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Eduarda nunca havia viajado para o norte do país.
A culpa não era necessariamente sua. Afinal, a região não é exatamente famosa como destino turístico, ou sequer tem cidades mundialmente conhecidas como o Rio de Janeiro. Por este motivo, durante suas férias, o destino de Eduarda, quando não era o exterior ou a casa de sua avó em Minas Gerais, geralmente se concentrava em outros estados que não os do norte.
Contudo, a oportunidade de conhecer a cidade de Belém surgiu quando seu pai foi convidado para dar uma palestra na universidade federal do Pará. Não seria uma estadia de mais de dois dias, mas Eduarda queria aproveitar a oportunidade para conhecer o lugar novo e experimentar as comidas típicas que eram únicas, então, pediu dispensa para o delegado Jairo, que não hesitou em conceder três dias de folga para a policial, afirmando que ela trabalhava demais e deveria descansar.
O avião pousou no aeroporto de Belém pela manhã e assim que pôs os pés para fora do saguão, Eduarda sentiu o clima quente e abafado atingir seu rosto. O vento soprava forte mas ao invés de refrescar, ele contribuía para que a ruiva tivesse a sensação de estar cozinhando dentro de um forno e o suor começou a formar nas suas costas só com os poucos passos que deu até o táxi mais próximo.
Chegando ao hotel, Henrique não perdeu tempo e se dirigiu direto para a universidade. Queria ficar por dentro do evento o quanto antes e Eduarda aproveitou para encontrar o guia turístico que havia contratado e partiu para conhecer a cidade com a promessa de encontrar com o pai no final do dia para jantarem juntos.
O guia, Guilherme, propôs que eles fossem conhecer alguns lugares famosos da cidade e em seguida poderiam parar para almoçar. Eduarda o seguiu com um sorriso no rosto e câmera na mão, ouvindo a história por trás da praça que dava de frente para um rio enorme de águas barrentas que antes havia sido um forte militar responsável pela segurança de toda região. Junto com ela ainda havia mais vinte e cinco pessoas também acompanhando Guilherme, dentre eles uma dupla de senhoras por volta dos 75 anos, que conversavam com Eduarda animadamente sobre seus planos de conhecer cada estado do país.
— O rio parece tão calmo, mas o Guilherme falou que a correnteza é muito forte — Ana, uma das senhoras que haviam amigado a ruiva mencionou enquanto Eduarda tirava fotos da paisagem à sua frente, apoiada no parapeito de ferro.
Era verdade, na superfície da água tinha pequenas ondas que batiam na base do forte de pedra de maneira constante, mas ela não duvidava das palavras do guia, afinal um rio tão grande como aquele, onde era difícil de enxergar a outra margem e que era tão fundo que chegava a ter capacidade de navegação para embarcações militares e de cruzeiro certamente não era um rio calmo como aparentava.
— Ele falou que amanhã a gente pode ir conhecer alguma praia e vamos poder entrar na água.— A outra senhora, Yara, falou para a amiga e se colocou também ao lado de Eduarda igualmente observando a correnteza.
— Ainda bem! Porque com o calor que tá fazendo eu tô quase pulando aqui mesmo. — Ana afirmou já se abanando com um leque e Eduarda sorriu.
— Cuidado dona Ana, eu não tô a fim de bancar a heroína policial fora de São Paulo.
As três riram e seguiram andando atrás de Guilherme que começava a guiá-las para o local onde poderiam almoçar a típica comida local, o mercado do Ver-o-Peso.
Enquanto caminhavam, o guia explicava que o local era originalmente um mercado de peixes e foi se expandindo até se tornar o maior mercado a céu aberto da américa latina e que se podia encontrar de tudo um pouco naquele lugar, desde os famosos banhos de cheiro, até animais, frutas e artesanato.
Eduarda tinha que admitir que o cheiro do mercado de peixe não era o mais agradável, mas quando chegaram na parte das vendedoras de ervas, parecia que havia entrado em outro mundo. Havia um corredor cheio de pequenas barraquinhas com centenas de vidros coloridos e plantas que exalavam um cheiro delicioso e as erveiras, como eram conhecidas, explicavam-lhe para que cada banho daquele servia, desde tirar energia negativa, até para amansar corno (Eduarda deu uma gargalhada com essa informação) e elas convenceram a ruiva a levar alguns potinhos de banho cheiroso para atrair amor, não que Eduarda acreditasse muito nessas coisas, mas a sua situação estava tão difícil que qualquer ajuda era bem vinda.
