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O prédio que abrigava a FentonWorks nunca foi normal, não importava o que os vizinhos e corretores de imóveis dissessem.
Coisas tinham acontecido lá. Mortes. Reviravoltas loucas do destino e coincidências chocantes. As pessoas que moraram lá ouviam barulhos, viam coisas, sentiam coisas. Enfrentaram doenças sem causa aparente. Foram curadas de doenças sem causa aparente. Sobreviveram a coisas que deveriam tê-las matado.
Era um ponto fino entre mundos. A realidade era uma membrana ondulante, desgastada o suficiente para deixar algumas coisas transparecerem.
A própria construção do bairro foi... estranha. Aconteceu muito mais rápido do que deveria, como se houvesse um turno extra de trabalhadores no projeto.
O casarão que um dia se tornaria a FentonWorks se destacava até mesmo naquele mistério. Cômodos extras, um porão fundo o suficiente para causar uma briga feia com os fiscais, detalhes não aprovados pelo arquiteto.
Era um milagre não terem atingido nenhum cano de água ou a rede de esgoto. Um milagre — e uma impossibilidade. Então, o assunto foi abafado e esquecido.
Aí, os próximos donos expandiram aquele porão impossível, construindo outro porão secreto e escondendo coisas nas paredes. Eles eram criminosos, obviamente. Era de se esperar que fizessem coisas ilegais. (Embora o que exatamente eles tinham feito fosse... curiosamente incerto.)
(Drogas, talvez.)
Depois, vieram os lunáticos. Em seguida, a seita minúscula que ruiu sobre si mesma. Depois, os anos vazios, dezenas de fantasmas perdidos tentando e falhando em fazer a passagem, e os caçadores de fantasmas. Tantos caçadores de fantasmas, nenhum deles particularmente bem-sucedido.
Então, vieram os Fenton.
Depois, Jazz, ainda pequena.
Depois, Danny, ainda pequeno.
Danny, com olhos grandes que viam coisas demais.
E todos os horrores que os Fenton conseguiam inventar, desde cachorros-quentes vivos até armas que queimavam como estrelas e portas para lugares que não deveriam ser visitados.
E esse era o lar de Danny Fenton.
A propriedade dos Manson era um caso à parte, até para os padrões de Amity Park. Tirando o porão, o prédio inteiro onde eles moravam tinha sido transportado, tijolo por tijolo e viga por viga, direto da Alemanha.
Gente rica era muito bizarra.
Nem mesmo os Manson sabiam explicar. O homem que tinha feito aquilo não era um Manson. A família Manson, que era feita de novos ricos, no fim das contas, comprou a casa de um dos filhos do sujeito. Qualquer coisa para inflar o próprio prestígio.
Era chique e era antiga, uma mansão gótica e imponente que fazia jus ao nome. Ainda assim, não era chique ou antiga o bastante para justificar a fortuna que deve ter custado para ser movida até ali.
Daí surgiram os rumores, rapidamente abafados pelos Manson, de que o lugar era mal-assombrado.
Não era.
Os rumores, no entanto, foram suficientes para despertar o interesse de Samantha Manson pelo ocultismo. Especialmente considerando o esforço monumental que ela via os pais fazerem para esconder as fofocas dela.
Não. A mansão não era mal-assombrada. Apesar de todas as suas esquisitices e peculiaridades — que só se multiplicavam à medida que os Manson adicionavam mais e mais coisas a ela —, a estrutura em si era mundana.
(O terreno onde ela foi construída já podia ser outra história.)
E esse era o lar de Sam Manson.
A família Foley preferia não saber o que Tucker aprontava no sótão, mas gostava de pensar que, com essa única exceção, o lar deles era um lugar bacana. Ficava numa rua agradável, num bairro amigável, longe o suficiente da Fentonworks para manter o número de avistamentos do VAF — o Veículo de Ataque Fantasma —, os danos materiais e os impostos no nível mínimo aceitável. Dava para ir a pé para o colégio, para o supermercado e para o parque.
Eles mantinham a geladeira e a despensa sempre cheias. A comida podia não ser sempre a mais saudável — carne vermelha era regra em quase todas as refeições —, mas nunca faltava e sempre sustentava. Eles se esforçavam para respeitar as restrições alimentares dos amigos de Tucker, é claro.
Todos os cômodos eram mantidos limpos e organizados. Até mesmo o quarto de Tucker, na base do suborno. Tudo era arrumado, tudo tinha o seu lugar. Exceto, talvez, por um sapato perdido ou algum trabalho de escola esquecido por ali.
Mas aquele sótão.
Na verdade, não era nada demais antes de Tucker perguntar se podia levar as tralhas de computador dele para lá. Era só um depósito, um lugar de difícil acesso para Angela ou Maurice subirem com frequência. Eles não se consideravam velhos, mas também não dava para chamá-los de jovens. Não com um filho da idade de Tucker.
Assim que Tucker percebeu que o sótão existia, ficou fascinado. E, bem, quando ele teve idade suficiente para que eles não precisassem mais se preocupar se ele ia despencar da escada, deixaram ele subir.
Tinha dias, ao que parecia, que ele simplesmente não descia.
Ainda era melhor do que aquela fase levemente perturbadora do Egito Antigo, quando ele vivia trazendo fotos de cadáveres mumificados para a mesa do jantar. Ou pior, a fase dos lobisomens.
E esse era o lar de Tucker Foley.
Amity Park já carregava o título de “cidade mais mal-assombrada dos Estados Unidos” muito antes de os Fenton ligarem o portal. Na verdade, esse foi o exato motivo pelo qual os Fenton decidiram se instalar lá.
