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Camélia

Summary:

Há sentimentos difíceis demais de colocar em palavras. Por isso, às vezes, uma camélia basta.

Sugushoko | Jujutsu Kaisen

Notes:

Yo meus amores ;3

Ainda da coletânea de namorados, hoje deixou uma SuguShoko para vocês
Espero que gostem ❤️

Work Text:

A noite cobriu os céus com suas nuvens escuras, apenas as estrelas cintilavam na imensidão azul. A escola jujutsu estava quieta, ninguém era visto caminhando pelos corredores, nenhuma voz ressoava para fora dos dormitórios. As barreiras que a protegiam ondularam brevemente com a presença de Suguru. Nada suficiente para causar alarme, apenas uma pequena perturbação na energia amaldiçoada que envolvia o campus. 

Afinal, aquele lugar já fora seu lar um dia.

Seus passos mal pareciam tocar o chão enquanto atravessava os corredores em direção a uma das únicas pessoas que ainda se propunha a ver, ainda que aquela não fosse a primeira vez que vinha visitá-la. 

O silêncio que encontrava ali era diferente daquele dos dormitórios ou das salas de aula abandonadas. Havia um peso peculiar nas alas onde Shoko trabalhava, algo como um cansaço acumulado nas paredes. O eco de dores que haviam sido tratadas, de vidas salvas por pouco e de horas intermináveis gastas costurando corpos que jamais deveriam ter sido destruídos de formas brutais.

Porém, a vida de um feiticeiro raramente terminava na velhice. Normalmente era interrompida muito antes, deixando para trás apenas nomes gravados em memoriais e fotografias esquecidas em gavetas.

Talvez imaginar-se chegando aos cinquenta anos já fosse um exercício de esperança. 

Naquele instante, por outro lado, sua atenção estava mais focada no singelo presente que trazia. Não era a primeira vez que vinha deixar uma flor para Ieiri e, pelos seus cálculos, aquela já era a sétima — uma delicada camélia vermelha.

A escolha não foi por acaso.

Rosas eram bonitas, mas chamativas demais. Lírios possuíam uma elegância quase solene. Hortênsias eram delicadas. Nenhuma delas parecia certa quando pensava em Shoko, não até encontrar uma floricultura à beira da estrada repleta de camélias que imediatamente lhe trouxeram Shoko à mente.

Bonita sem precisar chamar atenção.

Resistente sem jamais parecer rígida.

Suave sem ser frágil.

Era exatamente o tipo de flor que ele imaginava encontrar crescendo sozinha em algum lugar tranquilo, ignorando completamente a necessidade de impressionar quem passasse por perto.

E talvez ele não tivesse tido tempo para pensar em qual cor deveria entregar, então comprou todas as cores, e foi entregando devagar. Primeiro foram as camélias rosas, depois vieram as brancas, alternando os dias. Pequenos presentes deixados sem assinatura, embora suspeitasse que Shoko já soubesse quem era o responsável.

Mas aquela última era a vermelha.

Se alguém lhe perguntasse o motivo, provavelmente negaria qualquer significado especial. Diria que a floricultura tinha poucas opções ou inventaria alguma desculpa conveniente. Ainda assim, seus dedos permaneceram um instante a mais sobre as pétalas escarlates. Porque existiam sentimentos difíceis demais de colocar em palavras e aquela era sua única maneira de dizê-los sem colocar a médica em perigo.

Não importava a opinião dos outros de qualquer forma.

— Ontem ela estava admirando a branca... — murmurou, um sorriso discreto surgindo em seus lábios, erguendo a outra mão para empurrar a porta do consultório.

No entanto, parou.

Diferente dos outros dias, onde sempre encontrava o vazio e o silêncio no cômodo gélido, dessa vez deparou-se com ela dormindo. A princípio, pensou que estivesse apenas cochilando ou só de olhos fechados para descansar. Porém, bastou observá-la por alguns segundos para perceber que o sono havia vencido completamente.

— Ah, Shoko… — suspirou baixo.

Sentada atrás da mesa, ela mantinha a cabeça apoiada sobre os braços cruzados enquanto relatórios e prontuários permaneciam espalhados ao seu redor. Uma xícara de café esquecida repousava próxima ao cotovelo. O líquido escuro em seu interior já estava completamente frio. Os vestígios de energia amaldiçoada ainda flutuavam pelo ambiente, fracos e recentes.

Alguém havia chegado gravemente ferido, talvez mais de uma pessoa, deduziu com certa apatia. Shoko provavelmente passara horas utilizando sua técnica reversa sem sequer se permitir uma pausa adequada — como sempre.