Não era de hoje que Eduarda conhecia alguma garota, se interessava, mas o relacionamento nunca ia pra frente. Talvez fosse seu trabalho com horários confusos ou o fato de que era difícil encontrar alguém hoje em dia que procurasse algo a mais que algumas noites divertidas. Sem contar que a própria ruiva não sentia exatamente falta das garotas que conhecia. A companhia era boa, mas não despertava nada de mais em Eduarda que a fizesse querer ficar por muito tempo.
Depois das erveiras, Guilherme finalmente as levou para a área em que serviam comidas típicas e Eduarda pôde finalmente experimentar a culinária paraense. Comeu um pouco de cada, pato no tucupi, maniçoba, tacacá e uma variedade de sucos de frutas que elas nunca haviam ouvido falar.
O açaí, servido do jeito tradicional, ficou por último e Eduarda teve que admitir que o gosto era um pouco forte demais para o seu paladar que estava acostumado com o açaí de São Paulo, mas Yara pareceu adorar, principalmente quando serviram com açúcar e farinha de tapioca.
Por volta das 15h30 todos já estavam um pouco cansados devido a caminhada e o sol forte. Guilherme anunciou que eles iriam voltar para o ônibus de turismo para seguir para o próximo local que iriam conhecer, apressando levemente as pessoas porque, segundo ele, a chuva poderia cair a qualquer momento.
Eduarda olhou para o céu na direção do rio e , de fato, o que parecia ser uma enorme tempestade vinha se formando na outra margem e o vento a empurrava em direção à cidade, nuvens cinzas e carregadas prometiam uma forte chuva e grande quantidade de água, mas o guia não pareceu muito preocupado em seguir com o passeio.
A ruiva pegou a câmera mais uma vez para tirar foto das nuvens de chuva, mas logo após o primeiro clique, ela ouviu gritos que pareciam ser de uma mulher. Todos viraram a cabeça para tentar localizar de onde vinha o barulho seguido de um pedido de ajuda e Eduarda já automaticamente colocou a mão na parte de trás da calça procurando a sua arma por puro instinto, mas obviamente não havia nada lá, o que não impediu que ela ainda assim notasse um homem correndo no meio da multidão com os punhos fechados, vindo na sua direção.
Eduarda não pensou duas vezes e assim que ele estava em seu alcance, ela o agarrou pela camisa e projetou seu corpo na frente do indivíduo, derrubando-o no chão. Com o impacto, ele ficou levemente desnorteado e a ruiva aproveitou para imobilizá-lo enquanto o fazia abrir a mão, revelando um cordão de ouro que claramente não era seu.
Dois policiais militares chegaram logo em seguida e levantaram o sujeito. Eduarda se identificou, mesmo sabendo que estava muito longe da sua jurisdição e os policiais agradeceram a ajuda, mas a ruiva mal escutou o que eles disseram, pois logo atrás deles veio uma mulher e a provável vítima do ladrão oportunista, e Eduarda teria talvez chamado a atenção dela, porque não é muito inteligente sair andando pela rua com um cordão desses a mostra, mas a ruiva não conseguiu reunir forças para falar imediatamente, tudo que ela pôde fazer foi manter o peso do corpo sobre os próprios pés, mesmo depois de ter perdido o ar (e levemente o equilíbrio), pois acabara de cruzar os olhos com a mulher mais linda que já havia visto em toda sua vida.
Eduarda registrou que garota em sua frente não devia ser muito mais nova que ela, tinha olhos verdes e cabelos morenos e ondulados que chegavam até o meio das costas e ela usava um vestido preto de alças com estampas de flores e que deixava o pescoço exposto, o que deveria ter facilitado o trabalho do ladrão.
A ruiva queria estar vestindo alguma coisa melhor que suas botas, jeans e regata branca, mas já não havia tempo para isso, a garota se aproximava acompanhada do que parecia ser uma amiga e Eduarda ainda estava tentando deixar os dois pés firmes no chão.
— Nossa, muito obrigada! Você não tem noção de que acabou de salvar minha vida. — a garota se aproximou já colocando a mão de Eduarda, que ainda segurava o cordão, entre as suas duas.
A ruiva notou que a morena de olhos verdes tinha uma voz levemente rouca e, apesar do calor da cidade, ela estava levemente gelada devido ao susto que passou, além de que cheirava a patchouli.
O aroma acentuado do que parecia ser um banho de cheiro e o contato inesperado fizeram a mente de Eduarda voltar a funcionar, mesmo que com um pequeno atraso.
