Chapter Text
Danny odiava o Fenton Encolhedor. E não apenas pelo que o aparelho fazia com ele, mas porque a coisa toda simplesmente não fazia sentido. Ele sabia que era um tanto hipócrita pensar assim, considerando que ele mesmo estava vivo e morto ao mesmo tempo e violava rotineiramente todas as leis da física conhecidas. Mas, levando em conta a física fantasma, Danny não era impossível ou incompreensível. Ele era apenas estranho, tipo aquelas pessoas que aparecem em séries médicas na TV.
Já o Fenton Encolhedor... Bom...
Danny conseguia entender a engenhoca funcionando em fantasmas; ou seja, encolhendo-os. Com o tempo, ele mesmo já tinha feito muita coisa esquisita com seu próprio corpo. A cauda, a capacidade de se dividir ao meio, a duplicação... a lista era longa. Ele conhecia fantasmas que podiam mudar radicalmente de forma, de tamanho ou ambos. Sendo assim, ele conseguia compreender a lógica de algo que comprimisse um fantasma, forçando seu ectoplasma a se juntar — que era o que o nome original parecia sugerir —, ou algo que de alguma forma arrancasse o ectoplasma, obrigando a criatura a assumir um tamanho mais fácil de lidar.
Na verdade, com base no outro efeito da arma — a anulação dos poderes fantasmas —, Danny teria apostado na segunda opção. Ele conseguia imaginar perfeitamente seu pai partindo do primeiro conceito, percebendo que algo assim não tornaria um fantasma menos perigoso (já que continuaria com a mesma quantidade de ectoplasma e, portanto, de ectoenergia) e, então, mudando de abordagem. Se fosse esse o caso, Danny não estaria tão chateado por ter sido encolhido. Afinal, a máquina não afetava sua mente nem, até onde ele podia notar, o seu cerne (cernes eram mais difíceis de afetar do que outros objetos fantasmagóricos por uma série de razões), e o ectoplasma era psicoativo. Eventualmente, ele conseguiria absorver ectoplasma e ectoenergia suficientes para voltar ao tamanho normal.
O problema era que a máquina não funcionava apenas em fantasmas. Dash também havia sido encolhido uma vez, e testes que Danny fizera depois mostraram que o raio podia encolher qualquer coisa. Isso não fazia o menor sentido. Se a hipótese da “compressão” estivesse correta, Dash não teria conseguido respirar, entre outras coisas. Os alvéolos de seus pulmões estariam no tamanho errado em comparação com as moléculas do ar. Se a hipótese da "extração de matéria" estivesse correta, bem... não deveria ter funcionado em Dash, já que ele não tinha nem de longe ectoplasma suficiente no sistema. Ou, se o Encolhedor simplesmente desintegrasse qualquer material que atingisse, deveria ter vaporizado o garoto. E ainda havia o Skulker e sua armadura. A armadura do Skulker era feita parcialmente de ectoplasma e funcionava à base de ectoenergia. Ela deveria ter perdido energia também.
A forma como o raio o afetava — continuando a drená-lo muito tempo depois de ter sido atingido e forçando-o lentamente a sair de sua forma fantasma — também era contraintuitiva, especialmente se considerasse que não parecia afetar o Skulker do mesmo jeito. Logicamente, Danny deveria recuperar a força com o tempo. A menos, é claro, que sua forma de meio-fantasma estivesse gastando energia para manter sua metade humana viva apesar da compressão... Mas, como Dash tinha ficado perfeitamente bem, aquilo não fazia sentido.
Na verdade, a única maneira de o Encolhedor funcionar seria se ele causasse efeitos totalmente diferentes em fantasmas, humanos e meios-fantasmas, e ainda tivesse um efeito distinto em objetos inanimados. Tudo ao mesmo tempo. Com o mesmo raio.
Sem falar no fato de que o aparelho também podia reverter o próprio efeito. Fosse lá qual fosse.
