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Lorena Ferette odiava se atrasar.
Tinha apenas quinze minutos para chegar ao auditório, abrir os slides, conferir se a apresentação rodava no computador e se preparar para subir ao palco. Mas hoje, justo hoje, o universo parecia estar conspirando contra ela, porque tudo o que tinha planejado estava dando errado.
O trânsito causado por um acidente tinha transformado o percurso de trinta minutos em quase uma hora e, quando finalmente chegou no centro de convenções, percebeu que tinha esquecido a pasta com as anotações no banco de trás do carro. Ou seja, teve que atravessar o enorme estacionamento três vezes.
Lorena sabia que não precisava realmente das anotações. Conhecia a pesquisa de trás para frente, tinha participado de cada parte do estudo e poderia falar durante os quarenta minutos sem consultar uma linha. Mas, mesmo assim, ela gostava de ter suas anotações em mãos. Era um hábito que aprendeu cedo, talvez fosse só mais uma maneira de se manter no controle e, se havia algum assunto sobre o qual ela nunca precisava de anotação, era aquele.
Lorena era neurologista no Hospital Israelita Albert Einstein há anos e, desde o começo, tinha concentrado sua carreira nas cefaleias, sobretudo na enxaqueca. A escolha vinha da residência, onde viu uma quantidade exagerada de pacientes que chegavam ao consultório depois de anos organizando a vida em torno das crises: perdendo compromissos, remarcando viagens e até faltando ao trabalho. Vários deles diziam que a pior parte já não era nem a dor, era o medo, a expectativa de que ela voltasse.
Aquilo foi ficando na cabeça de Lorena e, com o tempo, virou o centro do seu trabalho.
Naquela manhã, porém, nada disso importava mais do que conseguir chegar no auditório pontualmente. No entanto, o universo obviamente tinha outros planos para a sequência de eventos na manhã da médica.
Ela saiu do banheiro, checando o relógio em seu pulso, calculando quantos minutos ainda tinha antes da apresentação, e esse foi o seu erro. Lorena não viu a mulher que vinha na direção contrária e, por isso, não teve tempo de desviar. O impacto não foi forte o bastante para derrubar nenhuma das duas, mas foi o suficiente para fazer com que o café escapasse da mão da desconhecida em direção a sua camisa branca.
Lorena observou enquanto a mancha marrom se espalhava pelo tecido. Por um segundo, as duas mulheres apenas olharam para o estrago.
– Eu não acredito nisso… – Lorena murmurou, mais para si do que para a mulher à sua frente.
– Eu sinto muito! – A desconhecida disse, realmente preocupada com o fato de ter derrubado a bebida nela. Pelo menos era um café gelado.
– Eu vou perder minha apresentação, puta que pariu! – Lorena disse, irritada. – Você não olha para onde anda?
Lorena finalmente ergueu os olhos da camisa e encarou a mulher a sua frente, com os olhos em chamas.
– Foi você quem esbarrou em mim! – A ruiva a sua frente justificou.
– Eu tenho uma apresentação em dez minutos e agora vou chegar atrasada. – Lorena reclamou.
– Eu percebi que você estava com pressa.
– Então por que não saiu da frente?
A médica respondeu, um pouco grossa.
– Ei, relaxa. Foi só um acidente.
Lorena passou a mão pelo rosto. Realmente a discussão com aquela estranha só piorava tudo. Ela olhou de novo para a camisa e sentiu vontade de chorar: a mancha era grande demais para disfarçar e ela não tinha outra roupa, na verdade, ela não tinha nem tempo para tentar solucionar aquele problema.
Os olhos arderam um pouco mais e Lorena sentiu a irritação aumentar. Aquilo era ridículo, tinha passado noites estudando aqueles dados, tinha defendido o projeto diante de bancas e investidores, tinha passado horas em reuniões de sabatina. Não podia chorar por causa de uma camisa.
A desconhecida percebeu a mudança no rosto dela e, em vez de recuar, deu um passo à frente, repousando a mão no ombro de Lorena para chamar sua atenção.
