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Uma Gata molhada de erva

Summary:

Após um roubo bem sucedido, a filha do Gato de Botas estava indo ao encontro do pirata quando sentiu os sintomas do cio chegando. Ela percebeu que os sintomas estavam começando e procurou Harry. Passaram a noite juntos no quarto dele; ela estava no cio, os dois já tinham intimidade suficiente e aconteceu de forma espontânea, sem grandes conversas ou declarações. No dia seguinte, continuaram se provocando como sempre, como se fosse só mais uma noite entre eles, embora, dali em diante, Harry simplesmente passasse a aparecer quando aquela época do mês chegava, e Amara nunca reclamasse da companhia.

Chapter Text

A Ilha dos Perdidos nunca dormia.

Mesmo quando a lua já dominava o céu, os becos continuavam cheios de gente vendendo informações, negociando relíquias roubadas ou tentando convencer algum desavisado de que uma garrafa de água colorida era uma poção mágica.

Amara gostava da noite.

Era quando as sombras trabalhavam a seu favor.

Naquela noite, porém...

Nada parecia jogar ao seu favor.

O serviço tinha sido simples: roubar informações de um cobrador ligado a uma das gangues do porto e entregá-las a outro cliente antes do amanhecer. Trabalho limpo, rápido e muito bem pago.

Como pagamento extra, Nusta, filha da Yzma havia lhe entregado um pequeno frasco.

— Relaxa um pouco depois — dissera com um sorriso suspeito. — Vai fazer bem.

Amara deveria ter desconfiado. Mas quando o assunto era a filha de Izma, "suspeito" era praticamente um sobrenome. Só percebeu que havia alguma coisa errada quando o mundo pareceu leve demais. As luzes dos lampiões ficaram bonitas. Bonitas até demais.

Ela piscou algumas vezes.

— ...Nusta — Levou a mão à testa. — Você trocou os frascos, sua desgraçada...

O cheiro da maresia ficou mais intenso. Depois o da madeira. Depois o das pessoas. Todos os aromas da Ilha pareciam ter ficado absurdamente fortes. Ela respirou fundo. Tentou ignorar. Continuou andando. Só que, alguns minutos depois, outro calor começou a subir pelo corpo. Amara parou no meio do beco. Seu coração acelerou. Ela conhecia aqueles sinais. Conhecia desde pequena.

Mama sempre a ensinara exatamente o que fazer quando aquilo acontecesse.

"Vai para casa."

"Se isola."

"Espera passar."

Ela sempre conseguia. Sempre. Só que nunca tinha acontecido depois de inalar uma quantidade completamente irresponsável de erva-de-gato.

— Não... não agora...

Tentou mudar de direção. Mas seu corpo parecia decidido a seguir outro caminho. Um cheiro familiar atravessou o ar. Rum. Sal. Couro. E aquele perfume irritantemente característico.

Ela fechou os olhos.

— Não.

De todos os lugares... Não.

......

O Jolie Rogger rangia suavemente, num ritmo oscilante, contra o cais mergulhado na noite, o cheiro de alcatrão velho, sal e rum rançoso pairando no ar. Amara vai pelo convés não como uma intrusa, mas como uma sombra determinada, suas botas silenciosas sobre as tábuas gastas. A única luz vinha de uma lanterna trêmula divertida no mastro, pintando o mundo de laranja e um preto profundo.

Ela o encontrou na proa, encostado no parapeito, uma silhueta escura contra o céu. O cheiro dele, maresia, couro e algo singularmente, irritantemente Harry, chegou até ela antes mesmo de sua voz.

— Até que enfim — disse ele arrastando as palavras, sem se virar — Já estava começando a achar que você tinha se perdido. Meu orgulho ficou ferido.

— Seu orgulho é tão resistente quanto o anzol do seu pai, e tão evidente quanto — disse Amara, encostando-se no mastro principal e cruzando os braços. O tecido das mangas esticava contra o músculo definido do seu bíceps. — Onde está?

O pirata finalmente se virou, a lanterna solitária captando o brilho do seu tapa-olho falso e a curva maliciosa do seu sorriso. Ele apresentou uma pequena bolsa de veludo entre o gancho e o indicador, balançando-a como um pêndulo.

—  Esta pequena bugiganga? Bem aqui. Você terá que vir buscá-la, querida. São as regras do jogo.

Era o jogo novo deles. Uma aposta, um roubo, uma perseguição. O que estava no jogo era mais do que dinheiro; era orgulho e o contato fugaz e eletrizante quando um deles finalmente pegava o outro.

— O objetivo do jogo era roubar o Selo do Mar do Sul do cofre do jafar — disse Amara, com uma voz num sussurro suave. Ela se atrasou do mastro e deu um passo lento para a frente. Suas pupilas dilataram-se, absorvendo a penumbra. —  Não para roubá-lo de mim depois que eu já o tive conquistado.

— Semântica — Harry riu, guardando a bolsinha no colete — A aposta final era quem ficaria com ela no final da noite. Meu navio, minhas regras.