Claro, nenhum desses pensamentos estava ajudando Danny a alcançar o Fenton Encolhedor e voltar ao seu tamanho normal. Ou sequer a encontrá-lo. Parecia que, por um milagre, Jack Fenton tinha guardado uma arma na qual estava mexendo. Ou ele, ou Maddie. Ou — e Danny estava evitando ao máximo pensar nisso —, o pai a levara consigo para o laboratório.
Danny ergueu os olhos para o balcão da cozinha. Não conseguia ver o que havia lá em cima, naturalmente, mas era sua última tentativa. Jazz tinha uma regra rígida sobre armas de ectoplasma e outras invenções naquele cômodo, então ele não tinha pensado em procurar ali no começo. Porém, a irmã estava viajando para visitar algumas faculdades, e ele já tinha vasculhado a sala de estar, a sala de jantar e o saguão de entrada. Àquela altura, estava cansado demais para encarar as escadas.
Era, de fato, uma injustiça monstruosa. Depois de ser encolhido junto com Dash da primeira vez, Danny tinha deixado sua forma humana em ótima condição física e a mantido assim. Conseguia até lutar corpo a corpo com alguns dos fantasmas mais fracos sem precisar se transformar. Mas ele passara as últimas horas primeiro tentando voltar para casa, atravessando o beco, passando pela cerca, cruzando o quintal, subindo os degraus e passando por baixo da porta; para, em seguida, escalar mesas e outros móveis enquanto procurava pelo Encolhedor e tentava se manter fora de vista — porque, sinceramente, a última coisa que queria era ter que responder a perguntas sobre como tinha sido encolhido. Antes de tudo isso, ele havia passado boa parte da manhã lutando, e tinha alguns ferimentos consideravelmente graves que não estavam cicatrizando em seu ritmo acelerado e normal.
Danny estava exausto, e a drenagem constante que o Encolhedor de alguma forma causava só piorava tudo a cada segundo que ele passava encarando o balcão. Ele fungou, piscando para afastar as lágrimas dos olhos. Sentir pena de si mesmo não iria ajudar. A escalada seria difícil, mas não deveria dar tanto trabalho quanto a mesa de centro. Ele poderia usar o fio de algum eletrodoméstico como corda e evitar a borda protuberante da bancada.
Ele mal havia começado a se mover para colocar seu plano incerto em prática, quando um calafrio percorreu sua espinha e um fino filete de névoa escapou de seus lábios. Danny se escondeu. Ele não alimentava ilusões sobre sua capacidade atual de defender a si mesmo ou aos outros. Ela era simplesmente inexistente. Gritar também não adiantaria de nada. Sua voz estava tão minúscula quanto ele. Ninguém o ouviria. Esconder-se era a melhor — e única — opção.
Ele soluçou, e outra baforada de névoa deixou sua boca. Aquele fantasma, fosse quem fosse, era poderoso. Danny torceu para que não fosse Vlad. Ele esperou, apurando os ouvidos. Mas, enquanto o fazia, rapidamente se convenceu de que aquela presença lhe era familiar. De um jeito bom. Um amigo, não um inimigo. Danny ainda não tinha descoberto muito bem como identificar assinaturas ectoplasmáticas individuais, mas aquela parecia... reconfortante. Segura. Então, ele ouviu. Um som de tique-taque.
Lenta e cautelosamente, Danny emergiu de seu esconderijo debaixo da máquina de lavar louça. Clockwork estava sentado no chão da cozinha, a cauda fantasmagórica enrolada ao redor do corpo, o cajado repousando sobre os anéis formados por ela, relógios nos pulsos e o relógio de pêndulo com frente de vidro fazendo seu tique-taque rítmico no peito.
— Olá, Daniel — disse Clockwork, em tom suave.
Danny deu um pulo e recuou. Ele gostava de Clockwork, confiava nele, mas a diferença de tamanho era intimidadora, e a voz do fantasma soava mais alta e mais grave do que deveria. (Danny suspeitava que isso se devia ao fato de seus tímpanos estarem muito menores agora, mas não estava no clima para refletir sobre biologia no momento.)
— Clockwork? — chamou Danny, o coração martelando no peito. (Como será que a minha voz está soando para ele?)
