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Avatober 2026 - Makto

Summary:

Não importa o quão forte seja a guerreira, até mesmo os mais calmos anos de paz conseguem fazer qualquer um se derreter a rotina. 9 anos depois da Batalha de Ayram Alusìng, Neytiri se vê em um piquenique criativo com a família em um rio calmo, com boa comida por perto e uma curiosa Kiri lhe relembrando os dias de Palulukan Makto.

Notes:

E cá estamos mais uma vez para participar do #Avatober2026 da minha amiga Maisie! (@zeephaus)

 

Espero que gostem tanto quando amei escrever :)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Avatober 2026 10/03 "Makto"





“Sa'nu!!"








 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos últimos anos, todos os dias pareciam o mesmo, cheios de paz e amor. De manhã as crianças acordavam muito mais alto do que o necessário enquanto sempre pulavam nas redes de seus pais, mesmo que Jake já tivesse ameaçado as crianças de dar nós em suas caudas. E mesmo que isso fosse quase obrigatório acontecer quase todas as manhãs, Neytiri não poderia gostar mais da paz que essa rotina trazia. 



E, como era de se esperar, hoje não foi diferente, dessa vez, pela manhã, as crianças não pularam em cima de seus pais, dessa vez por conta da barriga de Neytiri, maior a cada dia. Às vezes ela voltava de caçadas com o almoço em mãos pensando nos nomes que poderiam ser… se fosse menino, ela convenceria Jake, novamente, que Kamun seria um bom nome… mas se fosse menina… ninguém iria fazê-la mudar de ideia. 



O nome surgiu enquanto ela cantava uma música calma para os agitados Neteyam e Lo’ak conseguirem dormir na noite que eles contaram para eles da gravidez. Ela estava cansada e acabou cantarolando errado uma palavra, ao tentar consertar de repente aquela palavra soou boa demais para estar errada. Alguns longos minutos depois, balançando a rede dos filhos em silêncio, ela finalmente sussurrou para si. Tuktirey. Ali ela soube que ninguém iria conseguir tirar esse nome de sua cabeça. 



Então, após passar boa parte da manhã no centro da vila com sua mãe, ajudando-a a separar a grande quantidade de flores vindas do território dos Tawkami para distingui-las entre as medicinais e as de ornamentação. O grupo de caça retornou após cerca de duas horas fora, entre os guerreiros estavam Jake e os eletrizantes Neteyam e Lo’ak carregando dois grandes Yeriks que eles correram para mostrar a Neytiri que foram eles que os caçaram com suas próprias mãos. Como se o sorriso satisfeito de Jake e suas flechas manchadas de sangue fosse apenas um detalhe a ser esquecido. 



Então, para o almoço, um pouco… diferente, Jake convenceu os meninos a prepará-lo para um mini piquenique, ou era assim que ele sempre dava o nome para ir comer longe da vila. Hoje em especial Jake queria muito que eles fossem à margem de um rio levemente afastado a Leste da vila, bem próximo das sempre enormes Ayram alusìng. Quando eles chegaram lá, ele encarregou Lo’ak de ajudar Neytiri a cortar os legumes, Neteyam a ajudá-lo a pegar os gravetos e pedras. Porém, conforme fora meticulosamente calculado, Kiri encontrou uma concha grande inteiramente azulada com linhas roxas por toda sua extensão, ela nunca tinha encontrado conchas desse tipo por ali, elas pareciam ter vindo de muito, muitoooo longe. E quando ela encontrou a segunda não demorou muito para que os meninos também tivessem abandonado suas tarefas para procurar mais delas ao longo da margem.



Algumas semanas antes, o clã Tlalim chegaram a Kelutral trazendo as histórias mais malucas e as roupas mais belas que aquelas caravanas poderiam trazer. Junto com, é claro, as festas mais divertidas também. Jake encontrou um jovem rapaz deles que estava trocando um saco inteiro de conchas coloridas do arquipélago dos Metkayina por qualquer coisa ‘Pontiaguda e igualmente colorida’. Jake quase deixou Neytiri maluca para fazer dois trios de facas novas com o amber mais colorido que os Omaticaya poderiam ter, e, no último instante, ele conseguiu trocá-las. Quando ele explicou o seu plano para Neytiri, ela o perdoou pelo mini inferno que causou em sua cabeça. Jake disse que iria até o rio mais próximo que as crianças não costumavam ir muito para espalhar por debaixo das pedras as conchas. Assim, quando encontrassem, ele poderia dizer que Eywa trouxe para eles um presente do mar. 



