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Parte recursos escassos do castelo estavam sendo enviados sob escolta para a região Leste do reino, uma vez que foram os mais afetados quando a batalha contra os Escriptas aconteceu. As casas precisavam ser reconstruídas — muitas do zero, os portões precisavam ser reforçados e ainda havia feridos para serem trazidos para a ala médica.
E isso com certeza era só o começo. Só de pensar, a cabeça de Arthur começava a latejar.
— Arthur. — chamou Dante, se aproximando — Você está bem?
— Não.
Ele levantou a cabeça, tirando os cotovelos da mesa de pedra polida e redonda que tomava o centro da sala. A coroa pesada demais para ele carregar na cabeça no momento estava jogada ali depois de escorregar da sua cabeça, já que ele preferia nem vê-la agora.
Dante apoiou uma mão no seu ombro, tentando o confortar mesmo sabendo que era inútil. Um dia, muito antes de Veríssimo desaparecer e deixar o reino mas mãos de Arthur, Dante jurou que ele nunca teria que passar pelas coisas difíceis da vida sozinho. E ele cumpriria sua promessa.
— Vai ficar. Estaremos de volta antes que você perceba.
Arthur se levantou, com um pesado suspiro escapando de seus lábios.
— Não duvido disso. — ele murmurou devagar, dando uma sutil ajustada na túnica preta com bordados brancos e prateados do seu confiável braço direito — Mas tantos morreram… Sua irmã ainda não acordou. O que sobrou de Tristan e da Erin mal foi o suficiente para realizar um funeral. E a Liz…
Com a menção de sua irmã em estado catatônico depois da batalha de um mês atrás, o homem loiro se entristeceu, o óculos escorregando um pouco pela ponta do nariz quando ele abaixou a cabeça devagar.
Ainda considerava dizer alguma coisa, sua mão firme em seu cajado adornado de ervas medicinais enquanto a outra estava estendida em uma quase carícia na barba do homem — quando foi interrompido quando Joui entrou sem avisar, carregando sua espada como uma ameaça.
O olhar dele o julgava. Acostumado com o tratamento do rapaz que consistia em tolerar sua presença com comentários passivos agressivos ocasionais, Dante recuou e ofereceu uma mesura pequena e educada ao Rei.
— Voltaremos amanhã depois da terceira hora, Arthur. Não se preocupe, Majestade.
Joui esperou o loiro sair antes de se aproximar de Arthur. Ali, sem ninguém para ver, eles não precisavam ser formais como o dever exigia, eram apenas dois homens que perderam demais.
Arthur foi o primeiro que se moveu para o abraço.
Joui não pensou duas vezes antes de largar a espada no chão e devolver o ato de conforto.
— Desculpa. — pediu o monarca depois de um tempo, se afastando devagar — Acho que precisava disso mais do que eu pensava.
— Tá tudo bem Arthur… Eu também. — ele assentiu e se abaixou perto de sua espada no chão.
— Qual o problema?
O rapaz mais baixo perguntou ao mesmo tempo que dava um passo mais para perto. Por trás do espadachim, ele contemplou a visão da lâmina apoiada nas mãos dele — a espada sagrada vibrava com a magia poderosa de sempre, desde que Joui conseguiu removê-la da pedra sombria no fundo das cavernas mágicas de um vilarejo chamado Santo Berço. É uma batalha antiga demais para querer se lembrar agora, mas depois de poucos segundos, ele notou um comportamento estranho da magia da lâmina.
Assim que Joui a segurou pelo cabo dourado, espirais pretas como a noite surgiram e se espalharam por toda a lâmina como a maldita peste negra, emitindo uma energia terrivelmente mortal.
— Eu não sei como resolver… — o rapaz admitiu, balançando a cabeça devagar — Desde que aquele desgraçado a empunhou e usou para matar minha mãe… Isso sempre acontece quando eu a seguro.
O ódio dele borbulhava sob a pele, suas mãos tremendo com a intensidade de suas emoções. Toda vez que fechava os olhos, a imagem de Gal Sal e sua covardia desmedida surgiam, com aquele sorriso odioso e suas mãos nojentas em sua mãe.
Arthur respirou fundo, sem ter certeza do que dizer. Se perdesse Ivete, ele não saberia como seguir vivendo, mas Joui de alguma forma ainda estava aguentando. Mesmo tendo que empunhar a espada que ceifou a vida da sua família depois de limpar o sangue dela sozinho.
— Eu não entendo. Isso faz alguma diferença? Algum efeito?
Arthur observou o cavaleiro tremer um pouco antes de se levantar e colocar a lâmina sobre a mesa.
— É mais difícil de segurar. Me sinto fraco se tentar empunhar por muito tempo e também… Não testei a lâmina em alguém ainda, mas não acho que nada de bom pode vir disso.
Ele se absteve de mencionar os sussurros baixos que ele ouvia ocasionalmente, o chamando para a segurar e seus choros de dor. Era terrível dormir ouvindo aquela sons saindo de sua arma.
— Ah, Joui… Isso é perigoso. Acho que você devia deixar ela de lado.
— Não! É claro que não. — o rapaz se virou, os punhos cerrados — A membrana está ficando mais fraca. As fronteiras com os bosques cheios de criaturas estão mais frágeis. Colocar a Excalibur de lado, um de nossos maiores trunfos e até agora a arma mais eficaz contra eles, é pedir para morrer. Não posso deixar. Não quando Kian ainda está à solta.
Arthur deu um passo para trás. Começou a andar de um lado para o outro enquanto Joui atrás dele tentava justificar o uso da arma amaldiçoada, mesmo que a custo de coisas que ele nem sabia ainda. Quem poderia saber o que usá-la por um longo período de tempo poderia causar ao seu portador?
Claro que ele sabia que a espada era importante. Um dos principais símbolos do poder da Ordo, que se fosse perdida, o povo provavelmente perderia o resto da pouca fé. Tanto sofrimento abalaria ainda mais a força da membrana e perturbaria as criaturas, às atraindo para devorar a todos.
— Não posso permitir que você use uma espada amaldiçoada, Joui. Isso não está em discussão. — o homem apontou, usando sua voz séria de monarca — Mas, você tem quatro dias. Quatro dias para descobrir o que tem de errado com ela e quebrar sua maldição. Caso contrário, eu mesmo irei confiscar sua espada. Estamos entendidos?
Não gostava de demonstrar poder para se impor a ninguém, principalmente aqueles que considerava seus amigos, mas sempre o faria se fosse o necessário para trazer a razão de volta à cabeça do espadachim. Era seu dever agora.
A postura de Joui ficou tensa. Ele se endireitou, engolindo em seco a contragosto.
— Estamos entendidos. Darei o meu melhor, Vossa Majestade. — ele ofereceu uma reverência respeitosa, sua voz firme.
Ele sabia que não devia questionar uma instrução tão direta mesmo discordando dela, mas faria de tudo para conseguir descobrir como salvar sua espada e conseguir vingar todos aqueles que se perderam naquela noite. Isso incluía ter que conversar com certos ocultistas que odiava.
