Chapter Text
A primeira vez que Danny encontrou Clockwork, ele estava apavorado. Clockwork era muito, muito mais poderoso do que qualquer fantasma que Danny já havia enfrentado antes, com a possível exceção de Pariah Dark. Além disso, Clockwork não havia mandado apenas um, mas dois fantasmas poderosos do futuro atrás dele. Três, se você contasse o SkulkTech como dois fantasmas.
Eles haviam chamado Danny de maligno. Mais do que isso, eles realmente acreditavam que ele era o mal encarnado. Os fantasmas que Danny enfrentava costumavam odiá-lo, mas nunca o haviam chamado de maligno. Ironicamente, apenas os humanos que ele protegia chegavam a esse ponto.
E então, vieram as imagens naquelas telas... Ele entrou em modo de negação profunda imediatamente. Ele desejou desesperadamente que Sam e Tucker não tivessem ido com ele. Aquilo era perigoso demais para que eles se envolvessem.
A segunda vez que Danny encontrou Clockwork, foi um alívio. Ver o fantasma mais velho ali, seus amigos, sua família e seu professor vivos e a salvos despertou nele uma gratidão tão profunda, tão intensa, que chegava a doer. Clockwork poderia ter dito qualquer coisa para Danny naquele momento, e ele teria acreditado. Poderia ter pedido que fizesse quase qualquer coisa, e ele teria feito.
Se Clockwork tivesse dito que ele ainda se tornaria... aquilo... Danny teria tirado a própria vida ali mesmo. Se Clockwork tivesse lhe dito que, em troca da vida de sua família e de seus amigos, Danny teria que servi-lo para sempre, ele não teria hesitado.
Mas Clockwork não fez isso. Em vez disso, o mestre do tempo havia lhe dado algumas palavras de incentivo e o ajudou novamente, deixando-o de volta em casa antes mesmo que o teste de aptidão começasse.
A terceira vez que Danny encontrou Clockwork, foi de propósito. Ele devia muito a Clockwork. Devia algo gigantesco, uma dívida tão incrivelmente pesada que ele sabia que nunca, jamais seria capaz de pagar, e ele mal sabia qualquer coisa sobre o fantasma mais velho. Sem mencionar que, na última vez em que conversara com Clockwork, ele estava em tanto estado de choque que sequer havia conseguido expressar sua gratidão de forma adequada.
Então ele foi atrás da torre de Clockwork. Foi surpreendentemente fácil de encontrar. Era quase como se algo dentro dele o guiasse em direção ao local. Danny esfregou o peito, desconfortável, lembrando-se de quando havia intangibilizado dolorosamente o medalhão temporal para dentro de si, entre seu coração e o seu cerne. Ele estremeceu, mas balançou a cabeça para afastar a lembrança e seguiu em frente.
As portas da torre do relógio se escancararam assim que Danny pousou na frente delas. Clockwork devia estar esperando por ele... O que não era nenhuma surpresa. Afinal, Clockwork sabia de tudo.
Danny entrou, hesitante, com cautela. A última vez que estivera ali, tinha sido atacado.
— Olá? — ele disse, com a voz apenas alta o suficiente para ser ouvida por cima do tique-taque da torre. — Olá? — ele repetiu um pouco mais alto. — Clockwork?
— Olá, Daniel.
Danny deu um pulo de susto com a voz, erguendo a cabeça de supetão para rastreá-la. Clockwork estava lá, a cerca de dois andares de altura, mexendo em uma das engrenagens. Ele sorriu lá de cima para o garoto e começou a flutuar para baixo.
— O que o traz ao Agora Eterno?
— Eu... hã... — disse Danny, ainda sobressaltado e agora um pouco sem graça. — Agora Eterno?
— Esse é o nome deste lugar. Meu esconderijo. O Agora Eterno.
— Ah. — Danny esfregou a nuca. — Eu queria... queria agradecer. Por ter me ajudado antes e por ter salvado a Sam, a Jazz, o Tucker, os meus pais e o Sr. Lancer. E por me dar uma segunda chance, mesmo que eu continuasse estragando tudo. E... e eu queria dizer que, se houver qualquer coisa que eu possa fazer por você... quer dizer, eu sei que provavelmente não tem nada, mas se tiver, se houver alguma coisa, eu quero ajudar. E-então...
— Daniel.
