Chapter Text
Pessoas que eu não mataria:
- Minha irmã mais nova, Ymir Fritz, por ser a pessoa que eu mais amo nesse mundo. Não há nada que eu não fizesse pela minha coelhinha.
- Dito isso, Fern. Um vira-lata de porte médio com pelo bege e ralo, que parecia que tinha sido eletrocutado. Minha irmã amava essa coisa. Eu odiava dividir comida com ele no começo, mas sabia que nós dois tinhamos algo em comum.
- Wellie. Por me lembrar em meio a tanta violência de que eu nasci gentil.
- Armin Arlert. Por me enxergar até nos meus pesadelos
A lista era realmente pequena; Me peguei pensando nisso no momento em que abri os olhos, acordando de algum sonho estranho. Eu não me lembro mais o que estava lendo, ou se tinha terminado de escrever, mas o choque ainda estava ali, como um grito preso em minha garganta. Levanto uma mão na direção do teto e observo a ponta dos meus dedos em um tom azulado, como se eu tivesse deixado minhas mãos para congelar em um freezer.
Os primeiros raios de sol da manhã entravam pela janela e pintavam o quarto todo de um amarelo aconchegante, me fazendo questionar porque havia acordado com frio. Esses eram meus momentos favoritos de todo o dia, poder ficar deitada na cama observando a luz fraca iluminar a escuridão, pondo fim na madrugada. Era o momento em que minha consciência ainda não havia acordado por completo, e meus pensamentos ainda não haviam começado a infligir algo sobre mim. Nesses curtos momentos, era quando eu sentia um pouco de esperança. Igual a quando são três da manhã e você pensa “Preciso mudar de vida”. Mas esperança é uma palavra que não cruzava minha mente até alguns anos atrás.
Mas hoje, um tipo diferente de escuridão tomava conta do distrito, uma que não ia embora com a chegada da manhã. Era aquela sensação ruim de não saber como cumprimentar alguém da sua rua depois da perda de um vizinho. Porque todo mundo sabia que não havia nada para ser dito que fosse aliviar a dor de uma perda que poderia ser evitada com justiça. Porque hoje era dia de colheita.
Normalmente eu não faria esse esforço, mas hoje levantei antes de todo mundo para arrumar um café da manhã, porque queria que minha mãe se preocupasse o menos possível. Eu sabia que isso não ia acontecer. Ela não ia deixar transparecer, mas eu podia notar em cada um dos seus movimentos. A forma rígida com que ela fechava os próprios punhos sobre a mesa, e o olhar de tristeza que não conseguia disfarçar.
Meu pai nem diria palavra alguma. Ele ia tentar fingir que nada de diferente ia acontecer. Talvez, na cabeça dele, se ele fingisse o suficiente, nenhuma de nós nem existiria. É assim que já parece mesmo.
Acho que é por isso que às vezes eu penso em matá-los. Porque tenho que lidar com os sentimentos deles e consolá-los pela nossa possível morte na arena todos os anos, mesmo quando eles nunca nos protegeram da morte que sempre esteve diante de nós. Como quando nós quase morremos de fome quando ainda morávamos no 12. E porque mesmo sabendo que seria assim, ainda tiveram duas filhas, que teriam que crescer sozinhas em uma casa vazia com cheiro de mofo e cheia de ratos. Eu queria matá-los por não terem protegido minha irmã quando ela quase morreu, anos atrás. Quando quase foi assassinada. E por não terem me protegido quando eu sujei minhas próprias mãos de sangue pela primeira vez.
Preciso respirar fundo para não fechar os punhos e enfiar minhas próprias unhas na carne da palma da minha mão. Começo a contar os segundos que leva para a água da chaleira ferver, e relaxo as mãos quando está prestes a apitar. Desligo o fogo e abro a torneira da pia, esfrego as mãos algumas vezes debaixo d’agua para me acalmar.
Isso é o suficiente para me manter funcional pelos próximos momentos enquanto termino de arrumar o café da manhã, uma fatia de pão para cada um, caldo de peixe e alguns morangos. Hoje o pão era fresquinho e o caldo era feito com as partes boas de verdade do peixe, temperado com sal e algas, e para beber tinha chá de algas. A colheita pelo menos nos proporcionava um café da manhã melhor do que o de costume.
As pessoas devem imaginar que no distrito 4 se come bem, afinal produzimos peixes. Que refeições não devem incluir peixe fresco, frutos do mar variados, o pão especial do distrito, vegetais..? Mas isso era como os ricos do distrito e carreiristas viviam. Eles também moravam em belas residências à beira-mar e exibiam seus próprios tridentes no treinamento. Mas a minha família não tinha nada disso para exibir. Nós viemos do Distrito 12 para cá quando eu ainda tinha apenas 10 anos, e Ymir tinha 6, porque nosso pai possuía mão de obra qualificada por conta do maquinário pesado de mineração do 12. Por conta disso, ele tinha conhecimento técnico em refrigeração, enlatamento e conservação, para processar e transportar os peixes para a Capital.