— Sim — respondeu Clockwork, a voz ainda mais branda. O fantasma abriu um sorriso gentil. — Vamos cuidar de você agora, está bem?
Ele pousou uma das mãos enluvadas no chão, com a palma voltada para cima.
Danny emitiu um som que poderia muito bem ser interpretado como o alívio que se segue a uma imensa dose de estresse, e correu, escalando para dentro da mão de Clockwork. Ele se sentiu melhor imediatamente. Danny deduziu que estava absorvendo o excesso de ectoplasma e ectoenergia que Clockwork emanava de sua assinatura ectoplasmática. Era gentileza da parte dele facilitar tanto as coisas, deixando que Danny as sugasse com tamanha liberdade. Então, enquanto Clockwork flutuava para o alto, o garoto sentiu um aumento súbito e agudo na quantidade que estava absorvendo, e ergueu os olhos para o fantasma, surpreso.
Sem saber exatamente o porquê, Danny começou a tremer, e então caiu no choro.
— O-Obrigado — ele disse, soluçando, enquanto Clockwork pairava lentamente em direção à porta do porão. — Me d-desculpe.
— Está tudo bem — murmurou Clockwork, baixo o suficiente para não machucar os ouvidos de Danny. — Está tudo bem, Daniel. — Ele começou a acariciar o garoto gentilmente com um dedo da mão livre. — Você não tem do que se desculpar.
O fantasma mais velho encobriu ambos com invisibilidade e atravessou a porta do porão. Foi quando Danny sentiu aquela mudança sutil na realidade, o aviso silencioso de que Clockwork havia parado o tempo.
Enquanto desciam as escadas flutuando, as lágrimas de Danny começaram a cessar. As palavras tranquilizadoras, a assinatura ectoplasmática, o toque terno e rítmico, e o tique-taque constante dos relógios de Clockwork... tudo servia para acalmá-lo.
Mas o que os aguardava no pé da escada fez a ansiedade de Danny voltar com tudo. Jack havia levado o Encolhedor para o porão, e a máquina estava completamente desmontada. Mas Clockwork podia consertar aquilo, não podia? Ele podia retroceder o tempo, voltar para quando o Encolhedor estava intacto.
Danny olhou para Clockwork, cheio de esperança.
— Você consegue consertar? — ele perguntou.
Normalmente, Clockwork deixava Daniel resolver seus próprios problemas (sem mencionar os problemas de muitas outras pessoas). Isso não acontecia porque ele não queria ajudar. Ele queria. No fundo, desejava pouco além de levar Daniel para longe de tudo, envolvê-lo em segurança e afeto, e dar-lhe tudo de bom que existia nos mundos. Clockwork lamentava profundamente que fazer isso estivesse fora de seu alcance; não apenas por causa dos Observantes, mas porque o próprio Daniel não toleraria esse tipo de superproteção por muito tempo, e porque Daniel, o universo em geral e a linha do tempo estariam em melhor situação se as coisas seguissem seu curso natural.
Mas isso não significava que Clockwork ficasse feliz com a situação, nem que estivesse disposto a deixar Daniel sofrer desnecessariamente. E aquele cenário em particular era um exemplo perfeito. Forçar Daniel a trilhar essa provação até o fim não ajudaria ninguém. Sim, eventualmente, o garoto descobriria que precisava aumentar radicalmente sua ingestão de ectoplasma e ectoenergia para sobreviver, e a FentonWorks possuía várias fontes de ambos. Mas isso levaria tempo, a quantidade que ele teria que consumir seria angustiante, e o comportamento que seus instintos mistos o forçariam a adotar para evitar a inanição seria assustador e confuso. E, depois de tudo isso, ele ainda teria que aguentar firme até que seu pai consertasse o Fenton Encolhedor.