Ela tinha sido esperada demais, rápida demais. O cofre fora brincadeira de criança. Os verdadeiros obstáculos fora do novo guarda e sua predileção por dissuasores mágicos. Uma nuvem cintilante de algo doce e herbáceo que reveste o fundo de sua garganta. Ela a ignorou, concentrando-se na fuga, na emoção da vitória. Mas agora, no convés silencioso, ela sente, um calor formigante sob a pele, uma folga desconcertante nas articulações. Seus sentidos, geralmente aguçados e filtrados, estavam à flor da pele e sobrecarregados. A trama do colete de Harry, o ritmo de sua respiração, a mínima mudança de seu peso no convés, tudo clamava por sua atenção.

— Você parece inquieta — comentou o outro, inclinando a cabeça. Seu tom brincalhão tinha um novo tom de observação mais aguçado.

— Parece que estou a tomar o que é meu — corrigiu-se ela, e lançou-se sobre ele.

Seus movimentos ainda eram fluidos, ainda mais rápidos do que os de qualquer humano, eram ágeis onde deveriam ser precisos. Ela não hesitou; foi direto ao colete, com os dedos em forma de garras, num gesto urgente. Harry se esquivou com um instinto pirata, rindo, mas a risada morreu em sua garganta quando a outra mão dela agarrou não a bolsa, mas a gola de sua camisa, puxando-o para perto.

Seus rostos estavam a centímetros de distância. Ela prendeu a respiração. O cheiro dele era repentinamente avassalador, um mapa de território familiar que seu cérebro confuso queria explorar com uma intensidade frustrante.

— Gatinha? —  disse ele, o apelido zombeteiro e flerte dela surgindo no espaço entre eles, toda a teatralidade desaparecendo.

— Dá. Aqui — As palavras saíram tensas. Ela o empurrou contra a grade, pressionando o corpo contra o dele para imobilizá-lo, um movimento direto demais, revelador demais. Os ensinamentos de sua mãe “distância é controle, querida” estavam se dissolvendo no fogo herbal que corria em suas veias.

A mão de Harry se estende rapidamente, não para afastá-la, mas para segurar seu pulso. Seus dedos circularam na pele coberta pela luva gasta, o interesse solicita seu pulso acelerado. Seu sorriso presunçoso havia desaparecido por completo.

— Você está com febre alta — disse ele, em voz baixa. — O que você respirou lá atrás?

— Nada — ela sibilou, tentando puxar o pulso para se soltar. A força dele era como uma algema. — Um pequeno inconveniente. A bolsa, Harry.

— Esquece essa maldita bolsa — Ele usou o pulso dela para virar o braço, examinando sua pele como se pudesse ver a anormalidade percorrendo suas veias. Sua outra mão levantou, não em um gesto agressivo, mas para acariciar o lado do rosto dela, os dedos se enroscando nos cabelos escuros em sua porra. — Olha para mim.

Ela tentou lançar um olhar fulminante. Tentou evocar o veneno, o sarcasmo, a muralha de inteligência brilhante e cortante que mantinha todos a uma distância perfeita e controlável. Mas seus olhos encontraram o dele, um único olhar azul penetrante, e o mundo girou. O medo de que ela vinha se metabolizando em raiva transbordou. Foi um susto visceral, animalesco, não dele, mas dessa perda de controle, dessa transparência aterradora.

Ele viu. Ela sabia que ele tinha visto. O reconhecimento em seu olhar foi como um golpe físico.

— Ah, droga — ele sussurrou, toda a bravata de pirata evaporando no ar salgado. Sua mão acariciou sua têmpora uma vez, um gesto tão perturbadoramente gentil que a fez querer estremecer e se aconchegar nele simultaneamente. — É erva-de-gato. Algum pesadelo concentrado, preparado por algum mágico, não é?

Ela queria mentir. A negação estava na ponta da língua, polida e pronta. Em vez disso, um suspiro trêmulo escapou de seus lábios.

— Está... amplificando tudo— A admissão pareceu uma rendição, teve gosto de fraqueza. Ela odiou isso.

Harry não se vangloriou. Soltou o pulso dela, sua mão deslizando para segurar a dela, a palma calejada e quente.

— Certo. Tudo bem. Você está bem. — Disse isso como se estivesse se convencendo. — Você se lembra dos exercícios da sua mãe? Daquela coisa de concentração?

— Não está funcionando —  disse ela, e a frustração era real, misturada a um pânico ainda mais real. Seu rabo, que ela geralmente mantém propriedade e escondido sob um casaco habilmente cortado, chicoteou sua perna num movimento involuntário e aflito.

Harry também percebeu isso. Seu maxilar se contraiu.

— Certo — repetiu, e a decisão se firmou. Soltou a mão dela apenas para tirar o casaco comprido. — Vamos levá-la para baixo. Agora.

— Não vou descer ao convés inferior no seu barco imundo...

— Amara — A voz dele cortou a dela, não alta, mas absoluta. Era a voz de um imediato, não de um fora da lei. — Você mal consegue ficar parado. Acha que você vai deixar você sair vagando pela noite desse jeito? Se alguém te encontrar nesse estado, você não vai ficar só envergonhado, vai morrer. Ou pior. — Ele jogou o casaco sobre os ombros dela. A lã grossa ainda estava quente por causa dele, impregnada com seu cheiro. Era uma gaiola e um conforto — Vamos.

