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Dormitório Ophelia Hall.
Dezembro, 2016.
Enid deixou um suspiro cansado, mas satisfeito escapar-lhe dos lábios quando abriu a porta do dormitório naquela noite de dezembro. Neve caía do céu, e, embora ela não era fosse a maior entusiasta do frio — o calor sempre lhe pareceu muito mais convidativo — ainda sim, naquele dia, lhe trazia aconchego. Era o fim do período letivo, finalmente.
O dormitório estava perfeitamente normal. A janela dividida igualmente, seu lado direito colorido e cheio de vida contrastando com o monocromático de Wednesday. As malas de ambas praticamente feitas, anunciando que, em breve, o dormitório ficaria vazio. Ela sorriu, mas, dessa vez, era um sorriso triste. Nostálgico. Talvez agridoce, até, mas Enid não teve tanto tempo para nomear seus próprios sentimentos quando seus olhos cruzaram a mesinha ao lado da sua cama e escanearam algo que definitivamente não estavam ali quando ela saiu do dormitório.
Era um buquê de rosas. Mas não qualquer rosa; aquelas tinham uma coloração diferente — um tom escuro que ela nunca havia visto antes. Eram hipnotizantes. Lindas. E eram…
“São suas.” A voz inconfundível de Wednesday se fez presente, e Enid piscou duas vezes, dando um sobressalto. Era um comportamento comum a morena sempre aparecer do nada sem avisar, ainda assim, ela não havia se acostumado. Virou-se para finalmente encarar a menor atrás de si, as mãos na frente do próprio corpo e a expressão era… pela primeira vez, Enid não soube decifrar. “Rosas negras podem significar transformações e novos começos em algumas culturas.” Ela falou pausadamente, como quem cataloga um novo conhecimento. Ainda assim, havia um tom pouco conhecido na sua voz. Um que nem mesmo Enid reconhecia. “Achei que fosse apreciar o gesto. Sei o quanto você é adepta a essas… convencionalidades.”
“São… são lindas, Wedns.” Ela se aproximou do buquê pela primeira vez, segurando-os entre as mãos mesmo que a tarefa fosse difícil. Não era simples, muito menos pequeno. Ela deveria esperar algo assim de Wednesday. “Mas eu não estou entendendo-”
“Estive pensando como expressar meus sentimentos para com você nos últimos meses. Sabe que não sou como você.” Ela tentou. “Mas eu-”
Enid não soube dizer as próximas palavras de Wednesday com precisão, não conseguia. Foi como se o resto do mundo tivesse silenciado. Ao mesmo tempo que sentia suas mãos suarem e seu coração afundar no peito, ela chegou a conclusão mais óbvia: as rosas negras significavam novos começos. Os novos começos que Wednesday desejava ter com ela, e não era necessário que Enid soubesse juntar 1 + 1 para saber que aquilo era uma confissão. E deveria ter sido certo. Deveria ter sido o dia mais feliz da sua vida, por que, ela sabia, nutria sentimentos pela colega de quarto há tanto tempo que havia desistido de contar. E agora ela estava ali. Ouvindo — ou tentando ouvir — que seus sentimentos eram correspondidos.
E Enid não conseguiu sentir nada além de puro desespero.
Ela era fraca. Covarde. Estupida. Chame como quiser, naquele momento ela pouco se importava. A verdade era que Enid não estava pronta pra nada assim. Assumir qualquer relacionamento pra ela era simples, desde que fossem com garotos, mas Wednesday? A primeira e provavelmente última garota de que ela já gostou? Não. Não. E não por falta de amor, ela sabia, mas pelo simples fato de não saber se conseguiria assumir isso para a própria família. Não saber se aguentaria a rejeição e o desprezo da própria mãe, coisas que já eram comuns, e, por Deus, ela deveria estar acostumada. Ela deveria pouco se importar, ela deveria saber que nada do que fizesse ia agradar sua mãe. Ela devia ignorar todo aquele resto e aceitar o coração de Wednesday, como ela aceitava o de Enid. Mas ela era uma decepção completa. Sempre fora, sempre ia ser e honestamente não se sentia pronta para nada daquilo. O medo da rejeição ainda era paralisante. E era irônico, desonesto até, que Enid sempre fora o tipo de pessoa que dizia sim mesmo nas situações mais desconfortáveis apenas para agradar terceiros. E agora, justo agora, com a garota por quem ela sempre fora apaixonada confessando seus sentimentos e o sim gritante em seus pensamentos, Enid não conseguisse verbaliza-lo. Talvez, Wednesday fosse muito melhor que ela, afinal, e talvez Enid sequer fosse digna daquele buquê em suas mãos, que, agora, tinham um peso infinitamente maior.
