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Guidelines for an Affective Experiment

Summary:

Ruan Mei doesn’t understand love; she understands genetics, life synthesis, and predictable chemical reactions.
That is why when Herta says: "I’m in love with you," it is something she truly cannot comprehend. However, when Herta suggests turning it into an experiment—well, that is something she can work with.
Amidst analyses, cataloging, and uncontrollable biological reactions, Ruan Mei is about to discover just how pleasant kissing Herta can be, and how "jealousy" is a completely counterproductive variable.

Notes:

Hello. Welcome to my scientific world. Hahaha
I had this idea one day and thought: Why not?
So I decided to write it because... Well, I wasn't going to rest until I did.
I decided to publish it, and maybe someone will enjoy it.

This oneshot is written in my mother tongue, Brazilian Portuguese. I don't feel confident enough to do this in English, but I hope you give it a look anyway.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Para Herta, o universo passou a ser um lugar terrivelmente previsível.

Ela conseguia calcular a órbita de um planeta de cabeça, decifrar as intenções de qualquer membro da Estação em três segundos e, sinceramente, a mediocridade alheia a entediava até a morte. Era por isso ela usava suas marionetes; as pessoas de verdade davam trabalho demais e ofereciam estímulo de menos. Então enquanto suas marionetes lidavam com essas coisas mundanas, ela buscava o além. Pesquisava os Aeons.

Isso se seguiu por um tempo, até que o Universo Simulado trouxe sua parceria com Ruan Mei.

A princípio, Herta justificava sua atenção constante como puro interesse acadêmico. Afinal, Ruan Mei era um membro do Clube de Gênios. Mas, com o tempo, o foco de Herta começou a sofrer um desvio de rota gritante. Ela, que costumava deixar suas marionetes lidarem com as interações humanas, passou a aparecer pessoalmente para resolver qualquer problema no Universo Simulado e aparecer nas reuniões do projeto. Quando as reuniões ficavam longas, percebeu que sua consciência sempre focava na geneticista, não importava se ela estivesse na sala presencialmente ou de forma virtual.

Herta começou a notar coisas que não geravam conhecimento científico nenhum.

Reparava na lentidão quase hipnótica com que Ruan Mei mexia seu chá, na precisão cirúrgica de seus dedos ao ajustar uma equação, e no som de sua voz. A voz de Ruan Mei tinha uma cadência suave, um ritmo que de alguma forma fazia o tédio crônico de Herta simplesmente desaparecer. E para alguém que vivia fugindo do tédio como se fosse uma praga, aquilo era um mistério perigoso. Instigante, mas perigoso.

Herta criou teorias para prever o comportamento da colega, mas Ruan Mei sempre agia de forma diferente, indo na direção totalmente contrária ao que Herta havia previsto. Ela era a única variável que a Emanadora não conseguia catalogar ou antecipar. Aquela mente era um labirinto elegante que Herta não conseguia decifrar de fora.

Foi em uma tarde silenciosa, enquanto observava a projeção da colega analisar uma sequência de genes, que a ficha de Herta caiu. Ela não estava apenas interessada no projeto. Ela estava obcecada pela geneticista.

 

"Que irritante," Herta pensou, olhando a linha de códigos a sua frente. "Eu criei uma instabilidade por causa dela."

 

Mas Herta não era de fugir de um problema. Se havia uma anomalia em seu processamento, a única saída lógica era testá-la. Ela precisava de dados empíricos. Precisava saber o que aconteceria se trouxesse aquela variável para ainda mais perto. 

 

Experimento Nº 83-84

 O laboratório de Ruan Mei era diferente de qualquer outro existente na Estação Espacial Herta. Ele, estranhamente, cheirava a flores de ameixeira, terra úmida e açúcar caramelizado, um contraste absoluto com os corredores metálicos, frios e assépticos do resto da Estação Espacial. Era curioso que o laboratório dela tivesse esses cheiros específicos mesmo com a mulher fazendo testes e mais testes utilizando DNA e produtos químicos.

Ruan Mei estava inclinada sobre uma lâmina de microscópio, ajustando os parâmetros de uma nova sequência genética com uma delicadeza quase cirúrgica. Ela não precisou olhar para trás quando o som familiar de passos decididos ecoou pela sala.

 

- Você não deveria estar no meu laboratório, Herta. Estou no meio de um experimento importante. –  A cientista falou, com aquela voz perfeitamente calma e pausada, que parecia nunca ter conhecido um único pico de pressa na vida.

 

Herta, com toda a sua indulgência habitual, aproximou-se sem o menor sinal de hesitação. Ela usava seu corpo real hoje, um evento raro que, por si só, já mostrava o nível de tédio ou interesse dela.

 

- Tecnicamente, este laboratório é meu. – Herta retrucou enquanto aproximava-se sem o menor sinal de hesitação. – Afinal de contas... – Herta continuou recostando-se na bancada de metal que Ruan Mei trabalhava – Você está na minha estação espacial.

 

Ao ouvir essas palavras Ruan Mei finalmente desviou os olhos do microscópio, fixando seu olhar sereno e ligeiramente distante em Herta.

 

- Você quer tomá-lo de volta? – Perguntou com suavidade, sem qualquer tom de desafio, apenas pura curiosidade lógica.

- Eu não disso isso, Ruan Mei. – Herta respondeu inclinando-se para frente, observando atentamente as feições calmas da mulher. – Você pode continuar com seus experimentos, entretanto... – Herta abriu um sorriso satisfeito. – Eu entrarei nos laboratórios da minha estação sempre que quiser.

 

E foi assim que começou, como uma invasão por puro tédio por parte de Herta que acabou se transformando em uma constante silenciosa.

Com o passar das semanas, Ruan Mei se viu em uma nova rotina. Com bolos e chás da tarde, ela e Herta conversavam por horas. Não havia exatamente um tema específico, Universo Simulado, genética, os caminhos dos Aeons, física teórica e até mesmo a ciência do rejuvenescimento. Ambas as cientistas, tão diferentes uma da outra, dividindo o mesmo espaço em uma harmonia que ninguém conseguia de fato entender.

Tudo mudou em uma tarde qualquer, onde o silêncio confortável entre uma mordida de bolo e um gole de chá foi quebrado por Herta, quando pousou sua xícara.

 

- Ruan Mei. – Herta chamou a mulher, fazendo os olhos turquesa a encarar. – Eu estou apaixonada por você.

 

A frase saiu de forma perfeitamente clara, direta e objetiva, dita com o mesmo tom que Herta usaria para listar os componentes químicos de uma nova liga metálica. Sem drama, sem hesitação, sem bochechas coradas. Apenas um fato estabelecido.

A reação de Ruan Mei foi exatamente o que Herta já previa. Seu rosto não mudou de expressão. Aqueles olhos profundos continuaram apáticos, sem demonstrar surpresa, desconforto ou qualquer vestígio de calor emocional.

 

- Eu não sei o que isso significa, Herta. – Ruan Mei respondeu, a voz mansa e levemente entediada de sempre.

 

Herta não levou para o lado pessoal. Ela não esperava que Ruan Mei milagrosamente começasse a recitar poesias; afinal, ela havia se apaixonado justamente por aquela mente focada na essência fria da criação e pela falta crônica de interesse em convenções sociais humanas.

 

- Que tal fazermos disso um experimento? – Herta propôs, com a naturalidade de uma mulher que tem tudo sob controle. – Um relacionamento mais íntimo entre nós duas.

 

Ruan Mei piscou devagar, considerando a proposta sob um viés puramente analítico.

 

- E o que isso implicaria?

- Em eu vir te ver sempre que eu quiser e comer com você. – Herta começou a listar, após limpar a boca com o guardanapo.

- Não vejo o que há de diferente entre a sua proposta e o que já fazemos atualmente. – Ruan Mei apontou, pousando sua própria xícara de porcelana sobre a mesa de trabalho.

