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Los Angeles – 2026
As noites de sexta na Cidade dos Anjos eram sempre iguais às outras, ao mesmo tempo em que sempre guardavam novas surpresas – talvez fizesse parte da cultura da cidade, surpreendendo os turistas e os locais todos os dias.
Assim como todas as vésperas de final de semana, a Lux – piano bar durante o dia e boate de luxo no horário dos pecados – estava bombando. As luzes douradas refletiam nas taças de cristal sobre o mármore escuro do balcão. A pista estava movimentada, o cheiro de perfume caro e drinks elaborados já impregnava os sofás de couro enquanto mulheres, de todos os tipos, tomavam para si a energia das músicas agitadas na pista de dança – ou em cima das mesas, dependendo do nível de álcool que tinham no sangue. O nome não parecia uma ideia inventada por designer ou publicitário, era uma referência clara à luxúria, um dos 7 pecados capitais, uma das bases para todos os outros pecados. Apenas uma pessoa poderia administrar um lugar como esse, a mesma pessoa que administrara o inferno.
Eduarda Fragoso.
A mulher, elegante da cabeça aos pés, descia as escadas da boate com a displicência de quem é dona do lugar – e era mesmo. A camisa social branca de fibras de linho egípcio tinha os primeiros botões abertos, e o decote trazia uma sensualidade feminina que faria qualquer um querer pecar. Por cima da camisa bem passada, o terno Prada preto – aparentemente o Diabo veste mesmo Prada -, e as calças da mesma cor traziam o poder que Eduarda, por si só, carregava. Os sapatos de couro italiano refletiam as luzes do bar, enquanto o cabelo, ruivo como as chamas do fogo do inferno, completava o convite para a perdição. Ela era o desejo em forma física, e ninguém se mostrava capaz de resistir.
- Por onde andou? – a garçonete loira perguntou assim que Eduarda apareceu.
Celina.
Mulher loira, atraente, mas também um demônio – da forma mais literal possível. Melhor amiga de Eduarda desde que recebia ordens da ruiva para torturar almas condenadas no inferno e, agora, melhor amiga na Cidade dos Anjos desde que subiram à Terra.
- Bebendo na cobertura enquanto realizava os desejos de uma garota chamada Glória. Nome irônico, não? – Eduarda respondeu, se servindo de uma dose de whisky Bourbon. Celina revirou os olhos, sorrindo.
- Você não deveria gastar seu valioso tempo aqui na Terra fazendo alguma coisa mais significante? – Celina perguntou, servindo um Dry Martini para uma das clientes do bar. – Tipo, eu sinto que não sai do inferno para ser garçonete de um bar. – Arqueou uma das sobrancelhas. Ao mesmo tempo, a cliente que atendia deixou um papel com um número de telefone para Celina. – Bom, não é tão ruim assim, na verdade.
Eduarda riu e esvaziou seu copo em um gole. Foi se servir de mais uma dose mas, enquanto virava a garrafa com dosador em seu copo, o líquido âmbar perdeu a velocidade e caiu em câmera lenta. Celina e Eduarda se encararam ao mesmo tempo.
- Parece que você tem visita. – A loira, com leve sotaque português, comentou.
Eduarda se virou a tempo de ver seu irmão entrar no bar.
Paulo Reitz.
O homem, alto, moreno, de barba feita e expressão séria, se aproximou.
- Olha quem decidiu curtir uma noite de sexta. Cansou de ser certinho, irmão? – A ruiva comentou enquanto se sentava em um dos sofás de couro.
- Seu retorno ao inferno foi solicitado. - Paulo respondeu, simples, sem margem para discussão.
- Olha, posso voltar 31 de fevereiro. Serve pra você? – Eduarda cruzou as pernas, deixou seu copo em cima de uma das mesas, e juntou suas mãos no colo, deixando as unhas pintadas de preto e os anéis de prata aparentes.
- Você debocha de tudo que é divino. – Reitz respondeu, duro.
A ruiva colocou uma das mãos no peito, fingindo comoção.
- Obrigada. Assim eu me sinto lisonjeada. – Paulinho estava certo em uma coisa, ela raramente levava as coisas a sério. – Olha, ultimamente eu andei pensando...você acha que eu sou o Diabo por que sou inerentemente má ou porque o “papai” decidiu que eu era?
Paulo já estava perdendo a paciência.
- O que você acha que acontece quando a Senhora do Inferno deixa o trono? – Eduarda desviou o olhar, mas sem baixar a guarda. Paulinho se aproximou e a agarrou pelos ombros. – Onde acha que os demônios e as almas atormentadas vão parar?
Eduarda fuzilou o irmão com os olhos.
- Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Isso não é mais problema meu. – Pegou seu copo e bebeu a dose de whisky. – E você, maninho...vai pro inferno. – Sorriu com todos os dentes.
- Fique avisada, Eduarda. O pai não terá misericórdia por muito tempo. – Paulo desapareceu sem dar tempo para mais uma resposta atravessada ou irônica. Eduarda engoliu em seco.
O tempo voltou ao normal.
A ruiva observava o movimento da boate, pensando em nada, mas com um amargor na garganta. Teve seu devaneio interrompido quando uma mulher sentou ao seu lado.
- Olá, Eduarda. Lembra de mim? – A mulher cumprimentou, amigável, e a ruiva sorriu em reconhecimento.
- Ellen! Quanto tempo! – Se cumprimentaram. – E aí? Vai me contar por que voltou? Você é uma estrela agora. – Colocou um dos braços no encosto do sofá e se virou para a garota.
- Eu preciso saber...eu vendi minha alma pro Diabo? – Parecia realmente preocupada.
- Não acho que o Diabo teria interesse pela sua alma. - Ellen pareceu mais aliviada. – Olha, eu só te fiz um favor te apresentando pra uns caras que me deviam favores. Só isso.
- É, teve coisa boa, mas também teve muita coisa ruim...
- Você vai culpar o Diabo pelas bebidas, drogas e fotos peladas? Ou só o babaca do Edgar? Afinal, você quase se casou com ele, não? – A ruiva disparou.