Para sua felicidade, ele não precisou ir longe. O clérigo estava em seu pequeno quarto, empacotando algumas ervas, remédios e componentes mágicos em sua algibeira de couro, terminando de se preparar para a viagem ao Leste do reino.
— Olá, Joui. Saudações.
— Não, nada de saudações. — ele o interrompeu, impaciente — Guarde essas suas bobagens pro Arthur. Eu sei o que você é de verdade.
O guerreiro fechou a porta atrás de si com força suficiente para fazer a chama das velas do recinto tremerem e quase se apagarem.
— Você está precisando de alguma coisa?
Dante terminou de prender sua bolsa na cintura, apertando as fivelas prateadas até estarem firmes o suficiente para a viagem, enquanto ouvia Joui. Embora ele soubesse que os seus métodos sempre o deixavam desconfortável, ele acredita que esse não seja a causa de tanta animosidade. Desde milênios a magia existe, incluindo seus meios diversos para obter e usar e o dele não exatamente o mais amigável, porém ele compreende uma coisa — ele chegou em um período difícil antes da batalha contra os Escriptas, e depois disso muitas coisas mudaram.
Sua aposta mais firme, é que Joui inconscientemente e o responsabilize por essas mudanças.
Além do ciúmes, é claro. Ele não pode negar que admira o quão desconfiado Joui é sobre seu elo com o Rei, e está disposto a cuidar de Arthur como puder e cultivar a leve e minúscula confiança que ganhou do espadachim.
— …Estou. — ele admitiu, um pouco desconcertado — Minha espada foi amaldiçoada de algum jeito. Eu sei que isso não é sua especialidade, então é inútil te pedir pra resolver, mas você não conhece algum amigo mágico seu que saiba?
O loiro se aproximou, observando a espada e os arabescos em sua lâmina, se movendo devagar. Dava um pouco de dor de cabeça ficar encarando por muito tempo.
Ele ajeitou os óculos antes de colocar uma das mãos acima da espada.
Joui observou, tenso, o clérigo com seus olhos fechados. A marca em sua testa brilhou mais forte que as velas enquanto ele fazia o que quer que estivesse fazendo — o que, graças aos deuses, não durou muito. Ele abriu os olhos meio de peixe morto de novo e suspirou.
— Conheço magos que lidam com maldições, mas não exatamente em armas. — ele explicou, enquanto se afastava um pouco. Buscou um pano dentro de um baú velho aos pés da cama e depois retornou — E sua espada não é uma comum. É a lendária Excalibur. Nem todo mundo sabe como armas mágicas funcionam e a maioria prefere não se arriscar muito.
— Já sei, já sei. Resumindo, você não vai poder me ajudar.
— Calma, Joui. — o loiro riu, enquanto envolvia toda a lâmina no tecido branco — Eu ouvi falar de um colecionador de armas mágicas antigas que vive recluso em uma parte das florestas ao Sul. Ele abandonou os estudos oficialmente há alguns anos, mas é o único que eu conheço que talvez entenda sobre isso.
Quando a lâmina estava toda escondida sobre o tecido, o clérigo conjurou um pequeno sigilo religioso que Joui preferia não entender e afastou as mãos. A marca desapareceu quase imediatamente, mas o guerreiro sentiu a espada ficar mais fácil de carregar. Os barulhos vindos dela ficaram bem baixinhos e os choros pararam completamente.
— Isso é… Bem útil na verdade. Obrigado, Dante.
Dante sorriu, dando um tapinha gentil na mão de Joui, que tolerou o toque por gratidão.
— De nada. Aqui, — ele buscou um livro na pilha da mesa dele, o entregando um papel dobrado em quatro — um mapa do Bosque Abrolhado.
— Abrolhado? Que diabos isso significa?
Uma batida na porta veio antes que Agatha colocasse a cabeça para dentro do quarto, interrompendo a conversa sem cerimônia.
— Dantinho, as carroças estão prontas. A Princesa Mia disse que temos que ir agora se quisermos voltar antes do sol se pôr.
— Já vou. Obrigado Agatha. — ele assentiu para a menina, vestindo seu manto cinza quentinho, já apressado para sair — Enfim, Joui, eu sei que você vai conseguir encontrá-lo.
— Espera!
Joui saiu atrás deles dois, um pouco atordoado com a falta de informações confiáveis. Um mapa velho e um pouco de fé não eram exatamente a receita do sucesso.
— Esse cara não tem nome ou algo assim?
— Ah. — o loiro riu, como se tivesse se esquecido um detalhe bobo — Kaiser. Me disseram que esse é o nome dele.
— Desculpa, Joui, a gente tem que ir mesmo! Adeusinho!
A moça aprendiz de feitiçaria puxou Dante consigo até a saída principal, deixando o homem para trás no meio dos corredores longos do castelo segurando a espada.
Ele enfiou o mapa no bolso e soltou um longo suspiro.
[. . .]
Depois de quase um dia de viagem, Joui chegou ao Bosque Abrolhado.
E ele descobriu na prática o significado da palavra abrolhado.
— Loiro estúpido, maldito clérigo satanista, quatro olhos infeliz…
Ele desceu do cavalo, que bufou suavemente sob o toque cuidadoso do homem. Ainda resmungando, ele levou o animal até mais perto, a pé.
Dali ficava ainda mais evidente que ele não conseguiria entrar com sua égua amável, a Preciosa, por que toda extensão do bosque pelo menos dali onde ele conseguia ver era cercado por um emaranhado de espinhos pretos. Os galhos cresceram como vinhas, se enroscando nas árvores arbustos e em si mesmos, como uma fortaleza quase impenetrável e hostil.
Em alguns pontos, lindas flores violetas brotavam. O que não aliviava o fato de que se espetar em algum desses espinhos certamente faria alguém se arrepender amarga e dolorosamente.
Maldito Dante e seu mapa sem aviso nenhum sobre a praga espinhenta sombria no bosque.
— Você vai me perdoar, não vai, garota? — ele fez um carinho no pescoço da égua, que relinchou baixinho em resposta — Você é uma boa garota…
Ainda perto da entrada do bosque, um riacho fluía. O homem amarrou as rédeas de Preciosa ali, garantindo que ela teria água para beber e pasto para comer se ele levasse muito tempo para voltar. Felizmente, ninguém tentaria roubar um cavalo da Ordo Realitas, guarda real sagrada.
Ele esperava, pelo menos.
— Sinto muito, Preciosa. — ele murmurou, recolhendo as coisas no alforje do animal, onde ele embalou mantimentos para a viagem — Quando eu voltar, vou te dar cenoura extra, prometo.
A égua parecia estar indiferente observando a paisagem, ao contrário do seu cavaleiro, que agiu como uma mãe galinha por mais alguns minutos antes de finalmente voltar ao bosque de novo.
Decidido, ele rondou os galhos retorcidos com cuidado até encontrar uma brecha. Era um caminho tortuoso, estreito e escuro, mas que com cuidado, ele provavelmente não teria problemas.
