Chapter Text
Os amigos, ou futuros ex-colegas, de Kim Minjeong sempre dão risadas da namorada atrapalhada e terrivelmente tímida dela. Sendo uma pessoa tão popular e bem resolvida, é quase impossível imaginar que o relacionamento sério de que Minjeong tanto se orgulha é com uma cientista atrapalhada.
A Dra. Yu Jimin, uma astrofísica, um título que traz muito respeito para a mulher mais velha, mas aparentemente os amigos de Kim Minjeong, a professora de matemática do ensino fundamental, se acham bons demais para ela.
Jimin tem dificuldade em manter diálogos com eles em festas ou eventos que elas vão juntas e eles estão ao redor. Por isso, Minjeong se distanciou deles. Ela não quer ser a mulher que vira o rosto para os amigos quando começa a namorar, mas ver sua namorada ficar vermelha da cabeça aos pés é irritante, principalmente quando ela sabe que eles poderiam pegar mais leve com ela.
As festinhas, jantares ou pequenos agrupamentos sociais foram cortados até segunda ordem por ordens de Minjeong, e agora elas ficam juntas no apartamento de Jimin ou no de Minjeong. Para a felicidade da professora, algumas vezes a cientista comete um pequeno crime e deixa que ela entre dentro do laboratório de observação.
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“A gente se vê dentro de alguns dias” Jimin murmura ao telefone com a voz baixa e triste “Eu preciso ficar junto aos computadores pelas próximas 72 horas direto… Sim, a gente se vê logo após isso… Beijo”
A mulher mais velha desliga o celular com um bico no rosto e volta a atenção ao computador principal que coleta dados diretamente do espaço, acompanhando um gráfico pulsante que mapeia a radiação de uma estrela moribunda.
Os dados coletados são automaticamente transferidos para que possam ser analisados com precisão um pouco mais tarde, mas agora Jimin simplesmente observa os números e praticamente consegue ver estrelas.
“Um pedaço de chocolate por seus pensamentos” Yizhuo se aproxima de Jimin ainda sentada na cadeira “Chorando por estrelas mortas?” A mais nova provoca.
Jimin pega o chocolate oferecido e o coloca na boca. O chocolate é amargo demais para o gosto dela, mas não vale a pena discutir culinária com Yizhuo, que gosta de misturar ciência com culinária mais que o necessário.
“Passar três dias direto aqui dentro não estava exatamente nos meus planos. Essa estrela não podia morrer um pouco mais tarde? Tipo, sei lá, segunda-feira?” Jimin murmura.
“Tipo, sei lá, segunda-feira? Ei, você anda jogando com adolescentes de novo? Amiga, isso não fez bem para a sua cabeça” Yizhuo diz, séria demais.
“A Minjeong fala assim, resultado de ser professora de pré-adolescentes, e eu acho fofo. Devo ter ficado com isso na cabeça, mas se você me entendeu, então é mensagem recebida, ok?” Jimin se explica com o rosto vermelho e a voz trêmula.
“Minjeong? Kim Minjeong?” Yizhuo pergunta e ergue as sobrancelhas quando Jimin confirma “Eu não posso acreditar que você conseguiu ultrapassar a barreira da vergonha, isso é incrível!”
“Me custou coragem por uns dois anos de vida, Yizhuo” Jimin admite “No dia do primeiro encontro, eu levei duas camisetas extras dentro da bolsa porque eu estava suando como um jogador de futebol.”
“Espera, encontro? Você entrou nas calças dela? Isso é notável, extraordinário e incrível!” Yizhuo levanta ambos os braços acima da cabeça.
Jimin murmura sentindo o rosto arder de vergonha e ignora a amiga mais nova, voltando a atenção para o computador.
A primeira noite passa em um borrão de telas brilhantes e gráficos. Jimin tenta se manter acordada organizando os dados, mas o cansaço é tanto que ela quase apaga na cadeira, sobrevivendo à base de café puro e sustos cada vez que o computador emite um bipe de alerta.
No segundo dia, o laboratório já parece menos um lugar tão sério com embalagens espalhas e o cheiro forte de café. Jimin passa as horas abraçada ao seu caderno de notas, vermelha toda vez que lembra das provocações de Yizhuo sobre a namorada, e quase derruba a cadeira ao tentar pegar um cabo de rede debaixo da mesa.
