Work Text:
A aula era eletiva, ministrada pelo Professor Lupin às quartas de manhã na Sala dos Estudos Mágicos do quinto andar, e Eduarda Fragoso tinha se inscrito porque era o tipo de pessoa que se inscrevia em tudo que tinha a ver com magia de defesa avançada. E porque Auror era a carreira que ela queria desde os onze anos, e Aurores eram, em essência, os detetives e agentes de elite do Ministério da Magia, os que investigavam crimes envolvendo magia das trevas e prendiam quem precisava ser preso, e nenhum programa de treinamento para Auror do mundo aceitava alguém que não dominasse feitiços de defesa com fluência.
O que ela não tinha previsto era o feitiço em si.
— O Patrono — disse o Professor Lupin, caminhando devagar na frente da turma com as mãos cruzadas atrás das costas — É uma das magias mais complexas que existem. Não porque a mecânica seja difícil. A mecânica é simples: foco, intenção, a palavra. — Ele fez uma pausa. — O que é difícil é o combustível. Um Patrono precisa de uma lembrança feliz. Uma lembrança real, genuína, que você consegue habitar completamente enquanto conjura. Não uma lembrança que você acha que deveria ser feliz. Uma que é.
Eduarda ficou olhando para a varinha na mão.
Ela tinha, como a maioria das pessoas, um repertório de momentos bons. A aprovação em Hogwarts. Uma tarde de verão quando tinha oito anos e a vez que tinha achado um filhote de gato debaixo de uma escada. Uma vez que seu pai tinha chegado em casa às seis da tarde em vez de às onze da noite, com pizza, e tinham comido juntos na sala.
O problema era que a maioria dessas memórias tinha uma segunda camada que as complicava. A aprovação em Hogwarts... a expressão do pai, mais aliviada do que feliz, como se ela finalmente tivesse feito algo que compensasse existir. O gato, devolvido uma semana depois porque sua mãe tinha alergia e ninguém tinha perguntado a opinião de Eduarda. A pizza e o pai às seis. O que veio depois, às três da manhã, quando ele chegou cheirando a firewhiskey e a discussão que durou até o sol nascer.
Não era que ela não tivesse memórias felizes. Era que as dela tinham sempre esse fundo, essa camada de baixo que puxava a alegria para baixo como água pesada.
— Tente — disse Lupin, passando pela fileira. — Não precisa sair perfeito na primeira vez.
Eduarda focou. Escolheu o momento do gato porque era o mais limpo, o mais sem segunda camada.
Expecto Patronum.
Da varinha saiu uma névoa prateada, disforme, que se dissipou em três segundos.
Ao lado dela, de outra turma que estava participando da aula conjunta, que era um projeto de intercâmbio entre casas que Lupin tinha proposto no início do ano, ouviu-se um som como vento. Eduarda virou.
Uma figura prateada e translúcida estava correndo em círculos lentos no espaço ao lado da mesa da garota da Corvinal. Era um lobo, grande e gracioso, com a cauda erguida como estandarte. Dissipou-se depois de alguns segundos, mas foi o suficiente para que a turma inteira olhasse.
A garota do Corvinal abaixou a varinha com a expressão levemente embaraçada de quem não esperava ter sucesso.
— Excelente, Ferette — disse Lupin, genuinamente impressionado — Um Patrono corpóreo já na primeira tentativa. Muito bem.
A garota (Ferette, então, Lorena Ferette, Eduarda tinha ouvido o nome antes nos corredores) ficou um pouco mais vermelha e olhou para a mesa.
Depois olhou para o lado. Para Eduarda.
Eduarda ainda estava olhando para ela, o que era embaraçoso, mas era tarde para fingir que não estava.
Lorena Ferette tinha olhos verdes. Tinha covinhas que apareceram num sorriso pequeno e rápido, do tipo que as pessoas fazem quando pegam alguém olhando e acham graça disso em vez de achar constrangedor.
Eduarda olhou de volta para sua varinha com a sensação de que alguma coisa tinha mudado nos últimos dez segundos, embora não soubesse ainda o quê.
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Lupin a chamou depois que os outros foram embora.
— Eduarda — disse ele, com aquele tom de professores que é gentil demais para ser só profissional — Você tá bem?
— Tô — disse ela — A névoa saiu. É progresso.
— É progresso — concordou ele — Mas eu queria conversar sobre a memória que você está usando.
Eduarda ficou quieta.
— Você não precisa me contar qual é — disse ele rapidamente. — Não é minha função. Mas eu conheço esse tipo de névoa, esse formato. — Ele escolheu as palavras com cuidado. — Às vezes a lembrança que escolhemos é uma que carrega peso demais pra sustentar um Patrono. Não porque não seja feliz, mas porque não conseguimos acessar só a parte feliz dela.
Eduarda olhou pela janela. Lá fora o lago estava cor de chumbo.
— Então como eu faço? — perguntou ela.
— Você treina — disse Lupin. — Você vai fundo, procura memórias menores, às vezes são as pequenas que têm menos peso. — Uma pausa. — Mas é mais fácil fazer isso com alguém do que sozinha. Alguém que possa te ajudar a manter o foco enquanto você procura. — Ele sorriu um pouco. — Eu já perguntei a uma aluna se ela toparia trabalhar com você algumas sessões. Ela disse que sim, se você topar também.
— Quem? — perguntou Eduarda, embora alguma coisa na região do estômago já soubesse.
Lupin inclinou a cabeça em direção à porta.
Do lado de fora, encostada na parede do corredor com o lenço azul amarrado no pulso e a caderneta de esboços abraçada ao peito, estava Lorena Ferette.
— Eu vi a névoa — disse Lorena, quando Eduarda saiu. Não era um julgamento. Era só uma observação. — Saiu bonita, sabe. Tinha um formato ali no começo que parecia uma raposa.
— Uma raposa?
— Sim — Lorena inclinou a cabeça. — É um animal bom pra ser.
Eduarda ficou olhando para ela por um segundo.
— Tudo bem — disse ela. — Vamos treinar.
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Elas começaram na quinta seguinte à tarde, na Sala dos Requisitos, que Lorena configurou para ter carpete no chão e luz boa e nada de mesas porque o Professor Lupin tinha sugerido espaço aberto.
— A ideia — disse Lorena, abrindo a caderneta numa página cheia de anotações em verde e azul — É você não procurar a memória mais óbvia. A que você acha que deveria ser a mais feliz. Você procura as pequenas.
— Você leu sobre isso?
— Li tudo que o Lupin indicou mais umas três coisas que encontrei por conta. — Lorena ergueu a caderneta brevemente. — Tenho anotações se você quiser ver. — Uma pausa. — Eu anoto tudo, é um hábito.
— Eu percebi — disse Eduarda.
Lorena ergueu a sobrancelha.
— Você percebeu.
— Na aula de segunda. Você tava anotando em código de cores.
— Você prestou atenção no meu código de cores.
— Sou observadora.
Lorena ficou olhando para ela por um segundo com uma expressão que Eduarda não conseguiu classificar imediatamente. Depois abriu a caderneta de novo.
— Certo — disse ela. — Me conta uma coisa pequena que te fez bem. Pode ser qualquer coisa. Pode ser ridícula.
Eduarda ficou quieta por um momento.
— Uma vez — disse ela devagar — Eu acordei antes do alarme e o sol tava entrando pela janela de um jeito que fazia o carpete ficar dourado. E eu fiquei deitada uns dez minutos só olhando pra isso sem precisar fazer nada.
Lorena anotou alguma coisa em azul.
— Como você se sentia?
— Em paz. — Ela pensou. — Como se o tempo tivesse parado só pra mim.
— Boa. — Lorena fechou a caderneta. — Vai nessa.
Eduarda levantou a varinha. Construiu a memória devagar, o jeito que Lorena tinha descrito: não só a imagem, mas a sensação, o peso do edredom, o calor no rosto, a ausência de pressa.
