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A luz suave da manhã escorria pelas frestas da cortina, tingindo o apartamento com tons dourados. O silêncio ainda dominava os cômodos, interrompido apenas pelo ruído distante da cidade que despertava aos poucos além das janelas.
Exceto que Kakashi já estava acordado — o que era raro.
Normalmente, Iruka era quem deixava a cama primeiro. O professor possuía hábitos organizados demais para permanecer debaixo das cobertas depois que a manhã começava, enquanto Kakashi frequentemente tentava negociar mais alguns minutos de descanso.
Naquela manhã, porém, ele havia despertado antes mesmo do despertador. Com cuidado, afastou o braço que descansava sobre a cintura do companheiro e deslizou para fora da cama. Iruka murmurou alguma coisa incompreensível durante o sono, mas apenas isso, não despertou ou reclamou da ação.
Kakashi permitiu-se sorrir enquanto parava um instante para admirar o marido.
O lençol havia escorregado parcialmente durante a noite, revelando parte dos ombros morenos. Os cabelos escuros estavam espalhados sobre o travesseiro de forma desordenada e a expressão relaxada fazia parecer que todo o peso do mundo havia desaparecido por algumas horas.
Iruka exalava uma beleza serena, permanecendo tão bonito quanto nos primeiros anos juntos.
Com um suspiro silencioso, deixou o quarto. Pés descalços tocaram o piso frio enquanto caminhava até a cozinha, o sono espantado com os pequenos arrepios que o frescor residual da madrugada deixava em sua pele. Quando chegou ao cômodo, rapidamente colocou as sacolas que havia escondido no dia anterior sobre a bancada.
Não era nada particularmente sofisticado, mas tinha seu valor por ser algo que Iruka gostava — e isso bastava para torná-lo importante. Mantendo a cautela, abriu a geladeira e retirou as frutas, o iogurte e a manteiga. O pacote de pão que Iruka sempre escolhia quando iam ao mercado e que dizia ser melhor porque possuía uma casca mais macia.
Kakashi jamais havia percebido a diferença, mas guardou a informação mesmo assim. Porque era algo que seu marido havia dito com aquela expressão genuína de felicidade enquanto abraçava a massa como se fosse um tesouro.
— Ele estava adorável naquele dia — sussurrou, rindo baixinho.
Logo colocou a cafeteira para funcionar, o aroma do café espalhando-se lentamente pelo apartamento deixando a sensação de quentura e aconchego matinal. Ao mesmo tempo, ele cortou os morangos em pedaços minuciosos e organizou as fatias sobre um prato. Passou manteiga nos pães, depois preparou ovos da maneira exata que Iruka gostava.
Nem muito cremosos, nem mexidos demais.
Enquanto trabalhava, pequenas lembranças surgiam naturalmente. A primeira vez que haviam tomado café juntos na época em que eram só amigos de faculdade. Os almoços compartilhados sempre que suas jornadas de trabalho se cruzavam. As noites em que chegavam cansados demais para cozinhar e acabavam dividindo comida por entrega sentados no chão da sala. Os beijos roubados no jardim da escola em que “coincidentemente” começaram a trabalhar.
Momentos simples que, para muitos, eram apenas rotina, mas que juntos construíam uma vida inteira de amor e paciência.
— Ele ainda continua tão tímido quanto no nosso primeiro beijo.
O sorriso travesso contornou os lábios do grisalho, que distraído não percebeu a quantidade de comida diante dele. Não até o momento em que terminou de montar a bandeja.
— Eu acho que exagerei… um pouquinho — resmungou, coçando a cabeça levemente. — Mas podemos dividir se ele quiser.
Decidido, colocou o restante das coisas: a xícara de café, o suco de laranja no canto, uma pequena tigela de geleia e uma única flor amarela colocada ao lado da xícara — Iruka gostava de flores, cultivava algumas em segredo, porém preferia fingir que não gostava de tê-las no apartamento.
Não que fosse um problema, mas Kakashi também não insistia.
Lavou a louça que sujou para só então pegar a bandeja, retornando ao quarto com passos firmes e lentos. Para facilitar, havia deixado a porta entreaberta, um espaço mínimo para que pudesse empurrá-la sem atrapalhar o sono do outro.
A luz havia avançado mais durante sua ausência e agora os feixes amarelos iluminavam parte da cama, assim como também o homem recém-sentado entre os travesseiros. As mechas castanhas caíam de forma desalinhada sobre os ombros, o olhar piscava devagar, confuso, meio sonolento.
— Kashi? — murmurou.
O Hatake sorriu de imediato, respondendo baixo: — Bom dia.
Iruka coçou os olhos levemente antes de notar as mãos ocupadas do marido.
— Hmmm… O que é isso?
— Uma bandeja. — Ergueu-a, rindo.
Iruka estreitou os olhos, inclinando a cabeça ligeiramente.
— Ah, eu consigo ver isso — debochou.
— Ótimo, então não preciso explicar para que serve — respondeu com uma piscadela.
Se estivesse mais sonolento, Umino só teria aceitado as provocações bobas do marido. Porém sabia que o outro dificilmente acordava cedo e com tanta empolgação para fazer o café da manhã.
— Kakashi — chamou um pouco mais firme, arqueando a sobrancelha.
— Sim? — O sorriso dele aumentou.
— Querido, o que exatamente está acontecendo? — A expressão sonolenta misturava suspeita e curiosidade enquanto um bocejo escapava de seus lábios. Exatamente como sempre acontecia quando Kakashi resolvia fazer alguma surpresa muito fora do comum.
Ele, por outro lado, não respondeu, apenas caminhou até a cama e deixou a bandeja sobre o colchão. Depois sentou-se ao lado do marido, a mão puxando levemente o corpo magro para seu lado, sua expressão cheia de doçura enquanto esperava. Um momento de silêncio que durou apenas alguns segundos até que Iruka finalmente olhasse a bandeja.
Tudo perfeitamente arrumado, o vapor sutil do café misturado ao cheiro cítrico do suco. A flor lhe chamou atenção em segundo plano, delicada. Sua mão hesitante tocou a haste antes de levá-la até o nariz e cheirá-la.
— Bom — murmurou.
Kakashi observou, ainda sorrindo apaixonado, exatamente como sorrira na primeira vez em que o viu. Lá fora, o mundo parecia distante, sem trabalho, sem responsabilidades.
Apenas os dois.
Quando as íris terrosas encontraram os dele novamente, cinco palavras foram sussurradas em um tom suave:
— Feliz Dia dos Namorados, Iruka.
