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O ciclo sem fim

Summary:

A parte de baixo da página estava preenchida com fotos de viagens. À praia, Campos do Jordão, para uma cidade do interior de Minas que no momento Lorena não lembrava o nome, para Espanha, França, Itália, Grécia… Os Fragoso costumavam viajar muito e depois que Lorena se tornou oficialmente uma, no papel, ela passou a ir com eles sempre que Eduarda podia. Uma vez ela tentou ir sem a esposa e voltou duas semanas antes do previsto porque Eduarda chorava copiosamente no telefone todas as noites com saudades. Depois disso Lorena nunca mais viajou para longe sem a noiva.

ou

Lorena revive algumas memórias vendo um álbum de fotos

Notes:

Não costumo escrever histórias tristes e essa não necessariamente é uma, mas deixo o aviso pois pode ser que deixe alguém triste. É melhor pecar pelo excesso.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Lorena se levantou da poltrona e foi até a estante de livros no canto da sala.

Hoje em dia, no auge dos seus 78 anos, esse simples movimento já exigia o auxílio de uma bengala e um esforço irritante e mesmo com as pantufas confortáveis e o chão sem tapetes, era preciso olhar para o chão para não tropeçar.

Sua filha, Cecília, se a visse provavelmente iria gritar da cozinha, onde preparava o jantar, para um dos netos largarem o video game e ajudarem a avó, por esse motivo, a senhora tentava fazer com que o barulho da bengala no piso de madeira fosse o mínimo possível e seus passos os mais suaves que seu corpo cansado deixasse.

Chegando ao móvel, esticou o braço e retirou da prateleira um álbum de fotos de família. Eles geralmente não ficavam ali porque Lorena achava que suas capas grossas e largas não combinavam com os outros livros, mas Eduarda gostava de ver as fotos com frequência, então eles acabavam ficando esquecidos por ali mesmo até uma das duas se lembrar de guardar.

Ela voltou para a poltrona com o que queria em mãos, a missão concluída com sucesso, uma vez que os três netos ainda discutiam entre si pelo jogo que ela tentava acompanhar na televisão e a filha continuava a preparar o jantar.

A primeira página daquele álbum em específico continha algumas fotos de Lorena criança, por volta dos 10 anos. Algumas sozinha, fantasiada de princesa, e outras com a mãe e o irmão do lado. Ela não lembrava muito dessa época, não pela memória falha e sim pelo fato de que esse período era muito atrelado ao pai e ela preferia não ter que lembrar muito dele, principalmente da época em que ele só era bom para ela porque ela obedecia sem questionar absolutamente nada.

Não havia discussões sobre opções veganas, ou a origem animal das peças de roupas; não havia questionamentos sobre o modo como ele falava com a esposa ou como sempre mandava Lorena ficar quieta e comportada enquanto Leonardo podia correr e se sujar à vontade. Ele falava, ela obedecia.

Na página seguinte havia algumas fotos da festa de 18 anos do irmão. Havia sido em uma boate, com Léo cercado de amigos e música alta. Lorena foi embora cedo, não quis ficar para ver o pai embebedar o irmão com whiskey e também não se sentiu confortável quando algumas mulheres de programa entraram na festa como um “presente” dos amigos do irmão.

Depois que cortaram o bolo, Lorena apenas tirou algumas fotos para guardar para a posteridade e foi para casa com a mãe. No dia seguinte, não saiu do quarto até o pai terminar de relatar todos os acontecimentos da noite anterior durante o café da manhã.

Na mesma página, mais abaixo, estavam as fotos de Lorena em uma viagem de um mês pela europa. Elas ocupavam mais da metade daquela folha e a outra página inteira. Lorena lembrava que Santiago quase não a deixara ir com Zenilda, inconformado que a filha não queria uma festa de 15 anos tradicional, para apresentá-la a sociedade. Zenilda também queria a tal festa, mas a jovem Lorena, agora mais pensante e questionadora, se recusou e disse que preferia viajar. Com muita conversa Zenilda convenceu o marido e elas passaram 28 dias indo de cidade em cidade, visitando lojas, museus e tudo que podiam. Lorena, até então nunca tinha sido tão feliz.

