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Jayce deveria ter desconfiado que algo iria acontecer naquele dia. Era uma manhã tranquila como nenhuma outra. O Conselho não estava pegando no pé deles, nada tinha explodido e, apesar da previsão do tempo ter previsto neve, o céu estava claro e apenas com um leve vento gelado. E houve progresso naquele dia, tanto progresso! Jayce estava de tão bom humor e tão focado no protótipo do que esperançosamente ajudaria a limpar o ar de Zaun—um projeto idealizado e proposto por Sky com apoio de Viktor, e que tanto Jayce quanto o parceiro dele estavam revezando para mexer e não abandonar completamente os projetos que lhes dariam os fundos necessários para continuar inventando e vivendo o sonho dos dois—que ele precisou olhar duas vezes para ter certeza de que não havia imaginado aquilo na visão periférica dele.
“Viktor!” Jayce exclamou com a voz engasgada, todo o ar de seus pulmões tendo o abandonado.
“Hm?” Viktor, que havia se levantado com um grunhido de seu banco com a ajuda de sua bengala e estava indo em direção a uma das lousas para verificar uma informação sobre o diagrama que estava revisando, se virou em direção a ele. Vendo a agitação de Jayce, ficou em alerta, ele mesmo nervoso. “Jayce? O que foi?”
Jayce abriu a boca e a fechou novamente. Ele estava sentindo um terror intenso como nunca antes sentira e uma terrível vertigem, precisando se segurar em uma das mesas de trabalho.
“Você... Você está sangrando,” ele disse, baixo e funestamente, vendo um futuro na frente dele que acreditou ter sido impedido com os tratamentos que Viktor fizera. Jayce apontou para o banco, tremendo. Ele sentia frio. Não poderia ser isso. O fim não poderia estar chegando. Eles tinham muitas coisas para fazer. Juntos. Invenções e progresso e lugares para visitar, músicas para ouvir, doces para comer. Jayce ainda nem tinha arranjado coragem de dizer que amava el-
“Oh.” Viktor olhou para o banco, uma mancha de sangue na superfície dela, e se encolheu com uma careta. “Oh não.”
“Oh não?!” Jayce repetiu, espantado, quase revoltado. “Viktor, você está bem? Deveríamos ir para o hospital? O que eu estou dizendo, é óbvio que vamos para o hospital!” Ele disse em um mesmo fôlego, tentando impedir o pânico de o dominar, mas a calma de Viktor não estava ajudando. “Viktor, isso pode ser sério! Você sabe disso!”
“Jayce,” Viktor levantou a mão pedindo para que ele se calasse e o deixasse falar. “Eu estou bem, eu te garanto.”
“Viktor, você está sangrando-”
“Eu sei. Eu vou ao banheiro!” Viktor anunciou com as bochechas levemente coradas, agarrando a bolsa dele que ele havia abandonado mais cedo sobre o sofá. “Jayce, você seria um cavalheiro e pegaria uma das minhas mudas de roupas e me entregaria? Por favor,” pediu sem olhar para Jayce antes de fechar a porta atrás de si.
“O-Okay!”
Jayce correu para o depósito e pegou um dos uniformes que Viktor havia deixado, junto com Jayce, como segurança caso precisassem de uma troca de roupas de emergência—algo não tão incomum quando você é Jayce e Viktor e criam coisas que explodem ou pegam fogo ou simplesmente jorram óleo... ou líquidos ainda piores e mais perigosos.
“Aqui.” Ele bateu na porta e abriu uma fresta, entregando as roupas para Viktor olhando para o outro lado.
“Obrigado Jayce.”
“Viktor, eu realmente acho que deveríamos ir pro hospital rápido.” Jayce disse apoiando as costas na porta, uma de suas mãos agarrando o tecido da camisa de botões e a amassando sob o punho dele, como se estivesse segurando o próprio coração e o impedindo de se quebrar. “Eu sei que você sabe se cuidar, mas eu estou preocupado. Não é normal sangrar... hm sabe, desse jeito,” ele comentou constrangido. “Isso nunca me aconteceu!”
“É normal para mim.” Viktor disse, sua voz abafada por trás da porta. “Não super normal agora. Mas costumava acontecer comigo todos os meses. Eu estava tão focado nas manoplas—que aliás preciso mostrar para você uma pequena correção que fiz—que nem percebi nada. Eu achei que a dor que estava sentindo era de fome. Está tudo bem. Por favor, deixe isso para lá.”
“O que? E nenhum médico estranhou isso?” Jayce questionou, não deixando para lá. “Você foi atrás de descobrir a causa? Deveríamos ir atrás de uma segunda opinião? Você está com mais dor do que o costume? E quando foi a última vez que você comeu algo?” ele perguntou, uma pergunta atrás da outra, não se importando se eram perguntas muito pessoais. Não havia isso de perguntas pessoais entre os dois depois de anos de convívio.
“Você vai continuar fazendo perguntas, não vai?” Jayce conseguiu ouvir Viktor bufando dentro do banheiro.
“Hm, sim?”
Jayce quase caiu para trás quando Viktor abriu a porta. Ele estava com novas roupas, apesar de muito parecidas. E o rosto dele estava muito sério.
“Jayce, eu estava planejando lhe contar isso faz um tempo e agora parece o momento ideal. Eu sou um homem trans! E eu estou sangrando não porque estou morrendo! É normal!” Viktor anunciou com o queixo erguido. Ele estava pálido, mais pálido que o costume. Jayce pensou que poderia ser por conta do sangue que ele perdera, e talvez em parte fosse, mas então percebeu o leve tremor no queixo de Viktor. Ele estava fingindo. Ele estava fingindo uma segurança e indiferença sobre a reação de Jayce. Viktor estava com medo. Ele precisava ser reassegurado que Jayce continuava vendo Viktor do mesmo jeito. E ele faria justamente isso.
“Legal!” Jayce colocou a mão no ombro de Viktor. “Por mim, tudo ótimo parceiro.” Ele deu um tapinha no ombro de Viktor. “Esse homem genial precisa de alguma coisa antes de mostrar as mudanças que fez nas manoplas? Remédio? Comida, talvez? Quer que eu compre um pedaço daquela torta de morango que você tanto gosta, Viktor?” ele perguntou, sorrindo, orgulhoso de si mesmo pelo quão normal e suportivo estava agindo. De maneira suave.
Viktor o encarou por um tempo e então ele soltou um sopro de ar, deixando uma pequena risada escapar pelos lábios dele enquanto balançava a cabeça entretido. “Quer saber? Eu aceito o pedaço de torta.” Ele sorriu, um sorriso completo, seus dentes tortos a mostra, uma das coisas mais lindas que Jayce já vira. “Obrigado, Jayce.”
Ele olhou para Viktor, realmente olhou para Viktor, não se importando em conter todo o carinho que sentia pelo homem na frente dele de estar estampado à vista em seu rosto, e ele mesmo sorriu. “Não se preocupe, V. Pode contar comigo para o que for."