Não. Não havia razão alguma para deixar Daniel sofrer daquela forma. Portanto, cuidadoso como sempre para evitar a atenção dos Observantes, Clockwork se dirigiu à FentonWorks. Ele teria preferido chegar antes, mas uma série de fatores — os Observantes, a movimentação dos pais de Daniel pela casa, os transeuntes lá fora e um paradoxo particularmente teimoso — limitaram sua margem de ação, fazendo daquele o momento mais cedo em que poderia surgir na residência dos Fenton. Normalmente, para fazer contato com Daniel, Clockwork simplesmente pararia o tempo e colocaria um medalhão no pescoço dele. No entanto, o mestre do tempo não possuía um medalhão pequeno o bastante, e não queria assustar o garoto surgindo do nada. A pobre criança já estava estressada o suficiente.
Sendo assim, Clockwork esperou por uma brecha, um instante em que tanto Jack quanto Madeline estivessem longe da cozinha, e então se tornou plenamente visível, adotando a postura menos intimidadora que conseguiu encontrar.
Quando Daniel finalmente deu as caras, Clockwork sabia racionalmente que havia esperado apenas alguns minutos, mas, por ironia, a sensação era de que tinha levado muito mais tempo. Eras, talvez. Mais uma vez, o instinto de Clockwork era simplesmente pegá-lo, segurá-lo e abraçá-lo, mas não queria espantá-lo. Precisava deixar que Daniel fizesse a escolha de ir até ele ou não. Precisava permitir que o garoto estivesse no controle de, pelo menos, aquela minúscula fração de sua própria vida.
Ficou imensamente satisfeito quando Daniel foi até ele após apenas um breve momento de hesitação e medo. Sim, aquele era o resultado mais provável, mas havia um punhado de futuros muito menos satisfatórios.
De imediato, Clockwork começou a tomar medidas para garantir que Daniel tivesse energia e sustento suficientes. Era um ato simples, algo que qualquer pai fantasma fazia com frequência. Não era, contudo, algo que Daniel estivesse acostumado a vivenciar, o que acabou sobrecarregando o garoto emocionalmente. Clockwork o confortou o melhor que pôde, preocupado com qual seria a reação dele diante da cena que os aguardava no andar de baixo.
Daniel levou apenas um segundo para entender a bagunça confusa de peças espalhadas sobre a mesa. Então, ele se virou e piscou para Clockwork, os olhos brilhando com esperança e lágrimas recém-derramadas.
— Você consegue consertar? — ele perguntou.
Clockwork deu um sorriso triste.
— Não tão rápido quanto o seu pai, temo dizer. Tampouco posso voltar o tempo para antes da máquina quebrar. Veja bem, a arma quebrou no momento em que foi disparada contra você. Se eu o levasse de volta para antes desse ponto, ou trouxesse aquela versão intacta para o aqui e o agora, criaria um paradoxo que envolveria muito mais do que apenas a mim mesmo.
Ele também poderia criar uma cópia temporal do Fenton Encolhedor — e essa era uma habilidade que pretendia ensinar a Daniel futuramente, nem que fosse apenas por sua utilidade curativa —, mas, se o fizesse, passariam a existir duas máquinas daquelas. Uma já era ruim o bastante. Os componentes que Jack usara para criar o artefato eram únicos, impossíveis de serem replicados de outra forma e difíceis de destruir. Clockwork não seria responsável por agravar esse problema.
— E isso é contra as regras — deduziu Daniel.
— Infelizmente sim — confirmou Clockwork, em tom de desculpas.
Daniel abriu um sorriso trêmulo.
— Tudo bem — ele disse. — Não é como se pudéssemos fazer alguma coisa sobre isso, certo? Então... Eu só... Espero o papai terminar?
— Sim — respondeu Clockwork. — Mas pensei em ver se você não gostaria de me fazer companhia no Agora Eterno, em vez de ficar esperando aqui.
— Sério? — perguntou Daniel. — T-Tudo bem mesmo? Eu não vou atrapalhar você nem nada?
— De forma alguma — garantiu Clockwork, lançando a Daniel um sorriso afetuoso.
— Tudo bem — disse Daniel. — Se você tem certeza de que não tem problema.
O sorriso de Clockwork se alargou. Com um movimento do cajado, ele abriu um portal para o Agora Eterno e o atravessou.