Cabiam no máximo duas pessoas espremidas naquele caminho, o que foi suficiente para o espadachim caminhar com o mapa em mãos e sua espada pendurada nas costas sem muitos problemas, desde que ele não fizesse nenhum movimento brusco.. Mas os espinhos mais à frente tinham crescido para cima entre as copas das árvores, o fazendo ter que andar quase curvado — além da luz do sol que era péssima naquele horário, projetando apenas fracos feixes de luz entre as brechas dos espinhos.
Em certo ponto, depois de quase vinte minutos de caminhada, ficou impossível de se ler o mapa pois o sol tinha se posto completamente.
No entanto, os espinhos estavam se tornando menores. Conforme ele avançou um pouco mais, eles diminuíram até desaparecerem completamente em ramos de espinhos menores enrolados nas árvores e nas outras plantas, embora ainda fosse muito fácil se espetar neles, o caminho era livre como em uma floresta comum.
Folhas escuras cobriam as raízes das árvores, o impedindo de ver as raízes claramente. Sem poder ver o caminho direito e com os barulhos nada amigáveis que os animais dali estavam fazendo, o homem decidiu fazer uma pausa e realmente dormir.
Sem cerimônia, ele juntou uma pilha de folhas perto de uma árvore e se ajeitou para dormir abraçando sua espada.
[. . .]
Ele era muito grato pela sua habilidade de dormir em quase todos os lugares, não importava a situação.
— Sai, sai… — ele resmungou para o pássaro muito feio foi o responsável por acordá-lo no dia seguinte, abanando a mão na frente do rosto — Sai, passarinho…
Ele tirou as folhas grudadas do cabelo e algumas gavinhas espinhentas estranhas que cresceram durante a noite e se enrolaram fracamente nos seus tornozelos ao se levantar.
Enquanto bebia um pouco de água do seu cantil e terminava seus alongamentos matinais, o guerreiro repassou mentalmente o mapa. Se estivesse correto, ele estava perto da nascente do riacho e com algumas horas de caminhada na direção do sol passaria por um campo de cogumelos estranhos antes de chegar à clareira onde estava marcado como um dos primeiros lugares possíveis para o tal mago estar escondido. De acordo com uma anotações tortas do clérigo na borda do papel meio amassado.
Com sorte, ele acharia aquele cara ainda hoje.
Mas depois de fugir de um bando de pássaros furiosos, quase ser engolido por uma flor gigante com dentes feitos de espinhos e ganhar uma coceira por causa dos esporos do campo de cogumelos, ele decidiu que sua sorte o tinha abandonado.
As buscas pela clareira não deram em nada também. A única coisa que ele encontrou foram uns insetos, uns macaquinhos de pelo branquinho e muitas flores com espinhos.
Xingou baixinho, se sentando numa pedra para descansar. Quanto mais ele encarava o mapa, mais sentia que o objeto estava zombando dele, mas marcou mais um X em um ponto dele, fazendo as próprias anotações.
Se fosse rápido, conseguiria verificar um lugar antes do final da tarde. Depois ele se lamentaria, quando tivesse esgotado todas as suas opções.
— Chega de descansar. — ele murmurou, pra ninguém em particular — …Antes que eu encontre outro inseto gosmento e- MERDA!
Seu suspiro de resignação foi interrompido brutalmente quando ao pisar em uma parte do chão coberta de folhas, uma corda se enroscou com força em seus tornozelos, o levando para cima. A próxima coisa que ele ouviu foi o baque de algo pesado quando o tronco pesado da armadilha bateu no chão e então uma parte da corda se soltou, acertando uma pedra na sua nuca.
Depois da dor, ele não sentiu mais nada.
[. . .]
A caminhada pela trilha sempre ocorria sem interferências. Ele colhia algumas ervas perto do riacho, desarmava e recolhia seu cesto armadilha da água cheio de peixinhos frescos e pegava algumas amoras nos arbustos antes de verificar se algum animal estava preso na sua armadilha.
Mas o único animal na sua armadilha era um homem crescido vestido como um cavaleiro encantado das canções dos barcos bêbados e carregando um mapa consigo.
— …Ah, deuses. — ele franziu a testa em desgosto — Por que algo me diz que eu não posso deixar esse cara pendurado aí?
O lobo marrom do homem rondou por baixo a figura estranha pendurada, farejando e abanou o rabo uma vez, batendo no chão com força.
Um suspiro estrangulado de estresse escapou de Kaiser pela teimosia do seu companheiro peludo e tirou seu canivete do bolso para cortar as amarras do tronco que mantinham o outro pendurado.
O lobo entendeu a mensagem e se sentou por um segundo. Um amuleto de pingente estranho repudia pendurado em seu pescoço — e assim que o animal pareceu se concentrar, começou a crescer. Quase triplicando de tamanho, o canino uivou baixinho de satisfação, o que fez Kaiser rir.
Neste tamanho, o lobo conseguiu carregar o homem desmaiado nas costas, além de ajudar Kaiser com a bagagem.
— Calma. — ele pediu ao lupino, que interrompeu o seu andar.
Um objeto chamou atenção do moreno, que se abaixou na grama. Uma espada estava jogada no chão, enrolada em algo que cheirava a magia de clérigo.
Ele abriu um sorrisinho, recolhendo a arma e seguiu o caminho feliz por ter encontrado alguma coisa interessante apesar do estresse de ter encontrado outro ser humano.
[ . . . ]
Joui acordou antes de se mover. Verificou discretamente seus pulsos e tornozelos que estavam soltos enquanto sua mente registrava três coisas importantes: uma lareira estava mantendo o lugar quente por que o barulho constante de crepitar da madeira foi a primeira coisa que seus ouvidos registraram, ele definitivamente não estava sozinho pelo barulho da respiração de alguém a poucos passos de onde ele estava deitado e por último mas não menos importante, sua faca escondida na bota tinha desaparecido.
Maldito de quem seja que o revistou e levou suas coisas.
Assim que Joui abriu os olhos, ele se jogou em cima da figura que trabalhava em alguma coisa numa mesa. Ele envolveu o braço ao redor do pescoço do homem abaixo dele, os quadris o mantendo incapaz de se levantar. Com um joelho pressionado dolorosamente nas costas dele, Joui esperava tudo, menos que o homem começasse a hiperventilar.
Tecnicamente, ele estava só o mantendo no lugar, não sufocando.
— Quem é você? — ele sibilou, em vão.
Seu olhar frio perfurava o rosto cada vez mais pálido do homem de cabelos compridos. Ele abriu a boca, os olhos como duas esferas de obsidiana polida arregalados se enchendo de lágrimas de medo, mas nenhuma palavra foi dita.
— Desembucha. Qual seu nome?!
O peito do homem mais baixo começou a descer e subir de forma irregular e suas mãos que seguravam fracamente o braço forte de Joui tentando se soltar começaram a tremer. Quando um barulho agudo e sufocado saiu da garganta do homem, o guerreiro franziu a testa, não entendendo bem o que diabos tinha de errado com ele. Afinal, podia muito bem ser uma encenação ruim de alguém desmaiado ou morrendo.
