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Dessa vez

Summary:

[SPOILER DO EPISÓDIO 9]
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[SPOILER DO EPISÓDIO 9]
[SPOILER DO EPISÓDIO 9]
[SPOILER DO EPISÓDIO 9]
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Todos os dias Pomni sai do quarto sem olhar para frente, mas, naquele dia, tudo o que ela queria fazer era encarar aquele retrato bobo com o X vermelho na frente. Por fora e por dentro. Talvez ela não devesse ter chorado tanto por causa de uma foto. Mas talvez tenha sido isso o que a fez dormir.

Notes:

se eu não deixei claro ainda.... VAI TER SPOILER DO EPISÓDIO 9, NÃO LÊ SE VOCÊ NÃO QUER SPOILER!!!!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Só Dessa vez

Chapter Text

Eu fingi para mim mesma que dormi. Assim, seria mais fácil fingir para os outros que estava tudo bem. De certa forma, estava. As coisas estavam sob controle havia um tempo já. Mas me fechar no meu quarto à noite era como dar espaço aos meus próprios pensamentos, dar poder às minhas próprias memórias. E a memórias que não eram minhas.

O rosto dele sempre invadia a minha mente quando não devia. Às vezes era ele sorrindo, às vezes era ele gritando… a risada babaca, a hesitação na voz, o choro pedindo para ficar. Eu não conseguia parar de pensar que, talvez, se eu tivesse insistido mais… se eu tivesse chegado mais cedo… não era justo. Não comigo nem com ele.

Meus olhos pesados de sono não derramaram lágrimas, apenas encararam o teto, sentindo o calor por debaixo das pálpebras toda vez que piscavam.

Ainda não tinha amanhecido quando eu levantei. O corredor ainda estava escuro, não havia nada a se fazer lá fora, mas, ainda assim, levantei e fui até a porta. E minha mão travou na maçaneta. Eu odiava abrir a porta. Entrar no quarto era fácil, mas sair… Assim que girei a maçaneta e a empurrei, o rosto dele me encarou de volta, sorrindo idiota e com um X vermelho bem na frente. Geralmente, eu atravessava o corredor com pressa e a cabeça baixa, mas naquele dia… eu nem sei quanto tempo passei encostada na moldura da minha própria porta encarando a dele, enxergando o que o olho podia enxergar no escuro de um retrato esquisito riscado.

Só sei que demorou um pouco até eu perceber que havia cruzado o corredor. Acho que só percebi quando arrastei a mão na madeira da porta, encostando a testa e sentindo o frio da certeza de que, se eu batesse, ele não abriria. Não diria algo horrível nem me ofereceria uma chave. Ele talvez nunca mais me oferecesse uma chave. E pensar que a última que ele entregou na minha mão foi a do coração dele…

Mas a porta estava aberta. Não houve dificuldade alguma em girar a maçaneta e empurrá-la… havia sido mais fácil que com a do meu próprio quarto. Acho que aquela foi a primeira vez que eu vi o quarto dele. Eu tive vontade de rir. As paredes, o tapete, a cômoda, a mesinha, as várias estrelinhas coladas no teto e nas paredes… de alguma forma, combinavam muito com ele. Pelo menos com como eu queria enxergá-lo.

Pensei que a cama dele estaria muito fria. Quando deitei, ela estava ainda mais. Se eu tivesse qualquer pelo, eu tenho certeza de que meu corpo inteiro teria arrepiado com o frio que eu senti. Imediatamente puxei a coberta e me virei para a parede, encarando um mural de fotinhos viradas na parede.

Eu fui virando uma por uma devagar, vendo as memórias que ele queria tanto guardar e esquecer ao mesmo tempo. As memórias que ele acreditava não merecer e que o teriam salvo se ele permitisse. E então… a última foto do mural. Eu a reconheci na hora e imediatamente a levei ao peito. Foi quando eu me permiti chorar, lembrando do dia em que passamos tempo juntos atrás de armas para caçar os nossos amigos pelo circo. O dia em que nós brigamos. Ele havia gaurdado e pendurado na parede.

Talvez eu não deve ter chorado tanto por causa da foto, mas acho que foi o que me fez dormir finalmente. Depois de acordar, passei o dia inteiro naquele quarto. Havia papel e giz de cera em cima da mesinha, algumas chaves espalhadas pelo chão e na mesa, alguns livro que ele talvez nunca tenha lido; ou talvez fingido que nunca leu. Passei o dia vasculhando aquele lugar como se fosse a última coisa que eu pudesse conhecer do Jax.

