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— Sang, me ajuda aqui? — San chama.
Ele não explica o pedido; joga em sua direção o que parece ser uma barra de glicerina, pequena e enrolada num papel laranja, e ajoelha junto à prancha de surf deitada na areia sem se certificar de que Yeonsag tenha conseguido pegar o objeto lançado no ar – por sorte, consegue.
A pergunta "com o quê?" morre em sua garganta assim que abre a boca para respondê-lo. Yeosang encara a crosta grossa de parafina velha que San raspa da prancha com uma espátula; então, o tablete novo em suas mãos.
— Claro.
Gaivotas voam sobre suas cabeças, grasnando e disputando em volume com as andorinhas que gorjeiam e vão migrando para o sul. Quando Yeosang se ajoelha ao lado do namorado, pedacinhos de brita e conchas quebradas arranham suas pernas nuas. Mesmo assim, não reclama; esfrega o tablete de parafina onde San já passou a espátula e inspira o ar salgado da praia. Enquanto suas mãos trabalham, seu olhar permanece fixo no outro.
— Eu não vou demorar. — San comunica minutos mais tarde. — Só quero pegar umas ondas antes de voltar pra casa.
A pele dele tem a cor do sol do meio-dia; dourada, resplandecente. Já não se confunde com a areia branca, dessaturada e meio sem vida, como num outro momento. É uma visão muito distante do passado, de uma memória sombria que ainda perturba o sono de Yeosang de vez em quando. O calção de banho dele, por outro lado, é de um vermelho tão vibrante que lhe remete ao sangue que jamais gostaria de ter visto ou sentido nas mãos, manchando tudo; tingindo a água, o rosto de San, vazando por entre seus dedos.
Arrepiado, Yeosang estremece dos pés à cabeça e engole em seco.
— Okay. — assente. — Não precisa ter pressa, meu bem.
Ele somente sorri em resposta.
Yeosang não consegue evitar de sentir o peito apertado quando San entra na água, remando para longe em cima da prancha, rumo à linha do horizonte, mas não se trata de qualquer cisma inexplicável – é saudade, apenas. Uma que bate sempre que ele se afasta, alojada entre suas costelas; é angustia por não tê-lo a uma palma de distância ou sequer ao alcance de um braço, mesmo que tenha acabado de vê-lo de perto, contabilizado os cilios negros adornando as pálpebras cobertas de veias finas, azuladas, e enumerado as sardas no pescoço salpicado de suor. Mesmo que seus dedos tenham resvalado nos dele por acidente e Yeosang tenha ganhado um beijo terno, ardoroso em troca; mesmo que estar separado de San por alguns minutos não seja o fim do mundo e ter noção disso seja o mínimo de confiança que possa dar a ele no momento.
Hoje, o tempo está ótimo. É um dia lindo, de umidade baixa e céu limpo. Sem sinal de chuva. Óculos de sol apoiados na ponte do nariz, Yeosang respira fundo, sente o vento soprar e cruza as pernas para esperar sentado pelo tempo que for. A canção produzida pelos pássaros e pela arrebentação lhe tranquiliza; aquieta seu coração e sua mente, também.
San vai estar de volta logo, logo; de volta à terra firme, de volta à segurança de seu abraço, seu colo. Yeosang vai poder beijá-lo novamente e enterrar (talvez, de forma definitiva) o pavor de assisti-lo ser levado pela correnteza, como se perder seu amor para o mar algum dia não fosse possível – e não é. Nada de mau vai acontecer a ele; não de novo.
A situação, agora, é outra. San se tornou mais esperto, bem melhor que já foi, e o que lhe resta é seguir o exemplo dele. Superar o que passou, acreditar nele e acreditar que tudo vai ficar bem do mesmo jeito que ele acredita é o certo a se fazer, o justo.
Não há por que se estressar. Não há o que temer.
Capaz de resistir à força de qualquer maré, é como deve considerá-lo. Então, vai estar pronto de verdade para recebê-lo; tranquilo e certo de que não há mais o que temer. Afinal, é o que San merece: toda a sua fé. Depois de tanto, Yeosang jamais seria capaz de negá-lo algo tão simples quanto isso.