Suguru sentiu algo apertar suavemente dentro do peito, porque aquilo também era típico dela: cuidar dos outros primeiro.

Sempre.

Mesmo quando ninguém parecia disposto a cuidar dela.

Nem mesmo Satoru.

Nem mesmo ela própria.

— Você realmente não aprende... — murmurou em voz baixa, a expressão ligeiramente amarga.

Naturalmente, nenhuma resposta veio, apenas o som tranquilo de sua respiração.

Ainda assim, sorriu pequeno, aproximando-se devagar da mesa. A luz branca do consultório destacava os traços cansados no rosto de Shoko. As olheiras suaves sob os olhos fechados. Alguns fios escuros caídos sobre a testa. A tensão residual ainda presente nos ombros mesmo durante o sono.

Quantas vezes havia visto aquela expressão?

Quantas vezes a encontrara trabalhando até a exaustão enquanto fingia que estava tudo bem?

— Eu darei a você uma vida melhor quando tudo tiver sido concluído — sussurrou, os dedos afastaram cuidadosamente uma mecha de cabelo de seu rosto.

Shoko sequer se moveu. 

A confiança implícita naquele gesto aqueceu algo dentro dele e, por mais que os outros não apoiassem, ela sempre fora assim. Mesmo nos dias mais difíceis quando o mundo parecia decidido a desmoronar em mortes e lutas.

De alguma forma, ela confiava nele — e isso bastava para seu coração tolo.

Não era preciso pensar muito no que faria a partir dali, deixando a camélia sobre os relatórios, uma surpresa que deixaria para o amanhecer. Depois disso, com cuidado, passou um braço sob os joelhos dela e outro por suas costas erguendo o corpo magro sem resistência.

O contato familiar tirou um pouco mais de sua compostura, fazendo-o ficar parado no mesmo lugar por mais um instante enquanto Shoko emitiu apenas um pequeno resmungo sonolento para então automaticamente acomodar o rosto contra seu peito — como se reconhecesse sua presença antes mesmo de despertar.

Outra batida forte.

O sorriso de Suguru tornou-se inevitável quanto doce.

— Nem vai reclamar? — perguntou num tom leve.

Ela, porém, suspirou.

A resposta mais próxima de um "não" que receberia naquela situação. Suguru riu baixo, abraçando-a mais contra si e no mesmo silêncio morno saiu do consultório. Cada passo era dado com cautela e sutileza, protegendo Ieiri de qualquer ameaça que pudesse surgir.

Felizmente foi uma caminhada tranquila até alcançar uma de suas maldições que o aguardava silenciosamente.

A criatura lembrava uma enorme arraia de corpo escuro, movendo-se pelo ar com uma elegância quase hipnótica. Seus olhos brilhavam fracamente na escuridão enquanto observava o feiticeiro se aproximar.

— Vamos — disse, saltando sobre suas costas com facilidade.

A maldição elevou-se imediatamente, o vento noturno encontrou-os poucos segundos depois e diante deles Tóquio estendia-se abaixo como um oceano de luzes douradas, prédios com pessoas ainda trabalhando, ruas movimentadas, janelas iluminadas. Milhares de vidas acontecendo simultaneamente.

Pessoas terminando seus jantares.

Casais assistindo televisão.

Crianças dormindo.

Em algum lugar daquela imensidão alegre, havia feiticeiros que continuavam lutando contra maldições perigosas. Outros atendiam chamados. Outros derramavam sangue. Alguns perdiam a vida. Mas, pela primeira vez naquela noite, Suguru permitiu-se ignorar tudo aquilo, porque Shoko finalmente estava descansando.

E porque ela estava em seus braços.

— Suguru...?

A voz surgiu baixa, levemente rouca pelo sono.

Ele abaixou o olhar encontrando os dela que estavam parcialmente abertos.

— Estou aqui — sussurrou ele, aconchegando-a mais em seu peito e braços.

Shoko o encarou por segundos, parecendo refletir sobre aquela informação, no minuto seguinte voltou a fechar os olhos com uma sutil tranquilidade em sua expressão.

— Certo...

Só isso.

Como se sua presença explicasse tudo.

Suguru observou as feições delicadas ainda surpreso, mas não reclamou, deixando que ela continuasse a dormir enquanto voltava a observar o percurso até o apartamento. Às vezes se abaixava para cheirar os fios castanhos ainda que o cheiro fosse quase nulo por conta do cigarro, ainda conseguia distinguir uma leve fragrância na pele macia. Assim como sentia a respiração quente deslizar em sua pele, os dedos agarrados a sua blusa fracamente.

