Work Text:
Já haviam se passado meses desde que Yuri e Chloe saíam juntos pra manter seu namoro falso convincente pra Yor.
Bem, era isso que Yuri queria acreditar.
Uns quatro meses atrás, Yuri e Chloe foram na residência dos Forgers pra impressionar Yor fingindo ser um casal. E naquele mesmo dia, Yuri e Chloe criaram um acordo entre si, de que aquele relacionamento falso só seria mantido na frente dos Forgers, mas que seria bom pra Yuri continuar saindo com Chloe pra melhorar sua interações com outras pessoas que não fossem Yor.
Mas ambos viram um benefício mútuo nesse acordo. Eles sairiam com alguém por quem tinham sentimentos, apesar de estarem sempre negando isso para si mesmos.
Eles haviam saído pra diversos lugares juntos, como jantares e apresentações de jazz, como no começo. Mas também iam a estádios e ginásios assistir partidas de futebol ou competições de atletismo, saíam pra beber com os colegas, comiam comida de rua, iam ao cinema. Às vezes saíam todos os finais de semana do mês, desde que estivessem livres. Já em outras circunstâncias, saíam apenas duas vezes no mês. Mas eles sempre saíam juntos.
Sua dinâmica no trabalho não mudou muito, o que era bom pra ambos. Ninguém perguntava nada porque não havia nada de suspeito. Mas toda vez que um final de semana de folga se aproximava, ambos eram tomados pela ansiedade de estarem juntos mais uma vez.
Depois de uns três meses nesse esquema, eles passaram a ir embora juntos depois do trabalho. Às vezes iam embora andando. Às vezes Chloe dava carona a Yuri. Já em outras oportunidades, iam embora de metrô.
Eles não perceberam como aquilo se tornou um hábito, até o primeiro tenente Curtis tocar no assunto.
– Então Yuri, o que tá rolando entre você e a Chloe? – perguntou ele, encostado na parede na sala de descanso, segurando seu copo de café.
Yuri se engasgou com o café, tossindo e espirrando café em tudo. Ele tentou demorar para responder, limpando a roupa e o rosto com um guardanapo que seu superior deu a ele.
– P-por que a pergunta, tenente?
– Vocês estão sempre indo embora juntos. Achei que finalmente vocês viraram amigos.
– Ahh, é que… a gente se acostumou a ir juntos, só isso – respondeu Yuri, bebendo um gole do café logo em seguida para esconder o constrangimento.
O tenente semi-cerrou os olhos, fazendo com que suas duas cicatrizes sobre o olho esquerdo parecessem maiores, como se duvidasse da resposta dele.
Nesse momento, Chloe entrou na sala e cumprimentou os dois superiores como sinal de respeito. O tenente não parava de observar o cuidado com o qual ambos se tratavam. Chloe foi beber água, e Yuri não tirava os olhos dela. Ele ofereceu um copo a ela. Ela parou do lado dele, olhou pra ele e sorriu, aceitando o copo. Ele sorriu de volta. Parecia que eles haviam esquecido da presença do homem mais velho.
– Espero não estar atrapalhando os pombinhos – disse ele, fazendo com que Yuri se escolhesse e Chloe desse um pulinho, virando de frente pra ele.
– N-não é nada disso, s-senhor.
– Eu estou saindo com a Chloe – falou Yuri ao mesmo tempo, deixando a moça perplexa. Ele falou de uma maneira robótica, parado, olhando estaticamente pro nada. – Eu resolvi falar logo, é isso.
– Vocês estão namorando mesmo?
– Não é bem um namoro – respondeu Chloe, apertando os olhos e inclinando a cabeça pro lado. – Tudo começou pra enganar a irmã dele.
– Enganar não. Despreocupar – disse Yuri, levantando o dedo indicador.
– Espera, não estou entendendo mais nada – retrucou o primeiro tenente Curtis.
– Quatro meses atrás eu pedi a Chloe para fingir ser minha namorada, pra Yor não achar que eu sou solitário. E de lá pra cá a gente sai de vez em quando. Então, somos dois amigos saindo juntos.