– Respira um pouco. – Ela pediu. – Falta quanto tempo para a sua apresentação?
– Oito minutos.
Ela acompanhou o olhar de Lorena até o relógio, pensando.
– Vem aqui.
Ela puxou Lorena pela mão de volta para o banheiro. Apoiou a pasta de couro que carregava em cima da pia e começou a abrir o blazer.
– O que você tá fazendo? – Lorena questionou.
– Você precisa de uma camisa nova para a apresentação. – A ruiva começou a desabotoar a camisa que usava. – Eu tô usando uma camiseta por baixo que posso cobrir com o blazer.
Lorena a encarou, sem saber se aquilo estava realmente acontecendo.
A ruiva tirou a camisa com cuidado para não amassar o tecido e estendeu na direção de Lorena.
– Veste aí, antes que você comece a chorar de verdade e eu passe o resto da vida me sentindo culpada.
A franqueza inesperada quase arrancou uma risada de Lorena, mas ela estava ocupada demais tentando se recompor. Ela aceitou a camisa e se afastou para dentro de uma das cabines para fazer a troca, sentindo o coração bater um pouco mais forte. O tecido era macio e ficava um pouco largo na região do busto, mas Lorena não tinha outras opções.
Quando saiu da cabine, a mulher a esperava já com o blazer fechado.
– Até que não ficou ruim. – Ela disse, olhando Lorena de cima a baixo.
– Obrigada. Você me salvou.
– Depois de quase acabar com seu dia, né?
Lorena finalmente sorriu.
– Me dá sua camisa, vou tentar tirar a mancha.
Lorena encarou a mão estendida da desconhecida, um pouco hesitante, mas logo cedeu e entregou sua camisa para ela.
– Esse é meu cartão, me procura depois. – A ruiva estendeu um cartão que Lorena nem se deu o trabalho de olhar, apenas guardou no bolso da calça e assentiu, preocupada demais com o tempo que tinha para chegar no auditório.
– O elevador no fim do corredor leva direto para o auditório, é mais rápido. – Ela disse, como se pudesse ler os pensamentos de Lorena. – Boa sorte na sua apresentação.
– Obrigada. – Lorena deu dois passos, mas se virou antes de deixar o banheiro. – Ainda não sei seu nome.
– Eduarda. – A ruiva sorriu de forma doce.
– Lorena.
Ela assentiu uma vez e desapareceu em direção ao elevador.
***
Apesar de todas as intercorrências, a apresentação de Lorena começou com apenas três minutos de atraso. A médica pediu desculpas ao coordenador ao passar por ele durante o caminho até o palco.
Quando conectou o pen drive no computador, o coração ainda estava acelerado. Mas, quando o primeiro slide apareceu, todos os acontecimentos daquela manhã pareciam ter desaparecido.
A doutora Lorena Ferette estava entrando em cena.
Lorena falou sobre a carga da enxaqueca e sobre a diferença entre tratar a dor apenas quando ela aparece e trabalhar para que apareça menos. Explicou como o sono, hidratação, alimentação e estresse podem influenciar a frequência das crises, e falou também sobre como a doença era bem mais complexa do que a velha ideia de que bastava descansar que passava. Falou sobre os mecanismos de ativação do sistema trigeminovascular e sobre o papel do CGRP, um dos peptídeos envolvidos na origem da crise e um dos principais alvos das novas terapias preventivas.
Quando mostrou os resultados preliminares do estudo, a sala ficou quieta. Não pelos números em si, mas pelo quanto ainda faltava para conseguir apresentar resultados nos pacientes com as piores crises. Perto do fim, projetou um gráfico que comparava a frequência das crises antes e depois do início do acompanhamento.
– Quando a gente fala em reduzir dias de enxaqueca, parece que está falando só de uma estatística. – Disse enquanto andava pelo palco, apontando o laser para o gráfico. – Mas, para o paciente, cada dia a menos é um dia em que ele conseguiu viver sem que a dor o impedisse de fazer ações rotineiras. Por isso, o objetivo não é só diminuir a frequência e a intensidade da dor, é devolver a previsibilidade à vida dessas pessoas.