Eu quis sair muitas vezes. Quase saí algumas. Mas, quando finalmente saí, já era tarde outra vez; as luzes apagadas e o circo escuro denunciaram a noite. Talvez Caim estivesse lá fora com a Lua. Talvez Ragatha estivesse dormindo. Talvez Gangle e Zooble… provavelmente estavam bem.

Eu andei sem rumo por um tempo, mas sabendo exatamente para onde meus pés estavam me levando. A sala comum estava mais cheia de coisas que meses atrás, mas me dirigi imediatamente à tenda de edredons, respirando fundo algumas vezes antes de entrar e vê-lo dormindo. Ele parecia tão calmo que sorri sem mal perceber. Eu queria que ele se sentisse daquele jeito. Calmo, acolhido, livre para dormir.

Me aproximei um pouco e me arrependi imediatamente assim que ele abriu de leve alguns dos olhos coloridos. Parei e prendi a respiração, aguardando a reação dele, que, para a minha surpresa, foi nenhuma. Ele apenas continuou me olhando.

— Eu vou me sentar aqui, tá?

Ele continuou sem reagir enquanto eu me acolhia ao seu lado, aproveitando alguns dos travesseiros que ele não usava. Ele continuou me olhando e eu evitei de olhar de volta, tentando digerir o meu próprio silêncio. Às vezes era mais fácil estando com ele, durante as visitas… naquele dia não.

— Jax, eu…

Não consegui completar, mas ele sustentou o olhar em mim. Eu queria saber o que ele pensava. Se ainda pensava algo. Todas as vezes em que tentei tocá-lo de novo, tudo o que senti foi a dor formigante da corrupção de abstração. Ainda assim, o tocava. E o toquei de novo quando encostei minha cabeça nele, sentindo a dor se espalhar pela minha cabeça.

— Hoje eu não tenho nenhuma fofoca, desculpa — eu ri — Eu sei que ontem eu não vim te ver. Me desculpa por isso, acho que eu precisei de um tempo amais para dormir.

Eu falava tão baixo que mal parecia que estava falando com alguém além de mim mesma. Mas eu sei que ele estava escutando.

— Eu… não fica irritado comigo — eu o olhei e quase quis rir com a minha própria preocupação, mas logo desviei os olhos outra vez e continuei — Eu entrei no seu quarto. E dormi lá. A sua cama é horrível, não sei como você passava tanto tempo dormindo.

Talvez fosse coisa da minha cabeça, mas ele pareceu espichar os olhos como se questionasse a minha sanidade. Dessa vez eu realmente ri.

— É sério, o colchão é fino demais!

Tanta coisa ficou suspensa no silêncio que veio depois. Eu quis falar da foto, dos livros, de tudo. Mas só o que eu consegui dizer, em um sopro de voz, foi:

— Eu sinto tanto a sua falta.

Seus olhos abriram um pouco mais e depois rolaram, como se ele duvidasse.

— Eu tô falando sério, seu palerma. Eu queria… que você entendesse o que eu tô te dizendo, que pudesse responder, mesmo que seja uma atrocidade. Você fala muitas atrocidades. Eu nunca pensei que sentiria falta de ouvir isso.

Ele só continuou olhando, sem reagir mais que uma piscada ou outra entre os olhos.

— Eu posso dormir aqui hoje?

Não sei por que eu esperei uma resposta.

— Às vezes eu me pergunto se você me ignora de propósito ou se só consegue entender parte do que eu digo. Se eu descobrir que você tá me ignorando eu juro que estrangulo você. E você sabe que eu faço isso mesmo!

Puxei uma coberta um pouco mais para perto de mim, o mais delicada que a raiva me permitiu, e deitei ali mesmo, ao lado dele, encolhida. Não demorou até ele me cercar com o corpo enorme, me envolvendo como se eu fosse um filhote. Acho que foi nesse dia que descobri que dormir ali era mais fácil que dormir sozinha. Por algum motivo, eu me sentia mais segura com uma abstração do meu lado que no frio do meu quarto ou do dele.

— Boa noite — eu sussurrei, torcendo para ouvir um "Bom dia" dele assim que eu acordasse.