Ao virar mais uma folha, os primeiros resquícios de cabelo ruivo apareceram. Na página a sua esquerda, havia uma foto de Lorena na frente da universidade onde cursaria e mais tarde terminaria sua formação em Letras, fora outras fotos de viagens e festas aleatórias de aniversário, todas sem Santiago. Na mesma página, na metade inferior, cabelos laranja se destacavam contra o branco do fundo. Em uma das fotos, Eduarda estava na faculdade, cursando o último semestre da faculdade de direito e havia acabado de ser aprovada no concurso para a polícia civil, em outra era seu primeiro dia na delegacia, ainda como estagiária e outras mais antigas da esposa em algumas viagens com Maitê e Henrique por diferentes partes do mundo.

No lado direito, o ruivo era ainda mais imponente. Ele estava por toda a página, em todas as fotos, sempre ao lado de Lorena, nos primeiros meses em que se conheceram e começaram a namorar. Eram várias selfies, que Eduarda fez questão de imprimir e guardar ali, não confiando totalmente a história de sua vida a um banco de dados. Na época Lorena havia revirado os olhos, mas hoje ela agradece à esposa, realmente era muito bom ter as fotos ali fisicamente, ao alcance das mãos.

As fotos do topo esquerdo da página eram três fotos em barzinhos diferentes. Eduarda beijava a bochecha de Lorena em uma delas, a mão em outra e, na terceira, ela estava com a cabeça encostada em um dos ombros enquanto Lorena beijava o topo da sua cabeça, um sorriso sincero, simples e feliz, que alcança seus olhos mesmo eles estando fechados.

Ao lado havia cinco fotos delas duas no bar onde Lorena costumava trabalhar. Ela estava de uniforme cinza e allstar em todas, mas o sorriso no seu rosto era um indicativo de que ela não parecia se importar, principalmente porque Maggye, Paulinho, Gerluce, os sogros e Zenilda também estavam junto com ela, espalhados entre as fotos em diferentes celebrações. Um aniversário ou a festa de natal em que Lorena teve que trabalhar, a comemoração da volta de Gerluce para a presidência da Fundação, o fim do julgamento de Santiago e a sua prisão.

Leonardo às vezes aparecia por lá também, para conversar, mas não tinha nenhuma foto com ele. Eduarda geralmente fazia cara feia quando ele estava por perto e não ficava tão fotogênica assim.

A parte de baixo da página estava preenchida com fotos de viagens. À praia, Campos do Jordão, para uma cidade do interior de Minas que no momento Lorena não lembrava o nome, para Espanha, França, Itália, Grécia… Os Fragoso costumavam viajar muito e depois que Lorena se tornou oficialmente uma, no papel, ela passou a ir com eles sempre que Eduarda podia. Uma vez ela tentou ir sem a esposa e voltou duas semanas antes do previsto porque Eduarda chorava copiosamente no telefone todas as noites com saudades. Depois disso Lorena nunca mais viajou para longe sem a noiva.

Na página seguinte havia fotos do jantar de noivado. Dos dois. O primeiro em que Lorena conheceu oficialmente os pais de Eduarda e o seguinte com Zenilda presente. Apesar da memória já levemente comprometida, ela lembrava muito bem daquela primeira noite, do nervosismo em conhecer os sogros e como elas comemoraram depois o jantar bem sucedido. Ela lembrava como as mãos de Eduarda seguraram nas suas e não soltou até ter certeza que havia dado a Lorena tudo e mais um pouco, lembrava de dormir somente com as cobertas cobrindo seu corpo e somente o calor de Eduarda para aquecê-la e de como acordou com alguns beijos no ombro nu que subiam pelo pescoço até encontrarem sua orelha e um bom dia ainda cheio de preguiça, mas também cheio de amor.

Ao lado estavam as fotos do casamento. Não todas obviamente, porque havia um álbum de fotos em algum lugar da casa repleto de fotos exclusivas do casamento, Maitê fez questão de providenciar um e Lorena adorava revisitá-lo também, mas nesse que ela estava folheando agora, havia fotos apenas da festa, onde elas dançavam juntas a primeira dança; onde seus amigos e família já tinham tomado um pouco mais de champagne, um pouco mais de vinho, um pouco mais de whisky e alguns já estavam sem o paletó, outros com as gravatas folgadas e as mulheres sem os saltos; onde pessoas que nunca haviam se visto antes dançavam juntas em uma harmonia como Lorena nunca havia visto igual.