Na terceira fileira, Eduarda escutava tudo atentamente.
Ela tinha entrado no auditório um pouco depois do início da apresentação de Lorena. Seu pai tinha insistido para que ela acompanhasse as palestras. Ela pensou que fosse ser uma manhã chata e burocrática, mas se surpreendeu ao reconhecer, no palco, a mesma pessoa que tinha esbarrado com ela minutos antes. Exceto, é claro, pelo fato de que não parecia ser a mesma pessoa. Não era a mulher aflita, com medo de perder a apresentação que Eduarda tinha visto. No lugar, havia uma médica bem instruída, que falava com propriedade sobre sua pesquisa e sobre uma doença que Eduarda conhecia bem até demais.
As crises tinham começado na faculdade. Durante anos, Eduarda tratou a dor como um incômodo que podia ser ignorado entre um compromisso e outro: se medicava, cancelava o que não conseguia sustentar e pronto. Somente anos mais tarde conseguiu entender que não estava convivendo com a doença, e sim reorganizando a vida ao redor dela.
Tinha meses em que as crises duravam mais de uma semana. Já tinha até descido de um avião prestes a decolar porque a cabeça parecia explodir e abandonado reuniões estratégicas porque a luz da sala tinha se tornado insuportável. Eduarda procurou especialistas e até testou remédios preventivos, mas desistia no meio dos tratamentos por causa dos efeitos colaterais.
Quando Lorena mencionou a palavra previsibilidade, foi como se alguém tivesse nomeado em voz alta o que faltava na vida dela há anos.
Eduarda assistiu a palestra até o fim.
***
Lorena finalmente respirou ao descer do palco, sentindo toda a adrenalina daquele momento alcançá-la de uma só vez.
Rafael, coordenador do projeto, apareceu ao seu lado antes mesmo que ela conseguisse se recompor.
– Lorena, você foi brilhante. – Ele disse ao se aproximar. – Será que você tem um tempinho antes da próxima sessão para eu te apresentar uma pessoa?
– Claro!
Lorena guardou os arquivos na bolsa e acompanhou o chefe até uma sala reservada. Ela sabia que era uma ala específica, que guardava as pessoas com potencial para investimento em seu trabalho. A médica caminhou ao lado de Rafael enquanto falavam sobre alguns detalhes da apresentação até que ele parou perto de uma mesa.
Por um segundo, desejou sinceramente que o chão se abrisse.
– Lorena, essa é Eduarda Fragoso de Albuquerque. – Disse Rafael. – A empresa dela está aqui para avaliar a possibilidade de financiamento da próxima fase do estudo.
Lorena sentiu o coração acelerar. A Albuquerque era uma das maiores farmacêuticas do país, e Eduarda não era uma mera representante da empresa, ela era a dona. Lorena tinha imaginado o diretor como um homem velho e intragável, não a mulher que tinha sido simpática e corajosa o suficiente para tirar a própria camisa para evitar que ela perdesse sua apresentação.
– Oi Rafa. – Eduarda o cumprimentou com dois beijos no rosto. – A gente meio que se conhece.
Ela riu. Rafael olhou de uma para a outra, surpreso.
– Já?
– Sim. – Eduarda estendeu a mão.
Lorena apertou a mão dela, sem saber ao certo o que dizer.
– Então meu trabalho aqui está feito! – Rafael exclamou. – Ferette, você pode repassar os detalhes para a senhorita Fragoso?
– Claro…
– Perfeito, preciso encontrar o Luciano. Já volto!
Quando ficaram sozinhas, nenhuma das duas soube o que dizer. Mas Eduarda não queria que aquele momento fosse constrangedor para Lorena, porque tinha muito interesse na pesquisa da médica.
– Foi uma ótima apresentação.
– Obrigada. – Lorena hesitou. – E me desculpe por mais cedo, acho que fui um pouco grossa com você.
