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Âncora Quebrada

Summary:

Ele era importante para você, você o amava. Por isso que doeu tanto.

Notes:

Só uma besteirinha baseado em algo que aconteceu comigo. Não soube muito bem como terminar, assim como na vida real.

Work Text:

Ele te deu aquele presente depois que ele voltou de uma viagem. Era só uma lembrancinha: um chaveiro dourado em formato de âncora.

 

— Era o melhor que tinha lá, a maioria era de time. — Ele sabia que você não gostava muito de esportes. Você ficou feliz que ele se lembrou disso.

 

Você ficou feliz pelo presente, logo você já o pendurou em sua mochila. Na verdade, poderia ter sido qualquer coisa: um chaveiro, um doce, uma foto, até o recibo da passagem de ônibus que ele comprou — o importante é que ele se lembrou. O importante é que ele se importou. Ele era seu amigo, seu melhor amigo.

 

Será que ele era seu melhor amigo? Será que você era seu melhor amigo?

 

Tem que ser. Ele se abria para você. Ele contava os seus segredos. Ele mostrava suas fraquezas.

Você se abria para ele. Você contava os seus segredos para ele. Você mostrava suas fraquezas para ele.

 

Você só não entendia por que o que ele falava entre quatro paredes não refletia o que ele fazia.

 

Mas não importa, você dizia. Ele é complicado mesmo, mas eu o entendo.

 

As vezes parecia que nele existiam duas pessoas. Com uma, você podia brincar, rir, chorar. Você podia discutir ideias estúpidas que só você e ele entendiam. Você podia tocar. Você podia ser tocado. Você podia se arrepiar.

 

Você podia amar.

 

O problema era quando a outra pessoa aparecia. As diferenças entre vocês dois gritavam que ele é popular, você não. Ele é bom nos esportes, você não. Ele tem vários amigos, você não.

 

Por quê? Por que ele agia daquele jeito? Por que ele gritava com você? Por que ele se afastava quando tinha outras opções?

 

Então, ele voltava a ser como era antes. Amoroso, atencioso, carinhoso. O suficiente para que você desconsiderasse tudo.

 

Era sempre assim.

 

Aquele chaveiro de âncora incomodava as vezes. Você brincou com ele uma vez que o problema da âncora era que ela realmente funcionava como uma âncora:  agarrando em tudo e te puxando para trás.

 

Cada vez menos ele aparecia em sua versão boa. Cada vez menos ele tinha tempo pra você.

 

Um dia, a versão hostil dele apareceu, mas foi pior.

 

— Caralho! Me deixa em paz! Você não tá vendo que eu tô com meus amigos? Você não se manca não? Some!

 

Os olhares de todos os outros alunos fizeram seu rosto esquentar como se eles fossem centenas de raios lasers.

 

Você não lembra direito do que aconteceu depois disso — sua visão estava turva demais para enxergar qualquer coisa. As memórias só voltaram a fluir depois de três horas, quando ele — o outro ele — te encontrou no seu esconderijo.

 

— M-Meu cachorro morreu… — Disse, e te abraçou.

 

Vocês já tinham certo contato físico, mas nunca um abraço tão intenso como esse. Você sentia os braços dele em suas costas, você sentia seu peito subindo e descendo caoticamente por conta de seu choro, você sentia as lágrimas dele caindo em seu ombro. Você sentia calor, mas não haviam mais olhares, ali, só havia vocês dois.

 

Mas algo estava errado.

 

Você esperou por tanto tempo esse momento, você desejava tanto que ele agisse assim com você. Mas agora, parecia não fazer diferença abraçar a ele ou abraçar um manequim de uma loja de roupa.

 

Naquele momento, você sentiu o chaveiro enroscar em algo, como sempre. Antes de você conseguir puxar ele de volta, você ouve um creck, seguido de um ruído de algo caído no chão.

 

Você consolou ele mecanicamente, sabendo que algo além daquele chaveiro tinha se rompido.

 

Você olhou pro chão, lá estava o que restou da âncora. O rompimento não foi exatamente no meio: um dos lados ficou com boa parte da estrutura da âncora, o outro lado só ficou com a ponta espinhosa, sem nada para se apoiar.

 

Ele era completo, você não.