“Wednesday…” Ela mesma se assustou quando ouviu a própria voz em um tom cansado lhe escapar. “Eu…”
“Enid.” Wednesday, por outro lado, entendeu. Ela era inteligente demais para precisar de mais algumas palavras; o tom de Enid deixava claro o suficiente que suas intenções para com seus sentimentos não era positiva. E talvez Wednesday fosse estupida. Fraca. Fraca por se deixar tão vulnerável e entregar, em uma bandeja de prata, seu próprio coração para ser dilacerado daquela maneira. “Parei de falar há cinco minutos.” Seu tom era cortante, mas não menos doído. E isso foi equivalente a uma facada no peito da maior. “Estava esperando você escolher as palavras certas e menos dolorosas, como você provavelmente diria, para me rejeitar.”
“Wednesday, eu não-”
“Não me importa.” Ela cortou sua fala. “Não confessei meus sentimentos para que você os retribuísse, de qualquer maneira.” Era uma mentira. A maior delas. “Contei pois precisava eliminar esse… parasita.” Wednesday não costumava usar palavras e nem mesmo o tom tão cortante assim, não com ela. A menor parecia ter um tipo de doçura reservado a Enid que a loira sempre apreciou em silêncio, e agora, naquele momento, isso parecia ter sumido. A constatação daquilo doeu. “Não é como se isso fosse ser um problema pra nenhuma de nós. O período letivo acabou e nós não precisamos mais nos ver.”
“Por favor, Wednesday, eu preciso que você entenda…”
“Não me peça algo que nem você mesma foi capaz de fazer, Enid.” A morena se moveu pelo quarto, indo em direção às malas quase todas finalizadas. “Não se preocupe em entender, de toda forma. Vou embora essa noite, mas, achei por bem te falar o que eu precisava falar antes.” Complementou, quando seus olhos se voltaram mais uma vez para os azuis tempestuosos de Enid. “Acabamos por aqui.” Ela fechou a mala com certa força, como se aquele gesto encerrasse a conversa. E, de fato, encerrou. O buquê permaneceu nas mãos de Enid por mais alguns segundos quando o barulho da porta ecoou pelo dormitório agora vazio. Não mais vazio que o seu peito, ela pensou quando um sorriso amargo lhe cruzou os lábios junto da lágrima salgada que escorreu dos olhos. Depois mais uma. E mais outra, logo se tornando um soluço entrecortado que a loira deixou escapar enquanto sentava na própria cama.
Talvez o tempo fosse cuidar daquele ferimento e a dor deixasse de ser tão dilacerante. Talvez. Enid não acreditava naquilo, obviamente, mas era a única coisa na qual ela podia se agarrar.
Ela ia ficar bem. Ela ia ficar bem.
÷
10 anos depois.
Enid descobriu que o tempo não apagava algumas coisas e nem tornava algumas dores mais suportáveis.
Só piorava. Crescia. Renovava a cada ano. A dor mesclada com a culpa pareciam tomar conta de todo o seu ser em qualquer época do ano, mas, naquele mês em específico, as coisas pareciam se intensificar.
Faziam 10 anos que ela e Wednesday haviam se visto pela última vez. Enid ainda tinha sonhos desagradáveis com aquela noite. Ainda ouvia a voz de Wednesday ecoar nos seus pensamentos quando disse acabamos por aqui antes de fechar a porta do dormitório. Ainda ouvia a sua própria voz, às vezes, fraca e suplicante no mesmo nível, como se ela sequer houvesse o direito de tentar se explicar. Ela tinha? Tinha o direito de explicar que, na época, não conseguia lidar com a rejeição? Tinha o direito de quebrar o coração do amor da sua vida? Ela não sabia. Talvez nunca soubesse.
Os anos seguintes foram dolorosos. Enid trocou a cidade São Francisco por Nova York, embora a distância física não amenizasse nem um pouco a dor de quando, em um ato desesperado, a loira finalmente se assumiu para sua família. A rejeição fora instantânea, como ela mesma previa, e, mesmo assim, não deixou de doer intensamente. Sua família a renegou imediatamente, com exceção de seus irmãos que ainda trocavam mensagens e ligações com a mesma, ainda que escondido da mãe — que, em um ato raivoso, proibiu qualquer membro da família de manter contato com Enid. Que ironia, ela pensou, por que rejeitar Wednesday há dez anos atrás fora um jeito de se livrar disso. No final, não adiantou. Enid tinha que conviver com a dor de ter quebrado o coração de Wednesday e isso, ah, isso era bem mais doloroso do que a rejeição de toda sua família.