Nossa casa ficava perto dos armazéns de processamento de pescado e das áreas de reparo das frotas de pesca. É a parte menos glamourosa do distrito, quase esquecida pelos turistas da Capital. A mobília era velha, de uma madeira que já foi bonita, mas agora estava manchada pelo sal do mar. Minha mãe e eu passavamos horas esfregando aqueles móveis, como se pudessemos esfregar também o cheiro de pobreza que impregnava a madeira. No Distrito 12 ela havia sido professora, era obrigada a ensinar sobre a importância do carvão para a Capital, para crianças que iriam morrer de fome ou nos jogos.
A rua em que moramos é estreita, com paralelepípedos irregulares, e o ar tem um cheiro persistente de sal, peixe seco e óleo de máquina. Mas mesmo assim, foi uma mudança que salvou nossa vida. De tudo que mais me assombra até hoje, o que eu mais tenho medo é de ter que ver minha irmã chorando de fome de novo, de ver ela sumindo na minha frente, enquanto sua pele empalidecia e seus olhos se tornavam encovados. Mas pior ainda era não ouvir ela chorar, porque ai eu sabia que seu estômago tinha parado de doer, desistido de pedir comida. É como se afogar na água, no começo você luta, mas depois que se cansa, você perde as forças e só se deixa afundar.
No Distrito 12 você aprende que seu corpo é um traidor, ele deixa a fome te consumir de dentro pra fora, prioriza seus órgãos vitais e deixa o resto definhar. Por isso a gente começa a matar. Animais, eu quero dizer, algumas pessoas caçam ilegalmente além das cercas do Distrito. Eu nunca achei fácil matar animais, porque eles nem sabem que são um alvo, é injusto. Pessoas, por outro lado, sabem que um dia vão morrer, e sabem que são colocadas umas contra as outras, mesmo que você não queira isso. Os Jogos Vorazes não são um exemplo perfeito?
Puxo uma cadeira para me sentar e escuto o barulho das patinhas de Fern batendo no chão e vindo do quarto ao meu encontro. Ele se senta em frente aos meus pés e lhe ofereço um carinho atrás das orelhas. Fern havia se provado digno da minha confiança, e por mais que eu não quisesse admitir, até do meu amor. Afinal eu até o alimentava com a ração que ganhavamos através das tésseras, já que pela primeira vez não precisávamos dela para sobreviver a fome.
A silhueta de Ymir apareceu na porta do quarto, ela era sempre muito silenciosa, mas eu já havia me acostumado com sua presença. Eu dou uma risada baixa, porque seu cabelo precisa ser penteado, mas a convido para comer antes de começarmos a nos arrumar para a Colheita.
“ - Vamos comer primeiro, coelhinha. Tem morangos pra você”
Quando saio do banho, meus pais já estão prontos e minha irmã está penteando o cabelo. Ela está vestindo um vestido branco com bordados, que vai até o joelho, e tem mangas fofas. Eu me visto com um vestido-casaco de lã cinza. No lugar das mangas há uma gola capa que cobre meus ombros e peito, nas pernas uso uma meia calça branca e nos pés uma sapatilha combinando. Os botões da gola capa são vermelhos e combinam com o cinto que marca minha cintura.
Vou até Ymir, que está sentada na beira da cama, e coloco uma faixa de cabelo branca em seu cabelo loiro, que cai perfeitamente liso pelas suas costas. Seguro gentilmente seu rosto com as duas mãos para olhá-la melhor. Seus olhos estão enevoados, as íris brancas, e ela não olha diretamente para mim. Sorrio mesmo assim, e já que ela não pode se olhar no espelho, eu digo:
“ - Você está linda. Até o Fern concorda”
À uma da tarde, nós partimos para a praça central do Distrito 4. É um lugar bem divertido, à beira mar, com o oceano visível no fundo e deques que levam à areia da praia. Em dias comuns estariam abertas lojas variadas que cercam a praça, vendendo enfeites e acessórios feitos com conchas, bebidas batidas com frutas e roupas adequadas ao clima. Mas hoje haviam cartazes da Capital pendurados pelos prédios, e equipes de filmagem adornando o local, como se estivessem se preparando para um festival. Mas a atração principal seria nossa morte.
As pessoas formam a fila para a inscrição em silêncio, e os jovens de doze à dezoito anos são separados do resto, colocados com os mais velhos na frente e os mais novos atrás. Dessa forma, vou parar na linha da frente, longe de Ymir. Não foi fácil soltar da mão dela, mas eu sabia que não podia controlar o que viria a acontecer, e eu não podia demonstrar como aquilo me destruía.
Fixo meus olhos no palco construído temporariamente para hoje, e mal percebo quando uma de minhas mãos sobe nervosamente para minha nuca, segurando com muita força alguns pobres fios de cabelo. O palco tinha sido construído de madeira escura, talvez de navios desmontados, com detalhes de cordas náuticas. Redes de pesca estão penduradas como bandeiras, conchas e estrelas-do-mar foram pintadas nos edifícios, e normalmente o cheiro de sal e algas remeteria a um dia comum na praia, mas hoje haviam flores na decoração, que faziam o lugar parecer e cheirar como um funeral.