Chloe estava completamente envergonhada, com o rosto vermelho, querendo se esconder atrás do copo de água. Ouvir aquilo em voz alta era completamente constrangedor.
– Entendi. Se vocês continuarem com esses sorrisinhos e esses olhares, qualquer um diz que vocês estão namorando. Então disfarcem bem, pra evitar rumores, já que não existe um relacionamento romântico entre vocês, eu suponho.
– Entendido, senhor – responderam ambos, prestando continência enquanto ele saia da sala de descanso.
Chloe olhou pra Yuri com o olhos carregados de raiva, o que fez que Yuri se sentisse ameaçado, apesar de saber que ela não bateria nele. Ela não fazia mais isso. E ele não ameaçava mais executá-la ou prendê-la.
– Por que você fez isso, segundo tenente? Eu tô morta de vergonha – disse ela, encostando a testa no braço dele. Sua voz estava carregada de constrangimento, apesar da raiva que sentia.
– Eu achei que ele deveria saber. Sempre trabalhamos com ele, uma hora ele ia perceber. A gente não briga mais como antes. Agora nós somos amigos, não somos?
– É, somos sim – disse ela, abaixando a cabeça e olhando para o copo em sua mão.
Quando Yuri saiu da sala, ela não pôde deixar de sorrir ao perceber que Yuri não hesitava em deixar claro que eles eram amigos, algo que ele não faria meses atrás. Mas ainda assim, ele só a via como amiga, mesmo parecendo agir como um namorado. – “Esse pirralho está progredindo lentamente” – pensou ela.
No final do dia, Yuri esperava por ela do lado de fora do prédio da polícia secreta.
– Segundo tenente, me esperando? Não combinamos de ir embora juntos hoje.
– Eu sei. Pensei em a gente sair pra beber algo, comer, conversar.
– Olha, segundo tenente… – Yuri a interrompeu.
– Pode me chamar de Yuri. Não estamos mais em horário de trabalho – disse ele, com um sorriso suave nos lábios. Chloe notou como esses sorrisos haviam se tornado frequentes.
– Yuri. Não acho correto a gente continuar saindo assim.
Ouvir isso fez o sorriso de Yuri sumir e seu rosto assumiu uma expressão preocupada.
– Por que, Chloe?
– É como o tenente falou mais cedo. Se a gente continuar saindo juntos, as pessoas podem espalhar boatos.
– E você se importa com boatos?
– Não. Mas não acho correto. Você tem o tenente Curtis e tem o Dominic. Poderia sair mais com eles. Yuri, nós só somos amigos, e a gente sai junto com muita frequência. E se eu quiser arranjar um namorado? Sair com você com tanta frequência pode me deixar em desvantagem.
– Por que desvantagem?
– Nenhum rapaz vai querer se aproximar de mim se todas as vezes que eu for em algum lugar você estiver do meu lado. Todo mundo vai achar que somos um casal.
– Mas você tá procurando namorado?
– Não. Mas e se alguém se interessar por mim e eu pela pessoa? Vou acabar perdendo a oportunidade. Fora que pra você também não é vantagem. Vai que alguma mulher se apaixone por você? Eu não quero estar no caminho de ninguém.
Yuri se sentiu triste ao ouvir as palavras de Chloe. Ele nunca tinha pensado que ela talvez quisesse namorar novamente depois do namoro desastroso que ela teve durante a faculdade. E ele também não conseguia definir pra si mesmo o que sentia.
– Tudo bem, entendo você – respondeu ele, com a voz triste.
– Mas se você quiser, hoje pode ser a despedida do nosso acordo. Não quer dizer que não vamos mais sair juntos, mas prefiro que a gente saia em grupo, com outras pessoas.
– Tá certo. Na verdade eu queria conversar com você sobre o relatório que a gente tem que entregar na sexta-feira.
– É uma boa ideia. Vamos lá, parceiro – respondeu Chloe, dando um tapinha nas costas de Yuri.
