Chapter Text
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À sua frente, jazia uma terra cinza, pálida, sobre a qual se debruçavam escombros do que teria sido num passado remoto. Com a chegada de novos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios, milhões e bilhões, foram suplantadas, paulatinamente, a grama rosada, os animais silvestres, as flores do campo e as civilizações de outrora – em manobras tão lentas e tão sutis que uma breve existência mal seria capaz de apreender. Lhe passou por um segundo a pergunta que vira ou mexe se imiscuía na sua cabeça: como seria ter o conforto de uma estadia breve e insignificante nesse universo, breve e insignificante o suficiente para não se perder em questões existenciais?
Talvez as pessoas que viveram neste planeta tenham se inquirido sobre a morte. Talvez elas se preocupassem com um futuro distante que nunca chegariam a experienciar; talvez não tenha fugido às suas consciências que, uma hora ou outra, tudo chegaria a um fim. E, apesar disso...
Apesar disso, aproveitaram o fugaz lampejo de vida que havia ao seu dispor.
Pousou a vista nos seus arredores por mais um intervalo. Parca era a sua noção acerca de medidas de contagem – nunca tinha certeza de quanto tempo se transcorria de um momento para o outro. Esse hábito se reforçava nas visitas aos seus projetos acabados, moribundos: como se uma parte do seu ser ainda guardasse esperanças de que uma fagulha ressuscitaria para a surpresa de todos, dando início a uma nova história. E, com tal desejo a permear seu coração, ali se mantinha, perante a terra desolada, aguardando por esse milagre, essa quebra das leis da natureza, de que a vida não acabara por ali – mas era em vão. O silêncio sempre perdurava, e nada ocorria.
A maior bizarrice de todas, contudo, era a completa ausência de laços afetivos com esta invenção em particular. Não era capaz de medir sua passagem de forma precisa, mas bastava uma leve dose de memória para se compreender que a sua última interação direta com os projetos fora há muitíssimo tempo atrás – bem antes de trazer este geoide específico à tona. De fato, não era a morte do planeta em si que provocava desconforto, pelo menos não mais; depois de ver a mesma coisa se suceder milhões e milhões de vezes, o fenômeno acabou perdendo o impacto.
E, no fim das contas, era justamente disso que se tratava.
“Ethos?”
Próximo ao local seco em que firmava seus pés, chamou uma voz, em tom solícito. Sem que tornasse os olhos à origem do som, este, sem se incomodar com o desinteresse, prosseguiu:
“Está sofrendo de algum incômodo?”
Virou o rosto ao autor da pergunta. Uma ideia brilhante de resposta surgira, e seria tolice desperdiçá-la.
“Sim... Sim, estou...”
E, com um rosto inicialmente sério, abriu um pequeno sorriso logo em seguida.
“Tem uma vozinha extremamente chata se infiltrando nos meus ouvidos”
A alguns metros de distância, Logos deixou escapar um riso. Ainda que visivelmente insultado, Pathos não desistiu:
“Essa vozinha chata é a angústia que guardas no peito” – replicou com plenas notas de censura – “Vamos lá... Até mesmo o seu sorriso emana melancolia. O que houve?”
As ondas se propagaram pelo ar, se fizeram ouvir pelos integrantes da cena e, logo, dissiparam-se em meio aos demais elementos do mundo material. O alvo final desse processo, em contraste, manteve-se inexorável, pela exceção de um único e vagaroso suspiro.
“Estamos diante da morte” – explicou-se, sem, contudo, desviar da sua habitual postura escarnecedora – “Éons de história, reduzidos a pó. O último produto desses milhões de anos de vida se resume a cinzas e pernície”
Enfim, virou-se para o colega, com um fulgor severo pontuando as suas pupilas.
“É esse o destino de tudo o que nos cerca. Do chão arenoso aos imensos astros que pontilham o céu...” - murmurou, a mente imersa nos próprios devaneios. No futuro, nem mesmo a estrutura rochosa daquele planeta poderia continuar a ser distinguida; como os demais, eventualmente seria engolido por estrelas, ou consumido por planetas maiores, ou qualquer uma das milhares outras formas de aniquilar por inteiro todos os sinais de que essa bola flutuante sequer existira.
Tudo caminhava rumo ao esquecimento.
O vulto flamejante que se punha ao seu lado direito estreitou os olhos, numa demonstração de aborrecimento.