No final, ela constatou que a liberdade de se assumir para sua família era nada mais, nada menos do que sentir falta de Wednesday.
Sua casa posicionada em um bairro mais calmo eram um conjunto de memórias. Haviam fotos estrategicamente espalhadas pelos cômodos — fotos de Wednesday que ela tirava em momentos descontraídos. Fotos das duas, quando Enid praticamente implorava para que registrassem momentos juntas. “Precisamos registrar isso, Wedns! Recordações são importantes”, ela dizia. De fato, eram importantes. A Enid do passado só não sabia o quão dolorosas elas também se tornariam.
Haviam dois dos livros de sua novel nas prateleiras. Enid olhava para ambos com saudades ao lembrar de que acompanhou o processo criativo deles. Ela pensou que, talvez, a personagem inspirada em si no segundo livro — Evelyn — fosse ser retirada após o acontecido há anos atrás. E Enid sentiu o próprio coração afundar no peito ao abrir as páginas do livro assim que comprou e vê-la descrita ali, pelos olhos de Wednesday, anos depois. Aquilo doeu infinitamente mais do que ser apagada.
Observou pelo canto de olho quando seu celular começou a vibrar em cima da mesinha ao lado da cama. Recebia poucas ligações e nenhuma delas era a única que lhe interessava, coisa que a fez soltar um sorriso de escárnio para consigo mesma. Era uma falsa esperança quase — ou totalmente — hipócrita querer que Wednesday lhe ligasse pedindo para conversarem. Oras, Enid, foi você mesma quem a magoou. Ela te esqueceu. Provavelmente não quer te ver nunca mais. E, ainda assim, ela mantinha esperanças. Talvez aquilo ainda a ajudasse a mantê-la sã.
Apanhou o aparelho com as mãos e deixou um sorrisinho escapar ao ler o nome de Yoko na tela. Deslizou o dedo pra cima. “Oi, Yoks.” Ela disse, se repreendendo em seguida pelo tom de voz quase decepcionado. Ouviu um riso soprado do outro lado da linha em seguida. “Desculpa. Você sabe que eu-”
“Eu sei, Eni, relaxa.” O tom de voz da amiga era calmo. “Não é a Wednesday, mas é sobre ela.” Enid imediatamente se endireitou na cama, uma postura mais atenta. “Não sei se você viu, mas…”
“Vi o quê? Aconteceu alguma coisa?”
“Você já sabe que a Wednesday está divulgando o terceiro livro, não é?” Ela começou, respirando fundo antes de continuar. “Ela está viajando para algumas cidades para fazer uma sessão de perguntas e respostas e-” Suspirou mais uma vez. Enid estava com o corpo alerta, o coração acelerado. “O ponto é que ela está indo para Nova York. Esse final de semana, no sábado.”
Era quinta-feira. Quase sexta-feira, ela constatou quando observou o relógio sobre a mesinha e o ponteiro marcava 23:45. Enid sentiu urgência. Sentiu o ar faltar, o coração acelerar e uma queimação na garganta que lhe antecedia um choro engasgado, ela sentia. Respirou fundo antes de responder. “E v-você acha que eu-”
“Eu acho que você deveria tentar.” Yoko cortou sua fala, já deduzindo o que Enid queria perguntar. “Fazem anos, Eni. Dez anos, pra ser mais exata, e você não esqueceu. Não acho que Wednesday tenha esquecido também.”
E ela torcia todos os dias para que não. Para que Wednesday ainda se lembrasse de Enid mesmo que, ela sabia, suas lembranças provavelmente viessem regadas de dor e mágoa. Era um sentimento egoísta preferir que alguém que ela amava tanto sentisse tais coisas do que esquece-la de vez, Enid sabia. Mas não evitava o sentimento. Não evitava nada que viesse de Wednesday, nem mesmo seu ódio, se assim merecesse. E ela merecia. Sabia que sim.
“Eu vou… vou tentar. Prometo, tá? Vou tentar.” Ela disse, antes de finalizar a ligação sem forças para falar. Era irônico. Tudo na sua vida era irônico: Enid se tornou uma pessoa silenciosa demais, introspectiva demais. Falar lhe tirava forças que ela honestamente sequer sabia se ainda tinha, então, se prendia a livros. A músicas que colocava pela casa quando o silêncio — ironicamente — lhe sufocava. Sua companhia era dor. E a culpa.