Ele não esperou por concordância. Simplesmente se virou, mantendo a mão dela firmemente na sua, e a conduziu em direção à escotilha que dava para seus aposentos. Ela, a ladra mestra, a mentirosa brilhante, deixou-se guiar. A parte de seu cérebro que ainda gritava em protesto foi abafada pela parte que se agarrava desesperadamente à âncora de sua mão, à estabilidade de sua direção. Enquanto a guiava pelo corredor escuro, sua promessa, baixa e áspera, ecoou em sua mente.

— Vamos resolver isso. E então, quando você voltar a ser você mesmo, teremos uma longa conversa sobre você roubar gente que empregam alquimistas.

A bolsa com o Selo foi esquecida, um mero objeto insignificante não superior. O que realmente importava havia mudado irrevogavelmente. O que realmente importava havia mudado irrevogavelmente. A escada de caracol para seus aposentos era íntima e estreita. Harry desceu de costas, guiando-a, sua mão firme nunca soltando a dela. O ar abaixo do convés era mais quente, mais parado, cheirava a madeira envelhecida, a corda e ao sabão simples que ele usava para lavar as coisas.

Seus aposentos eram um reflexo caótico do homem: mapas desenhados sobre uma mesa desordenada, uma pequena montanha de livros velhos e cheios de traças de navegação com lombas gastas, uma rede no canto e uma cama. Ele a levou direto para uma poltrona de couro surrada.

— Sente — disse ele, uma voz ainda estranhamente suave.

Amara caiu na cadeira, o casaco pesado de Harry envolveu-a. Ela tremia, mas não de frio. Era um tremor interno, como se cada músculo estivesse sintonizado numa frequência diferente. O formigamento sob sua pele foi transformado numa queima sorda e insistente. Ela fechou os olhos, tentando as técnicas de respiração, tentando encontrar o ponto de frieza interior que sua mãe havia ensinado. Mas a âncora estava desfeita.

— Harry — a palavra saiu como um ronronar solicitado.

Ele estava ajoelhado diante da mesa, acendendo velas com um isqueiro de pederneira. A luz bruxuleante preencheu o espaço, junto com suas sombras nas paredes de madeira.

— Estou aqui. Apenas tentando ver o maldito rosto de quem estou conversando.

Ele se virou, ainda de joelhos, e a olhou. A postura submissa dele deveria ter-la satisfeito. Em vez disso, fez algo estranho e quente se contorcer em seu peito. A luz da vela dançava em seu rosto, suavizando as arestas afiadas de sua presunção.

— É apenas a erva— ela disse, os dedos se contraindo na pele dos braços da cadeira. Suas unhas, um pouco mais afiadas do que o habitual, marcaram o material. — Apenas... amplificando tudo. — Ela sacudiu a cabeça, os dentes cerrados. A verdade era uma mensagem física enviada contra a parte de trás de seus dentes, luta para sair.

O ciúme era uma piada biológica entre sua espécie, uma necessidade física cíclica que ela sempre administrava com distância fria e autocontrole rigorosamente. Um inconveniente a ser superado. O azar cego do universo fez com que ela chegasse hoje, uma dor baixa e crescente que a erva agora atiçava em um incêndio em seu sangue.

— Fale comigo, Amara. — A voz dele era áspera

— Você não pode ajudar... como pensa que pode — ela cuspiu, a raiva voltou em uma onda fraca e útil — É... biológico. Chegou hoje. A erva apenas... multiplica por mil — Ela arfou, uma pontada aguda de necessidade cortando sua respiração ao meio — Está começando a piorar. Preciso... preciso fazer alguma coisa. Eu não posso apenas sentar aqui.

Ela viu o entendimento atingi-lo, seus olhos se ampliando e depois se estreitando. Ele não parecia surpreso, nem repugnado. Parecia... calculista, o que para ela era bem atípico dele.

— Qual é o protocolo normal? — ele disse, sua voz praticamente clínica. — Como você lida com isso?

— Fujo — ela disse, rindo, um som seco e sem humor. — Eu me escondo. Eu suporto — Cada palavra era uma adaga contra sua própria confiança. O tremor se intensificou, e ela se registrou progressivamente no assento, uma contração involuntária dos músculos abdominais.

Harry se levantou. Ele andou até uma pequena gaveta perto da cama, abriu e tirou uma garrafa de vidro âmbar. Pôs um copo na mesa e encha-o com um líquido da cor do mel.

— Aqui. Rum. Vai queimar, mas pode ajudar a baixar a temperatura.

Ela olhou para o copo como se fosse uma armadilha. Mas a dor tardia do pedido é um distúrbio, qualquer distúrbio. Ela pegou o copo e jogou o conteúdo garganta abaixo. O fogo desceu, misturando-se com o fogo já lá. Ela se engasgou, os olhos lacrimejando. Quando sua visão foi limpa, Harry ficou diante dela outra vez, mas sua expressão era indecifrável.

— E você não controla?

— Então, eu meio que viro isso — ela sussurrou, olhando para as chamas das velas. —  Uma fera. Previsível. Fácil de capturar ou matar.

—  Nada em você é fácil — Ele emitiu um som baixo, quase um rosnado.

Uma onda de calor que se agita não foi uma amplificação gradual. Foi uma maré, subindo de repente e engolindo toda a sua racionalidade remanescente. A dor se transformou em um zumbido profundo e insistente, um comando que anulou tudo. O cheiro dele, suado, vivo, encheu suas narinas, seu cérebro. Não era mais apenas Harry, o rival irritante. Era calor e ruptura.