Daniel piscou, observando o cenário ao redor.
— Você tem uma cozinha — ele comentou, soando genuinamente surpreso.
— De onde você achou que aqueles biscoitos vinham? — perguntou Clockwork, divertido.
— Sei lá — murmurou Daniel, agarrando-se aos dedos de Clockwork e soltando um bocejo gigantesco.
— Você deve estar exausto — observou o mestre do tempo.
Daniel ergueu os olhos para Clockwork e piscou lentamente.
— Tá bom — foi tudo o que ele disse, antes de pender para o lado, completamente adormecido.
Clockwork congelou, repreendendo a si mesmo por não ter acompanhado melhor os possíveis futuros. Ele não tivera a intenção de causar aquilo. O que ele disse não deveria ter provocado tal reação, de verdade. Daniel devia estar ainda mais cansado do que Clockwork havia percebido. Ou isso, ou ele estava muito mais ansioso para agradar do que um fantasma criança comum. O mestre do tempo suspirou. Apesar de não precisar respirar, Clockwork achava o hábito humano catártico. Ele esperava dar algo para Daniel comer e passar algum tempo conversando com o garoto. Não importava. Daniel precisava descansar.
Clockwork havia preparado uma cama pequena para Daniel (criar algo assim era simples em comparação com a tarefa de miniaturizar um de seus medalhões do tempo). Ele se moveu para buscá-la, segurando o garoto em concha com segurança em suas mãos, notando que ele agora roncava baixinho. Então, Clockwork sentiu sua cicatriz coçar. Ele parou.
A cicatriz era um lembrete físico do juramento que ele havia feito aos Observantes, um juramento que o tornava servo deles e colocava seus poderes à sua disposição. Ela costumava coçar quando eles estavam usando ou manipulando esses poderes, e coçava ainda mais quando bloqueavam sua habilidade de ver os caminhos do tempo.
Provavelmente não era nada. Aquilo não era uma ocorrência incomum. Muitas vezes, eles bloqueavam sua visão apenas para mostrar que podiam. Para mostrar que eram donos dele. Normalmente, Clockwork ignoraria aquilo, a menos que tivessem bloqueado algo que ele estivesse ativamente observando.
Mas Clockwork normalmente não tinha Daniel com ele. Ele foi tomado por um desejo avassalador de proteger aquela criança. A sua criança. Se houvesse a menor chance de os Observantes aparecerem, a pequena cama simplesmente não seria um lugar seguro o suficiente — não depois das coisas que os Observantes já haviam feito, e tentado obrigar ele próprio a fazer, com Daniel no passado.
Então, Clockwork sentiu-se inspirado, surgindo do nada. Considerando como ele geralmente via o mundo, sempre enxergando os futuros em potencial, aquilo era incomum. Um novo conjunto de futuros se desenrolou, ramificando-se a partir do momento daquela ideia. Nenhum deles mostrava a Clockwork que os Observantes o visitariam em um futuro próximo, mas esses futuros poderiam muito bem ser exatamente aqueles que estavam sendo bloqueados.
Clockwork localizou rapidamente a cama — ela ainda fazia parte do plano — e acomodou Daniel nela com cuidado, chegando ao ponto de envolver os braços da criança em um ursinho de pelúcia em miniatura. Em seguida, ele abriu a frente de vidro do relógio incrustado em seu peito. Era estranho fazer aquilo. Clockwork nunca tinha se acostumado totalmente aos relógios fixados em seu corpo, apesar de não se lembrar de um tempo antes de eles existirem. Não importava. Ele pegou a cama minúscula e seu ocupante ainda menor, e os colocou no fundo da cavidade em seu peito, bem longe de olhos curiosos. Então, fechou a porta de vidro.
Tendo feito isso, Clockwork sentiu-se ao mesmo tempo aliviado e curiosamente satisfeito. Daniel estaria seguro agora; nem mesmo os Observantes violariam de forma tão grosseira a privacidade do corpo de Clockwork. Daniel ficaria confortável. Ele teria acesso a toda a energia e ectoplasma de que precisasse no interior do Agora Eterno.
