Chapter Text
Quando Carney Chukwuemeka chegou ao Dortmund, Jobe mal prestou atenção.
Soube primeiro pelo grupo do time, depois pelo anúncio oficial do clube e, por fim, por Carney em carne e osso, parado no vestiário enquanto alguém tentava descobrir qual armário ainda estava vazio.
Ele parecia exatamente como Jobe esperava que um jogador recém-transferido parecesse: um pouco deslocado, excessivamente simpático e cercado por gente fazendo as mesmas perguntas que provavelmente já tinha respondido umas quinze vezes desde que desembarcara na Alemanha.
Quando finalmente conseguiu se desvencilhar do pequeno grupo ao redor dele, Carney parou perto de Jobe e estendeu a mão.
— Carney.
Jobe apertou a mão dele.
— Jobe.
— Eu sei.
Jobe soltou uma risada curta.
— Bom. Facilita.
Carney riu também.
Jobe pegou a garrafa de água no banco e se levantou.
— O treino começa em vinte minutos. Campo dois. Se não souber onde fica, segue alguém.
— Você?
Jobe já tinha dado dois passos em direção à porta quando olhou para trás.
— Eu sou alguém.
E foi embora.
Jobe sempre soube que não era um alfa tradicional.
Como quase todas as coisas importantes da vida dele, aquilo começou com Jude.
Era uma quarta-feira comum, daquelas que não pareciam importantes o suficiente para serem lembradas anos depois. Eles se arrumaram para a escola apostando corrida para ver quem terminava primeiro. No treino, jogaram futebol no mesmo time e, na volta, passaram o caminho inteiro discutindo sobre quem tinha sido responsável pela derrota, embora ambos tivessem ficado a partida inteira no banco. Quando chegaram em casa, largaram as mochilas perto da porta e deixaram as chuteiras, ainda sujas de terra, no caminho até Denise reclamar pela terceira vez que alguém precisava tirá-las dali antes que ela tropeçasse. Mais tarde, Jobe fez o dever de matemática sentado à mesa da cozinha enquanto Jude, que tinha terminado o dele primeiro, fazia questão de lembrá-lo disso a cada poucos minutos.
Brigaram cinco vezes — seis, se contasse a discussão sobre quem tinha tirado o controle do videogame do lugar —, jantaram com os pais e foram dormir.
Ou seja, um dia comum.
Bem.
Nem tanto.
Naquele dia em específico, Jude parecia ainda mais incapaz que o normal de calar a boca.
Tinha feito quatorze anos duas semanas antes e, desde então, falava sobre sua apresentação como se estivesse esperando o Natal.
Seria alfa, obviamente.
Um alfa enorme, assustador e poderoso, segundo o próprio Jude, que repetia aquilo com tanta frequência que Jobe já tinha começado a responder apenas revirando os olhos.
Jude parecia ter criado uma versão inteira de si mesmo para quando isso finalmente acontecesse. Às vezes engrossava a voz de propósito até ficar ridícula. Em outras, ficava em pé na frente de Jobe, estufava o peito e dizia que, quando se apresentasse, finalmente seria respeitado naquela casa.
Jobe geralmente o empurrava. Ou lembrava que apresentar-se como alfa não mudaria o fato de que Jude continuaria sendo apenas dois anos mais velho e igualmente irritante.
A verdade era que Jobe não conseguia imaginá-lo muito diferente do que já era. Jude já era alto para a idade, já entrava em qualquer lugar como se tivesse algum direito especial de estar ali e parecia carregar uma certeza quase irritante sobre tudo que queria fazer da vida. Ser alfa só parecia a continuação lógica de ser Jude.
Talvez por isso Jobe nunca tivesse pensado em questioná-lo.
Se Jude dizia que seria alfa, provavelmente seria.
Aos doze anos, Jobe sabia sobre gêneros secundários o suficiente para passar nas provas de biologia. Sobre o que significava ser um deles, aprendera observando. E ouvindo, principalmente. Adultos tinham um jeito estranho de conversar sobre essas coisas quando achavam que crianças não estavam prestando atenção: na saída da escola, durante jantares de família, nas arquibancadas enquanto esperavam os treinos terminarem. Falavam sobre quem tinha se apresentado cedo, quem tinha demorado, quem tinha passado particularmente mal na primeira rotina ou no calor. De vez em quando baixavam a voz para acrescentar alguma coisa que aparentemente não deveria ser ouvida e, justamente por isso, Jobe não perdia uma palavra.
As crianças eram menos discretas. Também eram melhores em transformar tudo em regras simples.
Alfas eram fortes.
Betas eram sem graça.
E ninguém queria ser ômega.
Essa última parecia ser a regra mais importante. Ômegas eram frágeis, dependentes, fáceis de intimidar, emocionais — uma coleção inteira de características que todo mundo repetia como se fossem fatos..
Era curioso que Jobe nunca tivesse pensado no próprio pai quando ouvia essas coisas.
Mark era ômega, mas não era um ômega na cabeça dele. Era apenas seu pai. A palavra não aparecia toda vez que Jobe olhava para ele, assim como Jobe não parava para pensar em todas as outras coisas que Mark era antes de pedir dinheiro para comprar alguma coisa ou reclamar que Jude estava sendo insuportável.
Talvez aquilo devesse ter feito alguma diferença na maneira como entendia essas regras.
Não fez.
Aos doze anos, Jobe simplesmente ainda não tinha pensado muito profundamente sobre nenhuma delas. Jude, por outro lado, parecia ter pensado o suficiente pelos dois.
Mas nada disso estava na cabeça de Jobe quando ele se deitou naquela noite.
O quarto estava um pouco bagunçado: uma camiseta jogada sobre a cadeira da escrivaninha, o par de meias que prometera colocar no cesto e não colocara, uma bola encostada no canto da parede. A luz do corredor entrou por alguns segundos quando Mark abriu a porta para desejar boa noite e desapareceu assim que ele tornou a fechá-la.
Jobe se enfiou debaixo do cobertor pensando que não queria ir à escola no dia seguinte. Depois pensou no videogame lançado na semana anterior e em roubar o dinheiro do lanche de Jude para comprá-lo.
Depois não pensou em mais nada.
Dormiu rápido e só voltou a abrir os olhos algumas horas depois, arrancado do sono por um som vindo do corredor.
O quarto estava completamente escuro. Por alguns segundos, Jobe nem soube por que tinha acordado; a casa tinha aquele silêncio particular da madrugada em que até os ruídos familiares pareciam pertencer a outro lugar.
Ficou imóvel, tentando decidir se realmente tinha escutado alguma coisa ou se o som fazia parte de um sonho.
Então ouviu de novo.
Baixo. Abafado.
Um gemido.
Jobe se sentou imediatamente.
Vinha do quarto de Jude.
O sono desapareceu de uma vez. Ele empurrou o cobertor, levantou e atravessou o corredor descalço, sem se importar com o frio do piso. Quando chegou à porta do irmão, porém, encontrou-a fechada.
Parou para ouvir.
Nada.
Talvez tivesse sonhado realmente.
— Jude?
Nenhuma resposta.
Jobe abriu a porta. Só por precaução.
A pouca luz que entrava pela janela revelava primeiro as coisas conhecidas: a cama desarrumada, pôsteres de jogadores presos à parede, medalhas penduradas onde qualquer pessoa que entrasse pudesse vê-las e embalagens vazias espalhadas por todo canto. Na cadeira, roupas limpas e sujas se misturavam segundo algum sistema de organização que Jude insistia que existia.
Nada fora do lugar. Nada que Jobe não tivesse visto centenas de vezes.