Quando um tremor violento sacudiu o corpo do homem contido e sua cabeça vacilou para frente por um momento, Joui notou que aquilo estava durando tempo demais para ser fingimento.
— Você tá… morrendo? O que diabos tem de errado com você?
Ele soltou o homem imediatamente,a pouca força que estava usando para manter o homem subjugado sendo retirada de uma vez. Em resposta, ele se encolheu em posição fetal no chão enquanto tossia e segurava a própria garganta com as mãos trêmulas.
O espadachim ficou quieto, sem jeito, parado sobre o tapete bonitinho no meio do cômodo, olhando para as próprias mãos em um momento e no seguinte para o estado ligeiramente deplorável daquele rapaz que agora ele tinha certeza que não era uma ameaça.
— Pelos deuses… — o rapaz murmurou, olhando em volta.
As paredes de pedras claras formavam algum tipo de torre antiga, como uma ruína que parecia ter sido reformada. O piso do cômodo circular era de pedras coloridas, e além de uma parte mais alta com alguns degraus que levavam a uma metade cheia de livros nas paredes. Perto dele, havia uma mesa de madeira cheia de ervas moídas, folhas secas e potes com coisas suspeitas sobre a superfície abarrotada de papeis de anotações e tomos de papiro.
Atrás de si, ele observou uma lareira circular acompanhada do início de uma escada curva acompanhando o formato do lugar que levava até algum lugar para cima e parecia dar em algum corredor decorado com uma cortina de contas coloridas. A porta maior que ele supôs ser a da saída estava fechada estava ladeada por duas janelas fechadas, e a madeira reforçada com detalhes de ferro pintados de preto, assim como os candelabros nas colunas da torre, que iluminavam um pouco o lugar.
Todo contraste entre as pedras nas paredes e pisos e a madeira entalhada das escadas, móveis e estruturas, o faziam sentir estranhamente confortável.
Cansado de assistir impotente, ele se ajoelhou perto do homem que ainda lutava para respirar.
— Calma, respira com cuidado. Eu juro que não queria te machucar de verdade, eu só pensei que…
Honestamente, ele não sabia o que pensou de verdade. Ultimamente, sua cabeça estava cheia de pensamentos violentos, ele estava tão acostumado a esperar o pior, a viver lutando para sobreviver e proteger a si mesmo, a sempre atacar primeiro e perguntar depois, que esqueceu de que ainda existiam pessoas inocentes no mundo que não mereciam esse tipo de tratamento. Principalmente quando Joui estava numa posição vulnerável desacordado pela armadilha e não tinha feito nada contra ele.
— Por favorzinho, não morra…
Devagar, ele fez movimentos para cima e para baixo nas costas do homem que se esforçava para respirar direito. Joui o virou para si, dando respirações lentas e exageradas para que ele seguisse e conseguisse se acalmar
— Eu…Eu…
— Shhh, tudo bem… Eu não vou mais te bater, eu juro.
Ele chegou mais pertinho, o que fez o outro recuar. A porta resistente da entrada se abriu com um chute e um rosnado furioso fez os cabelos da nuca de Joui se arrepiarem com a visão diante dele.
Um lobo de tamanho definitivamente anormal que carregava uma raiz estranha na boca cheia de dentes, estava quase espumando de raiva ao olhar para o espadachim, se elevando diante dele. O guerreiro não perdeu tempo, se colocando entre o animal e o homem deitado no chão.
— Afaste-se, fera maligna! — ele gritou, confiante, apesar de não ter nenhuma arma consigo.
— P-para. Ei, Kosmos… Tá tudo bem…
O homem de cabelos compridos ergueu a cabeça, se sentando no tapete enquanto encarava o animal. Reconhecendo sua voz e o comando, o que Joui jurava ser uma fera faminta prestes a devorar todo mundo ali, se acalmou como um cão dócil de quase dois metros de altura. O animal olhou feio para Joui, antes de soltar a raiz da boca no chão e chegou mais perto do seu humano no chão o cheirando e lambendo afetuosamente.
— Você deu um nome a fera?
— Ele não é bem uma fera, é um lobo do Bosque Abrolhado e meu amigo. — murmurou o homem, se colocando de pé apoiado no lobo, que latiu como se compreendesse e quisesse afirmar também — Você que é o bárbaro aqui…
As bochechas de Joui se tingiram de um tom vergonhoso de vermelho.
— Mil perdões. Eu juro que só queria te segurar, não machucar.
O rapaz se curvou com uma mão no peito ao pedir desculpas e a outra escondida atrás das costas em sinal de arrependimento.
— Meu nome é Joui, Segundo comandante da Ordo Realitas, Exército do Rei de Avalon.
— Rei de Avalon? — ele questionou, baixo — Avalon é um pouco longe. Você se perdeu?
— Claro que não! — rebateu Joui, um pouco ofendido, antes de pigarrear contra o punho fechado e se recompor. — Eu estou em uma missão. Obviamente.
O rapaz cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
— Que missão é essa que inclui você ficar de cabeça para baixo em uma armadilha para coelhos?
O cavaleiro respirou fundo para não começar uma discussão, antes de colocar a mão nos quadris e notar a falta da sua bainha e consequentemente, da sua espada.
— Excalibur! Onde- Minha espada!
— Ah, então é mesmo a Excalibur das lendas… — o outro murmurou, pensativo e se virou para sua mesa, folheando suas anotações apressadamente. Era como se o nervosismo tivesse dado lugar a um estado de curiosidade, o tornando indiferente a todas as outras coisas.
— Você… Você conhece a lenda da Excalibur?
— É claro. — ele respondeu, erguendo levemente o rosto.
Joui piscou, devagar.
— Qual o seu nome mesmo?
— Kaiser.
Os olhos do cavaleiro se arregalaram.
— Você! Era você que eu estava procurando! — com um sorriso largo, ele invadiu o espaço pessoal de Kaiser unindo as mãos em uma súplica exagerada, embora soasse sincera — Por favor, eu preciso da sua ajuda! Me ajude a quebrar a maldição da Excalibur, e eu prometo que você será recompensado!
Um pouco desconfortável e ainda dolorido do golpe de mais cedo, kaisser recuou até se sentar em um banquinho à beira da mesa. Vigilante e hiperconsciente do desconforto do companheiro, Kosmos ergueu as orelhas e abriu os olhos de onde estava, deitado perto da parte cheia de livros.
— E quem disse que eu vou te ajudar? Você tentou me matar.
— Eu já pedi desculpas por isso…
— E além disso, quem te disse que eu podia quebrar maldições? De uma espada lendária, ainda por cima?
Ele abriu a boca para discutir, mas fechou rapidamente. Tecnicamente, Dante só disse que conhecia alguém especialista em armas lendárias, que talvez supostamente poderia, quem sabe, decifrar a maldição na lâmina; e apenas isso. Deu alguns passos na direção da mesa do mago — sua espada estava ali, ainda enrolada no tecido branco, que Joui foi rápido em desfazer o nó — e expôs seu problema.