Nas últimas doze horas, o desespero físico é total. De óculos tortos e comendo o resto do chocolate amargo, ela digita os códigos finais enquanto os números da estrela moribunda finalmente começam a desacelerar, salvos com precisão no sistema.
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O vento frio da madrugada atinge o rosto de Jimin assim que elas passam pela porta giratória de vidro do instituto. Com passos preguiçosos ela caminha até o carro com os pensamentos já em dormir por longas horas.
“Não é possível que mesmo depois de passar três dias acordadas você ainda é bonita assim” O tom provocador de Minjeong assusta Jimin que pula deixando as chaves do carro cair.
Minjeong dá risada e se abaixa para pegar as chaves. Jimin também se abaixa tentando esconder a vergonha de ter se assustado. Com a velocidade com que as duas desceram, o impacto é inevitável. Cabeça com cabeça.
Jimin resmunga e se distancia rápido demais, batendo a cabeça no carro. Minjeong solta uma lufada de ar e cai no chão gelado, segurando a testa.
“Jimin, minha nossa, você está bem?” Minjeong se senta devagar e encara a namorada que está deitada no chão segurando a cabeça “O barulho da sua cabeça no carro foi feio, você está com uma contusão?”
“Eu vou morrer” Jimin murmura “Minjeong, diz para a Yizhuo batizar o buraco negro de YJ110400”
“Você não vai morrer. Vem, vamos sentar dentro do carro” Minjeong pega as chaves e se levanta resmungando.
As duas entram devagarinho no carro de Jimin. Minjeong assume o banco do motorista, exatamente como vinha planejando fazer desde que saiu de casa para buscar e levar a namorada, mas agora, com o pequeno acidente, é mesmo melhor que ela seja a motorista.
Jimin apoia a cabeça no encosto do banco e choraminga, enquanto Minjeong usa a luz interna do carro para examinar a cabeça da mais velha.
“Parece tudo bem com a sua testa, está só vermelha, mas a parte de trás parece ter um galo” Minjeong explica.
“Sua testa também está vermelha” Jimin murmura, passando os dedos na testa da namorada.
“A minha não dói.”
“A parte de trás da minha cabeça dói, mas eu vou ficar bem. Preciso mesmo dormir e não pensar em mais nada por hoje e por amanhã.”
Minjeong dá um sorriso terno, aperta de leve a mão de Jimin que ainda estava em sua testa e liga o motor do carro. O ronco suave do veículo preenche o espaço silencioso, e ela logo ativa o aquecedor para afastar o frio da madrugada.
Antes de tirar o pé do freio, a professora se estica até o banco de trás, puxa o casaco grosso de Jimin e o joga com cuidado por cima das pernas da cientista, garantindo que ela fique bem confortável.
“Pronto, destino: sua cama” Minjeong avisa, engatando a marcha com suavidade “Pode fechar os olhos e descansar, a motorista da rodada assume daqui.”
O carro começa a se movimentar lentamente, deixando para trás o estacionamento do instituto e as setenta e duas horas de dados, números e estrelas. Jimin solta mais um suspiro longo, finalmente relaxando o corpo contra o banco enquanto observa o perfil de Minjeong iluminado pelas luzes esparsas dos postes da avenida.
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Jimin ainda vive nos apartamentos para estudantes daquela universade. Três anos atrás quando aceitou a posição dentro da instituição pediu por alguns dias um lugar para ficar e ganhou por tempo vitalício um pequeno apartamento de estudante.
A cientista gosta do lugar, mas a namorada tem uma dificuldade em aceitar o lugar. É muito pouco espaço para as coisas do trabalho que ocupam a maior parte e a outra parte é ocupada pelos objetos pessoais de Jimin.
Quando o relacionamento ficou sério, as duas passaram dois dias limpando o quarto de Jimin liberando espaço para ficar melhor de transitar.