Até olhar para Jude.
Por alguns segundos, Jobe não entendeu o que estava vendo.
O irmão estava encolhido no chão, no meio do quarto, com os joelhos puxados contra o peito e uma das mãos agarrada à camiseta do Homem-Aranha que tinha ganhado de aniversário. Jobe tinha reclamado quando viu o presente porque queria uma igual, e Denise dissera que ele podia esperar quando fosse seu próprio aniversário.
Era uma coisa idiota para lembrar naquele momento.
Mesmo assim, foi onde sua cabeça parou antes de conseguir compreender o resto.
Jude estava no chão.
— Jude?
Jobe atravessou o quarto correndo e caiu de joelhos ao lado dele. O impacto contra o piso doeu, mas a dor desapareceu diante do rosto contraído do irmão, dos olhos fechados com força e da respiração curta que escapava pela boca.
— Jude. Jude, você tá bem? O que aconteceu?
Nada.
Sem saber o que deveria fazer, Jobe tocou primeiro o ombro dele, depois o braço.
— Jude?
A própria voz falhou, e o medo que até então não tinha forma começou a se dividir em possibilidades cada vez piores. Jude podia ter caído. Podia estar doente. Podia ter alguma coisa muito errada acontecendo enquanto Jobe perdia tempo ajoelhado no chão fazendo perguntas idiotas.
Precisava chamar os pais.
Só que, para isso, teria que deixá-lo sozinho.
Jobe ainda tentava decidir qual das duas opções o assustava mais quando Jude finalmente abriu os olhos. Provavelmente tinham se passado apenas alguns segundos mas para ele pareceram minutos.
Os olhos castanhos demoraram a encontrá-lo.
— Jobe. — A voz saiu tão fraca que ele precisou se inclinar para ouvir. — Eu tô bem.
Era claramente mentira.
Jude normalmente mentia muito melhor.
Ele tentou sorrir mesmo assim, mas o movimento pareceu piorar alguma coisa. Seu rosto se contraiu e ele se encolheu ainda mais, deixando escapar outro som baixo de dor.
— Você não tá bem.
— Tô.
— Não tá!
A voz de Jobe pareceu enorme dentro do quarto silencioso. Ele se levantou depressa demais e precisou recuperar o equilíbrio antes de continuar.
— Eu vou chamar o pai e a mãe.
— Não.
Jude segurou seu braço.
O calor da mão fez Jobe parar.
Não era o calor conhecido de quando voltavam suados de uma partida de futebol. A pele de Jude estava quente demais, e só então Jobe reparou no vermelho espalhado pelo rosto, no cabelo grudado de suor à testa, no tremor que atravessava seu corpo.
Aquilo não parecia uma dor de barriga. Também não parecia uma febre comum.
Jobe não sabia o que parecia.
Só sabia que estava além de qualquer coisa que ele pudesse resolver sozinho.
Precisava chamar os pais.
— Não chama eles — Jude repetiu, ainda agarrado ao braço dele. — Por favor.
Havia alguma coisa estranha naquele pedido. Jude não parecia apenas assustado com o que estava acontecendo; parecia assustado com a possibilidade de alguém descobrir.
Jobe não entendeu por quê.
Também não precisava entender.
— Vou chamar.
— Jobe— Jude tentou gritar, mas sua voz se recusou a subir acima de um sussurro rouco.
Mas ele já estava no corredor.
Denise estava praticamente enterrada no travesseiro. Mark dormia de costas para a porta.
— Pai.
Nenhuma resposta.
— Mãe.
Jobe atravessou o quarto e começou a sacudir o ombro deles. Como sempre, Mark foi o primeiro a acordar; Denise conseguia dormir durante praticamente qualquer coisa.
Ele piscou algumas vezes, ainda desorientado.
— Jobe...? — Esfregou os olhos. — O que aconteceu?
— É o Jude. Ele—
Mark se levantou antes que Jobe terminasse.
Foi tão rápido que, por um instante, Jobe ficou parado sem saber o que fazer. O pai não perguntou mais nada. Apenas calçou as sandálias, passou por ele e seguiu direto para o corredor.
Jobe correu atrás.
Aquilo deveria tê-lo tranquilizado. Os adultos sabiam o que fazer; era para isso que servia chamar os pais. Mas a rapidez de Mark teve o efeito contrário. Se ele tinha se levantado daquele jeito, sem sequer esperar Jobe explicar o que estava acontecendo, talvez houvesse mesmo motivo para estar com medo.
Quando chegaram ao quarto, Jude continuava no chão.
E parecia pior.
Os olhos estavam abertos, mas não conseguiam se fixar direito em nada. O cabelo, antes apenas grudado à testa, agora estava completamente molhado de suor, e a respiração saía entrecortada, como se até puxar o ar exigisse esforço.
O quarto também estava diferente.
Jobe demorou alguns segundos para entender por quê. Havia alguma coisa no ar, um cheiro que não conhecia, doce e estranho demais para pertencer ao quarto de Jude.
Ele parou na porta.
Nunca tinha visto o irmão daquele jeito.
Jude corria mais rápido que ele, gritava quando ganhava e começava discussões por absolutamente qualquer coisa com a certeza irritante de que conseguiria vencer todas.
Agora estava encolhido no chão, suado e tremendo, como se tivesse perdido de repente todo o espaço que costumava ocupar.
Os olhos de Jobe começaram a arder, mas Mark não parecia assustado. O pai observou Jude por alguns segundos e alguma coisa mudou em sua expressão.
Jobe conhecia bem o rosto do pai. Sabia quando Mark estava irritado, mesmo quando dizia que não estava, e reconhecia imediatamente quando tentava não rir de alguma coisa que Denise não tinha achado engraçada.
Aquilo era diferente.
Havia preocupação, sim, mas não surpresa. Mark olhava para Jude como se soubesse exatamente o que estava acontecendo.
Mark se aproximou devagar e se agachou.
— Jude.
Jude levantou os olhos.
Mark estendeu a mão.
Por um instante, Jude apenas olhou para a mão estendida. Então seus dedos se fecharam ao redor dos de Mark com tanta força que os nós ficaram claros. O resto veio junto: Jude se inclinou para a frente e praticamente caiu contra o pai, escondendo o rosto em seu peito.
Mark passou os braços ao redor dele imediatamente.
Da porta, Jobe observou o corpo do irmão finalmente começar a perder um pouco da tensão. Não sabia se deveria entrar ou deixá-los sozinhos. Sabia apenas que não queria ir embora.
Então entrou.
Deu a volta nos dois e se abaixou do outro lado de Jude, perto o bastante para tocá-lo se precisasse, mas manteve as mãos nos joelhos, como se qualquer movimento pudesse perturbar o pouco da calma que Jude finalmente parecia ter encontrado.
Aos poucos, os tremores de Jude começaram a diminuir. Mark passava a mão por suas costas em movimentos lentos e repetidos, murmurando, de vez em quando, alguma coisa baixa demais para Jobe entender.
Depois de algum tempo, Jude falou.
— Pai?
Mark baixou o rosto.
— Hm?
Jude demorou alguns segundos.
Quando finalmente perguntou, sua voz estava tão baixa que Jobe quase não ouviu.
— O que eu sou?
Jobe franziu a testa.
Que tipo de pergunta era aquela?
Olhou para o pai esperando que ele também perguntasse o que Jude queria dizer, mas Mark não pareceu confuso. Apenas passou a mão devagar pelo cabelo úmido do filho.
— Você já sabe.
Alguma coisa fria se formou na barriga de Jobe.
Jude fechou os olhos e começou a chorar.
