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Observando

Summary:

Clockwork para o tempo para ver como Daniel está.

Notes:

Work Text:

Todos os fantasmas sencientes possuíam pelo menos uma Obsessão. Uma Obsessão era o que permitia que um fantasma existisse. Era a sua razão de viver. O seu propósito.

​A maioria dos fantasmas sapientes possuía mais de uma. Em geral, quanto mais complexa fosse a Obsessão, ou as Obsessões, mais complexo e inteligente seria o fantasma. Até mesmo o Fantasma da Caixa possuía mais de uma. Por mais que amasse as suas caixas, ele também ansiava por respeito.

​Clockwork não fugia à regra.

​Ele tinha a sua Obsessão principal, a sua primeira, aquela que o acompanhava desde que havia se formado a partir da névoa ectoplasmática primordial: manter as linhas do tempo seguras e intactas. Mas, ao longo de sua existência, ele também ficara obcecado em criar as melhores linhas do tempo, em semear a felicidade e, após passar alguns milhares de anos observando criaturas sencientes e sapientes, em preservar o livre-arbítrio. Essas Obsessões secundárias cresceram em importância à medida que a compreensão de Clockwork sobre o mundo ao seu redor se aprofundava, até se igualarem à sua primeira Obsessão. Isso apenas o fazia se arrepender ainda mais daquele juramento tolo que fizera aos Observantes em sua juventude.

​Não importava.

​Havia uma Obsessão, no entanto, que Clockwork mantinha em segredo absoluto desde que tomou consciência dela pela primeira vez. Se os Observantes tivessem a menor suspeita de sua existência, tomariam todas as medidas para garantir que ele nunca, jamais pudesse satisfazê-la. Não que Clockwork tivesse a intenção de fazê-lo. Ele, mais do que ninguém, conhecia os riscos envolvidos e não colocaria as linhas do tempo em perigo por um desejo tão egoísta.

​Era agradável, após passar horas, ou até dias, lutando contra uma linha do tempo rebelde, ou remendando buracos difíceis no espaço-tempo, ter uma fantasia na qual se refugiar. Mas era apenas isso. Uma fantasia.

​Mesmo assim, quando a chance de satisfazer essa Obsessão surgiu do nada — como o resultado natural de seguir as próprias ordens dos Observantes, por incrível que pareça —, e com o potencial de criar um conjunto inteiramente novo de linhas do tempo positivas, Clockwork cedeu à tentação.

​E era por causa disso, dessa perigosa Obsessão secundária, que Clockwork estava flutuando no meio do quarto de Daniel. Observando-o dormir. Observando-o respirar.

​Ora, nenhuma dessas duas coisas era incomum por si só. Todos os humanos e muitos fantasmas precisavam de alguma forma de sono. Daniel exigia cinco horas de descanso para ser totalmente funcional, e apreciava muito quando conseguia dormir mais. O que tornava o sono contínuo de Daniel incomum era que o seu Sentido Fantasma havia disparado algum tempo atrás, quando Clockwork tinha acabado de chegar, e o garoto mal se mexera. Era algo comovente, na verdade. Geralmente, Daniel estaria de pé em segundos, pronto para lutar contra qualquer inimigo que o tivesse acordado. O fato de não ter despertado significava que, em algum nível inconsciente, Daniel reconhecia a ectoassinatura de Clockwork e não a considerava uma ameaça.

​Quanto a respirar, bem, Daniel respirava o tempo todo, mesmo em sua forma fantasma, quando, a rigor, não precisava fazê-lo. Era um reflexo biológico para ele, embora tendesse a respirar mais devagar, e com muito menos frequência, do que um ser humano normal. O que tornava a respiração de Daniel digna de nota neste exato momento, era que Clockwork havia parado o tempo.

​Clockwork havia congelado o tempo e Daniel, com toda a certeza, não estava usando um de seus medalhões temporais.

​Os cantos da boca do mestre do tempo se ergueram levemente enquanto, de forma muito, muito vagarosa, o peito de Daniel subia e descia. Não, Daniel não estava se movendo em sua velocidade normal, mas o fato incontestável era que ele não deveria estar se movendo de jeito nenhum.

​Clockwork flutuou para mais perto e, com uma de suas mãos azuis e gélidas, esticou-se para tocar a lateral do rosto de Daniel. O garoto, mais uma vez muito, muito lentamente, inclinou-se em direção ao toque, ainda sem acordar. O sorriso de Clockwork se tornou mais pronunciado, com os dentes brancos e afiados brilhando por entre os lábios.

​— Tudo está como deveria ser.

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