A noite correu bem no bar. Eles sentaram em uma mesa que ficava num local mais reservado. Cada um mostrava suas anotações recentes e destacavam pontos pra incluir no relatório.
Ao chegar em casa, Yuri se sentia derrotado. Ele passou a noite toda tentando agir normalmente, mas ao chegar em casa, ele desabou no sofá.
As palavras de Chloe não saíam da mente dele.
“Se eu quiser arranjar um namorado”.
Aquilo o intrigava. Chloe nunca demonstrou interesse romântico em ninguém. Só na faculdade, quando ela namorava um rapaz de outro curso, mais velho, que estava repetindo dois semestre por causa de notas ruins, e era mais um parasita do que um namorado. Ele achava aquele homem patético.
Naquela época ele e Chloe não eram próximos, então, pra ele, não havia problema nenhum Chloe ter um namorado. Mas agora, ele se perguntava porque o fato de Chloe dizer que queria namorar alguém o incomodava tanto. E nem entendia porque pensar em vê-la com um namorado o deixava triste.
Será que era o mesmo sentimento de traição de quando Yor casou e por um ano não falou nada a ele? Será que ele também ficaria de lado na vida da Chloe?
Ele só não bebeu pra conseguir dormir porque no outro dia tinha trabalho e não queria ficar de ressaca. Então, ele passou a noite em claro.
Nos dias seguintes, Yuri estava bastante mau humorado no trabalho.
– Está tudo bem com você, Yuri? – perguntou Chadwick Curtis. Yuri se assustou ao ouvir a pergunta. Em vez de digitar o relatório, ele estava parado, olhando pro papel na máquina de datilografar.
– Ahh, está sim.
– Seu cunhado está te incomodando? Ou você está preocupado com sua irmã?
– Não. Eu já disse que estou bem. Vou terminar essa parte do relatório.
– Não esquece de mostrar a Chloe. Vocês coletaram as informações e tem que fazer o relatório juntos pra passar para a equipe.
– Entendido. – Ouvir o nome de Chloe fez Yuri se encolher. Ele ainda não entendia porque estava tão irritado com ela.
A porta da sala em que ele e o tenente trabalhavam estava aberta, e ele não pôde deixar de notar Chloe conversando com um de seus colegas, um subordinado dele, assim como ela. Ela estava sorrindo, e vê-la sorrindo para um homem enquanto “esperava encontrar um namorado” o deixou bastante assustado. Então ele chamou o subordinado.
– Hansel, venha aqui.
– Sim, segundo tenente Briar. – Ele entrou na sala e prestou continência.
– Preciso de… hmm… um pouco de café. E também me traga água. Depois, quero que você me traga duas cópias desse documento.
– Entendido, segundo tenente Briar – respondeu ele, prestando continência mais uma vez e saindo da sala.
Yuri não precisava de nada daquilo. Ele só queria manter Hansel longe de Chloe o maior tempo possível. E ele ainda não sabia o porquê.
O primeiro tenente Curtis observava tudo e sorria discretamente. E Yuri estava tão distraído que nem estava percebendo. Alguns minutos depois de trazer um copo de café e um copo de água, Hansel retornou com o rascunho do relatório e duas cópias, e se retirou. Após isso, o tenente chamou Chloe na sala. Yuri, que estava datilografando novamente, parou assim que ouviu o nome dela e ficou como que congelado.
– Sim, tenente – disse ela, se apresentando na sala.
– Estou comparando seu relatório com o do segundo tenente, e percebi que algumas informações estão diferentes.
– É que nós juntamos nossas informações e vimos o que poderíamos acrescentar. Acredito que algumas informações são relatadas com mais detalhes e outras com menos de acordo com o que cada um observou.
– Entendi. Yuri, esse relatório precisa ser unificado.
Yuri estava parado, olhando para o papel que estava no máquina de datilografar.
– Yuri? – Curtis chamou, o tirando do transe.
– Ahh, certo tenente.
