Work Text:
Just A Rather Very Intelligent System
J.A.R.V.I.S
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Peter estava pendurado no teto de cabeça para baixo, esticado em todo o seu comprimento nas placas lustrosas e caríssimas que revestiam as paredes do laboratório do seu mentor, esparramado com toda a alegria do seu coração. Ele balançava os pés de um lado para o outro como se brincasse com algo invisível, enquanto os dedos de uma das mãos deslizavam pelo painel holográfico, flutuando sobre as linhas de código azul que preenchiam todos os cantos da tela e capturavam a completa atenção do rapaz.
O constante "ir e vir" no canto superior da visão do bilionário das meias chulesentas estava o desconcentrando, o que o fez subitamente depositar a chave de fenda na mesa de trabalho e exalar um suspiro longo.
Aquilo era horrivelmente distrativo.
— Vamos, garoto, chega de imitar uma aparição e desça logo do meu teto. Tenho certeza de que a Samara adoraria conhecê-lo, se derreteria por um encontro, mas acho que aquela sua namorada assustadora a botaria para correr, e eu preciso do seu bom par de mãos ajudando aqui embaixo no circuito da armadura.
Peter rolou os olhos para o mentor.
— Mas, Senhor Stark, eu já estou ajudando. Estou lhe dando uma perspectiva elevada.
O engenheiro bufou.
— Se eu quisesse elevação, eu iria à igreja.
— Estou repassando os códigos da Sexta-Feira como me pediu — o adolescente prosseguiu, ignorando o comentário do outro —, e estou dando uma organizada em alguns repositórios antigos que achei jogados em um dos cantos do sistema.
Tony cutucou a bota vermelha e dourada estraçalhada sobre sua bancada de trabalho com um dos dedos distraidamente, avaliando se deveria substituir um dos sensores dos repulsores sônicos enquanto mantinha um dos ouvidos no garoto.
— Tem muito lixo aqui, Senhor Stark; você não limpa isso há quanto tempo? Uma década?
— Esses arquivos não são brinquedos, pirralho. Se ainda estão aí, é porque são importantes. Juro que, se eu descobrir que você apagou uma linha sequer de um código nesse repositório antigo que não deveria ser mexido, eu vou desativar os seus lançadores de teia por um mês.
Peter nem piscou, completamente absorto, com os olhos vidrados no holograma azul que flutuava em suas mãos.
— Eu só estou curioso, Senhor Stark! A Sexta-Feira é uma inteligência artificial incrível e eu absolutamente adoro a Karen! Mas eu achei aqui uma outra IA, e a arquitetura dela é... completamente diferente. Tem uma rotina inteira só para calcular a temperatura perfeita de um chá de camomila? Você nunca gostou de chá.
Peter olhou com estranheza para o mentor e viu o homem parar completamente o que estava fazendo, com a chave inglesa em sua mão pairando no ar próximo ao titânio vermelho e dourado.
Por um segundo, o som constante das ferramentas no laboratório simplesmente cessou.
Com um simples movimento de mão, Tony fez brotar um painel holográfico à sua frente e, puxando o mesmo código que o adolescente estava bisbilhotando, fitou a tela por um momento longo em silêncio.
A sigla exótica que ele inventara aos dezenove anos mostrou-se para ele; um nome inventado apenas para disfarçar o que aquilo realmente significava:
Just A Rather Very Intelligent System
— Você realmente é um pirralho intrometido — Tony resmungou, largando a ferramenta na mesa com um estalo metálico. Ele puxou um banquinho e sentou-se, cruzando os braços e olhando para cima.
Peter encontrou seu olhar e viu a expressão do mentor ir para longe.
A mente de Tony viajou décadas para trás. Não para códigos de computador ou telas flutuantes, mas para o cheiro de graxa de sapato, a fragrância de um chá curtido no ponto certo, o desenho de um terno perfeitamente engomado e o som da voz serena com um carregado sotaque britânico de um homem. Aquele que olhou para ele quando Howard lhe deu as costas porque estava ocupado demais construindo o futuro; que limpou suas feridas, o cobriu enquanto ele dormia em cima das plantas da Mansão Stark, secou suas lágrimas e o escutou. O cara que, sem nunca exigir o título, foi o único pai de verdade que ele conheceu.
— Essa foi a primeira IA que criei logo que terminei o MIT, Pete — o engenheiro murmurou, seu tom subitamente mais baixo e perdendo qualquer traço de seu sarcasmo habitual. — Mas o JARVIS original não era um código, garoto, era um sujeito de carne e osso e com uma paciência britânica inacreditável... O nome dele era Edwin Jarvis. Ele foi o mordomo da minha família e praticamente me criou junto com a minha mãe, porque eu e meu pai tínhamos uma relação de merda, e Jarvis foi quem cuidou de mim quando ninguém mais tinha tempo. Se eu sobrevivi à infância sem botar fogo na casa... foi por causa dele. Quando criei essa inteligência artificial para me dar uma mão em qualquer coisa que eu precisasse, pareceu a única forma justa de manter o velho por perto depois que ele se foi.
Peter o observou em silêncio, com um olhar compadecido. O mentor raramente falava sobre o passado ou abria tópicos que não gostava muito de revisitar, e o garoto apreciou que, após meses estagiando para o homem, Tony confiou nele o suficiente para contar-lhe aquilo.
— Ele devia ser uma pessoa incrível — o adolescente falou suavemente. — Do jeito que o senhor fala... parece que ele lhe ensinou bastante coisa.
— Ensinou — Tony concordou com um suspiro, balançando a cabeça e focando sua atenção completamente no presente, com os olhos castanhos fixos no jovem rapaz pendurado no teto, de cabelos curtos bagunçados e uma mancha de graxa na bochecha. — Principalmente a como lidar com garotos teimosos e sem juízo que gostam de se jogar do topo de prédios e tentam constantemente me dar um ataque do coração.
Peter deu um sorriso largo, despreocupado e nada arrependido.
— É... acho que essa parte do treinamento o senhor está tendo que usar na prática, Senhor Stark.
— Nem me fale. Você me dá mais trabalho do que a reitoria inteira da faculdade nos meus piores anos — Tony resmungou, esticando uma mão e gesticulando no ar. — Vamos, filhão, desça daí e venha cá me dar uma mão.
O olhar do rapaz se arregalou sutilmente com surpresa; não era a primeira vez que escutara o outro chamá-lo daquela forma. Antes, o bilionário estava do outro lado do mundo enquanto seu pupilo quase tinha se afogado no lago caçando um doido com armas alienígenas; eles ainda eram estranhos um para o outro.
Agora, depois de meses, ouvi-lo chamá-lo de novo assim — depois de já terem "chegado lá" —, Peter sentiu um calor acalentar seu coração e preencher seu ser por inteiro, e seu sorriso suavizou-se, tornando-se genuíno. Ele dispensou a projeção holográfica e, obedientemente, saltou do teto para o piso, pousando ao lado do mentor que recentemente, de forma tímida e secreta, ele começava a ver como uma figura paterna. Sentiu quando o braço do engenheiro facilmente rodeou-lhe os ombros em um afetuoso meio-abraço.
— Chega de momento sentimental, garoto. Vá lavar essa cara e limpar aquela sua bagunça, antes que a Pepper entre aqui e veja que deixei você comer rosquinhas em cima do servidor principal.
Tony sorriu para ele com uma piscadela marota.