Expecto Patronum.
A névoa saiu maior dessa vez. Tinha forma, quase. Dissipou-se antes de solidificar, mas teve forma.
— Viu? — disse Lorena, com as covinhas.
Eduarda olhou para a névoa que ia sumindo e sentiu alguma coisa se afrouxar no peito, algum nó que ela não tinha percebido que estava apertado.
— Não saiu — disse ela.
— Não saiu ainda — disse Lorena. — É diferente.
Foram embora às sete da noite. No corredor, Lorena ajustou o lenço no pulso e perguntou:
— Mesma hora semana que vem?
— Mesma hora — disse Eduarda.
Foi só quando estava descendo a escada que percebeu que estava sorrindo.
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Elas descobriram que estudavam no mesmo horário às terças por acidente, quando Eduarda chegou na mesa que sempre usava e encontrou Lorena já sentada lá com três livros que não eram de matérias de Hogwarts.
— Essa é minha mesa — disse Eduarda.
— Não tem nome de ninguém aqui— disse Lorena.
Eduarda sentou do outro lado.
Elas ficaram em silêncio por quarenta minutos, que era o tipo de silêncio que precisava ser construído, que não acontece com pessoas que você não conhece bem o suficiente. Quando Lorena ergueu os olhos do livro para pegar a garrafa de suco de maçã, encontrou os olhos de Eduarda, e as duas ficaram assim por um segundo sem que nenhuma desviasse.
— Você não deveria tá estudando Aritmância? — perguntou Lorena.
— Já terminei — disse Eduarda.
— Em quarenta minutos.
— Eu sou rápida.
Lorena olhou para o livro fechado de Eduarda na mesa e de volta para ela com uma expressão que dizia claramente você não tava estudando Aritmância e que Eduarda fingia não entender.
— Posso perguntar o que você tá lendo? — disse Eduarda.
— Um livro de contos — disse Lorena. — Mágicos, mas de ficção. Lupin me indicou.
— Você lê ficção por prazer.
— E pra pesquisa. Às vezes é a mesma coisa. — Uma pausa. — Posso perguntar o que você tava de verdade fazendo nesses quarenta minutos?
— Pensando.
— Em quê?
Eduarda pensou rapidamente nas possíveis respostas honestas para essa pergunta e descartou todas elas.
— Na segunda sessão de Patrono — disse ela. — Na memória nova que você sugeriu.
Era parcialmente verdade.
Lorena assentiu, satisfeita, e voltou para o livro.
Eduarda ficou olhando para a página de Aritmância que ela tinha aberto sem ler por mais uns dez minutos antes de conseguir focar.
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Não foi planejado. Elas foram ao Hogsmeade em fins de semana diferentes, mas o destino ou algo que se parecia muito com Maggye Damatta empurrando Lorena pela porta as colocou na mesma fileira de prateleiras na tarde de um sábado gelado.
— Você gosta de rã de chocolate ou acha que é apelação? — perguntou Lorena, pegando uma embalagem.
— Depende — disse Eduarda. — A carta dentro da embalagem muda tudo.
— Como assim?
— Se vier Dumbledore ou Merlin, tá justificada. Se vier um bruxo que eu nunca ouvi falar, aí sim é apelação.
Lorena riu, o bufar pelo nariz que vinha antes do som de verdade. Pegou uma embalagem, olhou para dentro.
— Adalbert Waffling — disse ela.
— Apelação total — disse Eduarda com convicção.
Lorena colocou a embalagem de volta e pegou outra.
— Circe — leu ela. — Essa serve?
— Mitológica, então aceita.
— Você tem um sistema muito específico pra chocolate.
— Tenho sistemas específicos pra tudo.
— Eu percebi — disse Lorena, e havia algo na forma como ela disse isso, levemente aquecido, levemente sorridente — Que fez Eduarda parar por um segundo.
Lorena estava olhando para ela com aquela expressão que aparecia às vezes e que Eduarda ainda não tinha conseguido nomear direito. Não era admiração exatamente. Era algo mais quieto. Mais de perto.
— Você quer uma? — disse Lorena, erguendo a rã de chocolate.
— Eu pago a minha — disse Eduarda.
— Eu quero te dar uma — disse Lorena, simplesmente.
Eduarda ficou quieta por um segundo.
— Tudo bem — disse ela.
Lorena comprou duas, uma para cada. Elas comeram sentadas no parapeito do lado de fora do Honeydukes com o vento frio de novembro nos rostos, e Lorena fez uma voz diferente para cada bruxa ou bruxo na carta da embalagem de Eduarda que ela não conhecia, inventando histórias para eles, e Eduarda ria, a risada verdadeira que ela não dava com frequência, que saía inteira e sem controle.
Quando o vento ficou frio demais elas foram embora sem ter planejado ficar.
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— Conta uma coisa que você nunca contou pra ninguém — disse Lorena.
Era o exercício do dia: ir mais fundo nas memórias procurando as que não tinham peso, e às vezes isso envolvia falar sobre elas em voz alta antes de tentar conjurá-las.
Eduarda ficou em silêncio por um momento.
— Quando eu tinha uns sete anos — disse ela — Eu encontrei um livro de detetive numa caixa de doação numa biblioteca perto de casa. Era um livro velho, a capa tava descascando. Eu sentei no chão da biblioteca, entre as estantes, e li o livro inteiro sem sair de lá. Umas quatro horas. Ninguém foi me procurar.
Pausa.
— Quando eu terminei de ler, eu soube o que eu queria ser. Não de uma forma vaga. De uma forma de ah, é isso, é exatamente isso. — Ela olhou para as mãos. — Acho que foi a primeira vez na vida que eu soube de algo com certeza que não dependia de ninguém mais aprovar.
Lorena não tinha anotado nada. Estava ouvindo com aquela atenção toda dela, a atenção de quem não está esperando a vez de falar.
— Isso é lindo — disse ela, em voz baixa.
— É uma menina de sete anos sozinha no chão de uma biblioteca — disse Eduarda.
— É uma menina de sete anos descobrindo quem ela é — disse Lorena. — Não é a mesma coisa.
Eduarda ficou olhando para ela.
— Sua vez — disse Eduarda.
— Não é a minha sessão.
— Eu sei. Mas você fica perguntando das minhas memórias e eu nunca pergunto das suas.
Lorena abriu a boca. Fechou.
— Quando eu tinha uns doze anos — disse ela, depois de um momento — Eu decifrei um texto em Fúthárk Ancião sozinha. Um fragmento que eu tinha achado num livro velho de Runas, sem tradução, sem dicionário, só com a lógica do que eu já sabia. Levei o verão inteiro. — Ela sorriu para os próprios joelhos. — Quando terminei eu não mostrei pra ninguém. Só fiquei olhando pra tradução que eu tinha feito, na minha letra, num caderno ordinário, e foi o suficiente.
— E é isso que você quer fazer a vida toda? — perguntou Eduarda.
— Às vezes sim. Às vezes quero ensinar. — Lorena inclinou a cabeça. — A pesquisa é solitária. Você fica meses dentro de um texto que só você tá lendo. Tem dias que parece que você tá desenterrando o passado enquanto o presente passa. — Uma pausa. — E ensinar é o contrário. Você planta alguma coisa em outra pessoa e ela leva embora com ela.
— Os dois fazem sentido pra você.
— Eu sei. É isso que complica.
— Você fez isso sozinha porque queria — disse Eduarda. — Com doze anos, sem ajuda, no verão inteiro. — Uma pausa. — Isso já é suficiente pra fazer sentido.
Lorena ergueu os olhos. A expressão dela era de alguém que ouviu algo que não estava esperando ouvir.
— Você nem leu o que eu pesquiso — disse ela.
— Não preciso — disse Eduarda. — Já vi como você fala sobre isso.