O tenente ficou esperando ele levantar para pegar os dois relatórios, mas Yuri começou a datilografar de maneira robótica. Então ele resolveu entregar a Chloe e pedir que ela levasse até a mesa de seu subordinado. Ela parou na frente da mesa e estendeu os dois relatórios, esperando que ele pegasse. Ele não o fez. Então ela perguntou:
– Segundo tenente, quem vai unificar os relatórios?
Yuri pensou em fazer ele mesmo, pra poupar Chloe de datilografar quatro páginas. Mas ele lembrou que precisava mantê-la ocupada pra que nenhum outro homem a importunasse. Então, sem levantar os olhos, ele continuou datilografando e disse:
– Pode fazer isso você mesma. Confio na sua capacidade.
– Entendido, segundo tenente.
Chloe saiu da sala, parou na porta, e olhou para Yuri. Naquela quinta feira, Yuri estava sendo muito frio com ela. E ela sabia que foi por causa do que ela falou a ele na noite anterior. Mas ela não queria mais enganar seu próprio coração, visto que acreditava que Yuri ainda desconhecia o amor romântico.
No final do dia, Chloe deixou o relatório finalizado na mesa de Yuri, enquanto ele havia ido ao banheiro. Ela ficou parada, na frente da mesa, olhando a cadeira vazia dele, com o olhar carregado de tristeza. Nesse momento o primeiro tenente entrou na sala.
– Chloe.
– Tenente. Eu vou deixar o relatório aqui para o segundo tenente revisar.
– Certo.
Ele não queria se intrometer na vida de seus jovens subordinados, mas ele também viu o quão triste Chloe parecia.
– Está tudo bem com você, Chloe? – A pergunta a pegou de surpresa.
– Ahh, estou sim. Só estou um pouco cansada.
– Entendo. Você está dispensada por hoje. Amanhã o segundo tenente fala com você.
– Obrigada, senhor – respondeu Chloe, saindo da sala logo em seguida.
O tenente tinha acabado de voltar do banheiro quando encontrou Chloe na sala. E ele ouviu algumas oficiais saindo do banheiro feminino comentando que viram Chloe chorar lá dentro.
Pouco tempo depois, Yuri retornou à sala. O primeiro tenente observava a expressão séria no rosto do rapaz.
– Está tudo bem entre você e a Chloe?
– Por que a pergunta? Claro que está.
– Você foi bastante frio com ela hoje, diferente dos outros dias.
– Eu a tratei normalmente, como colegas devem se tratar.
– Hmm, entendi. Ela deixou o relatório em sua mesa, pra você revisar. E eu a dispensei por hoje. Ela estava com os olhos um pouco inchados e disse que estava cansada.
Yuri engoliu a seco quando ouviu o tenente falar sobre a aparência dos olhos de Chloe. Ele também ouviu o boato de que ela estava chorando no banheiro, mas queria acreditar que era somente um boato. Chloe nunca choraria por causa dele, não a Chloe que ele conhecia. Não é?
– Entendido.
– Também estou indo embora.
– Certo, tenente. Vou revisar o relatório antes de ir pra casa.
– Boa noite, filho.
Yuri levantou os olhos em direção ao homem mais velho, e viu sua expressão, como a de um pai preocupado.
– Boa noite, senhor.
Yuri passou a noite fazendo a correção do relatório, e acrescentando algumas coisas. Quando foi pra casa, já era tarde da noite. Ele queria não pensar em Chloe, principalmente sorrindo do jeito que estava pra outro homem que não fosse ele.
A sexta-feira chegou e o relatório precisava ser entregue. Ele chamou Chloe e pediu que ela refizesse o relatório.
– Mas por que tem tanta informação a mais, segundo tenente? Eu já tinha finalizado ontem.
– Eu lembrei de coisas que precisavam ser incluídas.
– Mas são quase duas páginas de informação.
– São duas páginas. O relatório agora vai ter 6 páginas ao invés de quatro. Essa vai ser sua tarefa hoje, Chloe.
Chloe olhou pra Yuri com bastante raiva.
– Chloe, eu sou seu superior. Você vai ficar questionando as minhas ordens?
