Work Text:
— Poppy…
— Não! Eu não quero ouvir, eu não quero saber! – A boneca disse com os punhos fechados, olhos injetados de sangue e lágrimas. – Tudo que você fez…tudo que você faz…
— Por você! – Respondeu o Jester, seu rosto paralisado naquela máscara sorridente, enquanto ele se abaixava na altura dela. – Você é tudo que eu tenho, eu sou tudo que você tem…nós só temos um ao outro.
— Nós tínhamos meu pai…e você matou ele, Protótipo! – Poppy sentou no chão, de costas para o bobo da corte.
— Depois do que ele fez com a gente…nos transformou nessas coisas e destruiu aquilo que nós tornou o que somos hoje…– As garras enormes se apertaram em um rangido metálico. – Ele nos condenou ao infinito solitário.
— Ele não sabia o que estava fazendo…seres imortais, não era isso que o papai queria. – Poppy disse com os punhos cerrados.
— Mas foi o que ele fez…ele te queria de volta, trouxe você a vida e a que custo? O meu custo… – O Jester se sentou ao lado dela, as garras perigosamente ao lado do corpo pequeno de porcelana, um misto de ameaça e conforto. – Se estou assim é por sua causa…e agora…depois de tudo…você quer me abandonar?
— Eu não quero ficar com você…não depois do que você fez. – Poppy virou o rosto, incapaz de olhar para ele.
— Do que eu fiz?! O que eu fiz, Poppy?! – Ele se ergueu, não medindo a extensão de seu corpo e batendo as costas contra o teto.
— O que você fez!? O que você fez, seu monstro psicopata!? – A Boneca olhou para ele, aquele olhar de reprovação e raiva que ele conhecia bem. – Todas aquelas pessoas…as pessoas que você matou!
— As mesmas que te machucaram…que nos machucaram. – Explicou o bobo da corte, ainda encarando aqueles olhos azuis tão expressivos.
— Nem todos ali eram maus…nem todos ali me machucaram, nem todos ali machucaram a gente. – Poppy respondeu, batendo seus pequenos punhos contra a perna metálica da enorme criatura.
— E o que você queria que eu fizesse? Deixasse eles escaparem? – O Jester se abaixou novamente, rápido, estalando e rangendo até que seu rosto estivesse próximo a ela. – No segundo que eles passassem por aquela porta, Poppy…eles voltariam…armados…
— E o que você sugere? Que fiquemos aqui eternamente? – Poppy perguntou, sua expressão se fechando enquanto ele continuava a se aproximar, as garras tocando com cuidado sua cabeça. – Os órfãos…onde eles estão?
— Já disse…eles estão em um lugar melhor. – O Jester cuidadosamente a segurou, a erguendo até altura de seu ombro, a colocando ali…bem próxima a ele.
— O que você fez…? – A Boneca agarrou com firmeza as roupas coloridas do bobo da corte, tinha raiva…medo…mas sozinha ela não podia lutar.
— Eu fiz o que precisava ser feito…diferente de nós, eles possuem necessidades…– O Bobo da corte caminhava em passos lentos, suas grandes patas de aranha criando fendas no chão. – Não sobreviveriam de qualquer jeito.
— Você é um monstro…– Poppy proferiu uma última vez, antes que as lágrimas tomassem conta de seu rosto de porcelana.
— Você é tão ingrata…não é possível que mesmo depois de tudo ainda assim seja incapaz de ver tudo que estou fazendo por nós. – O Jester a colocou em uma pilha de caixas, alta o suficiente para que ela continuasse a olhar para ele diretamente. – Poppy…só uma única vez…tente entender…
— Nunca! Eu nunca vou entender, nunca! – Poppy disse exaltada, sua voz aumentando, a raiva e revolta voltando. – Tudo que você fez…como você pode dizer que foi por nós?! Você os traiu, mentiu, manipulou, usou cada um deles e para quê!?
— PARA NÓS DOIS NÃO PASSARMOS O RESTO DA ETERNIDADE SOZINHOS!! – O monstro gritou, embora seu rosto não mudasse, o desespero em sua voz era fácil de reconhecer.
O silêncio seguiu pesado, nenhuma palavra foi proferida, nenhum som além das patas mecânicas batendo no chão e o rangido alto de seus membros robóticos. A boneca olhou uma última vez para o rosto sorridente do bobo da corte, aquele sorriso agonizante fixado em sua face.