Lorena ficou quieta por um segundo comprido.
— Levanta a varinha — disse ela, com as covinhas.
Eduarda levantou a varinha.
Expecto Patronum.
A névoa saiu, tomou forma, correu pelo espaço da sala: uma raposa, a cauda em chama prateada, os movimentos rápidos e elétricos , e desapareceu depois de seis segundos completos.
Era a primeira vez que a forma durava tempo suficiente para ter nome.
Lorena soltou um som que era metade surpresa, metade outra coisa.
— Raposa — disse ela.
— Raposa — confirmou Eduarda, olhando para onde a figura tinha desaparecido.
— Eu sabia que era raposa.
— Você sabia.
Lorena estava sorrindo com os dentes, o sorriso das covinhas profundas, e Eduarda estava olhando para esse sorriso e tentando manter o raciocínio em linha reta, o que estava se tornando progressivamente mais difícil conforme as sessões avançavam.
Ela não tinha chegado a nenhuma conclusão ainda. Estava prestes a.
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O Torneio Tribruxo foi anunciado em outubro com o Cálice de Fogo instalado no Salão Principal, e Eduarda não colocou o nome no Cálice porque queria chegar viva ao programa de treinamento para Auror, obrigada. De que adiantava ser a melhor candidata do ano se chegasse em pedaços?
Mesmo assim, na noite da seleção, o Cálice cuspiu um pedaço de pergaminho com o nome dela numa chama azul-ouro que iluminou o Salão inteiro por três segundos.
O silêncio que veio depois durou outros três.
Uma campeã Lufa-Lufa, ela ouviu de pelo menos cinco direções diferentes, com todas as variações possíveis de surpresa e condescendência que essa frase podia carregar.
Ela estava olhando para o pergaminho nas mãos de Dumbledore quando sentiu um olhar. Levantou os olhos sem querer.
Na mesa do Corvinal, Lorena Ferette estava olhando para ela. Não com a condescendência que ela estava ouvindo ao redor, não com o espanto de quem acha que houve um erro. Com algo mais quieto. Uma espécie de eu sabia que você ia aparecer em algum lugar como esse.
Lorena levantou a mão. Wuase não um gesto, só os dedos, e havia naquele movimento toda a calma que Eduarda estava precisando e não tinha.
Eduarda levantou a mão de volta.
Depois seguiu o Professor Dumbledore para a Câmara do Fundo e quase caiu na escada porque não estava olhando para onde pisava.
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Paulinho Heitz ficou com ela até meia-noite fazendo listas de táticas que eram mais carinho do que estratégia. Maggye apareceu às dez sem avisar com uma caixa de doces e a expressão de quem claramente não estava preocupada. Lorena chegou junto de Maggye, sentou na beira da cama de Eduarda na sala comunal e ficou quieta enquanto Paulinho e Maggye discutiam os méritos das diferentes abordagens para dragões hipotéticos.
Quando os dois foram buscar mais chocolate quente nas cozinhas, Lorena disse, em voz baixa:
— Você vai passar por tudo isso.
— Você não sabe disso — disse Eduarda.
— Não. — Uma pausa. — Mas eu acho que sim. E minha intuição tem um histórico razoável.
Era o tipo de coisa que deveria soar como palavra vaga, como reconforto sem substância. Na voz de Lorena, dita com aquela calma toda, soou como fato estabelecido.
Eduarda comeu três balas e foi dormir às onze. Dormiu melhor do que tinha dormido em semanas.
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O Dragão Húngaro de Espinhos era grande, estava com fome e claramente não tinha recebido o memorando sobre Eduarda querer chegar viva ao programa de treinamento para Auror.
Eduarda o enfrentou com dois encantamentos de atordoamento, um feitiço de distração que ela inventou no momento com base em três princípios de Aritmância que normalmente não eram usados em conjunto, e o que ela descreveria depois como "decisões tomadas antes que meu cérebro tivesse tempo de vetar."
O ovo de ouro ficou na mão dela. O dragão ficou atordoado numa ponta do campo. Ela ficou de pé, encharcada de suor e com uma queimadura menor no antebraço esquerdo que Madame Pomfrey ia tratar em dez minutos.
Nas arquibancadas, Paulinho tinha entrado em colapso e depois afirmado com convicção que não tinha. Maggye tinha registrado tudo com um encantamento de memória, a expressão mais próxima de alarme que ela normalmente mostrava. Lorena, Eduarda ficou sabendo depois, tinha assistido com as mãos cobrindo a boca e os olhos abertos demais durante a maior parte da tarefa, e tinha ficado de pé quando Eduarda saiu do campo, e tinha ficado de pé até ela desaparecer na saída.
Ela ficou sabendo porque Paulinho tinha visto, e Paulinho tinha contado, e Paulinho não conseguia segurar esse tipo de informação por mais de quarenta e oito horas.
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O ovo de ouro emitia, quando aberto, um som agudo e metálico que fazia objetos vibrarem e pessoas se afastarem às pressas.
A mensagem chegou três dias depois, dobrada, pela fresta da porta da sala comunal:
Tenho uma teoria sobre o ovo. Biblioteca, hoje, 18h? — L.F.
Na biblioteca, Lorena abriu três livros em sequência citando de memória enquanto Eduarda tentava acompanhar.
— Os Merseres usam frequências que o ar distorce — disse ela, com o dedo apontando para um diagrama de ondas sonoras numa página de Criaturas Aquáticas Mágicas do Século XIV— A mensagem do ovo só faz sentido debaixo d'água. Eu tenho quase certeza que a segunda tarefa é no lago.
— Ótimo — disse Eduarda. — Eu adoro lago.
— Você nada?
— Razoavelmente.
— Então precisamos testar a teoria antes de ter certeza. — Lorena fechou o livro. — O Cedrico me contou que o banheiro dos monitores tem uma banheira grande o suficiente. A senha é pinheiro com pinha.
Eduarda ficou quieta por um segundo.
— Você quer que a gente vá ao banheiro dos monitores — disse ela.
— Pra mergulhar o ovo e ouvir a mensagem — disse Lorena, com a paciência de quem explica uma equação simples. — É o lugar mais discreto. E você precisa confirmar antes de começar a treinar pra algo que pode não ser o lago.
Era uma lógica completamente razoável.
Elas foram às dez da noite, quando os corredores estavam vazios e as tapeçarias paravam de se mover. O banheiro dos monitores cheirava a vapor e a sabonete de lavanda, e a banheira no centro era de mármore branco e tão grande que cabia uma pessoa de um lado e outra do outro com espaço sobrando. As torneiras ao redor tinham formas de peixe dourado, e quando Lorena abriu uma delas saiu espuma cor de lilás que subia lentamente até o teto.
— A magia aqui é completamente desnecessária — disse Eduarda.
— Completamente — concordou Lorena, abrindo outra torneira só para ver o que saía. Saiu espuma azul com cheiro de eucalipto. — Encantadora, mas desnecessária.
A banheira encheu em três minutos. Lorena sentou na borda, tirou os sapatos com aquela praticidade dela de quem não pensa duas vezes, e enrolou as calças até o joelho antes de colocar os pés dentro. A água estava quente. A espuma era densa o suficiente para não deixar ver o fundo.
Eduarda ficou parada por um segundo com o ovo de ouro na mão.
— Vai — disse Lorena. — Eu seguro se precisar.
Eduarda sentou do outro lado da borda, tirou os sapatos, enrolou as calças. A água era a temperatura exata de algo que você não queria sair. Ela segurou o ovo abaixo da superfície com os dois braços dentro da banheira e depois mergulhou o rosto.
O banheiro desapareceu. Embaixo da água havia silêncio completo por um segundo, e depois o ovo abriu, e a voz dos Merseres veio limpa e clara como se tivesse sido feita para aquele momento:
Procure aquilo que vai sentir falta, no fundo do lago onde nós cantamos, tem uma hora antes do amanhecer pra encontrar o que o tempo apagou.