Com um movimento que foi puro instinto, ela se levantou da cadeira. O casaco caiu no chão com um baque pesado. Ela fechou a distância entre eles em dois passos ágeis e silenciosos.

—  Amara— ele começou, um aviso em sua voz.

Ela o calou. Pressionou o corpo contra o dele, suas mãos agarrando seu rosto, e beijando-o. Não foi como seus beijos anteriores, provocações rápidas, roubos de contato no calor da perseguição. Este foi desesperado, profundo, voraz. Era um beijo de fome consumidora que vai até os ossos. Ela saboreou o sabor do rum em sua boca, o sabor único dele por baixo, e um gemido baixo escapou de sua garganta, misturado à dor e ao colapso.

Harry ficou imóvel por uma eternidade de segundo. Então, suas mãos se fecharam em suas quadris, não para puxá-la para mais perto, mas para pará-la. Sua cabeça se moveu, quebrando o beijo. A respiração dele estava acelerada, seus olhos, no espaço estreito entre seus rostos, eram escuros e terrivelmente sérios.

—  Não —   A palavra era suave, mas final como a queda de um machado. Ele manteve a uma distância do braço, seus dedos cravados no tecido fino de sua blusa. —  Não assim. Não quando é a erva falando. Não quando você ta sentindo dor.

A coleta foi um balde de água gelada no rosto. Humilhação, aguda e nauseante. Ela trocou contra sua compreensão, tentando fechar a distância novamente.

—  Por que você se importa de que maneira é? Você me quer. Eu sei que você me quer.

—  Mais do que meu próximo suspiro —   ele admitiu, e a cruz da confissão a fez estremecer. —  Mas não com você assim. Não como algo que você vai acordar e odiar a si mesma pela manhã. —  Seu gancho falso esfregou o osso de seu quadril, um gesto inconsciente e amolecedor que contradizia suas palavras. —  É assim que você me vê? Como alguma coisa a ser feita?

Ela não conseguiu responder. A verdade era muito complexa, emaranhada demais com anos de provocação e negação. Harry soltou um longo suspiro, sua frente encostando nela por um breve instante antes de ele se retirar completamente. Ele correu a mão pelos cabelos encaracolados, um gesto de frustração intensa.

—  Certo. Novas regras. Você fica aqui. Você fica segura. Eu vou... fazer algo. —  Ele olhou para ela, seu rosto era uma máscara de conflito resolvida. —  E se você tentar pular em mim de novo, eu vou amarrar você na cadeira. Entendeu? —  Ele não esperou por uma resposta. Virou-se e cruzou os aposentos, abrindo a porta pesada do alojamento com um rangido.

A noite fria começou por um momento antes que a porta se fechasse atrás dele, deixando-a sozinha, tremenda no centro do covil de seu rival, o gosto dele ainda em seus lábios e o eco de seu "não" vibrando em cada célula de seu corpo. A solidão foi pior. O silêncio amplificado o zumbido em seu sangue. Os aposentos eram pesados, estagnados, e cada partícula parecia impregnada com o cheiro dele, couro, fumaça de corda, suor salgado, o sabão. Era um cheiro que ela conhecia bem, e agora ele atuava como combustível no incêndio interno.

Um tremor violento a sacudiu. Era frio, era calor, era uma agonia de vazio. Ela se afastou da cadeira, suas pernas cedendo, e cambaleou em direção à cama, que era mais um colchão no chão, desordenada no canto. Ela caiu sobre ela, o tecido áspero arranhando sua pele. Seus dedos, trêmulos e com as garras afiadas para fora, enterraram-se nas cobertas emaranhadas. Ela virou uma almofada para o rosto e respirou fundo.

Era inútil. A necessidade era um monstro rosnando dentro de sua caverna.

Com um gemido de frustração, ela se enrolou no colchão, suas mãos vasculhando as cobertas, a borda da rede, qualquer coisa. Ela encontrou o casaco que ele havia jogado sobre ela. Ela o deixou para seu rosto, enterrando o nariz na gola. Melhor. Mas não é suficiente. Suas próprias roupas a sufocavam, um obstáculo irritante entre sua pele superaquecida e qualquer resquício de seu cheiro. A lógica, aquela ferramenta antiga e afiada, havia descartado a tempo. Restava apenas o instinto.

Ela se despe com movimentos bruscos e impacientes. A capa, o chapéu inteligente, a blusa de linho, as calças. Tudo foi jogado no chão da cabine em uma pilha desleixada. Ficou apenas de roupas íntimas mínimas, a pele nua arrepiada no ar, mas queimando por dentro. Ela se envolveu no casaco dele, depois vestiu uma camisa de dormir amarrotada debaixo do travesseiro. Ela se envolveu nas coisas dele, rolando no meio delas, respirando-o, inundando seus sentidos até que sua cabeça girou.

A droga em si, a erva de catnip da Nusta, já havia dissipado seu efeito agudo. Isso era pior. A biologia pura, intensificada a um ponto de tortura precisamente porque ela estava aqui, imersa em seu território, cercada por um cheiro que não era dela. Seu ambiente masculino funcionava como uma mudança, chamando sua própria natureza para a superfície com uma insistência brutal. A cabine agora deve estar carregada com seus feromônios, um perfume doce e picante de aflição.