Ali estava Excalibur, em toda sua glória: comprida o suficiente para ocupar quase a mesa de ponta a ponta, de metal reluzente e acabamento delicado, sem nenhum arranhão embora usada em diversas batalhas. Seu cabo misturava prata e outro em um acabamento cheio de detalhes bem trabalhado e uma joia vermelha na ponta — alguns escritos no cabo eram de uma língua que ele não entendia, que brilharam fortemente quando Joui a retirou da pedra alguns anos atrás.
Mas as marcas sombrias voltaram com tudo assim que o pano se foi. Os sussurros ficaram altos e o choro voltou com tudo, como se a alma de todas criaturas que foram mortas pela aquela lâmina se juntassem em um coro de agonia. Joui engoliu em seco. Kaiser ficou tenso, um pouco surpreso.
— Interessante.
— …Interessante tipo, ah, interessante ou ah… interessante?
Kaiser fez uma careta e ignorou o rapaz e suas falas estranhas. Se afastou da mesa em passos largos até as estantes cheias de livros e começou a sua pesquisa, mesmo que em teoria não tinha se comprometido a ajudar. Por enquanto, só estava saciando sua curiosidade e isso era algo que a muitos anos não o deixava animado.
— …Por que você gosta de viver aqui? É bonito… Mas parece silencioso demais.
O espadachim não conseguiu ficar muito tempo quieto. Andando pela sala como uma criança curiosa, mas sem encostar realmente em erva ou líquido suspeito nenhum, ele tentou puxar conversa para se distrair.
— Eu gosto de silêncio.
— Mas é… muito silêncio.
— As pessoas são barulhentas demais, ambiciosas demais, violentas demais e principalmente curiosas demais. — ele listou, sem se dar ao trabalho de tirar o nariz dos livros — Eu odeio isso.
Joui não se deixou ofender pelo tom amargo na voz do mago. Por um lado, ele compreendia, mas ainda tinha dúvidas se aquele cara era realmente feliz vivendo daquele jeito, sozinho com um lobo estranho que parecia oscilar de tamanho.
— Agora, por que você não me conta como sua espada ficou assim?
— Enfrentei um Escripta, um tipo de Arcanista maldito, leal a Kian. Ele usou minha arma… E ficou assim.
Kaiser ficou em silêncio. A postura descontraída do guerreiro tinha dado lugar a algo mais sombrio que ele não sabia nomear e quem quer que fosse esse Escripta, o mago tinha certeza que nada de bom o esperava quando Joui o encontrasse de novo.
— Arcanista,hein? — o homem de cabelos murmurou, deslizando os dedos pelas lombadas dos livros enfileirados até encontrar o que procurava — Qual arcano?
— Hã?
— Qual arcano o regia? O Escripta?
Joui piscou, encarando o outro como se ele estivesse falando uma língua estranha. Ele encolheu os ombros devagar, o que fez o mago revirar os olhos. Voltando a folhear o livro, ele se sentou à mesa e continuou trabalhando. Joui chegou pertinho para olhar o livro cheio de palavras e gravuras por cima dos ombros do outro.
— Isso significa que você vai me ajudar?
— Não tenho nada de mais interessante pra fazer… Mas não me interrompa enquanto tô trabalhando, por favor.
— Hum, tá bom. E o que eu faço pra ajudar?
— Não toque em nada estranho. Na verdade, não toque em nada. E não fale comigo enquanto estiver ocupado.
— Mas aí… Isso não é exatamente fazer algo.
— O que eu disse sobre falar comigo, Joui? — ele fez uma pausa e ergueu a cabeça, parecendo levemente irritado.
Joui se afastou, mordendo a língua para não resmungar muito alto e ganhar um sermão. Ele saiu, e se sentou nas escadas de pedra do lado de fora com os braços cruzados, sem saber realmente o que fazer.
A torre era um pouco mais alta do que ele pensava. Os tijolinhos de pedra cinza estavam cheios de musgo em alguns pontos onde a agua da chuva avumulava um pouco, e ainda, por cima disso, vários tipos de treliças e trepadeiras floridas envolviam as paredes e uma parte do telhado pontudo vermelho. Ali era um pouco diferente das partes da floresta que ele visitou antes — as árvores do bosque se misturavam a arbustos, e olhando para cima, ele viu grande salgueiro se erguendo por trás da construção, em que glicínias cresceram em seus galhos. Quando o sol batia ali, produzia um lindo tom de lilás sobre todas as outras coisas.
Ele ouviu um barulho suave quando Kosmos saiu atrás dele, parando sentado bem ao seu lado. O olhar dos dois se cruzaram e embora Kosmos ainda parecesse desconfiado e Joui levemente assustado, eles tiveram a mesma ideia para matar o tempo.
— Se você me morder eu vou morder de volta, fica esperto, tá bom?
[. . .]
Depois de revirar quase todos os seus livros sobre os quatro arcanos principais, Kaiser ficou contente de descobrir que aquela maldição na verdade era um trabalho meticuloso do arcano de Morte combinado com o de Conhecimento. Em suas anotações, ele chamava as ocorrências de Morte combinadas com Conhecimento de Memória. Esses fenômenos eram perigosos demais para lidar sem cautela, já que considerava os regentes desses dois inteligentes demais para serem tratados apenas como monstros ou fontes de poder sem consciência.
Alguma coisa foi feita na lâmina, mantendo fragmentos das pessoas que já tiveram suas vidas ceifadas e repetindo frases que talvez tivessem feito sentido para elas um dia. Com certeza era algo perturbador, mas levando em consideração como Joui ficava estranho ao ouvir a espada chorar, ele tinha certeza que era muito mais intenso para ele de algum jeito.
Quase nenhum livro da sua coleção falava sobre maldições. A maioria eram sobre cura, manipulação dos elementos, contratos e estudos sobre os Arcanos e suas combinações e principalmente sobre alquimia. Em suas prateleiras, tudo que achou sobre maldições foi uma edição sobre “Maldições e seus efeitos no corpo” e “Esconjuração vol. II”, das quais ele extraiu informação quase suficiente para pensar em uma forma de fazer a Excalibur voltar ao normal.
Quando estava na segunda linha da terceira tentativa de escrever um feitiço, a porta da frente se abriu com um barulho alto. O susto fez ele se virar com tudo, virando seu vidro de tinta sobre a mesa.
— Voltamos! Hora do rango! — anunciou o guerreiro, que segurava um pássaro estranhamente grande de cabeça para baixo, morto.
Kosmos uivou em empolgação, logo atrás dele.
— Oh, merda… — ele praguejou, tentando salvar o papel da tinta que se espalhava rapidamente, engolindo suas palavras.
Desistiu rapidamente de tentar salvar as coisas, já que provavelmente aquela versão também não ia funcionar.
— Trouxemos o jantar, não está com fome?