– Foi sim. – Eduarda concordou. – Mas você estava nervosa com a apresentação e eu sei bem como é isso. – Ela deu de ombros. – Nós duas tivemos um pouco de culpa.
Elas riram, um pouco sem graça.
– Me conta mais sobre sua pesquisa, Lorena.
***
A reunião oficial aconteceu apenas duas semanas depois. Lorena esperava perguntas sobre orçamentos, prazos e retorno financeiro. Mas Eduarda não passou nem perto desses assuntos. Ela quis saber quantos pacientes a fase seguinte poderia incluir, em quanto tempo sairiam os primeiros resultados, o que aconteceria se o estudo não confirmasse a hipótese. Cada resposta era anotada e cada anotação gerava outra pergunta. Lorena entendeu que aquele não era o interesse de alguém que está calculando um investimento, mas sim de alguém que precisa de respostas.
No fim da reunião, quando os acionistas já estavam de saída, Eduarda pediu para que Lorena ficasse mais um minuto.
– Eu sofro de enxaqueca crônica. – Disse quando ficaram sozinhas. – Há anos. Já testei quase tudo que existe no mercado, já tentei tratamento com botox e bloqueio de parte do sistema nervoso. Funcionou por um tempo, mas as crises acabaram voltando.
– É por isso que você quer financiar o estudo. – Lorena concluiu.
– É por isso também. – Eduarda a encarou. – Mas eu só vou liberar o investimento com uma condição.
Lorena hesitou por um instante.
– Qual condição?
– Eu quero fazer parte do estudo como paciente voluntária.
Lorena sentiu o ar faltar. Ao mesmo tempo que tinha o impulso de dizer que sim, sabia muito bem as razões pelas quais aquilo poderia não dar certo.
– Eduarda, você vai pagar pela pesquisa. Se você também fizer parte dela, tudo o que a gente medir em você fica sob suspeita. Se der certo, dirão que a gente cuidou melhor da dona do dinheiro. Se der errado, vão dizer que estamos escondendo resultados. E existe uma linha mais dura ainda: quem financia um estudo não pode influenciar na conduta clínica dos participantes.
Eduarda a ouviu sem interromper. Porque já sabia de todas aquelas coisas.
– E se eu abrir mão de qualquer decisão sobre o estudo? O financiamento vai passar pela empresa, em modelo de doação, em um contrato com a instituição. Não estou comprando sua pesquisa, Lorena. Quero usar meu dinheiro para ajudar as pessoas, não para gerar lucro. Se preferir, podemos fazer isso através da minha Fundação.
– Aí talvez seja possível. – Lorena estreitou os olhos. – Você já tinha pensado tudo antes da reunião, não é?
Eduarda riu.
– Talvez.
***
Foram mais de três semanas entre realizar a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa e conseguir as assinaturas para que a doação para a pesquisa fosse recebida de forma lícita. Apesar de toda a burocracia, a ideia de Eduarda funcionou. A Fundação Albuquerque iria financiar o estudo sem ingerência sobre a condução e Eduarda iria entrar como voluntária, se aprovada pelos mesmos critérios que os outros pacientes e sem receber qualquer tratamento diferenciado.
O protocolo do estudo envolvia aplicações quinzenais de um anticorpo monoclonal dirigido à via do CGRP, por via subcutânea, com acompanhamento próximo durante os primeiros seis meses. Na prática, isso significava que, pelo menos duas vezes por mês, Eduarda iria atravessar a cidade para sentar numa cadeira do ambulatório e receber uma injeção das mãos de Lorena.
A primeira vez foi a mais difícil, porque as duas pareciam estar explodindo de ansiedade. Eduarda chegou cedo, preencheu o questionário de frequência das crises e esperou por sua vez. Foi um pouco difícil já que Eduarda usava uma camisa de manga longa mais justa, mas Lorena foi paciente. Dobrou o tecido com cuidado até o cotovelo, limpou a região e avisou a Eduarda que poderia arder um pouco antes de aplicar.