– Não, segundo tenente. Vou refazer agora mesmo. – Ela saiu da sala como se nunca mais na vida dela quisesse ver Yuri. Ele estava sendo tão infantil punindo ela por uma decisão que ela tomou pelo seu próprio bem. “Se eu soubesse que ele agiria assim, eu nunca teria começado com essa loucura”, pensou ela.
Yuri estava determinado à deixar a Chloe ocupada pra que nenhum colega, principalmente alguém chamado Hansel, a incomodasse. Mas Chloe parecia muito mais incomodada com ele do que com o Hansel, e ele pensou em como estava sendo infantil.
Ele via Chloe alongando os braços, girando os pulsos, alongando o pescoço, piscando os olhos mais vezes para diminuir a sensação de olhos embaçados. Ele se sentia mal por tê-la sobrecarregado. Ele não podia puni-la por algo que ela decidiu fazer, mesmo que isso significasse passar menos tempo com ela. Mas agora já era tarde. O relatório já estava sendo refeito.
Então, ele foi até à sala de descanso e pediu que o oficial Robinson levasse um copo de água para Chloe, e ficou observando ela aceitar o copo e sorrir. Algum tempinho depois, ele pediu que a oficial Helena levasse uma bolsa de água morna pra que Chloe colocasse sobre o pescoço e relaxasse os músculos. A desculpa dele era pra que ela tivesse um bom rendimento ao datilografar o relatório. A oficial levou a bolsa enrolada em uma toalha, e Chloe agradeceu alegremente.
Ele chegou ao ponto de pedir que Hansel levasse café para manter Chloe desperta, mas o lembrou de não atrapalhar o trabalho dela. O rapaz o fez. Chloe estava se sentindo feliz ao ver seus colegas cuidando dela, e isso fez com que Yuri ficasse satisfeito.
Apesar disso, ele ainda se sentia culpado, e pediria desculpas a ela mais tarde.
Chloe terminou o relatório, e foi levá-lo para Yuri.
– Segundo tenente, concluí o relatório. Gostaria que eu fizesse mais alguma coisa?
– Não, muito obrigado Chloe – respondeu ele, folheando o relatório. Ele sentia vergonha de olhar diretamente pra ela por causa de sua atitude infantil e egoísta. Mas seus pensamentos foram interrompidos por Chloe.
– Gostaria de pedir desculpas pela minha atitude mais cedo. Eu questionei o seu pedido, e isso é algo injustificável, visto que sou sua subordinada. Minha obrigação é seguir suas ordens. Isso não vai mais se repetir.
Ela tinha uma expressão bastante séria e rígida em seu rosto. Yuri percebeu quando foi tomado pela surpresa ao ouvir as palavras dela e a olhou nos olhos. Ele sentia mais vergonha ainda. Quando ela estava prestes a sair da sala, ele a chamou.
– Chloe – disse ele, estendendo a mão, como se quisesse segurá-la pelo pulso.
– Sim, segundo tenente – respondeu ela, voltando pra perto dele.
– Eu… eu gostaria de te pedir perdão pela minha atitude com você nesses dois últimos dias. Eu fui muito rígido e egoísta. Foi uma atitude completamente infantil. Eu não queria magoar você e nem te sobrecarregar, não intencionalmente. É só que… me perdoe, por favor. – Ele abaixou os olhos ao falar a última frase.
Chloe podia ver o quão triste Yuri havia ficado por tê-la tratado daquela forma. Ele só não se ajoelhou pedindo perdão porque o primeiro tenente também estava na sala, e ele queria ser discreto, pelo menos no trabalho. Mas ela notou que ele queria fazer isso pela forma como ele pediu perdão dramaticamente.
– Eu te perdoo. Acho que a gente não deve misturar nossa vida pessoal com o trabalho. Vai ser melhor assim.
– Eu sinto muito – disse ele, olhando pro chão.
– Tudo bem. Pelo menos eu pude ver como meus colegas se preocupam comigo. – Depois de um breve silêncio, ela continuou – Não quer que eu faça algumas cópias do relatório?