O sol lá fora já tinha começado a se esconder atrás das colinas verdes e o candelabro na mesa quase já não iluminava o suficiente com seus pequenos toquinhos de vela, mas o mago não pareceu notar que o tempo tinha realmente voado enquanto o homem caçava.
— Ah, eu… Eu não sinto muita fome. — mentiu, sentindo seu estômago apertar um pouco.
Ele não tinha certeza se queria explicar que normalmente ele esquecia de fazer isso, só para ser visto como o esqusito que era.
Joui era seu contato com outro ser humano em pelo menos uns dois anos. Antes disso, apenas o seu irmão Thiago o visitava de vez em quando, mas depois de tudo, ele aceitou que seu lugar era ali, estudando por conta própria e vivendo afastado dos outros.
— Aqui tem uma cozinha? — o rapaz ignorou o mago, entrando na casa com cuidado para não sujar o chão com o sangue do animal.
Sem esperar uma resposta, seguiu subindo as escadas. Kosmo se animou e saiu pulando, seu tamanho diminuindo um pouco para caber no espaço, e passando na sua frente, animado para mostrar o caminho e participar do jantar. O mago suspirou, e deixou suas reclamações morrerem na sua língua antes de se levantar e caminhar atrás dos dois.
A cozinha consistia em um cômodo pequeno, que ficava no final do pequeno corredor depois de outra escada muito maior que subia em espiral. As paredes tinham poucos condimentos em potes de vidros em prateleiras acima do balcão. Ao lado, um forno a lenha estava desligado, mas parecia em ótimas condições, diferente do caldeirão que Joui tinha visto na lareira do salão principal lá embaixo.
— Quem diria, você realmente tem uma cozinha aqui…
Ele riu, colocando o animal no balcão de pedra para deixar as mãos livres e arregaçou as mangas devagar até os cotovelos.
— Hum, ei, como se lava a mão aqui? Não to vendo água no balde… Eu tenho que buscar lá embaixo no riacho?
Kaiser parou de encarar o antebraço definido do homem e pigarreou, balançando a cabeça um pouco para organizar seus pensamentos.
— Não precisa. Eu tenho um truque…
Uma parte do balcão tinha uma grande bacia de cerâmica polida. No fundo, tinha um mecanismo parecido com um botão cheio de símbolos gravados, que Kaiser girou para a esquerda — e a parte redonda tinha um anel externo e um interno que não se movia, girou, alinhando as inscrições até formar um padrão. Água fluiu dele, e encheu o recipiente devagar, fazendo o espadachim recuar até bater na mesa atrás dele, o que fez a cesta com verduras e ervas frescas sobre ela balançar.
— O que- Que isso? Magia?
— Exatamente.
— Não sabia que magia podia criar água do nada!
Kaiser riu da ignorância do homem pálido e incrédulo.
— E não cria. — ele segurou ele pelo braço, o puxando para espiar por uma janelinha — Tá vendo o riacho lá embaixo? Tem uma inscrição nas rochas do fundo dele igual a este, que faz fluir a água entre um símbolo e outro.
— Tipo… Um portal?
— Tipo isso. — ele assentiu — E se girar os glifos para a direita, vai formar um diferente, conectado a outro lugar e vai levar a água para lá e esvaziar a bacia. Entendeu?
Joui assentiu devagar, abrindo um sorriso largo. Era muito bonito ver o mago empolgado, explicando como suas invenções funcionavam.
Depois disso, os dois começaram a trabalhar no animal morto, limpando e preparando a carne para o jantar.
Joui era muito habilidoso com láminas. Cortar a carne em cubinhos, e as verduras em cubinhos ainda menores não foi um desafio para ele — na verdade, ele pareceu estar se divertindo. O mago riu das suas piadas idiotas, das suas histórias de batalhas mirabolantes e de tudo que o outro homem dizia, enquanto ele se ocupava cuidando da lenha e atiçando o fogo até chegar na temperatura ideal.
— Eu juro! Ela dormiu na escada mesmo, toda torta. Ninguém teve coragem de tirar ela dali… — ele riu, colocando as verduras dentro da panela ao deslizar a faca pela tábua de corte.
— Sua mentora parece muito legal. Vocês tem uma ligação linda, Joui.
Algo no olhar do rapaz mudou, e Kaiser franziu a testa, nervoso de ter dito algo errado. Era sempre assim. Ele era bom em ler as pessoas as vezes, mas era terrível em decidir o que dizer — o que sem querer o tornava uma pessoa calada demais, sempre pensando várias vezes antes de dizer algo. Com Joui, por algum motivo, parecia natural e ele cedeu o velho hábito de revisar suas palavras antes de gaguejar algo nada natural. Parecia tudo bem, exceto agora, por que o homem parou no meio do caminho com a faca no ar.
Quando o silêncio se arrastou e os olhos de Joui ficaram cheios de lágrimas, ele teve um pequeno surto interno.
— Eu- Desculpa! Eu não… — ele se interrompeu, sem saber exatamente o que tinha errado e deu mais um passo à frente — Sua história foi linda e divertida, não me entenda mal eu só… Eu não sei… Ah.
Em nada serviram suas palavras, por que o outro parecia prestes a chorar como uma criança, olhando para a sopa em preparação, então ele arriscou um movimento perigoso que definitivamente não era um especialista: um abraço.
O corpo tenso de Joui se encaixou bem nos seus braços apesar da clara falta de experiência que o mago tinha. Com a mão trêmula de nervosismo, ele fez carinho na cabeça dele, e o espadachim aceitou, afundando o rosto no ombro dele e soltando a faca.
Joui respirou fundo várias vezes, tentando fazer as lágrimas voltarem.
Era tão recente, uma verdade tão frágil, que ele constantemente se pegava falando de Liz como se ela ainda estivesse lá e todas as vezes que sua mente o lembrava que ele nunca mais ia vê-la ou abraçá-la ou ouvir seus conselhos, uma vontade de chorar quase indomável tomava seu peito.
— Sinto muito… — o mago tentou, outra vez, se sentindo péssimo.
— Não, não… Eu que sinto muito. — Joui recuou a contra gosto e Kaiser pareceu um pouco decepcionado por ter perdido o calor dos seus braços — Eu acabei fazendo uma cena… E te constrangi. Desculpa.
— …Foi algo que eu disse?
O guerreiro recuperou a faca e terminou de despejar os ingredientes na panela funda.
— Não, ela apenas… Ela foi morta. Faz um mês, mas eu às vezes esqueço.
Kaiser engoliu em seco, assentindo. Os dois terminaram de colocar o ensopado no fogo em silêncio, até que Joui falou de novo.
— Eu te deixei desconfortável, não é? Sinto muito mesmo…
— Não precisa. Está tudo bem, eu esqueço disso.
— Do quê exatamente? — ele arqueou uma sobrancelha, os olhos ainda vermelho enquanto eles dividiram o espaço do balcão para lavar os utensílios sujos.
— De como as pessoas funcionam, às vezes. — o mago respondeu, sem hesitar — De que as vezes as pessoas são imprevisíveis.
