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A primavera havia chegado às montanhas de Cang Qiong. Os picos ainda mantinham vestígios do frio do inverno nas regiões mais altas, porém os vales já estavam tomados pelo verde vivo das novas folhas. Pequenas flores surgiam entre as pedras dos caminhos e o aroma da vegetação renovada pairava constantemente no ar, misturando-se a energia espiritual que envolvia a seita.
Mu Qingfang sempre gostara daquela estação.
As árvores floresciam novamente após meses de dormência. A neve cedia espaço à vida. As ervas medicinais voltavam a crescer pelos campos e discípulos feridos retornavam aos treinamentos depois de longos períodos de recuperação.
Era uma época gentil — ou ao menos deveria ser.
Naquele momento, porém, o senhor do Pico Qian Cao encontrava-se diante de um problema particularmente estranho. Sobre sua mesa repousava uma coleção bastante peculiar: algumas flores, ervas comuns, duas plantas medicinais raras. Uma raiz que ele ainda não conseguia identificar.
E um galho.
Apenas um galho.
Mu Qingfang observou o conjunto em silêncio depois suspirou.
— Talvez eu devesse perguntar… — murmurou, apoiando o queixo na mão.
Receber itens preciosos e comuns não era o ponto principal, quase sempre os discípulos do Pico An Ding vinham abastecer o estoque de Qian Cao — afinal sempre havia jovens precisando de auxílio médico e alunos refinando suas habilidades. Porém, aquilo fazia parte da organização da própria seita enquanto aqueles itens extras haviam sido entregues pela mesma pessoa.
Liu Qingge.
A primeira vez não parecera incomum, a lógica de itens preciosos serem trazidos fazia parte das missões. A segunda também não, nem a terceira. Foi apenas depois da décima segunda flor que Mu Qingfang começou a suspeitar que talvez houvesse algo diferente acontecendo.
— Liu-xiong não é tão articulado com as palavras. — Seus dedos tocam o galho com uma expressão pensativa. — Estaria ele passando por alguma dificuldade e não está sabendo abordar o assunto? — indagou, o sorriso meigo cruzando seus lábios.
No mesmo instante a porta foi aberta, revelando os discípulos que passavam por trás da figura heroica do senhor do pico Bai Zhan. Seu olhar rapidamente caindo sobre o homem sentado, em sua mão carregava uma pequena sacola de tecido.
Qingfang ergueu o olhar tranquilamente, mantendo o sorriso enquanto sentia a própria suspeita aumentar.
— Shixiong — cumprimentou baixo. — Precisa de alguma coisa?
Sem dizer uma palavra, Liu Qingge fechou a porta, aproximou-se da mesa e colocou a sacola diante dele. A seriedade de sua expressão implicitamente indicava que estava esperando o outro abri-la acompanhado de um olhar fixo sobre o embrulho.
Mu Qingfang acenou levemente, pegando-o e abrindo com cuidado.
— Oh! — exclamou, surpreso.
Dentro havia uma pequena flor azul, suas pétalas pareciam feitas de cristal sob a luz do Sol, delicadas e bonitas — para os olhos, pois eram completamente inúteis para fins medicinais. O médico suspirou em seu coração, porém não verbalizando que aquele presente serviria apenas para decoração.
Liu Qingge por outro lado desviou o olhar, as mãos ligeiramente fechadas em punhos.
— Encontrei durante uma missão — disse ele.
— Entendo. — Mu Qingfang girou a flor entre os dedos, completando suave: — Ela é muito bonita.
Pelo canto do olho, notou algo suavizar no rosto normalmente austero do outro. Foi um instante breve, mas o suficiente para tornar suas suspeitas mais sólidas — Liu Qingge queria lhe dizer algo.
— Obrigado, Liu-xiong.
Liu Qingge assentiu, encarando-o por mais alguns segundos antes de ir embora.
Mu Qingfang observou a porta fechada, depois a flor e então a coleção acumulada. Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios enquanto cheirava levemente a flor.
— Eu deveria perguntar a Shen-xiong como facilitar o assunto para Liu-xiong.
Porém, o destino parecia brincar com ele, pois todas as suas tentativas de ir ao Pico Qing Jing tinham sido fracassadas. Em um dia Shen QingQiu estava em missão com Luo Binghe, no outro tinha ido passar algumas semanas no reino demoníaco ou distante demais para ser contatado.
No fim, desistiu de tentar encontrá-lo.
