Chapter Text
O ar na zona de impacto estava saturado com o cheiro acre de ozônio e carne queimada. A carcaça do Kaiju de identificação, uma massa grotesca de músculos rompidos e placas exoesqueléticas fraturadas, fumegava pesadamente sob o céu cinzento.
Gen Narumi, o capitão da Primeira Divisão, relaxou a postura de combate com uma lentidão calculada. Ele apoiou o cano de sua colossal baioneta contra o ombro, o olhar entediado varrendo a destruição antes de se fixar na figura que limpava as lâminas a poucos metros dali.
— Você demorou, Hoshina — a voz de Narumi ecoou pelo comunicador e pelo ambiente, carregada daquela petulância arrastada que parecia projetada especificamente para testar a paciência alheia. — Tive que fazer quase todo o trabalho pesado.
Soshiro Hoshina embainhou suas espadas gêmeas com um clique seco e preciso. Seus olhos permaneciam semicerrados em duas fendas calmas, e o sorriso leve em seus lábios não vacilou— Eu estava garantindo o perímetro e coordenando a evacuação dos civis, Capitão Narumi — rebateu Hoshina, enfatizando o título com um tom sutilmente afiado— Diferente de você, alguns de nós precisam se preocupar com os relatórios de danos colaterais e com a segurança pública, em vez de apenas buscar o ângulo perfeito para as câmeras de transmissão.
Narumi estalou a língua, prestes a retrucar com algum insulto infantil sobre a estatura do vice-capitão, quando um som dissonante quebrou a atmosfera de pós-batalha.
Não era o estalo de tecidos biológicos morrendo, nem o borbulhar de fluidos ácidos. Era um som abafado, úmido e ritmado, vindo diretamente das entranhas expostas da carcaça do monstro.
Ambos os homens mudaram de postura instantaneamente. Os músculos tensionaram; as mãos de Hoshina voltaram para os cabos das espadas enquanto a expressão de Narumi se tornava fria, os olhos focando na fenda de carne dilacerada.
Uma pequena cabeça acinzentada empurrou a membrana interna do Kaiju abatido.
No entanto, o que emergiu não causou o disparo dos alarmes de força vital do traje de força de nenhum dos dois. A criatura que caiu no chão coberto de fuligem era menor que um gato doméstico. Tinha a textura blindada e os tons azul-escuros que parecia reluzir, mas suas proporções eram comicamente arredondadas, desprovidas de garras proeminentes ou dentes afiados.
Ela chacoalhou o corpo vigorosamente, espalhando respingos de fluidos para os lados, e ergueu o rosto.
O rosto do pequeno monstro exibia duas fendas perfeitas no lugar dos olhos, curvadas exatamente no mesmo formato de arco que Hoshina ostentava. A criatura inclinou a cabeça para o lado, encarou os dois guerreiros de elite e soltou um grunhido agudo, limpo e absurdamente vibrante:
— Kyuu?
O silêncio que se seguiu na cratera foi absoluto, quebrado apenas pelo chiado do vapor. Narumi piscou uma, duas vezes. O capitão olhou para o filhote de Kaiju depois olhou para o rosto de Hoshina. Uma expressão de pura e genuína iluminação cruzou suas feições, logo substituída por um sorriso largo e ruidoso. Ele apontou o dedo indicador dramaticamente na direção do vice-capitão, rompendo em uma gargalhada que ecoou pelas ruínas.
— Não pode ser! — Narumi exclamou, as lágrimas quase brotando de tanto rir— Hoshina, você anda escondendo alguma coisa de nós? Essa coisa horrorosa é o seu clone em miniatura! Olha para os olhos dele... É idêntico! Até essa cara de deboche que você faz quando está planejando me irritar.
O pequeno Kaiju, captando a energia caótica e os gestos exagerados de Narumi, deu um pequeno salto para a frente. Suas patinhas curtas bateram no chão asfáltico e ele imitou a inclinação de cabeça de Narumi, soltando um som travesso e saltitante, totalmente desprovido de qualquer instinto assassino, parecia achar toda aquela situação uma grande brincadeira.