- Em te tocar sempre que me der vontade. – Herta continuou, sem se abalar com a interrupção ou suspiro de Ruan Mei. – Te levar para jantar e ir à sua casa. – Nesse momento Herta viu o brilho de curiosidade nos olhos turquesas. – Te beijar quando eu quiser. Você cozinharia para mim às vezes, e eu te daria presentes na mesma proporção.

 

Ruan Mei processou os novos parâmetros. Casa compartilhada, contato físico sob demanda, troca de presentes e alimentação programada. Era uma variável nova na sua equação de vida.

 

- É isso? – Ruan Mei perguntou inclinando levemente a cabeça para o lado, com a mesma neutralidade desinteressada de antes.

- Sim – Herta respondeu de maneira curta e simples.

 

Ruan Mei olhou fixamente para Herta, observando atentamente os olhos ametistas que a olhavam de volta. Era um olhar confiante, sem dúvidas. Ruan Mei conhecia Herta o suficiente para saber que a mulher à sua frente era obstinada demais, uma negação só geraria debates infinitos e insistência. Além disso, no fundo de sua mente analítica, uma pequena fagulha de curiosidade biológica se acendeu sobre como seria observar e viver esse tipo de experimento humano.

 

- Está bem. – Ruan Mei aceitou de forma pacífica.

 

Herta deu um sorriso discreto, servindo-se de mais um pedaço de bolo. O contrato estava selado, os termos estavam claros, e o romance mais estranho e genial do universo acabava de começar entre chás e bolos em uma tarde qualquer.

 

Experimento Nº 83-84 

Dia 03

[Protocolo de Intimidade: Fase de Testes]

Passava das duas da manhã na Estação Espacial. A maioria dos pesquisadores já estava em seus alojamentos, mas Ruan Mei continuava ativa banhada por uma luz azulada e fria, ela estava concentrada, transferindo delicadamente uma solução bioluminescente para uma placa de Petri.

De repente o som característico da porta sendo aberta se fez presente no silêncio do laboratório, revelando Herta, com seus trajes roxos habituais, andando com passos firmes até a geneticista.

Herta parou ao lado da mulher e a observou por um momento. O rosto concentrado olhando fixamente para a placa que tinha nas mãos, alguns fios turquesas do cabelo balançando levemente por conta da gravidade, a respiração estável e calma mesmo com sua presença. Nunca parava de surpreender Herta a forma tranquila e até mesmo indiferente de Ruan Mei perante ela, afinal, todo o resto do mundo não conseguia simplesmente ignorar a grande Herta.

 

- Eu quero te beijar, Ruan Mei. – Foi assim. Curta, direta e objetiva. Como alguém que exige um relatório de orçamento.

 

Diante do pedido de Herta, Ruan Mei sequer balançou a mão que segurava a pipeta de precisão. Ela continuou com os olhos fixos no que estava fazendo, analisando a amostra por mais alguns segundos antes de responder, com aquela voz que lembrava a Herta uma brisa mansa.

 

- Estou no meio de uma filtragem delicada, Herta. – A voz de Ruan Mei soava como se conversassem sobre uma lista de ingredientes. – Você vai ter que esperar.

 

Se fosse qualquer outra pessoa no universo ousando mandar a criadora da estação esperar, o indivíduo seria banido no milésimo de segundo seguinte. Mas Herta apenas cruzou os braços por um instante e soltou um suspiro contido, passando a olhar de forma desinteressada tudo que ocupava o laboratório ao seu redor.

Como cientista, ela compreendia a importância do tempo de um experimento de Ruan Mei. Por isso, Herta se afastou, seguindo até a outra bancada, onde tinha algumas pilhas de papeis, pegou uma delas para ler e... Esperou.

Ela não fez barulho. Mesmo que o assunto que ela lia a entediasse até a morte, Herta sequer resmungou. Apenas manteve-se quieta, respeitando o silêncio concentrado de Ruan Mei. Se a geneticista virasse para olhá-la, no entanto, veria a expressão de puro e absoluto tédio estampado no rosto jovem da mulher. Entretanto Ruan Mei conseguia sentir a aura de condescendência emanar dela, deixando bem claro que aquilo, a espera, era um sacrifício colossal para sua paciência. Não que isso realmente afetasse qualquer decisão de Ruan Mei.

 

- Fase de filtragem concluída. – A geneticista falou com a mesma apatia analítica de sempre, quando finalmente guardou a amostra na câmara de isolamento. Limpou as mãos e virou-se para onde Herta estava. A mulher havia permanecido quieta pelos 10 minutos que ela levou para terminar, era realmente impressionante.

 

Herta colocou os papéis que tinha em mãos de volta na bancada, desfazendo a expressão de tédio quando passou a seguir até onde Ruan Mei a observava. Ao se aproximar, Herta segurou o decote do vestido da geneticista puxando-a para mais perto, com seu sorriso característico de uma satisfação quase arrogante.

 

- Finalmente. – Ruan Mei viu aquele brilho satisfeito passar pelos olhos ametistas. – Mas devo dizer... – Herta baixou o tom de voz quando seus lábios estavam roçando os da cientista. – Que você demora demais.

 

E o beijo que se seguiu foi exatamente como a Herta: decidido, exigente e sem pedir licença. Ruan Mei apenas fechou os olhos, deixando-se levar pelo experimento com uma calma intrigada, enquanto Herta provava para si mesma que a espera silenciosa, por mais entediante que tivesse sido, tinha valido cada segundo.

 

Experimento Nº 83-84

Dia 10

[Dados Fisiológicos Anormais]

O bloco de notas holográfico flutuava ao lado da bancada de Ruan Mei, preenchido por uma caligrafia digital impecável. Ela vinha catalogando aquele experimento com a precisão de quem mapeia uma nova cadeia de DNA. Registrando absolutamente tudo: a frequência das visitas de Herta, a duração dos beijos, a temperatura da pele durante os abraços e, mais importante, as reações de seu próprio organismo. Para ela, era a única forma lógica de entender aquela nova dinâmica.

Foi assim que ela notou os padrões anômalos.

As anotações eram claras. Toda vez que Herta entrava silenciosamente no laboratório, aproximava-se por trás e a abraçava enterrando o rosto em seu pescoço buscando seu calor, a taxa de batimentos cardíacos da geneticista sofria uma alteração drástica. Não era um erro de leitura, ela conferiu várias vezes. Acontecia sempre.

Em uma dessas noites, Ruan Mei estava sentada em sua cadeira giratória de metal, revisando alguns dados, quando Herta se aproximou. Sem dizer uma palavra, a dona da estação inclinou-se sobre ela, apoiando as mãos nos braços da cadeira de Ruan Mei, encurtando a distância de forma decidida para reivindicar o beijo daquela noite.

Ruan Mei não se moveu. Ela apenas ergueu os olhos serenos, encarando o rosto de Herta a poucos centímetros do seu.

 

- Meu coração acelera sempre que você me beija. – Falou com sua habitual voz calma e pausada.

 

Aquela declaração foi feita de forma tão neutra e científica que parecia que ela estava relatando um aumento de temperatura em uma estufa de cultivo.

Herta parou por uma fração de segundo, os olhos brilhando com aquela satisfação arrogante que Ruan Mei já conhecia tão bem. Ela não deu uma explicação biológica, não tentou definir o que era aquilo e nem mesmo zombou da falta de traquejo social da outra. Apenas soltou um risinho baixo, soprado contra os lábios de Ruan Mei.

 

- Ótimo. – Herta sussurrou ao sentir os lábios de Ruan Mei roçarem os seus. –  Significa que o experimento está sendo um sucesso.