- Você que me apresentou pra ele! – Ellen tentou se defender, mas Eduarda levantou um dedo e rebateu.
- Eu te apresentei pra que ele produzisse seus álbuns, não falei pra dormir com ele.
- Ok, eu fiquei confusa! – Exasperou. – E eu larguei ele no altar!
- Adorei essa parte, aliás. – A ruiva sorriu.
- É, mas ele pediu pra voltar, eu recusei, agora ele vai se casar com uma modelo e eu tô com ciúmes. – Soltou de uma vez, tentando esconder o constrangimento pela revelação. – Ai meu Deus...
- Deus não tem nada a ver com a sua confusão. – A ruiva interrompeu. – Olha, Ellen...você não vendeu sua alma pro Diabo, mas me deve um favor.
- Ai que medo.
- Dá um jeito na sua vida. Você é talentosa. – Se levantou e estendeu uma das mãos. Ellen prontamente aceitou. – Vem, vou pedir pra um dos manobristas te deixar em casa.
Já do lado de fora da boate, se despediam em frente ao bar, enquanto um dos manobristas fazia papel de motorista em troca de um pagamento generoso de Eduarda.
- Lembre-se, você é humana. Agora é com você, tá bom? – Ellen concordou e as duas deram um breve abraço.
- Eu prometo.
Assim que se separaram, pneus cantaram na rua e três disparos foram ouvidos. Vidros estouraram, pessoas gritaram e Eduarda e Ellen caíram na calçada. A ruiva sentiu um dos disparos em suas costas, mas sua imortalidade impediu que a bala causasse sequer um arranhão. Se virou para o lado e se assustou com o que viu.
Ellen estava estirada no chão com sangue escorrendo pelo corpo. Cortes de vidro marcavam a pele, mas o que chamou a atenção foram os dois buracos de tiro no peito da garota. Ellen estava, definitivamente, morta.
Eduarda se levantou na mesma hora, percebendo que o carro do atirador havia batido em um dos postes da rua. Marchou em passos firmes até encontrar um homem ferido no banco. Estava quase morrendo.
- Ah mas você não vai morrer agora. – Disse antes de puxar o homem pelo pescoço. – Por que matou ela? – Perguntou.
- O que você acha? – O homem cuspia sangue e falava com dificuldade. – Dinheiro.
- Dinheiro? – A raiva começava a tomar conta da ruiva. - Não sabe como eu queria estar no inferno agora para te punir. – Disse entredentes.
- Eu só puxei o gatilho. – Foi a última defesa que o homem proferiu antes de apagar.
Eduarda largou o corpo com força e se afastou, decidida a punir o mandante do crime.
***
Minutos depois, a frente da Lux estava tomada de policiais.
Lorena Ferette, detetive da polícia de Los Angeles, desceu de seu carro pronta para enfrentar mais uma noite de trabalho. Mais um plantão sangrento.
O que ela não sabia, era que sua vida ganharia uma nova personagem no meio desse caso.
Lorena, uma morena alta, de olhar verde marcante, tinha sangue frio absoluto no trabalho, mas também carregava uma sensibilidade intrigante. Com suas botas e jaquetas de couro, tinha um faro aguçado.
Se aproximou da cena do crime, observando o corpo do motorista acidentado.
- Quer saber o que eu descobri? – Maggye, outra investigadora, havia chegado alguns minutos antes e colhido informações.
Lorena cerrou os dentes.
- A tenente falou que esse caso é meu. – Disse sem mais nem menos.
- Eu sei que é, mas só pra te avisar pra não perder seu tempo. Esse cara aí – apontou para o atirador morto – é Jesuíta Barbosa, um bandidinho pé de chinelo. Traficava ecstasy e cocaína, e a perícia achou as mesmas drogas no bolso da vítima. Deveria estar devendo pra ele e boom, foi morta. – Comentou, presunçosa.
- Como você sabe que ele é de baixo nível? – Lorena cruzou os braços, desafiando.
Realmente, não era fácil trabalhar com alguém que você já foi casada. Se arrependeu amargamente de lembrar desse detalhe no meio do embate.
Maggye respondeu:
- Olha o carro dele, Lorena. Não devia ter nem onde cair morto. – Apontou para o veículo destruído.
- Você viu o relógio dele? – Lorena apontou para o pulso do morto, mostrando um relógio de ouro que, com certeza, custava alguns milhares de dólares.
- Deve ser falso. – Deu de ombros. – Olha, a vítima era famosa, Lorena. Esse caso vai atrair todos os holofotes.
A mais alta encarava a ex-esposa sabendo exatamente onde ela iria chegar.
- Acho melhor pegar leve, ainda mais depois do caso do Michel em Lennox. – Maggye chegou exatamente onde Lorena esperava. Revirou os olhos.
- Eu pedi esse caso por causa de Lennox, Maggye. – Pontou. – Enfim, alguma testemunha?
- Boa sorte. – Foi tudo que Maggye disse antes de pedir para um dos policiais levar Lorena até a principal testemunha.
***
- Eduarda Fragoso Morningstar. – Eduarda se apresentou, enquanto tocava piano na boate vazia.
- Fragoso Morningstar? – Lorena, com um bloco de anotações, questionou. Agora Eduarda havia tirado o terno Prada e usava apenas a camisa social. – Isso é nome artístico?
A ruiva desviou o olhar das teclas, finalmente vendo Lorena.
- Escolhido por Deus, receio. – A ruiva sorriu e Lorena semicerrou os olhos. – Sabe, você é bem familiar. Nos conhecemos? – Perguntou bebendo um gole de whisky.
- Sim, tem cinco minutos. – A morena cortou. – E eu faço as perguntas. Qual era a sua relação com a vítima?
- Ela trabalhou na boate tem alguns anos. Eu tocava e ela cantava, aí ela virou uma estrela e alguém decidiu matá-la. – Eduarda sorriu, e Lorena estava quase convencida de que estava falando com uma louca.
Ignorou o pensamento.
- Conhecia o atirador?