Minjeong estaciona o carro na vaga apertada do bloco de estudantes e ajuda Jimin a sair, segurando-a pela cintura já que a cientista parece andar em câmera lenta de tão cansada. Elas sobem as escadas em silêncio e, assim que Jimin gira a chave da porta, o aroma familiar do pequeno apartamento as recebe.
O lugar realmente é minúsculo, mas o esforço daqueles dois dias de faxina pesada valeu a pena; o caminho até a cama está livre de caixas de livros e papéis de pesquisa. Jimin vai direto para o colchão, desabando de bruços com roupas e tudo, enfiando o rosto no travesseiro com um gemido abafado de satisfação.
Minjeong tranca a porta, tira os próprios sapatos e vai até o lado da namorada. Ela se senta na beirada da cama, puxa um edredom grosso para cobrir o corpo de Jimin e deita ao lado.
“Você precisa tirar os óculos, Jimin” Minjeong sussurra, esticando o braço para retirá-los do rosto da cientista antes que ela durma por cima deles de novo.
Jimin nem abre os olhos, apenas se vira de lado para dar espaço no colchão estreito, puxando o edredom até o nariz.
“O que aconteceu na sexta-feira?” Jimin pergunta curiosa.
“Você quer dormir primeiro? Podemos conversar mais tarde” Minjeong acaricia os cabelos de Jimin.
“Hum, eu estou ouvindo, me conta sobre seus amigos horríveis” Jimin murmura, se aconchegando.
“Tudo bem, então foi uma festa para patrocinadores, todos os professores precisavam apresentar alguma ideia para esses homens e mulheres com dinheiro. Inclusive, obrigada pela ideia incrível dos novos métodos de ensinar matemática, eu inclusive arrasei na apresentação. Depois disso virou uma bagunça silenciosa, todo mundo falando de todo mundo, tão desnecessário… Até a nova professora de música começar a cantar no palco e isso acalmou os ânimos rapidamente. Sério, Jimin, ela é tão legal e bonita. No sábado eu voltei para a escola para ajudar com a limpeza e ela estava lá toda participativa, e foi divertido limpar com ela…”
Jimin abre os olhos em certo ponto da história e encara a namorada, que parece distraída relembrando o dia incrível que teve, mal notando o rosto de Jimin ficando vermelho.
Ela pisca algumas vezes, engolindo em seco enquanto tenta fazer o coração desacelerar. Força os olhos a fecharem novamente, respirando fundo para que a voz saia o mais natural e entediada possível, sem transparecer o nó que acabou de dar em seu estômago.
“Que bom” Jimin murmura, ajeitando o edredom com uma calma fingida “A escola precisa mesmo de alguém que não seja um mercenário.”
“Sim, exatamente!” Minjeong concorda empolgada, bocejando logo em seguida e deitando a cabeça de lado no travesseiro, completamente alheia à tensão que se instalou no corpo da namorada. “Ela até comentou que queria uma parceira para quando iniciar as aulas e clubes de música. Estou pensando em aceitar.”
Jimin aperta os punhos por debaixo da coberta. Ela passa setenta e duas horas trancada em uma sala escura lidando com o colapso de uma estrela para agora ter que ouvir a namorada maravilhada com outra mulher.
“Parece divertido, você sempre quis fazer alguma coisa com as aulas de piano que você fez” Jimin murmura.
“Sim, vai ser divertido, estou com algum horário livre…” Minjeong diz baixinho, e Jimin, com uma olhada, percebe que ela está mais dormindo do que acordada.
O silêncio do pequeno apartamento de estudante é quebrado apenas pelo zumbido baixo do aquecedor e pelo som distante de algum carro passando na avenida da universidade.
Jimin continua encarando a escuridão do teto, com os punhos ainda levemente cerrados debaixo do edredom. A dor física do galo na parte de trás da sua cabeça parece uma distração pequena perto do turbilhão de ideias que a menção à nova professora de música causou em sua mente.
Um bocejo involuntário escapa pelos lábios de Jimin, fazendo seu peito chacoalhar de leve. Ela fecha os olhos por alguns segundos, sentindo o calor do corpo de Minjeong colado ao seu, o braço da professora firmementelaçado em sua cintura. O cansaço extremo começa a anestesiar seus pensamentos ciumentos, arrastando-a lentamente para a inconsciência.