Danny olhou para cima. Ele se perguntou em que momento exato seus olhos haviam baixado para o chão.
— Certamente manterei a sua oferta em mente. — O sorriso do fantasma do tempo se alargou um pouco, e ele estendeu uma das mãos. — Tome, pegue um biscoito.
Enquanto voava de volta para casa, Danny refletiu que aquele era um dos melhores biscoitos que ele já havia provado.
A quarta vez que Danny encontrou Clockwork, foi uma surpresa. Ele estava fazendo a lição de casa na biblioteca da escola quando, de repente, sentiu um peso em volta do pescoço e todos os sons pararam. Ele olhou para cima, tentando entender o que havia de errado, apenas para ver Clockwork flutuando do outro lado da mesa.
Sua mão subiu lentamente para tocar o medalhão temporal em seu pescoço.
— Hã... — disse Danny. — O que foi?
— Bem — Clockwork falou, com a expressão séria —, acontece que eu preciso da sua ajuda.
Danny colocou a lição de casa de lado. Clockwork tinha a sua atenção total.
— Certo — ele disse. — O que eu posso fazer?
Clockwork sorriu de leve e... bem, ele não se levantou. Para começo de conversa, ele também não estava exatamente sentado. Ele flutuou para trás e acenou com a mão; um ectoplasma azul e acobreado rodopiou, formando um portal. Ele fez um gesto em direção à fenda, claramente indicando para que Danny fosse primeiro.
Danny invocou seus anéis de luz e transformou-se em sua forma fantasma. Ele optou por flutuar dando a volta na mesa, em vez de atravessá-la, e respirou fundo antes de cruzar o portal.
A saída dava na torre de Clockwork... o Agora Eterno. Para ser honesto, Danny não tinha muita certeza do que esperava. Ele olhou ao redor. Aquela era a área da torre com todas as telas de observação e portais. A maioria estava desligada, apenas redemoinhos de verde e estática, mas uma delas, a que ficava exatamente do lado oposto de onde ele havia saído, estava ligada. O garoto flutuou para mais perto, tentando discernir o que estava acontecendo.
Havia uma figura na tela. Parecia com Technus. Parecia muito com Technus, mas ele não tinha a nuvem de detritos tecnológicos flutuantes que sempre acompanhava o fantasma obcecado por tecnologia. E ainda havia a localização. Parecia que Technus estava no meio de uma floresta, uma floresta densa, o que era estranho. Technus não gostava nem de ir ao parque. Ele também não estava realmente fazendo nada. Ele estava apenas... voando.
— O problema — disse Clockwork, assustando Danny mais uma vez — é que o nosso amigo Technus caiu em um portal natural direto para a América do Norte pré-colombiana.
— Pré-colombiana...? — O termo não era totalmente desconhecido para Danny, então ele supôs que, se fosse um aluno melhor, com mais tempo para estudar, saberia o que significava.
— Antes do ano de 1492. Antes de Cristóvão Colombo chegar às Américas.
— Certo. Então...
— Então, não apenas ele tem sido incapaz de satisfazer a sua Obsessão por tecnologia, como as suas outras Obsessões o têm levado a atormentar os nativos. Ele precisa ser trazido de volta para este tempo.
Danny franziu a testa. Aquilo era sério, tanto para o Technus quanto para a linha do tempo. Independentemente do que Technus estivesse aprontando, ele não desejava o destino de uma Obsessão insaciável a ninguém. Mas havia algo o incomodando.
— Não que eu não queira ajudar, mas por que simplesmente não abrir um outro portal na frente dele?
— Ah, essa é a raiz do problema. Eu estou, infelizmente, atado a certas regras. Regras com as quais eu concordei. Você está familiarizado com o Conselho dos Observantes.
Não foi uma pergunta, mas Danny sentiu a necessidade de concordar com a cabeça mesmo assim. Ele só tivera um encontro com eles, um esbarrão aleatório enquanto explorava a Zona Fantasma, mas definitivamente não era uma experiência que ele estivesse ansioso para repetir. Nunca.
— Eu não posso, portanto, interferir diretamente. Por outro lado, posso lhe dizer onde e quando um novo portal levando de volta para esta época será aberto em breve.
— Entendi — disse Danny. — Eu vou conseguir voltar, não é? — ele perguntou, subitamente nervoso.
— Sim — respondeu Clockwork.
