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Já passava das dez da noite quando o som discreto da chave girando na fechadura ecoou suavemente pelo apartamento. Toji entrou carregando mais sacolas do que deveria para o horário, porém, o peso não o incomodava tanto quanto o cansaço acumulado nos ombros depois de um dia inteiro de trabalho.
Na primeira olhada notou que a luz da cozinha estava acesa, espalhando um tom dourado sobre a sala. Um silêncio confortável habitava o apartamento.
Toji sorriu, tirou os sapatos na entrada e caminhou até a cozinha. Primeiro colocou sobre a bancada duas pequenas caixas coloridas cheias de doces que havia comprado para Megumi e Yuji. Ele sabia que os meninos já estavam dormindo há horas, mas não importava tanto quanto a felicidade deles em ver os presentes de manhã.
Ao lado dos doces, deixou uma caixa de salgados ainda morna. Seu olhar brilhou suavemente ao deslizar a ponta dos dedos sobre a mesma antes de pôr o último presente, com um cuidado quase ridículo para alguém como ele, ao lado — um buquê de rosas vermelhas.
As flores perfumavam levemente o ambiente ao mesmo tempo em que sua cor se tornava mais vibrante sob a iluminação.
Ele observou o arranjo por alguns segundos antes de soltar um suspiro.
— Ele vai gostar…
Virou-se então para a sala, rapidamente encontrando Jin deitado no sofá.
— Eu canso de dizer para você me esperar no quarto — murmurou, rindo.
Porém, ele ficou parado por alguns instantes, observando a manta escura cobrindo metade do corpo esguio enquanto a televisão exibia um programa qualquer sem volume. Os cabelos róseos estavam espalhados sobre a almofada, o óculos deixado sobre a mesa de centro enquanto o rosto jovem exibia uma expressão relaxada, denunciando que ele havia perdido a batalha contra o sono há bastante tempo.
“Ainda me pega desprendido vê-lo tão… seguro ao meu lado.”
Seu passado não era brilhante, tampouco simples. A família Zenin fazia questão de que os homens e mulheres nascidos no clã fossem bem treinados para serem versados em todos os tipos de profissões. Porém, dez anos depois da morte de sua primeira esposa, Itadori Jin surgiu para lembrá-lo de como era viver feliz.
Cuidadosamente ele se aproximou, o sorriso curvado em seus lábios.
— Você vai ficar com dor nas costas dormindo aqui — murmurou, observando o peito subir e descer num ritmo tranquilo.
O homem mais delicado que já conhecera. Voz mansa, sorriso confortável, mãos sempre cheias de afeto.
Seria mentira dizer que não era perdidamente apaixonado por aquele pedaço de céu.
Depois de cinco segundos curvou-se, passando um braço sob os joelhos de Jin e o outro por suas costas. O movimento foi tão natural quanto respirar.
No primeiro movimento de içá-lo em seus braços, ele despertou.
— Hm...?
Os olhos se abriram lentamente, confusos primeiro pela mudança, depois sonolentos, até que encontraram o rosto de Toji.
— Você chegou… — sussurrou, o sorriso nascendo lentamente.
Toji acenou.
— Não queria te acordar.
A voz grave vibrou contra o peito dele, fazendo-o piscar algumas vezes.
— Que… horas são? — Sua voz ecoou mais lenta.
— É tarde. — Toji abaixou o rosto, cheirando os fios rosados com apreço.
Jin não reclamou, a mão se movendo até a curva do maxilar deixando uma carícia leve.
— Imagino que seja, mas não responde a minha pergunta — provocou.
A expressão de Fushiguro suavizou mais, deslizando a ponta do nariz até a testa do Itadori.
— Importa o horário? — perguntou, beijando-o na curva do nariz.
Um sorriso preguiçoso surgiu nos lábios de Jin.
— Talvez…
Não havia força real em sua voz, o sono convidando-o a retornar e logo se acomodando melhor nos braços do marido.