Hoshina manteve os olhos semicerrados, mas um leve tremor na sobrancelha esquerda entregou sua irritação com a piada— Não seja ridículo, Narumi. Guarde suas teorias absurdas para os seus fóruns de videogame — Hoshina suspirou, dando um passo à frente para analisar o espécime. O vice-capitão franziu o cenho ao notar os ferimentos superficiais no dorso do bichinho. — Olhe o padrão das mordidas na pele dele. Ele não estava operando em simbiose com o espécime maior, estava prestes a ser devorado por ele. É um sobrevivente.
— Sobrevivente ou não, ainda carrega o código genético de um monstro — a voz de Narumi mudou de tom num piscar de olhos, perdendo toda a diversão e assumindo a frieza implacável do soldado número um da força de defesa.
Em um movimento fluido e assustadoramente rápido, Narumi girou a baioneta e ergueu o cano pesado, apontando-o diretamente para o centro da testa da pequena criatura. A pressão do poder liberado por seu traje fez o ar ao redor ondular.
Ao sentir a súbita onda de hostilidade e o cano escuro da arma mirar em sua direção, a natureza brincalhona do pequeno Kaiju desapareceu. O corpinho acinzentado começou a tremer de forma violenta, seus olhos em fenda se dilataram ligeiramente em puro terror e ele desabou sobre as próprias patas, tentando se fazer parecer ainda menor contra o chão. Um som agudo, choroso e terrivelmente suplicante escapou de sua garganta:
— Muuu... kyuuu...
Antes que o dedo de Narumi pudesse iniciar a pressão no gatilho, um flash prateado cortou o espaço entre eles. O som metálico de uma lâmina batendo com precisão cirúrgica na lateral do cano da baioneta ecoou no ar, desviando a mira de Narumi por alguns centímetros.
Narumi não moveu o corpo, apenas inclinou os olhos rosados de lado para encarar Hoshina, que segurava a empunhadura de sua espada firmemente contra a arma do capitão.
— O que pensa que está fazendo, Hoshina? — o tom de Narumi era perigosamente baixo — Interferir no disparo de um capitão é uma infração grave. É um Kaiju. Nosso trabalho é exterminá-los antes que cresçam e destruam uma cidade.
— Nosso trabalho é proteger a humanidade e isso inclui obter conhecimento para vencer essa guerra — Hoshina respondeu, a voz mantendo a calma habitual dos combates, embora o brilho em seus olhos estivesse mais afiado. — Você sentiu a assinatura de energia dele? É quase nula. Ele não possui aura sanguinária, não demonstrou resposta de combate e o comportamento é completamente anômal. Se o matarmos aqui, perderemos a chance de entender uma mutação inédita. Ele precisa ir para a Divisão de Ciências. Os pesquisadores precisam analisá-lo e mantê-lo sob observação estrita.
Narumi sustentou o olhar por alguns segundos, medindo a determinação do vice-capitão. Por fim, ele relaxou a pressão na arma e a recolheu com um suspiro entediado, jogando os cabelos para trás— Que perda de tempo. Se essa coisa crescer e tentar morder alguém, a culpa vai ser inteiramente sua e da Terceira Divisão — resmungou Narumi, virando as costas e caminhando em direção ao transporte militar— Leve seu bichinho de estimação daqui antes que eu mude de ideia.
Ao perceber que a ameaça da arma havia sumido, o pequeno Kaiju cessou o tremor. Ele ergueu a cabeça devagar, olhou para as botas de Hoshina e, com um arrastar desajeitado, aproximou-se até encostar o corpo blindado contra a perna do espadachim. Soltou um pequeno grunhido aliviado e quase audaz, como se estivesse comemorando a pequena vitória.
Hoshina olhou para baixo, observando a criatura que parecia imitá-lo tão perfeitamente. Um sorriso genuinamente divertido e travesso surgiu em seu rosto.
— É... você certamente tem um excelente gosto para expressões faciais — murmurou Hoshina, abaixando-se para recolher o pequeno espécime com cuidado.