— Por causa de que você vive aqui, né? Não tem ninguém por perto.
O mago não precisou verbalizar uma resposta para confirmar a dúvida do outro, e por algum motivo, Joui sentiu um aperto no peito e quanto alguns minutos atrás.
— Mas isso não é triste?
— Não. Eu não quero conhecer ninguém. Não quero perder mais ninguém. Não quero me decepcionar.
— Se você nunca conhecer ninguém, é fato que nunca vai se machucar, mas também nunca vai se permitir ser feliz, Kai.
Foi a vez dele parar o que estava fazendo. Estava pondo a mesa, um hábito que para ele era tão estranho quanto sair na chuva só usando chapéu, mas então parou, deixando os talheres fora do lugar.
Kaiser fechou os punhos com força, encarando um ponto qualquer do chão.
— Eu não sirvo pra isso… Para ter pessoas comigo.
— Então porque você tem sido um ótimo anfitrião desde que cheguei? Você me resgatou, está me ajudando sem eu oferecer nada em troca, me deixou usar sua cozinha e me deixou te abraçar. Até riu das minhas histórias e da exibição das minhas habilidades na cozinha.
Joui se aproximou mais, o segurando pelos ombros com uma leve chacoalhada. Kaiser olhou o rapaz nos olhos, já tremendo um pouco.
— Só porque deu certo com você não significa que com os outros vai ser também. Não seja tolo.
— Exatamente. — Joui sorriu como se estivesse falando sobre arco íris e não sobre desastres nas interações entre pessoas — Só quando dá errado é que você vai poder acertar.
O mago desviou o olhar, sem ter certeza de como responder isso.
— Pode ser fácil pra você, mas na minha cabeça é tudo muito mais complicado… Eu fico revivendo tudo que eu fiz de errado sem parar e vira uma tempestade na minha cabeça e- Eu não consigo, Joui, eu não consigo.
— Você vai conseguir, não se preocupa. — ele se inclinou, encostando a testa na do outro — Respira fundo, pra você não quase desmaiar de novo, ok?
O toque de Joui funcionou como uma âncora, o mantendo focado em respirar fundo e nada além disso. Aqueles olhos bonitos e brilhantes pareciam preocupados — preocupados de verdade — com ele e o sentimento desconfortável de ter pessoas se preocupando com ele se acalmou um pouco.
Não era uma preocupação sufocante e ansiosa, era calma, compassiva. Não havia pena ou desprezo no toque gentil do espadachim nos seus ombros.
Joui tinha a impressão de que ele ainda não se permitia acreditar no que ele dizia, e o pensamento não o incomodou.
Primeiro, ele só queria seguir sua intuição e ajudar o mago a se acalmar.
[. . .]
Quando o mago finalmente se acalmou, a sopa no caldeirão já tinha começado a ferver.
Como ainda levaria uma hora para tudo estar devidamente pronto, Kaiser aproveitou para voltar a tentar escrever o feitiço de esconjuração, com tinta nova e papéis limpos.
— E eu? — perguntou Joui, com aquele olhar que deixava Kaiser derretido.
— Você- Você vai tomar um banho. — ele resmungou, tossindo para limpar a garganta — Vai lá no riacho e não volte até não ter mais terra nos seus ouvidos e nem mais sangue sob as unhas.
— Sim, senhor, milorde.
Joui fez um sinal exagerado de cumprimento do exército e saiu rindo, levando uma toalha limpa que Kosmos conseguiu para ele e nada mais.
O ruído do bico da sua caneta era o único barulho audível na sala, deslizando calmamente pelo papel, com mais fluidez do que antes. Sem a tensão estranha nos ombros depois de tantas tentativas frustradas, seus pensamentos começaram a se tornar muito mais claros.
A primeira parte do seu feitiço, consistia em simplesmente dissipar a influência de Conhecimento da maldição, já que tentar acabar com a influência de morte e de Conhecimento era inútil — o arcano de Energia que supostamente tem mais força contra o de Morte apenas seria anulado pelo de Conhecimento, ao mesmo tempo que se usado junto ao de Sangue para anular o de Conhecimento, o de Morte o anularia.
Assim, no fim um acabaria anulando o outro.
Depois de quebrar a cabeça, ele conseguiu escrever algumas linhas de feitiço para isolamento que funcionaria para agir apenas em uma das partes, que ele decidiu ser a de Conhecimento por simplesmente conveniência. Ele era um mago com afinidade em Energia, afinal.
— Finalmente… — ele suspirou de alívio, encarando a página com o glifo e o encantamento pronto ocupando quase toda página — Agora eu só preciso lembrar de onde guardei minha caixa de giz.
Revirou algumas gavetas da mesinha antes de mudar sua busca para o grande baú do canto, revirando o caos lá dentro.
Um puxão suave em sua roupa tentou o distrair da sua tarefa.
— Agora não, Kosmos, tô procurando uma coisa.
O lupino não desistiu e passou a usar seu docinho para cutucar insistentemente suas costelas.
— É sério, amigo, estou a um passo de consertar a espada do Jo-
Ele se calou imediatamente.
Olhou para a janela, vendo que a escuridão já tinha dominado o bosque.
Havia se passado tempo demais, mesmo para um banho demorado.
Deixou a busca pela caixa de giz completamente de lado e se enrolou em seu manto antes de sair com apenas uma lamparina nas mãos para iluminar seu caminho. Kosmos o seguiu carregando a balestra e a aljava do homem na boca, que na pressa ele parecia ter esquecido.
Uma vez lá fora, ele seguiu a trilha estreita e desceu com cautela todo o caminho, atento a todo barulho que podia lhe dar uma pista do paradeiro do homem, mas no final do caminho tudo que ele encontrou foi uma pilha de roupas molhadas e um sapato esquerdo.
O lobo se inclinou, cheirando o sapato dele por um instante antes de sair farejando o chão até encontrar a trilha do cheiro de Joui. Kaiser não hesitou em seguir atrás dele, mantendo a lamparina mágica pendurada em um dos ganchos no seu cinto e sua balestra engatilhada apenas esperando por um alvo.
Os dois não precisaram caminhar por muito tempo.
Foi o cheiro de sangue que os alertou primeiro, muito antes de a cena surgir diante de seus olhos.
Pelo menos meia dúzia de corpos estavam no chão, de forma definitivamente não natural, com a terra sob eles tingida de carmesim. Os corpos dos porcos selvagens estavam quentes, ele verificou, a maioria mortos por um único golpe na cabeça ou pescoço — exceto dois maiores, que pareciam ter sido estripados com uma lâmina.
Estes, olhando mais de perto, fizeram o estômago de Kaiser se contorcer de preocupação, já que mesmo mortos, suas garras e dentes estavam manchados de vermelho e Kosmos rosnou baixo ao reconhecer sangue humano.
Kaiser ficou alguns passos para trás, suas costas coladas num tronco de uma árvore alta, cobrindo o lupino preto que seguiu na frente, farejando e investigando a entrada de uma caverna coberta de cogumelos e espinhos. Um ruído selvagem saia lá de dentro, que o magoo reconheceu um javali ainda maior, provavelmente o líder da manada agora morta, ao se aproximar mais.