As crianças correram por quase toda a margem e só não atravessaram o rio para ver se poderiam encontrar mais do outro lado porque Jake não deixou. Quando Neytiri mandou que eles parassem para comer, eles fizeram quase que imediatamente. Porém quando… aquele garoto chegou, Spider, Neytiri não gostava de se lembrar do nome dele. As crianças aceleraram o ritmo e terminaram de comer, para que pudessem procurar mais conchas juntos como aquele garoto.



Eventualmente, quando todas foram encontradas, os meninos começaram a brincar na água junto com Jake, enquanto a já cansada Kiri voltou sozinha para a fogueira, onde Neytiri estava, carregando um saco inteiro de conchas.



— Já está cansada, Kiri? — Neytiri não conseguia esconder o sorriso de ver aquele rostinho tão exausto.



A pequena balançou a cabeça beeeeem lentamente. E ao deixar o saco de lado, ela caminhou até o colo de sua mãe, que já começava a embalar a comida que sobrou em algumas plantas longas recém lavadas na água. 



— Sobrou muito? — Kiri perguntou, apoiando o rosto nas próprias mãos sobre a coxa de Neytiri. 



— Para a quantidade de esfomeados que comeram hoje… sim. Surpreendente. 



— Então posso dar um pouquinho para o Spider? 



Puff… é claro que seria isso. — Kiri… não sabemos se a nossa comida faz mal para o povo dele… temos uma fruta no caminho de volta. E só isso!



A pequena garota revirou os olhos e… — Não vire os olhos para mim! — E riu da cara de “brava” que Neytiri fez. 



Ela se levantou novamente e, sem sair de muito perto de Neytiri, começou a perambular de um lado para o outro, cantarolando os trechos das músicas que conseguia se lembrar da grande festa dos Tlalim enquanto fazia questão de chutar algumas pedras aqui e ali com a esperança de que talvez ela encontrasse mais uma concha perdida. Até que, de repente, ela parou. Neytiri notou isso, já que agora somente os gritos, quase de desespero, misturados a risos muito altos de alegria vindo de onde Jake e os meninos estavam, então ela apenas terminou de empacotar mais um pedaço de carne, partindo logo para o último. 



— Sa’nu… — Kiri se virou para Neytiri em um salto rápido. — Você estava na grande batalha de Ayram Alusìng né? 



Neytiri olhou para Kiri, confusa. Ela via a cadeira de montanha atrás da garota e achou que ela percebeu agora que eram elas que estavam ali. — Srane Kiri… por quê? 



— Não é isso… você estava lá sozinha ou… com mais alguém? 



Neytiri deixou a comida de lado e se virou totalmente para a garota tentando entender exatamente o que ela estava tentando perguntar. — Não, é claro que não… milhares de guerreiros estavam conosco… todos lutando juntos para expulsar o povo do céu de nossas terras… foi tão lindo no final… Jake estava lá… eu e Seze também.



— SEZE!!! 



Bingo



— Você estava lá com ela, né? Como… Makto? 



Neytiri não pôde deixar de abrir o seu maior sorriso para Kiri, que também não parava de sorrir. — Exatamente, meu amor!  Nós lutamos tão bem naquele dia… Quando as naves de metal deles passaram por debaixo de nós, Jake gritou para que todos saltássemos e… ah… foi tão bonito… 



Os olhos de Kiri estavam fixos no rosto de Neytiri como se fosse a primeira vez na vida que ela ouvisse essa mesma história. — Quando descemos das mais altas altitudes do topo das mais altas Ayram alusìng o vento quase arrancou minha tinta… mas Seze estava tão ansiosa quanto eu. — E assim como todas as outras vezes, Kiri, mesmo pequena, conseguia escutar um pouquinho de tristeza junto quando Neytiri se lembrava daquele dia. 