Ela perdeu a noção do tempo. Pode ter sido uma hora, pode ter sido dez minutos. O sofrimento era um looping, ondas de dor lancinante e calor insuportável que a faziam se contorcer nas cobertas.

A maçaneta rangiu e a porta abriu. Harry entrou, um saco de lona marrom na mão.

—  Consegui alguns biscoitos de viagem, o tipo duro que mandam para a Ilha. Não é um banquete, mas... —  Sua voz morreu. Ele parou no meio do cômodo. O saco caiu de sua mão, batendo no chão com um baque surdo.

Ele a viu

Amara emaranhada no centro de sua cama, envolta em seu casaco e sua camisa. Sua pele parda brilhava com uma fina camada de suor na luz das velas. Seu cabelo ruivo vibrante estava espalhado pelo travesseiro, um emaranhado selvagem. Seus olhos azuis, com pupilas totalmente dilatadas em fendas negras, agarravam-se a ele com uma intensidade quase dolorosa.

O ar era espesso, quente, e carregado com um aroma primitivo e doce que atingiu o fundo de seu cérebro reptiliano. Era o cheiro dela, puro, e era avassalador.

Harry está envolvido. Seu rosto, geralmente tão aberto com expressões exageradas, ficou completamente vazio de tudo, exceto choque cru. Seu olho azul percorreu o comprimento de seu corpo, as curvas expostas de seu quadril, as listras de sua perna, o tremor incontrolável em suas mãos enquanto ela se agarrava ao tecido de seu casaco.

—  Meu Deus —  ele sussurrou, a voz rouca.

Amara se apoiou nos cotovelos, virada de barriga para baixo e amostrando o decote da camisa larga. O sofrimento havia apagado a arte da mentira, da manipulação. Restava apenas a verdade nua e abrasadora.

—  A erva passou. Isto sou eu agora. E você está sendo dramático.

—  Gatinha... —  Ele parecia incapaz de mover os pés, preso no limiar.

—  Eu te quero —  ela disse, as palavras saindo planas e diretas, como uma entrega diante de um pelotão de fuzilamento — Cansada dos joguinhos, das apostas, de roubar coisas uns dos outros em vez de simplesmente tomar o que eu realmente desejo — Ela deslizou para a beirada da cama, os pés descalços encontrando as tábuas frias do chão. O casaco escorregou de um ombro. —  Você deveria se sentir honrado, você sabe. Você foi a primeira escolha. A única. Eu lutei contra isso durante meses, e perdi porque você é um frouxo.

Ela deu um passo em sua direção, e ele recuou outro, suas costas batendo na porta fechada. Um sorriso lento e cansado surge ao tocar seus lábios.

—  Olhe para você. Harry Hook, o imediato da filha da Úrsula, acuado por uma mulher de roupas íntimas. —   Outro passo. O cheiro dela o envolvia, uma névoa inebriante — Eu te conheço. Você adora ser desejado. Você se alimenta disso.

—  Não assim — ele forçou as palavras para fora, mas sua voz estava tensa, o olho fixo nela.

—  Como então? Ela estava um palmo dele agora. Sua cauda, ​​geralmente tão bem controlada e escondida, se estende atrás dela em um arco gracioso e instintivo. A ponta fofa, branca, passou pela linha da mandíbula dele, um toque suave como veloz.

Ele estremeceu violentamente, como se tivesse sido eletrocutado. Um suspiro rouco escapou de seus lábios. 

—  Você é insuportável — ela murmurou, sua voz um pouco mais suave agora, enquanto a cauda segue a curva de sua orelha. —  É arrogante. E o pirata mais irritante que já existe —   A cauda deslizou pela sua nuca, sob a linha desgrenhada de seus cabelos. —  Você é extremamente bom no que faz. Você me mantém alerta. Nunca me deixa ganhar fácil — Ela inclinou a cabeça, suas pupilas dilatadas bebendo cada microexpressão de conflito em seu rosto. — Seu cheiro me deixa louca. Suas mãos... imagino onde elas estariam, e quero que elas estejam em mim.

Cada palavra era uma arapuca se fechando ao seu redor. Cada toque de sua cauda era um fio cortando seu equilíbrio. Ele podia sentir seu calor radiante, ver o coração acelerado na base de sua garganta.

—  Isto não é real — ele protestou, mas o protesto é tão fraco, quebrado.

— É mais real do que qualquer mentira que já trocamos — Ela estendeu a mão, colocou a palma no centro do peito, sobre o coração que martelava contra suas costelas. —  Cala logo a boca, Harry.

Desta vez, quando ela se inclina para beijá-lo, ele não a impede. Seu beijo foi uma rendição. Toda a resistência desabou como um dique apodrecido. Suas mãos, que tinham ficado permanentes ao lado do corpo, subiram e enterraram-se em seu cabelo, puxando-a contra ele com uma fome que espelhava a dela. O gosto dela era fogo e desespero, e ele bebeu dela como um homem morrendo de sede.

Não havia mais jogos. Não havia plateia. Só o rangido do casco, o gotejar distante de uma vela, e o som abafado e ofegante deles.