Essas, ela sabia, jamais a abandonariam.
÷
Enid não havia dormido nas últimas duas noites.
Se revirou na própria cama várias vezes, a sensação dos próprios lençóis lhe pinicando a pele e as lembranças daquela noite de dezembro lhe ferindo como se lâminas tivessem se enterrando na sua própria pele.
“Por favor, Wednesday, eu preciso que você entenda…”
“Não me peça algo que nem você mesma foi capaz de fazer, Enid.”
“Acabamos por aqui.”
Enid lembra daquela noite com clareza. De como os dois últimos dias naquele dormitório sem Wednesday eram difíceis e de como o silêncio a sufocava, lentamente. De como, meses depois do final do período letivo, Enid a procurou pelas redes sociais: nada. Wednesday parecia ter evaporado e não fazia a menor questão de ser encontrada. Não que ela fosse a maior fã de redes sociais, nunca fora, mas, em mais um golpe traiçoeiro da sua própria mente, Enid lembrou-se de quando deu de presente a Wednesday um celular — “Você vai precisar pra conversar comigo quando estivermos longe uma da outra!” — e ela provavelmente havia dado um jeito de se livrar do aparelho. Uma lembrança levava a outra quando a data do aniversário de Wednesday — 13 de novembro, ou seja, cerca de um mês atrás — lhe cruzou a mente e Enid deixou um sorriso de escárnio lhe escapar. Tinha raiva. Ódio, até, de si mesma. Era o décimo aniversário de Wednesday. O décimo que ela não ligava para parabeniza-la, afinal, como ela poderia? Enid não sabe se teria coragem para sequer digitar os números de seu telefone se ainda o tivesse.
Era como se um filme das duas passasse pela sua mente enquanto ela tentava, sem sucesso, fechar os olhos e fazer qualquer coisa que não fosse relembrar os olhos de Wednesday na noite em que se viram pela última vez: dolorosos, cortantes. Não havia raiva, e talvez ela até preferisse que houvesse. A raiva a levaria pra algum lugar. Mas a mágoa, aquela mágoa contida, quase enraizada, era mais cruel.
Enid se lembrou de quando Wednesday a visitou nas férias em São Francisco, quando ainda dividiam um quarto juntas. De quando passeavam pelas ruas, os ombros se encostando voluntariamente, e Enid tinha que fazer força para não observar Wednesday pelo canto de olho o tempo inteiro só pra admirar um pouquinho mais seus detalhes tão hipnotizantes. De quando Enid a convidou para que vissem a um filme em um cinema ao ar livre, e, apesar de ser um dos seus favoritos, ela não conseguia parar de pensar em como a morena era tão linda com aquela expressão carrancuda que às vezes lhe escapava pelo conteúdo colorido demais no filme. Era inquietante. A sensação de tê-la tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe… ela sabia que estava apaixonada. Foi ali, naquele momento, enquanto observava a menor assistir em silêncio — mesmo que odiando — ao filme favorito de Enid a pedido dela, que ela percebeu que estava terrivelmente apaixonada. E, quando pensou que talvez pudesse contornar a situação, descobriu das piores formas possíveis que estava errada.
A manhã chegou em frestas de luz solar pela janela do quarto de Enid, que resmungou ao ouvir o despertador tocar. Não havia conseguido dormir sequer 3 horas completas, e a noite inquietante estava começando a cobrar no próprio corpo. Esticou uma das mãos até o aparelho celular, finalmente silenciando o despertador. Resmungou mais uma vez, o lençol contra o próprio rosto afim de se proteger da luz do sol — coisa que, antigamente, ela apreciaria. Se arrastou para fora da cama em passos lentos, quase parando, enquanto alcançava a cozinha.
O ritual era precisamente o mesmo de quase todos os dias — ao menos, em dias onde o sono parecia não querer vir e a deixava mais cansada que o normal — café. Apoiada no balcão da cozinha com uma xícara de café preto em mãos e um coque quase solto nos cabelos loiros que há muito havia abandonado as mechas coloridas, Enid pensou que realmente parecia ter abandonado o hábito das bebidas excessivamente doces e coloridas que costumava consumir quando mais jovem. Talvez tenha sido o paladar que mudou. Talvez, e dessa teoria ela gostava mais, ela tivesse adquirido o hábito de Wednesday.
