Chapter Text
Uma tépida brisa vespertina transcorria pelo seu rosto, roupas e cabelo, ganhando cada vez mais força de atrito mediante o aumento da velocidade: sua estimada vassoura flutuava como uma graciosa águia, carregando consigo dois pequenos corpos. Na dianteira, a bruxinha, concentrada na condição atmosférica e atenta para quaisquer turbulências; atrás, imerso num sono que não teria fim tão cedo, Aster, cujos braços se envolviam na barriga da parceira. Com uma mão guiando a vassoura e a outra segurando com firmeza o braço do anjinho ( se por algum inconveniente este viesse a desprender-se dela, eles estavam a numerosos quilômetros acima do solo e uma queda dessas seria morte certa – levando em conta a tremenda ausência de sorte do amigo, era melhor precaver-se ), o veículo era conduzido ao continente rural dos anjos, para a casa do pequeno exemplar dorminhoco.
Tudo seguia em perfeita harmonia, ou, ao menos, era esta a impressão conferida a algum observador em terceira pessoa – os integrantes da cena decerto não estavam sob essa paz de espírito. Nyx era um bom exemplo.
Sua expressão era a mesma de sempre, podendo eximir a mesma falsa aparência transmitida pela atmosfera da viagem. A razão disso, no entanto, é que raramente se poderia avistar quaisquer receios presentes na alma dela com base nas contorções de seu rosto ou de outros feitios físicos. Pelo contrário, possuía uma louvável capacidade de encobrir tudo atrás daquele ar indiferente e apático; mas quem não se deixasse enganar pela simples impressão do estado emocional de outrem logo tomaria ciência de que aquele espírito era permeado por tumultos sem fim nem piedade. Por mais impassível que fosse sua postura, em seu íntimo, a bruxinha guardava um ansioso desejo de simplesmente deitar-se numa cama bem confortável e nunca mais acordar.
Aster descansava, e isto lhe trazia um certo alívio; caso optássemos por maior precisão na fala, diríamos que isto lhe trouxe um certo alívio, enquanto não se recordava dos pesadelos que o amigo tivera por essas semanas.
Uma pontada de remorso lhe veio na barriga. Nyx se recordava de quando o anjinho viera em busca de seu socorro, nos tempos em que ainda se encontravam com exímia frequência. Com efeito, o desespero do amigo não era exagerado de forma alguma, porque o conteúdo dos seus pesadelos era de caráter inescrutável. Lhe contava sobre os maiores disparates em quesito de imagens oníricas, entre eles, falas dispersas e às quais não conseguia atribuir um interlocutor devido à falta de coerência, histórias desenroladas no sono cujo significado escapava às suas tentativas de interpretação, ocorrências do Universo que ela certamente não teria detalhado com tanta minúcia nas aulas que dera a ele... Claro, o mais rápido possível, partira numa análise pormenorizada de estudos sobre o tópico. A relutância em divulgá-los surgira depois, relutância da qual ela não se orgulhava nem um tico.
“Parece que cultivei o hábito de tomar as melhores decisões possíveis” – refletiu na base da ironia – “O mestre Sage deve se orgulhar de mim por isso, ô se deve...”
Nessa pequena volta ao mundo concreto, enfim notou de volta aquelas sensações corporais que haviam se afastado durante os instantes de abstração. Inclusive, um registro que não estava presente antes.
Sentia algo molhando a parte de trás do seu jaleco. Mais, ouvia ruídos de marcante familiaridade.
“Chuif...” – os braços tremendo, Aster fungava, adormecido – “Chuif, chuif...”
Um penetrante arrepio disseminou-se pela espinha da feiticeira. Pelo visto, seu temor com relação ao sono do anjinho era ancorado na verdade.
“Droga...” – pensou, dando um tapa no próprio rosto – “É serio que eu não tinha pensado nisso?”
Nunca deixava os mínimos detalhes escaparem, nunca. E ainda assim, dessa vez, não tivera em mente a possibilidade dele entrar num pesadelo.
Será que deveria acordá-lo?
“...” – desviando o olhar de instante em instante, tentou chamar seu nome – “Ehm, Aster?”
Ele não balbuciava murmúrios de pavor, nem elevava o som dos fungados a vagidos, mas algumas lágrimas saíam dos seus olhos. Seu sonho não deveria ser daqueles de perturbar a mente com atrativos que se seguem num show de horrores – deveria ser algo que tocasse seus sentimentos.