Ele a levou de volta para a cama, não quebrando o contato em momento algum, apenas a segurou pelas polpa da bunda e foi andando, seus passos um cambalear conjunto. Eles caíram nas cobertas emaranhadas, um emaranhado de membros de pele quente e roupas desnecessárias por parte dele. Suas mãos estavam por toda parte, mapeando a curva de sua coluna, agarrando sua coxa, seus dedos se perdendo na textura sedosa de seu cabelo. Ela arqueou contra ele, um gemido gutural escapando de seus lábios enquanto ele enterrou o rosto na curva de seu pescoço, respirando fundo o perfume intenso de sua pele.

—  Você não tem ideia — ele sussurrou contra sua pele, os dentes roçando suavemente o tendão do seu pescoço. —  Você não tem ideia do quanto eu quis isso.

—  Pare de lutar — ela tentou, suas garras raspando suavemente o tecido de sua camisa, tentando rasgá-lo. — Apenas me tenha.

O mundo se resume aos pontos de contato. O colchão áspero contra suas costas. O peso sólido e desconhecido dele, apoiado nos cotovelos acima dela e como ele ficava lindo descabelado e descompassado. Tinha a preparado bem, uma trilha de beijos de suas orelhas até os seios que tinham marcas de chupões que o fizeram sorrir satisfeito, em como ele prensava-se contra ela sempre que a mesma tentava acelerar as coisas, a cada ronronada com gemido sôfrego querendo mais, os arranhões pelo corpo dele eram prova.

 Encarava o tronco do pirata quando o calor calejado de suas palmas acariciando seu rosto como se ela fosse algo frágil, um paradoxo que a fazia querer rir e chorar.

—  Olhe para mim — murmurou ele, com a voz rouca e sedutora.

Seus olhos semicerrados, ainda arregalados de desejo, fixaram-se nos olhos azuis dele. Não havia mais sorriso irônico, nenhum brilho teatral. Apenas uma operação surpreendente e crua que aprisionava mais completamente do que qualquer armadilha jamais conseguiria.

Ele a beijou novamente, mais devagar desta vez. Um beijo profundo e inquisitivo que parecia menos uma solicitação e mais uma tradução. Como se ele estivesse tentando decifrar uma língua escrita em seus lábios. Ela respondeu com um som suave na garganta, suas mãos deslizando de seus cabelos para seus ombros, sentindo o movimento e a movimentação dos músculos sob sua camisa.

O ato de despir era uma conspiração silenciosa contra a noite. Os botões cediam sob seus dedos ágeis. As cinco deslizaram com a perspicácia dele. O tecido sussurrava na escuridão, acumulando-se no chão com folhas baques. Não havia mais urgência, apenas uma revelação deliberada, quase solene. Quando não havia mais nada entre eles além do ar salgado e da respiração compartilhada, ele parou. Seu olhar percorreu-a, a linha elegante de sua coxa, as sutis sombras em forma de listras na curva de sua cintura, a pulsação rápida na base de sua garganta. Ele não disse nada. Apenas olhou, e foi visto tão completamente, era mais íntimo do que qualquer toque.

Ele se abaixou, sua pele roçando a dela. Ela se arqueou ao contato, um arrepio percorrendo seu corpo, algo que nada tinha a ver com o ar frio. A boca dele encontrou o lugar onde seu ombro se encontrava com seu pescoço, e ele depositou ali um beijo.

—  Ainda está comigo? — Ele sussurrou contra a pele dela.

Ela apenas conseguiu acenar com a cabeça, seus dedos cravando-se nas superfícies escavadas de suas costas. Ele a penetrou com um cuidado lento e carinhoso que a despedaçou. Era gentil, tão terrivelmente gentil. Deixava espaço para o pensamento, para o sentimento, e isso era uma agonia à parte. Sua falha, não de dor, mas de um reconhecimento avassalador. Aquilo não era um arranhão para uma experiência. Era uma chave girando numa fechadura que ela fingia não existir.

Por um longo momento, verdadeiramente imóveis, Harry tinha puxado um pacote de camisinha e posto. A testa dele estava encostada contra a dela, suas respirações se misturavam. Ela podia sentir a batida frenética do coração dele contra o seu.

Então ele se moveu. A delicadeza se estendeu, conteve e então começou a se desfazer. Era a biologia da coisa, uma força profunda e cíclica contra o que ela lutava o dia todo. Subiu nela como uma maré, afogando os últimos resquícios de julgamento. Um ronronar baixo e retumbante começou em seu peito, sem ser convidado, vibrando por ambos. Ele gemeu em resposta, ou som abafado por sua boca.

O ritmo aumentou numa onda feroz e crescente. A cama rangeu num protesto desesperado e rítmico contra os ganchos na viga. As garras dela arranharam a pele dele para se ancorar contra a sensação que a despedaçava. Ele não se moveu. Enterrou o rosto nos cabelos dela, seus próprios movimentos perdendo a precisão cuidadosa, tornando-se uma necessidade crua e avassaladora que correspondia a ela. As palavras se fragmentavam em suspiros. Nomes. Maldições. Súplicas que não eram nem de longe doces. O ar se adensava com o cheiro de suor, mar e algo profundamente, inconfundivelmente deles.