Falando nela… Enid deu uma olhada mais uma vez nas informações que Yoko havia lhe dado por mensagem. Endereço, horário, e, claro, a entrada que lhe permitia acesso ao evento. Tocou no celular com as mãos trêmulas, o mero pensamento de que faltavam pouquíssimas horas para ver Wednesday novamente lhe causava um frio na barriga que há muito não sentia. Checou, no canto esquerdo do celular, o horário — passava das 9h da manhã. O evento era precisamente às 17h, então, isso lhe dava tempo. Para pensar. Reorganizar as ideias. Ou talvez dormir mais um pouco, ela pensou, quando sentiu a maciez do tecido de seu pijama junto das suas pantufas quase se infiltrarem em sua pele em um arrepio e Enid bocejou, mais uma vez, em um claro indicativo de cansaço pelas poucas horas de sono. O problema era que fechar os olhos era um convite para Wednesday voltar. Voltar e roubar-lhe os pensamentos como já havia feito todos esses anos, a diferença era que, agora, faltavam poucas horas para as duas estarem frente a frente mais uma vez.
Isso se Wednesday a quisesse por perto.
Vasculhou a galeria do seu celular e, quando encontrou a pasta perfeitamente guardada com fotos da Wednesday ou de ambas juntas, sorriu. Enid fez questão de manter o backup de cada uma delas só para olhar de vez em quando. Então, em um ato pensado, ela abriu a primeira foto. Passou para o lado. E mais uma. E mais uma. Todas elas tinham um padrão: Wednesday vestindo o uniforme costumeiro da escola, a franjinha caindo sobre seus olhos e a expressão indecifrável que ela carregava nas feições. Enid gostava de tentar decifrar. Gostava de ser a única pessoa capaz de entende-la pelo olhar. Ela pensa que talvez seja uma das coisas que mais doeu de se perder, mas então ela lembra dos lábios de Wednesday se curvando pra cima em um meio sorriso só para ela e muda de ideia. Bebe mais um gole do café, o gosto amargo lhe atravessando desagradavelmente quando Enid larga a xícara. Passa mais uma foto; dessa vez, uma das duas juntas. Wednesday tinha os olhos voltados para Enid em uma expressão suave e resignada e ela sorriu com a lembrança do momento da foto.
“Não entendo o porquê da sua fixação por esses registros, Enid.”
“Me culpe por querer manter recordações suas, Wednesday! Vem, só mais essa. Prometo.”
As horas passavam lenta, tortuosamente. 10h. 11h. 12h. 13h. Enid tentou fazer qualquer coisa pra se distrair: ligou a TV, ouviu músicas, vasculhou os livros que tinham na sua estante. Nenhuma das coisas parecia fazer sentido quando, em um estalo, ela lembrava que dez anos da vida dela estariam na sua frente hoje. Então, ela desistiu. Se resumiu a continuar no celular, entre fotos e memórias, até que ela finalmente pudesse tentar despertar com um banho e usar uma roupa quente — o dia havia amanhecido frio como a mesma noite onde elas se viram pela última vez. E, quando as horas finalmente avançaram o suficiente, Enid já estava a postos na porta de sua casa com a chave do carro nas mãos, pronta pra sair. As mãos trêmulas, a boca seca e o pensamento bagunçado onde apenas um se fazia presente e coerente o suficiente como um mantra.
Você vai ficar bem.
÷
Enid chegou ao local do evento faltando vinte minutos para começar, o que lhe deu a oportunidade de conseguir um lugar que ficasse mais escondido do que os outros. Se quisesse falar com Wednesday ao final, ela pensou, teria que garantir não ser vista até tudo acabar. Não sabia se morena fugiria dela, e, quando o pensamento lhe cruzou a mente, concluiu com certa tristeza em um sorriso que não chegava aos olhos que talvez, com toda a certeza do mundo, sim. Ela fugiria.
Ela não percebeu quando seus pés começaram a bater freneticamente no chão e consequentemente ela balançar as pernas — claro indicativo de nervosismo — nem quando suas mãos começaram a suar ou sua boca a ficar seca. E, quando o local começou a encher sem deixar espaço para a entrada de mais ninguém, o aperto em seu peito se intensificou. Enid checou o relógio mais uma vez: 16h55. Ela nem sequer tinha tempo para correr, caso quisesse, então se manteve firme como pôde na cadeira. E agradeceu por fazê-lo, quando, poucos minutos depois, Wednesday foi anunciada sob aplausos.