Há várias cadeiras ocupadas no palco, uma pelo prefeito do distrito, Marinius Tide, outra por uma mulher muito alta, com olhos e sorriso aterrorizante. Yelena. Ela era a representante do Distrito 4, recém chegada da Capital, usava um terno azul petróleo com muitos enfeites ridículos de conchas. Nas outras cadeiras, haviam os vencedores do Distrito 4 das outras edições dos jogos. Dentre eles, os que mais chamam minha atenção são Mags Flanagan e Hange Zoe.
Mas antes que eu pudesse pensar muito sobre elas, o relógio da cidade deu as badaladas indicando que eram duas da tarde, e o prefeito começou a recitar a história de Panem e dos Jogos Vorazes. Para ser honesta, eu não estava prestando atenção em nada, e minha única preocupação era parar com os pensamentos que invadiam minha mente e me aterrorizavam, como: “sua irmã vai ser chamada”, “ela não vai durar nem um dia” e todas as formas horríveis que eu imaginava ela morrendo.
Eu sabia que não eram verdade, porque mesmo se ela fosse escolhida, eu iria me oferecer como tributo em seu lugar. Era pra isso que eu tinha entrado no Centro de Carreiristas e treinado tanto por todos esses anos, não era? Se eu matasse todos eles e vencesse os jogos, minha família não precisaria mais ter medo de precisar voltar para o 12. Nós iriamos morar na Vila dos Vitoriosos e.. Eu não seria mais invisível. Isso se parecia com um problema, porque aí a Capital se manteria de olho em mim e em cada passo que minha família da. Minha pele queima só de imaginar todos os olhos virados na minha direção, fazendo apostas sobre minhas chances de vencer ou morrer, dissecando o meu corpo estraçalhado por outro tributo ou bestante e… Crack.
Olho para minha mão e vejo que estou segurando um tufo de cabelo.
“ - Feliz Jogos Vorazes! E que a sorte esteja sempre a seu favor!” - A voz de Yelena preenche a praça, e eu começo a esfregar as mãos no meu casaco e no cabelo de forma compulsiva, tentando de alguma forma ajeitá-los e me manter em ordem.
O sorteio vai começar. Ela vai começar pelas meninas, certo? Errado. Nesse ano ela se dirige para a bola com o nome dos meninos primeiro. Ela enfia a mão na bola de vidro e retira um papelzinho.
Eu engulo em seco enquanto uma parte da multidão prende a respiração, e a outra, dos Carreiristas, vibra com animação. Yelena atravessa o palco mais uma vez até o microfone e anuncia o nome em voz alta e clara.
“ - Armin Arlert.”
O garoto deve ter travado em seu lugar, porque os meninos a sua volta começam a se entreolhar e o direcionam com empurrõezinhos para o caminho do palco. Dito e feito, Armin estava pálido e parecia prestes a vomitar enquanto subia o palco com passos lentos.
Vasculho em meu cérebro de onde o nome me é familiar, e lembro de que havia um treinador no centro de carreiristas com o sobrenome Arlert. Ele já estava aposentado, então talvez fosse o avô de Armin.
Percebo que não há gritos de comemoração para ele. Na verdade todo mundo parece meio decepcionado ou triste, como se o garoto em cima do palco já estivesse morto. Parece que Armin não era uma aposta muito boa para o orgulho do Distrito 4.
“ - Bravo! Uma salva de palmas para o nosso tributo!”
Lentamente as pessoas começam a aplaudir. Não são todos, alguns continuam paralisados como eu, enquanto Yelena se dirige à bola de vidro com o nome das meninas.
Tá tudo bem, nada vai acontecer.. Afinal, quais são as chances? Tem muitos nomes lá dentro. Meus medos são irracionais, meu cérebro só quer me assustar
Os dedos longos dela misturam os papeizinhos até que ela finalmente puxa um para fora e começa a desdobrá-lo. Eu sinto a tensão das meninas ao meu lado, como se tivessem parado de respirar. Essas eu sabia que estavam com medo, mas havia determinação no olhar de outras, que cerravam os pulsos, parecendo ansiosas para ter permissão de matar.
Que coisa estranha, era quase meio engraçado. A realização de uma situação que eu não podia controlar parecia ter caído sobre mim. Mas por que agora?
Em algum momento da minha vida, eu finalmente pude perceber. Talvez tenha sido naquela noite que eu me recuso a voltar, mesmo em lembranças. Mas pode ter sido antes disso também, quando eu ainda era só uma criança.
A morte sempre esteve em todos os lugares, nós só nos recusamos a olhar para ela e reconhecê-la. Talvez essa sensação seja ela colocando um braço sobre meu ombro.
Eu fecho os olhos suavemente e solto a respiração.
Enquanto eu for egoísta e lutar por mim mesma, sem precisar de ninguém, sem pensar em ninguém além da minha família, você não vai poder me levar. Porque de alguma forma, eu sempre soube, que no final ninguém viria me salvar.
O peso sobre meus ombros se dissipa e eu abro os olhos, os fixando no palco, enquanto um sentimento inabalável toma conta de mim.
Yelena lê o nome no papel e anuncia com entusiasmo:
“ - Nora Fritz!”
