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Normalmente, Danny se saía melhor quando lutava contra Ember. Mas, normalmente, Ember não fazia equipe com Skulker, Johnny e Kitty. E, normalmente, os pais dele não o mantinham acordado a noite inteira testando um “Apito Fantasma”. Ele estava particularmente irritado com essa última parte. Afinal de contas, para que eles sequer precisavam de um apito que só fantasmas podiam ouvir?
Em outras palavras, ele estava exausto e acabado.
Além disso, estava tendo dificuldades até para encontrar Ember. A fantasma roqueira havia descoberto que alto-falantes estrategicamente posicionados podiam ser usados como iscas, e os espalhara generosamente pelo parque. Seu Sentido Fantasma ajudava um pouco, mas as groupies fantasmas de Ember ajudavam a confundir toda a situação. Ele já tinha lutado contra três espíritos usando camisetas com os dizeres “Ember Arrasa!”.
Ele parou, apurando os ouvidos. Conseguia escutar a voz de Ember vindo de vários lugares, mas não tinha certeza de qual deles — se é que algum era realmente ela. Caramba, ela podia muito bem estar a quilômetros de distância fazendo uma transmissão. O que ele estava ouvindo podia ser apenas uma gravação. Ele não sabia, e nenhum dos fantasmas que capturara até o momento tinha sido particularmente prestativo. Tudo o que sabia era que Ember estivera ali, em Amity, mais cedo naquele dia, e ele ainda podia ouvir a música dela. O que já estava começando a dar nos nervos. Ele até podia ter alguma resistência às propriedades de controle mental daquela música, e estava usando seus Fenton Fones, mas ouvir a mesma canção de novo, e de novo, e de novo, e de novo... Não mataria a Ember compor um material novo, mataria?
— Sam — começou ele, com a voz baixa —, estou perto da área de churrasco. Acho que escuto quatro deles, meu Sentido Fantasma apitou agora há pouco. Como estão as coisas por aí?
Eles tinham concordado em fazer atualizações regulares antes de se separarem.
— Ainda estamos perto da entrada. Fãs demais.
— Que saco. Odeio quando meus inimigos aprendem estraté...
Outra fã lunática pulou em cima dele. Danny se abaixou. Aquela estava se esforçando bastante para chegar perto. Ele não estava com a menor paciência para permitir isso, então voou em direção ao céu aberto, afastando-se do chão lotado. Mas o fantasma não o seguiu e... droga, havia humanos lá embaixo! De onde eles tinham saído? Danny mergulhou de volta...
...E foi atacado pelas exatas pessoas que viera salvar. Nossa, como ele odiava controle mental. Ele ficou intangível e atravessou o aperto dos humanos hipnotizados.
Voou para longe dos civis, tirando-os da linha de fogo.
— Ei! — gritou, atraindo a atenção do fantasma enquanto preparava o punho. — Quer um grande sucesso? Vou te dar um!
Ele disparou uma rajada de ectoplasma contra a criatura, jogando-a para trás, e rapidamente a sugou com a garrafa térmica.
Tirou um momento para respirar. Algo parecia errado. Levou a mão à orelha, e depois à outra. Que droga. Seus Fenton Fones tinham caído durante a última confusão. Aquilo não era nada bom. Ele era apenas resistente à música de Ember, não imune, especialmente quando a roqueira estava lá em pessoa e não estava tentando fazê-lo idolatrá-la. Ele deveria recuar por enquanto e pegar outro par. Uma das poucas coisas boas sobre Ember era que ela dificilmente machucaria os próprios fãs de propósito.
Enquanto isso, precisava tomar cuidado. Não queria uma repetição da primeira vez em que a enfrentara.
É claro que, no instante em que Danny pensou nisso, todos os alto-falantes próximos gritaram em volume máximo. O garoto apertou as mãos sobre as orelhas. Seu Sentido Fantasma disparou, dando-lhe tempo apenas suficiente para desviar de uma das rajadas musicais.
Ele disparou algumas rajadas na direção de Ember.
— Fiquei sabendo que a sua nova onda é deixar os ouvintes surdos! — gritou. — Como está indo? O pessoal fica mais tempo para cantar junto?