Entendendo isso, Nyx prestou-se a meditar sobre os cursos de ação que viriam a cair nesse inconveniente. Despertar o anjinho seria arriscado demais, pois teria de desviar a atenção do veículo, e sabe-se lá que tipos de desastres poderiam acontecer caso desse errado.
Mais ou menos relutante, segurou a mão dele, cautelosa. Precisava recordar-se da pesquisa que fizera...
Estímulos externos influenciam o curso dos sonhos...
Uma ideia cruzou a sua mente – poderia ser que, caso os estímulos fossem positivos, a trilha onírica tomaria um novo rumo. Sim, Aster gostava de brincar no imaginário “Reino da Amizade e Alegria Eterna” dele, e poderia usar tal conhecimento ao seu favor. Contudo, como não era excelente em improvisos, seria preciso bastante cuidado.
Bastante cuidado e determinação, porque estaria agindo como aqueles contadores de fábulas para crianças. Pigarreou: o vexame era passageiro, e a honra, duradoura.
“Princeso borboleta Aster, você está aqui!” – falava em voz fina e retumbante, inventando uma história aleatória – “No, eh, no distrito da felicidade colorida, sim! Vamos... Cantar, eba!”
Os “chuifs” ficavam menos frequentes, menos sonoros. Seu corpo não estava tão trêmulo.
“Sim, terá uma celebração, e... E, vamos cantar!” – notando que o plano corria bem, delongava o enredo – “Todas as borboletas, unidas! E... E, eh, a canção é... Linda, muito linda!”
Se pudesse evitar a muitíssimo constrangedora atribuição de criar uma letra de música infantil, decerto o faria. Porém, Aster ainda não estava completamente salvo do choro, logo...
“As borboletas são- Eh, livre, leve e soltas... Sim, pode crer” – cantarolou desengonçadamente – “Gostam, de, ajudar os outros, e... S-sua beleza é de doer...?”
Surpreendida com os versos, teve de ponderar um pouco sobre a bobagem que fizera. Apesar disso, o objetivo fora cumprido: o anjinho não mais lacrimejava, e voltava à postura normal.
“Bo... Boieta...” – deixou soltar um murmúrio, com o acréscimo de um bocejo – “Waaaa.... Ma... Lipôsa...”
Mariposa?
Mas ela só falara sobre borboletas...
Experiências e memórias do coração...
Por mais estranho que fosse, um desvio desses era normal. No final das contas, vários fatores atuavam no conteúdo dos sonhos – falara do herói Princeso Fado Borboleta Aster, e se o Reino da Amizade e Alegria Eterna possuísse qualquer relação com o seriado favorito do anjinho, naturalmente, teria um vilão Princeso Fado Mariposa para manter a consonância entre bem e mal.
“Seja como for, ele cessou com os soluços, e é isso que importa” – procurando deixar para lá esses receios, vislumbrou o horizonte. Mas, para sua infelicidade, uma dúvida se mantinha firme e forte:
“Por quantas noites em claro ele passou?”
Estava com um gigantesco peso na consciência. Não poderia nem elaborar hipóteses sobre o tanto de desventuras que Aster teria enfrentado nesse último mês, na terra misteriosa das imagens noturnas: como se não bastassem os infortúnios que já tinha em vida.
Estava certa de que tomaria coragem para entregar os estudos a ele, eventualmente. Mas era aí que residia o problema – tal coragem com certeza surgiria, porém, era incerto se levaria dias, semanas, meses...
E mesmo a certeza de que ela surgiria não era tão axiomática.
Tinha corrido esses riscos em tempos passados, quando se mostrava disposta a lecionar sobre os mais variados assuntos ao anjinho, quando compartilhava observações valorosas monopolizadas pelos feiticeiros, quando incentivava nele a busca pelo conhecimento. E sabia muito bem que, em tempos passados, tais riscos se provavam necessários: o receio que direcionava às possíveis consequências era mínimo, isto se sequer existisse, porque seu propósito era justamente de rebelião. Estava ciente de que não fazia nada além de seguir os princípios mágicos, de estar sempre ao lado dos fatos, e fazer de tudo para neles chegar. Estava ciente de que não agia de maneira incorreta, ao contrário, esta falha deveria ser atribuída à sociedade em que vivia.