— Sem problemas. Fico feliz em ter ajudado. — A ruiva disse logo após sacudir levemente a cabeça em uma tentativa de voltar a raciocinar.
Ela entregou o cordão para a dona e seus dedos tocaram de leve a palma da mão da garota, que em um movimento repentino, segurou sua mão em um cumprimento.
— Me chamo Lorena, a propósito.
— Eduarda. Prazer.
Foi tudo que a ruiva conseguiu dizer enquanto sentia o toque macio das mãos da garota na sua e admirava o sorriso discreto e levemente sem jeito no canto de sua boca, enquanto sentia que seu olhar se perdia em algum lugar com fundo verde.
O cumprimento certamente estava demorando mais do que o necessário, mas Eduarda não queria que a garota fosse embora, ao mesmo tempo que a morena também não deixava de sorrir ou segurar sua mão, até que a amiga que estava com ela limpou a garganta, quebrando o momento e chamando a atenção das duas.
— Amiga, vamos. A gente ainda tem que visitar a basílica, o guia tá esperando.
— Tá. Já vou — Lorena se virou para falar com a outra garota ainda sem soltar a mão de Eduarda e a ruiva pareceu sair do transe que se encontrava por alguns instantes, mas só até a morena voltar sua atenção para ela e Eduarda ter que segurar a respiração outra vez ao encarar o verde na sua frente. — Tchau, Eduarda. Obrigada novamente.
— Tchau. Disponha. — Foi tudo que a ruiva conseguiu dizer antes de observar a morena se afastar com a amiga que ria de alguma coisa que Eduarda não compreendeu. A sua mão já sentindo a ausência de um peso quase familiar.
— Mas pra uma policial você é meio lenta, né? — Ana disse logo ao seu lado, fazendo Eduarda dar um sobressalto com a chegada repentina da senhora. — Não pegou nem o número da moça.
— Não deu tempo… — A ruiva tentou se explicar, mas notou a expressão nada convencida da idosa. — A senhora viu, aconteceu tudo muito rápido!
— Sei… Para sua sorte a Yara já foi verificar e elas estão num ônibus da mesma agência e a gente tá fazendo o mesmo roteiro turístico, mas em grupos diferentes. Provavelmente estamos indo para o mesmo lugar agora.
Foi só então que Eduarda notou Guilherme conversando com outro homem que vestia o mesmo uniforme perto do ônibus que Lorena e a amiga entraram e uma pequena esperança de que aquela não era a primeira e única vez que ela veria a morena tomou conta da ruiva.
As duas foram em direção ao próprio ônibus e enquanto Ana se acomodava ao lado da amiga, Eduarda perguntava ao guia qual seria o próximo destino.
— Basílica de Nazaré. — Ele respondeu.
Perfeito.
***
A ida do Ver-o-Peso até a igreja mais famosa da cidade não demorou nem 10 minutos. Apesar de ser uma capital, o trânsito da cidade nem se comparava com o de São Paulo.
Durante o trajeto, Guilherme, por sua vez, explicava o porquê da igreja ser tão importante e o seu significado para o Círio de Nazaré; explicava que o evento era como o natal para as pessoas daquele estado e que reunia cerca de dois milhões de pessoas nas ruas da capital durante as suas principais procissões.
Apesar de ser uma festividade inerentemente católica, o círio ia muito além da religião, reunindo pessoas de diferentes crenças. Ateus, agnósticos, protestantes, umbandistas, católicos, não importava, todos iam às ruas prestar suas homenagens à santa por puro respeito, não à instituição igreja em si, mas à figura materna que nossa senhora de nazaré representava para todos daquele estado e que todos aprendiam a amar desde criança.
Era simplesmente o símbolo de que existia uma força, uma energia para além do mundo que se pode tocar; uma fonte de carinho e afeto que se põe à disposição de qualquer um, independente do que a pessoa acredita e, principalmente, se a pessoa não acredita em nada. Não importava, ela ia estar ali se precisar. Como uma segunda mãe.
Eduarda nunca foi muito religiosa, mas era difícil não admirar a beleza da edificação.
Uma pintura feita à mão no topo da entrada do lado de fora, acompanhada de vitrais ao lado, saudavam os visitantes e ao entrar, a ruiva pode ver a riqueza dos detalhes das esculturas banhadas com tinta ouro, além de mais pinturas e o altar belíssimo onde uma santa, tão pequena diante da imensidão do lugar, ficava.