–Não, não. Obrigado. Pode deixar que eu faço isso. Você está dispensada.
Ela se retirou da sala.
O primeiro tenente observou cada momento daquela conversa, enquanto fingia estar lendo outros relatórios que estavam sobre sua mesa. Ele sabia que Chloe havia sido cuidada por seus colegas por ordens de Yuri. Ele sabia o quanto Yuri se preocupava com Chloe.
No final do dia, Yuri ainda se sentia triste, porém mais leve por ter admitido sua atitude ruim e estava determinado a não agir mais assim. Mas ao ouvir uma conversa no vestiário, ele sentiu o desespero tomar conta dele.
– Ei, Hansel. Eu vi que você tá mais próximo da Chloe.
– Ela é muito interessante. Se ela continuar me dando corda, eu vou investir nela.
– Não perde tempo mesmo não, cara.
– Talvez eu a chame pra sair comigo hoje. Quem sabe ela aceita?
– É isso aí!
– Você tem sugestões de algum lugar que eu possa levá-la? Você tá sempre saindo em encontros, deve conhecer lugares bem legais, Kevin.
A conversa foi perdendo o som não só porque os rapazes estavam saindo do vestiário, mas porque Yuri começou a se sentir mal. Ele estava em uma parte do vestiário que tinha poucas luzes acesas, atrás dos armários de onde Hansel e Kevin estavam.
O coração dele acelerou e seus olhos começaram a ficar turvos. Não foi porque ele iria desmaiar, mas sim porque lágrimas começaram a se acumular em seus olhos. Ele correu para um box que, por sorte, não tinha sido usado naquele dia e estava com o chão seco. Ele começou a hiperventilar enquanto as lágrimas desciam dos seus olhos. Ele começou a escorregar pela parede pensando que, naquele momento, ele havia perdido a Chloe. Ele estava disposto a aceitar aquilo como seu castigo.
O primeiro tenente estava procurando por ele, quando o encontrou sentado, com o rosto todo molhado de lágrimas.
– Yuri?! O que aconteceu?
– Senhor!
Yuri estava sentado no chão, encostado na parede lateral do chuveiro, com uma perna esticada no chão e outra com o pé apoiado no chão. O tenente se abaixou ao lado dele quando viu a situação deplorável em que seu subordinado se encontrava, e colocou a mão sobre o ombro dele.
– O que aconteceu, Yuri?
– A Chloe… eu a perdi.
– O quê? Como assim?
– Eu ouvi o Hansel dizer que vai chamá-la pra sair – disse ele, cobrindo os olhos com uma das mãos.
– Não quer dizer que ela vai aceitar.
– Como que ela não vai aceitar? Ele é tão legal com ela, a faz sorrir, e ainda é bonito.
– Você também preenche esses requisitos.
– Mas não sou ele. Ele nunca a tratou mal, como eu já fiz. E eu ainda o empurrei pra ela hoje. Eu deveria ter visto o problema que eu causei. Se eu não tivesse… se eu não tivesse. – Ele começou a soluçar enquanto falava.
– Você precisa se acalmar, meu jovem. Não é o fim do mundo. Pense com clareza… – Yuri o interrompeu.
– Eu gosto da Chloe… eu demorei tanto tempo pra perceber, pra aceitar isso. Eu acabei a magoando. Se eu não tivesse demorado tanto – disse ele, com a voz falhando.
– Não é o fim do mundo Yuri. Eu vi o quanto você se importa com ela.
Yuri olhou nos olhos do seu superior e disse:
– De que adianta, se ela gosta do Hansel?
Novas lágrimas cairam dos seus olhos e sua voz assumiu um tom mais agudo.
O tenente olhou pra baixo e deu risada das palavras dele.
– A Chloe sempre gostou de você. Você nunca percebeu porque estava obcecado com o casamento de sua irmã.
– O quê? A Chloe? Não, ela não me vê assim. Eu só sou o pirralho que foi colega dela na faculdade.