Ao virar para a próxima página, Lorena se deparou consigo mesma grávida de Cecília. A barriga não estava tão proeminente assim na primeira foto e ela estava parada na frente do espelho do quarto, vestida para a formatura de Joélly, enquanto a esposa, também pronta para sair, a abraçava por trás, segurando sua cintura com uma mão e a câmera com a outra enquanto a beijava no rosto. Na foto seguinte elas estavam na mesma posição, exatamente um mês depois, agora com roupas mais casuais. Eduarda estava vestida para trabalhar e era o dia de folga de Lorena.

Na terceira foto, e, portanto, no terceiro mês de gravidez, já era possível ver a mudança no corpo de Lorena. A barriga já estava parecendo um pouco de grávida e suas roupas estavam começando a ficar apertadas; no quarto mês Lorena parecia doente, os enjoos eram constantes e a deixavam de mau humor, mas Eduarda insistia em tirar a foto, na mesma posição e com o mesmo sorriso no rosto, mesmo que Lorena não estivesse tão disposta assim; No quinto mês veio uma foto engraçada. Lorena tinha em mãos um bolo de chocolate vegano e ambas estavam de pijama, apesar de  Eduarda estar de botas enquanto ela estava descalça. Isso porque ela havia acordado a noiva às 3 da manhã com desejo e fez Eduarda ir atrás do tal bolo em plena madrugada (Lorena só não se sentiu mal porque uma semana depois, Gerluce fez exatamente a mesma coisa com Paulinho)

O sexto mês teve uma foto diferente. Dessa vez ela foi tirada no hospital depois de um susto. Lorena teve um pequeno sangramento e precisou ficar internada durante alguns dias, no final ela recebeu alta, mas precisava ficar atenta a qualquer sinal de que o bebê não pudesse estar bem e teria que ficar em repouso quase absoluto; O sétimo mês veio com um ganho de peso que fez Lorena se sentir feia e os pés inchados a deixavam com o humor pior que antes, mas Eduarda a beijava e dizia todos os dias que a amava, mesmo se ela fosse uma minhoca.

O oitavo mês passou mais rápido que Lorena lembrava. Agora elas já estavam em uma casa diferente, maior e sem elevadores ou escadas para Lorena subir, o enxoval de Cecília estava todo pronto e arrumado, só esperando a sua chegada, assim como o seu quarto. A foto foi tirada justamente no quarto do bebê, com a mesma pose, os mesmos sorrisos e o mesmo amor; A foto do nono mês já trazia uma Eduarda cansada e uma Lorena mais cansada ainda. Dormir era quase um privilégio desconhecido e a tensão tomava conta das duas, uma vez que sua filha poderia chegar a qualquer momento.

A página seguinte continham fotos de uma semana depois, com  Lorena já na sala de cirurgia, pronta para ter o neném, Eduarda ao seu lado e logo mais abaixo a foto das três, com a bebê ainda coberta com resquícios do parto e a cara de choro das três. Ninguém podia negar que eram mães e filha.

A partir daquele momento, as próximas páginas continham dois indivíduos de cabelos laranjas por foto. Eduarda quase sempre estava carregando Cecília e a tentando fazer sorrir para as fotos, mas a criança nem sempre colaborava. Em algumas, era Lorena quem carregava a filha que dormia em seus braços de modo quase tão confortável quanto no berço, na rede ou no carrinho de bebê, quase, porque a preferência pelo colo de Lorena quando estava cansada e com sono era óbvia. Eduarda dizia que entendia a filha completamente.

Havia algumas fotos de aniversário em seguida, maioria de Cecília mas também alguns de Lorena e outros de Eduarda; outros de Paulo Júnior e mais alguns dos amigos e seus respectivos filhos. O aniversário de dois anos da filha, no entanto, foi bem marcante para Lorena, foi naquele ano que Santiago Ferette morreu dentro da prisão, ainda cumprindo pena, depois de uma parada cardiorrespiratória fulminante.

O aniversário de 10 anos de Cecília foi uma grande festa, com direito a pula- pula, escorregador inflável, piscina e uma quantidade absurda de açúcar para ser consumido. Eduarda parecia ter a idade das crianças que estava supostamente ajudando a tomar conta, participou de todas as brincadeiras com a filha e os amiguinhos, até levou Paulinho, agora delegado, para  meio de uma guerra de balões cheios de água e tinta guache, e Gerluce lhe perguntou, no meio de reporem os doces na mesa, se elas deveriam estar sentindo vergonha dos respectivos cônjuges que eram os únicos adultos da festa correndo no meio das crianças. Lorena devolveu a pergunta, questionou se aquela cena fazia a presidente da fundação amar menos o esposo, quando Gerluce respondeu que não, Lorena disse que ela, então, já tinha a sua resposta. 