A chuva caiu assim que Eduarda botou os pés dentro da igreja. Torrencial e forte, do tipo que inundaria uma rua com facilidade, seguida de ventos fortes que pareciam querer arrancar as árvores de mangueira ao redor do quarteirão. Contudo, nenhum dos dois guias pareciam estar apreensivos, apesar da cortina de água cair pesada sobre o asfalto, eles simplesmente continuavam explicando para os dois grupos tudo que sabiam sobre o lugar, mas a ruiva mal prestava atenção no que eles diziam, seus olhos focados o tempo todo na morena de olhos verdes que caminhava à sua frente e tirava fotos com o celular.
Depois de um tempo, os guias anunciaram o fim do passeio e liberaram todos para andarem livremente pela igreja até a chuva passar e eles poderem voltar para os ônibus. Eduarda notou Lorena se afastando para a entrada principal do prédio sozinha, já que Ana e Yara conversavam animadamente com a amiga da morena de um modo que a ruiva tinha quase certeza que era proposital.
A ruiva então respirou fundo e colocou no rosto seu sorriso mais simpático possível, seguindo o caminho para a entrada da basílica por entre os bancos de madeira, segurando sua câmera nas mãos para conter o nervosismo.
— Acho que pelo menos aqui ninguém vai tentar tirar o seu cordão. — Eduarda fala ao se aproximar de Lorena, que observava distraída a chuva cair enquanto segurava o que parecia ser um caderno de anotações.
A garota sorriu ao notar quem havia lhe retirado dos seus pensamentos.
— Eu espero que não. — a morena então abriu um sorriso ainda maior, semicerrando os olhos. — Mas se tentarem, pelo menos você vai tá aqui pra me ajudar.
Eduarda estendeu a mão, seu sorriso agora não era apenas de simpatia, mas de diversão genuína.
— Investigadora Eduarda Fragoso, ao seu dispor.
A partir daí a ruiva descobriu que Lorena também morava em São Paulo e estava de férias com a amiga e os pais que eram galeristas; que ela fazia faculdade de letras mas havia trancado o curso no semestre anterior; e principalmente que a morena aparentemente iria para o mesmo passeio no dia seguinte, até a ilha de Mosqueiro.
— Mas e seu trabalho de policial? Deve ser bem pesado, né?
A ruiva balançou a cabeça ponderando.
— Não é jardim de infância, mas eu gosto. Me sinto útil.
— Você não deve nem ter tempo de namorar… — Lorena presumiu e a ruiva soltou um meio sorriso porque era meio verdade, apesar da culpa não ser inteiramente do trabalho.
— Às vezes eu me arranjo com uma menina ou outra… Mas nada sério por enquanto.
Eduarda observou enquanto Lorena desviava o olhar para seu caderninho e escrevia alguma coisa nele, assentindo com a cabeça e sorrindo de leve, como se tivesse acabado de entender alguma piada interna.
— Você não é mulher de meias palavras, né?— Lorena perguntou, um brilho quase desafiador nos seus olhos verdes.
— Eu não tava dando em cima de você, não. Desculpa se foi o que pareceu.— A ruiva balançou a cabeça, levemente sem graça, já se desculpando. Mas a morena não pareceu nada incomodada.
— Tudo bem, tudo bem… E se fosse também, tudo ótimo.
Eduarda podia jurar que os olhos da garota demandavam que ela tomasse logo uma atitude, então ela tomou.
— Então posso pegar seu número?
— Pode. — Foi tudo que Lorena disse antes de arrancar uma folha de papel e entregar nas mãos da ruiva. — Até amanhã.
Eduarda viu a garota se afastar em direção a amiga que lhe esperava já no último degrau da escadaria, sem sequer olhar para trás, e ao conferir o papel em suas mãos constatou que era, de fato, um número de telefone.
A essa altura, a chuva já havia passado e só restavam algumas gotículas que ainda caiam do alto das árvores. Já eram quase 18h e o som de uma revoada de pássaros tomava conta do lugar junto com as cores rosa e laranja do pôr-do-sol e Eduarda seguiu em direção ao seu ônibus, mas não sem antes registrar a paisagem que lhe faria lembrar de um sorriso específico e olhos verdes.
***
No dia seguinte, Eduarda saiu cedo, antes mesmo de seu pai acordar, para encontrar Guilherme e o restante do grupo. O dia mal havia amanhecido, mas eles precisavam pegar a estrada cedo para evitar congestionamento e se tudo desse certo, estariam na ilha de Mosqueiro em duas horas.