 

Experimento Nº 83-84 

Dia 30

[Investigação de Anomalias Viscerais]

O arquivo estava salvo sob um código genérico no sistema de Ruan Mei: “Estudo Comparativo de Respostas Somáticas a Estressores Ambientais Não Patogênicos”.

Ruan Mei não sabia o que era ciúme. Se um dia já tivesse lido sobre esse conceito em algum livro de psicologia humana antiga, a informação havia sido arquivada como "ruído irrelevante" e esquecida. Ela não entendia de namoro; entendia de reações químicas, biologia e evolução.

Por isso, quando viu aquele pesquisador-chefe de Ecologia bajulando Herta e sentiu aquela pressão esquisita no peito junto um leve calor subindo pela nuca, ela não associou isso a um sentimento. Ela associou a uma possível disfunção orgânica.

Naquela noite, ela sentou-se diante das telas holográficas e começou o cruzamento de dados, partindo do absoluto zero.

Primeiro, ela importou os dados de seu relógio biométrico daquele dia e isolou o momento exato da alteração.

 

“15:42 — Frequência cardíaca: 88 bpm (elevação súbita). Nível de cortisol salivar estimado: elevado. Atividade do sistema nervoso simpático: micro-reação de 'luta ou fuga' detectada. Estímulo desencadeador: Pesquisador do departamento de Ecologia tocando o braço de Herta enquanto ria de uma piada.”

 

Com esses dados isolados, Ruan Mei iniciou o cruzamento. Ela começou a pesquisar causas médicas e ambientais:

  • Pesquisa 1: "Micro-picos de cortisol causados por flutuação de gravidade artificial."

Resultado: Incompatível. Os sensores da estação estavam estáveis.

 

  • Pesquisa 2: "Espasmo esofágico ou refluxo gástrico induzido por consumo de chá de ameixa."

Resultado: Negativo. O pH do estômago estava dentro da normalidade.

 

  • Pesquisa 3: "Reações alérgicas a feromônios sintéticos de pesquisadores de outros planetas." 

Resultado: Improvável. O pesquisador em questão era puramente humano e não usava fragrâncias ativas.

 

Eliminadas as causas físicas diretas, Ruan Mei mudou a linha de pesquisa para o comportamento biológico de espécies sociais. Ela buscou dados sobre o que acontece com mamíferos e outras formas de vida inteligente quando um elemento externo interfere em uma díade estabelecida.

Foi quando ela cruzou seus sintomas com “estudos sobre o comportamento de vigilância de parceiros em primatas monogâmicos” e “estressores psicossomáticos causados por ameaças à exclusividade de recursos em grupos sociais” que os dados começaram a se alinhar.

Ao sobrepor o gráfico de sua frequência cardíaca com o gráfico de comportamento territorial de felinos de alta inteligência quando um intruso se aproxima de seu território demarcado, a semelhança foi de quase 98%.

Ela continuou descendo pelas ramificações dos artigos científicos, passando da biologia evolutiva para a psicologia comportamental sempre fazendo comparações com suas próprias reações, até que a tela holográfica finalmente destacou um termo de síntese para aquele conjunto exato de reações fisiológicas defensivas.

[Ciúme]Substantivo masculino. Reação emocional complexa que envolve uma ameaça real ou percebida a um relacionamento valioso, frequentemente manifestada por insegurança, ansiedade ou medo de perder o afeto ou a atenção de alguém importante devido à interferência de uma terceira pessoas ou situação externa, também desencadeia respostas de estresse físico como elevação de cortisol e/ou tensão muscular).

 Ruan Mei piscou devagar, observando a palavra brilhando na tela azul. Ela leu a definição três vezes, processando a informação com a mesma calma com que leria a descrição de uma molécula de DNA.

 

- Ciúme... – Ela pronunciou a palavra de forma experimental, sentindo como soava em sua língua. – Então, a presença daquele pesquisador gera em mim um mecanismo involuntário de defesa territorial sobre a Herta.

 

Ela recostou-se na cadeira, pensativa. A hipótese estava formulada, mas como uma cientista rigorosa, ela sabia que nada disso era definido como correto. Não sem testes. Ela precisaria observar se os mesmos sintomas se repetiriam na próxima vez que o pesquisador ou qualquer outra pessoa que tivesse acesso direto a Herta se aproximasse.

Apenas para fins estritamente científicos, é claro.

 

Experimento Nº 83-84

Dia 35

[Estabelecendo Parâmetros de Controle]

Para que uma pesquisa seja cientificamente válida, é necessário isolar as variáveis. Ruan Mei sabia disso melhor do que ninguém. Se seu organismo apresentava reações de estresse territorial perto daquele pesquisador específico, ela precisava medir seus dados fisiológicos na presença de outros indivíduos que também interagiam frequentemente com Herta.

Por isso, em uma manhã de terça-feira, Ruan Mei simplesmente apareceu no escritório principal de Herta.

 

- Eu gostaria de acompanhar a sua rotina hoje, Herta – Ruan Mei anunciou com sua habitual voz mansa.

 

Herta, que estava prestes a revisar alguns relatórios de orçamento, ergueu as sobrancelhas, genuinamente surpresa. Ruan Mei raramente saía de seu laboratório por livre e espontânea vontade, muito menos para acompanhar o lado administrativo da estação. Um sorriso arrogante e imensamente satisfeito surgiu nos lábios de Herta logo em seguida porque ela simplesmente adorou a ideia de ter a atenção de Ruan Mei voltada exclusivamente para ela por um dia inteiro.

 

- Acompanhar minha rotina? – Herta ajeitou a postura na cadeira, o brilho nos olhos entregando seu contentamento. – Pois muito bem. Fique à vontade para observar como uma verdadeira mente genial gerencia um império. Garanto que você vai achar muito mais fascinante do que suas placas de Petri.

 

E assim, o dia de coleta de dados começou.

Ao longo de todas as reuniões e decisões, Herta parecia visivelmente mais enérgica e performática do que o habitual, participando de conversas e decisões que normalmente ela delegaria para uma de suas marionetes, apenas porque Ruan Mei estava ali. Herta explicava suas decisões com um tom de voz ligeiramente mais imponente, gesticulava com elegância e garantia que a geneticista estivesse sempre em seu campo de visão, exibindo sua liderança incontestável com um orgulho quase infantil.

Enquanto isso, Ruan Mei mantinha seu relógio biométrico ativo, registrando silenciosamente cada batimento cardíaco, nível de suor e tensão muscular diante dos diferentes sujeitos de teste.

1. Teste de Controle A: Asta (O Braço Direito)

Asta entrou no escritório pelo menos quatro vezes nas primeiras horas, trazendo relatórios financeiros. Ela falava gesticulando, ria das respostas ácidas de Herta e, em dado momento, chegou a inclinar-se sobre a mesa de Herta, quase ombro a ombro com ela, para apontar um dado na tela.

  • Leitura biométrica de Ruan Mei: 68 bpm. Respiração estável. Tensão muscular: nula.
  • Análise: Nenhuma alteração somática detectada. Ruan Mei até mesmo aceitou um biscoito que Asta ofereceu. Asta era um elemento neutro e seguro.

 

2. Teste de Controle B: Arlan (O Chefe de Segurança)

Arlan apareceu logo após o almoço para reportar um incidente menor. Ele manteve uma postura totalmente profissional, mas Herta deu tapinhas amigáveis em seu ombro como sinal de aprovação pela eficiência.

  • Leitura biométrica de Ruan Mei: 70 bpm. Níveis de cortisol estáveis.
  • Análise: O contato físico iniciado por Herta não gerou reações adversas. O sistema imunológico e emocional permaneceu plácido.