O mundo pareceu desacelerar por alguns segundos e Enid se amaldiçoou, milhões de vezes, quando descobriu que dez anos não foram o suficiente para apagar seus sentimentos. Amaldiçoou Wednesday por continuar tão hipnotizantemente linda. Suas feições agora eram mais maduras e as roupas monocromáticas continuavam impecáveis, fazendo contraste com a sua pele pálida. Seu rosto apresentava uma expressão cordial, um meio sorriso no canto dos lábios enquanto se sentava em frente ao microfone e se dava iniciado as perguntas. Enid não saberia dizer quantas ou quais foram, sua mente mal conseguia entrar em perfeita ordem quando ouviu a voz da morena pela primeira vez depois de anos. Não havia mudado tanto, também, mas o suficiente para afeta-la. Ela amaldiçoou Wednesday, dessa vez, enquanto encarava as tranças impecavelmente feitas nos seus cabelos negros enquanto a franjinha — maiores nas laterais, coisa que Enid secretamente gostava — adornava suas feições. Ela não era mais a garota que a encarava com os olhos indecifráveis em uma noite de dezembro enquanto confessava seus sentimentos, não mais. Wednesday era uma mulher. Uma mulher linda, autora de um best-seller com uma legião de fãs (coisa que Enid supôs que ela detestava). Uma mulher que provavelmente havia seguido sua vida sem se afundar na culpa. Uma mulher que provavelmente sequer lembrava dela.
Será que lembrava? Será que Wednesday lembrava da vez que Enid chorou pela primeira vez na frente dela, na mesma noite em que se conheceram, e Wednesday em um ato de solidariedade decidiu compartilhar a história de quando perdeu seu escorpião de estimação? Será que lembrava de quando dançaram juntas em um baile da escola depois de Enid insistir tantas vezes? Será que lembrava dos dias que havia passado as férias na companhia da loira em São Francisco? Ela não sabia. E, conforme o tempo passava e Enid sabia que a sessão estava prestes a acabar, seu nervosismo parecia triplicar. Encarou as próprias mãos — as unhas impecavelmente pintadas de cores diferentes, coisa que ela havia feito na noite anterior pela falta de sono — e percebeu que elas transpiravam mais que o comum.
Quando as perguntas finalmente acabaram e a sessão se deu por encerrada, Enid observou Wednesday recolher as próprias coisas a fim de ir embora. A loira paralisou na cadeira enquanto os outros se levantavam, o lugar esvaziando e se tornando mais sufocante. As paredes pareciam se fechar em volta dela enquanto ela via uma escolha diante dos próprios olhos: ela poderia ir embora, afinal, Wednesday não havia notado sua presença. Enid continuaria vivendo sobre a culpa e a dor. Os pesadelos constantes, mas agora mais nítidos depois de vê-la após tantos anos. As fotografias de Wednesday lhe encarando entre os cômodos da casa e o seu celular, que jamais, jamais lhe notificaria uma ligação da mesma. Dizem que o ser humano é um tipo de espécie engraçada; somos capazes de nos acostumarmos até mesmo com as situações mais desconfortáveis e desagradáveis. O conhecido vira cômodo, o cômodo vira proteção e é preciso de uma força quase sobrenatural para sair daquilo.
Enid escolheu sair.
Seus pés fizeram um caminho lento e trêmulo, mas fizeram. Sua voz saiu em um fio sussurrado, quase inaudível se a sala não tivesse silenciosa demais e as duas não estivessem quase frente a frente — embora Wednesday ainda não tivesse a visto.
“Wednesday?”
Enid se amaldiçoou mais uma vez quando prendeu a respiração assim que os olhos negros da menor se voltaram pra ela.
Ela não soube decifra-los daquela vez. Transitavam, talvez, entre surpresa e choque. Mágoa e dor. Wednesday pareceu analisa-la por longos segundos antes de fazer força para falar, com a voz igualmente baixa e sussurrada: “Enid?” Ela piscou uma vez em um movimento errático que pegou a loira de surpresa; sabia que não era do seu feitio. “O que você está fazendo aqui?”
“Eu meio que moro aqui agora. Me mudei tem alguns anos.” Ela explicou, tentando tomar as rédeas do próprio corpo e da sua voz. “Soube por Yoko que você estaria aqui esse sábado e eu…” Observou quando a morena virou o corpo inteiramente pra ela, mesmo que seus braços estivessem cruzados. Era como se ela estivesse interessada no que quer que Enid tinha pra dizer, mas, mesmo assim, se mantivesse na defensiva. “Decidi vir.”