A foto daquele dia saiu com os dois policiais completamente cobertos de tinta, igualzinho às crianças, usando braceletes cintilantes que brilhavam no escuro e que Lorena tinha quase certeza que eram coleiras para gato.

A foto do aniversário de 20 anos de Cecília foi tirada com duas pessoas a menos. Zenilda e Henrique já não estavam entre eles, haviam falecido com com três anos de diferença, um pouco depois de do aniversário de 49 anos de Lorena, quando seus cabelos brancos já precisavam ser retocados com uma frequência irritante, mesmo com Eduarda garantindo que ela era linda de qualquer jeito.

Lorena nunca imaginou como seria a vida sem a mãe presente e Leonardo ficou claramente desestabilizado, mas ela conseguiu entender muito cedo que é assim que a vida funciona. Uns se vão, outros nascem e alguns ficam e o ciclo continua para sempre. Sentir saudades era inevitável, chorar era esperado e compreensível, mas a tristeza não tomava conta das lembranças de Zenilda nem de Henrique, principalmente quando Eduarda fazia questão de lembrar deles e de todos seus momentos alegres entre família.

Lorena sabia que a esposa fazia isso, mas ainda assim chorava pela morte do pai uma vez e tantas. Ela também chorava.

Maitê também se foi quase uma década depois. Sua última foto em família foi no natal que todos passaram na antiga casa de Eduarda em Higienópolis. E Maitê ainda conseguiu conhecer o primeiro bisneto.

Com a idade avançada e a aposentadoria e as dores no joelho batendo na porta, o tom ruivo do cabelo de Eduarda já havia se transformado em um quase loiro com mechas brancas e Lorena nunca pensou que sentiria falta de uma cor desse modo.

Apesar de Cecília e dois de seus netos ainda carregarem a cor original do cabelo de Eduarda, era diferente não enxergá-lo na própria esposa. Mas com o passar dos anos, Lorena se acostumou, principalmente depois que seus próprios cabelos também tinham a exata cor branca.

Mais crianças apareceram a mais anos foram passando e mais fotos foram sendo tiradas e Lorena pôde observar, ao fechar o álbum de fotos, que havia vivido quase toda a sua vida ao lado de alguém que lhe ensinou tudo que ela sabe sobre o amor.

O jantar ficou pronto e Lorena foi para a mesa com a ajuda de um dos netos. Depois foi para a cama dormir, à espera de mais um dia que provavelmente lhe exigiria um esforço danado na lombar.

— Boa noite, meu amor. — Ela disse para o nada.

Não houve resposta e mesmo depois de tentar se aconchegar nas cobertas, não era a mesma coisa sem o calor de Eduarda repousando diretamente nas suas costas. 

Já fazia 3 dias que Eduarda se fora. 3 dias sem o amor da sua vida; 3 dias fingindo estar tudo bem, mas chorando sozinha no quarto para não deixar os outros preocupados.

Lorena nunca tinha imaginado chegar nessa parte. Elas duas pareciam eternas e talvez elas fossem. Se Lorena acreditasse em vida após a morte, talvez Eduarda a estivesse esperando em algum lugar.

Ela lembrava todas as noites de algo que Maitê lhe disse depois que Henrique se foi. Que ele tinha que ir primeiro porque não saberia viver sem ela e naquele exato momento, Lorena soube que o mesmo aconteceria com ela e Eduarda. E aconteceu, mas apesar da saudade terrível não havia tristeza, porque Eduarda continuava sendo significado da sua felicidade.

Lorena ouviu uma vez que só haviam duas escolhas na vida: Ser feliz ou fazer os outros felizes. Mas a ruiva de olhos castanhos mais expressivos e doces que ela já conheceu, lhe mostrou que o impossível existe e fez Lorena abraçar as duas opções simultaneamente. Todos os dias.

Sabia que assim que fosse sua vez de partir, encontraria seu descanso eterno mais uma vez ao lado da mulher amada. Então fechou os olhos e sonhou com a esposa. Não os abriu mais e foi encontrar seu amor novamente em alguma constelação longínqua, em alguma estrela de algum universo tão, tão distante. 

Notes:

Obrigado por ler!
Comentários são sempre bem vindos. ( Por favor, sejam educados

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