Não alto. Talvez isso tivesse sido mais fácil de entender. As lágrimas simplesmente escorreram enquanto ele mantinha o rosto virado para baixo, como se estivesse tentando impedir até aquilo de acontecer.
— Pai, eu não posso.
Mark apertou os braços ao redor dele.
— Jude—
— Você sabe que eu não posso.
Jobe olhou de um para o outro.
Mark estava triste. Jude, apavorado. E havia alguma coisa óbvia acontecendo diante dele, alguma coisa que os dois pareciam entender perfeitamente e que Jobe continuava tentando alcançar sem conseguir.
Antes que pudesse perguntar, ouviu passos apressados no corredor.
Denise apareceu poucos segundos depois, entrando no quarto com a expressão irritada de quem tinha acabado de sair de um sono profundo. A camiseta larga que usava para dormir estava amassada de um lado e os olhos semicerrados enquanto piscava algumas vezes, como se o próprio quarto demorasse a entrar em foco.
— O que está acontecendo?
Então viu Jude.
A irritação desapareceu.
A boca de Denise se fechou e alguma coisa triste atravessou seu rosto. Ela não perguntou por que Jude estava no chão, se estava com febre ou se tinha se machucado.
Não perguntou nada.
Ela já sabia também.
E aquilo deixou Jobe ainda mais confuso.
Mark sabia. Denise sabia. Jude, aparentemente, sabia.
Só ele parecia ter entrado no meio de uma conversa que ninguém estava tendo em voz alta.
Horas depois, Jobe entenderia que, até aquele momento, não havia nada particularmente extraordinário acontecendo. Um adolescente tinha começado a se apresentar; os pais haviam percebido e, cedo ou tarde, alguém precisaria explicar a ele o que aquilo significava.
Seria apenas uma história comum. Talvez dolorosa. Talvez mais difícil para Jude do que para outros adolescentes, mas comum.
Se Jobe não tivesse rosnado.
O som saiu tão alto que todos ficaram imóveis.
Jobe também.
O ruído pareceu grande demais para o quarto, áspero e profundo demais para ter saído dele. Vibrou contra sua garganta antes de permanecer no ar por alguns segundos.
Por um momento, ninguém pareceu entender de onde tinha vindo.
Jobe menos ainda.
Olhou ao redor quase esperando encontrar outra pessoa atrás de si, alguém que pudesse explicar aquele som.
Denise foi a primeira a olhar para ele.
— Jobe?
Ele não respondeu. Não saberia o que responder.
A garganta parecia diferente, como se o rosnado tivesse deixado alguma coisa para trás. Uma pressão estranha crescia em seu peito, pesada atrás das costelas, enquanto o coração acelerava sem que Jobe entendesse por quê.
A expressão de Denise mudou outra vez.
— Jobe.
Dessa vez, havia preocupação.
Mark levantou os olhos. Até Jude pareceu sair do próprio torpor por tempo suficiente para olhar para o irmão.
Então Jobe rosnou de novo.
Mais forte.
E, dessa vez, sentiu acontecer.
Começou no peito, subiu pela garganta e escapou antes que ele tivesse qualquer chance de impedir. Não era exatamente como falar, nem como gritar. Era pior. Falar exigia decidir o que dizer; gritar ainda começava com a vontade de gritar.
Aquilo não.
Seu corpo simplesmente tinha feito.
Jobe levou a mão à garganta por reflexo e o ar mudou.
Um cheiro que não estava ali segundos antes começou a preencher o quarto, forte o suficiente para que até Jobe percebesse, embora não tivesse a menor ideia do que significava.
Madeira úmida.
Asfalto depois da chuva.
Por um instante, pensou absurdamente que alguém devia ter aberto uma janela. Mas não havia vento, e o cheiro parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo.
Até que Jobe percebeu.
Das roupas.
Da pele.
Dele.
Denise ficou completamente imóvel.
— Mark...
Não precisou terminar.
Mark já tinha entendido.
Denise deu um passo em sua direção. O som da sola do pé contra o chão foi pequeno. Para Jobe, pareceu enorme.
Num instante, estava agachado ao lado de Jude. No seguinte, estava de pé entre ele e Denise.
Só depois sua cabeça pareceu alcançar o movimento.
— Filho?
Jobe mostrou os dentes.
O silêncio engoliu o quarto.
Seus caninos estavam expostos de um jeito que não deveriam estar, grandes demais na boca de uma criança que tinha apenas doze anos.
Doze.
Era cedo demais.
Apresentações não aconteciam daquela maneira, de qualquer forma. Não surgiam completas entre uma respiração e outra. Havia sinais, pequenas mudanças no corpo que se acumulavam ao longo de algumas horas: febre, dores, confusão, alterações de humor, o cheiro se transformando aos poucos até que não restasse mais dúvida.
Deveria haver tempo.
O corpo avisava.
O de Jobe, aparentemente, tinha decidido ignorar todo senso comum.
Denise continuava parada onde estava.
Jobe conhecia aquela mulher.
Era sua mãe.
A mulher que preparava seu café da manhã e conferia se ele tinha colocado o casaco antes de sair de casa. Que reclamava quando ele e Jude chutavam bola perto demais das janelas e sabia exatamente quando ele estava mentindo sobre já ter escovado os dentes.
Jobe sabia de tudo isso.
Alguma coisa dentro dele, porém, não sabia.
Não naquele momento.
Para aquela parte de si, havia apenas outro alfa se aproximando.
Alfa.
Perto demais.
E atrás dele havia um ômega assustado.
Seu ômega.
Não.
Não seu.
Jude.
Seu irmão.
Jobe tentou se agarrar àquela ideia.
Jude.
Mas a distinção parecia complicada demais para a parte de sua mente que tinha assumido o controle. Irmão, ômega, seu ou não seu — nada disso parecia importar.
Jude estava atrás dele.
E a alfa não podia chegar mais perto.
Denise respirou fundo.
Seus olhos se demoraram em Jude antes que ela desse outro pequeno passo.
Jobe reagiu antes mesmo que Denise terminasse o movimento. O corpo inteiro ficou rígido e um novo rosnado atravessou sua garganta, ainda mais alto, o bastante para fazer a alfa recuar bruscamente. Seu calcanhar encontrou alguma coisa no chão antes que ela conseguisse firmar o passo, e Denise cambaleou, abrindo os braços para recuperar o equilíbrio.
Jobe deveria ter corrido até ela.
Em vez disso, alguma parte horrível de sua cabeça ficou satisfeita.
Ela tinha recuado.
Era isso que importava.
— Denise — Mark chamou, devagar.
Ela olhou para ele.
— Você precisa sair.
— Eu não—
Jobe percebeu a mudança antes que ela terminasse.
O cheiro familiar de Denise ganhou alguma coisa mais aguda.
Hesitação.
Uma hora antes, ele nem teria sentido. Agora simplesmente sabia o que era.
— Ele não está entendendo quem você é agora — Mark explicou, parecendo estranhamente calmo para alguém que acabara de ouvir o filho rosnar para a própria mãe.
Denise não tentou se aproximar novamente. Quando olhou para Jobe, foi com cautela.
Aquilo doeu.
Sua mãe nunca tinha precisado pensar antes de chegar perto dele.
Ainda assim, Jobe não relaxou.
Ela continuava hesitando e, a cada segundo que passava sem que se movesse, mais atento Jobe se tornava.
Mark olhou para a esposa.
— Denise, por favor.
Dessa vez, ela assentiu.
Deu um passo para trás.
Depois outro.
Jobe acompanhou cada movimento sem piscar enquanto ela atravessava a porta devagar, sem virar completamente as costas para ele.