– Nossa, é só isso? – Eduarda perguntou, ajeitando a camisa. Lorena riu.
– Por enquanto sim. – Ela respondeu. – Só tome cuidado com os efeitos colaterais, está bem? Me avisa se sentir muita náusea ou tontura.
– Pode deixar, doutora Ferette.
Na segunda vez, Eduarda facilitou um pouco o trabalho de Lorena. Ela foi ao ambulatório vestindo uma regata preta, deixando seus braços torneados à mostra para facilitar a aplicação. Enquanto Lorena higieniza a pele, ela aproveitou para comentar que tinha tido só cinco dias de crise no mês anterior.
Cinco!
Fazia tempo que não era um número tão baixo. Lorena anotou tudo no prontuário, sem deixar transparecer o quanto aquela informação a agradou.
As aplicações viraram parte da rotina de Eduarda. Eram quarenta minutos durante cada encontro, considerando o tempo de preenchimento do questionário, aplicação e observação, o que, eventualmente, abriu espaço para conversa entre as duas.
Eduarda era tagarela, e não se parecia nada com a imagem de herdeira mimada que algumas pessoas haviam projetado sobre a ruiva. Lorena descobriu que Eduarda tinha assumido a empresa cedo demais depois da morte do pai, e havia passado boa parte da vida confundindo independência com a obrigação de resolver tudo sozinha. Eduarda descobriu que Lorena não sabia cozinhar, mas sabia comer e escolhia restaurantes a dedo quando ia pedir comida ou sair para fazer uma refeição.
– Você já perdeu algum compromisso importante por causa de uma crise? – Perguntou Lorena, em um dos encontros, enquanto preparava a seringa.
Eduarda pensou por um momento. Já tinha perdido muitas coisas.
– Acho que o mais importante foi não ter conseguido me despedir de uma tia de quem eu gostava muito. – Ela suspirou. – Fiquei três dias trancada no quarto escuro, sem conseguir levantar direito, e quando melhorei ela já… – Ela fez uma pausa. – Eu acho que nunca contei isso pra ninguém. Mas essa foi a vez em que eu mais odiei essa doença.
Lorena parou com o algodão a caminho do braço dela.
– Eu sinto muito, Eduarda.
– Tudo bem. – Ela sorriu sem jeito. – A gente não controla isso, né?
– Ainda! – Lorena respondeu, levantando o indicador para enfatizar.
Lorena aplicou a injeção em silêncio. Naquele dia, não sentia apenas a satisfação profissional de ver os números de crise de seus pacientes caindo. Sentia um impulso de tirar a doença de Eduarda – e dos outros, é claro – com as próprias mãos, como se aquela vontade dependesse apenas do seu esforço.
A crise que mudou tudo veio numa quinta-feira à noite.
Eduarda estava sozinha em casa quando começou. No início, foi apenas a aura de sempre, um borrão na borda do campo de visão, sinal de que talvez ela tivesse menos de uma hora antes de a dor se instalar de vez. Ela tomou a medicação de resgate, apagou as luzes e deitou. Mas naquele dia, foi diferente.
A dor veio do lado direito, atrás do olho, e cada batida do coração era repetida dentro do crânio. Depois vieram os vômitos, foi ao banheiro incontáveis vezes durante a madrugada. Por fim, tinha se acomodado sentada no canto do banheiro porque já se sentia fraca demais para voltar para a cama. Quando amanheceu, Eduarda percebeu que era capaz de se levantar sem que o mundo girasse.
Então, sem pensar, ligou para sua médica.
– Você consegue abrir a porta se eu mandar alguém buscar você? – A médica perguntou, preocupada.
– Acho que sim. – Eduarda respondeu com a voz fraca.
– Vai pro Einstein. Eu te encontro lá.
Meia hora depois, Eduarda entrou na emergência amparada, de óculos escuros para amenizar a sensibilidade contra a luz e com a mão apertando as têmporas, buscando algum alívio. Lorena estava esperando por ela. Não era dia de plantão, mas se preocupava com seus pacientes o suficiente para ir até lá.