Além disso, os presentes continuaram aparecendo durante todos aqueles meses. Às vezes eram ervas valiosas, outras vezes flores sem qualquer uso. Ao ponto de uma situação engraçada acontecer, Liu Qingge trouxe uma planta inteira porque as folhas possuíam um formato que o fizera pensar em Mu Qingfang. Quando percebeu o que estava fazendo, já havia arrancado a planta. Então a trouxe mesmo assim, porque parecia desperdício devolvê-la à montanha.
Era uma justificativa bastante imprópria, porém era o suficiente para ele.
Enquanto o mais novo ainda não entendia por que o recebera, mas agradeceu mesmo assim.
— Liu-xiong tem se esforçado muito — disse Qingfang numa noite em que recebeu um pote com musgo. — Me sinto muito apreciado por cada um, mas não precisa descer a montanha tantas vezes.
Qingge encarou o médico, observando as roupas de um verde suave, quase tão claro que pareciam brancas. Os fios castanhos, longos e presos apenas por uma fita. Ele estava lindo, em sua opinião. Mas aquele pedido ecoou de forma diferente em sua mente.
— Você não quer mais ervas? — perguntou, controlando a voz.
Qingfang se virou, o pote ainda entre suas mãos.
— Não quero que você se machuque indo para lugares tão longe.
Palavras suaves, cheias de um sentimento terno e carinhoso.
Qingge mordeu a parte interna da bochecha, incapaz de dizer que não era nada demais ir em penhascos e florestas sombrias para buscar um punhado de plantas desde que… desde que Qingfang gostasse delas.
— Eu não confio nos apotecários. — Sua expressão endureceu ligeiramente. — Muitos vendem ervas inferiores. — Ele ergueu o olhar levemente. — Prefiro buscá-las eu mesmo para você.
Ao colocar o pote no armário, Mu Qingfang sentiu um leve espasmo atravessar seus dedos, fazendo seu coração perder uma batida.
— É muita gentileza sua, Liu-xiong — respondeu, guardando as mãos dentro das mangas. Um tênue rosado beijava suas bochechas.
Qingge não percebeu, apenas assentiu.
— Hm, voltarei para o Pico Bai Zhan — respondeu, olhando-o rapidamente antes de sair apressado.
A ação não passou despercebida pelo médico que suspirou quando as portas foram fechadas.
— Shen-xiong, por favor, esteja amanhã no Pico Qing Jing — murmurou, o olhar ainda fixo no lugar onde Liu estivera.
Porém, seu pedido não foi atendido com a urgência que ansiava.
Mais três longos dias passaram sem novidades, Liu Qingge felizmente não apareceu também. Isso lhe deu tempo para avaliar possíveis diagnósticos psicológicos com mais afinco, assim como cuidar das flores em seu jardim particular — este que fora quase obrigado a criar para poder cultivar aquelas que não poderiam ser usadas em remédios.
No quarto dia, quando já tinha revisado a maioria dos livros que tinha, recebeu um recado de Shen QingQiu para vir visitá-lo na parte da tarde. Ele não perdeu tempo com supérfluos, terminando suas tarefas matinais o mais rápido que pode e deixando algumas ordens para seus discípulos mais velhos antes de convocar a espada para voar em direção ao pico Qing Jing.
Ele só não percebeu o quanto estava com pressa, nem o cuidado extra que tinha com os presentes que levara para Qingqiu ver. Somente quando pousou e foi conduzido até o pavilhão principal que sua postura tranquila começava a vacilar enquanto seu coração estranhamente acelerava a cada passo.
— Mu-shidi.
— Shen-xiong.
Os dois trocaram cumprimentos educados, seguido por Luo Binghe que encontrava-se ali também, sentado próximo à mesa de chá.
— Mu-shishu — cumprimentou baixo.
— Luo Binghe. — O sorriso gentil de Mu Qingfang surgiu naturalmente para ambos.
Algumas formalidades depois, os três acomodaram-se ao redor da mesa. O aroma do chá recém-preparado preenchia o ambiente enquanto lá fora, pétalas levadas pelo vento atravessavam lentamente o jardim. Por alguns instantes, conversaram sobre assuntos comuns da seita. Relatórios médicos. Discípulos imprudentes. Um jovem do Pico Bai Zhan que havia deslocado o ombro pela terceira vez naquele mês.
Tudo parecia absurdamente pacífico.
Até Mu Qingfang falar:
— Shen-xiong, na verdade, vim pedir um conselho.