Ela saiu da água ofegando, com o cabelo na frente do rosto e o ovo fechado de novo na mão.
Lorena estava se inclinando sobre a borda para ouvir também, o rosto perto da superfície, os olhos fechados na concentração. Quando a voz parou ela ergueu a cabeça. Tinha espuma de lavanda no queixo.
— O lago — disse Lorena.
— O lago — confirmou Eduarda.
Lorena enxugou o queixo com o dorso da mão. Eduarda estava deixando o ovo pousar na borda da banheira, o cabelo encharcado pingando na água abaixo dela, e quando ela ergueu os olhos Lorena estava olhando para ela com aquela expressão. Aquela expressão que aparecia às vezes e que Eduarda ainda não tinha conseguido nomear. A distância entre elas era a largura da banheira e ao mesmo tempo parecia muito menos.
— Você ouviu a mensagem completa? — perguntou Lorena, em voz baixa. O banheiro fazia eco e ela tinha falado baixo como se não quisesse quebrar alguma coisa.
— Ouvi tudo — disse Eduarda, igualmente baixo, sem saber direito por quê.
— Aquilo que vai sentir falta — repetiu Lorena, pensativa. — É o que vão pegar. A coisa mais importante pra você.
— Sim.
Lorena olhou para a água por um momento. Depois olhou de volta.
— Boa — disse ela, simplesmente.
Eduarda não soube depois quanto tempo ficaram assim, sentadas nas bordas opostas da banheira com os pés na água quente e a espuma azul-lilás chegando perto dos joelhos. Lorena começou a teorizar sobre encantamentos de respiração subaquática, abrindo a caderneta que tinha trazido na mochila e apoiando no joelho dobrado pra anotar em azul, e Eduarda ficava respondendo e fazendo perguntas e olhando para as anotações e às vezes para o rosto de Lorena quando ela não estava olhando, que era com uma frequência que Eduarda preferia não quantificar.
O banheiro era quente. A espuma cheirava a lavanda e eucalipto. Lá fora era noite de Hogwarts com neve nas janelas e corredores vazios, e aqui dentro havia só as duas e a voz dos Merseres ainda ecoando algures na memória de Eduarda, aquilo que vai sentir falta, e ela não estava chegando ainda à conclusão que chegaria semanas depois mas havia algo se instalando no peito dela com a solidez discreta de uma verdade que está esperando ser reconhecida.
— Tenho que treinar respiração subaquática — disse Eduarda, por fim.
— Tenho um feitiço adaptado de Runas Antigas que pode funcionar — disse Lorena, virando a página. — Precisamos testar antes da tarefa.
— Onde?
Lorena ergueu os olhos da caderneta. Olhou ao redor do banheiro. Olhou de volta para Eduarda com as covinhas aparecendo.
— Aqui parece um bom lugar — disse ela.
Elas voltaram ao banheiro dos monitores três vezes nas duas semanas seguintes, de noite, com a senha de pinheiro com pinha e a caderneta de Lorena e o ovo de ouro e os feitiços nórdicos sendo testados com a metodologia rigorosa de duas das melhores alunas de Hogwarts que estavam, as duas, completamente certas de que aquilo era puramente científico e não havia mais nada acontecendo ali.
Paulinho, quando Eduarda contou a versão abreviada, ficou quieto por seis segundos inteiros.
— O banheiro dos monitores — disse ele.
— Pra testar os feitiços — disse Eduarda.
— Três vezes.
— Por rigor metodológico.
Paulinho ajustou os óculos com a expressão de quem está sendo muito paciente.
— Tudo bem — disse ele. — Rigor metodológico.
Do outro lado do castelo, Maggye estava ouvindo a versão de Lorena com expressão similar.
— Ela ficou olhando pra você — disse Maggye.
— A gente tava discutindo os feitiços — disse Lorena.
— Com espuma de lavanda no queixo.
— É um banheiro, Meg.
— Três vezes.
Lorena abriu a boca. Fechou.
— Por rigor metodológico — disse ela, com menos convicção do que tinha planejado.
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Foi uma Grifinória.
Eduarda não sabia o nome dela, o que dizia tudo sobre o quanto ela estava prestando atenção ao próprio derredor. Ela apareceu no corredor do terceiro andar numa terça à tarde, alguns dias depois da terceira visita ao banheiro dos monitores, quando Eduarda e Lorena estavam voltando da biblioteca. Alta e com aquele tipo de sorriso que sugeria que ela praticava no espelho, foi direto.
— Oi — disse ela para Eduarda — Você é a concorrente da Lufa-Lufa, né? Vi você na primeira tarefa. Foi impressionante.
— Obrigada — disse Eduarda, que aceitava elogios sinceros com tranquilidade.
— Eu sou a Taylor. Sétimo ano — Ela se inclinou levemente para a frente, como se Lorena não estivesse ali do outro lado de Eduarda — Você vai ao Hogsmeade no próximo fim de semana?
— Provavelmente — disse Eduarda.
— Ia ser legal se a gente fosse juntas.
Eduarda abriu a boca para responder qualquer coisa, ainda não tinha decidido o quê, quando percebeu que Lorena, que estava ao lado dela havia três minutos sem dizer uma palavra, tinha ficado completamente quieta do tipo errado. Não o silêncio de quem está esperando. O silêncio de quem está segurando alguma coisa com as duas mãos.
Eduarda olhou para ela de soslaio.
Lorena estava olhando para a Taylor com uma expressão absolutamente neutra, o tipo de neutro que exige esforço, os olhos ligeiramente mais estreitos que o normal e a caderneta apertada contra o peito com uma força que estava amassando a capa.
— Eu já tenho planos — disse Eduarda, voltando para a Taylor — Mas obrigada.
Ela foi embora com uma graça razoável. Eduarda esperou três passos antes de olhar de novo para Lorena.
Lorena estava soltando o ar pelo nariz devagar, a caderneta relaxando um pouco.
— Tudo bem? — perguntou Eduarda.
— Tudo — disse Lorena. A voz estava completamente normal — Vamos?
Elas continuaram pelo corredor. Eduarda ficou olhando para a frente mas podia sentir Lorena ao lado, o ombro quase encostando no dela, e havia alguma coisa naquele silêncio que ela catalogou e guardou sem saber ainda o que fazer com ele.
Depois, sozinha no quarto do Corvinal, Lorena ficou de frente para a janela por um tempo desnecessariamente longo.
Ela não podia falar nada. Não havia nada para falar. Elas eram amigas. Colegas de sessão. Pessoas que estudavam na mesma mesa e dividiam a borda de uma banheira de mármore com espuma de lavanda às dez da noite, o que era completamente normal e não significava nada que ela pudesse nomear em voz alta.
Não havia nada para falar.
Ela amassou a capa da caderneta um pouco mais e foi jantar.
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Era uma sexta de fevereiro fria o suficiente para a torcida nas arquibancadas usar quatro camadas de roupa.
Eduarda mergulhou às nove e quarenta e seis.
A poção de respiração subaquática tinha gosto de algas. O encantamento de aquecimento funcionava. O lago debaixo d'água era outro mundo: luz verde, cortinas de plantas aquáticas, sombras de criaturas que ela preferia não catalogar. Ela tinha memorizado as rotas com Lorena, tinha marcado os pontos de referência, sabia para onde ir.
Havia quatro figuras em transe encantado presas no fundo da aldeia dos Merseres. Ela reconheceu Paulinho antes de chegar perto, cabelo e óculos inconfundíveis mesmo flutuando em estado de suspensão.
E depois viu Lorena.
Parou.