Denise mal tinha desaparecido no corredor quando a pressão no peito de Jobe cedeu. Ele puxou o ar de uma vez, fundo o bastante para só então perceber havia quanto tempo parecia estar prendendo a respiração.
Atrás dele, Jude se mexeu.
Toda a atenção de Jobe mudou de direção.
O irmão tinha se afastado um pouco do pai. Os olhos continuavam desfocados e o rosto ainda estava molhado de lágrimas e suor, mas agora olhava diretamente para ele.
Havia alguma coisa diferente naquele olhar.
Não era o mesmo medo que Jobe tinha visto no rosto de Denise. Era quase vazio, exausto demais para esconder ou organizar qualquer coisa. Como se Jude também estivesse funcionando com muito menos pensamento do que deveria.
Ele tentou se levantar. As pernas vacilaram assim que sustentaram seu peso e Mark se moveu para ajudá-lo, mas Jude se afastou quase sem perceber. Deu um passo cambaleante na direção do irmão.
Depois outro.
Parecia seguir alguma coisa que nem ele entendia.
Jobe ainda não sabia que aquilo também era instinto. Que, em uma situação de vulnerabilidade, um ômega podia se agarrar a um alfa em quem confiava como a uma tábua de salvação.
Mesmo quando esse alfa era seu irmãozinho mais novo.
Jobe não sabia de nada disso. Só sabia que Jude estava vindo até ele. E, ao contrário de quando Denise tinha se aproximado, nenhuma parte de seu corpo queria que Jude recuasse.
Quando Jude chegou perto o bastante, Jobe abriu os braços e irmão foi para eles imediatamente. O impacto o fez dar meio passo para trás. Jude estava pesado de um jeito estranho, sem sustentar completamente o próprio peso, com o rosto escondido contra seu ombro e as mãos agarradas às costas de sua camiseta.
Jobe apertou os braços ao redor dele. Abriu a boca para dizer alguma coisa. Então sentiu o cheiro.
Mais forte agora.
Doce.
Novo.
Jude não tinha um cheiro antes. Não daquele jeito. Tinha cheiro de sabonete, de suor, do shampoo que roubava de Jobe mesmo tendo o próprio. Cheiros que grudavam nele e depois desapareciam.
Aquilo era diferente. Aquilo vinha dele.
Jude enterrou ainda mais o rosto em seu ombro e, quase tão rápido quanto tinha surgido, a tensão abandonou o corpo de Jobe.
Foi como abrir uma janela dentro da própria cabeça: de repente, conseguia pensar.
O coração ainda batia rápido demais. As pernas tremiam — Jobe nem sabia quando tinham começado — e seus braços continuavam firmes ao redor de Jude, mas, aos poucos, o mundo voltava a fazer algum sentido.
Quando ergueu os olhos, encontrou o pai observando os dois como se tentasse resolver uma equação impossível. Denise dizia alguma coisa no corredor.
Jobe piscou.
Uma vez.
Depois outra.
A cabeça estava pesada.
— Pai?
Mark começou a se aproximar.
Devagar.
E, agora que conseguia pensar novamente, Jobe percebeu o cuidado.
O pai não veio direto até ele. Não estendeu a mão. Parou a uma distância segura.
— Está tudo bem.
Jobe franziu a testa.
Não estava.
Nada naquela madrugada fazia sentido, mas o pior era o próprio corpo. Jobe ainda reconhecia cada parte dele e, mesmo assim, parecia fundamentalmente diferente.
Parecia pertencer a outra pessoa.
— Tem alguma coisa errada.
Foi tudo que conseguiu dizer antes de uma onda de calor atravessá-lo.
O quarto inclinou ligeiramente para o lado.
Jobe apertou Jude por reflexo, tentando se equilibrar.
Então o chão desapareceu.
A última coisa que sentiu foi Jude tentando segurá-lo antes que tudo ficasse escuro.
Jobe acordou num quarto de hospital.
A luz foi a primeira coisa que o incomodou. Forte demais, mesmo através das pálpebras fechadas, fez seus olhos doerem antes que ele conseguisse abri-los por completo. Jobe apertou o rosto contra o travesseiro e soltou um gemido baixo.
Ficou assim por alguns segundos, sem se mexer, até ouvir vozes.
Baixas e familiares.
Seu pai e Jude conversavam perto da cama, num volume que provavelmente significava que achavam que ele ainda estava dormindo. Jobe não conseguiu entender o assunto. Só ouvia o murmúrio das palavras e pausas compridas demais entre uma frase e outra.
Abriu os olhos novamente, dessa vez com cuidado.
O quarto era pequeno. As persianas estavam quase completamente fechadas, havia uma cadeira ao lado da cama, uma mesinha cheia de coisas que ele não reconheceu de imediato e um monitor perto demais de sua cabeça emitindo bipes regulares.
Mark e Jude estavam espremidos em duas cadeiras do outro lado. Os dois olharam para ele quase ao mesmo tempo.
— Jobe?
Mark se levantou primeiro, rápido o bastante para arrastar a cadeira alguns centímetros pelo chão.
— Como você tá se sentindo?
Jobe demorou um pouco para responder.
— Estranho.
Era a única palavra que parecia servir.
Seu corpo estava pesado, como se tivesse jogado duas partidas seguidas sem parar. Os músculos dos braços e das pernas doíam de um jeito profundo, parecido com o cansaço depois de um treino, mas diferente o bastante para que ele não conseguisse encaixar exatamente a sensação.
A boca também estava seca. E havia alguma coisa irritante nos dentes, uma vontade quase absurda de morder qualquer coisa só para fazer aquilo passar.
Jobe passou a língua pelos caninos.
Ainda estavam grandes.
Decidiu que não queria pensar sobre isso ainda.
Olhou para Jude.
— Você tá bem?
As sobrancelhas do irmão subiram por um instante. Parecia ter esperado qualquer outra pergunta — onde Jobe estava, por que estava ali, o que tinha acontecido.
Depois sorriu.
Um sorriso pequeno e cansado.
— Tô.
Não parecia.
A camiseta que usava já não era a da noite anterior, e o cabelo estava limpo, embora continuasse desarrumado. Os olhos, porém, permaneciam vermelhos e inchados.
Não era sono. Jude tinha chorado mais depois que Jobe desmaiou.
Mark voltou a se sentar. Pela expressão do pai, Jobe reconheceu imediatamente que vinha alguma coisa que ele provavelmente não gostaria de ouvir. Mark sempre fazia aquela cara quando precisava contar algo difícil para os filhos — não exatamente hesitante, mas como se procurasse a ordem certa das palavras antes de começar.
— Jude se apresentou ontem.
Jobe olhou para o irmão.
Mark continuou:
— Como ômega.
Jobe continuou olhando para Jude.
Ômega.
Por alguns segundos, nada aconteceu. Então a madrugada inteira voltou de uma vez.
Jude encolhido no chão.
O calor da pele dele.
O cheiro doce que não existia antes.
As lágrimas.
Pai, eu não posso.
Ah.
Era óbvio agora.
Tão óbvio que Jobe se sentiu como um idiota por não ter percebido. Ele sabia como apresentações aconteciam. Sabia sobre febre, dor, sensibilidade, mudanças no cheiro. Sabia todas aquelas coisas.
Só que saber nunca tinha significado precisar reconhecer.
Até a noite anterior, uma apresentação era uma palavra que Jude repetia enquanto estava sendo irritante sobre como seria alfa. Eram fofocas ouvidas pela metade e páginas de um livro que transformavam tudo em sintomas organizados numa lista.
Não era Jude.