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“Não faz o menor sentido científico eu estar me importando com isso” Jimin resmungou para si mesma, ajeitando os óculos com força antes de pegar o celular pela décima vez, debatendo-se internamente se mandava ou não uma mensagem casual para a namorada.
O papel de parede, que muda de vez em quando com variações das fotos da namorada, tira um suspiro pesado de Jimin todas as vezes, mandando um sinal para o lado direito da cabeça dela.
“Ela é minha namorada… Sim, ela pediu para ser. Por que eu estou tão verde?” Ela pergunta para a foto de Minjeong sorridente.
Desistindo de saber mais onde está Minjeong, ela larga o celular em cima da mesa e volta a prestar atenção no computador. Hoje é um dia de calmaria, nada realmente está acontecendo, mas ela pode fingir que está pegando pesado no trabalho.
Antes que Jimin possa fazer qualquer mínimo progresso no pouco trabalho, Yizhuo chega saltitante como sempre e entrega um café gelado para a mais velha, que aceita sem protestar.
“Se sua namorada traísse você, qual seria sua reação?” Yizhuo pergunta divertida, rolando um canudo nos lábios.
“Me traísse?” Jimin gagueja e sente o rosto ficar quente “Eu não… Por que ela faria isso?”
“Hum, porque tem essa mulher alta e com cabelo colorido que parece que saiu de um anime e, bem, quem perderia essa chance?” Yizhuo questiona.
“Então minha namorada vai me trocar por uma mulher que parece uma animação?” Jimin questiona, já entrando na onda da mais nova.
“Totalmente. Então, qual sua reação?”
“Eu choraria pelo resto da minha vida” Jimin admite, sincera demais “Mas eu lutaria por ela.”
“Boa resposta. Equilibrada, realista, e eu gostei de imaginar você lutando fisicamente pela sua professora de matemática básica.”
“Ela ensina o fundamental avançado” Jimin suspira, tomando um longo gole do café, de repente com a mente cheia de mulheres mais bonitas que ela roubando Minjeong e a deixando chorando.
O restante da tarde passa devagar demais para os pensamentos agitados da cientista, que se perde em pensamentos imaginando o que a namorada poderia estar fazendo e tão ocupada que não enviou uma mensagem sequer.
A cada vibração fantasma que sente no bolso da calça, seu coração dá um salto, apenas para ela puxar o aparelho e dar de cara com notificações irrelevantes de e-mails acadêmicos ou avisos do sistema da universidade.
Ela apoia os cotovelos na mesa e esconde o rosto nas mãos, respirando fundo enquanto tenta, pela centésima vez, forçar o lado direito do cérebro a assumir o controle e trazer um pouco de racionalidade. Minjeong está apenas trabalhando enchendo crianças inteligentes com mais inteligencia.
Jimin olha para o relógio de parede pela última vez, vendo os ponteiros finalmente se aproximarem do horário em que as aulas da escola terminam, debatendo-se entre manter o orgulho intacto ou ceder de vez à ansiedade que a consome desde o início da semana.
Antes que ela possa tomar qualquer decisão lógica, as emoções parecem estar no comando e ela se vê dentro do carro e em direção ao trabalho de Minjeong antes de pensar com cuidado em tudo. Sabe que a namorada não vai odiar a ver lá, mas hoje pode ser um dia ruim.
Quando ela finalmente estaciona o carro na rua da escola, o movimento de alunos saindo já diminuiu bastante, indicando que o horário regular das aulas terminou. O prédio tem aquela calmaria típica de fim de tarde, o que só faz o estômago de Jimin dar mais um nó.
Ela desliga o motor, mas continua sentada no banco do motorista encarando a fachada do colégio.A coragem que a trouxe até ali começa a dar lugar a um frio na barriga.
Uma batida no vidro do carro faz Jimin pular alto e virar rapidamente na direção do som, totalmente assustada.
“Yu Jimin, da Minjeong, não é?” Um homem sorridente pergunta e Jimin já consegue sentir as orelhas quentes.
O cérebro leva menos de meio segundo, entre 100 e 400 milissegundos, para reconhecer o rosto de alguém que vimos poucas vezes, mas dessa vez parece que esse processo vai levar a pior porque nenhuma informação surge para Jimin.