Lorena estava flutuando com os olhos fechados e o cabelo se abrindo em volta da cabeça como uma auréola escura, o rosto completamente sereno, o lenço azul solto no pulso oscilando na corrente lenta. Parecia uma versão de Lorena que ninguém via nunca, que não existia em sala de aula ou na biblioteca ou na Sala dos Requisitos, uma Lorena sem a energia constante de quem está sempre pensando em três coisas ao mesmo tempo.
Os Merseres observavam de longe com olhos grandes e expressão impenetrável.
Eduarda ficou parada por um segundo que durou muito mais que um segundo. Algo batia no peito dela forte e constante, algo que não era medo do lago nem ansiedade do torneio. Era outra coisa. Era uma coisa que ela tinha estado evitando nomear.
Cortou a corda com um feitiço preciso e subiu.
Lorena acordou na beira do lago enrolada num cobertor que Eduarda tinha tirado dos próprios ombros sem perceber direito que estava fazendo isso.
A primeira coisa que fez foi olhar para Eduarda.
Eduarda estava sentada na grama úmida ao lado dela, encharcada, o cabelo ruivo escorrendo e fazendo poças, os olhos muito abertos.
— Você tá bem? — perguntou Eduarda.
— Tô — disse Lorena. A voz estava rouca. — Você me achou.
— Eram você e o Paulinho.
— Mas você veio primeiro.
Silêncio.
— Os campeões recuperam só o que é deles — disse Lorena, que tinha lido o regulamento do Torneio três vezes por semana desde outubro. — A pessoa que é a coisa que o campeão mais ia sentir falta.
Eduarda olhou para o lago.
— Pode ser — disse ela, com muito cuidado — que o encantamento escolha por critérios que eu não entendo completamente. Pode ser que...
— Duda.
— ...pode ser que os critérios incluam outras variáveis, tipo a frequência com que eu passo tempo com alguém ou a...
— Eduarda.
Ela parou.
Lorena estava olhando para ela com os olhos verdes, a cor de folha molhada, e a expressão mais quieta e mais direta que ela tinha visto em seis meses de conhecer essa pessoa.
— Eu sei — disse Lorena.
— O que você sabe?
— O que você tá evitando dizer. — Uma pausa. — Eu também.
Estava frio. A torcida nas arquibancadas estava começando a se dispersar. Em algum ponto atrás delas, Paulinho estava sendo acordado do transe por Maggye, e havia o som abafado de Maggye explicando com eficiência o que tinha acontecido enquanto Paulinho perguntava se estava com os óculos.
Lorena estendeu a mão e tirou um fio de alga do cabelo de Eduarda. Era um gesto pequeno e completamente desnecessário para o fio de alga em questão.
Ela deixou o vento levar.
Depois olhou de volta para Eduarda com as covinhas que eram a resposta a uma pergunta que ninguém tinha feito em voz alta ainda.
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Elas não se apressaram.
Não havia pressa, havia a terceira tarefa no horizonte e havia Hogwarts no inverno com neve nos telhados e havia a biblioteca toda terça e a Sala dos Requisitos toda quinta e havia as conversas que iam de magia de defesa para Runas Antigas para teorias de detetive para as histórias que Lorena estava escrevendo e que ela tinha começado a ler para Eduarda antes de qualquer outra pessoa.
Não havia um nome para o que estavam fazendo. Havia só o acúmulo de coisas.
A tarde em que ficaram na biblioteca até Madame Pince apagar as luzes e ainda ficaram no corredor por meia hora porque a conversa não tinha acabado. A vez que Lorena chegou na sessão de Patrono com dor de cabeça e Eduarda foi buscar chá nas cozinhas sem perguntar e voltou com o tipo certo sem ter perguntado sobre preferências porque simplesmente sabia. O dia que choveu em Hogsmeade e elas ficaram debaixo de um beirado por quarenta minutos esperando a chuva passar, os ombros encostados, e nenhuma das duas foi embora quando a chuva diminuiu o suficiente para que pudessem ter ido.
Havia o jeito que Lorena falava das coisas de que gostava: com as mãos, com os olhos mais abertos, como se a intensidade do interesse precisasse de espaço extra para existir.
Havia o jeito que Lorena a ouvia.
E havia a sessão de Patrono de março, quando a terceira tarefa estava chegando e Lupin tinha pedido que elas tentassem com o estresse real de um campeão de torneio para calibrar a força do feitiço, e o labirinto mágico que ele tinha montado na Sala dos Requisitos tinha se fechado ao redor de Eduarda numa versão comprimida do que estava por vir.
Estava escuro. Havia barulhos. Havia a sensação física de paredes fechando.
Lupin tinha dito: use a memória mais forte que você tiver. A que tiver menos resistência. Vai instintivamente.
Eduarda levantou a varinha.
Ela não escolheu uma memória. Ela simplesmente abriu.
E a primeira coisa que veio não foi o carpete dourado da manhã. Não foi a menina de sete anos no chão da biblioteca. Não foi nenhuma das memórias pequenas e limpas que elas tinham catalogado juntas.
Foi uma tarde específica de novembro.
Estava fria. Elas estavam no parapeito do Honeydukes com as rãs de chocolate e o vento nos rostos, e Lorena estava fazendo vozes para os bruxos das cartas que ela não conhecia, inventando histórias absurdas e cada vez mais elaboradas, e Eduarda tinha soltado uma risada que não controlou, inteira e aberta, e Lorena tinha olhado para ela com aquela expressão. Aquela expressão!!! Como se a risada de Eduarda fosse uma coisa que ela guardava para depois.
Expecto Patronum.
A raposa saiu com a cauda em fogo prateado e correu três voltas completas ao redor da sala antes de dissipar.
O labirinto se abriu.
Eduarda ficou parada no meio da Sala dos Requisitos com a varinha baixando devagar, e alguma coisa dentro dela clicou no lugar com o barulho de uma fechadura abrindo.
Ah, pensou ela.
Ah.
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O problema com ah é que, uma vez que o ah acontece, não tem como desacontecer.
Eduarda não era idiota. Ela sabia o que estava sentindo com a clareza que sempre tinha sobre coisas que ela nomeava corretamente. O problema não era nomear. O problema era o que vinha depois do nome.
Lorena era a melhor aluna do Corvinal. Lorena era inteligente e engraçada e estranha nos melhores sentidos e escrevia contos sobre garotas que encontravam o que procuravam e ainda não sabia se queria passar a vida desenterrando textos ancestrais ou plantando conhecimento em outras pessoas e estava completamente bem com não saber. Lorena ouvia as pessoas de um jeito que fazia você sentir que o que você dizia era exatamente a coisa que ela queria ouvir.
Lorena era, em resumo, alguém sobre quem seria muito fácil construir algo importante, e coisas importantes que desmoronavam desmoronavam de formas que Eduarda conhecia bem e não queria repetir.
Então ela fez a coisa razoável, a coisa cuidadosa.
Ela se afastou um pouco.
Não dramaticamente. Ela não cancelou sessões nem deixou de responder mensagens. Apenas adicionou distância onde não havia antes. Chegava um pouco mais tarde. Saía um pouco mais cedo. Não ficava no corredor depois que a conversa tecnicamente terminava. Parou de procurar a mesa do canto da biblioteca quando chegava na terça.
Ela estava sendo prudente. Estava gerenciando uma variável.
Paulinho ficou olhando para ela por três dias antes de perguntar.
— O que aconteceu com a Lorena?
— Nada — disse Eduarda. — Por quê?
— Porque você ficou vinte minutos perto da estante de Astronomia Avançada ontem sem pegar nenhum livro.
Pausa.
— Tô processando uma coisa — disse Eduarda.
— Que coisa?
— Uma coisa.
Paulinho ficou quieto por um momento compassivo.
— Você percebeu que tá apaixonada por ela — disse ele.
— Eu não disse isso.
— Você tá na frente da estante de Astronomia de novo, Duda.