As portas blindadas do quartel-general da Força de Defesa se abriram com um estrondo hidráulico pesado.
Soshiro Hoshina cruzou o corredor principal com passos calmos, mas firmes, carregando o pequeno Kaiju anômalo firmemente contra o peito. A criaturinha mantinha as patinhas curtas firmemente cravadas no tecido da farda do vice-capitão, escondendo o rosto azulado contra o peito dele, buscando uma proteção puramente instintiva contra os olhares curiosos e as luzes fortes do complexo.
À espera deles no pátio de desembarque, uma equipe de cientistas vestidos com trajes de isolamento biológico completo já aguardava. À frente do grupo, com os braços cruzados e a expressão esculpida em pedra, estava o Comandante Isao Shinomiya.
— Então este é o espécime — a voz de Isao ecoou, grave e desprovida de qualquer emoção. — A assinatura de energia é realmente insignificante, Hoshina. Mas continua sendo um risco biológico.
— Ele não demonstrou nenhuma hostilidade durante o trajeto, Comandante — Hoshina explicou, mantendo o sorriso leve, embora seus olhos estivessem atentos. Ele estendeu os braços, entregando o pequeno ser. — Mas o comportamento dele mimetiza expressões humanas. Acho que a Divisão de Ciências vai se divertir bastante.
No momento em que as mãos enluvadas e frias dos cientistas tocaram o corpinho do filhote, uma onda de pânico imediato atingiu a criatura. Ela soltou um ganido agudo e desesperado — Muuu... kyuuu!— e tentou esticar as patas de volta na direção de Hoshina, mas foi contida rapidamente.
Um campo de força portátil foi acionado ao redor da maca de transporte, isolando-a enquanto o grupo se dirigia rapidamente para os subsolos do laboratório.
Minutos depois, o som metálico dos instrumentos cirúrgicos ecoava pelo laboratório esterilizado da área de contenção máxima. Sobre a mesa de metal, a pequena criatura tremia violentamente, emitindo um choro agudo e sibilante sempre que uma nova agulha perfurava sua pele fina para coletar amostras de sangue.
O visor do monitor cardíaco exibia batimentos acelerados, uma linha frenética que denunciava o pavor absoluto da cobaia diante daquela frieza cirúrgica. Um dos técnicos usava uma haste de algodão para forçar a abertura de sua boca, coletando saliva diretamente dos pequenos caninos que mal serviam para caçar animais minúsculos.
Por trás do vidro blindado da sala de observação, Isao Shinomiya assistia a tudo com os braços cruzados. Ao seu lado, o cientista-chefe ajustava os dados em um microscópio eletrônico.
— A densidade dérmica é absurdamente baixa para um organismo de origem Kaiju — observou o cientista, analisando os dados na tela. — Os caninos são minúsculos, Não têm força mecânica para perfurar tecidos densos. Ele parece totalmente inofensivo.
— Não subestime a biologia deles — respondeu Isao, o olhar fixo em cada espasmo da criaturinha. — Pode ser uma estratégia de conservação de energia. Muitas espécies de Kaiju exibem estágios larvais ou de bio-mimetismo passivo. Eles simulam fragilidade para evitar o ataque imediato de predadores apex ou nossa retaliação. A verdadeira questão é: o sequenciamento genético mostra os marcadores das células identificadas nos colossais?
— Os níveis de ressonância de energia de base são idênticos, Comandante — o cientista digitou rapidamente, exibindo gráficos complexos — A estrutura celular está em estado latente. É como se o potencial destrutivo estivesse trancado em um switch genético. Se isso for uma fase de maturação, quando o gatilho biológico for acionado por estresse ou crescimento, a taxa de expansão de massa corporal será exponencial. Ele vai se transformar em um monstro igual aos outros. Ou pior.
Dentro da sala de contenção, o terror da criatura atingiu o ápice. Para o pequeno ser, a dor das agulhas e a total ausência de empatia daquelas vozes significavam apenas uma coisa: morte iminente. O instinto de autopreservação, gravado profundamente em seu DNA de Kaiju, disparou um mecanismo de defesa inédito, nunca antes registrado pela Força de Defesa.