Eduarda não conseguiu prestar muita atenção no que aconteceu depois que chegou no hospital. Ouviu a voz de Lorena falando com ela baixinho, dando instruções aos técnicos. Sentiu a picada no braço e depois o soro e a medicação entrando devagar. Sentiu a mão de Lorena na testa dela, depois no braço enquanto conferia sua pressão.
– Isso é status migranoso. – Lorena explicou mais tarde, quando Eduarda já estava acomodada em um dos quartos e a dor cedeu o suficiente para que ela conseguisse abrir os olhos sem os óculos. – Quando isso acontecer, você vem pra cá no primeiro sintoma. Foi errado passar a noite sozinha, Eduarda. E se você tivesse um AVC?
– Eu não queria incomodar.
– Você quase desidratou porque não queria incomodar? – Lorena questionou, incrédula. – Da próxima vez, me liga na primeira hora de crise, não na décima.
Eduarda ficou internada sob observação até o começo da noite. Lorena entrava e saía do quarto entre os próprios compromissos que tinha arrumado no hospital já que estava ali fazendo hora extra. Em todas as vezes que voltava ao quarto, conferia o gotejamento do soro, a pressão, a resposta de Eduarda aos estímulos.
Quando retornou no fim do dia, Eduarda já estava mais alerta, quase livre da dor.
– Você não precisa ficar de babá.
Lorena não respondeu na hora. Sentou na cadeira ao lado da maca, e pegou a mão de Eduarda.
– Eu me preocupo com você.
***
A aproximação entre elas não teve um dia específico de início. Foi acontecendo aos poucos, sem que percebessem, sem que prestassem atenção o suficiente para entender o que realmente estava acontecendo.
Primeiro foram as mensagens. Começavam sempre com uma desculpa, uma dúvida sobre o horário da próxima consulta, um artigo que Eduarda tinha lido, uma pergunta sobre algum sintoma e quando percebiam, já tinham passado o dia todo conversando, trocando mensagens até as onze da noite porque nenhuma das duas queria que o assunto acabasse.
Depois foram os gestos. Numa manhã, Eduarda apareceu no ambulatório antes da consulta com dois copos e estendeu um para Lorena.
– O meu é descafeinado. – Disse, diante da sobrancelha erguida de Lorena. – Eu aprendo com meus erros.
– Só cuidado para não derrubar em ninguém.
Eduarda riu, sem conseguir evitar, lembrando do dia em que se conheceram.
E depois vieram as caronas. Eduarda começou a agendar seus horários de aplicação sempre no final do dia por conta do trabalho, como já era quase o fim do turno da médica, ela oferecia caronas para facilitar a vida da morena. Lorena hesitou nas duas primeiras vezes, mas acabou aceitando eventualmente.
Aquilo acabou virando rotina. Tinha dias em que a carona se estendia até um jantar em um restaurante escolhido por Lorena. Em outros, compravam um lanche e comiam no carro mesmo, dividindo a companhia uma da outra.
Lorena percebeu que começou a contar os minutos para as consultas de Eduarda. Percebeu que a ruiva sempre fazia piadinhas bobas para animá-la quando estava tendo um plantão ruim, percebeu que gostava de conversar sobre qualquer coisa com ela e notou que demoravam cada vez mais para se despedir quando ela aceitava a carona.
A fase do estudo avançou. Os dados começavam a desenhar exatamente e tendência que Lorena esperava, mas ela não deixaria ninguém saber daquilo antes da hora. A frequência média das crises dos voluntários do estudo estavam caindo, e isso deixava Lorena euforica. Rafael começou a falar em publicação, na fase seguinte, em ampliar o número da amostra. O que tinha começado como uma aposta de desenvolvimento em um grupo pequeno estava virando uma coisa importante, que poderia mudar vidas.
E, para a felicidade de Lorena, Eduarda melhorava junto.