Shen ergueu uma sobrancelha, não expressando sua surpresa com o pedido incomum.
— O que poderia Mu-shidi precisar de meus conselhos? — perguntou calmamente.
— É sobre Liu-xiong. — Seu olhar desvia para a xícara, os polegares se movendo ansiosos.
O leque quase parou no ar.
Luo Binghe também ergueu os olhos, interessado — muito interessado.
— Continue — pediu Shen, pegando um doce recém preparado por Binghe. — Se for alguma doença complexa que tenha afligindo Liu-shidi, Luo Binghe poderá auxiliá-lo, se desejar.
O meio demônio acenou sorrindo quase dócil.
— O Reino demoníaco tem muitas ervas diferentes, se Mu-shishu precisar de algumas, certamente pedirei a alguém para trazê-las — respondeu.
Qingfang suspirou baixo.
— Não será necessário, estou apenas preocupado.
Shen QingQiu olhou para o marido ao lado e depois para o médico.
— Então diga, tentarei ajudá-lo — disse, pegando a xícara, o olhar fixo na expressão do outro cultivador.
Ele assentiu levemente, tirando de sua manga uma pequena bolsa.
— Liu-xiong tem apresentado um comportamento incomum nos últimos meses — começou, tirando algumas ervas e flores, mostrando-as para o mais velho.
Shen encarou as plantas, reconhecendo que nenhuma era rara ou especial.
— Incomum como? — perguntou, já suspeitando da resposta.
E como imaginava, viu um sutil tom de vermelho colorir as bochechas do mais novo.
— Ele me trouxe… presentes.
A resposta caiu como uma bomba silenciosa.
Por um instante ninguém disse nada. Shen Qingqiu bebericou seu chá com uma falsa tranquilidade enquanto Binghe parecia radiante com a possibilidade de seu “rival” ter encontrado outra pessoa para admirar.
— De quantos presentes estamos falando? — Questionou Shen, singelo.
Mu Qingfang pareceu refletir, tornando sua figura muito mais peculiar na perspectiva do casal — mas como o mesmo era médico, era normal que sua mente fosse repleta de conceitos medicinais, pacientes e estudos ao passo em que ignorava completamente a verdade mais emocional à sua frente.
— Vinte e três — declarou por fim.
No mesmo instante o leque fechou com força.
Luo Binghe tossiu — para esconder a risada pouco respeitosa.
Shen sentiu uma dor de cabeça se aproximando.
— Certo. — Sorriu, assumindo uma postura mais séria e cautelosa. — E isso acontece há quanto tempo, Mu-shidi?
Um ligeiro desconforto surgiu no olhar de Qingfang, porém desde que Liu Qingge se tornou parte de sua rotina, ele aguardava pelo momento que poderia conversar com Qingqiu pois o mesmo parecia ter a capacidade de decifrar a personalidade do outro.
— Alguns meses… — sussurrou, constrangido como uma criança.
— Oh, alguns meses. — Shen pegou um doce, mordendo-o com tranquilidade. — E você guardou todos esses presentes?
— Sim.
A expressão do lorde de Qing Jing se tornou muito mais suave, tão suave que parecia deixar o médico cada vez mais confuso e preocupado.
— Vinte e três presentes — repetiu Shen, batendo o leque levemente na mesa.
QingFang assentiu mais uma vez, em silêncio.
— Flores. Plantas. Ervas… — Shen continuou a pontuar cada um de maneira lenta, esperando que o outro pudesse entender o que significava essa quantidade de coisas minuciosamente escolhidas pelo Lorde de Bai Zhan.
E mesmo depois de listar todas, apenas recebeu um olhar ainda confuso do médico. Como se fosse uma receita indecifrável para o mesmo e isso deixou Qingqiu quase ao ponto de sacudir o homem, ainda assim com um senso de dever pelo outro, tentou outra abordagem.
— Mu-shidi — chamou, respirando fundo.
— Sim?
— Você já considerou que Liu-shidi pode estar cortejando você?
O silêncio que se instalou em seguida foi imediato, quase absoluto.
Mu Qingfang piscou uma vez, duas, três vezes. Depois levou calmamente a xícara até os lábios, tomou um gole e pousou-a sobre a mesa.
— Não — respondeu, firme.
Shen encarou-o, incrédulo.
— Não?!
— Não — repetiu, cético de que aquela possibilidade não existia.
Shen puxou o ar com força, o sorriso quase sumindo de seu rosto.