“Esse é um destino ábdito... Até lá, temos tempo de sobra” – ele se deu ao esforço de enunciar a sua pronunciada opinião pelo que seria, possivelmente, a milionésima vez – “Você não precisa sofrer por algo que ainda não aconteceu”
Mas que vai acontecer, queiramos ou não, foi o contra-argumento lógico que, por mais que lhe apetecesse, haveria de ser repensado levando em conta o trabalho que ele daria para justificar-se. As palavras de Pathos teriam mais valor se não fossem tão previsíveis, algo que, sejamos sinceros, estava fora do controle deste; de maneira literal.
Se pondo a refletir sobre o dilema com uma minúcia acentuada, entretanto, concluiu que por mais trabalhoso que fosse, debater era um dos seus passatempos favoritos. Não custava nada prosseguir.
“Se essa é mesmo a sua crença” – revirou os olhos num gesto sarcástico – “Receio que não haja problema algum em lhe fazer uma indagação... Para fins pedagógicos, digamos”
As outras divindades conheciam de perto o perfil travesso de quem enunciara a última frase; aquela que se limitava a observar o cenário, sem ter dito nada até então, ergueu de leve as sobrancelhas, voltando sua atenção às microscópicas partículas do ar rarefeito. Já aquela divindade que fora o alvo do desafio hesitou, incerta do que escolher.
“Como quiser”, foi o veredito que o interlocutor concedeu, passado um certo intervalo.
“Pois então, me fale” – de braços cruzados e um brilho de ironia no olhar, introduziu o seu misterioso questionamento – “Por que vivemos?”
A suposta dúvida pairou sobre os integrantes da conversa, custando tempo até surgir uma nova fala.
“Perdão?” – confuso, foi tudo o que Pathos conseguiu dizer; algo que era de se esperar. Seu próprio arquétipo o impelia a relegar tais questões para dogmas morais, o abstendo da responsabilidade de chegar, ele mesmo, a uma solução.
Como um amigo mais velho que procura mostrar os segredos do cosmos aos seus camaradas mais jovens, sacudiu a cabeça, lentamente, de um lado para o outro, com ar zombeteiro.
“Eu lhe perguntei” – procedeu – “Por que vivemos. Por que seres conscientes como nós acordam, dia após dia, cumprem seus afazeres, cumprimentam seus vizinhos, enfim: por que eles decidem viver, mesmo com todos os mistérios que assombram a sua existência.”
Para seu regozijo intelectual, nem mesmo a descrição pormenorizada fora capaz de esclarecer suas intenções ao outro membro da conversa, que se achava tão aturdido agora como estava a alguns segundos atrás. A maneira que ele reagia não deixava de ser irônica: o Deus mais encarregado de interagir com as criações, pego em flagra no seu desconhecimento em relação à alma delas.
Pathos deve ter piscado os olhos no mínimo umas cinco vezes, como costumava fazer em seu estado nervoso.
“Aonde pretende chegar com isso?” – franziu o cenho, visivelmente irritado com a sublime humilhação à qual tinha se posto – “Você sempre recorre a essa mania fastidiosa de inventar questionamentos absurdos...”
Nem bem o sujeito havia terminado, os impulsos daquele em primeira pessoa da cena toda motivaram este a retrucar:
“Aonde eu pretendo chegar?” – riu, com uma condescendência mais ou menos arrogante – “Eu quero conduzi-lo à resposta que me parece tão evidente quanto a volatilidade das coisas. Os questionamentos absurdos aos que você se refere apresentam dúvidas construtivas: o seu aborrecimento, suponho eu, deve vir não das perguntas em si, mas de como elas fragilizam seu ego...”
Se estivesse num corpo mortal, decerto as bochechas de Pathos teriam se enrubescido de vergonha. Ethos, com um suspiro, pôs-se de pé. Aquilo que estava prestes a fazer levava trabalho, e tudo que envolvia a palavra “trabalho” gerava um pouco de preguiça; havia arquitetado Logos por uma razão, afinal.
“Pois bem, eu lhes darei a resposta. Ai ai, Logos e Pathos, observem...”