A ruiva se acomodou no banco do ônibus e ficou olhando o celular. Não havia mandado nenhuma mensagem para Lorena na noite anterior por não querer parecer desesperada e também por não saber muito o que dizer.
Depois de jantar com Henrique, foi direto tentar dormir porque precisaria acordar cedo na manhã seguinte. Agora encarava a tela do aparelho telefônico e sem pensar muito mandou uma mensagem.
“Bom dia! Animada para conhecer a praia?”
“É Eduarda, a propósito”
Eduarda não esperava uma resposta imediata, então guardou o telefone na bolsa e se acomodou na poltrona para tentar tirar pelo menos um cochilo antes de chegarem.
Antes de o ônibus partir, seu celular apitou indicando uma notificação.
“Para conhecer a praia sim, agora acordar cedo… nem tanto”
“Mas acho que a companhia vai valer a pena”
Eduarda não respondeu. Não precisava. Apenas fechou os olhos já com um sorriso estampado no rosto.
Duas horas de viagem depois, Eduarda estava desembarcando na praia do paraíso, em frente a um hotel fazenda que levava o mesmo nome. Uma rua estreita dividia os restaurantes à beira da praia de um lado e as casas e pousadas do outro. Lá em baixo, depois de uma descida de um barranco de quase cinco metros de altura, estava a praia, com sua água agitada e que formava ondas um tanto grandes demais para um rio.
Várias crianças e adultos brincavam nas ondas, mesmo elas sendo altas o suficiente para encobri-los. Ninguém parecia preocupado com o fato de não enxergar o fundo ou com as folhas e troncos que às vezes ficavam pela água, muito menos com os pequenos cardumes de peixes que apareciam na beira e divertiam as pessoas que saiam correndo atrás deles. Era como se a natureza em toda sua forma soubesse conviver com as pessoas e as pessoas com ela, sem que nada precisasse ser retirado para acomodar ninguém.
Todos ficaram no restaurante do hotel fazenda e Yara e Ana fizeram questão de sentar em uma mesa grande o suficiente para acomodar seis pessoas, convidando Maggye e Lorena para sentarem junto com elas e Eduarda.
O restaurante era amplo e bem ventilado devido ao vento vindo da praia. Bem no meio dele, no entanto, havia uma escadaria que descia para a areia onde as pessoas iam e vinham de maneira constante. Também havia um cantor tocando música ao vivo, ele se intitulava O Legendário do Brega, mas tocava qualquer coisa para animar os clientes do lugar.
Ainda era cedo, por volta das 9 da manhã e o grupo já se arrumava para ir para a água, tomar sol ou simplesmente andar pela areia. Antes que a primeira pessoa fosse até a água, Guilherme alertou.
— Talvez passe alguma planta no pé de vocês, ou algum peixe chegue perto, mas não precisa ter medo… E tomem cuidado com algumas pedras na parte mais funda.
Eduarda foi até a beira da praia acompanhando Yara e Ana que entravam na água com cautela. As ondas quebravam forte e a ruiva se prontificou a ficar próxima às senhoras só por segurança enquanto elas se divertiam. De vez em quando, ela olhava de volta para a areia e encontrava Lorena já a observando, a morena havia ficado com Maggye e optado por apenas pegar sol, sem coragem de enfrentar as folhas na água e a água turva.
Eduarda sorria e Lorena sorria de volta, e elas ficaram assim durante a manhã toda.
Chegando próximo ao almoço, todas decidiram experimentar os pratos típicos de peixe assado do lugar e enquanto Ana e Yara brigavam para dividir uma sobremesa de sorvete de açaí com sorvete de tapioca, o DJ começava a tocar a sua especialidade, o brega, e vários pares de pessoas começaram a se amontoar na frente do pequeno palco para dançar.
Eduarda observou os casais por alguns minutos, até mesmo Guilherme já havia formado par com uma pessoa do grupo e estava ensinando a mulher a dançar no ritmo da música, com o corpo colado, o leve balanço dos quadris e alguns giros que pareciam um pouco complexos para um iniciante, mas que ele sabia executar com maestria.
— Quer dançar? — Eduarda perguntou, olhando para Lorena que sentava logo a sua frente e com quem não havia conversado nada mais que pequenas cordialidades durante o almoço.
— Acho que a Maggye seria uma parceira melhor, eu tenho dois pés esquerdos.— Lorena tentou se desvencilhar, mas a amiga já insistia para que ela fosse com Eduarda antes mesmo que a ruiva pudesse falar outra coisa.
