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O Lago Negro e forma de amar

Summary:

Amara e Harry descobrem rumores sobre um templo antigo escondido sob um lago que não existia nos mapas de Auradon. Movidos pela curiosidade e pelo desejo de chegar antes de qualquer outro caçador de relíquias, os dois seguem um mapa roubado por Amara até o misterioso "Lago Negro".
A lenda diz que no templo existe um espelho capaz de revelar o maior medo de quem o encara, e que ninguém conseguiu sair depois de encontrá-lo. Mesmo sabendo que a descoberta pode ser perigosa, os dois partem imediatamente, sem perceber o verdadeiro aviso escondido no mapa: o espelho não mostraria apenas seus medos, mas algo muito pior.

Chapter Text

Auradon sempre parecia bonito demais para esconder segredos.

As torres brancas do castelo refletiam a luz dourada do início da manhã enquanto estudantes atravessavam os jardins carregando livros, espadas de treinamento e mochilas encantadas. O vento fazia dançar as bandeiras coloridas penduradas ao longo das muralhas e espalhava pelo campus o perfume das flores que cresciam praticamente em qualquer lugar onde houvesse um pedaço de terra.

Tudo parecia calmo. Limpo. Organizado. Era justamente por isso que Amara desconfiava daquele lugar. Nenhum reino permanecia tão perfeito por tanto tempo sem esconder alguma coisa debaixo do tapete.

Ela caminhava lentamente sobre uma das muralhas do castelo, equilibrando-se na estreita borda de pedra como se estivesse passeando sobre uma calçada qualquer. Os dedos brincavam distraidamente com uma pequena adaga enquanto seus olhos percorriam o movimento muito abaixo.

Casais. Cavaleiros. Professores. Fadas. Príncipes. Todos ocupados demais para perceber uma gata humana passeando onde ninguém deveria estar. Ela sorriu sozinha. Aquilo continuava sendo divertido.

— Achei você.

A voz veio atrás. Amara não precisou olhar.

— Demorou.

Harry Hook caminhava pela muralha com as mãos nos bolsos do casaco vermelho, completamente despreocupado com a altura. O gancho balançava de leve conforme andava, refletindo pequenos flashes de sol.

— Passei meia hora procurando.

— Isso diz mais sobre você do que sobre mim.

— Diz que você gosta de lugares altos.

— Diz que você é ruim de procurar.

Harry levou a mão ao peito, fingindo ofensa.

— Cruel.

Ela apenas deu de ombros. Os dois permaneceram alguns segundos observando Auradon lá de cima. O silêncio entre eles nunca era desconfortável. Quase sempre significava que algum dos dois estava pensando em uma ideia ruim.

— Então... — Harry quebrou o silêncio — Vai me contar por que pediu pra eu vir até aqui?

Amara girou a adaga entre os dedos, depois a guardou.

— Ouvi um boato.

— Isso reduz as possibilidades para umas trezentas — Harry arqueou uma sobrancelha.

— Esse é diferente — Ela finalmente virou para ele. Os olhos azuis tinham aquele brilho específico que Harry já aprendera a reconhecer. Era o brilho de quem tinha encontrado alguma coisa impossível de ignorar. Aquilo quase sempre terminava em perseguições ou explosões. Às vezes nos dois.

— Fala.

— Existe um templo.

— Existem vários.

— Esse fica submerso.

Harry inclinou levemente a cabeça.

— Continua.

— Dizem que ele apareceu faz poucos dias.

— Dizem quem?

— Pessoas que não costumam inventar esse tipo de história.

— Criminosos?

— Os melhores.

Harry sorriu. Agora ela tinha sua atenção. Amara caminhou alguns passos pela muralha enquanto falava.

— Antigos mapas de Auradon não mostram aquele lago.

— Hm.

— Pescadores dizem que a água começou a mudar de cor durante a noite e três caçadores de relíquias desapareceram tentando entrar.

Harry parou de andar.

— Agora ficou interessante.

Ela sorriu de canto. Sabia que ficaria.

— O templo pertenceu a uma divindade antiga.

— Qual?

— Ninguém sabe.

— Isso costuma significar problema.

— Muito problema.

— E por que nós? — Harry apoiou os cotovelos sobre a muralha.

Ela olhou como se a resposta fosse óbvia.

— Porque alguém vai chegar primeiro —

Depois os dois falaram ao mesmo tempo:

— E eu quero ser esse alguém.

Eles se encararam. Harry riu primeiro. Amara logo depois. Ela retirou lentamente um pequeno pergaminho do bolso do casaco. Harry franziu a testa.

— Isso é...

— Um mapa.

Ele tentou pegar. Ela puxou de volta antes que seus dedos alcançassem o papel.

— Ei, não.

— Só uma olhada.

— Você olha roubando.

— Funciona.

Ela abriu apenas o suficiente para revelar um desenho antigo. Linhas gastas. Símbolos praticamente apagados. No centro, um enorme lago desenhado com tinta escura. E, abaixo dele, uma única palavra escrita numa caligrafia tão antiga que parecia mais um aviso do que um nome.

Lago Negro.

Harry deixou o sorriso desaparecer.

— Onde conseguiu isso?

— Roubei.

— De quem?

— Não importa.

— Importa um pouco.

— O suficiente pra dizer que metade da Ilha dos Perdidos está procurando esse lugar — Ela fechou o mapa novamente.

— Então já estamos atrasados — Harry cruzou os braços.

— Um pouquinho.

— Odeio estar atrasado.

Os dois ficaram olhando o mapa durante alguns segundos. Depois Harry fez a pergunta que realmente importava.

— O que tem lá dentro?

Amara demorou um instante para responder.

— Um espelho.

— Só isso?

— Não.

Ela respirou fundo.

— Dizem que ele mostra o maior medo de quem olha para ele — Ela respirou fundo.

— Então é só não olhar — Harry soltou uma risada baixa.

— Também dizem que ninguém conseguiu sair depois de encontrá-lo.

A risada morreu. O vento aumentou de intensidade naquele instante, fazendo as bandeiras estalarem acima deles. Algumas nuvens começaram a cobrir lentamente o sol. Foi uma mudança pequena. Quase imperceptível. Mas suficiente para deixar Auradon um pouco menos acolhedora.

Harry observou o horizonte. Depois voltou para Amara.

— Quando saímos?

— Agora — Ela sorriu daquele jeito que sempre antecedia uma péssima decisão.

Harry nem respondeu. Apenas começou a andar ao lado dela. Os dois saltaram da muralha quase ao mesmo tempo. Ela pousou primeiro. Ele um segundo depois. Sem trocar mais nenhuma palavra, seguiram em direção aos estábulos do castelo. Atrás deles, preso entre as pedras da muralha, um pequeno pedaço rasgado do velho mapa continuava balançando com o vento.

Nele havia apenas uma frase, escrita numa tinta quase apagada pelo tempo:

"Aquele que atravessar as águas não encontrará um espelho."

Mais abaixo, em letras ainda menores:

"Encontrará o pesadelo”

Nenhum dos dois viu o aviso.