Eduarda olhou. Estava de fato na frente da estante de Astronomia outra vez. Ela tinha ido pegar um livro de Aritmância.
— Eu preciso de tempo pra pensar — disse ela.
— Tudo bem — disse Paulinho. — Quanto tempo?
— Não sei.
— Semanas? Meses? A formatura acontece em junho.
— Paulinho.
— Tô só gerenciando expectativas.
Ele foi embora com tato. Eduarda ficou parada na frente da Astronomia por mais uns seis minutos antes de ir embora também.
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Lorena percebeu no segundo dia.
Era difícil não perceber quando você passava meses desenvolvendo a habilidade de ler uma pessoa específica e de repente essa pessoa adicionava quinze centímetros de distância a tudo que fazia.
Ela ficou em silêncio sobre isso por cinco dias, que era mais do que Maggye conseguia esperar.
— Ela tá com medo — disse Maggye, na tarde de quinta na sala delas no Corvinal, quando Lorena finalmente falou.
— Eu sei — disse Lorena.
— Mas você também tá.
— Eu sei.
— Então alguém tem que fazer alguma coisa.
Lorena ficou olhando para a caderneta na mesa. Tinha uma história nova começada, uma sobre uma raposa que fugia de florestas que ela mesma tinha escolhido, que estava parada na página dois porque Lorena não sabia ainda o final.
— Eu não quero forçar nada — disse ela.
— Não tem nada a forçar — disse Maggye, com a paciência direta que ela reservava para quando Lorena estava complicando o que era simples. — Você já sabe o que você quer dizer. Ela já sabe o que você quer dizer. O único problema é o espaço entre saber e dizer.
— Espaços podem ser importantes.
— Espaços também podem ser um desperdício de tempo. — Maggye se levantou. — Conversa com ela.
— E se ela não quiser ouvir?
— Ela vai querer ouvir. — Pausa. — E se eu tiver errada, o que não vou estar, você vai sobreviver e eu vou estar aqui.
Lorena ficou olhando para a história parada na página dois por um tempo depois que Maggye foi embora.
Depois fechou a caderneta e foi procurar Eduarda.
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Ela achou Eduarda na Sala dos Requisitos.
Não era dia de sessão. Mas a porta estava lá, o que significava que o quarto tinha acendido para alguém que precisava de alguma coisa, e quando Lorena colocou a mão na maçaneta ela sabia que sabia quem era.
Eduarda estava no meio da sala com a varinha abaixada, a raposa prateada dissipando no ar ao redor dela como fumaça com forma.
Ela virou quando ouviu a porta. Ficou parada.
— Lorena.
— Eu precisava te falar — disse Lorena.
Ela havia planejado o que ia dizer durante o caminho. Tinha frases ordenadas, argumentos razoáveis, uma progressão lógica que terminava num ponto que ela queria alcançar sem pressão, sem drama.
Nenhuma delas veio.
O que veio foi:
— Você sumiu.
Eduarda ficou quieta.
— Eu não sumí — disse ela. — Eu tô aqui.
— Você tá aqui mas você foi embora — disse Lorena. Não era uma acusação. Era só uma observação precisa, do jeito que Lorena fazia observações. — E eu passei a última semana tentando entender o que mudou e chegando à mesma conclusão toda vez.
— Que conclusão?
Lorena andou os três passos que eram a distância entre a porta e o centro da sala.
— Que você percebeu alguma coisa — disse ela — e ficou com medo. E eu entendo ter medo. Eu também tenho. — Uma pausa pequena. — Mas eu prefiro ter medo e dizer do que não dizer.
Eduarda estava olhando para ela com aqueles olhos abertos, a expressão de alguém que está ouvindo algo que estava esperando e que mesmo assim chega como surpresa.
— Lorena...
— Eu gosto de você — disse Lorena, direto, sem ornamento. — Não do jeito de colega ou de parceira de sessão de feitiço. Do jeito que faz uma tarde no Honeydukes virar uma coisa que você fica pensando por semanas. Do jeito que quando você ri eu quero guardar o som. — Ela respirou. — Eu precisava dizer isso porque o contrário era ficar quieta e eu não consigo ficar quieta sobre coisas que são verdadeiras.
O silêncio que veio depois durou cinco segundos inteiros.
A raposa prateada tinha sumido completamente. A sala estava quieta. A luz era aquela luz baixa e dourada que ficava melhor para leitura, que era como Lorena descrevia sempre, e Lorena estava no meio dessa luz com as covinhas que ainda não eram covinhas, ainda eram só a linha de uma boca esperando.
— A memória — disse Eduarda.
— O quê?
— Quando o labirinto fechou, na sessão, eu precisei da memória mais forte. — Sua voz estava calma, do jeito que ficava quando ela estava sendo muito cuidadosa com as palavras. — Eu não escolhi. Ela veio sozinha. E era aquela tarde no Honeydukes.
Lorena ficou muito quieta.
— Era você fazendo voz pra um bruxo que você nunca ouviu falar — disse Eduarda. — Era eu rindo daquilo. Era a tarde inteira. — Uma pausa. — E daí eu entendi o que estava acontecendo e fiquei com medo porque quando eu me importo com as coisas e elas desaparecem é muito ruim e eu não sabia...
— Eu não vou a lugar nenhum — disse Lorena.
— Você não pode saber isso.
— Não posso saber tudo — disse Lorena. — Mas posso saber o que eu quero. E o que eu quero é ficar.
Eduarda ficou olhando para ela. A expressão que estava no rosto de Lorena era a mesma que estava nela na beira do lago, depois da segunda tarefa, quando ela perguntou você foi me buscar. Não era só a resposta para uma pergunta. Era a pergunta e a resposta ao mesmo tempo.
Eduarda andou os três passos que eram a distância entre ela e Lorena.
Depois ficou parada a uma distância que era próxima o suficiente para ser uma pergunta e longe o suficiente para ser uma escolha.
— Eu também gosto de você — disse ela. — Do jeito que faz uma sessão de feitiço virar a parte favorita da semana. Do jeito que quando você explica uma coisa com as mãos eu perco o fio do argumento que tô tentando acompanhar. — Uma pausa. — Do jeito que a primeira memória feliz que me veio foi de uma tarde com você.
Lorena sorriu, e as covinhas foram fundas, e ela disse:
— Então tá resolvido.
— Tá resolvido — disse Eduarda.
Nenhuma das duas se mexeu por um segundo.
Depois Lorena deixou a caderneta cair no chão. O que era, de todas as coisas, a mais reveladora, porque Lorena nunca largava a caderneta no chão. Então ela deu o passo que faltava e beijou Eduarda.
Não foi um beijo tímido. Não foi o tipo de beijo de primeiro momento que é mais pergunta do que afirmação. Foi um beijo de alguém que tinha esperado tempo demais e que havia decidido, de uma vez por todas, parar de esperar, com a mão no rosto de Eduarda e os dedos no cabelo ruivo e uma intensidade que Eduarda não tinha previsto nem remotamente e que a fez dar um passo para trás antes de firmar os pés e ficar.
Quando finalmente se separaram, as duas estavam levemente sem ar.
Eduarda ficou olhando para Lorena por um segundo com a expressão de alguém que acabou de receber uma informação que reorganiza outras informações.
— Você — disse ela, ainda processando — não faz o tipo que perde o controle.
Lorena estava com as bochechas rosadas e os olhos brilhando e as covinhas aparecendo devagar.
— Não faço — concordou ela.
— Mas você acabou de—
— Eu sei.
— A caderneta tá no chão.
— Eu sei.
Eduarda olhou para a caderneta no chão. Olhou de volta para Lorena.
— Por quê? — perguntou ela, genuinamente curiosa da forma direta que era muito dela.
Lorena ficou quieta por um segundo. Depois disse, simplesmente:
— É que tô esperando por isso há muito tempo.