- Tivemos uma breve conversa antes de ele bater as botas. – Lorena permaneceu em silêncio, então Eduarda esclareceu. – Morrer...ir dessa pra melhor. Pior, no caso dele.
- Eu entendi no “bater as botas”. – Cortou novamente. – O que conversaram?
- Perguntei por que ele tinha matado ela. – Respondeu como se fosse óbvio.
- Olha só...gosta de brincar de policial? – Arqueou uma sobrancelha.
Eduarda sorriu, com uma malícia pouco disfarçada.
- Gosto de brincar de tudo, detetive. E você?
Lorena ignorou.
- Então você conversou com um cara morto e-
A detetive interrompeu.
- Ele não estava morto ainda, faltava passar pelos portões, sabe?
- Entendi. – Definitivamente estava falando com uma louca. – E ele falou por que a matou?
- Por dinheiro, detetive. Não é claro? Vocês, humanos, adoram dinheiro. – Escondeu um sorriso enquanto esvaziava seu copo com pequenos goles.
Lorena suspirou e decidiu entrar no jogo.
- Pois é. Adoramos. E de que planeta você é?
Eduarda soltou uma breve risada, colocando a língua entre os dentes, e voltou ao assunto anterior.
- Ele também disse que “só apertou o gatilho”. Interessante, não acha?
- Olha, não tem nenhum mistério. Ele era traficante, ela usuária, eles se desentenderam e a Ellen acabou com dois tiros no peito por justiça de Deus.
- Não é assim que funciona, detetive.
Lorena ignorou.
- Como ela acaba morrendo em uma chuva de tiros e você não tem nem um arranhão da calçada? Eu acho que isso é interessante, o que me diz?
Eduarda ignorou novamente.
- O que a polícia corrupta de LA fará a respeito?
- Oi? – Lorena fechou o bloco de anotações e cruzou os braços.
- Vão punir o responsável? Isso ao menos é uma prioridade pra vocês? Porque pra mim, será.
- Você é afrontosa, senhora Mornigstar. – Lorena fuzilava a ruiva com o olhar.
- Por favor, não me chame assim. Posso estar aqui desde o início dos tempos mas estou conservada. E use apenas o Fragoso, o Morningstar é obra do meu pai.
Lorena negou com a cabeça, quase se arrependendo de ter pego o caso.
- Olha, é sério, eu posso jurar que já te vi sem roupa. – O queixo de Lorena caiu, em descrença. – A gente não transou mesmo?
Lorena virou as costas e se afastou.
- Terminamos por aqui.
- Detetive, espera. – Eduarda se levantou e se afastou do piano. – Alguém lá fora precisa ser punido, não terminamos.
- Ah terminamos, sim! – Sinalizou para os companheiros da polícia irem embora e foi logo atrás, deixando a ruiva no vácuo.
***
O sábado amanheceu como um ótimo dia para ir a um casamento nas regiões montanhosas de LA.
Isso foi o que Eduarda pensou, antes de invadir uma cerimônia em andamento.
- Se alguém é contra essa união, fale agora ou cale-se para sempre. – O padre, que realizava o casamento, disse.
Uma voz feminina, sedutora e debochada tomou conta do ambiente
- Com licença! Eu tenho um problema. – A ruiva falou, chamando atenção de todos os presentes enquanto caminhava até o altar. – Nossa, eu sempre quis falar isso. – Disse para uma idosa que, ao ver Eduarda, fez o sinal da cruz. A ruiva riu. – Mais alguém reparou em como esta jovem, incrivelmente linda, está prestes a se casar com esse velho, calvo e suado anão de jardim? Isso parece um sequestro, não? – Falou sobre a noiva.
O padre recuou assim que Eduarda subiu no altar.
- Manda um “oi” pro meu pai por mim. Faz tempo que eu não faço isso. – Pediu ao padre antes de se virar para o noivo. – Edgar! Lembra de mim?
- Oi, Eduarda! – Sorriu, nervoso. É uma cerimônia particular, como entrou aqui?
- Achei um casamento bem caro para um produtor que não produz mais sucessos. – Eduarda adorava desviar de assuntos para chegar onde queria.
- Olha, eu tô meio ocupado aqui. – Edgar sussurrou.
- Sinceramente, não acredito que está se casando um dia depois da sua ex-noiva, que já foi uma grande estrela, virar uma peneira na porta da minha boate. – A ruiva disparou.
- É, é bem triste, mas ela já estragou o meu casamento uma vez. Isso não vai se repetir. – O homem grisalho respondeu, com impaciência.
Eduarda olhou para a noiva. Uma mulher muito bonita, digna de capas de revista. Lembrou que Ellen havia comentado que era uma modelo.
- Deve ser muito triste ser rejeitado duas vezes. Bom, na verdade não sei como é. Nunca me ocorreu. – Sorriu e jogou os cabelos para o lado.
- Como é? – Edgar parecia confuso.
- Você tentou voltar pra ela e foi rejeitado. Eu mataria se fizessem comigo, mas não que isso seja possível. – Encarou Edgar no fundo dos olhos, jogando uma sugestão. – Queria ela morta, Eddie?
Edgar tinha seu olhar preso no de Eduarda, como se fosse um imã. Sentia que não conseguiria mentir seus desejos encarando a garota.
- Para de me olhar assim, aberração. – Desviou o olhar, tentando se defender. – Fui humilhado e fiquei com raiva, mas acho que acabei me dando bem. – Apontou para a noiva.
Eduarda olhou para a modelo antes de falar.
- Garanto que sim. – Piscou para a noiva, que sorriu em resposta.
- Vai fazer esse seu joguinho de investigação com o Anderson. – O velho disse.
- O rapper e DJ? – A ruiva questionou.
- É. Ele e a Ellen estavam juntos. Estavam sempre discutindo, ele batia nela muitas vezes e vive rodeado de idiotas armados o dia todo. Certeza que foi ele. – Eduarda pareceu momentaneamente convencida.
Se voltou para a noiva mais uma vez.