— Continue falando, seu idiota, logo, logo você vai cantar outra música! — A voz de Ember saiu dos alto-falantes e, caramba, aquele até que tinha sido um bom trocadilho.
— Você devia seguir o próprio conselho! — retrucou o herói. — Quero dizer, nossa, você é a rainha das maravilhas de um sucesso só!
Intimidação e provocações baratas eram uma parte importante de toda briga “amigável” entre fantasmas. O próprio Danny não entendia muito bem o motivo, mas a disposição para participar das trocas de farpas meio que sinalizava que haveria regras básicas a serem seguidas, um certo senso de honra, limites que não seriam cruzados. Aparentemente, era uma coisa de fantasmas, embora, quando as provocações se transformavam em discursos megalomaníacos, todas as apostas fossem canceladas, e essa podia ser uma linha bem tênue.
Ember fechou a cara.
— Que pena para você que este não é o show de calouros — ela dedilhou a guitarra. — Você é pior que o velhote!
Os ouvidos de Danny estavam realmente começando a doer. E “velhote”? Ela estava falando de Vlad? Se ele estivesse por trás daquilo, a mudança repentina de estratégia fazia sentido. Droga.
Aparentemente, Vlad podia ler mentes, porque, no segundo em que Danny se deu conta daquilo, o homem caiu sobre ele vindo de cima, cravando-o no chão. A mão do vilão apertou seu pescoço e, apesar do que o garoto achava ter sido uma recuperação muito boa, ele começou a ser eletrocutado.
Seu corpo sofreu espasmos, como sempre acontecia quando enfrentava grandes quantidades de eletricidade, e ele ficou mole, respirando com dificuldade. No entanto, não era mais tão inexperiente quanto antes, e rapidamente tentou retribuir o favor com seu próprio choque fantasma. Vlad, porém, tinha mais resistência que Danny, e sua resposta foi mais rápida e mais forte. A pele do garoto brilhou enquanto ele perdia a forma heroica.
— Calma, calma, texuguinho — disse Vlad, com um tom presunçoso. — Não se preocupe, eu só preciso que você durma por um...
— Espera aí, velhote — interrompeu Ember. Os ouvidos de Danny começaram a zumbir no silêncio relativo.
— O que foi? — perguntou Vlad, claramente irritado.
— Você disse que eu podia fazer o que quisesse com ele antes de você levá-lo, e eu ouvi dizer que o bebê do pop aqui tem gogó.
— ...O quê? — engasgou Danny.
— Você não pode estar falando sério — disse o homem.
— Mortalmente séria — confirmou Ember, abrindo um sorriso. Ela materializou um microfone e o enfiou na cara de Danny. — Vai em frente. Canta.
Danny só conseguiu soltar um ganido quando a mão de Vlad apertou mais sua garganta.
— A questão é que eu já o peguei — declarou Vlad, com o desdém óbvio na voz —, e eu prefiro dar andamento aos meus planos, se não se importa.
— Eu me importo, na verdade. Qual é, vovô, vai levar, tipo, cinco minutos.
— Eu faço! — Danny conseguiu dizer, com algum esforço.
Vlad lançou-lhe um olhar de nojo, resmungou um “Está bem” entredentes e prendeu o que parecia ser um bracelete metálico de alta tecnologia no pulso do menino.
O garoto encarou o objeto com desagrado.
— Deixe-me adivinhar: isso vai me dar um choque se eu usar meus poderes?
— Algo assim — respondeu Vlad, mantendo uma mão firme ao redor do outro pulso do adolescente.
Danny suspirou pesadamente e pegou o microfone com cuidado das mãos de Ember. O aparelho chiou um pouco quando ele respirou perto. Talvez pudesse fazer um barulho bem alto e assustar Vlad? Não, tanto ele quanto a fantasma estariam esperando por isso. Talvez pudesse induzir o inimigo a uma falsa sensação de segurança, dar um soco na cara dele e fugir correndo? Ou talvez pudesse enrolar tempo suficiente para a ajuda chegar... Embora eles estivessem bem longe da entrada.