Toji riu baixo, firmando os braços em torno do rosado para só então começar a caminhar em direção ao corredor que levava os quartos.
— As crianças deram trabalho para dormir? — perguntou baixo.
Jin bocejou, o rosto apoiado no peito firme do marido.
— Não… Nós lemos um livro e eles dormiram na metade.
— O jantar também foi tranquilo?
— Sim. — Outro bocejo. — Yuji-kun tentou convencer o Megumi-kun de que um jacaré caberia na banheira.
Toji arqueou levemente uma sobrancelha, o sorriso acentuando a cicatriz no canto.
— E caberia?
— Toji! — Jin reclamou baixo, as íris douradas semicerradas.
Fushiguro riu baixo, dando uma piscadela.
— Só estou perguntando.
Uma risada escapou do Itadori, o som era pequeno, mas bastava para fazer o peso do dia parecer um pouco menor. Toji se sentia satisfeito.
Até que ao passarem pela cozinha, Jin ergueu a cabeça e seus olhos encontraram o buquê junto a caixa de salgados deixados na bancada.
— Oh…
Seu olhar retornou para Toji.
— Você trouxe tudo isso? — perguntou baixo.
— Se eu disser que encontrei uma padaria aberta, acreditaria? — devolveu sem olhá-lo de volta.
O Itadori bufou, cutucando a clavícula levemente destacada na blusa preta.
— Talvez — respondeu, deitando mais a cabeça. — Mas as flores também vendiam nessa tal padaria?
As íris escuras desceram brevemente até o rosto bonito, o suficiente para admirar os contornos sonolentos e provocativos do marido.
— Não — disse, por fim.
— Ah, então você comprou separado.
O sorriso dele aumentou e Toji desviou o olhar — em suas bochechas, um toque sutil de vermelho ardia. Ao mesmo tempo, o sorriso de Jin se tornava mais suave. As íris douradas pareciam brilhar daquela forma que sempre o desarmava por completo.
“Ele não deveria ser tão fofo,” suspirava Toji em seu coração.
Ainda assim, Itadori se aproximou e depositou um beijo casto em sua bochecha, sussurrando um delicado “obrigado.”
O coração de Fushiguro acelerou.
— Você ainda nem comeu — reclamou sem força real.
Os dedos finos deslizaram sobre seu peito e a cabeça de fios rosados descansou em seu ombro.
— Não estou falando dos salgados.
Os passos de Toji desaceleraram por um segundo.
Só um.
Mas Jin percebeu.
Nenhuma palavra veio depois, apenas o som dos passos continuava a ecoar sobre o piso. Quando chegaram ao quarto, a luz suave do abajur iluminava os lençóis já arrumados para a noite.
Toji não se surpreendeu com a organização, assim depositou o marido sobre a cama com cuidado. Mas quando tentou se erguer, Jin o impediu.
— Você trabalhou demais hoje? — perguntou, os braços ainda em volta do pescoço do marido.
Ele suspirou baixo, acenando.
— Um pouco, não se preocupe.
Jin encarou o rosto do outro com um pouco mais de consciência. Os traços de cansaço ocultos pela penumbra, mas ainda era possível notar a tensão acumulada.
Ao encontrar novamente as íris negras, sussurrou:
— Deitar.
Era um pedido simples, sem nenhuma insistência maior.
Mas para Toji, encarado por aqueles olhos sonolentos, sentiu algo dentro do peito afrouxar e a sensação incômoda se desfazendo somente por uma palavra dita pelo rosado.
Os lábios dele se curvaram, deixando uma respiração mais profunda escapar.
— Tá bom.
E Jin sorriu outra vez, os braços libertando-o.
Um movimento bastou para que seu corpo se acomodasse no colchão macio e seus lábios fossem de encontro aos macios do marido. Encerrando aquele dia com a certeza de que não existia lugar melhor no mundo para voltar.
Porque era ali que sua família estava.