— Eu não quero voltar pra caixa…– Foi a única coisa que ela conseguiu dizer, sabia que não conseguiria argumentar ou convencê-lo a mudar, a admitir o erro.
— É mais seguro lá. – O Jester a segurou com firmeza, a boneca se debatendo entre os dedos metálicos. — Não seja tão teimosa…eu vou ficar com você, dessa vez…ninguém vai te tirar de lá.
— Para…Protótipo, não por favor… – Poppy batia contra o vidro da caixa de madeira, um expositor, outro a qual ela passaria o tempo até que alguém finalmente a libertasse. – ME TIRA DAQUI!! PROTÓTIPO!!!
— Você é tão infantil… – Ele queria revirar os olhos, os revirou por baixo da máscara. – Está literalmente no local mais seguro que existe, sob minha proteção, mesmo assim continua se queixando…reclamando…
A boneca não respondeu, ela apenas virou o rosto, se recusando a olhar para ele…se recusando a ver aquele rosto mais uma vez.
— Você nunca vai sair daqui, Poppy…nunca… – O Jester se levantou, haviam coisas a serem feitas, experimentos…descobertas, mortes.
— Ele vai me libertar…você sabe que ele vai. – A Boneca olhou fixamente para ele, o desafiando daquele modo que só ela conseguia fazer. – O Açougueiro, tenho certeza que ele virá.
— Não tenha tanta certeza disso… – Ele respondeu, precisava ter certeza de que seu mais recente experimento havia apresentado alguma evolução. – E mesmo que ele venha, o que pretende fazer? Vai tentar me matar e fugir…lá fora…Poppy, você é um aberração como eu e todos os outros aqui embaixo.
Poppy não respondeu, apenas estreitou os olhos.
— Não vai ser diferente do que aconteceu aqui quando Leith Pierre nos encontrou… – O bobo da corte se dobrou, colando o rosto no vidro. – Mas dessa vez…dessa vez, Poppy…seu irmão está aqui pra te proteger…te manter segura.
— Você é nojento. – Ela virou o rosto novamente, não querendo olhar para ele.
— Não seja tão dura, Poppy… – Aquela voz…a voz que havia marcado sua vida naquela fábrica, a voz doce do garoto que ela acreditava ser seu amigo.
— Seu…seu maldito… – Poppy socou a caixa com força. – Nunca mais use a voz dele novamente! Nunca mais ouse fingir ser meu amigo!
— É a minha voz, Poppy… – O Jester se sentou novamente de frente para a caixa de vidro.
A boneca apertou os pequenos punhos com força, queria ser grande o suficiente para quebrar o vidro e avançar na direção daquele monstro mecânico. Como ele podia ser tão falso? Tão mentiroso…?
— Era você…esse tempo todo, sempre foi você? – Ela perguntou, olhando para ele, realmente olhando dessa vez.
— O tempo inteiro… – Ele respondeu, arranhando levemente o vidro da caixa. – Você ainda é a Poppy para mim…
— CALA BOCA! – Poppy gritou, caindo em lágrimas dentro da caixa, ajoelhada de
madeira. – CALA BOCA! CALA BOCA!
O Jester apenas suspirou, deixando que ela terminasse de ser o seu pequeno surto, esperando que ela se acalmasse.
— Olha…naquela época eu… – O Protótipo foi interrompido, a voz raivosa da boneca soando alta novamente.
— Você é um mentiroso! Um mentiroso!
— Eu não estou mentindo…não dessa vez. – As garras mecânicas tocaram o vidro novamente, ele ainda usava aquela voz, aquela voz doce e suave que fazia seu coração se quebrar em pedaços. – Você ainda pode me chamar de Ollie se quiser…
— Não posso acreditar que vou passar o resto da eternidade com você… – A boneca se encolheu, sentada de joelhos no canto da caixa.
— Ficar sozinha é pior… – O Jester se deitou, olhando para ela, tentando alcançar seus olhos. – Ainda bem que temos um ao outro, Poppy…
O silêncio permaneceu ali por minutos incontáveis, se ela não soubesse que eles não precisavam dormir ou comer, acreditaria que o protótipo estava dormindo…imóvel ao lado dela.
— Ollie… – Ela o chamou, ouvindo-o ranger em resposta. – É só isso que temos…?
— Por enquanto…sim.
