivesse ali era uma cláusula de casamento arranjado, os últimos acontecimentos haviam apagado esse fator de sua mente, e a lembrança de que aquilo ainda poderia acontecer o deixava congelado, mas pensativo, se seria de fato algo tão ruim assim. Respirando fundo, uma, duas e três vezes, os frenéticos “Calm down Ramon, calm down” do rei começaram a fazer sentido em sua cabeça com os pensamentos voltando a ganhar lógica. Fit agora estava ao lado de Pac, apenas alguns centímetros de distância dele enquanto conversava com o filho, que parecia confuso com a energia nervosa do pai, as bochechas com um vermelho suave contrastando com as safiras em sua coroa.
O indicador do soldado desliza sobre a pequena pedra de citrino no pomo da espada, circulando uma das joias polidas que tornava a lâmina tão única e especial, seus lábios se curvaram em um sorriso pequeno. Com o sol esquentando sua pele e uma perspectiva de um futuro novo a sua frente, Pac sentiu algo que lhe era arrancada em Mysterium desde que a sombra de sua linhagem foram exposta ao mundo, uma paz inigualável, de poder ser um espectador naquele momento, mas ter tido o aval para se tornar um participante em um futuro próximo.
— Não se preocupe pequeno príncipe — Pac diz, chamando a atenção de Ramon, que observa o homem que o chamou se ajoelhar à sua frente para ficar na altura de seus olhos — Prometo a você que irei me esforçar, me tornarei o melhor general para proteger todos vocês
Havia entrelinhas naquela declaração, mas elas eram como uma caixa de Pandora, na qual ele não estava disposto a explorar naquele momento, mas sabia que existia — talvez todos já soubessem se lembrar dos olhares direcionado aos dois quando chegarem ao castelo, aqueles mesmo que também o queimavam naquele exato momento. Virando a cabeça para cima, Pac sorri para o rei, sendo retribuído no mesmo instante pela expressão sincera de sua majestade, que parecia admirar aquele pequeno pedaço do salão, como se só eles três existissem naquele momento.
E foi naquele instante que Pac decidiu, ele faria de tudo para ser digno de Fit.
