Work Text:
— Ah, não — sussurrou Danny, com os olhos arregalados e assustados. — Qual é, não faz isso. — Ele tentou de novo. Falhou de novo. Sua mão escorregou pela maçaneta como se ela fosse feita de vapor. Ele sibilou de frustração.
E parou de respirar assim que percebeu o que havia feito.
Ele lembrou a si mesmo de que era humano. Ele ainda era humano. Precisava respirar.
Fazia uma semana desde... Uma semana desde que ele... Uma semana desde o... Desde o Acidente. A noite passada tinha sido a sua primeira em casa após voltar do hospital.
Ele vinha tendo problemas com portas. E com mais do que apenas portas, para ser sincero.
No hospital, ele enrijecia o corpo cada vez que passava por uma. E com a rigidez muscular vinham... efeitos incomuns. Efeitos que ele vinha ignorando. Efeitos que ele esperava que desaparecessem. Como aquele rosto no espelho em cima da pia do laboratório. O rosto que não era dele. Não importava o que Sam e Tucker dissessem. Não importava que os efeitos estivessem piorando.
Ele esfregou a palma da mão esquerda em círculos. Havia uma cicatriz ali. Ele inspirou, e então expirou. Era humano. Apenas um humano. Um humano normal que conseguia usar portas como um humano. Ele não tinha fobia da coisa que havia... Da coisa que... Afinal, aquilo não tinha acontecido. A sua mão também não estava mais escorregando através da maçaneta.
Ele estendeu a mão para agarrar a maçaneta mais uma vez e sorriu em vitória quando a palma fez contato com o metal frio. O metal frio como... Como o...
O seu sorriso vacilou.
O metal frio como a...
Era só uma maçaneta, não a...
... lateral do...
A porta, era só uma porta.
... portal.
O corpo inteiro de Danny cintilou. Ele caiu através do chão. Duas vezes. Agora estava no laboratório, com uma luz verde brincando através das pálpebras cerradas com força. Ele conseguia sentir o tecido do macacão de proteção roçando contra a sua pele, uma sensação completamente diferente do pijama largo que estava usando antes.
Aquilo era sequer real? Era algum tipo de flashback? Ele estava com TEPT, ou esquizofrenia, ou algo igualmente terrível e errado? Ele se encolheu como uma bola e choramingou.
Não podia ser real. Cair dois andares deveria doer. Ele nem sequer tinha sentido o impacto contra o chão. Na verdade, não conseguia sentir o chão em absoluto. A sensação era um pouco como a de ainda estar caindo, mas ele sabia que não estava se movendo. A curiosidade se sobrepôs ao medo, e ele deixou os olhos se abrirem.
Ele estava flutuando. Não muito; estava a apenas alguns centímetros do piso de metal do laboratório. Ainda assim.
Ele estendeu uma mão trêmula, com luva, e brilhante para tocar o chão, e a gravidade decidiu que o queria de volta. Danny não se importou muito. Estava ocupado demais olhando para as luvas, para as botas, para o macacão. O macacão de cores invertidas. Ele se levantou, registrando que os seus pés não faziam um único som contra o chão. Ele correu até o espelho em cima da pia, consciente de que estava mais ou menos repetindo as consequências do seu... do Acidente.
Cabelos brancos. Olhos verdes. Ele estava brilhando. Ele agarrou a beirada da pia, deformando o metal sob os dedos. Era um fantasma.
Ele estava morto.
Algo piscou no canto do seu olho, e ele se virou num solavanco. Eram os pais dele...?
Não. Era o portal. O portal que havia causado tudo aquilo. Que o havia matado. Ele era enorme, brilhante e verde. Ele pulsava em sua moldura, redemoinhando de forma hipnótica. A respiração de Danny desacelerou e o coração desceu da garganta à medida que ele traçava o caminho de um padrão que viajava ao redor da borda do portal. O portal pareceu se acalmar enquanto ele fazia aquilo, embora devesse ser apenas uma ilusão.
Cautelosamente, Danny deu um passo à frente. Depois outro. O portal já o havia matado. O que mais ele poderia fazer? Bem, muitas coisas, provavelmente, mas ele tinha que conviver com aquilo. Ou não conviver com aquilo. Não poderia evitá-lo para sempre, de qualquer maneira; não se quisesse continuar ali.
O portal ficava quase exatamente embaixo da cama dele.
Ele não podia continuar com medo daquilo para sempre. Não podia continuar com medo de portas para sempre. Alguém iria notar, e então... Ele estremeceu, e os padrões no portal se soltaram em arcos suaves que lembravam as ondas na tela de um gravador de frequência sonora, ou os fios de um novelo emaranhado, antes de voltarem a se condensar.
Ele estava tão perto.
Ele estendeu uma mão que não usava mais uma luva, parando pouco antes de tocar a membrana nebulosa e ondulante que marcava a entrada do portal. Um fio fino de névoa ectoplásmica se desprendeu da superfície e se enrolou na mão de Danny. O coração dele deu um salto com o contato, mas logo voltou ao seu lugar e ritmo adequados. A névoa se fundiu de volta com o resto do portal, e Danny abaixou a mão, flexionando-a.
Aquilo... Aquilo não tinha sido tão ruim assim, tinha?
Ele se virou para encarar o espelho. Não conseguia se enxergar daquele ângulo. Afastou-se do portal, evitando olhá-lo de propósito. O seu reflexo era...
Normal.
Cabelos negros, olhos azuis, vestindo pijama. Isso era bom, certo?
Ele subiu as escadas e abriu a porta do laboratório.