E, num estalar de dedos, as memórias de tempos remotos se concretizaram em imagens etéreas e translúcidas, substituindo o que momentos atrás fora um cenário desolador. Fantasmas de plantas, animais, seres conscientes e suas obras se ergueram – e essas figuras, apesar de serem um simples resgate do passado, davam a onírica impressão de estarem mesmo vivas. Algumas, efusivas, se encontravam em grupos para dialogar sobre assuntos corriqueiros; outras, mais reclusas, se contentavam em ponderar sobre coisas variadas em solitude; outros desbravavam o terreno, à procura de uma espécime vegetal exótica, ou pintavam trabalhos de arte, ou contavam lendas sobre os temidos e respeitados poderes dos deuses, ou se sentavam para escutar tais mitos... As experiências eram, simultaneamente, únicas e recorrentes: cada um desses seres “fazia” o dia ao seu modo - mas o ato de fazer era comum a todos.
“O que está diante de vocês se resume às últimas centelhas de uma sociedade.” – observou, em placidez – “Ela não mais existe. Apenas me dei ao esforço de recuperar uma gravação já finalizada.”
Não havia nada de misterioso sobre a cena, que retratava o cotidiano das pessoas expostas. Porém, com uma idade demasiado avançada, mesmo algo corriqueiro como fofocas do dia a dia era capaz de invocar reflexões nos três observadores: então, o motivo de se indagar sobre como esses seres conseguiam manter uma postura relaxada diante de uma existência absurda se tornava límpido, quase tão resplandecente quanto a explosão das faíscas primordiais.
Como conseguiriam aturar este fardo execrável sem sucumbir à loucura, aos impulsos autodestrutivos? Como poderiam manter sorrisos no rosto, cientes de que um dia voltariam ao nada, perdendo todo senso de identidade, todas as lembranças, para nunca retornar? Como não cediam ao ultimato de que nada importava, que todo empenho era diminuto quando posto face a face contra a força indelével da morte certa?
Quase numa manobra telepática, Logos quebrou o silêncio, na sua habitual ataraxia:
“Eles criam um propósito.”
No soar da frase, Ethos acordou dos seus devaneios, retornando ao momento presente. Pigarreou, como se aprovasse a intuição da colega.
“Isso mesmo, Logos” – falou, num leve desvio de sua postura normalmente carismática e segura de si – “Eles criam um propósito... Um futuro idealizado”
Deu mais um vislumbre sorrateiro nos hologramas à frente. Nem todos haviam um grande objetivo a ser cumprido, isso era fato, mas cada um possuía uma coisa, seja um desejo, um item, um valor, ou até mesmo uma pessoa, que fomentava o porquê de existirem. A sua resiliência em permanecerem vivas, mesmo enfrentando toda sorte de vicissitudes, girava em torno desse algo – desse porquê.
Mas todo porquê exige uma dose de ingenuidade.
Ethos teria respirado fundo, se dispusesse de pulmões – contudo, não os possuía, porque eram aparatos mortais desnecessários à sua sobrevivência. Portanto, apenas ergueu o rosto para o céu estrelado: aquela massa densa e sombria que, a despeito dos atributos macabros, possuía aqui e ali belos feixes de luz, reflexos de identidades já expugnadas. Alguém de coração mais inocente veria traços de esperança em tal imagem, talvez pensando que, como as estrelas, poderia iluminar o breu de uma realidade condenada desde seus primórdios.
Ethos também já haveria pensado dessa maneira, mas isso fora há muito tempo atrás.
À medida que foi envelhecendo, notou que todas as estrelas, grandes ou pequenas, vermelhas ou azuis, deterioravam gradualmente - até perderem seu esperançoso brilho.
Todas as estrelas morreriam um dia. Era esse o lembrete que o céu lhe dava: de que não importa o que Ethos quisesse, o Universo sempre retornaria à completa, mórbida escuridão. E nada, nada poderia ser feito para evitar tal desfecho.
A conclusão de uma história se define no exato segundo do seu começo. Os personagens não podem lutar contra a vontade do autor: e o próprio autor está fadado a um fim.
Após uma longa pausa, voltou o rosto à superfície. Teria de findar o raciocínio.
“Quando o único futuro que temos por certo é o nosso eventual colapso...”
Por intermédio de um pensamento, as memórias à frente se modificaram, dando lugar ao início do Apocalipse que poria fim à história do planeta. Os edifícios, os bosques, os animais - tudo que desse indício de vida, cercado por chamas sanguinárias, facínoras, que chegavam a metros acima do nível do solo, tingindo de vermelho o filme marcado por berros e súplicas.
“Então vemos” – murmurou – “Quão vã é a escolha de se importar com qualquer vida.”