Ele andava de um lado para o outro, bufando, rosnando e espumando pela boca, formando o rastro de sangue na entrada do lugar, que pingava das suas costas cheias e feridas abertas, uma delas até com uma faca presa na carne.
Kosmos mostrou os dentes, assumindo uma posição nada amigável. O javali reconheceu o outro, mas se recusou a se afastar e os dois animais começaram a circular um ao redor do outro devagar, sem piscar, apenas esperando que o outro se atrevesse a se mexer primeiro.
Foi a distração que o mago precisava para mirar com precisão. Sua flecha com runas do Arcano de Energia foi certeira — basicamente atravessou o olho da criatura. O pensamento sombrio sobre o que aquele animal madito provavelmente tinha feito com Joui foi motivação para disparar outra flecha, no outro outro olho, espirrando o cérebro nojento no animal na parede antes sequer do corpo bater no chão.
Ele teria repreendido a si mesmo pela violência desnecessária, se ao menos tivesse parado para olhar o corpo do animal. Mas seu foco já tinha mudado completamente agora que a ameaça tinha sido neutralizada.
Com a lamparina em mãos, o mago a ergueu mais alto, despejando sua luz pálida no interior da caverna.
O espadachim o encarava, os olhos frios e a expressão apática, mesmo na posição que estava — nu, encolhido contra o fundo da caverna ao lado do cadáver desfigurado de outro porco selvagem, segurando uma pedra ensanguentada em uma das mãos apesar de estar quase coberto de sangue por completo.
Ele não sabia onde o sangue de animal acabava e o dele começava. mas pelos buracos no ombro e o rasgo fundo em sua bochecha, ele tinha certeza que ele só estava consciente por pura força de vontade. Felizmente, a expressão dele amoleceu quando Kaiser se aproximou um pouco mais, e ele largou a pedra no chão, a permitindo rolar para longe.
— Você me assustou. — foi tudo que a voz tensa de Kaiser conseguiu colocar para fora. Ele já estava chorando e nem tinha certeza do porque, com todos seus sentimentos se revirando na sua cabeça — Pelos deuses, Jou, você me assustou demais.
Sem hesitar, envolveu os braços trêmulos ao redor do pescoço do homem em um abraço desesperado e meio desajeitado. Joui não conseguiu reunir forças para retribuir, mas se permitiu deitar a cabeça no peito dele e fechar os olhos.
— Desculpe. — ele murmurou, sentindo a consciência escapar de si — da próxima vez, vou esperar você consertar minha espada antes de sair…
[. . .]
O cheiro de ensopado quente foi a primeira coisa que sua mente nebulosa registrou. Ele sorriu com o deixando engraçado de estar de novo naquela situação em menos de um dia, e seu sorriso só ficou mais largo ao notar uma coisa diferente desta vez — uma mão quente segurando seus dedos calejados.
Kaiser não conseguiu pregar os olhos. Passou a noite limpando e dando seu melhor com o que tinha para que o rapaz não morresse de perda de sangue ou pior, de infecção — e mesmo assim, por não ser um especialista em feitiços do Arcano de Morte ou Sangue, tudo o que conseguiu fazer foi bem improvisado. Ele definitivamente não era médico.
Ao menor movimento dos dedos de Joui, ele ergueu a cabeça, tenso. E se tivesse feito algo errado? E se tivesse batido a cabeça dele no chão no caminho de volta? Ou talvez fritado o cérebro dele com magia acidentalmente enquanto fechava suas feridas?
— Ei.
Ele soltou a respiração que estava prendendo, finalmente sorrindo. Sua mente se acalmou um pouco ao ver ao ouvir a voz suave do homem deitado, um único olho descoberto o encarando com expectativa.
— Desculpa.
Uma ruga de preocupação surgiu na testa do mago ao ouvir o outro se desculpar do mais absoluto nada.
— O quê? Pelo quê?
— Quase decepcionei você. — ele respondeu devagar — Quando fiquei encurralado na caverna, eu só conseguia lembrar daquela nossa conversa… Sobre não querer perder as pessoas.
— Você não me decepcionou, Joui. — Kaiser rebateu, sua voz repleta de indignação.
— Mas foi quase. — Joui fechou o olho, tocando levemente o lado direito do rosto que estava coberto de bandagens — Eu seria um hipócrita querendo que você parasse de se isolar morrendo tão cedo.
Kaiser deixou o silêncio preencher o espaço entre eles.
Havia, até o momento, um apelo não dito pela parte do espadachim. A imprevisibilidade da vida, por mais dolorida que fosse, tinha lhe dado um presente que nenhuma quantia em moedas de ouro poderia comprar — alguém precioso na sua vida.
Ele não se lembrava da última vez que segurou a mão de alguém ou ouvido a batida do coração de outro ser humano, nem tinha se dado conta do quanto tinha se acostumado a falar sem receber nenhuma resposta. Todas essas coisas preciosas e lindas, vieram acompanhadas de frustração, lágrimas, preocupação e também um pouco de angústia.
Doía se relacionar. Mas a dor surda e dormente que o levou a se manter preso no casulo da solidão que ele construiu para si mesmo todos aqueles anos, talvez doesse mais ainda.
— Você realmente está sendo sincero, Joui?
O olhar dos dois se encontraram de novo, desta vez, sem esperar nada um do outro.
Os dedos ásperos do homem seguraram com um pouco mais de força a mão do mago, sem hesitação.
— Estou. Não sei explicar, mas quero te dar a chance de conhecer como é estar rodeado de pessoas que te amem. — ele se sentou, devagar.
— …Entendo.
Kaiser se levantou, desaparecendo do campo de visão de Joui por um breve momento, antes de retornar carregando a Excalibur em mãos. A lâmina refletia fracamente a luz do sol que entrava pelas janelinhas da sala, expondo as espirais em toda a sua extensão. Diferente de antes, porém, não havia nenhum barulho, nenhum sussurro, nenhum peso. Era apenas sua espada normal, apesar das espirais.
Joui encarou a espada colocada em seu colo, confuso.
— Considere um bônus. Está um pouco mais perigosa agora. — o rapaz de cabelo — Em agradecimento ao que você fez por mim.
A confusão no rosto do outro aumentou ainda mais. Duvidando seriamente da sua capacidade mental, ele coçou a nuca, se perguntando se estava alucinando um pouco por causa da perda de sangue.
— O que eu fiz por você? — ele repetiu, sem entusiasmo.
— Me lembrou de que para ter coisas boas na minha vida, preciso assumir o risco de deixar as coisas ruins entrarem também. — Kaiser sorriu, acompanhando o rubor que surgiu no rosto de Joui — E por isso, você sempre terá minha mais sincera gratidão.
Joui riu baixinho, desviando o olhar para o lado.
O mago deu um beijinho na bochecha dele, bem leve, antes de se levantar. O ensopado estava finalmente pronto, afinal.