- Oi, linda. Meu nome é Eduarda Fragoso. – A ruiva encarou a modelo, arrancando dela seus desejos apenas com o olhar. Era quase um feitiço.
– Eu não quero ir pra cama com ele na noite de núpcias. – A garota falou e todos os convidados ficaram em choque, inclusive Edgar.
Eduarda olhou para o homem, esperando uma reação.
- Ai, não acredito que acabei de dizer isso. – A modelo disse.
- Sejamos sinceros, não está casando com ele por amor. Enfim, galera, até mais. – Virou as costas e começou a caminhar em direção à saída. Virou mais uma vez para o altar. – Boa sorte hoje de noite, linda. Vai precisar.
***
Lorena chegou na mansão do rapper e DJ, Anderson, com um mandado. O mordomo não teve outra opção a não ser deixa-la subir. Talvez a morena preferisse não ter subido depois de olhar a cena que acontecia na varanda.
7 homens armados observavam uma mulher ruiva, com terno italiano decotado, segurando Anderson, que estava quase sendo jogado da sacada, apenas pela corrente pesada no pescoço do garoto. Desacreditada do que via, sacou sua pistola e o distintivo.
- Polícia! Larguem as armas! – Lorena não sabia o que fazer primeiro. Aquela cena, definitivamente, não estava nos seus panos para o sábado.
- Detetive, bem vinda à festa! – Eduarda puxou Anderson e o soltou. – Decidiu acreditar em mim e não na história de que a Ellen morreu por cauda de um traficante meia boca? Estou surpresa. – Eduarda comentou enquanto desamassava o terno.
- Na verdade, investiguei o celular do morto e a última ligação dele foi pro Anderson. – Pontuou. – O que me deixa curiosa é você ter feito essa conexão sozinha. – Lorena sentia que Eduarda era um pouco criminosa, mas ainda não tinha como provar.
- Eu tenho talento. – A ruiva deu de ombros, passando a mão pelos próprios cabelos. – E invadi um casamento.
Lorena levou três segundos para decidir se questionava ou ignorava. Preferiu ignorar.
- Me fale sobre a Ellen. – Perguntou para Anderson ignorando a ruiva, que se sentiu ofendida com o vácuo.
- Já falei com ele sobre isso, detetive.
Lorena, novamente, ignorou.
- Por que ligou para o atirador dois dias antes de ela ser morta? – Lançou outra pergunta para o DJ.
- Liguei pro Jesuíta porque ele me fornecia uma paradas. Isso não faz de mim um assassino. – O rapper se defendeu.
- Mas faz de você um suspeito. – Lorena rebateu.
- Se todo mundo que ligou pra ele é suspeito, metade de Holywood vai ser presa. – O rapaz debochou. – O Oscar e o Grammy vão ser atrás das grandes.
Antes que qualquer um falasse alguma coisa, um dos rapazes que estava na sala apontou para a detetive.
- Espera, você não fez aquele filme? – Lorena poderia morrer ali mesmo.
- Que isso? Que filme? – Eduarda intercalava o olhar entre os dois.
- Eu já fui atriz. – Lorena se limitou a responder.
Um lampejo de reconhecimento passou pelo rosto de Eduarda, e a ruiva não pode não comentar sobre.
- Mas é claro! Você fez aquela série adolescente de vampiros, é claro que eu já te conhecia. – A ruiva estava feliz como se tivesse acabado de descobrir algo de extrema importância.
- Apenas responda minha pergun- tentou voltar ao assunto com Anderson, mas Eduarda a interrompeu.
- Tem aquela sua cena de nudez saindo de uma banheira com sangue. Sua atuação foi incrível, detetive. – A ruiva acreditava mesmo estar elogiando.
- Agradeço por isso, mas é melhor você ficar quieta. Minha arma está com o pente cheio demais pra você continuar falando. – Eduarda engoliu em seco, mesmo sabendo que alguns tiros não fariam nem cócegas. – E você vai conversar comigo. – Apontou para Anderson novamente.
- Perda de tempo, eu acabei de ameaçar ele de morte, se fosse culpado já teria se entregado. – A ruiva cruzou os braços, mostrando como era útil.
Lorena fechou os olhos e respirou fundo. Duas vezes.
- Você fez o quê?
- Não é ilegal? – O rapper tomou a frente.
Lorena voltou a encarar Eduarda, que olhava com deboche.
- É sim. – Puxou suas algemas do bolso. – Anderson, você fica onde está. E você – puxou o braço de Eduarda – vem comigo.
- O que? – Eduarda foi puxada e algemada mas, mesmo sabendo que tinha força e habilidade para resistir, achou de bom tom não reclamar. – Com prazer.
Enquanto era puxada para a viatura disfarçada da morena, continuou falando.
- Só não entendo porque estou sendo presa.
- Talvez por interferir em uma investigação, por violar inúmeras leis e por encher a porra do meu saco. – Lorena abriu a porta do banco de trás para que a ruiva entrasse.
- Sabe que eu consigo me soltar, né? – Eduarda achou importante avisar.
- Haha, engraçada você. – A detetive jurava que era um blefe, até Eduarda mostrar as algemas soltas e joga-las para dentro do carro.
- Como fez isso?
- Tá perdendo tempo. Nós deveríamos estar investigando e punindo o culpado. – Lorena achava curiosa a forma que Eduarda realmente não parecia ver problema nas coisas.
- Nós? – Lorena riu. – Você é maluca e eu vou te prender. Entra no carro.
- Vamos, eu posso ajudar. Posso ser muito persuasiva com as pessoas e tenho algumas habilidades...interessantes.
- Então as pessoas te contam as coisas sem mais nem menos? A tá bom. – A detetive revirou os olhos.
- Digamos que elas me contam seus desejos proibidos.
- Então as pessoas te contam os pecados fácil assim?
- Os pecados não, não sei porque as pessoas me dão essa péssima reputação. Os pecados são coisas de vocês. – Explicou.
- “Vocês”? – Lorena negou com a cabeça, rindo. – Entendi. Essa sua coisa do nome Morningstar, como Lucifer, e o desejo sendo o seu superpoder. Você só é louca mesmo.