– Você não consegue perceber isso? Ela estava sempre arranjando uma desculpa pra estar do seu lado. E eu também vi isso em você. Nós últimos meses, você vivia atrás dela, como um cachorrinho atrás do dono. E eu tenho que admitir que você melhorou bastante, a companhia dela te faz bem. Esses dois dias foram torturantes pra mim. Fala a ela como você se sente.
O rosto de Yuri se iluminou ao ouvir essas palavras. Mas ele também sentiu uma pontada de medo.
– Mas e se ela me rejeitar?
O tenente sorriu novamente. Para ele, a resposta era óbvia.
– Ela não vai fazer isso, confia em mim.
– Ela ainda não foi embora?
– Não. Na verdade, ela estava entrando no vestiário feminino quando cheguei aqui. Lava o rosto e vai falar com ela.
Yuri levantou correndo e foi lavar o rosto.
– Muito obrigado, senhor – disse ele, saindo do vestiário.
Ele sabia que naquele dia, Chloe foi trabalhar de carro. E por isso ele a esperou no estacionamento, perto do carro dela.
Yuri estava bastante ansioso, andando de um lado pro outro, batendo os dedos na perna. Quando viu Chloe se aproximando, parou ao lado da porta do carro. Chloe estava distraída olhando as horas no relógio, e quando levantou os olhos e viu Yuri parado, ela também parou.
– Segundo tenente?! Algum problema? – perguntou ela, expressando preocupação.
– Problema? Nenhum! – respondeu ele, passando a mão na nuca. Eles ficaram parados, com um silêncio constrangedor preenchendo o ambiente. Chloe o encarava, e Yuri olhava pra qualquer lugar, menos pra ela.
– Preciso entrar no carro, segundo tenente.
– Yuri. Já disse que pode me chamar pelo nome fora do horário de trabalho, por favor.
– Certo. – Ela apertou a alça da bolsa, que estava em seu ombro, entre os dedos.
– Ahh é, você precisa abrir a porta do carro pra entrar, me desculpe – disse ele, enquanto sorria, mas constrangido, abrindo espaço pra ela passar. Quando ela estava prestes a abrir a porta do carro, ele continuou a falar, quase sussurrando.
– Você vai sair com o Hansel?
Chloe ficou em choque e se virou para ele, lentamente.
– Não. Na verdade ele me chamou, mas… eu estou cansada demais, então rejeitei o convite. Como você sabia?
– Eu o ouvi conversando no vestiário.
– Entendi.
Ela se virou novamente para abrir a porta do carro, quando a voz de Yuri a fez virar pra ele instantaneamente.
– Não arranja um namorado não, Chloe.
Ela ficou ainda mais surpresa com as palavras dele. O coração dela acelerou de uma forma que ela queria pedir que ele se acalmasse.
– Por que você está me pedindo isso, Yuri?
– Porque eu não vou aguentar te perder.
– Me perder?
– Por favor, não procura um namorado não. Porque eu… eu gosto de você.
– Yuri – respondeu ela, sussurrando.
– Me deixa ser seu namorado, Chloe, por favor. Eu quero muito isso.
Chloe tentou esconder seu sorriso apertando os lábios entre os dentes e colocando os dedos sobre a boca. Seus olhos mostravam que ele estava implorando pra que ela gostasse dele de volta. Ele continuou:
– Esses últimos quatro meses me fizeram ver você com outros olhos. Eu achava que só tínhamos nos aproximado como amigos, mas não era só isso. E eu só percebi quando vi que você poderia gostar de outra pessoa, e…
Ela se aproximou dele e o abraçou por cima dos braços dele enquanto ele falava, o interrompendo.
– Eu também quero que você seja meu namorado, Yuri. Porque eu gosto de você.
Ele a segurou pelos braços, a afastando dele, e disse, surpreso:
– Você gosta de mim? Sério? Mesmo eu tendo sido um idiota diversas vezes?
– Agora você reconhece que agiu como um idiota?
– Me desculpa, Chloe.