Não era seu irmão passando horas sem conseguir dormir enquanto alguma coisa mudava dentro dele. Não era uma quarta-feira perfeitamente comum terminando com Jude chorando nos braços do pai.
Agora era.
Ômega.
Jobe podia não saber muito sobre alfas e ômegas, mas sabia alguma coisa sobre futebol.
E sabia que jogadores ômegas eram raros.
Muito raros.
Não precisava de nenhuma aula de biologia para saber. Bastava assistir aos jogos. Conseguia citar uma quantidade absurda de jogadores alfas sem sequer pensar; com ômegas era diferente. Quando um aparecia, as pessoas comentavam. Os narradores comentavam. Os jornais comentavam. Às vezes parecia que o gênero vinha antes até da posição em que jogavam.
Seu pai tinha sido um deles.
Mark quase nunca falava daquela época, mas Jobe conhecia pedaços da história.
Sabia das piadas.
Dos jogadores que não levavam Mark a sério.
Dos adversários que usavam qualquer coisa contra ele.
Das manchetes mais interessadas no fato de ele ser ômega do que no jeito como tinha jogado.
Jobe se lembrava especialmente de uma fotografia antiga guardada numa caixa. Mark aparecia muito mais novo, de uniforme, sorrindo para a câmera com uma medalha pendurada no pescoço. Tinha sido olhando para aquela foto que Jobe perguntara, certa vez, por que ele não continuara jogando. Mark respondera apenas que algumas coisas tinham sido mais difíceis naquela época. Na época, Jobe aceitara a resposta sem perguntar mais. Só muitos anos depois entenderia o tamanho escondido dentro dela.
Naquele momento, sabia apenas o final.
Mark tinha parado.
As coisas estavam melhores agora. Existiam jogadores ômegas famosos, alguns muito bons.
Ainda assim, eram poucos.
Pouquíssimos.
E agora Jude era um deles.
Jude, que queria ser jogador de futebol mais do que queria praticamente qualquer outra coisa no mundo. Não era só uma resposta decorada para quando algum adulto perguntava o que ele queria ser quando crescesse. Era parte de Jude: estava na bola que sempre parecia encontrar os pés dele, nos vídeos de partidas que assistia mais de uma vez, no jeito como ficava genuinamente irritado quando alguém sugeria que talvez fosse bom pensar num plano B.
Jobe olhou para o irmão outra vez, mas Jude desviou os olhos.
Foi quase nada, só um movimento pequeno na direção oposta, mas bastou para que Jobe quisesse consertar alguma coisa. Não sabia como, só queria fazer Jude voltar a olhar para ele normalmente. Ele abriu a boca, mas a porta se abriu antes que pudesse dizer qualquer coisa.
Uma médica entrou segurando uma prancheta. Cumprimentou Mark em voz baixa antes de se sentar na cadeira ao lado da cama.
Jobe percebeu o cheiro dela antes mesmo de olhar direito. Era fraco, mas impossível de ignorar agora que tinha notado.
Algodão-doce.
Jobe odiou imediatamente. Não porque fosse exatamente ruim. Era doce demais, só isso, e invadia seu nariz de um jeito estranho, persistindo mesmo quando tentou respirar pela boca.
Jobe farejou discretamente. Ou tentou. O problema era que, agora que tinha começado, também conseguia sentir Mark. O cheiro do pai era familiar, mas nunca tinha parecido tão nítido. Jobe sabia que estava ali, claro. Só não se lembrava de alguma vez ter conseguido percebê-lo com tanta facilidade.
E então Jude.
Esse foi ainda mais fácil. O mesmo cheiro da madrugada. Jobe franziu a testa por um instante antes de lembrar.
Ah. Claro. Ômega.
Aquilo explicava Jude. Não explicava Mark. Muito menos a médica.
Jobe olhou para ela outra vez. Agora que prestava atenção, conseguia perceber o bloqueador também, uma camada artificial tentando abafar o cheiro por baixo. Devia estar funcionando. Era para estar funcionando.
Então por que ele conseguia sentir tão bem?
A médica pareceu notar sua expressão confusa, mas apenas sorriu.
— Jobe. Como você está se sentindo?
Ele considerou a pergunta.
Não havia motivo para mentir.
— Como uma merda.
Mark balançou a cabeça, mas por um instante pareceu mais divertido do que preocupado. Foi bom. Por alguns segundos, Jobe viu o pai de sempre, não o homem tenso da madrugada ou aquele que provavelmente tinha passado horas sentado numa cadeira de hospital.
— Jobe. Olha como você fala.
— Pelo amor de Deus, eu tô num hospital. Eu tenho o direito de me sentir uma merda.
— Ainda assim existem maneiras mais educadas de falar.
Jobe revirou os olhos e imediatamente se arrependeu quando a cabeça doeu um pouco mais.
— Tá. Eu me sinto horrível.
— Melhor.
A médica conteve um sorriso.
Jobe decidiu que, pelo menos, alguém naquela sala estava do lado dele.
— Alguma dor?
— Meu corpo tá pesado. Minha cabeça tá meio estranha.
Hesitou.
Não queria falar sobre os dentes.
Parecia idiota.
Mas a sensação estava ficando pior.
— E eu quero morder alguma coisa.
Mark lançou um olhar rápido para a médica. Rápido, mas não o bastante para Jobe não notar. Ela apenas assentiu, como se aquilo não fosse particularmente surpreendente.
Estranhamente, isso ajudou. Se a médica não achava absurdo, talvez ele também não precisasse achar.
Jobe se ajeitou na cama. O lençol se embolou em suas pernas e só então reparou na pulseira plástica presa ao pulso, com seu nome e uma quantidade de informações que não teve paciência para ler.
— O que aconteceu comigo?
A médica arrastou a cadeira para mais perto. O cheiro de algodão-doce ficou mais forte com a proximidade. O som dos pés da cadeira contra o piso também pareceu alto demais.
— Você também se apresentou.
Jobe parou.
O monitor continuou apitando.
Alguém passou conversando pelo corredor.
Nada no quarto mudou e, ainda assim, por um instante pareceu que tudo tinha parado.
— O quê?
— Você é um alfa.
Alfa.
Jobe repetiu a palavra mentalmente.
Parecia informação sobre outra pessoa.
Até algumas horas antes, aquilo pertencia a um futuro distante. Ele tinha colegas mais velhos que ainda não tinham se apresentado. Algumas pessoas só descobriam aos dezesseis, dezessete, até dezoito.
Jobe tinha doze.
Doze significava escola, treino, dever de casa e tentar ganhar de Jude em qualquer coisa que Jude afirmasse fazer melhor.
Não significava aquilo.
Aquilo não deveria ter acontecido com ele ainda.
— Mas eu tenho doze anos.
— Eu sei — respondeu a médica com calma. — O que você teve foi uma apresentação precoce. E, pelo que conseguimos determinar, provavelmente foi induzida pela apresentação do seu irmão.
Jobe virou para Jude. O irmão já estava olhando para ele, com a mesma cara que fazia quando quebrava alguma coisa e ficava decidindo se contava aos pais.
A culpa era tão evidente que, por um momento, todo o resto perdeu importância.
— Não foi culpa sua.
Jude não respondeu.
Claro que não.
— Não foi, Jude.
— Eu sei.
Jobe quis insistir. Talvez até começar uma briga, porque discutir com Jude era infinitamente mais fácil do que vê-lo daquele jeito.
Mas havia perguntas demais ocupando sua própria cabeça, então voltou a olhar para a médica.
— Isso acontece?
— Pode acontecer. É raro, mas acontece.
Raro.
Jobe não gostou daquela palavra.