- Não é muito bem um superpoder, é mais um dom dado por Deus. – A ruiva corrigiu. – Ok, veja. – Olhou no fundo dos olhos de Lorena, pronta para arrancar o desejo da mais alta, assim como já havia feito com milhares e milhares de humanos e almas condenadas. – Me conte, detetive...O que você deseja?
Lorena olhava para Eduarda.
- Esse é o seu truque? – Lorena apoiou um braço no teto do carro, vendo até onde o jogo de Eduarda iria.
“Ela é uma das difíceis” a ruiva pensou, então tentou novamente. Fixou seus olhos nos da morena e perguntou novamente:
- O que você realmente deseja?
Lorena foi se aproximando, sem quebrar a troca de olhares.
- Eu acho que...quando eu era criança eu queria ser policial, como o meu irmão, pra fazer justiça e ser levada a sério...quando eu te mando calar a boca e entrar na merda do carro! – Disse e se virou, revoltada.
- Mas o que? – Eduarda disse a si mesma ao perceber que o feitiço não tinha funcionado. Seu sorriso desapareceu na hora. – Você não é uma Jedi, é?
Lorena revirou os olhos e abriu a porta para entrar no carro. Eduarda interrompeu.
- Eu sei de algo que você não sabe! – Lorena olhou, esperando. – Mas eu só digo se aceitar a minha ajuda. – Sorriu.
- Por que se importa tanto com isso? Com a Ellen? – Lorena estava mesmo curiosa com aquilo.
- Eu só...só me importo. Talvez, se não tivesse me metido na carreira dela, ela estivesse viva agora. – Não se sentia exatamente culpada, mas pensava em como as coisas poderiam ter sido diferentes.
- Tá, tudo bem, beleza. – Lorena se rendeu. – Mas se essa sua pista estiver errada, as algemas vão pro seu pulso e não vão mais sair.
- Você promete? – Eduarda sorriu com todos os dentes, em malícia.
Lorena empurrou a ruiva para o banco de trás e fechou a porta com força, indo para o banco do motorista. Pegou o celular e ligou para a central de polícia solicitando uma informação.
- Recebi uma pista sobre uma possível terapeuta da Ellen, preciso que confirme pra mim. Gerluce Maria das Graças, psicóloga em Beverly Hills. – Esperou por uma resposta. – Ok, obrigada. – Desligou e olhou para a ruiva pelo retrovisor. – Parece que sua pista estava certa.
Eduarda sorria, convencida.
- Não fica se achando. – Lorena disse.
- Não é isso, é só que eu sabia que te conhecia de algum lugar. – Eduarda abotoou um dos botões da camisa, mas desabotoou de novo. Lorena observava.
- É, você viu os meus peitos, e daí? Tem 12 anos?
- Tenho alguns milênios, na verdade. – Apontou. – É por causa da série que você vive irritada?
- Acredite se quiser, esse é o menor dos meus problemas no trabalho. – A detetive respondeu enquanto dirigia.
- Uma policial lutando pra ser levada a sério em um ambiente de trabalho machista? Entendo bem... – Eduarda não aguentava mais ouvir gente falando que o Diabo, com certeza, era um homem. A raça masculina realmente não sabe o poder de uma mulher, imagina se soubessem que Eva colocava o Adão em uma coleira?
- É, mais ou menos isso...que bom que entende. – Foi o primeiro sorriso amigável que Lorena deu desde que as duas se conheceram na noite passada.
- Eles se sentem ameaçados. Você é durona, inteligente e tem instinto aguçado. Ignore-os, confie em si mesma. – Lorena não admitiria, mas era um bom conselho.
- Você não é tão desprezível assim. – Pontuou.
- Isso foi um elogio? – Eduarda perguntou esperançosa, mas Lorena ignorou. – Um meio elogio? – Tentou de novo.
- Algo assim...
Eduarda não sabia o motivo, mas era a primeira vez que esperava uma aprovação. Ou o que quer que tenha sido isso.
Estavam quase chegando à clínica de Gerluce quando Lorena recebeu uma mensagem.
Olhou o contato. “Escola Gabi”.
- Merda. – Sussurrou.
- O que foi? – Eduarda, cansada do silêncio, perguntou enquanto tirava um cantil do paletó e bebia um gole generoso de alguma bebida alcoólica. A morena decidiu ignorar.
- Vamos precisar fazer um desvio, minha irmãzinha brigou na escola.
- Mas o qu- A ruiva não pode terminar sua frase, pois Lorena já jogava o carro para um desvio.
Minutos depois pararam em frente a um colégio.
- Espera no carro. – A mais alta ordenou enquanto descia.
- Sem problemas, odeio crianças.
Lorena se afastou, mas só o suficiente para Eduarda avistar uma professora loira, muito bonita, entrando na escola.
- Acho que não faz mal ver um pouco de pirralhos. – Desceu do carro pronta para ir atrás da professora.
Assim que passou por alguns corredores, percebeu que a tinha perdido de vista. Suspirou em frustração e se sentou em um banco, bebendo mais de seu cantil.
Uma voz infantil chamou a atenção da ruiva.
- Não pode beber aqui. – Eduarda se virou o suficiente para encontrar uma garotinha sentada ao seu lado. Os olhos verdes eram familiares.
- Poxa vida, o que será de mim? – Guardou o cantil.
- Minha irmã é policial, ela pode te prender. – A garotinha comentou, inocente.
- Ah...acho que conheço a sua irmã. – Claro que os olhos verdes eram familiares, a menina era uma cópia de Lorena.
- Qual o seu nome? – A menininha perguntou, balançando os pés que não alcançavam o chão.
- Eduarda Morningstar. – Sorriu.
- Morningstar que nem o Diabo? – A menina sussurrou, interessada.
- Exatamente. – Eduarda sorriu de volta.
- O meu nome é Gabriela, mas todo mundo me chama de Gabi. – A menina disse antes que a ruiva perguntasse.