— Mas depois? Quando você… sabe… você continuou com um…



— Palulukan?



— ISSO!! Você foi Makto, né, Sa’nu?!



Mesmo que aquele belo Palulukan tivesse tido o mesmo destino de sua doce Seze.  Os olhos de Kiri, agora ainda mais brilhantes de alegria, conseguiram espantar qualquer tristeza que aquele momento pudesse carregar. — Como assim foi, Kiri? Eu ainda sou… bem… não conte pra ninguém que eu te disse isso!!



As duas compartilharam a mesma risada infantil. — Tá bom!!! E… como que foi? Você se lembra? 



— É claro! Quase como se fosse ontem… Ele surgiu de trás de uma grande árvore. Ele parecia estar com medo também, talvez não tanto quanto eu, mas o suficiente para não parar de lutar.



— E como você subiu nele? 



— Ele deixou! Eu… não entendo totalmente como até hoje… mas talvez nem fosse para isso… eu apenas subi e fiz o tsaheylu…



— E…



— Forte, muito forte… mais do que qualquer criatura que eu já conheci na vida. Já ouvi as histórias dos Tlalim dos carnívoros dos desertos, das criaturas do gelo e dos enormes Zakrus… mas nada… eu sinto que nada é mais forte que aquele Palulukan, naquele dia…



Kiri estava hipnotizada, mais uma vez, com essa história. — E você… matou muitos do povo do céu? 



Neytiri riu tão orgulhosamente. — Muitos… eu me lembro até hoje de derrubar alguns dos andarilhos de ferro deles e arrancar de dentro deles um sem cabelo… a cara dele…



Kiri acompanhou a risada da mãe imaginando a cara daquele pequeno infeliz. — E você conseguiu fazer de novo? 



— Não, Ma’ite… 



— Por que você não tentou de novo? 



— Não é tão simples, Kiri… aquele momento foi… único na vida de nós dois.



— Mas é… qual o nome… anur…aaaa.. aquele clã…



— Anurai?



— ISSO! Eles não montam Palulukans?



— Sim, Kiri, mas só uma vez também! É algo raro e de profunda importância para os dois, eles não são como Pa'lis! Não se pode montar um e seguir em frente. Precisa ter significado para todos.



— Hmm… e se fosse hoje…



— O que, Kiri?



— Hoje, você fosse ser Palulukan Makto de novo… você conseguiria? 



— Bem… acho que não amor… Eywa me deu aquela oportunidade naquele dia porque até ela mesma saiu para lutar também… não pode ser algo do nada, Ma’ite…



— E… você já tentou depois? 



— Bem, não, mas… como eu iria também, Kiri?



— Como? Ali, Sa’nu!!



E quando Kiri apontou para trás, foi ali que Neytiri finalmente entendeu porque Kiri tinha parado de perambular. 



Do outro lado do rio, exatamente entre as pedras da margem do rio e a linha das árvores da floresta, um enorme Palulukan negro com grandes listras acinzentadas, levemente mais claras que sua pele, estava parado com a cabeça baixa e encarando as duas à distância por sabe-se lá quanto tempo.



O coração de Neytiri congelou instantaneamente. Uma mão pressionou sua própria barriga com força, acordando a bebê, e com a outra mão ela agarrou o braço de Kiri. A garota não parecia tão assustada quando Neytiri, ela sempre teve esse teimoso hábito de não avisar quando Nantangs apareciam perto de casa. Mas ela nunca achou que ela não avisaria de um Palulukan. Especialmente um tão grande como esse, já que Neytiri só conseguia ver as quatro patas da frente, com seu tamanho, parte de seu corpo ainda estava escondida dentro da floresta.



— Ma’Jake! — Neytiri tentou falar o mais alto que conseguia sem gritar diretamente, enquanto lentamente começava a se levantar, levando Kiri para seu colo e a cesta com a comida em sua mão. Jake, por um milagre entre tantos gritos dos meninos, escutou no instante em que ele estava com Neteyam em suas mãos prestes a jogá-lo na água. Por alguns segundos ele tentou entender por que Neytiri o chamou de costas, mas não demorou um segundo extra para que seus olhos também se arregalassem. 



