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Nascente

Summary:

Em que a proximidade com um evento que rasgou o próprio tecido da realidade não deixa ninguém inalterado.

Notes:

Work Text:

​Desde o Acidente, tudo parecia diferente. Diferente até demais. Talvez parte disso fosse a descoberta do tipo “quase causei a morte do meu melhor amigo, mas aparentemente buracos no universo podem te dar superpoderes”. Sam ainda não conseguia tirar o som dos gritos do Danny da cabeça, e já fazia mais de uma semana.

​Embora fosse bem possível que os pesadelos estivessem contribuindo com isso.

​É.

​De qualquer forma, ficar apreensiva (não necessariamente preocupada) com Danny e com Tucker o tempo todo era perfeitamente normal depois de um episódio desses, certo? Eles já viviam grudados antes, o que era um tempinho a mais? O que era muito tempo a mais?

​(Isso irritava os pais dela. Eles viviam reclamando que ela nunca parava em casa.)

​Então, sim. Normal. Uma resposta ao trauma. Além disso, Danny precisava de alguém para puxá-lo do chão quando ele o atravessava pela metade ou para (ironicamente) acobertar seus surtos repentinos de invisibilidade involuntária.

​Se fosse só isso que tivesse mudado, a Sam não teria dado a mínima.

​Mas lá estava ela, encolhida na frente do computador, escrevendo o quinto e-mail para perturbar um coordenador da escola sobre a implementação de uma semana vegetariana no ano que vem. Eram quase onze da noite. Aquele não era um comportamento normal. Nem mesmo para alguém que estava lutando contra o sono.

​Ela também andava passando bem mais tempo na sua estufa ultimamente, e as brigas com seus pais estavam cada vez mais frequentes (e muito mais barulhentas), mas ela não tinha certeza se essas duas coisas não eram apenas reflexos do estresse (ou da pura adolescência). Mesmo levando em conta o tempo absurdo que ela gastou para deixar o adubo em volta dos seus tomates absolutamente perfeito.

​(O único motivo de ela ter parado foi porque, do contrário, chegaria atrasada para encontrar Danny e Tucker. E ela ainda estava bitolada naquilo. O adubo não ficou muito uniforme na última muda.)

​Voltando aos e-mails.

​Ela vinha pensando em propor algumas alterações drásticas no cardápio do colégio. As opções vegetarianas eram uma piada de tão limitadas, e o planejamento mensal parecia o mesmo desde os anos cinquenta. Para falar a verdade, era até impressionante que aquilo tivesse sobrevivido por tanto tempo, considerando todas as reformas de merenda e programas que o governo havia lançado ao longo dos anos. Quem quer que tivesse montado aquilo realmente se importou em algum momento, Sam deduziu.

​Mas não era o suficiente. Não mais. As pessoas sabiam muito mais sobre alimentação hoje em dia, e o responsável pelo estoque com certeza assinou contrato com os fornecedores mais baratos da face da Terra. Tudo o que eles preparavam era entupido de conservantes.

​Isso tinha que mudar. Agora. Antes que Sam e os amigos fossem obrigados a engolir aquilo.

​Ela começou esse projeto na mesma noite em que Danny saiu do hospital. Ela também não tinha conseguido pregar o olho naquela ocasião.

​Quantos e-mails ela enviou no total? Devia estar beirando os cinquenta. Naquela primeira noite, ela só foi dormir lá pelas quatro da madrugada.

​Provavelmente aconteceria a mesma coisa hoje.

​Isso não podia ser normal, certo?

​(Mas desde quando ela se importava em ser normal?)

 


​

Tucker examinou o tutorial de programação com um fervor quase doentio. Não era bem o que ele estava procurando, mas ele estava mais do que disposto a devorar qualquer informação que conseguisse.

​Ele sempre foi apaixonado por tecnologia. Especialmente a tecnologia de bolso. Aquilo tinha a ver com isso, mas ao mesmo tempo não tinha.

​Danny tinha mostrado o portal para ele e para Sam puramente por curiosidade. Sam foi porque abrir um buraco rasgando a realidade até a vida após a morte parecia uma ideia muito irada, e Tucker porque a tecnologia Fenton era sensacional. Mesmo que aquele papo de fantasmas nunca funcionasse, a família Fenton se sustentava tranquilamente com as patentes de Jack e de Maddie.

​”Porque era sensacional” era um motivo ridículo para morrer.

​Se Tucker entendesse mais de engenharia, de programação, de toda aquela tecnologia que ele implorou para ver... se ele conseguisse ler direito pelo menos um dos mostradores e instrumentos acoplados ao portal, será que ele teria percebido que a máquina ainda estava ligada? Que havia eletricidade correndo por ela? Que aquilo era uma armadilha mortal?

​(É claro, Danny cresceu cercado pela tecnologia Fenton e, entre os dois, ele sempre foi o mais interessado na parte da engenharia, mas isso não vinha ao caso.)