— Por quê?
A expressão de Mu Qingfang tornou-se genuinamente confusa.
— Porque Liu-xiong é Liu-xiong.
Suas palavras ecoaram com uma certeza completamente ingênua, como se aquilo resolvesse tudo e explicasse completamente quem era Qingge aos seus olhos.
Luo Binghe abaixou imediatamente a cabeça, os ombros tremendo sutilmente enquanto continha uma risada. Shen o observou com reprovação, embora no fundo achasse cômico demais ver um médico e um guerreiro tão presos em seus próprios mundos que não entendiam como demonstrar seus sentimentos de forma mais direta — ele também não era uma referência para falar de amor.
Com uma olhada rápida para o céu, buscou um pouco mais de paciência entre as nuvens antes de continuar aquela conversa.
— Mu-shidi, isso não explica absolutamente nada — respondeu, com uma falsa expressão de desagrado. — É ainda mais chocante que você não tenha desconfiado dessa possibilidade.
Qingfang sentiu uma parte de si doer com as palavras do mais velho, o coração novamente galopando fortemente em seu peito.
— Shen-xiong acredita realmente que Liu-xiong está tentando me cortejar? — murmurou, baixo.
— Sim — afirmou sem rodeios. — Embora sejamos cultivadores e nossa linguagem romântica não seja tão… parecida como as dos mortais, Liu Qingge ainda é um cavalheiro que preferiria cortejar primeiro do que pedir diretamente por sua mão. Não acha?
Mu Qingfang refletiu seriamente, os dedos agarrando o tecido de sua roupa com vergonha, embora um pouco mais esclarecido com a explicação de Qingqiu. Afinal Qingge era exatamente essa pessoa, ainda que seja rude em suas palavras e de pouca conversa, ele seria aquele que não diria abertamente sobre seus sentimentos mais profundos e escolheria demonstrá-lo de forma simples e sincera.
— Achei que ele estivesse tentando me dizer alguma coisa...
Shen quase bateu a cabeça na mesa.
— Mas ele está, shidi! — exclamou baixo.
— Ah.
Uma brisa passeou entre eles, as bochechas do médico aquecidas pela vergonha enquanto o Lorde mais velho suspirava em seu coração cansado daquela conversa.
— Então ele está me cortejando… — sussurrou novamente, um sorriso pequeno cruzando seu rosto.
Shen engoliu um gemido de frustração, sorrindo rigidamente.
— E o que pretende fazer agora? — perguntou, pedindo a todos os deuses que o mesmo pudesse só aceitar a situação e ir embora.
— Talvez eu precise refletir. — As íris castanhas cintilaram levemente.
O sorriso doce e pequeno desenhando em seus lábios, daquele jeito que fazia os discípulos do pico Qian Cao sentirem-se acolhidos e os pacientes relaxados.
— Sobre o motivo de eu ter guardado todos os presentes.
Mu Qingfang abaixou o olhar para a superfície do chá, observando o reflexo das próprias feições para então completar baixinho:
— Afinal, eu poderia ter descartado o galho e o musgo.
O silêncio que seguiu foi diferente dos anteriores.
Nem Shen Qingqiu nem Luo Binghe acrescentaram mais nada. Pela primeira vez desde o início daquela conversa, parecia desnecessário. Então apenas permaneceram ali, compartilhando chá e doces enquanto Mu Qingfang mergulhava nos próprios pensamentos.
Pouco depois, despediram-se dele.
[…]
Os dias que seguiram passaram de maneira estranhamente diferente para Mu Qingfang. Nada havia mudado de fato, mas, ao mesmo tempo, tudo parecia ter mudado. As flores continuavam crescendo em seu jardim. Os discípulos procuravam-o para estudos e conselhos de técnicas. Os mesmos relatórios acumulavam-se sobre sua mesa ao final da tarde.
Ainda assim, bastava seus olhos pousarem sobre uma determinada flor ou sobre o infame galho guardado próximo à janela para que sua mente retornasse inevitavelmente à conversa que tivera com Shen Qingqiu.
"Liu-shidi pode estar cortejando você."
Só a lembrança dessas palavras fazia suas orelhas aquecerem todas as vezes.
Naquele fim de tarde, porém, seus pensamentos foram interrompidos pela agitação incomum do lado de fora. Passos apressados ecoaram pelo corredor e algumas vozes ecoavam ansiosas.
Logo a porta foi aberta.