“Professor Kim… É bom te rever” Jimin tenta, abrindo um sorriso trêmulo.
“É um prazer te rever também” O sorriso dele aumenta “Imagino que veio ver a sua namorada cantando?”
“C-claro” Jimin sai do carro com o corpo tenso e segue o homem que tagarela sobre a escola como se ele fosse de alguma forma dono ou sócio. Muito orgulho da escola.
Eles acabam dentro de um pequeno auditório que Jimin não fazia a menor ideia que existia e, sinceramente, não sabe voltar para o estacionamento sozinha, mas a pior parte é a quantidade de colegas de trabalho de Minjeong ali.
Jimin se agradece mentalmente pela roupa que decidiu vestir hoje. Uma camiseta simples branca nova, por cima uma camisa de botões azul-clara que está aberta e calças pretas estilosas. Ela se encaixa como convidada perfeitamente.
“Vamos lá, quantas estrelas têm em um ano?” Uma colega de Minjeong se aproxima de Jimin e a segura pelo braço.
“Isso não faz o menor sentido… Nenhuma. Estrelas e anos são grandezas completamente diferentes” Jimin explica e sente o rosto vermelho com a aproximação da mulher.
“E quantas estrelas existem?” Uma outra pessoa pergunta, não tão próxima, mas o tom de voz faz Jimin encolher os ombros.
“1 septilhão de estrelas” Jimin murmura e as pessoas ao redor dão risada como se ela tivesse contado uma grande piada.
“Isso é incrível, Dra. Jimin” Professor Kim volta a falar e troca um olhar com outra pessoa, e Jimin consegue sentir que nada de bom vai sair dali.
“Por favor, eu preciso mesmo achar a Minjeong” Jimin pede.
“Minjeong? Kim Minjeong? Matemática, né?” A mulher pergunta “Ela deve estar com a Aeri.”
“Ah sim, a deusa da música” Professor Kim responde sorrindo “Elas devem estar lá atrás sozinhas…”
“Você é ciumenta, Jimin?” A mulher pergunta.
“Por quê?” Jimin tenta não gaguejar, sentindo o corpo inteiro quente.
“Elas têm uma química… É de dar água na boca” Professor Kim responde.
Por alguns segundos tudo fica em silêncio. Eles trocam olhares entre si e focam em Jimin, que está desconfortável na própria pele e com os olhos cheios de lágrimas, tentando ser forte.
O silêncio do auditório parece zumbir nos ouvidos de Jimin, pesado e sufocante. Os olhares cúpidos daquelas pessoas continuam fixos nela, divertindo-se com o desconforto explícito da astrofísica, que agora aperta as mãos dentro dos bolsos da calça preta para disfarçar o tremor. O nó na garganta é quase físico, uma barreira sólida que a impede de formular qualquer resposta científica ou lógica. Ela quer apenas dar as costas e correr dali, mesmo sem ter a menor ideia de como voltar para o estacionamento, mas seus pés parecem colados ao chão polido do lugar.
“Jimin?” A voz de Minjeong soa como um sino para os ouvidos de Jimin, que se vira rapidamente e tropeça nos próprios pés.
“Minjeong” Jimin sussurra “Eu achei você.”
“O que você está fazendo com eles?” Minjeong pergunta baixinho, já puxando a namorada para longe dos colegas que dão risadinhas do tropeço de Jimin.
“Saudades” Jimin murmura e pisca algumas vezes para afastar as lágrimas dos olhos.
“Jimin, você não deveria ter vindo… Hoje é…” Minjeong é interrompida pelo som alto da música que inicia.
“Você mal me contatou hoje, fiquei preocupada” Jimin admite.
“Estive ocupada com as coisas do clube” Minjeong revela.
“Com a Aeri” Jimin testa o nome, observando as reações da namorada, que apenas assente.
“Sim, com a Aeri” Minjeong, ainda agarrada ao braço de Jimin, a leva para fora do auditório.
“Não posso ficar?” Jimin pergunta.
“Não” Minjeong responde ríspida “Eu vou dormir na sua casa hoje, ok?” A professora deixa um selar nos lábios de Jimin, que mais uma vez luta contra as lágrimas.
