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Coração de baunilha

Summary:

Havia coisas que não cabiam dentro de uma caixa de madeira. Ainda assim, Tobirama depositou seu coração ali e esperou que Hashirama entendesse.

HashiTobi | Naruto

Notes:

Yo meus amores!

Brotando com a terceira fic da mini coletânea: Atrasados do dia dos Namorados 😌🩷 e claro que não poderia faltar meus queridinhos Hashirama e Tobirama.
Sem betagem, mas revisado por mim 😶

Aviso: contém inc1st0, romance implícito entre os dois.
Se não é seu tipo de leitura, peço que aperte no botão de voltar. Obrigado.
Todo e qualquer comentário ofensivo será excluído.

Para quem for ler, espero que goste.

Work Text:

O aroma adocicado de baunilha pairava pela cozinha desde o início da tarde acompanhado do som de utensílios sendo usados e pequenos esbravejos quando algo saia errado. Curiosamente, o segundo Senju havia tirado o dia de folga apenas para “guerrear” contra as doçuras que ele pessoalmente pesquisou para fazer. 

Não era de seu feitio lidar com confeitaria, na verdade, Hashirama gostava mais da área da culinária do que ele. Porém, Tobirama não carecia de habilidades quando tinha pleno interesse no que pretendia apresentar, assim em suas horas vagas praticou secretamente aquela receita até conseguir um resultado favorável.

Mas treinar sem a pressão da data esperada era uma coisa. Outra coisa era chegar no dia e se ver diante dos mesmos materiais, a mesma receita, mas num espaço familiar onde a qualquer momento Hashirama poderia surgir e pegá-lo no flagra antes de estarem prontos. 

Era uma possibilidade, dado o histórico do Senju.

Apesar disso, talvez algum deus tenha ouvido suas preces para que quase tudo tenha sido feito com tranquilidade, somente um biscoito e outro não ficaram como ele queria — e eram guardados para ser dados aos seus gennin e ninguém precisava saber que havia sido feito por ele também. 

Quando enfim a nova bandeja foi finalizada, Tobirama passou a observar os biscoitos através da porta de vidro do forno com os braços cruzados, analisando-os com a mesma atenção que costumava dedicar a relatórios ou pergaminhos importantes — não porque fossem difíceis de fazer, mas porque desejava que ficassem perfeitos para a pessoa que os receberia.

Ainda assim, sentia-se ridículo, completamente ridículo como uma jovem donzela pronta para declarar seu amor. 

— É só uma vez ao ano… não significa que farei em todos — resmungou para si mesmo, pouco firme nessa decisão.

Na bancada onde estava encostado, repousavam formas metálicas espalhadas, um pouco de farinha esquecida próxima à pia e alguns biscoitos já prontos esfriando sobre uma grade. Alguns possuíam formato de coração. Outros eram flores simples. Havia até um que lembrava vagamente uma árvore — este último claramente foi um acidente.

Ou pelo menos era o que Tobirama dizia a si mesmo.

Enquanto esperava, lavou o restante da louça, guardou aqueles que já estavam secos e limpou a bancada do resto de comida. O avental felizmente salvou a blusa escura de uma mancha eterna de trigo, açúcar e manteiga. Apesar de alguns julgarem que ele seria aquele que era mais organizado em tudo, havia coisas que realmente fugiam do controle. 

A cozinha era uma delas.

Mas isso não o impediu de se sentir feliz com o pequeno caos, significava que todo seu esforço era notável. 

— Anija não precisa saber disso — murmurou, sorrindo pequeno. 

Depois de quinze minutos previstos pela receita foi que ele começou a decorar os biscoitos com uma fina camada de glacê. Seus movimentos eram pacientes, quase meticulosos. O primeiro coração recebeu apenas uma cobertura branca. O segundo ganhou pequenas linhas vermelhas.

E o terceiro...

Tobirama permaneceu alguns segundos encarando a superfície lisa antes de suspirar, aquele tinha um significado mais direto em meio aos outros, e embora tentasse parecer sério ao pegar o glacê vermelho, suas bochechas ganharam um tom rosado. 

— Não é nada demais — sussurrou, a mão tremendo sutilmente ao escrever um único caractere.

Amor.

Por alguns segundos ficou encarando o biscoito, o coração acelerado como se tivesse mais alguém no cômodo julgando-o. 

— Hmpf! Patético… — resmungou baixinho, não apagando a palavra.