Os dias de crise durante o mês caíram para quatro, depois três. As auras ficaram espaçadas e ela parou de sentir náuseas durante as crises. Numa das aplicações, contou a Lorena que tinha conseguido ficar num casamento desde a cerimônia até a última música pela primeira vez em muito tempo.
– Você tá apresentando uma ótima reação ao medicamento, Eduarda. – Disse Lorena, com orgulho na voz.
– Eu sei! – Eduarda a olhou. – Mas eu percebi que tem uma parte de mim que não quer ficar boa tão rápido.
– Por quê?
– Porque eu gosto de atravessar a cidade pra te ver.
Lorena parou com a seringa na mão.
– Eduarda… – Ela advertiu.
– E tem outra parte de mim que quer que isso acabe logo para que você não precise ferir nenhum Código de Ética.
Lorena soltou a respiração e negou com a cabeça. Ela aplicou a injeção e nenhuma das duas falou pelos segundos seguintes.
***
Aconteceu em uma noite que não havia consulta ou desculpas. Lorena estava de folga, assistindo sua série preferida quando o telefone tocou.
Era Eduarda.
“Acho que tô tendo uma enxaqueca rebote.”
– Tenta colocar uma bolsa de gelo. Você quer que eu vá aí?
“Lorena, não precisa se preocupar. Só me diz o que tenho que fazer…”
– Chego em vinte minutos.
A ruiva tentou argumentar, mas a médica já tinha desligado.
Vinte minutos depois, Lorena tocou a campainha de Eduarda, carregando a bolsa com os medicamentos. Eduarda abriu, usando óculos escuros, se apoiando no batente. Lorena quase riu, mas viu o quanto ela estava pálida e a forma como o suor se acumulava em sua testa.
A crise não estava começando. Estava instalada.
Lorena levou Eduarda de volta para o quarto, manteve as luzes apagadas e usou a lanterna do celular para auxiliar enquanto aplicava a medicação em Eduarda. Mas já era tarde. Em poucos minutos, vieram os vômitos e, com ele, a fraqueza do corpo. Eduarda teve dificuldades em se manter de pé, mas estava amparada por Lorena. A médica segurou o cabelo dela durante os episódios de vômito, depois ajudou com a limpeza do rosto e a escovar os dentes. Ela ficou ao lado de Eduarda na cama esperando o pico da crise passar, sem pressa.
Quando a dor começou a ceder um pouco, ela ajudou Eduarda a tomar um banho rápido. Não havia nada de constrangedor naquele gesto. Era apenas uma médica cuidando de sua paciente que, naquele momento, não tinha condições de se manter sozinha. Depois do banho, Lorena fez um acesso no braço de Eduarda e pendurou o soro que tinha levado num gancho improvisado na cabeceira.
Já passava das duas da manhã quando Eduarda finalmente pareceu conseguir manter os olhos abertos sem sentir dor. Ela se ajeitou sobre os travesseiros, ela estendeu a mão, segurando o braço de Lorena.
– Fica. Você precisa descansar também.
Lorena hesitou por um segundo, mas estava tão cansada que decidiu ceder. Ela tirou os sapatos e se deitou ao lado de Eduarda, por cima do cobertor, como se aquela distância mínima ainda contasse para alguma coisa. Eduarda se aproximou e ajeitou o corpo contra ela, testando os limites enquanto colocava a cabeça no ombro de Lorena e passava o braço por sua cintura com cuidado para não perder o acesso do soro.
De manhã, não teve conversa. Lorena acordou primeiro, se desvencilhou do corpo de Eduarda e desconectou o soro. Ela deixou um copo de água e uma outra medicação para Eduarda tomar antes do café e saiu antes que fosse tarde demais. Eduarda fingiu que ainda dormia, pensou que fosse mais fácil assim.
As consultas de acompanhamento continuaram como se aquela noite nunca tivesse acontecido. Ainda eram no mesmo horário, toda quinta-feira a cada quinze dias. Com uma única diferença: Eduarda tinha parado de se conter.
– Você fica muito bonitinha quando tá concentrada. – Ela disse, em uma das tardes de aplicação.
