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Fissuras

Summary:

O homem que Mei Nian Qing procurava havia desaparecido muito antes das grades se fecharem.

JunMei | TGCF Pós-Canon

Notes:

Xia Wu Hao shimeii!!

A coletânea Atrasados do dias dos namorados do adm Venerable-M esta finalizado com esta angst dos JunMei de TGCF.

Mas deixamos um alerta muito importante:
Se você não leu todos os livros da novel Tian Guan Ci Fu, talvez seja melhor não prosseguir com a leitura, pois a mesma se passa após o fim da batalha no último livro, mencionando assim o plot final da novel.
Mas se quiser prosseguir sem problemas com spoilers, fique a vontade.

Desejamos uma boa leitura a todos

Work Text:

Mei Nian Qing estava sentado do lado de fora das grades, observando o antigo imperador com o coração pesado. As mãos repousavam sobre o colo, imóveis, como faziam desde que tudo acontecera. Nenhuma palavra havia sido dita desde que chegara ali, restando apenas o silêncio estranho entre eles — tão cheio quanto antigo.

Do outro lado, o homem vestido de branco segurava aquela máscara entre os dedos como se ela ainda fosse capaz de sustentar a identidade que vestira durante séculos. O Imperador dos céus, Jun Wu. A calamidade vestida de branco, Bai Wuxiang. Duas vidas completamente diferentes, mas banhadas em sangue e morte.

— Sua Alteza ainda a usa? — perguntou baixo.

Jun Wu sorriu por trás da máscara. Não era um sorriso feliz, tampouco gentil. Sem olhar diretamente para o outro, seus dedos deslizaram pela superfície alva como se tocassem algo precioso.

— Ela é mais honesta do que meu rosto real — respondeu ele.

O comentário arrancou apenas um suspiro de Mei Nian Qing. 

Durante séculos, ele tentara fugir de tudo que o lembrava dele — deles. Tornara-se mestre de Xie Lian na esperança silenciosa de impedir que outro príncipe trilhasse o mesmo caminho. Felizmente, Xie Lian possuía um coração sincero e encontrara alguém que jamais permitiu que enfrentasse a escuridão sozinho.

Jun Wu, porém, não havia tido essa sorte. 

Permitira que o desespero apodrecesse tudo aquilo que havia sido, até que não restasse mais vestígio do príncipe que um dia conhecera — o jovem que acreditava ser possível salvar todos. O homem que estendia a mão antes mesmo de pensar na espada.

Seu olhar caiu um pouco, os dedos entrelaçaram-se sobre o colo em tristeza muda.

— Às vezes... — sua voz saiu baixa, quebrando o silêncio tênue outra vez. — ...ainda procuro por você.

Jun Wu desviou o rosto, a máscara ocultando completamente sua expressão de desprezo.

— Não faça isso.

A resposta veio seca, quase ríspida.

O sacerdote se moveu de ímpeto, sua voz se elevando no espaço vazio. 

— Por quê?! Sua Alteza não se arrepende do que fez a Xie Lian? Ao povo de Xian Le? Aos deuses? Você realmente se vangloria com a dor que causou a todos?

Quanto mais ele falava, mais a máscara era apertada entre os dedos frios do antigo imperador. Ainda assim, a resposta demorou a vir. Não porque sentisse vergonha do homem em que havia se tornado. Não havia arrependimento suficiente para isso.

Porém, aquele que o interrogava ainda tinha esperanças — frágeis esperanças. A verdade, por outro lado, seria para ele como uma prisão cruelmente dolorosa.

Jun Wu inspirou profundamente antes de responder.

— Porque ser o mesmo de antes... — seus dedos apertaram a superfície delicada até quase rachá-la. — ...seria um insulto depois de tudo que passei.

As palavras caíram pesadas, cheias de um ressentimento profundo. Afinal, ninguém atravessava mares de sangue, montanhas de cadáveres, traições, perdas e séculos de solidão... e permanecia intacto. Esperar isso dele era como exigir que uma árvore, atingida incontáveis vezes por raios, ainda florescesse na primavera.

Mei Nian Qing fechou os olhos, a compreensão ardia em seu peito. Não tanto quanto o ressentimento que consumia Jun Wu. Ele, no entanto, conhecia a origem daquela escuridão, havia caminhado ao lado dela quando ainda era apenas uma sombra pequena, quase invisível antes que se tornasse um abismo.

E, ainda assim...

Ainda assim não conseguira impedir.

Se houvesse uma oportunidade de mudar, ele teria tentado — teria salvo o doce e heroico príncipe que vivia em suas memórias. No entanto, agora, tudo o que lhe restava era acompanhar o antigo imperador naquela longa prisão. Não por obrigação, mas porque era a única forma de permanecer ao lado da última lembrança daquele homem.

Seu olhar então se ergueu para encarar a máscara enquanto uma lágrima singela escapava pelo canto do rosto. 

— Eu sinto sua falta — murmurou enfraquecido.

Jun Wu permaneceu imóvel, com uma imensa vontade de rir; de chorar. A frase parecia absurda demais: sentir falta de alguém que ainda respirava diante dele. Mas ainda fazia um amargo sentido. 

Porque Mei Nian Qing não sentia falta do Imperador Celestial. Não. Ele sentia falta do homem de séculos atrás. Do rapaz que ria sem perceber. Do príncipe que acreditava que bondade era suficiente.

Era patético. 

Ridículo. 

Imprudente. 

Ainda assim, havia um gosto agridoce naquela confissão. Havia séculos que ninguém dizia sentir falta dele. Não do Imperador Celestial. Não de Bai Wuxiang. Dele.

Um novo suspiro escapou. Jun Wu abaixou lentamente a máscara e, pela primeira vez desde que fora derrotado, seus olhos encontraram os dele sem qualquer barreira. As pupilas cinzentas cheias de um profundo cansaço.

— Eu também — sussurrou, tão baixo que sua voz quase não ecoou pelo espaço. — Também sinto falta dele. 

O silêncio voltou a preencher a cela, nenhum dos dois chorou de fato. As lágrimas pertenciam a pessoas que ainda tinham esperança de recuperar o que perderam enquanto eles já sabiam que algumas pessoas não morrem de uma vez.

Morre-se aos poucos.

Em escolhas.

Em renúncias.

Em cicatrizes.

Até que, um dia, resta uma casca vazia usando o mesmo nome.

Mei Nian Qing estendeu a mão por entre as grades, os dedos trêmulos. Um pedido mudo que não foi impedido por Jun Wu, e no primeiro toque, um sorriso vazio curvou-se em seus lábios finos.

— Não se iluda, Nian Qing… eu nunca sairei daqui — sussurrou, definitivo.

Nenhum dos dois soube dizer se Jun Wu falava da cela... ou de si mesmo.

Mei Nian Qing, por sua vez, apenas assentiu de leve. Um sorriso fraco curvou-lhe os lábios enquanto seus olhos permaneciam sobre as mãos unidas.

— Eu sei, Alteza… — Sua voz quase desapareceu, um sopro dissolvido no silêncio enquanto apertava suavemente os dedos ásperos. — Eu sei…

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