“Por que, exatamente? Não sabia que o conteúdo dos meus livros te interessasse tanto.” Ela estreitou os olhos, parecendo ponderar por alguns segundos quando continuou: “Nada sobre mim pareceu te interessar pelos últimos dez anos, na verdade.”
“Eu te procurei.”
“Eu não queria ser encontrada.”
“Então como você sabe que nada sobre você me interessou nos últimos dez anos?” Ela rebateu, a voz cansada. “Você é tudo o que tem me interessado desde aquela noite, Wednesday. Por favor…” Seu tom de voz tornou-se suplicante. “Eu conheço uma cafeteria aqui perto. A gente pode sentar, conversar, eu só…” Ela tomou outro fôlego para continuar. “Eu preciso disso. Acho que você também.”
Enid estava sufocada com o silêncio que se fez presente nos próximos segundos enquanto Wednesday a analisava meticulosamente. A loira quase conseguia ver as engrenagens da sua cabeça funcionarem, ponderando, analisando, calculando. Típico dela, Enid concluiu com um meio sorriso ao perceber que talvez ainda conhecesse um pouco da menor. Wednesday deixou um suspiro escapar enquanto finalmente quebrou o silêncio:
“Te encontro em uma hora, então.”
÷
Não foi difícil para Wednesday achar a cafeteria da qual Enid havia se referido, ela mesma costumava frequenta-la nos dias que visitava Nova York. Encontrou a loira já ali, sentada ansiosamente sobre uma mesa que dava uma vista ampla para as ruas cobertas de neve.
O tempo pareceu desacelerar pra ela, também. Era óbvio que ela não tinha superado. Talvez nunca fosse. Mas Wednesday aprendeu aos 17 anos que ser vulnerável não valia a pena e que sentimentos eram uma perda total de tempo, então, ela se manteve firme como havia se acostumado a fazer.
“Estou aqui. Como você pediu.” Ela anunciou sua chegada, se sentando de frente para Enid.
A loira se sentiu levemente tonta pelo cheiro de Wednesday que a atingiu em cheio. “Obrigada por aceitar o convite. Eu-”
“O que você quer, Enid?” Ela a cortou de uma vez. “Achei que eu tivesse sido clara quando disse que havíamos acabado, há dez anos atrás.”
Enid respirou fundo antes de continuar. Não tirava sua razão, mas precisava que Wednesday entendesse as suas. “Não acabou. Se você considerasse encerrado, Wednesday, não estaria aqui.”
“Você sabe que eu decido o que-”
“Decide o que quer fazer e quando fazer. Por isso mesmo.” Ela tomou um gole do café preto, o líquido lhe aquecendo. “Você está aqui porque quer.” Ela respirou fundo, tomando a coragem que precisava para falar. “Você não tem ideia do quanto eu me arrependo, Wednesday.”
“Isso não conserta as coisas.”
“Eu não quero consertar. Quero tirar essa dor de mim, Wednesday. Eu só tinha dezessete anos.”
“Não diminui o quanto doeu.” A morena disse, e a confissão atingiu Enid em cheio. “Você não era obrigada a corresponder aos meus sentimentos, Enid, ninguém é. Eu sei disso. O problema foi sua covardia em me recusar por medo da rejeição da sua família. Me diga, valeu a pena?”
A pergunta pairou entre as duas como uma ferida aberta: de fato era uma. Enid repensou todos os anos seguintes — a rejeição da família, o contato esporádico com os irmãos que lhe ligavam vez ou outra escondidos, a reclusão da qual ela escolheu viver. A resposta era simples, clara, na ponta da língua. E Enid estava cansada de fugir. “Não. Não valeu a pena” Ela foi direta. “Me assumi anos depois, Wednesday. A reação foi exatamente o que eu esperava. Meus pais…” Ela engoliu em seco. “Eles fingem que eu morri. Meus irmãos ligam vez ou outra, mas foram proibidos de manter contato comigo.” Suas mãos agora estavam entrelaçadas umas às outras. “Minha vida se resume em desejar, todos os dias, voltar pra aquela noite de dezembro. Porque a rejeição deles doeu, dói até hoje, mas não ter você na minha vida é mais dolorido que qualquer coisa.”
“Não posso me colocar no seu lugar na questão de rejeição, mas acho que…” Ela pigarreou, a expressão um pouco mais suave do que quando ela havia entrado ali. “Acho que posso entender.”