Jake colocou seu filho lentamente ao chão e apontou para a margem. Quando Lo’ak finalmente avistou a criatura, ele quase gritou, mas foi rapidamente impedido pelas mãos de Jake e Spider. 



— Shhhh… — Jake estava começando a ficar tão ofegante quanto seus filhos. — Escute… vocês vão até a fogueira… vão jogar pedras em cima e vão me seguir até sua mãe, devagar, entenderam?... 



Os três garotos acenaram ao mesmo tempo e começaram a fazer o que Jake mandou. Neytiri estava lentamente dando passos para trás, indo mais longe do Palulukan, por mais que ele não estivesse se mexendo nem um centímetro sequer. Mesmo respirando muito, muito pesadamente. 



— Sa’nu!...



— Shhhh Kiri!



— Não, não, ele tá com fome! 



Os meninos começaram a apagar a fogueira enquanto Jake estava à frente deles no instante em que Neytiri parou. — O que? 



— Ele não vai machucar a gente… não parece, né? 



Por mais arrepiante que seja, Neytiri voltou seu olhar ao Palulukan e… realmente tinha alguma coisa ali. Ela não estava duvidando de Kiri… ela sempre tinha esse estranho, mas sempre muito preciso, olhar para os animais. Ela não tinha tempo para pensar nisso, a comida embalada era pouca para alguém daquele tamanho, muito melhor que aquela carne fosse o jantar dele do que outra coisa. Então, Neytiri abriu a cesta e a jogou no chão, certificando-se de que o máximo de carne fosse espalhado sobre as pedras. Então, quando os meninos terminaram de apagar a fogueira, os três correram para trás de Neytiri. 



Ela e Jake apenas precisaram se olhar uma única vez, ele pegou, lentamente, o saco de conchas do chão e começou a caminhar de costas para a floresta, sem nunca tirar o olho do Palulukan. E Neytiri assumiu o caminho em direção à floresta, com Kiri em seu colo e Lo’ak segurando sua outra mão. Enquanto Neteyam ficava entre ela e Jake segurando sua nova, mas ainda pequena, faca de caça. Antes de atravessar a linha da floresta para finalmente saírem rápido dali, ela olhou uma última vez para ele… que nunca parou de olhar para ela, e somente para ela, desde quando Kiri o avistou. 



Então os Sullys atravessaram a linha da floresta e desapareceram no começo do entardecer. O caminho de volta para a Kelutral foi um alívio para relembrar a rotina, em  paz, quando chegaram em casa, as crianças foram correndo mostrar as conchas que Eywa trouxe do mar ao rio para eles. Jake ainda teria que explicar para os pais dos amigos de seus filhos para não deixarem seus filhos irem procurar conchas naquele rio, pelo menos isso conseguiu arrancar algumas risadas naquela noite, por mais que agora Jake e seus guerreiros deveriam ter que encontrar uma maneira de afastar aquele Palulukan da região.



Mas isso felizmente ficará para amanhã. Quando todas as crianças dormiram, Jake levou, contra todos os falsos protestos, Neytiri em seu colo até a sua rede. Quando finalmente se encaixaram, ela contou tudo para ele sobre o que aconteceu com Kiri no rio. E por mais preocupado que Jake tenha ficado, ele não pôde deixar de rir dessa loucura com Neytiri, que se permitiu relaxar agora. E pouco antes de cair no sono, muito após Jake já ter caído, ela sorriu para si mesma ao perceber que, agora, ela terá duas grandes histórias envolvendo Palulukans para contar para a bebê pela primeira vez, quando ela nascer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notes:

Os meus olhos brilharam quando a ideia das conchas surgiu, juro é de longe uma das coisas mais fofas que já escrevi 🥹

 

Gosto de imaginar que por mais que Jake possa ter parecido paranoico por muito tempo em relação a volta da RDA, ele ainda tenha conseguido ter muitos momentos assim com os filhos. Assim como Neytiri possa ter aproveitado cada segundo das quase duas décadas de paz.

 

Mesmo que de vez enquanto Kiri tenha lhe dado sustos assim kkkkkkkkkkkkk