Ele poderia viver só com isso.

— Que forma doce de me torturar — murmurou, a testa deitada sobre a cabeça dela.

No agradável voo, eles chegaram ao apartamento e ela continuava dormindo. Assim que pousou na varanda, a maldição sumiu, Suguru atravessou os cômodos em silêncio e seguiu diretamente para o quarto.

A iluminação suave dos postes atravessava parcialmente as cortinas, desenhando sombras tranquilas sobre os móveis. Com cuidado, ele a acomodou sobre o colchão.

Ou tentou.

Pois assim que começou a se afastar, dedos mornos prenderam-se à manga de sua roupa.

Suguru olhou para baixo encontrando novamente as íris castanhas o encarando, semicerrado.

— Não… — ela murmurou.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Não?

Ela acenou levemente. 

— Não vá embora… 

Era um pedido simples, mas cheio de nuances implícitas. Suguru então sentou-se na beirada da cama, seu olhar sutilmente convencido. 

— Você nem está acordada direito, Shoko — respondeu ele, sorrindo. 

Ela bocejou, a mão ainda firme na roupa dele. 

— Isso importa? — perguntou. 

Suguru a encarou brevemente, os dedos roçando a bochecha macia.

— É discutível. — Ele sorriu. 

Ela bufou baixo.

O quarto mergulhou novamente no silêncio — um que era confortável, suave. A mão dela continuava segurando sua manga, como se precisasse ter certeza de que ele permaneceria ali.

E depois de alguns segundos, Shoko falou de novo:

— Foi você que trouxe aquelas flores?

— Como descobriu? — Os dedos dele brincam com uma mecha.

Shoko sorriu dessa vez, um sorriso que curvou seus olhos em uma felicidade frágil.

— Porque ninguém mais me dá flores.

A resposta veio tão naturalmente que ele sentiu o coração tropeçar dentro do peito.

— Achei que combinavam com você — murmurou ele, tentando parecer indiferente aquelas palavras.

— Hm… — ela resmungou, fechando os olhos. 

— Não gostou?

Ele a observava, a curiosidade ardendo em sua pele para saber se ela tinha entendido os significados. Ao mesmo tempo em que uma voz minúscula sussurra que talvez fosse melhor ela não tivesse entendido. 

Ainda poderia conviver com a indiferença… desde que pudesse estar perto dela. 

Quando ela abriu os olhos com um pouco mais de amplitude, o suficiente para encará-lo e dizer: 

— Gostei.

Para então puxar sua manga de leve, a voz mais alta e limpa do sono.

— Mas gosto mais de você.

Durante alguns segundos, Suguru apenas ficou olhando para ela, sem resposta ou reação. Como se o cérebro tivesse simplesmente abandonado suas funções habituais para apenas reverberar aquela frase.

Porém era injusto.

Profundamente injusto.

Shoko conseguia dizer aquelas coisas com a mesma naturalidade de quem comentava sobre o clima. Enquanto isso, ele precisava lidar sozinho com o estrago que provocavam e com a solidão que viria quando saísse dali.

O sorriso satisfeito que surgia nos lábios dela só confirmava que já sabia exatamente o efeito que havia causado. No fim ele suspirou, guardando a vontade de dizer aquelas três palavras proibidas.

— Isso foi cruel — respondeu, em vez disso.

Ela riu baixo. 

— Merecido.

— Por quê? — De leve, cutucou a bochecha dela. 

— Porque você demorou para aparecer… 

Suguru soltou uma risada baixa — uma daquelas raras risadas que pareciam escapar dele sem esforço. Deixando-o incapaz de responder ou mesmo continuar negando o pedido anterior. 

Como poderia?

Ela estava se forçando a continuar acordada só para ele ficar. 

Com apenas um olhar, retirou os sapatos e acomodou-se ao lado dela, quase de imediato Shoko aproximou-se dele. O corpo aconchegado em sua lateral, o rosto apoiado em seu ombro. Os dedos continuaram presos ao tecido de sua roupa.

E a respiração dela tornou-se mais lenta, mais tranquila.

— Melhor? — perguntou ele.

— Muito.

A resposta veio quase como um suspiro e em poucos instantes, ela já havia adormecido completamente.

Suguru permaneceu imóvel, observando o teto.

Sentindo o peso confortável da mulher que amava repousando contra ele. A camélia vermelha continuava esquecida sobre uma mesa no consultório.

Mas não importava.

Porque, naquela noite, a única coisa que realmente desejava oferecer a Shoko não era uma flor.

Era descanso.

E, pela serenidade estampada em seu rosto adormecido, parecia que finalmente havia conseguido. 

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