O gráfico de batimentos cardíacos na tela travou repentinamente em uma frequência errática.
— Instabilidade celular detectada! A massa está colapsando! — alertou o técnico, assustado.
Diante dos olhos dos pesquisadores, a estrutura física da criaturinha simplesmente desmoronou. O corpo firme, as placas azuis e os pequenos dentes se desfizeram em segundos, liquefazendo-se em uma massa maleável, uma espécie de gosma biológica escura, translúcida e fluida.
Antes que o sistema automatizado de contenção pudesse selar a mesa completamente com barreiras de energia, a massa deslizou com a rapidez do mercúrio, esticando-se em fios finos e sumindo instantaneamente através dos pequenos furos da grade de ventilação e ar do piso.
— Alerta de brecha biológica! Selar o bloco de pesquisa imediatamente! — a voz de Isao ecoou pelo rádio com autoridade máxima, mas o intrincado duto de ar já havia levado o fugitivo para longe do perímetro de segurança do subsolo.
Vários andares acima, na ala residencial da Primeira Divisão, o silêncio imperava nos dormitórios. Uma gota escura e viscosa escorreu silenciosamente por uma fresta na grade do teto do quarto de Gen Narumi. Ao tocar o chão de tatame, a substância recuperou lentamente sua forma física original: o corpinho frágil, trêmulo e com traços que lembravam Hoshina, reapareceu, exausto pelo esforço hercúleo da transmutação celular.
O quarto estava completamente escuro, exceto pelo brilho azulado, forte e oscilante da tela do computador. Gen Narumi estava completamente alheio ao mundo exterior, com fones de ouvido gigantes isolando-o de qualquer som, os dedos voando pelo teclado e pelo mouse em cliques frenéticos enquanto disputava uma partida de videogame.
O pequeno Kaiju percebeu a presença daquele mesmo humano que, horas antes, havia apontado uma arma gigante para sua cabeça. O pavor paralisou seus membros minúsculos. Ele sabia com clareza instintiva que, se aquele homem o visse, tentaria eliminá-lo instantaneamente.
Movendo-se centímetro por centímetro, arrastando-se sem fazer o menor ruído sobre o tatame, a criaturinha buscou o único refúgio que parecia seguro, escuro e quente no cômodo. Ela se infiltrou silenciosamente por baixo das dobras do futon estendido no chão. Encolhida no canto mais profundo e escuro da coberta, colada bem perto do espaço onde Gen deitaria mais tarde, a criaturinha encolheu suas patinhas, prendeu a respiração e tentou se tornar invisível, rezando em seu próprio silêncio para não ser descoberta.
O som estridente das sirenes de alerta vermelho ecoou pelos corredores metálicos da ala residencial, fazendo as paredes do quarto vibrarem levemente.
Gen Narumi estalou a língua, jogando o corpo para trás na cadeira gamer. Ele tirou os fones de ouvido gigantes com um movimento brusco, deixando-os pendurados no pescoço.
O aviso luminoso piscava no painel da parede: a busca pela cobaia em fuga havia sido suspensa naquele setor após varreduras iniciais de bio-ressonância darem negativo. O alarme finalmente recuou, retornando ao silêncio tenso da madrugada.
Gen passou a mão pelos cabelos bagunçados, bufando de pura irritação. Falar sozinho era um hábito quase inconsciente quando estava trancado ali, e a parede à sua frente parecia o alvo perfeito para suas frustrações.
— Que perda de tempo do caramba... — Gen resmungou para o vento, cruzando os braços e encarando o teto— Eu devia ter apenas apertado a porcaria do gatilho naquela cratera. Um tiro limpo. Pronto. Acabava o problema de todo mundo antes mesmo de começar.
Ele inclinou a cadeira, balançando uma das pernas com impaciência.
— Mas não... O idiota do Hoshina sempre tem que se enfiar no meio das minhas decisões. Aquele maldito cabelo de tigela... Olhos de raposa desgraçado. “Ai, precisamos estudar a mutação inédita”, blá blá blá. Olha aí o resultado da sua ciência, seu nanico estúpido! O bicho derreteu e sumiu!