Pelo contrário, continuou decorando mais alguns, ignorando completamente aquele. Mesmo que em seu olhar estivesse estampando o quanto via aqueles doces como importantes e o quanto desejava que Hashirama os recebesse com a mesma felicidade com que Tobirama os fazia. Quando terminou, organizou todos dentro de uma caixa de madeira simples. Nada extravagante. Apenas limpa, bonita e cuidadosamente preparada.

Então ficou olhando para ela, silenciosamente, por alguns segundos.

— Hashirama ainda está trabalhando e provavelmente só vai chegar depois — murmurou, apoiando o queixo na mão, seu olhar caindo ligeiramente. — Essa caixa… parece pequena demais. 

Falar de sentimentos nunca foi uma ação fácil para Tobirama, mesmo com tantos anos compartilhados ao lado do Senju mais velho. Todas as noites em claro cuidando dos irmãos menores. As refeições eram divididas quando tudo que tinham eram um ao outro. As discussões que surgiam quando uma situação obviamente não seria favorável à vila; ou a eles. 

E as reconciliações… palavras dóceis, abraços em meio ao silêncio.

Dias comuns que, de alguma forma, haviam se tornado os mais preciosos.

Talvez aquela pequena caixa não pudesse conter a realidade de seu coração, ainda assim, não impediu que um leve sorriso surgisse em seus lábios — pequeno, quase invisível.

— Nem tudo precisa ser explicado — sussurrou, deslizando os dedos na superfície. — Anija entenderá… ele sempre entende. 

… 

As próximas horas seguiram sem nenhuma novidade. Tobirama limpou o restante da casa, trocou de roupa e esperou — esperou pacientemente dentro da cozinha. Seu olhar fixo na caixa enquanto pensamentos atravessavam sua mente em diversos cenários onde entregaria aqueles biscoitos. 

E talvez estivesse tão imerso neles, que o som da porta da frente sendo aberta ecoou quase como uma bomba explodindo.

— Tobira! Eu voltei!

A voz animada reverberou pela casa.

Tobirama endireitou-se tão rápido que quase derrubou a cadeira.

— E-Eu… — A vergonha o tomou como um genjutsu, a voz perdendo a força ao concluir. — Estou na cozinha, Anija.

Hashirama não respondeu, mas seus passos anunciavam sua aproximação pelo corredor, até que sua figura surgisse na entrada. A expressão cansada, levemente descabelado. Com a roupa ainda marcada pelo longo dia de trabalho.

E sorrindo — sempre sorrindo para ele.

— Encontrei você — respondeu cheio de alegria.

A visão do outro tirou o fôlego que achava que tinha para a situação. 

— Anija não quer tomar um banho primeiro? — perguntou, sem graça.

— Depois. — Seus olhos encaravam o albino com curiosidade, o cheiro adocicado na casa também lhe dizia que algo havia sido feito. Não demorando para ver a caixa sobre a mesa. — O que é isso?

O corpo de Tobirama sobressaltou levemente, as mãos puxando a caixa para si.

— Nada!

O sorriso de Hashirama aumentou. 

— Otouto, o que é isso? — Sua voz parecia mansa, quase casual.

— Não é nada… idiota — resmungou Tobirama, agarrando a caixa como se sua vida dependesse disso.

O plano havia falhado — claramente. 

Tobirama não estava disposto a entregar os biscoitos diante da provocação do mais velho, porém Hashirama também não estava disposto a desistir de sua curiosidade. Quando tentou alcançar a caixa, o mais novo imediatamente a puxou para longe.

— Não! — ditou, arisco.

— Tobirama, por favor. — Com uma expressão levemente dócil, tentou novamente puxar a caixa.

Porém, o Senju albino mantinha a caixa firmemente segura entre suas mãos. 

— Não — ditou mais uma vez.

— Vamos lá, é só uma olhadinha. — Outra tentativa falha.

— Não vai ver! — Se afastando da bancada, abraçou a caixa.

Hashirama soltou um suspiro dramático antes de tentar novamente. O resultado foi uma breve disputa pela cozinha, uma cadeira fora do lugar e Tobirama protegendo a caixa junto ao peito como se ela fosse um pergaminho proibido.

Infelizmente, a vantagem física do mais velho logo se fez presente e no instante que tentou fugir, o mais velho simplesmente envolveu sua cintura com um braço para tomar posse da caixa.

— Peguei.

— Anija!

— Não fique com raiva — pediu ele, manhoso como um cachorrinho.