Quando a onda terminou, não houve um estrondo. Ela atingiu o ápice lentamente, de forma maciça, puxando-a para baixo num longo e silencioso desmoronamento. Ela tremeu violentamente, um grito contra o ombro dele. Ele em seguida, o corpo tenso como uma corda de arco antes de desabar sobre ela, seu próprio tremor aliviando a tensão num contraponto caloroso aos tremores dela.

O silêncio voltou a reinar, exigido apenas pela sinfonia irregular de suas respirações e pelo sussurro incessante da água batendo contra o casco. O tempo tornou-se viscoso e indistinto. Ele se moveu primeiro, virando-se de lado e puxando-a consigo, de modo que as costas dela ficam encostadas em seu peito. A cama balançou precariamente, depois se estabilizou. Seu braço parado pesado sobre a cintura dela, a mão espalmada possessivamente sobre sua barriga. Seu nariz estava em seus cabelos.

Ela estava acordada, terrivelmente acordada. Cada terminação nervosa parecia queimada e hipersensível. O ronronar havia diminuído para um tremor fraco e intermitente. A fúria biológica fora aplacada, exorcizada na escuridão úmida de suor. O que restava em seu lugar era uma vasta e silenciosa vulnerabilidade, infinitamente mais perigosa. Ele roçou o nariz na nuca dela.

—  Tudo bem? —  A palavra saiu como um murmúrio sonoro contra a espinha dela.

—  Maravilhosamente. —  Foi uma resposta evasiva, a coisa mais segura que ela conseguiu dizer.

Ele pareceu aceitar. Sua respiração começou a ficar mais profunda e regular, seu corpo ficando mais pesado e maleável contra o dela. A confiança na entrega era como uma facada em suas costelas.

Amara fitava a escuridão, sem saber quanto tempo passou, um raio de luar perdido cortando uma bússola empoeirada sobre a mesa dele. O que se seguiu foi uma armadilha. A bolsa do Selo ainda brilhava sobre a mesa, um farol de ironia.  A insatisfação dentro dela latejou em sintonia com o ritmo de sua respiração. Ela se virou na cama, seus movimentos fluidos e intencionais. Desta vez não havia urgência desesperada, apenas uma necessidade focada. Ela se ajoelhou na cama, seu peso fazendo-a balançar suavemente. Ele não acordou.

Sua mão, dedos levemente curvados e sem garras agora, tocou seu peito, apenas uma pincelada sobre os pelos encaracolados lá. Pata mansa. Ele respirou fundo, mas não acordou. Suas mãos deslizaram para baixo, sobre os músculos definidos de seu abdômen, sentindo a pele quente e os arranhões que ela havia deixado antes. Ele suspirou no sono.

Então ela o tocou, envolveu-o. Ele estava quente e pesado em sua mão, já semiereto apenas com o sussurro de seu toque no sono. Ela cerrou os dedos, um aperto calculado e paciente. A cauda dela, um tufo escuro e fofo no silêncio, estendeu-se e passou pela perna dele, do joelho até a coxa, uma sensação como pluma.

Um arrepio percorreu seu corpo adormecido. Seus músculos abdominais se contraíram. Harry acordou com um suspiro longo e rouco, sua consciência surgindo no meio de uma sensação avassaladora. Seu olho azul único se abriu, escuro na penumbra, encontrando o topo de sua cabeça escura entre suas coxas.

Ela se curvou, e sua boca o substituiu, quente e intencional. O sabor dele, salgado e familiar, encheu seus sentidos. Ela tomou seu tempo, uma exploração lenta e metódica que era menos sobre serviço e mais sobre posse. Sua cauda agora se arrastava por seu torso, a ponta fofa circulando um mamilo, depois deslizando para o pomo de sua garganta.

—  Meu… — A palavra morreu em um gemido quando ela aumentou a pressão, suas mãos se enterrando instantaneamente em seus cabelos. Ele não a puxou para longe. Seus dedos se contraíram, segurando-a no lugar. —  Ah, é assim que é? —  Ela fez um som afirmativo na garganta, uma vibração que o fez arquejar — Insaciável —  ele respirou, maravilhado, sua cabeça recuando contra a almofada. Sua outra agarrou sua cauda onde ela passava por seu peito, seus dedos fechando-se na pelagem macia com uma posse instintiva. Ele guiou o movimento, arrastando a ponta sobre seus lábios. —  Maldita seja, gatinha

O ritmo de Amara mudou, tornando-se mais insistente, mais profundo. Suas mãos soltaram seus cabelos para segurar seus quadris, seus polegares fazendo círculos na pele sensível de seus ossos. Ela podia ouvir sua respiração ficando mais ofegante, sentir o músculo de sua coxa começando a tremer sob sua palma. O ar ficou carregado com o som úmido e ofegante dela, seus próprios gemidos roucos.

Quando a tensão nele se tornou um arco prestes a quebrar, seu corpo ficou rígido. Ele gemeu um aviso, seus dedos se apertando em seus quadris. Ela não recuou. Ele atingiu o clímax com um rugido abafado, seu corpo curvando-se da cama. Ela ficou com ele, bebendo cada gota, até ele desabar, ofegante, de volta ao colchão.

—  Sua gatinha precisava de leite — disse com a voz rouca, a língua passando pelos lábios.