3. Teste de Controle C: Screwllum (O Colega Gênio)

No meio da tarde, uma projeção holográfica de alta fidelidade de Screwllum surgiu para discutir uma atualização do Universo Simulado, e aproveitando que Ruan Mei estava na sala, ele deu voz a novas ideias que havia tido. O cavalheiro mecânico usou de toda a sua polidez e elegância ao elogiar a precisão do código de Herta, e os dois compartilharam uma discussão intelectual intensa por quase trinta minutos. Discussão essa que Ruan Mei não se interessou em participar.

  • Leitura biométrica de Ruan Mei: 72 bpm.
  • Análise: Parâmetros cardiovasculares normais. Seu colega de pesquisa não acionava nenhum alarme biológico.

 

No final do dia, as portas do escritório se fecharam para os visitantes externos. Ruan Mei estava em pé perto da janela panorâmica, analisando o gráfico em seu dispositivo de bolso. Depois de tantas análises e dos testes mais profundos com três sujeitos distintos, os dados passaram a ser irrefutáveis. A anomalia da "defesa territorial" era ativada exclusivamente pelo pesquisador da Ecologia.

Ouvindo os passos de Herta se aproximando, Ruan Mei guardou o dispositivo com tranquilidade.

Herta parou bem na sua frente. Sem pedir licença, ela deu um passo adiante no espaço pessoal de Ruan Mei, deslizando as mãos com suavidade pelas laterais de sua cintura, segurando-a em um gesto de intimidade silencioso e possessivo que agora pertencia a elas, observando-a fixamente sob a aba do chapéu.

 

- Você está muito quieta hoje, Ruan Mei – Herta comentou, com um tom de voz que misturava provocação e expectativa. – Ficou muda de tanta admiração pelo meu trabalho?

 

Ruan Mei sustentou o olhar, o coração dando aquele leve e previsível pulo de 88 bpm ao sentir o toque das mãos de Herta em sua cintura.

 

- Você realmente é agradável de se observar. – Respondeu com sua habitual voz monótona e calma, mas de uma forma bastante sincera.

 

Herta piscou, pega de surpresa pelo elogio tão direto. Suas bochechas não coraram, mas ela soltou um riso rápido, soprado e incrivelmente desarmado, deleitada com a resposta.

 

- É claro que sou. — Herta rebateu, recuperando a pose arrogante em um segundo.

- Eu também estava realizando algumas medições de parâmetros. – Ruan Mei continuou, com a maior naturalidade do mundo. – Os resultados foram... Irrefutáveis.

 

Herta apenas revirou os olhos de forma carinhosa, deslizando as mãos da cintura de Ruan Mei para seu rosto, puxando-a um pouco mais para perto.

 

- Cientistas... – Murmurou Herta.

 

E, fiel ao seu próprio lema de nunca desperdiçar uma oportunidade, Herta inclinou-se ligeiramente e selou seus lábios nos de Ruan Mei em um beijo calmo, mas perfeitamente reivindicativo, encerrando aquele dia de testes da melhor maneira possível.

 

Experimento Nº 83-84

Dia 42

[Protocolos de Mitigação]

A identificação do "problema" (ciúme) estava concluída. O grupo de controle havia isolado a variável. O diagnóstico de Ruan Mei era irrefutável. Agora, contudo, ela enfrentava o maior obstáculo de qualquer estudo científico: como mitigar os efeitos.

Ruan Mei detestava ineficiência. Ter seu sistema cardiovascular flutuando de forma descontrolada toda vez que o pesquisador da Ecologia bajulava Herta era um desperdício de energia biológica. Ela precisava de uma solução.

Sua primeira tentativa de consulta de campo foi com Asta.

Ruan Mei a abordou nos corredores da ala de controle. Sem rodeios e sem qualquer introdução social, começou a fazer perguntas teóricas e complexas sobre a dinâmica de sentimentos territoriais e "ciúme" em geral em humanos da atual era cósmica.

Asta, que era extremamente perspicaz, e que sabia perfeitamente que Herta andava com um humor suspeitosamente excelente e possessivo em relação a Ruan Mei ultimamente, corou levemente. Ela percebeu na hora do que se tratava. Mas, por mais inteligente que fosse, Asta se viu completamente sem palavras para traduzir a irracionalidade do amor e do ciúme em termos que a mente analítica de Ruan Mei pudesse catalogar. A conversa terminou com Asta gaguejando algumas explicações abstratas, deixando Ruan Mei com ainda mais questionamentos do que soluções.

Mas, para a extrema apreciação de Ruan Mei, a oportunidade perfeita de conseguir dados de alta qualidade surgiu dias depois.

O Expresso Astral havia aportado na estação para entregar um artefato antigo e altamente instável que Herta havia solicitado para seus estudos. O escritório de Herta estava incomumente tranquilo quando Himeko entrou, segurando uma maleta de contenção metálica.

 

- Ah, por favor, me desculpem a intrusão – Himeko disse, com sua costumeira elegância e um sorriso acolhedor nos lábios, ao notar Herta e Ruan Mei sentadas à mesa. – Asta me garantiu que eu poderia entrar diretamente.

 

- Então você finalmente encontrou o artefato que eu pedi, Himeko? – Herta pousou sua xícara de porcelana, os olhos brilhando de curiosidade para a maleta.

 

- Exatamente como prometido. — Himeko respondeu, aproximando-se.

 

Herta olhou para Ruan Mei. A geneticista apenas acenou com a cabeça de forma suave, dando permissão silenciosa para que interrompessem o chá. Herta levantou-se e foi ao encontro da capitã do Expresso. As duas trocaram algumas palavras sobre a segurança do objeto e os termos de custódia. Entretanto, antes que Himeko pudesse se despedir e se retirar, a voz calma de Ruan Mei ecoou pela sala.

 

- Himeko. Você teria um instante? Gostaria de conversar com você.

 

Himeko piscou, surpresa. Ela olhou brevemente para Herta, cujos olhos se voltaram imediatamente para Ruan Mei em uma mistura de curiosidade e surpresa antes de olhar novamente para a geneticista com um sorriso gentil.

 

– Claro. Estarei à sua espera no corredor.

 

Assim que a porta se fechou atrás de Himeko, Herta virou-se para Ruan Mei, cruzando os braços. Não era ciúme, afinal, quem no universo ousaria se comparar à grande Herta?, mas era uma curiosidade genuína e aguçada.

 

- E desde quando você tem assuntos com a capitã do Expresso Astral? – Herta quis saber, arqueando uma sobrancelha.

 

Ruan Mei levantou-se de sua cadeira de forma plácida, alisando as dobras de seu vestido.

 

- É apenas uma pesquisa sobre soluções e tratamentos referentes a comportamentos territoriais e psicossomáticos. – Explicou Ruan Mei com sua apatia usual. Ela deu alguns passos lentos, aproximando-se de Herta. – Você gostaria de participar?

 

Herta fez uma careta de leve, soltando um suspiro entediado.

 

- Assuntos comportamentais? Francamente, Ruan Mei, isso parece um tédio absoluto. Prefiro me manter bem longe desse tipo de burocracia humana. Divirta-se com a sua pesquisa.

 

Ruan Mei aceitou a explicação com elegância. Era a mais pura e crua verdade, a Herta não tinha paciência para a psicologia das massas. Mas, em vez de apenas se despedir, Ruan Mei fez algo inédito.

Ela encurtou os últimos centímetros entre elas. Inclinou-se suavemente e, com uma delicadeza cirúrgica, pressionou os lábios contra o pescoço de Herta, logo acima do colar ornamentado que ela usava.

O contato durou poucos segundos, mas foi o suficiente para fazer a respiração de Herta travar por completa surpresa. Ruan Mei nunca havia iniciado o contato físico dessa forma antes.

Enquanto mantinha os lábios ali, Ruan Mei analisou friamente as reações: seu próprio coração deu um salto previsível antes de acelerar, mas a pele de Herta aqueceu e estremeceu instantaneamente sob seu toque.