— Shizun! — um discípulo exclamou, cumprimentando-o rapidamente. — O Lorde do Pico Bai Zhan chegou.
Mu Qingfang ergueu os olhos rapidamente.
— Liu-xiong?
— Sim. Ele acabou de retornar de uma missão.
O médico levantou-se imediatamente, caminhando em direção ao jovem. Mesmo que no fundo soubesse que os lordes de pico frequentemente retornavam de missões com pequenos ferimentos — porém algo na expressão do discípulo despertou sua atenção.
— Ele está machucado? — perguntou, não conseguindo conter sua preocupação.
O jovem hesitou.
E aquilo foi resposta suficiente.
Sem esperar explicações adicionais, Mu Qingfang já caminhava em direção à entrada do pavilhão. O olhar procurando o homem pelo qual seu coração batia fortemente, para sua surpresa — e alívio — Liu Qingge estava parado próximo às escadarias do pico, alguns discípulos estavam parados próximos, hesitando em se aproximar do mesmo.
Seu uniforme cinzento exibia diversos cortes recentes. O tecido da manga esquerda estava rasgado. Havia sangue seco próximo à clavícula e outro ferimento visível acima da sobrancelha.
Nada realmente mortal.
Mas certamente muito mais sério do que os arranhões habituais.
E, mesmo assim...
Mesmo coberto de sangue, claramente exausto, Liu Qingge segurava algo entre seus dedos. Mu Qingfang reconheceu imediatamente: uma flor. A adrenalina cessou e seu coração tropeçou uma batida. Uma sensação aquecendo seu corpo.
— Liu-xiong… — chamou baixo.
Qingge ergueu o olhar levemente e assim que o viu, começou a andar em direção a ele.
— Voltei — disse, calmo e seguro.
Mu Qingfang ignorou a formalidade para completar a distância rapidamente.
— Você está ferido! — disse, alto demais. A expressão tensa.
— Não é grave.
A resposta veio tão automática que quase arrancou um suspiro do médico. A sensação agridoce de já ter ouvido aquilo centenas de vezes.
Costelas quebradas? Ferimentos internos? Metade do corpo coberto de sangue?
Nada era grave na perspectiva de Qingge.
No entanto, naquele momento, vê-lo daquela forma tão agredida pela violência da batalha deixou seus sentimentos e pensamentos tensos.
— Venha para dentro — pediu baixinho.
— Primeiro. — Liu Qingge ergueu a mão, a flor delicada contrastando com aquele que a segurava.
Mu Qingfang ficou imóvel.
As pétalas possuíam um tom vermelho intenso, quase dourado sob a luz do entardecer. Reconhecendo-a com facilidade, era uma peônia.
Uma flor associada à prosperidade, honra e afeto profundo.
Não era rara.
Mas Liu Qingge não entendia quase nada sobre flores. O fato de ter escolhido justamente aquela tornava tudo ainda mais evidente.
— Encontrei durante a missão — explicou ele.
A mentira era terrível.
E Mu Qingfang sentiu vontade de rir tanto quanto de sacudir aquele homem por se arriscar tanto. Em vez disso, recebeu a flor com cuidado. Os dedos roçaram os dele por um instante breve, acidental — suficiente para que Liu Qingge imediatamente desejasse estar lutando contra outra besta demoníaca.
— É muito bonita.
Novamente aquele semblante doce surgiu no rosto de Qingge e, dessa vez, foi notado com apreço por Mu Qingfang que sentiu a sua própria expressão suavizar junto.
— Vamos entrar — disse, cheirando a flor.
— Não precisa — respondeu Qingge, indiferente. — São apenas machucados superficiais.
— Liu-xiong veio até aqui para entregar uma flor. — Com mais um passo, seu rosto ficou a centímetros de Liu. A diferença de altura tornando-se mais visível. — Mas o dever do Pico Qian Cao é curar todos aqueles que precisam e eu quero cuidar de você.
A voz permaneceu gentil, o olhar fixo nas íris acinzentadas do lorde do pico Bai Zhan. O silêncio que veio depois foi breve, mas o suficiente para que Qingge não conseguisse nega-lo novamente.
— Por favor, me acompanhe — Qingfang pediu, um pouco mais baixo.
Não foi preciso insistir mais, pois o deus da guerra de Bai Zhan concordou timidamente.
E, sob o olhar atento dos discípulos, a dupla caminhou lado a lado de volta ao pavilhão privado do médico. Embora fosse uma comum, todos conseguiam perceber a atmosfera singela entre os dois.