“Eu não quero que você me perdoe de uma vez. Eu não quero que voltemos a ser o que nós éramos antes, isso sequer é possível, eu sei. Você mudou. Eu mudei.” Seus olhos azuis fitaram Wednesday fixamente. “Mas eu gostaria de recomeçar. Wednesday, se você não importasse pra mim, por que eu estaria aqui?” Ela continuou. “Estou aqui porque me importo. E você sabe. No fundo, você sabe, não sabe?” Ela olhou para o porta guardanapos disposto na mesa. Segurando um, ela tirou uma caneta do fundo da sua bolsa (uma bagunça declarada, ela sabia, mas ao menos aquela bagunça havia lhe ajudado agora) e escreveu com cuidado redobrado pra não rasgar o papel delicado. Entregou-o para Wednesday em seguida. “É meu telefone. Eu não sei se você tem um ainda, porque sei que talvez você não seja adepta a essas… convencionalidades.” Ela deixou um meio sorriso escapar. “Você tem todo o tempo do mundo pra pensar, eu entendo. Talvez você se decida agora. Talvez daqui duas semanas. Talvez, nunca.” Ela se levantou devagar, seus olhos nunca abandonando as feições de Wednesday que agora lhe analisavam com curiosidade. “Mas eu não vou fugir de você, nem do que eu sinto. Não mais.”
Wednesday ouviu o sininho da porta, indicando que Enid havia saído dali, e que, agora, ela tinha uma decisão a tomar. Uma que não poderia esperar mais dez anos pra acontecer.
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O caminho pra casa foi mais longo do que o costume.
Enid dirigia com calma, as estradas bloqueadas pela neve a obrigando a tomar um caminho que levava mais de uma hora para retornar ao aconchego do seu lar — mas, ao menos, lhe dava tempo colocar as ideias no lugar.
Rever Wednesday havia lhe trazido mais clareza, talvez. Ela não tinha parado pra pensar no quanto sentia sua falta, mesmo que, agora, Wednesday não fosse a mesma com ela. Ela merecia e sabia disso. Mas, por Deus, como Enid sentiu sua falta. Do seu cheiro. Dos seus olhos. Da sua voz. De absolutamente tudo que se relacionava ela. E era um pensamento egoísta, ela sabia que era, mas queria que Wednesday a escolhesse, mesmo que a própria não houvesse escolhido a morena há dez anos atrás. Ela ansiava por isso.
Sua mente era inundada de lembranças enquanto suas mãos apertavam o volante com um pouco mais de força, um meio sorriso ameaçando adornar seus lábios ao mesmo tempo que o nó na sua garganta se fazia presente. Enid se viu sorrindo e chorando ao mesmo tempo, as lágrimas embaçando sua visão por alguns segundos antes de voltar ao normal. Havia uma espécie de alívio tomando conta do seu coração, uma sensação que ela desconhecia há anos desde aquela noite. Talvez ela dormisse melhor aquela noite. Talvez, finalmente, os pesadelos parassem de lhe atormentar. Talvez os olhos frios de Wednesday parassem de lhe encarar por entre as fotografias espalhadas pela sua casa com tanta mágoa, e talvez, só talvez, elas pudessem ter outra chance. Mas Enid não pôde pensar com clareza o suficiente em nenhuma dessas possibilidades quando, ao estacionar o carro em frente a sua casa, seus olhos escanearam algo que definitivamente não estavam ali quando ela saiu.
Havia um buquê de rosas na porta da sua casa, os flocos de neve caindo sobre as pétalas de coloração escura. Enid já tinha as visto antes, claro que já. A pergunta era como haviam chegado ali — sabia que Yoko mantinha contato esporádico com Wednesday, talvez ela houvesse prestado um certo favor à menor quando lhe forneceu seu endereço. Não seria uma grande surpresa.
Enid se aproximou do buquê com cuidado. Eram hipnotizantes. Lindas. E eram…
Dela.
Se abaixou para segura-los com as duas mãos, o contato do buquê lhe aquecendo imediatamente. Dessa vez, havia um pequeno envelope grudado entre as pétalas. Enid segurou com cuidado, abrindo-o enquanto deixava um sorriso sincero adornar os lábios.
“Sei que, a essa altura, você já sabe o que rosas negras significam. E, de fato, continuo achando redes sociais uma perda de tempo. Mas estarei usando-a ao meu favor como estou agora e te enviando o endereço de um restaurante que conheço por aqui. Quero que se junte a mim, para conversamos, mais uma vez.
W.A”