Eduarda não respondeu, nem mesmo levantou os olhos do papel, mas o canto da boca e as covinhas afundando na bochecha entregaram a reação de Lorena. Era assim toda vez agora, as provocações de Eduarda eram ditas com naturalidade, como se ela estivesse comentando sobre o tempo.
Lorena respondia pouco, negava mal e voltava para casa pensando naquilo mais do que gostaria de admitir.
As caronas tinham virado hábito. Quando as consultas com Eduarda terminaram tarde, ela se oferecia para levar Lorena para casa, alegando que era caminho – mentira – e Lorena aceitava porque nenhuma das duas queria que o dia acabasse ainda.
Naquela noite, foi diferente. Elas nem sequer jantaram, Eduarda seguiu direto para o endereço do prédio de Lorena e, quando estacionou, nenhuma das duas fez menção de se despedir. Elas se olharam por incontáveis minutos. A tensão entre elas era tão grande que parecia explodir.
– Sobe. – Lorena disse.
***
A conversa que precisava acontecer no dia seguinte não foi fácil, mas Lorena precisou começar porque não conseguia fingir que a parte médica dela tinha desligado.
– Eu preciso te explicar exatamente onde a gente tá pisando. – Lorena respirou fundo. – Existe um artigo no Código de Ética Médica que proíbe o médico de se aproveitar da relação com o paciente para obter qualquer vantagem, inclusive afetiva. E isso pode custar meu registro e acabar com a pesquisa.
Eduarda escutava tudo em silêncio, recostada na bancada da cozinha.
– E, além disso, tem o segundo problema. – Continuou Lorena. – Você financia o estudo. Existe um outro artigo que proíbe deixar o financiador interferir na conduta clínica. A gente montou uma estratégia enorme pra separar seu dinheiro do seu tratamento. Nós temos que tomar cuidado com isso, Eduarda, porque se isso vier à tona do jeito errado, não é só minha carreira e a pesquisa que vão ser prejudicadas. São os pacientes que dependem de mim.
Lorena respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.
– Eu não posso acabar com tudo isso só porque me apaixonei por você.
Lorena disse, sem pensar.
Eduarda, que levava uma xícara de café na boca, parou no meio do movimento. Ela encarou Lorena, com os lábios entreabertos.
– Lorena, você… – Ela tentou devagar. Repousou a xícara na bancada e se aproximou de Lorena, abraçando-a pela cintura.
– Eu tenho medo. – Admitiu, acariciando o rosto de Eduarda. – Medo de que digam que você comprou sua médica para se beneficiar. Medo que digam que estou com você pelo que você tem. Medo de enxergarem só um conflito de interesse.
– Lorena. – Eduarda a interrompeu, subindo uma das mãos para segurar seu queixo. – Eu também tenho medo. E não quero ser a pessoa que vai destruir sua carreira.
– Duda…
– Eu vou sair do estudo.
– Você tá maluca? Eduarda, você não pode comprometer o seu tratamento. Se você ficar sem a medicação…
– Eu não me importo.
– Eduarda…
– Eu amo você, Lorena.
A saída daquele problema, embora óbvia, não foi fácil também.
Foi um movimento administrativo. Lorena passou o caso de Eduarda – e somente ele – para Rafael. Não podia continuar sendo a médica de quem beijava. Com o tratamento nas mãos de outro médico, Eduarda não precisaria abrir mão do que a mantinha bem. Eduarda saiu do estudo como voluntária e levou pessoalmente uma declaração de envolvimento ao comitê de ética. Ela receberia as doses aprovadas do medicamento, mas seus resultados não poderiam mais fazer parte da pesquisa. O dinheiro da Fundação Albuquerque continuaria entrando, mas a uma distância ainda maior dela, com mais gente entre a sua assinatura e o trabalho de Lorena.
No fim, apesar de tudo, essa acabou sendo a solução mais vantajosa.
Com Eduarda sendo tratada por outro médico, Lorena não precisou abrir mão da sua pesquisa.
Nem do amor.