 

“Agradável” – Ruan Mei catalogou mentalmente, afastando-se com a mesma expressão serena de sempre. – “Altamente agradável. Devo repetir esse estímulo no futuro.” – Se afastou. – Até mais tarde, Herta – Disse Ruan Mei deslizando para fora da sala, deixando a dona da estação temporariamente paralisada.

 

No corredor silencioso, Himeko esperava pacientemente. Ao ver a cientista sair, ela sorriu.

 

- Desculpe fazê-la esperar, Himeko. – Ruan Mei desculpou-se, mantendo a voz mansa. – Se importa de caminharmos enquanto falamos?

- Não há problema. – Himeko respondeu, estendendo a mão para que ela liderasse.

 

Enquanto caminhavam pelos corredores de luz azulada da estação, Ruan Mei começou a expor sua linha de raciocínio. Ela não usou termos românticos; falou sobre neurotransmissores, reações territoriais de preservação de díades afetivas e a busca por um estabilizador emocional para quando "terceiros elementos não qualificados" interferiam no espaço do parceiro, deixando a pobre Inominada um pouco perdida no início da conversa.

 

- ...O progresso inicial é promissor, mas herdei uma inconsistência metodológica que tem atrasado a conclusão – Ruan Mei dizia, ao aproximarem-se do seu laboratório. Ela falava num tom calmo durante toda a conversa, direcionado a Himeko como quem compartilha um dilema técnico com uma colega de longa data. – Especificamente na análise de comportamento do que classifiquei como Sujeito A.

 

Himeko, ouvia atentamente, semicerrando os olhos vez ou outra na tentativa de entender realmente o que aquela mulher excêntrica estava falando, entretanto ela não interrompeu um única vez, apenas ouviu e observou.

 

- Sob condições normais, o Sujeito A apresenta uma homeostase impecável – Ruan Mei continuou, indicando uma das cadeiras do laboratório para que Himeko se sentasse. Sua voz permanecia firme, mas com um ritmo mais pausado se comparado ao início da conversa. – No entanto, quando um terceiro elemento sem relevância científica se aproxima do Sujeito B, o organismo do Sujeito A começa a manifestar reações físicas defensivas. Taquicardia leve e uma súbita urgência de interrupção biológica.

 

- "Urgência de interrupção biológica"? – Himeko questionou inclinado a cabeça, curiosa. – O que quer dizer com isso?

- O Sujeito A experimenta impulsos involuntários de interferir na comunicação do terceiro elemento – Explicou Mei, servindo duas xícaras com chá, as palavras saindo com aquela precisão cirúrgica de quem analisa uma cobaia. – Há um aumento súbito na necessidade de demarcação visual. – Oferece uma das xícaras a Himeko antes de sentar-se na cadeira restante. – O corpo do Sujeito A reage com o desejo de se posicionar fisicamente entre o Sujeito B e o intruso, ou de iniciar um contato físico com o Sujeito B para sinalizar a exclusividade do vínculo e forçar o afastamento do terceiro elemento. É uma reação de defesa territorial extremamente agressiva e... Ineficiente.

 

Enquanto Ruan Mei explicava esses impulsos possessivos, os dedos de sua mão esquerda contraíram-se de leve ao redor da cerâmica da xícara. Houve uma hesitação quase imperceptível ao descrever sobre "sinalizar a exclusividade do vínculo".

Himeko captou cada detalhe. O leve tensionamento dos ombros de Mei, a seriedade quase defensiva com que ela tentava blindar aquele "estudo" que começava a ter um nome muito mais prático para Himeko cada vez que a conversa progredia.

 

- Vamos falar em termos práticos, Ruan Mei? – Himeko sorriu de forma afetuosa. – Eu entendo que você tem uma mente brilhante, mas nem todos conseguem acompanhar o seu raciocínio. – Himeko colocou a xícara de chá intocado sobre a mesa. – Embora eu tenha uma ideia do que se trata toda sua pesquisa, eu preciso que você me diga em termos mais simples.

- Ciúmes. – Ruan Mei falou simplesmente, embora ela achasse que falar apenas isso sem contar toda a sua tese era uma informação bastante vaga e improdutiva.

- Entendi. – O sorriso de Himeko permaneceu no lugar. Achando divertido e cativante a mulher à sua frente transformar uma simples reação humana em uma pesquisa científica completa.

- O problema é que a equação não fecha. – Ruan Mei voltou a falar. – Eu identifiquei o mecanismo, mas não consigo encontrar uma solução teórica ou uma fórmula para resolver essa variável. Não há um supressor químico que neutralize essa necessidade de posse sem afetar o resto da homeostase do Sujeito A.

-  Ruan Mei... Infelizmente, você nunca vai encontrar a solução para esse tipo de problema usando essa metodologia. – Himeko falou suavemente. –  Tentar tratar o ciúme e o desejo de estar perto de quem você gosta como uma variável física e tangível, passível de controle laboratorial, é simplesmente impossível.

- Impossível? – Ruan Mei inclinou levemente a cabeça. – Mas se há um impulso territorial prejudicial à eficiência do dia a dia, deve haver uma forma de mitigá-lo.

- A única maneira de conseguir uma solução duradoura para essa "instabilidade" – Himeko a interrompeu brandamente, sustentando o olhar da geneticista – é se o Sujeito A simplesmente for lá e conversar com o Sujeito B sobre o que está sentindo.

 

Mei estagnou por um segundo. A sugestão parecia violar todos os seus protocolos de segurança intelectual.

 

- O Sujeito B não tem o menor interesse por esse tipo de pesquisa comportamental.

 

O olhar de Himeko suavizou-se ainda mais. A postura analítica e até mesmo um pouco defensiva de Ruan Mei era, no fundo, adorável.

 

- Essa pesquisa específica vai interessar ao Sujeito B. Acredite em mim. – Himeko falou com um brilho divertido, mantendo o jogo de codinomes, afinal ela já havia entendido ao menos quem eram os Sujeitos A e B. – Mesmo sendo uma área de estudo que, à primeira vista, não seja muito do agrado do Sujeito B. O que estabiliza um relacionamento não são pesquisas sobre variáveis, dados estatísticos ou parâmetros de comparação, por mais válidos e lógicos que eles pareçam na sua mente. O que estabiliza é o diálogo honesto. No fim das contas, cada relacionamento é único porque lidamos com pessoas diferentes, com gostos diferentes e interesses totalmente distintos... Que simplesmente escolheram que querem estar juntas.

 

As palavras de Himeko ecoaram no laboratório silencioso.

Mei piscou lentamente, processando a informação. Como geneticista, sua mente começou a traduzir aquela perspectiva humana para o único mapa que conhecia profundamente. Células. Cada célula tem um padrão de comportamento, mas cada cadeia de DNA carrega moléculas particulares, únicas em sua essência. Dependendo dos estímulos externos às quais são submetidas, as reações químicas nunca serão idênticas. E, para que essas reações sequer existam... o DNA precisa ser exposto ao estímulo primeiro.

Ela nunca saberia como a Herta reagiria àquela possessividade se continuasse tentando prever o resultado de longe, protegida por trás de relatórios e codinomes. Ela precisava se expor à anomalia. Precisava permitir que o estímulo acontecesse para que assim encontrasse a solução.

 

- … Estreitar o contato para observar a expressão real do gene sob o estímulo direto. – Ruan Mei murmurou, quase para si mesma, o esboço de um sorriso surgiu em seus lábios. –  Compreendo. – Olhou nos olhos dourados de Himeko. – Suas observações foram... Altamente esclarecedoras, Himeko. Obrigada. Agora eu sei por onde começar para, ao menos, amenizar o desconforto das reações anômalas.

 

Himeko soltou uma risada baixa, balançando levemente a cabeça, fascinada e genuinamente impressionada com a capacidade única daquela mulher de transformar um dilema puramente emocional em um protocolo de genética molecular.