As íris vermelhas encararam o mais velho com uma raiva silenciosa, mas seu coração estava acelerado demais, sua dignidade perdida nessa tentativa de impedir a entrega dos doces. Tobirama já não tinha mais o que perder naquele dia, então não o impediu de abrir a tampa, se negando a observá-lo. 

Já Hashirama sorriu vitorioso, ajustando a posição de ambos para só então abrir a caixa. Para sua surpresa, não era nada do que tinha pensado que seria — embora não tivesse pensado tanto assim. Foi nesse instante que o silêncio retornou delicadamente.

Hashirama piscou.

Uma vez.

Duas.

O calor residual acariciava sua pele, o aroma doce flutuando até eles. Ao mesmo tempo, o sorriso em seu rosto cresceu lentamente enquanto observava os biscoitos organizados com cuidado dentro da caixa. Corações, flores simples e alguns desenhos que reconheceu imediatamente como obra das mãos de Tobirama. Nenhum era perfeitamente igual ao outro, mas isso apenas tornava tudo mais precioso aos seus olhos.

Então seu olhar encontrou um deles.

O coração decorado repousava próximo ao centro da caixa, discreto entre os demais. Uma única palavra escrita em glacê vermelho destacava-se sobre a cobertura clara.

Amor.

O ar pareceu abandonar seus pulmões e, por um instante, Hashirama não conseguiu dizer nada. Seus dedos pairaram sobre o biscoito sem tocá-lo, como se temesse estragar algo frágil demais.

Lentamente ergueu os olhos, encontrando Tobirama evitando encará-lo. As pontas das orelhas do albino estavam vermelhas, as bochechas também — como um gato indisposto a reconhecê-lo.

E de repente todo o restante fez sentido.

A casa impregnada pelo cheiro de baunilha.

A farinha esquecida sobre a bancada.

A caixa protegida como um tesouro.

O nervosismo.

A vergonha.

O carinho escondido em cada detalhe.

— Você fez esses biscoitos para mim? — Os olhos escuros de Hashirama suavizaram-se, tão amorosos quanto a terra fértil após a chuva.

Tobirama desviou o olhar, não suportando ser visto daquela forma.

— É… eu fiz — murmurou, as bochechas ardendo furiosamente. — F-Feliz dia dos namorados.

A resposta ressoou dentro do cômodo, selando todo e qualquer tipo de conclusão que poderia existir além de Tobirama ter feito aqueles doces decorados para ele — para seu Anija. Assim, com o coração cheio de carinho, afrouxou o aperto.

— Tobirama...

A voz veio suave, cheia de calor. 

E Tobirama não conseguiu se impedir de voltar a encará-lo, encontrando um Hashirama com os olhos marejados e um sorriso largo.

— Não… — murmurou, o coração falhando uma batida. — Não chore, Anija.

— Eu não vou chorar — sussurrou, mesmo que uma lágrima já deslizasse por sua bochecha.

— Você está! — resmungou Tobirama, rapidamente limpando-a. — Não é para chorar.

Hashirama riu baixinho, cobrindo a mão menor com a sua. — Eu não estou.

— Está literalmente chorando! — Tobirama não sabia se batia no irmão ou se tentava impedir as lágrimas que já tornavam o rosto maduro em uma lamentável cachoeira. 

— Só um pouquinho. — Ele riu, beijando a palma macia. — Mas vale a pena — declarou, pegando um dos biscoitos com extremo cuidado e dando uma mordida generosa. 

O gosto agridoce preencheu sua boca na primeira mastigada, tornando as lágrimas muito mais abundantes — talvez dramáticas demais para o momento. 

— Idiota… — Tobirama cruzou os braços, virando o rosto com falsa raiva, embora atento a expressão do outro.

Hashirama gargalhou alto, colocando o restante do biscoito na boca para então puxá-lo completamente para si.

— Está delicioso, Tobira — disse, firmemente.

Não era uma grande declaração, tampouco uma piada dita fora de hora. Era apenas Hashirama sendo Hashirama: sincero com seus sentimentos, transparente demais, amoroso demais. 

E, talvez seja por isso que Tobirama sentiu o peito aquecer devagar, como brasas silenciosas. Suas bochechas, já tão aquecidas pela luta e pela vergonha, se tornaram ainda mais vermelhas. Nenhuma palavra foi dita além do olhar falsamente indiferente, mas que desmoronou no instante em que Hashirama se aproximou, depositando um beijo demorado em sua testa.

Um gesto simples.

Cotidiano.

Mas que ainda era capaz de silenciá-lo completamente.

— Feliz dia dos namorados, Tobirama.

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