Até aquele momento, tudo parecia estranho porque tinha acontecido cedo demais. Raro tornava a coisa diferente. Significava que não era só cedo; alguma coisa tinha acontecido com ele que quase nunca acontecia com ninguém.
De repente, a vontade de morder alguma coisa pareceu um pouco menos engraçada.
— E agora?
A pergunta saiu mais nervosa do que ele gostaria.
— É justamente sobre isso que precisamos conversar com você e com seus pais.
Quase como se soubesse a deixa, Denise apareceu à porta e entrou devagar. Jobe reconheceu os passos antes mesmo de olhar. Depois veio o cheiro, e seu corpo reagiu rápido o bastante para fazê-lo se endireitar na cama.
A mãe ainda usava as roupas da madrugada. Havia marcas de cansaço sob os olhos mas foi a expressão que fez Jobe parar.
Denise parecia apreensiva, o que, por si só, já era estranho. A mãe não costumava entrar em lugares com cuidado. Ela simplesmente entrava, dizia o que precisava dizer e esperava que o resto do mundo acompanhasse. Agora parecia pensar antes de cada passo.
Jobe não rosnou. Não daquela vez. Mesmo assim, alguma coisa dentro dele ficou vigilante antes que sua cabeça tivesse tempo de lembrar quem estava entrando no quarto.
Alfa.
A informação veio primeiro.
Depois:
Mãe.
Jobe apertou os dedos contra o lençol.
Denise continuava perto da porta. Parecia assustada, mas não exatamente com medo dele. Era preocupação. Por ele.
A médica esperou que ela se aproximasse um pouco antes de continuar.
— Primeiro: os dois estão bem.
Denise soltou o ar discretamente.
Mark assentiu, ainda passando a mão pelas costas de Jude em movimentos pequenos e repetidos. Jobe não tinha reparado que ele fazia aquilo desde que acordara. Como na madrugada.
— Apresentações normalmente duram poucas horas — continuou a médica. — No caso do Jobe, como foi precoce e bastante abrupta, o corpo reagiu com mais intensidade. Por isso ele perdeu a consciência.
Jobe fez uma careta.
Perdeu a consciência parecia muito mais grave do que desmaiei.
— Então eu dormi durante a minha própria apresentação?
— Basicamente.
— Ótimo.
Jude soltou uma risada fraca. Jobe olhou para ele imediatamente. Foi a primeira vez desde que acordara que Jude pareceu um pouco mais com ele mesmo. Só por isso, Jobe decidiu que talvez tivesse valido a pena fazer a pergunta idiota.
— Apresentações precoces podem trazer alguns efeitos temporários enquanto o corpo ainda está se ajustando — a médica prosseguiu.
A mão de Mark parou nas costas de Jude.
Denise franziu a testa.
— Que efeitos?
— Principalmente instintivos.
Dessa vez, a médica olhou diretamente para Jobe, embora continuasse falando para os adultos.
Ele não gostou muito da sensação.
— Os instintos alfa podem ficar mais fortes do que o normal por algum tempo. Territorialidade, necessidade de proteger pessoas próximas, irritabilidade, respostas defensivas...
Cada palavra encontrou uma lembrança.
Jobe olhou para a mãe e a cena voltou inteira, desagradavelmente nítida: ela se aproximando, seu corpo entrando no caminho antes que ele pensasse, os dentes expostos, o rosnado. E, pior que tudo, aquele instante de satisfação quando Denise recuou.
Seu rosto esquentou.
Desviou os olhos antes que ela percebesse.
— Isso tende a diminuir conforme ele cresce e se aproxima da idade em que a apresentação teria acontecido naturalmente.
— Tende? — Denise perguntou.
A médica assentiu.
— Na maioria dos casos, sim.
Jobe também não gostou de tende.
Gostou ainda menos de na maioria dos casos.
Pelo olhar que os pais trocaram, eles também não.
— E enquanto isso?
— Existem opções. Em alguns casos, recomendamos supressores para ajudar a controlar os picos hormonais e instintivos.
Denise ficou tensa imediatamente.
— Supressores para uma criança?
Olhou para a médica, depois para os pais e, por fim, para Jude.
O irmão deu de ombros.
Supressores.
Jobe sabia vagamente o que eram. Ou achava que sabia. Já tinha ouvido adultos mencionarem, colegas mais velhos falarem, piadas circularem pela escola, mas tudo aquilo ainda pertencia à mesma parte distante do mundo onde existiam apresentações, rotinas e todas as outras coisas com que presumira que só teria de se preocupar no futuro.
Pela expressão de Denise, não eram exatamente vitaminas.
— Não estou dizendo que vocês precisam começar agora — explicou a médica. — É uma possibilidade. Nem toda criança com apresentação precoce precisa de medicação. Por enquanto, vocês podem observar como ele reage nos próximos dias.
— E se ficar pior? — Mark perguntou.
— Voltem imediatamente.
A médica falou diretamente com Jobe dessa vez.
Melhor.
Se estavam falando sobre ele, preferia pelo menos participar da conversa.
— Você também precisa avisar seus pais se perceber que está ficando com muita raiva, se sentir que não consegue controlar alguma reação ou se começar a se sentir ameaçado sem saber por quê.
Jobe assentiu. Não confiava muito na própria voz naquele momento. Era informação demais.
No dia anterior, só precisava se preocupar com escola, futebol e Jude roubando suas coisas. Agora era alfa. Tinha instintos, talvez precisasse tomar supressores, queria morder coisas e, aparentemente, seu cérebro podia olhar para a própria mãe e decidir que ela era uma ameaça.
Jobe tornou a olhar para Denise. Ela estava um pouco mais perto da cama agora, embora ainda deixasse entre os dois um espaço que nunca estivera ali antes.
A garganta dele apertou.
— Mãe?
— Sim, meu amor?
As duas palavras fizeram tudo piorar.
Os olhos de Jobe arderam.
Ela ainda chamava ele assim.
Depois do rosnado. Depois dos dentes. Depois de ele se colocar na frente dela como se precisasse proteger Jude da própria mãe.
— Desculpa.
Denise franziu a testa.
— Pelo quê?
— Eu quase...
Jobe não terminou. Não precisava. A lembrança ainda estava clara demais.
Por alguns segundos, naquela madrugada, ele não tinha reconhecido Denise como sua mãe. Mas essa nem era a pior parte. Não tinha apenas deixado de reconhecê-la: quis que ela se afastasse, fez com que se afastasse e ficou satisfeito quando conseguiu.
Aquilo era o pior.
— Me desculpa mesmo.
Denise atravessou a distância entre eles.
A reação de Jobe veio imediatamente.
Alerta.
Seus ombros ficaram rígidos e os dedos se fecharam contra o lençol. Quanto mais a alfa se aproximava, mais forte ficava seu cheiro.
Não.
Era sua mãe.
Jobe respirou fundo e ficou onde estava. Denise percebeu — claro que percebeu — e parou antes de alcançá-lo.
Aquilo fez o peito de Jobe doer de um jeito novo. Sua mãe estava pedindo permissão, sem dizer uma palavra, para abraçar o próprio filho. Jobe podia recuar, mas não recuou.
Denise se inclinou e passou os braços ao redor dele. Jobe fechou os olhos.
Durante alguns segundos, a voz estranha no fundo de sua cabeça continuou avisando que precisava prestar atenção. Jude estava atrás dela. O mais assustador era que a voz não desaparecia só porque Jobe sabia que estava errada. Jobe apenas escolheu não obedecer. Enterrou o rosto no ombro da mãe, sentindo o tecido frio da camiseta contra a testa enquanto, aos poucos, aquele cheiro que fizera seu corpo ficar alerta começava a voltar a ser o que sempre tinha sido.