Eduarda ficou olhando para ela. A sala estava quieta e quente ao redor das duas com aquela luz baixa e dourada, e havia uma caderneta no chão e duas garotas no meio da Sala dos Requisitos com o espaço entre elas já não sendo mais espaço nenhum.
— Tudo bem — disse Eduarda, em voz baixa.
E foi ao encontro dela de novo.
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A notícia chegou a Paulinho por mensagem numa tira de pergaminho que dizia apenas resolvido :) numa caligrafia que ele reconheceu imediatamente.
Ele ficou olhando para o rosto de Maggye por sobre as cabeças de duzentas pessoas no Salão Principal no jantar.
Maggye levantou a sobrancelha.
Ele fez um gesto que era claramente deu certo.
Maggye fez um gesto de volta que era claramente eu sabia.
Eles os dois viraram para suas próprias bandejas com a satisfação serena de pessoas que tinham contribuído para algo bom de formas que nunca seriam reconhecidas e com as quais eram completamente ótimas.
Embaixo da mesa, Paulinho dobrou o pergaminho e guardou no bolso.
Às vezes a magia mais difícil não tinha fórmula.
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Não houve um momento exato em que passaram de tá resolvido para o resto. Foi mais um acúmulo, igual ao que tinha sido antes, só que agora com nome.
Houve a primeira vez que Eduarda esperou Lorena na saída do Corvinal, encostada na parede com os braços cruzados e a expressão de quem não está esperando ninguém, e Lorena apareceu e parou e ficou olhando para ela com as covinhas.
— O quê? — disse Eduarda.
— Nada — disse Lorena. — Vamos.
Ela passou a mão pela mão de Eduarda enquanto andava e Eduarda deixou, e elas desceram o corredor assim, sem comentário, como se já fosse estabelecido que era assim que as coisas funcionavam. No fim do corredor, onde a escadaria virava e sumia de vista, Lorena parou, se virou, e beijou Eduarda rapidinho no canto da boca com a naturalidade de quem já fez isso mil vezes.
— Tô atrasada pra Runas — disse ela, e foi descendo a escada.
Eduarda ficou parada no topo da escadaria por um tempo que ela preferia não quantificar.
Houve a vez que Lorena estava no meio de uma explicação sobre um texto em Élder Fúthárk do século XII, gesticulando com a varinha de um jeito levemente perigoso para os objetos ao redor, e Eduarda foi pesquisar um artigo de um acadêmico de Runas que tinha mencionado o mesmo período histórico, só porque Lorena tinha falado de passagem que existia e não tinha conseguido encontrar, e apareceu na sessão de quinta com o artigo copiado à mão porque a cópia por feitiço teria violado as regras da biblioteca.
Lorena ficou olhando para as três páginas de caligrafia de Eduarda por um momento.
— Você copiou à mão — disse ela.
— A cópia por feitiço viola as regras.
— Você copiou à mão — repetiu Lorena, com uma voz ligeiramente diferente.
— São só três páginas — disse Eduarda, que estava olhando para outro lado.
Lorena guardou o artigo na caderneta com um cuidado completamente desproporcional para três páginas de papel. Depois pegou o rosto de Eduarda com as duas mãos e a beijou com uma ternura tão deliberada que Eduarda esqueceu por um momento o que eram Runas Antigas.
— Obrigada — disse Lorena, no espaço pequeno entre elas.
— São só três páginas — disse Eduarda de novo, com muito menos convicção.
Havia também a questão do cachecol.
Lorena tinha aparecido na arquibancada da terceira tarefa com o cachecol amarelo e preto da Lufa-Lufa enrolado no pescoço, e quando Maggye olhou para ele e depois para ela, Lorena disse apenas:
— Tá frio.
— Você tem quatro cachecóis do Corvinal — disse Maggye.
— Esse é mais quente.
Maggye não disse mais nada, mas o canto da boca dela fez uma coisa.
E havia a biblioteca toda terça, que continuava sendo a biblioteca toda terça mas era diferente agora, tinha esse elemento novo de Lorena levantando os olhos do livro às vezes e encontrando Eduarda já olhando, e nenhuma das duas desviava mais, e às vezes Lorena esticava o pé por baixo da mesa e encostava no de Eduarda sem comentário, e Eduarda encostava de volta, e Madame Pince passava pela fileira com a expressão de quem tinha decidido que essa batalha específica não valia a pena.
Certa tarde Lorena estava lendo em voz baixa um trecho de um conto que estava escrevendo, testando o ritmo das frases, e Eduarda estava com o queixo apoiado na mão ouvindo com aquela atenção toda, e quando Lorena terminou e ergueu os olhos Eduarda disse:
— Esse é o melhor que você já escreveu.
— Você fala isso de todos.
— Falo porque é verdade de todos. Esse é o melhor até agora.
Lorena ficou olhando para ela. Depois se inclinou por sobre a mesa e beijou Eduarda no nariz, que era o único lugar que alcançava naquele ângulo, o que fez Eduarda piscar e ficar com o rosto cor de cenoura, aquela cor diferente do cabelo.
— Cala a boca — disse Lorena, voltando para o conto com as covinhas.
— Eu não disse nada — disse Eduarda.
— Você tava prestes a dizer alguma coisa muito fofa e eu não tô em condições.
Eduarda fechou a boca. Ficou sorrindo para a página de Aritmância que não estava lendo.
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O labirinto cresceu do gramado do campo de Quadribol numa noite de maio, as sebes altas e densas e imóveis como paredes de pedra, e Eduarda entrou nele com a varinha firme e Lorena na arquibancada com o cachecol amarelo e preto e os olhos abertos demais, igual à primeira tarefa, igual ao lago, igual a todas as vezes que Hogwarts tentava fazer mal a Eduarda Fragoso e Lorena Ferette ficava de pé sem perceber que estava.
O labirinto era diferente do que ela tinha treinado. Era mais vivo, mais inteligente, cheio de feitiços armadilhados e criaturas que surgiam nas viradas e paredes que se moviam quando você não estava olhando. Ela passou por um Boggart, por um campo de névoa que tentava desorientar, por um encantamento Imperius que ela resistiu com o braço na testa e os dentes cerrados. Avançou com a metodologia de alguém que tinha estudado cada metro daquele tipo de terreno, virou à esquerda onde o mapa dizia esquerda, direita onde dizia direita, memorizou os padrões de movimento das sebes por três semanas antes da data.
Ela estava perto do centro quando o labirinto ficou completamente escuro.
Não era a névoa de antes. Era escuridão de Dementador, a escuridão que não deixava os olhos se ajustarem porque não havia nada para ajustar, que pegava o frio do ar e o transformava em algo mais pesado, mais de dentro, o tipo de frio que lembrava de coisas que você preferia não lembrar.
Ela ouviu as vozes. As dela, do tipo que só aparecem no escuro.
A casa com as discussões às três da manhã. O rosto do pai mais aliviado do que feliz. A sensação aos sete anos de ser uma menina no chão de uma biblioteca sem que ninguém fosse procurar.
Eduarda parou no meio do labirinto escuro.
Respirou.
Levantou a varinha.
Não escolheu uma memória. Simplesmente abriu.
E a primeira coisa que veio foi Lorena.
Não uma cena específica. Era tudo de uma vez: a tarde no Honeydukes e a voz dos bruxos inventados e a risada que saiu inteira. A espuma de lavanda no queixo dela na borda da banheira. A caderneta caindo no chão. O é que tô esperando por isso há muito tempo dito com aquela voz. O cachecol amarelo nas arquibancadas. O beijo no nariz no meio da biblioteca enquanto Madame Pince fingia não ver.
A raposa saiu da varinha com a cauda em fogo e os olhos de luz e correu pelo labirinto escuro em todas as direções ao mesmo tempo, iluminando as sebes, dissipando a névoa fria, abrindo o caminho à frente com a clareza inequívoca de um animal que sabe para onde está indo.