Sentada sozinha no banco do carro com ambas as mãos no volante, a cabeça baixa encostada no couro e as lágrimas saindo de maneira desenfreada, Jimin não poderia se sentir pior.
Sente a cabeça apertada de tantos pensamentos sobre os professores colegas de Minjeong e as insinuações deles, e o pior de tudo é a reação de Minjeong, que não faz o menor sentido, fazendo Jimin se perguntar tantos porquês.
Por que Minjeong segurou o braço dela com tanta força? Por que Minjeong parecia tão brava e mal olhou nos olhos dela? E por que o beijo dela foi tão frio, mesmo que tenha sido um beijo que costuma ser caloroso?
Com as mãos tremendo, Jimin não consegue sair dali agora, mas ela sabe que precisa; se Minjeong sair do trabalho e a vir ali, pode ficar pior do que já está.
Usando os lenços de papel que mantém dentro do porta-luvas, ela seca o rosto e pressiona o papel algumas vezes nos olhos para conter qualquer umidade que persista ali. Com movimentos rígidos, ela dá início à viagem até em casa.
Mesmo que seja apenas uma viagem de vinte minutos até a segurança do apartamento, o destino nunca pareceu tão longe.
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Jimin funga e se espreguiça com vontade na cadeira, esticando o máximo que pode naquela posição, e seu olhar acaba no celular com a tela virada para baixo, com as notificações silenciadas e um aviso para todos os colegas que desejam falar com ela usarem o telefone comum.
A única pessoa que não sabe que Jimin não está usando o telefone desde de manhã é a namorada. Desde aquele dia em que a mais velha apareceu na escola sem avisar, as coisas andam meio silenciosas entre as duas, palavras de Jimin para Yizhuo.
Ela não tem certeza do que está escondendo da amiga, mas sabe muito bem como está evitando ter qualquer conversa mais complexa com a namorada por medo. Medo de terem que sentar e conversar sobre aquele dia.
“Yu Jimin, terra chamando Yu Jimin” Yizhuo usa voz de robô para chamar a atenção da mais velha.
“Yu Jimin para terra, por favor, me deixa trabalhar” Jimin murmura.
“Você quer matar o tempo na cafeteria? Igual aos velhos tempos quando você não trabalhava tantoooo” Yizhuo reclama.
“Podemos ter um longo almoço hoje, mas não posso diminuir a quantidade de trabalho. Eu quero manter nossos empregos, princesa” Jimin decide e, se levantando por hábito, pega o celular para dar uma olhada.
E ali é seu momento de fraqueza. Porque ver a foto de Minjeong tão sorridente e algumas notificações dela de horas atrás faz um súbito arrependimento tomar o corpo de Jimin. Ela poderia ter respondido aquelas mensagens horas atrás.
Mas o lado racional também toma sua vez e Jimin precisa se questionar se responder Minjeong sem estar pronta para qualquer rumo que a conversa possa tomar.
Por isso ela volta a enfiar o celular no bolso e simplesmente deixa que Yizhuo comande o resto do dia.
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Com um mês passando rapidamente com Jimin evitando a namorada completamente e também se preparando, com apoio de Yizhuo, para enfrentar qualquerconsequencia.
“Usando o poder da probabilidade” Yizhuo diz animada, apontando para o quadro branco que contém o nome de Minjeong escrito no topo em vermelho e uma sequência de números. “Estou certa que vai terminar com você.”
“Você não pode usar a matemática para contestar sentimentos” Jimin pega a caneta da mão da mais nova “Mas podemos achar um número que condiz com a quantidade de vezes que vou de maneira efetiva pensar na morte.” Pensando por um instante e usando os números de Yizhuo, Jimin rabisca um número no quadro. “Veja só: 5.”
“Dias? Semanas? Meses? Anos?” Yizhuo questiona totalmente séria “Por Deus, se for anos estaremos vivendo a era do horror.”
Jimin deixa uma risada escapar e dá de ombros.
“Espero que tudo fique bem” Jimin murmura.