Gen parou de balançar a cadeira. O tom de voz agressivo e debochado foi sumindo aos poucos, dando lugar a um silêncio pesado. Ele fixou o olhar em um ponto qualquer do chão de tatame. A postura relaxada se transformou em uma rigidez séria, quase sombria. Quando voltou a falar, sua voz não passava de um sussurro baixo, denso, direcionado ao nada.
— Por que eu ainda deixo aquele merdinha com aquele corte de cabelo estupido interferir no meu trabalho?... Eu sou o capitão da Primeira Divisão. Eu decido o que vive e o que morre.
Debaixo das cobertas do futon estendido no chão, a criaturinha tremia a cada palavra. O som inicial das sirenes de emergência quase havia feito seu switch genético colapsar outra vez de puro pavor. Depois, os gritos repentinos e os palavrões de Gen fizeram o pequeno monstro encolher as patinhas até o limite, cobrindo a cabeça. Para ele, aquele humano barulhento era a criatura mais perigosa do mundo.
No entanto, quando os xingamentos cessaram e o quarto mergulhou naquele sussurro baixo e arrastado, o ambiente mudou. O tom de Gen não carregava mais a intenção assassina da cratera, apenas uma frustração amarga e solitária.
Movida por uma curiosidade puramente infantil e ingênua, a criaturinha moveu a cabeça devagar. Ela empurrou a borda do edredom pesado com o focinho, Seus olhos em fenda, perfeitamente arqueados como os de Hoshina, piscaram para se acostumar com a luz azulada do monitor.
Viu o humano de costas, sentado na cadeira, parecendo muito menor e menos ameaçador do que quando empunhava aquela baioneta colossal.
Arrastando o corpinho fino com um ruído quase imperceptível sobre o tatame — fush, fush —, o pequeno Kaiju saiu completamente de baixo do futon. Ele deu dois passos desajeitados para a frente, inclinando a cabeça arredondada para o lado, observando Gen com uma fascinação genuína.
Gen, cujos sentidos de combate eram absurdamente aguçados apesar da distração, captou o milimétrico deslocamento de ar atrás de si.
Com um reflexo assustador, narumi girou o corpo na cadeira e bateu o pé no chão, os olhos rosados faiscando prontos para neutralizar uma ameaça.
— Mas que porra?!..— travou no meio da frase. Seus olhos se arregalaram. No chão, a poucos centímetros de seus pés, estava o filhote de Kaiju com cara de deboche. O capitão da Primeira Divisão piscou, completamente em choque, olhando da grade de ventilação do teto para o bicho no chão.
— Você... — Gen rosnou, a surpresa se transformando instantaneamente em irritação— O que você está fazendo no meu quarto, seu pedaço de lixo radioativo?! Sai de perto de mim!
O grito repentino estourou no ambiente como um tiro. O pequeno Kaiju deu um salto para trás, assustado. O vislumbre de curiosidade infantil foi esmagado pelo retorno do pavor absoluto. O corpinho pequeno desabou sobre as patas curtas, e as duas fendas dos olhos se dilataram. Da garganta minúscula, escapou um choro agudo, trêmulo e terrivelmente suplicante, ecoando pelo quarto escuro:
— Muuu... kyuuu... kyuuuuuu...
Lágrimas de verdade começaram a brotar dos olhos em arco do bichinho, escorrendo por sua pele blindada enquanto ele cobria o rosto com as patinhas finas, esperando que o humano o esmagasse ali mesmo.
Gen ergueu uma sobrancelha, congelando a postura agressiva. Ele se inclinou ligeiramente para a frente na cadeira, apoiando os cotovelos nos joelhos. O cenho franziu em uma mistura inédita de profunda surpresa e uma ponta de curiosidade genuína.
Um Kaiju... chorando feito uma criança assustada por causa de um xingamento? Aquilo quebrava todas as leis biológicas que ele conhecia sobre os monstros.