Uma hora depois, Liu Qingge estava coberto por bandagens novas enquanto Qingfang terminava de aplicar uma pomada sobre uma ferida antes de observar os cortes restantes. Ele permaneceu imóvel durante todo o processo, silencioso e estranhamente tenso.
O médico percebeu e sentiu-se aquecido por dentro por não ser o único.
— Shixiong — chamou suave.
— Hm? — Qingge só ergueu o olhar levemente.
Qingfang deixou o pó medicinal de lado, ficando de frente para o outro.
— Posso perguntar uma coisa?
Liu Qingge assentiu, o coração batendo tão forte que quase podia jurar que o outro lorde estivesse ouvindo. Um segundo bastou para a pergunta ecoa como uma bomba pelo cômodo privado:
— Por que me traz tantas flores?
Um silêncio enorme, pesado e desconfortável surgiu. Engolindo a coragem e bravura do homem sentado. Enquanto o médico esperava paciente tanto quanto podia.
— Eu…
Uma tentativa.
— Eu… achei que fossem úteis.
— Todas? — Qingfang sorriu.
— Sim!
As íris castanhas se desviaram até o pote na beirada da janela.
— Inclusive o galho?
A pergunta ressoa tão boba que Liu Qingge desviou o olhar constrangido. Mu Qingfang quase riu — quase — ainda assim esperou mais um pouco. Sob seu olhar as orelhas de Qingge começaram a ficar vermelhas, uma cena tão rara quanto uma neve de verão, porém ainda precisou olhar para outro lado por um instante.
Por educação.
Afinal, não queria constrangê-lo ainda mais.
Quando voltou a encará-lo, encontrou o cultivador observando o chão como se estivesse prestes a enfrentar uma tribulação celestial.
— Eu queria...
As palavras morriam em seus lábios, o único medo que já sentiu em sua vida, fragmentando sua aspereza natural: o de ser rejeitado. Mesmo assim, Liu Qingge respirou fundo para tentar outra vez, com as mãos fechadas em punhos firmes antes de quase gritar em alto e bom som:
— Eu queria cortejá-lo.
A frase saiu tão rápida que quase se tornou incompreensível, mas não para Mu QingFang.
E mais uma vez o silêncio permaneceu entre eles.
As mãos ágeis voltaram a cuidar de suas feridas, restando apenas o som fraco dos instrumentos sendo mexidos entre eles. Liu Qingge observava cada ação com as bochechas ruborizadas, os nós dos dedos ardendo pela força que exercia ao ponto de parecer pronto para enfrentar uma centena de demônios, não aquela espera.
Enquanto Qingfang continuava ministrando a cura suave, o sorriso suave se desenhava em seus lábios. As íris castanhas cintilavam de um sentimento que para si era novo, um pouco estranho, mas empolgante e doce — muito doce.
Ao fim da última pomada, ergueu o olhar novamente, encontrando o par acinzentado encarando-o com um desespero quase infantil.
— Entendo — respondeu, deixando o frasco na mesa.
Liu Qingge sentiu o coração afundar, os ombros rígidos cedendo ao desamparo.
E então completou:
— Nesse caso, está funcionando.
O mundo parou outra vez por alguns segundos; talvez mais.
Mu Qingfang observou a expressão dele mudar de confusão para surpresa e esperança. Tudo ao mesmo tempo, mas que era uma expressão estranhamente adorável para alguém conhecido como o Deus da Guerra de Bai Zhan.
— Funcionando...? — repetiu ele, tão baixo que temia estar ouvindo errado.
— Sim, mas da próxima vez Liu-xiong… — Ele ergueu a flor, beijando delicadamente uma pétala sob os olhos atentos do outro. — Traga apenas sua companhia e a flor.
O gesto tão íntimo e delicado fez Qingge engolir em seco.
Enquanto Qingfang continuou: — Não preciso que você se machuque para recebê-la.
Liu Qingge desviou os olhos um segundo, as orelhas queimando em tons de vermelho.
— Lembrarei disso — sussurrou, tossindo sem graça.
QingFang não precisou dizer mais nada, satisfeito com a resposta do outro. Ao mesmo tempo, sentia uma serenidade nova se acomodar em seu peito. O futuro ainda era incerto, assim como aquele sentimento recém-descoberto, porém não o assustava. Afinal, diante dele estava um dos homens mais nobres e sinceros de todo o mundo do cultivo.