Nenhuma cidade assombrada estava completa sem pelo menos uma casa mal-assombrada. E Amity Park tinha várias. Isso sem mencionar um hospital mal-assombrado, algumas escolas mal-assombradas, um museu mal-assombrado, uma piscina mal-assombrada, uma faixa de pedestres mal-assombrada, um shopping mal-assombrado, um campo de futebol mal-assombrado... A lista continuava, praticamente ad nauseam.
É claro que a maior parte dessa lista era composta por lugares que ficaram assombrados depois que os Fenton construíram o portal. Mas, mesmo antes disso, alguns pontos já ofereciam seus encantos duvidosos aos turistas.
Na maioria, turistas ingênuos. Mais da metade dos relatos de assombração antes do portal se abrir eram completamente forjados. Esses lugares foram à falência rápido e acabaram abandonados quando os fantasmas reais começaram a aparecer.
Um deles era a Casa do Corvo, um nome de mau agouro para um lugar que ficava nas colinas da beira oeste da cidade.
A história que contavam para os turistas de antigamente era que um viúvo morava lá, completamente sozinho, e que um dia ele parou de descer até a cidade, não pagou mais as contas e nem buscou mais a correspondência. Quando a caixa de correio no fim da longa entrada ficou abarrotada, o carteiro decidiu dar uma checada no sujeito. O que ele encontrou foi um bando de corvos e um esqueleto, com os ossos completamente limpos e sem um pingo de carne.
Nenhuma morte desse tipo aconteceu de verdade por ali, nem em qualquer outra parte de Amity. Ninguém com esse perfil sequer morou na casa. Os últimos donos, antes da empresa que decidiu vender o lugar como atração mal-assombrada, eram um casal com dois filhos.
Foi só meses depois de o portal ser ativado que a casa passou a ser assombrada de verdade.
— Esse lugar não é mal-assombrado — comentou Danny, passando a luz da lanterna pelas teias de aranha nos cantos do teto. — Acho que nunca foi.
— Isso dá o quê, quinta tentativa frustrada? — perguntou Sam.
Danny deu de ombros.
— É, acho que sim.
— Quarta, na verdade — corrigiu Tucker. — A gente contou o hospital como inconclusivo, já que não dá pra saber se tinha alguma coisa lá antes da Spectra.
Danny concordou com a cabeça.
— Mas é bizarro, não é? O fato de ninguém morar aqui, quero dizer. Parece uma casa perfeitamente boa.
— A decoração é um pouco... meh. Tenta forçar demais a barra no quesito terror — disse Tucker, cutucando o adesivo de um corvo no papel de parede.
— Eu gostei — retrucou Sam. — Mas precisa de uma boa faxina.
— Ei — chamou Tucker. — Você não tá pensando no que eu acho que tá pensando, tá? Porque tenho quase certeza de que isso seria ilegal.
— Não é como se tivesse mais alguém usando esse lugar — argumentou Sam. — Poderia ser um ótimo esconderijo de emergência, se a gente algum dia precisar... você sabe. — Ela lançou um olhar para Danny. — Além disso, estaríamos fazendo um favor para os donos, mantendo tudo limpo e com cara de que tem gente morando.
— Eu acho uma boa ideia — concordou Danny.
— É, mas você acha que muita ideia idiota é uma boa ideia. Tipo colar numa festa cheia de gente que te humilha em público com frequência.
Danny resmungou algo sobre respostas a traumas que soou como uma citação direta de Jazz, e mais alguma coisa sobre aquele incidente ter acontecido há séculos (também conhecido como “semanas atrás”). Então, seu rosto se iluminou.
— A gente podia arrumar um daqueles geradores menores de ectoplasma para ligar a energia — ele sugeriu. — Lembram de toda aquela tralha que a gente confiscou do Skulker e do Technus? A gente podia de fato usar as coisas. Estudar e fazer testes sem ficar com paranoia de os meus pais entrarem de surpresa. Quer dizer, o seu sótão é da hora, Tucker, mas... seria outra coisa.
— Sem contar que a gente poderia ter protocolos de segurança de laboratório de verdade. Sem ofensa, Danny.
— Eu sou o cara que quase morreu num acidente de laboratório, então... zero ofensas.
Tucker coçou o queixo.
— Beleza. Acho que consigo ver a vantagem... Mas se trouxermos coisas que possam ser rastreadas até a gente, podemos entrar numa enrascada séria.
— A gente vai tomar cuidado, então — garantiu Sam.
— Qualquer coisa que eu pegar da minha mãe e do meu pai tem negação plausível. Eles vão logo deduzir que os fantasmas roubaram.
— A gente também precisa limpar tudo se for levar isso a sério. E arrumar uma geladeira. E resolver o problema do encanamento.
— Geladeira tá na lista. Mas a gente também precisa tomar cuidado com o lado de fora. Se esse lugar do nada ficar bem cuidado, o pessoal vai notar.
— Pode até ser, mas não é o tipo de coisa para se chamar a polícia — disse Danny. — Vão só achar que tem gente nova de mudança. Isso se alguém ver. A gente tá bem isolado de tudo. E o encanamento não vai ser problema. Só precisamos trazer nossa própria água. Tipo, a privada dá descarga por pura física. Se você virar um balde de água dentro, desce tudo, não precisa de eletricidade.
— Como você sabe disso?
— Eu perdi a conta de quantas vezes a minha mãe e o meu pai explodiram os disjuntores com as invenções do laboratório — explicou Danny. — A gente acaba aprendendo umas coisas.
— Bom... — cedeu Tucker, movendo a luz da lanterna para examinar uma mancha esquisita no teto. — Então... lar, doce lar, eu acho.
Havia uma casa nas colinas da parte oeste de Amity Park.
E esse era o lar de dois humanos e meio e de um meio fantasma.