Essa Nyx nunca relegaria a um plano inferior os pedidos de ajuda do amigo. Pelo contrário, seria uma das primeiras pessoas a estar ao seu lado, justamente porque era coerente com a verdade de que, se a situação fosse invertida, Aster também não mediria esforços em auxiliá-la. A amizade dos dois fora construída nesse preceito, afinal: de serem leais, e nunca abandonar o parceiro.
As atitudes de outrora ofereciam um interessante contraste com aquelas do presente. De um lado, uma Nyx indômita e mordaz, confiante em plenitude, sempre pronta para tomar o partido daqueles que lhe eram importantes e perseguir seus objetivos com destreza, sempre firmando-se na própria moral e na sua ideia absoluta e inexpugnável de um planeta melhor. Do outro, uma Nyx exausta e despojada de quaisquer posicionamentos sociopolíticos que tivera no passado, exibindo uma arrogância maior que nunca, ao mesmo tempo que se encontrava sem energias para ponderar sobre qualquer assunto, sem quaisquer princípios morais e ideais, sem a mesma lealdade para com seus entes queridos. Sem nada pelo que enfrentar as durezas da vida.
Ainda era aquela Nyx? Continuava sendo aquela mesma pessoa, com o direito de permanecer sob o mesmo nome? Porque, se ainda fosse, com certeza não se sentiria presa numa gaiola da qual era impossível escapar, e o seu reflexo no espelho não tomaria a forma de uma desconhecida.
A cada dia que se passava, mais se sentia distante desse nome. Mais se sentia distante de quem era, como se o seu corpo e a sua alma pertencessem a duas entidades distintas; como se, por trás de cada pensamento e movimento seu, repousasse a sombra de uma estranha, uma intrusa, que se chocava contra os valores que ela cultivara por tanto tempo. A sombra devorava-os, pedacinho por pedacinho, devorava a sua personalidade, os seus sentimentos, a sua razão de viver, mastigava e deglutia com ferocidade tudo o que viesse à sua frente.
Queria ser uma das melhores bruxas a cruzar o planeta, sempre aspirara a isso. O motivo por trás, sendo ter a capacidade de mudar as estruturas do saber, ter a habilidade necessária para desvendar os mistérios do Universo em favor da humanidade, para servir de modelo a outros pequenos bruxos que viessem depois dela.
Qual era o seu motivo agora, para continuar com esse propósito, a única coisa que a penumbra não tinha engolido? Por que continuava lutando tanto por isso, se não tinha sequer lógica em seguir esse plano tolo e idiota, que se parecia mais com uma fantasia infantil?
Queria sair disso. Queria, e não queria. A escuridão já tinha consumido boa parte do desejo de querer sair do cenário: o pouco de brilho e convicção que restava, embora chamejante, era quase nada diante do impulso de abandonar a luta.
Mesmo se o pior acontecesse, não seria uma grave perda para ninguém. Poderia até mesmo atrever-se a afirmar que seria melhor assim, que perdesse a si própria e fosse engolida pelo completo esquecimento do que fizera ela ser ela. Até aqueles indivíduos próximos estariam tanto mais contentes quanto menos apegados à bruxinha, e esta mais do que merecia abrir mão de suas paixões e audácia em trajar o próprio caminho, abrir mão de quem fora antes, e tornar-se nada mais do que um típico robô bruxo. Mais do que merecia aguentar esse vazio pelo resto da sua vida.
Escorado no seu ombro, Aster tinha os olhos fechados em serenidade, com sorte, vagueando por pastagens acolhedoras ou em belos campos floridos, consolidados em sua mente e vivenciados durante a passagem dos sonhos. Não emitia barulho algum, além da expiração típica de quando se dorme.
Sabendo que, agora, o anjinho deveria ter atingido um pouco de sossego, uma brisa satisfeita atravessou o corpo de Nyx. Ele poderia finalmente tirar uma pausa da dura realidade.
Discreta, uma contorção apenas perceptível por via de uma lupa forjou a coisa mais próxima de um sorriso que se poderia esperar daquela bruxinha isenta de ânimo e de propósito. Com igual sutileza, apertou a mão de Aster, numa mudança de força que mal poderia ser notada.
Tinha perfeita claridade do que queria falar, e a isso, não se encontrava mais nenhum obstáculo. O amigo estava dormindo, e nunca tomaria noção das palavras ditas.
Contudo, como todo o resto, a vontade feneceu. De nada adiantaria, e as coisas permaneceriam as mesmas. Seria um esforço de zero utilidade.
Assim, manteve a seguinte frase dentro de si:
“Você merece uma amizade melhor”