Antes que a respiração dela pudesse se acalmar, antes que o pensamento pudesse retornar, suas mãos, ainda trêmulas, se moveram. Com uma força surpreendente, ele a puxou para cima, ao tronco de seu corpo.

—  Minha vez —  ele raspou, sua voz rouca de sono e satisfação. Ele a manobrou, virando-a, colocando-a de joelhos sobre seu rosto.

—  Harry— A voz dela era um sopro de protesto.

—  Calada — Suas mãos firmes em seus quadris a pararam. — O quarto inteiro cheira a você. A você e a mim juntos. Tenho que provar — Seu olhar subiu para encontrar o dela, e o desejo nele era cru e totalmente acordado. —  Senta.

Ele não a puxou para baixo com força. Apenas a guiou, suas mãos uma pressão constante, até que ela cedeu, afundando sobre sua boca. O primeiro contato foi um choque eletrizante de calor úmido e delícia absoluta. Ele a lambeu com uma devoção lenta e lasciva, bebendo o sabor deles misturados, e um grito foi arrancado dela, suas mãos se agarrando às grades de ferro da cama acima de sua cabeça.

Ele a devorou. Não havia brincadeira, nenhuma provocação, apenas uma concentração intensa e faminta. Sua língua traçou cada dobra, cada centímetro sensível, até ela gemer e tremer, suas pernas tremendo ao mesmo que sua cabeça. Ele a segurou no lugar, insistente, até que um segundo, mais profundo e convulsivo, a arrebatasse. Ela entrou em colapso para o lado, rolando para longe dele na cama desgrenhada, seu corpo um caco ofegante.

Ele se virou de lado, sua respiração ainda pesada, e a puxou contra seu peito novamente. Ele pressionou um beijo molhado em seu ombro.

—  Agora — ele murmurou, sua voz já desaparecendo na exaustão pós-clímax. —  Agora talvez possamos dormir.

Desta vez, a maré dentro dela recuou completamente, abandonando uma fadiga de ossos fundos e uma mente estranhamente silenciosa. Ela ficou imóvel, sentindo a respiração dele se aprofundar e abrandar atrás dela, seu braço pesado e inquestionável sobre ela mais uma vez.

Desta vez, ela esperou. Esperou até que a luz cinza do amanhecer começasse a clarear seriamente o postigo. Esperou até que o ronco suave e irregular dele se tornasse uma certeza. Então, ela se desvencilhou.

O quarto foi um desastre de roupas. A blusa dela, o casaco dele, a camisa dele, as calças dela. Vestir-se foi um processo mecânico. Ela prendeu seus cabelos, endireitou suas roupas, o tecido parecendo estranho em sua pele sensibilizada. Cada peça era uma camada de si mesma reconstruída. A cada botão abotoado, ela reconstruía a fortaleza.

Ela ficou parada por um instante, observando-o dormir na cama emaranhada. O luar iluminava a linha de seu ombro nu, o contorno dos escuros contra sua bochecha. Ele parecia mais jovem. Desarmado. Não. Essa era a fraqueza. Esse olhar. Esse sentimento. Essa prisão.

Seus olhos percorreram o quarto, sua mente de ladra fazendo um inventário automático. Os mapas, uma garrafa de rum, os instrumentos enferrujados. Então ela viu, piscando sob o mesmo luar que o iluminava. Uma pequena bolsa de veludo, jogada no chão perto da porta onde ele a deixara cair horas antes, esquecida. O Selo do Mar do Sul.

Um sorriso lento e familiar surgiu em seus lábios. Essa era uma linguagem que ela entendia. Ela caminhou até lá, pegou o objeto e o pesou na palma da mão. Então, algo incomum foi sentimental. Não se limite a pegar o Selo. Desfechou a trava e despejou o disco pesado de prata gravado em sua mão. Era frio e intrincado. Colocou-o delicadamente sobre a mesa dele, onde ele o veria.

Do bolso interno do casaco que ele havia descartado, aquele em que ela se enrolara, ela tirou sua pedra de amolar favorita, um pedaço liso e escuro de obsidiana pelo qual ele era infinitamente supersticioso. E a guardou no bolso.

Ela deixou o Selo. Levou a pedra. Era uma mensagem. Um retorno ao jogo.

Na porta, ela olhou para trás uma última vez. Ele não se mexeu.

—  Xeque-mate, Gancho —  ela sussurrou para a figura adormecida, mas as palavras não surtiram efeito.

Ela saiu, fundindo-se com as sombras do convés, um fantasma novamente. Os primeiros tons cinzentos do amanhecer tingiam o céu a leste, transformando a água negra em ferro. O Jollie Rogger rangeu cansado.

Lá embaixo, na escuridão quente, a mão de Harry Hook deslizou pelo espaço vazio e esfriado da cama. Seus dedos se curvaram no tecido. Um instante depois, um único olho azul se abriu, claro e desesperado. Ele ouviu o clique suave da porta.

Ele olhou para a mesa e viu o Selo de prata brilhando na luz nascente. Um sorriso lento e genuíno se mantém por seu rosto, muito mais perigoso do que qualquer sorriso que ele já tivesse fingido. Ela havia feito sua jogada. O jogo definitivamente ainda estava em andamento.

Mas o tabuleiro foi alterado de forma permanente e irrevogável.