 

- De nada,  – Himeko disse, levantando-se, com um brilho divertido nos olhos. –  mas se me permite dizer uma opinião estritamente pessoal... – Ruan Mei acenou com a cabeça, curiosa. – Iniciar contato físico para sinalizar exclusividade não é realmente tão ruim. Ou até mesmo sutilmente sinalizar isso verbalmente. – O sorriso de Himeko apareceu mais uma vez. –  Espero de verdade que você encontre a melhor solução para esses seus questionamentos científicos.

 

Experimento Nº 83-84

Dia 51

[Protocolo de Mitigação: O Parâmetro da Exclusividade]

Era para ser mais uma daquelas visitas de rotina, onde Herta entrava e praticamente exigia que Ruan Mei lhe desse atenção, elas dividiriam o chá com biscoitos que a geneticista havia feito na noite anterior para que experimentassem juntas, talvez dessa vez Ruan Mei iniciasse um beijo antes de voltar a sua pesquisa.

Mas no instante que Herta entrou no laboratório, quando Ruan Mei viu seus olhos, ela já soube que seus planos iriam mudar. Ela observou a mulher entrar com seus passos decididos, analisando a expressão em seu rosto. Não era uma expressão que passava tranquilidade, mesmo em um rosto tão bonito.

Quando Herta estava próxima o suficiente, ela ergueu os braços, abraçou Ruan Mei de forma bastante possessiva pelo pescoço, fazendo a geneticista se aproximar. E, diferente do beijo que Ruan Mei imaginava que viria, Herta apenas enterrou o rosto na curva do seu pescoço. Também não demorou muito para que a cientista ouvisse um suspiro irritado, sentindo o ar quente atingir sua pele.

 

- Não vamos poder tomar chá hoje, Ruan Mei. – Herta murmurou, com os lábios encostados na pele à sua frente. – Tenho uma reunião com a equipe de ecologia em alguns minutos. Uma perda de tempo absoluta.

 

Naquele exato instante, o olho esquerdo de Ruan Mei deu um leve e involuntário tic. Herta não viu, pois ainda estava com o rosto enterrado em seu pescoço, mas a geneticista registrou a reação imediatamente.

 

Insuportável.” – Ela pensou. Era a reação física mais irritante e incômoda que seu organismo havia apresentado até agora.

 

Ela mal ouviu Herta resmungar que estava a ponto de expulsar o tal chefe de Ecologia, cujo nome nenhuma das duas sequer lembrava. A mente de Ruan Mei estava inteiramente focada no fato de que aquele homem estava prestes a tomar o tempo do chá delas. Ela havia feito biscoitos para dividirem, havia reorganizado meticulosamente sua agenda de cultivo celular para aquele momento, e ele simplesmente havia bagunçado sua rotina meticulosamente organizada.

Em um movimento calmo, mas carregado de uma firmeza silenciosa, Ruan Mei levou as mãos até a cabeça de Herta. Ela segurou as abas do chapéu favorito da dona da estação e, sem qualquer hesitação, o puxou, deixando-o cair displicentemente no chão de pisos brancos.

O protesto de Herta foi automático.

 

- Ruan Mei! O que deu em você? Esse é o meu chapéu favorito.

 

Ruan Mei apenas a observou resmungar. Sentiu os braços envolta do seu pescoço recuarem. Observou o momento em que Herta se preparava para se curvar para pegar o acessório do chão, mas Ruan Mei a abraçou apertado pela cintura, impedindo-a de fazer tal movimento.

Herta ergueu a cabeça, agora livre do chapéu, com o cabelo levemente bagunçado pela forma que ele foi tirado. Nesse momento, Ruan Mei percebeu que ela realmente gostava de olhar para o rosto de Herta sem a obstrução daquele acessório, mas não achou biologicamente agradável o tom de voz ríspido que a outra usou para repreendê-la.

Lembrando-se da sensação que havia experimentado no corredor, da reação que provocou ao beijar o pescoço de Herta anteriormente, e das palavras de Himeko sobre não ser ruim sinalizar exclusividade através do contato físico, Ruan Mei decidiu que queria repetir aquele estímulo. Então assim o fez, ela pressionou os lábios firmemente contra a lateral do pescoço de Herta.

Como esperado, a gênio que seguia o caminho da Erudição calou-se no instante que sentiu os lábios contra sua pele. Mas, diferente da primeira vez, Ruan Mei não se afastou logo em seguida. Ela permaneceu ali, com os lábios colados à pele macia e aquecida de Herta. Em um impulso instintivo cuja origem ela não saberia explicar, ela abriu levemente a boca e mordeu. Ela não usou realmente força, mas isso fez Herta engasgar. Beijando novamente o local, Ruan Mei inspirou profundamente, sentindo o aroma sutil e característico de Herta invadir seus sentidos.

Uma corrente elétrica pareceu subir por sua espinha, eriçando os pelos de seus braços.

 

Altamente agradável.” –  Catalogou mentalmente.

 

Com o avanço daquele experimento, Ruan Mei já começava a prever as reações físicas de Herta. Ela sentiu o peito de Herta se expandir enquanto a mulher puxava o ar, prestes a formular alguma resposta indignada. Talvez pelo chapéu que ainda estava no chão, talvez pelos beijos no pescoço, talvez pela mordida. Ela não sabia realmente e antes que Herta expressasse seus pensamentos, Ruan Mei a interrompeu com sua voz mais plácida e quase indiferente.

 

- Eu quero passar a noite na sua casa.

 

E seja lá o que Herta planejava dizer, morreu no meio do caminho. Mais uma vez, a grande Herta tinha a comprovação científica de que Ruan Mei sempre seria capaz de surpreendê-la. E, pelo visto, seriam surpresas extremamente agradáveis.

Herta afastou-se apenas o suficiente para conseguir encarar diretamente aqueles profundos olhos turquesa de Ruan Mei. Um sorriso desafiador surgiu em seus lábios.

 

- E porque você acha que vou te levar à minha casa hoje, Ruan Mei?

- Porque eu estou dizendo a você que quero ir. – Ruan Mei respondeu com uma tranquilidade absoluta, sustentando o olhar analítico de Herta. – Nesse experimento você é minha, correto?

 

Herta soltou um riso anasalado, chocada com a audácia, mas sentindo o coração acelerar com a provocação.

 

- Eu não pertenço a ninguém, Ruan Mei.

- Então isso significa que eu também não pertenço a você. – A geneticista rebateu de forma lógica, sem alterar o tom, mesmo que aquelas palavras tenham deixado um gosto amargo em sua língua. Esquisito, ela havia comido um doce não fazia muito tempo. – Devemos acabar com esse experimento?

 

Herta piscou, desarmada. Ela olhou para Ruan Mei com uma mistura de incredulidade e puro deleite. Aquele "experimento de relacionamento" estava se provando a atividade mais divertida e estimulante de toda a sua longa existência. Nem mesmo o olhar dos Aeons sobre ela se comparava àquele jogo.

 

- Você é bem audaciosa, não é? – Herta comentou, os olhos brilhando pelo desafio.

- Eu estou apenas exibindo os parâmetros do estudo. – Ruan Mei respondeu com simplicidade, observando uma sutil marca vermelha aparecer no pescoço de Herta.

- Bem, que seja. – Herta cedeu, afastando-se finalmente de Ruan Mei, curvando-se para pegar seu amado chapéu. Ela ainda tinha uma reunião irritante e improdutiva para comparecer, e agora estava com uma vontade súbita de amedrontar algumas almas da ecologia para acabar logo com aquilo. – Espere por mim ao anoitecer.

 

Sem esperar por uma resposta, Herta deu meia-volta e marchou para fora do laboratório.