Plano atual: enrolar o máximo possível, torcer para a ajuda chegar e, se não chegasse, dar um soco na cara de Vlad e fugir correndo. Bom plano.
Certo. Nova pergunta: o que ele deveria cantar?
— Medo de palco, bebê do pop? — provocou Ember, com um sorriso um pouco mais suave que o normal, embora o tom continuasse zombeteiro. Ela ajustou um dos botões da guitarra e tocou um acorde.
Parte da mente de Danny ficou em branco. Ele levou o microfone aos lábios e começou a cantar a primeira música que lhe veio à cabeça.
E a música era:
— Nana, neném, que a Cuca vem pegar, papai foi na roça, mamãe foi trabalhar...
O que era, sim, meio patético, mas, ei! Provavelmente tinha sido a primeira canção que ele havia aprendido na vida, e pelo menos não era nada realmente constrangedor, como a música tema dos Caça-Fantasmas. Além disso, ele conseguiria prolongar aquela cantiga por um bom tempo.
Mas acabou que não foi preciso, porque tanto Vlad quanto Ember desabaram na metade do quinto verso. Apesar disso, fosse o que fosse que a fantasma roqueira tinha feito com ele, aquilo o obrigava a continuar cantando. Mas Danny era bom em fazer várias coisas ao mesmo tempo. Ele cutucou Vlad algumas vezes e, satisfeito por constatar que o homem estava realmente dormindo, revistou-o em busca da chave do bracelete. Ele o tirou, guardou tanto a chave quanto o objeto no bolso, e assumiu a forma fantasma, ainda cantando. Soltou a garrafa térmica do cinto e sugou os dois inimigos.
Só então parou para pensar no quanto aquilo era estranho, e em como tinha emendado a cantiga de ninar em “Brilha, Brilha, Estrelinha”. Ele realmente, realmente esperava que o feitiço de Ember passasse logo, e que nocautear as pessoas cantando para elas fosse um poder que pudesse ligar e desligar. Afinal de contas, ele gostava de cantar no chuveiro.
Suspirou internamente. Melhor tirar o maior proveito da situação, de qualquer jeito. Podia ir capturar as fãs da roqueira enquanto elas estavam inconscientes. Se é que estavam inconscientes. Ou enquanto ele podia deixá-las inconscientes. Tanto faz.
Para a sorte do herói, Sam, Tucker e Jazz tinham conseguido manter seus Fenton Fones nos ouvidos, então não haviam sido afetados, e encontrar o restante do fã-clube foi muito mais fácil. Por outro lado, por causa da cantoria constante, ele teve que se comunicar com os amigos por mímica. E Jazz não era nada boa em mímica.
Isso foi seguido por uma tentativa de colocar todos os fãs hipnotizados em posições menos constrangedoras ou perigosas (pelo menos três deles tinham ido parar em cima de árvores).
O tempo todo, Danny não conseguia. Parar. De. Cantar. Ele já estava começando a odiar o som da própria voz.
Antes que pudesse chegar totalmente a esse ponto, no entanto, sua voz ficou áspera e rouca, e então sumiu. Ele continuava articulando as palavras das músicas em silêncio.
— Como a gente vai consertar isso? — perguntou Tucker, depois que encontraram um lugar relativamente isolado no parque para se esconderem.
— Como vocês consertaram na última vez? — indagou Jazz.
— Bem — respondeu Sam, corando —, foi meio diferente da última vez.
Danny apontou para Tucker e fez a mímica de colocar algo na própria cabeça.
— Você quer usar os capacetes de lavagem cerebral? A escola ainda tem aquelas coisas?
— Eu acho que você devia tentar do primeiro jeito antes — provocou Tucker, inclinando-se para a frente com um sorriso malicioso. — Digo, é só pelo choque da coisa, não é?
— Qual foi o primeiro jeito? — perguntou Jazz de novo.
— Eu sei que você quer — insistiu Tucker para a garota gótica.
Sam lançou um olhar mortal para ele e, em seguida, praticamente pulou em cima de Danny. O garoto sentiu o coração literalmente parar. Graças a Deus, seus lábios também pararam.
— Ah — compreendeu Jazz.
— E aí — ironizou Tucker —, foi um choque e tanto?