– Tá tudo bem, Yuri. Isso fica no passado. Sem dizer que eu não levava suas ameaças a sério. Você só criou essa casca pra esconder o que tem no coração.
– Eu sou tão transparente assim pra você?
Ela sorriu e acenou com a cabeça, em sinal de confirmação. E ele a abraçou, e ambos permaneceram assim por alguns poucos minutos. A sensação era aconchegante e reconfortante, carregada de alívio e algo que eles ainda não compreendiam totalmente. Mas sabiam que estar nos braços um do outro ainda era o melhor lugar.
– Eu acho melhor a gente ir embora, antes que alguém pegue a gente em flagrante – disse Chloe.
– Verdade – respondeu Yuri, sorrindo.
– Quer que eu te leve pra casa?
– Acho que o namorado que tem que levar a namorada pra casa, não acha? – disse ele corando, enquanto limpava a garganta, com uma mão atrás das costas e a outra fechada, cobrindo a boca. Chloe não conteve um sorriso largo ao ouvir as palavras do rapaz.
– Então você dirige – disse ela.
– Mas aí seu carro vai ficar comigo.
– Amanhã você devolve, Yuri.
Era a desculpa perfeita pra eles se verem novamente no dia seguinte.
Por fim,Yuri dirigiu, levando Chloe até a casa dela. Ao chegar na frente do prédio em que ela morava, ela subiu as escadas, enquanto ele a acompanhava atrás. Quando ela chegou no topo da escada, ele segurou a mão dela. Ela olhou para as mãos deles e sorriu. Ela parou e virou de frente pra ele, que estava parado um degrau abaixo.
– Chloe, antes de você entrar, me diz, quando você começou a gostar de mim?
– Acho que já tem bastante tempo, não sei quando foi. Mas começou com admiração. Eu admirava sua determinação, seu esforço, sua força. Eu vi que aquele garoto que era o bebê chato da turma na faculdade se tornou um homem dedicado.
– Então aquele dia no jantar, quando você disse que isso fez com que você se sentisse atraída por mim, era verdade?
– Sim. – O sorriso que ela tinha no rosto fez com que ele quisesse abraçá-la de novo. Mas ela o interrompeu.
– E você? Quando começou a gostar de mim?
– Bem, naquele dia, no jantar na casa da mana, eu já sabia que algo havia mudado sobre como eu me sentia com respeito a você. Eu só não sabia que eu estava gostando de você, até você me dizer que não queria mais sair comigo. Pensar que a única mulher além da Yor que se importava comigo de verdade, e por quem eu tinha sentimentos, não queria mais passar tempo comigo me fez entrar em colapso. Eu não sabia o que fazer, porque eu ainda não entendia o que eu sentia, até eu ouvir que tinha alguém querendo estar do seu lado tanto quanto eu. Eu tinha que lutar por você. Você é muito valiosa, Chloe.
Chloe não pôde conter um sorriso bobo ao ouvir as palavras de Yuri.
– Obrigada por lutar por mim.
Yuri estava extasiado com aquele momento, e por isso, não pode evitar puxá-la para mais perto discretamente, subindo suas mãos das mãos dela para o punho. Por estar um degrau abaixo dela, eles ficaram quase na mesma altura. Então, ele se esticou pra frente e a beijou. Foi algo rápido, suave, porém terno.
Chloe se surpreendeu com a atitude dele. Então ela deu dois passos pra trás pra que ele subisse no topo da escada. E quando ele o fez, ela segurou o rosto dele com as duas mãos, e o beijou novamente. Ele a abraçou durante o beijo, e ela moveu as mãos para a nuca dele. Ao se afastarem, ambos sorriram, enquanto seguravam as mãos um do outro. Eles se despediram, Chloe entrou no prédio e Yuri foi dirigindo pra casa, pensando em tudo o que aconteceu poucas horas atrás.
Aquilo com certeza seria algo novo para Yuri, mas ele se sentia pronto para estar onde havia chegado. E ele lutaria para ter Chloe ao lado dele todos os dias, dali em diante.