Quente era a palavra errada para descrever como Danny se sentia. Desde o Acidente, e especialmente desde que desenvolvera poderes de gelo, “quente” não era o termo que lhe vinha à mente para descrever contentamento emocional. “Aconchegante” servia. “Confortável” estava ótimo. “Correto” soava um pouco clínico, mas também era um bom descritor. Ele se sentia certo. Sentia-se bem. Sentia-se seguro. Como se estivesse em um grande abraço em família, e seus pais tivessem deixado suas armas fantasmas em outro lugar.
Ele conseguia perceber que estava em uma cama. Não tinha certeza de como havia ido parar lá. Definitivamente não se lembrava de ter ido dormir. Infelizmente, aquilo não era algo muito incomum para Danny.
Ele se sentou devagar, notando que tinha o tamanho certo para a cama. Isso era bom. Ele já era baixo e magro para a sua idade. Ter menos de dois centímetros de altura era algo completamente diferente. Era assustador, desorientador. Embora... ser segurado por Clockwork não tivesse sido tão ruim assim.
Danny continuou sua inspeção embaçada dos arredores. Parecia que ele ainda estava no Agora Eterno. Ele vestia um pijama azul de pezinho com estrelas amarelas. Perguntou-se se suas roupas normais ainda estavam encolhidas, e se o pijama havia sido colocado nele antes ou depois de ele ter voltado a esse tamanho. Com sorte, seus tênis teriam voltado ao normal, caso contrário, ele teria que explicar aos pais como tinha perdido outro par de sapatos. Ele abraçou o urso de pelúcia mais junto ao peito e pendurou o cobertor sobre os ombros como uma capa. (Aquelas eram coisas legais. Ele teria que fazer algo legal para Clockwork. Clockwork era muito bom para ele. Mas o que ele deveria fazer?)
Ele decidiu que era hora de procurar comida.
Levantou-se da cama, ainda enrolado no cobertor, e começou a perambular. Estava procurando por Clockwork ou pela cozinha de Clockwork — de preferência, Clockwork.
Enquanto vagava, Danny começou mais uma vez a considerar distraidamente o seu estado emocional. Não com essas palavras, é claro. Ele estava apenas pensando. Sentindo. Contemplando. Muitas vezes, talvez até normalmente, Danny se sentia no limite. Arisco. Na defensiva. Retraído e exposto, em igual medida. Mesmo quando não deveria se sentir assim, mesmo quando deveria estar seguro e confortável. Mas bem agora, nesse exato momento, ele se sentia... Suave. Calmo. Queria tocar as coisas. Queria ser tocado, ser abraçado.
Ele realmente queria encontrar Clockwork.
Não havia nenhum sinal do fantasma mais velho, no entanto, e Danny não conseguia reconhecer nada. Apesar de que ele não era tão familiarizado assim com o Agora Eterno para começo de conversa. Ele raramente ia ali e, quando ia, dificilmente via muito além dos cômodos logo na entrada principal. Normalmente, seria mais ou menos nessa hora que Danny começaria a ficar ansioso. Estava sozinho em um lugar estranho, longe de Amity Park por um período de tempo desconhecido e estava com fome. Mas a ansiedade não veio. Os sons de tique-taque emanando de todas as direções tinham um efeito quase soporífero sobre ele, e o garoto não se sentia realmente sozinho. O que, novamente, seria motivo de alarme em situações normais, mas ali, parecia apenas reconfortante.
Mas, com o tempo, Danny começou a se cansar de procurar, e a fome estava realmente apertando. Pelo menos a de sua metade humana. Sua metade fantasma estava obtendo energia suficiente do ambiente ao redor para não precisar de fato se alimentar. Ele apenas queria comer; já havia chegado à conclusão, algum tempo atrás, de que sempre se sentia melhor quando alimentava as suas duas metades.
Então, baixinho e com certa hesitação, Danny chamou:
— Clockwork?
— Bom dia, Daniel — veio a resposta imediata. — Dormiu bem?