Ruan Mei permaneceu no mesmo lugar, observando a porta se fechar. Ela levou dois dedos aos próprios lábios, ainda sentindo o calor da pele de Herta, tentando compreender o que a levou a morder o pescoço dela. Lembrou da leve marca avermelhada que havia ficado ali, depois olhou para o relógio biométrico em seu pulso. Os batimentos cardíacos estavam elevados, mas o sentimento de irritação com o pesquisador havia sumido por completo.

O protocolo de mitigação havia sido um sucesso absoluto.

 

Experimento Nº 83-84

Dia 60

Hora: 10:45

[Protocolo de Mitigação: Aplicação Prática de Demarcação Territorial]

Seu protocolo anterior havia sido um sucesso sem dúvidas, mas Ruan Mei era uma cientista realista. Ela logo percebeu que aquele protocolo de mitigação inicial tinha um tempo de meia-vida extremamente curto. O efeito anestésico do beijo havia passado rápido demais.

Lembrando-se mais uma vez do conselho de Himeko, Ruan Mei aceitou que, se quisesse uma solução duradoura para aquela instabilidade, precisaria agir de forma direta e depois expor o problema.

A oportunidade perfeita de testar uma nova metodologia surgiu no dia seguinte.

Ruan Mei caminhava por um dos corredores principais da estação ao lado de Asta, ouvindo a jovem astrônoma falar sobre o orçamento de um novo telescópio. No entanto, a atenção de Mei foi completamente desviada quando ela avistou Herta dobrando o corredor.

Herta não estava sozinha. O mesmo chefe do departamento de Ecologia a seguia com passos apressados, gesticulando e falando sem parar. Herta parecia furiosa; sua expressão era de puro estresse e impaciência.

Nesse momento, Ruan Mei fez duas observações cruciais.

  1.     Ela gostava muito do rosto de Herta, mas definitivamente não gostava de ver aquela expressão irritada nele.
  2.     Ela sentia um profundo desagrado ao ver aquele homem orbitando Herta de forma tão persistente.

Mais uma vez, o maldito tic em seu olho esquerdo se fez presente.

Asta continuava falando ao seu lado, mas Ruan Mei já não ouvia mais nada. Sua mente vasculhava arquivos e estudos sobre comportamento de outras espécies. Ela lembrou que diversas delas usavam feromônios para demarcar território e afastar intrusos. Os humanos, contudo, desprovidos de tais recursos químicos eficientes, haviam desenvolvido uma forma psicossocial de fazer o mesmo: a sinalização pública de posse. Eles conseguiam dizer "afaste-se" sem precisar verbalizar a ameaça de forma direta.

Para Ruan Mei, era o momento perfeito de colocar aquela teoria antropológica em prática. Afinal, um bom estudo exige dados reais.

 

- Herta, estou te esperando há muito tempo. – Ruan Mei pronunciou-se, com sua habitual voz mansa e pausada quando os dois estavam próximos o suficiente.

 

Herta parou abruptamente. Ela ergueu uma sobrancelha, observando a geneticista. Ao lado de Ruan Mei, Asta arregalou os olhos, já prevendo que algum tipo de cataclismo estava prestes a acontecer ali mesmo, no meio do corredor.

 

- Você me deve um almoço agora. – Ruan Mei continuou, imperturbável.

- Ruan Mei... – Herta começou, surpresa pela audácia.

- Você irá me levar ao Lorenzzo. – Ruan Mei a interrompeu, fazendo os olhos de Herta se estreitarem levemente diante daquela exigência inédita. – E depois me levará para ver as estrelas.

 

Nesse exato momento, Ruan Mei desviou os profundos olhos turquesa para o chefe de ecologia, que havia estagnado a poucos passos de distância. Mantendo a voz perfeitamente monótona, ela disparou, com palavras bem escolhidas para que não existissem dúvidas.

 

- Acredito que, dado o nosso relacionamento neste momento, sou mais importante que o seu subordinado. –  Voltou seu olhar para Herta. – Estou certa?

 

O silêncio que se instalou no corredor foi quase palpável.

A expressão de Herta passou de irritada pela interrupção anterior para uma de puro e absoluto divertimento. Como uma Emanadora da Erudição, ela era extremamente sensível às energias ao seu redor. Mesmo sem olhar, ela pôde sentir o chefe de ecologia dar dois passos hesitantes para trás, visivelmente acuado pela frieza cirúrgica de Ruan Mei. Ao seu lado, a energia nervosa e em pânico de Asta era quase cômica.

Mas o que realmente fascinou Herta foi o olhar desafiador daquela geneticista. Quase ninguém no universo ousava desafiar a grande Herta sem sofrer consequências desastrosas. Mas Ruan Mei... Ruan Mei era uma maravilhosa exceção.

Herta sentiu seu próprio coração bater de forma incomumente acelerada. Ser desafiada e publicamente reivindicada por Ruan Mei era uma sensação incrivelmente agradável.

 

- Asta. – Herta chamou, virando o rosto levemente para a assistente. A pobre garota estava com as bochechas coradas e os olhos arregalados de pura incredulidade. – Poderia, por favor, reorganizar toda a minha agenda de amanhã?

- Ah... S-Sim, senhorita Herta! – Asta gaguejou, assentindo freneticamente. Aparentemente não haveria uma explosão por parte de Herta. Graças aos Aeons.

- Deixarei as pendências de hoje e coisas mais urgentes de amanhã nas mãos de uma das minhas marionetes. – Herta continuou, voltando a fixar os olhos em Ruan Mei com um sorriso cúmplice de canto. – Qualquer outro assunto que precise da minha avaliação pessoal, darei a devida atenção posteriormente. Aparentemente, eu devo me redimir com a minha convidada.

 

Herta não estava dando a mínima importância para o chefe de ecologia que ainda pairava por perto, mas tudo mudou quando ela percebeu o olhar gélido de Ruan Mei fixado no homem. O brilho nos olhos turquesa era quase predatório.

 

“Bem... aquilo não era fascinante?” – Herta pensou, decidindo encerrar toda aquela situação de uma vez por todas. Ela virou-se para o subordinado com sua costumeira frieza cortante. – Eu não quero mais ouvir falar sobre esse assunto da ecologia, entendido? Seja qual for o problema, resolva você mesmo. É para isso que vocês são pagos nesta estação. Ou eu posso simplesmente expulsar o seu departamento inteiro daqui. Para mim, qualquer um serve.

 

Lá estava ela. A arrogância clássica, afiada e impiedosa da grande Herta.

Ruan Mei observou a cena em silêncio e fez mais uma catalogação mental instantânea: ver Herta usar sua autoridade para esmagar a presença do rival daquela maneira era, do ponto de vista puramente biológico e pessoal, uma das coisas mais agradáveis que ela já havia testemunhado.

O "protocolo de marcação territorial" não apenas havia funcionado, como havia gerado uma simbiose perfeita de interesses.

 

- Venha, Ruan Mei. – Herta chamou, estendendo a mão para ela com aquele seu sorriso arrogantemente satisfeito. – O Lorenzzo nos espera.

 

Ruan Mei aceitou o toque, sentindo a pele quente de Herta através do tecido da luva que usava, certa de que aquele artigo científico sobre relacionamentos estava longe de ser concluído, mas que os testes de campo eram absolutamente viciantes, especialmente quando eram acompanhados de resultados tão satisfatórios.

 

Experimento Nº 83-84

Dia 60

Hora: 17:15

[Novas Diretrizes]

Após o almoço, as duas caminhavam pelas ruas tranquilas da cidade. Ruan Mei mantinha os passos calmos, com as mãos delicadamente presas atrás das costas.

Herta parou por um momento observando as costas da mulher, vendo-a se afastar alguns centímetros antes de chamá-la. Afinal, a geneticista praticamente havia exigido que ela a levasse para ver as estrelas.