- Acho que já conheci uma prostituta com esse nome. – Eduarda desviou o olhar, tentando lembrar do rosto da Gabriela que conheceu. Não lembrou.
- O que é uma prostituta? – Gabi perguntou.
Gabriela respirou fundo e gaguejou antes de responder.
- Pergunte para a sua mãe. – Gabriela pareceu se contentar com a resposta. – Então, por que arranjou encrenca?
Gabi apontou para uma menina, um pouco mais velha do que ela, sentada alguns metros ao lado.
- Tá vendo aquela menina? – Eduarda concordou. – Fez bullying comigo. Criou imagens falsas e usou pra fazer piada de mim. Então chutei ela bem nos países baixos. – Gabi parecia orgulhosa.
- Países baixos? Tipo onde fica a Holanda? – Eduarda questionou, confusa.
Gabriela apontou para as pernas de Eduarda, que exclamou em compreensão.
- Bom trabalho, garota. Muito bom trabalho. – A ruiva se levantou e foi até a outra menina.
- Ei, pirralha! – A garota olhou e Eduarda se abaixou na frente dela. – Sabia que tem um lugar especial no inferno para os valentões? – A menina revirou os olhos. – Divirta-se – Foi o que a ruiva disse antes de olhar no fundo dos olhos da garota e transformar os seus próprios em esferas vermelhas, como o fogo do inferno. Cortesia da sua face de Diabo.
A menina gritou e correu enquanto a ruiva ria, satisfeita.
Na mesma hora, uma porta se abriu. Lorena apareceu assustada com o grito.
- O que você fez? – Perguntou diretamente para Eduarda.
- Acho que a pirralha tava se sentindo culpada. – Deu de ombros e Lorena decidiu não perguntar mais nada. Ao fundo, Gabi sorria em cumplicidade para a ruiva.
O momento foi interrompido quando uma morena, quase da altura de Eduarda, apareceu no corredor.
- Tia Maggye! – Gabi exclamou antes de correr para os braços dela.
- Está atrasada. – Lorena pontuou enquanto cruzava os braços.
Eduarda percebeu a postura ofensiva.
- Me dá um tempo, vai. Eu estava resolvendo um caso. – Maggye rebateu.
A ruiva observou Gabriela tampando os próprios ouvidos.
- E eu não, né? Inclusive aquele que você tentou roubar de mim.
- Ah sim, aquele que é óbvio? Boa sorte ai. Seja esperta e encerre o caso.
Eduarda interrompeu.
- Ela é esperta, você que é a estúpida. – Maggye a fuzilou com o olhar. – Que tal não brigarem na frente da criança? É inadequado.
Lorena se impressionou com a atitude, mas Maggye não gostou muito.
- Eu não sei se dou risada ou se atiro em você. – Se aproximou da ruiva na tentativa de intimidar.
- Me surpreenda. – Eduarda sorriu.
- Ela não é engraçada, tia? – Gabriela falou e Eduarda se achou ainda mais.
- Pode deixar a Gabi na casa da minha mãe? Precisamos ir. – Lorena disse para Maggye e olhou para a irmã. – Eu te amo muito, meu amor. Parabéns por enfrentar a menina má.
- Obrigada, mana. – A menininha respondeu, sorridente. – O que é prostituta?
Lorena virou em câmera lenta para Eduarda, que fingiu não ouvir a conversa.
- A tia Maggye explica. – A morena deixou o queixo cair e riu em descrença.
- Tchau, Duda! Foi um prazer te conhecer! – Gabi disse para a ruiva antes de entrar no carro da tia.
Lorena observava.
- Ela gostou de você.
- Claro que gostou, por que não gostaria?
***
Chegaram ao escritório da doutora Gerluce em silêncio, esperando pela terapeuta.
Eduarda começou a falar.
- Sua irmã é tipo a sua filha? – Perguntou enquanto bebia um copo de água.
- Na verdade, é sim. É irmã que na verdade é sobrinha, mas nos chamamos de irmãs. Somos até bem parecidas. – A ruiva olhou, curiosa. – Meu irmão e a esposa morreram em um acidente dias depois do nascimento da Gabi. Meu pai, bom...nunca foi presente, e a minha mãe trabalha demais. Acabei ficando com a guarda...Maggye ajudou a criar ela. – Lorena desabafou.
Eduarda não esperava por essa.
- Sinto muito...odeio essas criaturinhas horrorosas mas a sua irmã é gente boa. Não é motivo de orgulho mas também não é uma vergonha.
- Você tem noção de como isso soa babaca? – A detetive não acreditava em como alguém poderia dizer essas coisas de forma tão natural.
- Não. Mas falando em babaca...porque sua ex-esposa quer tanto que você largue esse caso? – Tentou, novamente, usar seu feitiço com a mais alta.
- Por nada. – Não funcionou. De novo.
Eduarda estava intrigada.
- Estranho...
- É, você é.
A ruiva ficou alguns segundos em silêncio.
- Foi enviada pelo meu pai?
Lorena realmente acreditava estar falando com uma lunática.
Minutos depois estavam no sofá do consultório de Gerluce. Lorena perguntou sobre Ellen, mas Gerluce não desviava o olhar de Eduarda.
- Eu sei que sou um desejo pra você, mas pode responder às perguntas? – Eduarda disse.
Lorena revirou os olhos instantaneamente, não acreditando naquilo.
- Eu sei o que você está pensando. – A ruiva disse para Gerluce.
- Será que sabe? – Sem controlar, Gerluce flertou.
- Interessante... – Eduarda se virou para Lorena. – Você não me olha assim.
- Assim como? – Estava muito confusa.
- Com desejo. – Esclareceu.
- Porque eu não sinto isso por você. – Lorena disparou.
- Essa é a questão, a maioria das mulheres sente. Eu costumo atrair o lado escuro e malicioso de todos, mas...você, detetive, parece ser imune aos meus encantos.
- Acho que chamar de encanto é exagero. Eu acho você repulsiva. Quimicamente falando.
- Fascinante. – E para a ruiva era mesmo.
A detetive ignorou e voltou ao interrogatório.