“As probabilidades são mínimas, veja o quadro” Yizhuo escreve enquanto explica “Ignorar a namorada + Arrumar mais trabalho para ficar ocupada + Deixar a Yizhuo te usar de namorada postiça = Minjeong vai acabar com você.”
“Daqui a alguns minutos nós vamos descobrir” Jimin murmura e olha para a própria mão, onde tem um anel simples que Minjeong comprou e ela usa no dedo indicador da mão direita.
Jimin está atrasada. Quinze minutos exatos, e isso a faz correr um pouco mais assim que chega na rua da escola. Indo contra as indicações de segurança de trânsito, mas o lado emocional diz que tudo bem porque ela está tentando chegar a tempo e fazer pelo menos isso certo.
Entrando com um movimento brusco no estacionamento da escola, a primeira coisa que Jimin vê é Minjeong abraçada com outra mulher.
O abraço parece estar durando mais tempo que é socialmente aceitavel para um abraço entre colegas próximos. A maneira como a mulher, que Jimin presume ser Aeri, está segurando Minjeong simplesmente a deixa irritada.
Indo contra todas as probabilidades, calculadas por Yizhuo, de qual seria sua reação, ela mal estaciona o carro antes de sair furiosa de dentro do veículo. Com passos apressados, praticamente correndo, ela alcança as duas mulheres e puxa Minjeong do abraço.
“Jimin!” Minjeong grita, assustada.
“Sai de perto dela” Jimin diz ríspida, mas não está olhando para a namorada. Está com o olhar fixo em Aeri.
“Calma aí, relaxa Jimin” Aeri diz, levantando as mãos “Ela precisava do abraço.”
“Não venha me dizer o que minha namorada precisa” Jimin resmunga “Minjeong, vá para o carro.”
“Qual o seu problema?” Minjeong agarra o braço de Jimin “Por que você está tão brava?”
“Porque você está abraçada com outra mulher na frente de todo mundo!” Jimin branda.
“Todo mundo quem? Cara, estamos sozinhas aqui porque você está atrasada” Aeri observa, e Jimin bufa.
“Eu estava trabalhando” Jimin explica “E eu estou aqui agora e não quero ver minha namorada agarrada com você ou qualquer outra pessoa.”
“Pare de dizer que eu estava me agarrando com outra pessoa” Minjeong pede.
“Não era isso que você estava fazendo?” Jimin pergunta, irritada.
“Não, um abraço totalmente inocente” Aeri responde e sorri para Minjeong “Jeong, a gente se vê amanhã?”
Jimin bufa e observa Minjeong assentir com a cabeça antes de finalmente começar a andar em direção ao carro.
A viagem até o apartamento de Jimin se inicia em silêncio. Minjeong está de braços cruzados com o rosto virado na direção oposta e Jimin batuca os dedos no volante.
Perto do final da viagem, para a surpresa da mais velha, Minjeong começa a chorar. Talvez estivesse chorando há algum tempo pela quantidade de manchas de lágrimas pelo rosto.
“Qual o seu problema, Jimin?” Minjeong pergunta “Você some por dias, mal responde minhas mensagens e agora fez birra na frente da minha amiga.”
“Eu…” Jimin perde o que iria dizer quando Minjeong solta um soluço no meio do choro.
“Você sabe como eu me sinto depois disso? Como uma idiota! Eu falo para quem quiser ouvir que você é a melhor namorada de todas, a melhor pessoa que eu conheço… E você age dessa forma” Minjeong diz entre lágrimas.
Jimin tenta encontrar palavras, mas parece uma tarefa difícil naquele momento. A viagem então se mantém em silêncio até ela estacionar o carro e as duas subirem as escadas ainda em silêncio.
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Servindo dois copos de água é como Jimin resolve se aproximar de Minjeong. O apartamento está silencioso e apenas algumas fungadas podem ser ouvidas baixinho.
“Água” Jimin oferece e Minjeong vira o rosto “Vamos lá, por favor, beba um pouco de água, vai fazer bem.”
Minjeong pega o copo e bebe um pouco da água, ainda evitando olhar para Jimin.
“Faz um tempo que você não vem aqui” Jimin começa e vê Minjeong revirar os olhos. “O que foi?”