— Sim — disse Danny, olhando para a esquerda e para a direita em busca de Clockwork. — Obrigado. — Ele olhou para cima. — E obrigado por me fazer voltar ao meu tamanho normal também.
Danny se virou, olhando para trás.
— Como você... — Ele franziu a testa, distraindo-se da própria pergunta diante da ausência visual de Clockwork. — Onde você está?
Fantasmas podiam ficar invisíveis uns para os outros, e faziam isso frequentemente durante lutas, mas exigia mais energia do que "simplesmente" ficar invisível para os humanos e, na verdade, era um tanto mal-educado, caso ele tivesse entendido direito a explicação confusa que recebera na festa da Trégua de Natal. (Ainda não havia muitos fantasmas com quem Danny pudesse simplesmente bater papo, e com frequência ele estava ocupado demais protegendo Amity Park para sair atrás deles só para que lhe explicassem pontos obscuros da etiqueta fantasma. Isso se os próprios tivessem tempo de sobra e soubessem alguma coisa sobre etiqueta para início de conversa. Embora, parando para pensar, Dora provavelmente não se importaria se ele perguntasse, e ela entendia de etiqueta por ser uma princesa e tudo o mais... Talvez ele devesse perguntar.)
— Bem... — começou Clockwork (era impressão de Danny, ou ele soava um pouco sem graça?). — Receio que você ainda não tenha voltado ao seu tamanho normal, Daniel.
— Mas... E a cama?
— Ela está em escala.
— Ah — soltou Danny, um tanto decepcionado, mas tentando não demonstrar. — Mas... onde você está?
— Isso exige uma certa demonstração — respondeu Clockwork.
— Como assim? Você está bem? — perguntou Danny, repentinamente preocupado.
— Estou ótimo, criança — disse Clockwork, soando divertido. — Apenas... olhe para a sua direita.
Danny seguiu a instrução. A certa distância, atrás de engrenagens giratórias e de um pêndulo oscilante, havia o que parecia ser uma parede de vidro transparente. Agora era Danny quem estava achando graça.
— Você me colocou dentro de um relógio? — ele perguntou, caminhando até a parede.
— De certa forma — respondeu Clockwork. — Sim, pode-se dizer que sim.
A parede de vidro se abriu enquanto Danny se esquivava do pêndulo. Ele caminhou até a borda do piso e espiou para fora.
— Eu ainda não vejo... Ah.
Danny encontrou a mão enluvada de Clockwork na porta e seguiu o trajeto visual subindo pelo braço, passando pelo ombro, até chegar ao rosto, concluindo que estava de pé dentro do peito de Clockwork, o que era... esquisito. Danny se pegou ajustando sua visão de mundo mais uma vez. Algum dia, ele seria insurpreensível. Ele franziu a testa. Aquela palavra não existia. Havia uma palavra certa para aquilo. Lembrava o Danny de uvas-passas.
— Acredito que a palavra que você está procurando é "impassível".
— Ah — disse Danny. — É. Obrigado. Mas por que...?
— Eu gosto de manter as pessoas com as quais me importo por perto.
Danny sentiu o rosto corar violentamente.
— Ah — ele disse, com muita inteligência.
Clockwork ergueu a mão, com a palma voltada para cima, até a borda da abertura.
— Nós devíamos arrumar um pouco de comida para você.
Com cautela, Danny pisou na mão dele.
— Obrigado — ele murmurou, torcendo para que o calor abandonasse suas bochechas.
Momentos depois, Danny se viu colocado sobre o balcão da cozinha, ao lado de uma pequena (mas ainda enorme em comparação com ele) tigela de sopa e um biscoito de água e sal. Ele quase tinha se esquecido de que era hora do jantar, não do café da manhã. Eram apenas umas duas ou três da tarde quando Clockwork o havia pegado (literalmente) em casa. Caramba. Ele cutucou um cristal de sal do biscoito e o lambeu.
— Então — ele disse. — Isso faz de você um Relógio-Vovô?
Clockwork sorriu.
— Se você quiser.