- Doutora Gerluce, nós só precisamos saber o que se passava na vida da Ellen, aí vamos embora.
- Lamento, mas não posso fazer isso. – Gerluce avisou. – Ética profissional.
- Deixa comigo. – A ruiva tomou a frente e encarou Gerluce. – Doutora, me diga. – Puxou o olhar da mulher para o seu.
- Eu não posso... – Estava quase cedendo.
- Vamos lá.
- Eu quero, mas não posso. Ai você é o Diabo.
- É, eu sou mesmo. Vamos, fale.
- Você drogou ela? – Lorena murmurou.
- Não é culpa dela, ela só está reagindo a mim. Aguarde e verás. – Voltou a encarar a doutora e lançou um ultimato. – Ok, eu vou pra cama com você, mas responda o que queremos.
Lorena ficou boquiaberta, mas ficou ainda mais em choque quando Gerluce cedeu, feliz.
- Eu conto! Ela estava querendo ser atriz! – A doutora disparou.
- Mas ela era muito famosa no ramo musical. – Lorena questionou.
- Ela era, mas a produtora começou a reclamar da queda das streams nas músicas dela, ai pra não depender mais do pagamento do produtor pensou em entrar no ramo da atuação. – Gerluce comentou.
Lorena começou a pensar, e um estalo na sua cabeça clareou as ideias. Ela se levantou e puxou Eduarda.
- Temos que ir!
A ruiva permaneceu sentada.
- Espera! Eu fiz um acordo e tenho que cumprir a minha promessa. – Piscou para Gerluce, deixando Lorena descreditava mais uma vez. – Só uma rapidinha.
- Mas nem fodendo. – Lorena exasperou.
- Desse jeito não estarei fodendo mesmo. – Eduarda estava ofendida. Olhou para a terapeuta, que observava em silêncio. Desculpe doutora, agora não vai dar. – Se levantou. – Mas prometo retornar para cumprir minha parte do acordo.
***
Lorena e Eduarda estavam na Lux, sentadas em uma das mesas enquanto a detetive esperava um juiz emitir um mandado. Tinha uma grande suspeita.
Eduarda a observava.
- Ai Deus, o que eu tô fazendo aqui? – A morena sussurrou.
- Errou de divindade, mas essa é a questão eterna. – A ruiva respondeu.
Lorena sorriu.
- Não, quer dizer, o que eu tô fazendo aqui em um bar, com você?
- Você que me diz, detetive. – Serviu mais um copo de água para as duas. – Apesar da sua repulsa proclamada, não pode negar que há algo entre nós. – Eduarda sorriu, e Lorena poderia se bater por achar o sorriso da ruiva único. Mas era egocêntrico. – Diga, o que quer de verdade?
Lorena se aproximou, gostando da conversa.
- Quer dizer, o que eu mais desejo nesta vida? – Provocou.
- É, mas sem truques. Não funcionam em você, sua aberração. – Eduarda também se aproximou.
A detetive soltou um riso pelo nariz.
- É sério. – Eduarda relaxou a expressão. – Eu tô curiosa. – Apoiou o queixo em uma das mãos.
Lorena pensou.
- Sei lá, eu...quero mesmo ajudar as pessoas. Meu irmão foi um grande policial, e minha mãe era atriz, bem melodramática. Tentei ser atriz e fiz aquela cena de nudez, que não foi uma grande contribuição pra sociedade.
Eduarda interrompeu.
- Discordo, adoro essa série. – As duas riram.
- Aí eu parei. Decidi virar policial, como o meu irmão. Ai virei detetive e encontrei uma forma de ajudar a sociedade.
- Enquanto a sua ex-esposa tenta te fazer encerrar o caso? – Estava intrigada com as reações da ex da detetive.
- Houve um caso, um tiroteio em Lennox, onde um policial foi morto. Meu ponto de vista era diferente de todos do departamento, inclusive do da Maggye. Eu arrisquei meu pescoço, mas...o tiro saiu pela culatra. E agora ninguém mais quer trabalhar comigo. – Lorena contava sorrindo, por mais que não fosse engraçado. Era quase como se desse risada de sua desgraça.
- Bom, eu estou disponível. – Eduarda declarou, observando cada traço do rosto da detetive.
Lorena também apoiou o queixo em uma das mãos. As duas ficaram se olhando por alguns segundos.
O telefone de Lorena apitou.
- Saiu o mandado. – As duas se levantaram imediatamente. Lorena pulou da cadeira e Eduarda alcançou e vestiu seu paletó enquanto subiam as escadas da boate.
Lorena e Eduarda entraram pela porta da Sound Records, produtora de Edgar e onde Ellen trabalhava.
- Olá, Edgar. – Eduarda interrompeu uma gravação.
- Sério? Eu tô trabalhando.
- E como estão indo as vendas? – Eduarda questionou.
- Depende, de qual álbum?
- Todos os da Ellen. – Lorena agora tomava a frente. – Os que você produziu. Whitney Houston atingiu o pico de vendas de álbuns depois de morrer, Michael Jackson a mesma coisa. Talvez ter matado a Ellen encha os seus bolsos de direitos autorais. – A detetive cruzou os braços, esperando uma resposta. - Deve precisar mesmo de dinheiro, já que pagou o atirador com o seu relógio.
Edgar encolheu na hora.
- Achamos seu nome gravado no ouro do relógio, você nem tentou ser discreto. – Lorena continuou.
- Você é doente, não é? – Eduarda falou.
Edgar puxou um dos funcionários ao seu lado e tirou uma arma da cintura, apontando para o garoto.
- Eu a criei. – Ele começou. – E ela me humilhou. Me destruiu. Ele me deve!
- Você não é Deus, Edgar, você não a criou. Você destruiu ela. – Eduarda rosnou. – Então eu vou te castigar... – Começou a se aproximar do homem.
- Se afasta! Tô falando sério. – Engatilhou a arma que apontava para o garoto enquanto a ruiva se aproximava. – Eu não vou pra cadeia por causa daquela vagabunda.