O escuro recuou.
Eduarda correu.
O troféu do Torneio Tribruxo estava no centro do labirinto, uma taça de prata sobre um pedestal de pedra, e ela chegou até ele com os pulmões queimando e a raposa ainda correndo ao redor dela em círculos apertados e luminosos.
Colocou a mão na taça.
Ela saiu do labirinto com o troféu na mão e o Salão Principal explodindo em som ao redor dela e não ouviu nada disso porque estava procurando uma coisa específica nas arquibancadas.
Lorena estava de pé, igual a sempre, com o cachecol amarelo e as mãos cobrindo a boca e os olhos brilhando, e quando encontrou os olhos de Eduarda no meio de toda aquela confusão abaixou as mãos e sorriu, o sorriso das covinhas fundas, o sorriso que Eduarda tinha começado a colecionar sem perceber desde novembro.
Eduarda levantou a mão.
Lorena levantou a mão de volta.
Era um gesto pequeno. Era o suficiente.
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O problema de namorar a vencedora de um Torneio Tribruxo era que vencedoras de Torneio Tribruxo atraíam atenção, e atenção às vezes vinha em formatos que Lorena preferia que não viessem.
A segunda Grifinória (diferente da primeira, essa ela conhecia, era a Renata, do quinto ano, que tocava violão nas festas da sala comunal delas e sabia disso) apareceu na biblioteca numa terça à tarde, dois dias depois da terceira tarefa, e foi direto para a mesa delas com o tipo de confiança que sugeria que ela tinha ensaiado o caminho.
— Oi, Eduarda. — Ela ignorou Lorena com a habilidade de quem praticava isso. — A terceira tarefa foi incrível. Você foi incrível. — Uma pausa com intenção. — Ouvi que você vai precisar de parceira pra estudar Poções semana que vem. Posso te ajudar, se quiser.
Lorena fechou o livro.
Foi um movimento pequeno. Calmo. Completamente controlado.
Depois ela colocou as duas mãos sobre a mesa, os dedos entrelaçados, e olhou para a Renata com uma expressão que era educada da mesma forma que um Patrono corpóreo é educado: presente, luminosa, e capaz de afastar coisas das trevas.
— Antes — disse ela, com a voz do jeito que ficava quando ela estava sendo muito precisa — Eu não podia falar nada quando alguém chegava assim. — Uma pausa. — Mas agora eu posso. Porque a Eduarda é minha namorada. E só minha.
A Renata olhou para Lorena. Olhou para Eduarda.
Eduarda estava olhando para Lorena com uma expressão que ela não estava nem tentando controlar.
— Ah — disse a Renata. — Desculpa, eu não sabia.
— Agora você sabe — disse Lorena, abrindo o livro de novo com a mesma calma com que tinha fechado. — Boa tarde.
Ela foi embora.
— Só sua — disse Eduarda.
— Só minha — confirmou Lorena, sem levantar os olhos do livro, mas com as covinhas aparecendo.
— Você disse isso com uma cara muito séria.
— Eu sou muito séria sobre isso.
Eduarda inclinou a cabeça para o lado. A expressão que estava no rosto dela era a de alguém que recebeu uma informação muito boa e que está processando o tamanho dela.
— Eu também — disse ela, por fim.
Lorena ergueu os olhos do livro dessa vez.
Elas ficaram se olhando por um segundo, a mesa da biblioteca entre elas, a luz da tarde entrando pelas janelas altas e fazendo aquela coisa idiota com o cabelo de Eduarda, aquela coisa com a luz.
— Tô tentando estudar — disse Lorena.
— Tô te deixando estudar — disse Eduarda.
— Você tá me olhando.
— Sou observadora.
Lorena abriu a boca. Fechou. As covinhas foram fundas.
— Cala a boca — disse ela, sem nenhuma convicção.
Madame Pince passou pela fileira com a expressão de quem estava prestes a pedir silêncio e depois olhou para as duas e decidiu que era uma batalha que não valia a pena travar hoje.
Às vezes até Madame Pince entendia quando deixar quieto.
Mais tarde, quando o barulho das arquibancadas tinha virado o barulho do banquete e o banquete tinha virado o silêncio de Hogwarts de madrugada, elas foram parar na torre do Astronomia, que era o lugar mais quieto do castelo naquele horário e que tinha a vista mais bonita do lago iluminado pela lua.
Lorena estava com o cachecol amarelo ainda no pescoço. Eduarda estava com o troféu do Torneio no chão ao lado dela, esquecido, porque havia coisas mais importantes para olhar.
— Você usou o Patrono no labirinto — disse Lorena. Não era uma pergunta.
— Usei.
— Qual foi a memória?
Eduarda ficou olhando para o lago por um segundo.
— Não foi uma memória específica — disse ela. — Foi tudo de uma vez.
— Tudo de uma vez como?
— Tudo que eu tenho de você.
Lorena ficou quieta.
O lago estava cor de prata lá embaixo, e o vento era frio mas não do tipo que incomoda, do tipo que acorda, e Hogwarts estava quieta ao redor delas com aquela quietude de castelo que foi construído para durar milênios e que podia se dar ao luxo de ser paciente com as coisas pequenas que aconteciam dentro dele.
— Tudo que você tem de mim — repetiu Lorena, devagar, como se estivesse testando o peso das palavras.
— Tudo — confirmou Eduarda.
Lorena ficou olhando para ela por um momento. Depois encostou a cabeça no ombro de Eduarda com a naturalidade de quem já fez isso antes, que era exatamente o que tinha acontecido, que era exatamente o que continuaria acontecendo.
— Isso é muita coisa — disse ela.
— É — disse Eduarda.
— Você tá bem com isso?
Eduarda olhou para o lago. Para o troféu no chão. Para o lenço azul no pulso de Lorena, que estava amarrado diferente do jeito de sempre porque ela tinha amarrado às pressas antes da terceira tarefa, Eduarda sabia porque tinha visto, e achado aquilo lindo de um jeito que não tinha explicação.
— Tô — disse ela. — Tô muito bem com isso.
Lorena levantou a cabeça do ombro dela e ficou olhando para o lago com aquela expressão dela de quando estava escrevendo alguma coisa na cabeça, escolhendo as palavras com cuidado, e Eduarda ficou quieta e deixou.
— O conto que eu comecei depois da segunda tarefa — disse Lorena, por fim. — A raposa que fugia de florestas que ela mesma tinha escolhido.
— Você terminou?
— Terminei hoje.
— Como acabou?
Lorena virou o rosto para ela. Os olhos eram verdes no escuro, a cor de folha nova, e as covinhas estavam lá, e o vento estava fazendo alguma coisa com o cabelo dela que era completamente desnecessária para a situação e que Eduarda notou de qualquer jeito.
— A raposa parou de fugir — disse Lorena. — Descobriu que a floresta que ela tinha escolhido era a certa. Que as coisas que ela achava que iam embora às vezes ficam. — Uma pausa. — Que felicidade também é uma forma de magia.
Eduarda ficou olhando para ela.
— Você ia guardar isso pra você — disse ela.
— Ia — admitiu Lorena.
— Mas não guardou.
— Não. — As covinhas foram fundas. — Tem coisas que são verdadeiras e eu não consigo ficar quieta.
Eduarda levou exatamente dois segundos para decidir que não havia resposta melhor do que esta, e beijou Lorena com o lago de prata embaixo delas e Hogwarts quieta ao redor e a madrugada inteira pela frente, e em algum ponto do beijo começou a sorrir e não conseguiu parar, e Lorena também, e elas ficaram assim por um tempo, sorrindo no meio de um beijo, ridiculamente felizes, sem que ninguém fosse procurar.
Era o suficiente.
Era mais do que o suficiente.
Era tudo.
fim.