— Tá tudo bem, meu amor — ela murmurou.
A mão entrou no cabelo dele com o mesmo gesto que fazia desde que Jobe conseguia lembrar.
— A gente vai dar um jeito nisso.
Jobe assentiu contra seu ombro. Se Denise dizia que dariam um jeito, naquele momento Jobe precisava acreditar nela.
Quando abriu os olhos, viu Jude sentado do outro lado da cama, ainda com aquela expressão culpada que parecia errada demais no rosto dele. Jobe odiava aquilo.
Então estendeu a mão. Jude hesitou antes de segurá-la, e seus dedos estavam mais frios do que na madrugada. Jobe apertou a mão dele um pouco mais.
Mark passou um braço pelos ombros do filho mais velho e, por alguns segundos, ninguém falou. Tudo parecia familiar e completamente novo ao mesmo tempo. A mão de Denise continuava em seu cabelo,
Jobe não sabia o que aconteceria quando saíssem dali mas, naquele momento, sabia que não precisaria descobrir sozinho. E isso bastava.
A volta para casa foi provavelmente a viagem de carro mais constrangedora da vida dele.
Jobe nunca tinha percebido quantos sons um carro fazia quando ninguém falava. O motor. Os pneus passando pela pista. A seta que Mark às vezes esquecia ligada por alguns segundos depois de fazer uma curva. Os dedos de Denise batendo contra a tela do celular. Tudo parecia alto demais dentro daquele silêncio.
Jude estava com a cabeça apoiada na janela, olhando para a rua sem realmente prestar atenção nela. Prédios, árvores e pessoas atravessavam o reflexo no vidro diante de seu rosto, mas os olhos permaneciam presos em algum ponto que Jobe não conseguia ver.
Mesmo do outro lado do banco, Jobe conseguia sentir seu cheiro, menos doce agora, quase abafado por alguma coisa que apertava seu peito.
Tristeza.
Angústia.
Ainda não sabia como conseguia distinguir uma coisa da outra. Só sabia.
Talvez essa fosse uma das partes mais estranhas de tudo. No dia anterior, se Jude estivesse daquele jeito, Jobe teria que observar seu rosto, perguntar o que tinha acontecido e provavelmente irritá-lo até conseguir uma resposta. Agora o próprio corpo entregava coisas sobre as pessoas sem pedir permissão.
Jobe ainda não tinha decidido se gostava disso.
Mark dirigia em silêncio. Toda a tranquilidade que tinha mostrado no hospital parecia ter ficado para trás, substituída por uma tensão que ocupava o carro inteiro. Segurava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Jobe observou as mãos dele por alguns segundos. Queria perguntar se estava tudo bem, mas não perguntou. Era uma pergunta idiota. Obviamente não estava.
Denise também não parava de digitar no celular. A luz da tela iluminava seu rosto enquanto ela escrevia, apagava e começava de novo, soltando um suspiro de vez em quando.
Jobe queria perguntar o que ela estava fazendo, mas a cabeça continuava doendo e a vontade de morder alguma coisa parecia aumentar a cada minuto.
Passou a língua pelos caninos.
Ainda estranhos.
Ainda seus.
Decidiu ficar quieto.
O silêncio acompanhou os quatro até em casa.
Quando a porta se fechou atrás deles, Jobe esperou sentir alguma coisa. Não sabia exatamente o quê. Talvez que tudo voltasse ao normal.
A casa continuava exatamente como tinham deixado. O casaco de Jude ainda estava jogado no mesmo lugar. As mochilas permaneciam perto da porta. Uma das chuteiras de Jobe estava virada de lado no corredor, justamente onde Denise tinha reclamado na noite anterior.
Nada tinha mudado.
Exceto eles.
Por alguns segundos, ninguém pareceu saber o que fazer.
Tiraram os sapatos. Jobe deixou os dele no lugar de sempre. Jude fez o mesmo e, depois de receber um olhar de Mark, voltou dois passos para empurrá-los para mais perto da parede.
Então ficaram os quatro parados na sala. Simplesmente parados. Denise ainda segurava o celular, Mark colocou as chaves no móvel perto da porta e Jude enfiou as mãos nos bolsos.
Jobe olhou de um para o outro. Parecia que todos tinham esquecido o que pessoas normais faziam quando chegavam em casa.
Aquilo era insuportável. Ele aguentou alguns segundos antes de desistir.
— Já que eu fui hospitalizado, acho que mereço uma pizza.
Os três olharam para ele. Jobe esperou e, por um segundo, achou que tinha falado alguma coisa errada. Então Jude começou a rir. Não foi uma risada bonita. Saiu meio engasgada, como se o corpo dele também tivesse esquecido como fazer aquilo. Mas era Jude rindo. Mark tentou segurar e não conseguiu. Denise cobriu a boca com a mão, mas logo estava rindo também. E, de repente, Jobe ria junto sem saber exatamente por quê.
Nem era engraçado, mas não importava.
Era melhor do que o silêncio.
— Quero de calabresa — Jude disse.
— Eu tive uma apresentação precoce. Quero de presunto.
Jude fez uma expressão indignada. Uma expressão de verdade. Exagerada, irritante, completamente familiar.
— Mas eu sou ômega. Eu posso escolher o sabor da pizza.
— Mas eu dormi durante a minha apresentação. Acho que eu que escolho.
— Isso não faz sentido.
— Faz, sim.
— Não faz.
— Faz.
— Eu sou mais velho.
— E eu fui parar no hospital.
— Porque você é dramático.
— Porque eu sou alfa.
Jude parou.
Jobe também.
A palavra ficou entre eles.
Alfa.
Jobe tinha dito sem pensar.
Pela primeira vez desde que a médica usara aquela palavra no hospital, ela tinha saído de sua boca como se fosse simplesmente uma coisa que ele era.
Como ter doze anos.
Como jogar futebol.
Como ser irmão de Jude.
O sorriso de Jude diminuiu por uma fração de segundo.
A barriga de Jobe apertou.
Os dois se encararam.
Então Jude voltou a rir.
— Você é muito idiota.
A tensão desapareceu tão rápido que Jobe quase poderia fingir que não tinha existido.
— Você que começou.
— Eu nem falei nada!
— Falou que era ômega.
— Mas eu sou!
Jobe abriu os braços.
— E daí? E isso te dá o direito de escolher o sabor da pizza?
Mark soltou um suspiro.
— Meu Deus.
Denise balançou a cabeça.
— Cinco minutos. Cinco minutos em casa e vocês já estão em pé de guerra.
— Ele começou — os dois disseram ao mesmo tempo.
Os pais se entreolharam.
Só um olhar.
Aquele olhar cansado que Jobe tinha visto milhares de vezes depois de alguma discussão idiota entre os filhos.
Seus filhos, Denise às vezes dizia.
Nossos filhos, Mark sempre corrigia.
E, pela primeira vez desde a noite anterior, Jobe sentiu que conseguia respirar direito.
No fim, pediram as duas pizzas. Nenhum dos dois venceu a discussão. Ou os dois venceram, dependendo de quem contasse a história.
Depois assistiram a um filme ruim porque Jobe e Jude passaram tanto tempo discutindo sobre qual escolher que Mark perdeu a paciência, tomou o controle e colocou a primeira coisa que apareceu na televisão.
Jude reclamou durante os primeiros quinze minutos. Primeiro da atuação. Depois do roteiro. Depois anunciou que já sabia exatamente quem era o vilão e que qualquer pessoa com mais de três neurônios também saberia. Em algum momento, esqueceu que estava reclamando e começou a assistir de verdade.