As duas ficaram frente a frente, bem na beira do grupo de casais que já dançavam animadamente. A morena estava claramente encabulada, seu rosto com um leve tom rosado, enquanto suas mãos colocavam os cabelos atrás da orelha de forma repetitiva.
— Não se preocupa, também é a primeira vez que eu vou dançar isso. — Eduarda tentou tranquilizar a outra garota, ainda observando com atenção os passos da dança, mas já acomodando a mão esquerda na cintura dela enquanto a direita segurava a de Lorena a altura dos ombros.
Depois de observar mais um pouco, elas começaram a se mover no ritmo da música, com Lorena ainda tropeçando uma vez ou outra nos seus pés e pedindo desculpas. Eduarda apenas sorria, se divertindo genuinamente, e dizia que tava tudo bem. Algumas tentativas depois, as duas já estavam dançando quase como os outros casais e Eduarda até ensaiou um giro ou outro mas que pegou Lorena de surpresa e acabou não dando muito certo.
— Você leva jeito pra isso. — Lorena afirmou agora que a música havia mudado e não era tão agitada.
— Eu gosto de dançar. Posso te mostrar alguns lugares legais quando voltar pra São Paulo.
A morena encarou Eduarda, seu olhar desviando para a boca da ruiva por exatos três segundos, tempo o suficiente para não restar dúvidas de sua intenção.
— E isso seria um encontro?
Eduarda sorriu.
— Só se você quiser.
— Então tá marcado, detetive.
As duas continuaram dançando por mais alguns minutos e antes de irem embora, Lorena propôs que elas fossem caminhar na areia para Eduarda tirar algumas fotos com sua câmera.
Enquanto caminhavam lado a lado, Eduarda tirava algumas fotos de Yara e Ana que andavam mais a frente com Maggye, assim como algumas da paisagem no final da tarde e outras de Lorena. Mas a ruiva já estava um pouco desanimada por ter que voltar para São Paulo naquela noite ainda.
— Espero que essa cara não seja por causa da companhia.— Lorena falou já mudando o ânimo de Eduarda quase imediatamente.
— Jamais. É só que eu não queria ir embora ainda. Queria aproveitar mais um pouco com vocês.
Lorena assentiu, levando o indicador ao queixo e semicerrando os olhos como se estivesse pensando em algo importante.
— Eu sei que fazer um tour pela cidade ao lado de duas senhoras que têm mais disposição que nós duas juntas deve ser incrível… — a morena começou já arrancando uma risada de Eduarda — Mas eu volto pra casa em uma semana e aí você me leva naquele encontro que tinha prometido.
As cinco estavam quase no final da praia, uma área cheia de pedras e lamacenta dentro d'água onde ninguém se aventurava entrar para tomar banho, e por isso mesmo isolada. Mas Lorena e Eduarda haviam ficado um pouco pra trás, enquanto as outras mulheres continuavam caminhando, agora levemente escondidas embaixo das árvores que cresciam na beira do barranco e se projetavam para frente até quase tocar na areia.
Por essa razão Eduarda presumiu que Lorena estivesse confortável o suficiente para encurtar o espaço entre elas, ficando parada na sua frente quase tão perto quanto quando elas estavam dançando; confortável o suficiente para tirar alguns fios ruivos, que o vento insistia em soprar para cima dos olhos de Eduarda, e acomodá-los atrás de sua orelha; confortável o suficiente para continuar encarando a ruiva no fundo dos olhos mesmo depois de o silêncio ter se instaurado entre elas.
— E o que eu vou fazer até lá?— Eduarda perguntou baixinho. Afinal, uma semana era muito tempo.
Lorena não respondeu com palavras, apenas aproximou seu rosto do de Eduarda, parando por um segundo só para olhar nos seus olhos novamente antes de tocar seus lábios no da ruiva.
Foi um beijo simples, mas cheio de promessas que fez Eduarda permanecer um tempo de olhos fechados e suspirar mesmo depois de acabar.
— Pra você esperar até eu voltar.
Eduarda abriu um sorriso enorme, daqueles que com certeza ia de orelha a orelha e acompanhou com os olhos enquanto Lorena caminhava contra a luz e em direção a amiga que já voltava com várias mangas na mão. Yara e Ana vinham logo atrás, também cheias de fruto. A ruiva aproveitou para tirar mais uma foto, já tendo a sensação que poderia preencher um álbum inteiro só com fotos da morena de olhos verdes mais linda que já havia visto na vida.