​Tucker estava obstinado a não deixar aquilo se repetir. Daí a sua atual maratona de estudos. Ele ia dominar tudo sobre tecnologia, toda e qualquer tecnologia, ou morreria tentando.

​Bom. Pelo menos a tecnologia com a qual ele lidava no seu dia a dia.

​Se isso significava forçar ainda mais as vistas enquanto se matava de ler arquivos “leia-me” porcamente formatados em plena meia-noite, que assim fosse. Os amigos dele valiam a pena.

​


 

​Danny despertou em um solavanco, arfando pesado, o coração batendo a mil por hora. Ele estava congelando, apesar de estar enrolado até a cabeça no lençol e no edredom, e ignorando completamente o calor que fazia quando ele foi se deitar.

​Havia algo errado.

​Na mesma hora, seus pensamentos voaram para a família. Algo não estava certo. Eles estavam em perigo. Ele precisava ajudar.

​Ainda meio atordoado, ele atravessou as próprias cobertas, mal percebendo que aquela era a primeira vez que seus poderes fantasmas faziam o que ele queria e exatamente da forma que ele queria. Ele seguiu em passos silenciosos para o corredor, sem notar que seus pés sequer deixavam marcas no carpete.

​Jazz dormia com a porta aberta, então foi moleza dar uma checada nela. Ela estava a salvo. Nenhuma sombra sinistra a ameaçava enquanto dormia. Sua respiração fluía de forma lenta e regular.

​E seus pais? Ele se aproximou sorrateiramente da porta do quarto deles, com uma parte da mente a milhão enquanto a outra estava afiada como uma navalha. Como ele ia protegê-los sem revelar a sua... o que quer que fosse aquela coisa que tinha acontecido com ele? Que ele teria a obrigação de protegê-los, e que ele tinha a capacidade para isso, foi um pensamento que ele sequer questionou.

​Ele encostou a cabeça na madeira da porta e deixou os dedos deslizarem pela superfície. Ele puxou o ar, expirou, e simplesmente atravessou o objeto sólido.

​Os roncos de Jack Fenton eram ensurdecedores. Nem ele nem Maddie se mexeram. Tampouco notaram que o quarto estava banhado por uma luz verde e fraca.

​O olhar do Danny cravou de imediato nos pontinhos vermelhos daquela gosma fantasmagórica verde. Ele contraiu os lábios e sibilou de forma animalesca, sentindo seus olhos arderem de um jeito bizarro ao fazer aquilo.

​O pequeno... fantasma? Aquilo era um fantasma? A criatura tratou de fugir escorraçada do quarto.

​O que quer que estivesse acontecendo na cabeça do garoto de apenas 14 anos assentou em uma espécie de contentamento relaxante. Pelo menos até ele cair na real e perceber que estava plantado no quarto dos pais sem ter a menor desculpa esfarrapada para estar ali.

​Abrir aquela porta barulhenta para conseguir sair de fininho causou a ele uns cinco ataques cardíacos diferentes, mesmo sabendo que seus pais jamais escutariam.

​


 

​— E aí — disse Sam, quando eles se encontraram no quarto de Danny na manhã seguinte.

​— E aí — os dois garotos responderam em coro, exaustos.

​— Tiveram problema para dormir? — ela perguntou.

​— Aham — Danny confirmou.

​— Aqui também — comentou Tucker. — Você também passou sufoco? Sua maquiagem está bem mais pesada que o normal hoje.

​Sam mostrou a língua para ele, mas logo soltou um suspiro.

​— Tive sim. Por acaso vocês andaram... — A pergunta morreu no ar, e o rosto da garota se contorceu de leve.

​— Andamos o quê? — perguntou Danny.

​— Tendo, sabe... uns pensamentos bizarros?

​Danny esfregou a mão pelos cabelos bagunçados. Seus amigos acharam melhor não comentar que, por uma fração de segundo, ele piscou e ficou completamente invisível.

​— Quer dizer, eu mor... eu quase morri, eu acho, né? — desconversou Danny.

​Ninguém fez questão de mencionar aquele ato falho grotesco.

​— O esquema é o seguinte... — A voz do garoto baixou um pouco. — Eu não sou a Jazz nem nada do tipo, mas isso é trauma, certo? Tipo, ficar se sentindo estranho ou ter um instinto de superproteção ou... ou qualquer outra coisa do tipo, é só... É assim que a banda toca, não é? É uma resposta perfeitamente normal da nossa cabeça?

​Apesar da voz cheia de incerteza do amigo, a Sam e o Tucker assentiram na mesma hora.

​— Com certeza — garantiu a Sam. — É só isso. Fechado.

​(Eles não voltaram a pensar naquele pequeno surto coletivo até o dia em que descobriram o significado da palavra liminaridade.)

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