Jobe mal prestava atenção. A sala estava mais escura, iluminada principalmente pela televisão. As caixas de pizza permaneciam abertas sobre a mesa, havia guardanapos amassados espalhados entre elas e Mark já tinha avisado duas vezes que alguém ainda derrubaria refrigerante no sofá.
Jobe estava deitado contra o pai. Jude ocupava metade do sofá com a cabeça apoiada em seu colo. Denise ficava do outro lado, tentando abraçar os dois sempre que encontrava espaço. Era apertado e quente. Em qualquer outro dia, Jobe provavelmente reclamaria. Naquela noite, não queria que ninguém se mexesse.
Comeu pizza de calabresa. Jude comeu a de presunto.
Foi no meio do filme que percebeu outra coisa. Denise estava encostada nele, o braço passando por trás de seus ombros e a perna tocando a sua.
Jobe ficou imóvel por um instante e esperou.
Nada.
O cheiro da mãe não o incomodava mais.
Esperou um pouco mais, procurando aquele impulso da madrugada. A sensação de alerta. A necessidade de se afastar.
Alfa. Perto demais.
Nada.
Ou quase nada.
Ainda havia alguma coisa diferente na maneira como percebia a presença dela, uma consciência que não existia antes. Mas não havia medo, nem urgência, nem aquela necessidade desesperada de colocar distância entre Denise e Jude.
Era só sua mãe.
Jobe soltou lentamente o ar que nem tinha percebido que estava prendendo.
A rotina de dormir foi quase normal.
Quase.
Cada etapa conseguiu produzir pelo menos uma discussão: quem usaria o banheiro primeiro, quem tinha pegado a toalha de quem. Em algum momento, Denise apareceu no corredor e perguntou por que diabos eles ainda estavam discutindo depois de tudo que tinha acontecido.
Nenhum dos dois soube responder. Talvez justamente por tudo que tinha acontecido.
Os pais mandaram que parassem de brigar tantas vezes que, no fim, Jobe começou a achar aquilo reconfortante. Jude ainda empurrava seu ombro quando queria passar primeiro por uma porta. Jobe ainda escondia a escova de dentes dele só para irritá-lo. Mark ainda ameaçava mandar os dois para quartos separados como se eles já não tivessem quartos separados.
Por alguns minutos, Jobe quase conseguiu esquecer a madrugada. Até Jude entrar no próprio quarto.
Jobe continuou andando. Ou tentou. Parou diante da porta.
Seu quarto ficava do outro lado do corredor, a poucos passos. Daquele ponto, conseguia ver a porta entreaberta. A cama ainda estava desfeita, o cobertor afastado para o lado de qualquer jeito quando ele se levantara no meio da madrugada.
Só precisava continuar andando. Era onde sempre dormia.
Jobe tentou fazer os pés se moverem. Eles não obedeceram.
Não estava com medo. Não achava que alguma coisa fosse acontecer se entrasse no próprio quarto. Simplesmente não queria ir. Uma certeza incômoda e silenciosa o mantinha diante daquela porta: não queria uma parede entre ele e Jude.
Jobe odiou aquilo imediatamente. Não porque não quisesse ficar perto do irmão, mas porque detestava a sensação de que o próprio corpo continuava tomando decisões antes dele.
De novo.
Jude já estava deitado quando percebeu que Jobe continuava parado à porta. Olhou para ele, depois para o corredor, e Jobe esperou a piada inevitável. Tá com medo do escuro? Quer que eu segure sua mão também?. Qualquer coisa irritante o bastante para lhe dar uma desculpa para mandar Jude calar a boca e ir dormir no próprio quarto por puro orgulho.
Mas Jude não disse nada daquilo. Levou apenas alguns segundos para entender.
— Vem cá.
Jobe ficou parado. Jude afastou o cobertor.
— Vamos dormir juntos.
Jobe não precisou ouvir duas vezes. Entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
A cama de Jude era pequena demais para os dois agora. Não tinha sido quando eram menores, mas ambos tinham crescido rápido demais nos últimos anos e Jobe precisou empurrá-lo para conseguir espaço.
Jude empurrou de volta. Jobe quase sorriu.
Se ajeitaram como já tinham feito tantas vezes antes, normalmente porque tinham ficado acordados até tarde jogando videogame ou assistindo televisão. Às vezes porque um deles tinha tido um pesadelo quando eram menores — embora nenhum dos dois mencionasse essas ocasiões.
Dessa vez, o motivo era mais simples. Nenhum queria ficar sozinho.
Jobe puxou o cobertor até o queixo e Jude virou de lado. Por alguns minutos, não disseram nada. O quarto estava escuro, e Jobe ouvia a respiração do irmão misturada aos sons familiares da casa se acomodando para a noite: uma torneira abrindo no banheiro, os passos dos pais no corredor, uma porta fechando.
Então percebeu o cheiro de Jude.
Chocolate quente. Marshmallows.
Estava mais forte agora que estavam tão perto. Jobe pensou nas canecas enormes que Denise fazia quando alguém estava doente ou triste, sempre colocando marshmallows demais porque Jude reclamava se ainda conseguisse enxergar o chocolate por baixo deles.
Casa.
Era isso. Jude cheirava a casa.
A palavra surgiu com tanta facilidade que doeu, porque Jobe sabia que Jude não estava se sentindo em casa dentro do próprio corpo.
Virou o rosto no travesseiro. Na escuridão, conseguia distinguir apenas o contorno do irmão.
— Jude?
— Hm?
Jobe ficou alguns segundos em silêncio. Tinha pensado em alguma coisa melhor para dizer durante o filme, mas agora não lembrava.
— Eu sinto muito.
Jude virou o rosto para ele. A pouca luz que atravessava a janela era suficiente para Jobe ver que seus olhos estavam marejados, mas ele não respondeu.
Seus próprios olhos começaram a arder. Jobe queria fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
Problemas sempre tinham funcionado daquele jeito na cabeça dele. Se Jude perdia alguma coisa, eles procuravam. Se se machucava, chamavam os pais. Se alguém mexia com ele, Jobe podia mexer de volta.
Problemas tinham soluções.
Aquilo não.
A expressão do irmão mudou. Jobe não soube o que Jude tinha percebido em seu cheiro, apenas que alguma coisa ali o fez se aproximar e puxá-lo para um abraço.
— Não se preocupa comigo.
Jobe ficou quieto. Era uma coisa estúpida de pedir. Claro que ele ia se preocupar.
Jude respirou fundo.
— Eu ainda vou ser um dos maiores jogadores de futebol que esse mundo já viu.
Sorriu. Um sorriso pequeno, ainda triste, mas um sorriso.
Jobe olhou para ele e tentou imaginá-lo adulto. Uniforme profissional. Um estádio enorme. O nome Bellingham nas costas de uma camisa.
Talvez Jude nem acreditasse de verdade na própria frase naquela noite.
Jobe acreditava.
Não porque quisesse fazê-lo se sentir melhor. Nem apenas porque era seu irmão. Acreditava porque Jude tinha decidido, muitos anos antes, que seria jogador de futebol e, na experiência de doze anos de Jobe Bellingham, quando Jude decidia alguma coisa, era o resto do mundo que precisava descobrir como lidar com isso.
Se existia alguém capaz, era ele.
— Eu sei.
Não eu acho.
Não eu espero.
Eu sei.
Jude fechou os olhos. Jobe também.
Continuaram abraçados, apertados um contra o outro na cama pequena, enquanto chocolate quente e marshmallows se misturavam ao frescor da chuva ao redor deles.
Casa.