“Você é péssima nisso” Minjeong murmura “Eu não vinha porque você se enfiou dentro daquele laboratório e me ignorou”.
“Minjeong, eu estava trabalhando, você sabe o quanto as coisas estão corridas com os prazos do laboratório...” Jimin tenta se justificar, dando um passo à frente, mas a namorada se encolhe no sofá, afastando-se do toque.
“Não jogue a culpa no trabalho, Jimin! Não faz isso” Minjeong limpa uma lágrima teimosa com as costas da mão, finalmente encarando-a nos olhos, e o brilho ali é de pura mágoa. “Se você quer terminar, vamos fazer isso…”
“Eu não quero terminar” Jimin diz rapidamente “Por que você diria isso?”
“Porque é o que eu acho que você quer” Minjeong explica “Então, se você ainda quer continuar junto comigo, por que me ignorou?”
“Eu não soube como agir depois daquele dia na escola. Você agiu como se não me quisesse por perto e isso me assustou. Seus colegas continuaram falando sobre a Aeri e eu… Eu achei que… Só fiquei com medo” Jimin confessa.
“Naquele dia eu vim até aqui e nós conversamos. Você disse que tudo estava bem.”
“E o que eu poderia dizer, Minjeong?”
“A verdade?”
“Então você queria ouvir que me doeu ver seus colegas de trabalho falando de você com outra mulher, e que o jeito que você me tratou terminou de me matar?” Jimin limpa a garganta “Eu menti porque não queria pensar no que poderia significar você ser tão rígida comigo.”
“Eu conseguia ver você tremendo do outro lado da sala naquele dia, mas eu estava com o diretor no meu pé brigando por causa de dinheiro e orçamento. Na primeira distração dele eu escapei e só queria tirar você de perto deles… Nós tínhamos combinado que você não iria mais a esses eventos. Por que você foi lá? A verdade, por favor " Minjeong pede.
“Ciúmes” Jimin admite, sentindo o rosto esquentar “Eu queria ver de perto a Aeri de quem você tanto falava.”
O silêncio que se instala na sala não é mais aquele clima pesado e sufocante de antes, mas sim um momento de choque puro.
Minjeong estica a mão na direção de Jimin que sem pensar duas vezes se aproxima da namorada com cuidado. A mais nova passa o braço ao redor dos ombros da namorada e a puxa para um abraço enfiando o rosto do pescoço dela. Os braços de Jimin enroscam na cintura da mais nova.
“Você é uma boba” Minjeong mumura “Eu não quero mais ninguem. Aeri teria que tentar muito só para chamar minha atenção”
“É mesmo?” Jimin pergunta sem esconder o sorriso “Isso é otimo é incrível”
“Para me fazer virar a cabeça tem que saber fatos aleatórios sobre as estrelas” Minjeong afasta o rosto e, ao ver as orelhas vermelhas de Jimin, acaba dando risada.
“Eu sei um monte de coisas… Nesse mês que passou, eu estive acompanhando um casal de estrelas. Sabia que mais da metade das estrelas que a gente vê no céu não estão sozinhas? Elas passam a vida inteira girando uma ao redor da outra, presas pela gravidade. São estrelas binárias” Jimin explica, e Minjeong sorri.
“Isso é adorável… Eu passei tempo o suficiente longe para saber que não posso orbitar sozinha sem perder minha luz… Jimin, eu preciso mesmo e tanto de você” Minjeong sussurra.
“Eu te amo, Minjeong. Não existe luz para mim em nenhum outro lugar” Jimin responde e, finalmente, quebra a pouca distância entre elas para beijar a namorada com delicadeza, fechando os olhos só para se perder no calor daquele contato tão esperado.
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“10, 20 e 25” Yizhuo entrega o dinheiro para a tia da cafeteria “Você sempre soube de alguma coisa que eu não conseguia ver?”
“Eu consigo ver o quanto sua amiga gosta daquela namorada dela, e você usou números errados naquela sua equação de término. Não considerar a primeira vez que elas trocaram as alianças foi realmente um erro” a mulher mais velha comenta, contando o dinheiro.
“Eu não errei nas minhas contas!” Yizhuo reclama e puxa um guardanapo para começar a escrever.