- Obedece, Eduarda, se afasta! – Lorena mandou enquanto apontava sua arma para Edgar, mas a ruiva continuou se aproximando.
- Eu já disse, tá tudo bem, eu sou imortal. – Eduarda disse, com tédio, e continuou avançando.
Edgar apontou a arma para a ruiva e Lorena aproveitou a deixa para disparar no peito dele.
- Por que você fez isso?! – Eduarda se indignou.
- Ele ia te matar! – Lorena não acreditava ter que explicar aquilo.
- Não, não ia! Você deixou ele se safar fácil dessa, ele tem que pagar, sentir a dor, sofrer! – Dizia entredentes
- Não se preocupa, pra onde ele vai ele vai sofrer bastante! – Lorena rebateu.
- NÃO VAI! – Eduarda gritou. – PORQUE EU ESTOU AQUI, O INFERNO ESTÁ SEM MIM!
Um tiro cortou o ar.
Eduarda viu o exato momento em que uma bala, atirada por Edgar, atingiu o ombro de Lorena. A detetive caiu no chão, hiperventilando enquanto sangrava.
A ruiva se abaixou em cima de detetive e segurou o rosto dela.
- Lorena... – era a primeira vez que dizia o nome dela.
- Eu não quero morrer. – A morena disse sem forças, mas em desespero.
- Eu não vou deixar. – E uma coisa que Eduarda não fazia, era mentir. Antes de fechar os olhos, Lorena poderia jurar que viu Eduarda levar um tiro nas costas. – Meu pai vai ter que esperar por você.
A ruiva se levantou enquanto Edgar, caído no chão, disparava tiros nela. Caminhou lentamente até o homem e, com uma mão, entortou o cano da pistola que ele segurava.
Lorena assistia à cena com a visão turva, sem saber o que estava acontecendo, mas ouvia Edgar implorar para viver.
- Não me mata! Por favor! – O homem chorava.
- Acredite em mim, Edgar, vai desejar que eu quisesse apenas te matar. – A voz de Eduarda estava mais rouca e, assim que Edgar a encarou, deu um grito descomunal.
A ruiva revelara sua face diabólica. Os olhos e o rosto vermelho, irreconhecível, eram a prova de que quem mexe com fogo acaba mesmo se queimando.
Tudo que Lorena ouviu antes de desmaiar foi o grito, e então acordou no hospital.
O ambiente era claro, luzes demais estavam acesas. A primeira coisa que viu quando abriu os olhos foram flores, e depois Eduarda, sentada em uma poltrona.
- Olha só que voltou. – A ruiva comentou, docemente.
Lorena sorriu, cansada.
- Quando tempo eu fiquei inconsciente? – Perguntou.
Séria, Eduarda respondeu.
- Talvez três anos... – Suspirou pesado, dando um drama a mais para a resposta.
- O quê? Os olhos de Lorena se arregalaram, mas voltaram ao normal assim que a ruiva começou a gargalhar. – Sua idiota.
- Obrigada.
Ficaram alguns segundos em silêncio.
- Edgar atirou em você. Por que você não está mais morta do que já é? – Lorena questionou.
- É difícil pra você entender que eu sou imortal, não é? – Eduarda sorriu pequeno.
Lorena respirou fundo, mudando de assunto.
- O que aconteceu com ele?
- Edgar teve o que mereceu...
- Bom, se não fosse a sua ajuda, eu estaria morta. Obrigada, Duda... – Eduarda amoleceu, mas não deixou transparecer.
- Desculpa, como é? – A ruiva provocou. – Não ouvi a última parte.
Lorena riu e colocou uma de suas mão no rosto de Eduarda.
- Obrigada.
- De nada. – Eduarda se afastou. - Além do mais, você é interessante demais pra morrer assim.
- Me salvou porque sou interessante? – Lorena sorria.
- Bem irritante também, mas sim. – Eduarda arregaçou as mangas da camisa social preta que, agora, usava sem paletó.
Sorriram uma para a outra.
- Tá, e agora? – A detetive perguntou.
- Bom, eu provei ser uma ferramenta inestimável no combate ao crime, você é desprezada no seu departamento...pode ser o início de uma bela amizade, não acha? – Eduarda se levantou.
- Quem é você afinal? – Lorena perguntou retoricamente, negando com a cabeça.
- Já disse, eu sou- Foi interrompida por uma voz de criança e um abraço.
- Duda!! – Gabi apareceu.
Eduarda travou no abraço e afastou a pestinha.
- Oi, criança. – Pegou a menina no colo e a deixou na maca, ao lado de Lorena.
As irmãs começaram a interagir.
- Adoraria ficar pra reunião de família, mas acho que me deu dor de barriga. – Eduarda disse, já na porta. – Espero te ver em breve, Lorena.
- Eu não. – Sorriu, abraçando a irmã/sobrinha.
- Que bom que não morreu. – A ruiva declarou antes de sair, sem virar para perceber que Lorena observava Eduarda se afastar.
***
Na Lux, Eduarda jogava uma moeda para cima enquanto Celina a observava em reprovação.
- Sinto seu julgamento, Celina. – Eduarda falou.
A loira se aproximou.
- Só não consigo entender porque você salvaria uma vida humana.
- Tem...alguma coisa diferente nela que eu não entendo... – Falavam sobre Lorena.
- Talvez não seja ela que está diferente. – Celina comentou.
- É agora que eu deveria perguntar: “O que você quer dizer?”
- Acho que os humanos estão mexendo com você. Pare de se importar, você é o Diabo. – Disse antes de se afastar.
A ruiva ficou sozinha.
- É, eu sou...
Horas mais tarde Eduarda apareceu no consultório de Gerluce.
- Tá, o trato é o seguinte. – Começou assim que a terapeuta abriu a porta. – A gente pode dormir peladas de conchinha, mas você vai ter que me fazer uma sessão de terapia. – Propôs. – Quero discutir algumas coisas com você. Sabe? Um dilema existencial ou dois. Combinado?
- Sim. – Foi tudo que Gerluce respondeu antes de fechar a porta atrás delas.
- Adorável.