 

- Onde você quer ir, afinal? –  Herta perguntou, com um tom de expectativa divertida.

 

Ruan Mei parou, virando o rosto de leve por cima do ombro, os olhos turquesa calmos como sempre.

 

- Quero ir para o Planeta Azul. –  Herta cruzou os braços, observando a postura perfeitamente indiferente da outra. –  Não me diga que isso é um problema para você, Herta.

- Você realmente gosta de me desafiar, não é? –  Herta estreitou os olhos, analisando-a.

 

Como Emanadora da Erudição, como criadora da fórmula rejuvenescimento e a única capaz de replicá-la, ela era mais do que inteligente para saber exatamente o que Ruan Mei estava fazendo. Mas, de alguma forma, aquele desafio constante era a coisa mais interessante que havia acontecido com ela nas últimas vinte e quatro horas. Ela tinha a nítida sensação de que continuaria sendo por muito tempo.

 

- Eu não sei do que você está falando. – Ruan Mei respondeu, apática. –  Apenas ouvi dizer que é um local bastante interessante.

- Está bem, Ruan Mei. – Herta soltou um riso baixo e estendeu a mão direita, com a palma voltada para cima.  – Irei levá-la onde deseja.

 

Sem hesitar, Ruan Mei aproximou-se e segurou a mão estendida.

O salto dimensional foi imperceptível. Em um momento estavam andando por ruas quase desertas, segundos depois, elas estavam de pé em um prado azulado, sob um céu de tonalidades profundas. Era um mundo predominantemente de água, azul, cristalina e vasta, mas apenas água.

 

- Hum... – Ruan Mei murmurou, dando alguns passos pela planície de solo azul. – Sempre achei que a grande Herta teria vindo de um local mais exuberante. Mas, na verdade, é um local bem comum.

 

Mais uma vez, Herta não conseguiu conter o riso. A audácia daquela mulher não tinha limites.

 

- Você sabe, Mei... – Herta aproximou-se dela pelas costas, completamente indiferente a reação que causou em Ruan Mei ao chamá-la daquela forma. – Que algumas coisas permanecem ocultas. – Herta passou os braços pela cintura da cientista, colando-se às costas dela, enquanto abraçava-a com o braço esquerdo e estendia a mão direita mostrando faíscas roxas na ponta dos seus dedos. – E você apenas as descobre... – Continuou sussurrando rente ao ouvido dela. – Quando sabe a equação certa.

 

Herta moveu os dedos e a faísca de magia roxa na ponta deles se expandiu. O tempo ao redor pareceu mudar, escurecendo e adquirindo tons profundos de roxo. Aos poucos, partículas de luz brilhante começaram a flutuar ao redor delas, passando por seus dedos, sobre suas cabeças e pelos seus pés.

 

- Partículas virtuais. – Herta sussurrou, encostando os lábios suavemente no pescoço claro. – Energia da criação. Para alguém que pesquisa a vida de forma tão diligente como você, acredito que isso seja bastante impressionante, não é?

 

Ruan Mei observava as partículas brilhantes. Algumas pousaram sobre o tecido escuro de suas luvas. Era inegavelmente fascinante. No entanto, sua atenção estava voltada para o calor do corpo de Herta atrás do seu, e a sensação dos lábios dela em seu pescoço.

Como das outras vezes, continuava sendo uma sensação agradável. Bem... exceto pelo chapéu de Herta, que ela estava começando a achar extremamente inconveniente.

Mei virou-se de frente para ela. Olhou nos olhos de Herta por um momento e depois fixou o olhar na copa larga do chapéu. Sem dizer uma palavra, ergueu as mãos e o puxou da cabeça de Herta. Desta vez, a dona da estação apenas revirou os olhos.

 

- Se você jogá-lo no chão novamente, eu vou te abandonar aqui. – Herta ameaçou, sem qualquer firmeza real na voz.

- Você não faria isso. – Ruan Mei respondeu, com sua apatia usual, permitindo que Herta pegasse o chapéu de suas mãos e o guardasse em qualquer fenda dimensional.

- O que é toda essa sua implicância com o meu chapéu?

- Não é implicância. – Ela respondeu tranquilamente, virando-se de costas para Herta outra vez, aninhando-se contra ela. Aquela posição era realmente altamente agradável. Mais um parâmetro a ser repetido no futuro. Várias vezes. – Ele apenas passou a ser um incômodo.

- E como ele te incomoda?

- Me atrapalha a sentir você completamente – Explicou, sentindo os lábios de Herta pousarem em seu pescoço mais uma vez. Neste momento Ruan Mei percebeu que a ausência da aba protetora tornava a experiência bem diferente. – Também me impede de ver seu rosto por inteiro. Sempre há uma sombra irritante cobrindo você por causa dele.

 

Ruan Mei sentiu os lábios de Herta se curvarem em um sorriso contra sua pele. Seus pelos se eriçaram novamente com o contato, mas ela manteve a pose plácida.

 

- Atendemos aos seus desejos, Mei. – Herta sussurrou, roçando os lábios na pele clara. Desta vez sentindo o leve estremecimento dela. – Agora é a sua hora de atender aos meus. Afinal... Esse experimento é para os dois lados.

- Acho que é justo. – Ruan Mei falou simplesmente.

 

Herta afastou-se ligeiramente, postando-se ao lado dela. Ruan Mei sentiu uma leve pontada de desapontamento com a perda do contato próximo.

 

Eu sempre posso exigir isso de volta no futuro.” – Pensou.

- Você anda diferente. – Herta começou, cruzando os braços, direta como sempre. – Quer finalmente me dizer o que aconteceu?

- Percebi algumas reações físicas novas e precisei pesquisar sobre o assunto. – Ela comentou, observando uma partícula de luz flutuar sobre a palma de sua mão.

- Eu não sei se quero ouvir um relatório científico sobre isso. – Herta murmurou, já pressentindo a conversa tediosa.

- Não eram reações agradáveis. – Ruan Mei continuou, ignorando completamente o desdém de Herta. – Ver aquele ecologista ao seu redor estava me causando reações desnecessárias e insuportáveis.

 

Herta ergueu o queixo, os olhos brilhando em pura satisfação possessiva.

 

- Ora, ora, Ruan Mei... – Um sorriso bastante convencido apareceu em seus lábios. – Você está com ciúmes?

- De acordo com as minhas pesquisas, com as variáveis que cataloguei e com a irritante necessidade biológica de exclusividade... Sim, é isso.

 

Ao ouvir a admissão tão descaradamente científica, Herta riu. Não era sua risada habitual, mas algo mais aberto, genuíno e incrivelmente agradável. A única coisa que se passou pela mente analítica de Ruan Mei naquele instante foi uma conclusão muito simples: Bonito.

 

- Você é realmente interessante, Ruan Mei – Herta falou ao fazer sua magia retroceder. Os pontos brilhantes desapareceram no ar.

- Tão interessante quanto um novo projeto de pesquisa para você? – Ruan Mei perguntou, curiosa.

- Não. – Herta deu um passo, ficando bem à frente da geneticista, passou os braços ao redor do pescoço de Ruan Mei, puxando-a para mais perto antes de murmurar com convicção. – Você é muito mais que isso, Mei.

 

Com extremo deleite, Ruan Mei permitiu que suas próprias mãos enluvadas encontrarem o caminho até a cintura de Herta, segurando-a com firmeza quando os lábios macios dela uniram-se aos seus.

Aquele experimento de relacionamento estava apenas em sua fase inicial. E, se dependesse de Herta, ele duraria muitos anos. Não, duraria incontáveis anos. Esse era o desejo de Herta.

E todos sabem que a grande Herta sempre conseguia exatamente o que queria.

 

Notes:

Thank you for reading.
And I apologize for any potential mistakes you might have found.
If you want to let me know what you thought, I would be very happy.