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As Criaturas do Mundo

Summary:

Muitas criaturas estranhas e maravilhosas faziam seus lares nos Reinos Infinitos. Qualquer uma delas poderia ter sido chamada de fantasma, mas esse era um termo amplo e genérico, muito parecido com "vida" ou "matéria". Bem como os vivos, os habitantes dos Reinos se dividiam em grupos de raça e tribo, espécie e linhagem, origem e credo. Iam desde os microscópicos até os gigantescos, desde os brilhantemente inteligentes até os completamente irracionais. Os Reinos podiam parecer escassamente povoados, mas fervilhavam.

Tradução autorizada da obra original "Creatures of the World" de Marsalias. Todos os créditos pertencem à autora original.

Notes:

Work Text:

​Muitas criaturas estranhas e maravilhosas faziam seus lares nos Reinos Infinitos. Qualquer uma delas poderia ser chamada de fantasma, mas esse era um termo muito amplo e genérico, assim como “vida” ou “matéria”. Bem como os vivos, os habitantes dos Reinos se dividiam em grupos de raça e tribo, espécie e linhagem, origem e credo. Iam desde os microscópicos até os gigantescos, desde os brilhantemente inteligentes até os completamente irracionais. Os Reinos podiam parecer escassamente povoados, mas, na verdade, fervilhavam de vida.

​Havia os behemoths, grandes feras de quatro braços e pelagem avermelhada. Eram os guardiões de artefatos e itens preciosos; sua Obsessão compartilhada os impulsionava a buscar tais coisas e protegê-las, às vezes até acumulá-las. Eles agiam mais como a concepção humana de dragões do que qualquer outra coisa.

​Unicórnios também existiam nos Reinos, mas não eram as criaturas dóceis e plácidas dos mitos humanos. Eram ferozes, esquentados e cruéis, e usavam seus chifres com o máximo de letalidade, empalando e dilacerando suas vítimas antes de se banquetearem com sua carne. Apenas virgens, ou os verdadeiramente puros de coração, podiam sequer ter a esperança de acalmá-los, e seus ataques tão indiscriminados fizeram com que a maior parte de sua raça fosse selada dentro da Caixa de Pandora como um dos males da Zona Fantasma.

​Os Yetis, gigantes de gelo, tinham um Reino só para eles: os Confins Congelados, uma das Terras do Gelo. Eram imensos, parecidos com ursos, com pelos brancos, garras, dentes afiados, chifres e olhos amarelos — perigosos tanto na aparência quanto na realidade. Ainda assim, sua tribo abrigava uma das civilizações mais antigas dos Reinos, e eles eram um povo de grande honra, formados por artesãos habilidosos e com uma medicina avançada. Levavam os deveres ancestrais de sua tribo a sério e guardavam muito bem os seus segredos.

​Mas havia uma criatura ainda mais estranha que frequentava os Reinos Infinitos.

​


 

​Apenas alguns dias não eram tempo suficiente para ninguém dominar o gelo, refletiu Mordegelo. O fato de que o Grande havia conseguido demonstrar o menor sinal de domínio já era impressionante. Usar essa habilidade incompleta para derrotar Undergrowth, o Mestre da Natureza e um dos sete Anciões, era ainda mais impressionante. Talvez não tanto quanto derrotar Pariah Dark, o Rei Fantasma... Não. O antigo Rei Fantasma, mas, de fato, poucas coisas chegavam a esse patamar.

​Portanto, não foi surpresa alguma para Mordegelo quando o Grande retornou alguns dias depois (mais uma vez caindo literalmente do céu), tremendo de frio contido.

​Toda vez que Mordegelo via o Grande, ficava impressionado com o quão pequeno e jovem ele era. O Grande era um dos Mortos, não dos Imortais, os fantasmas de nascença, e Mordegelo sabia que os humanos amadureciam e envelheciam muito mais rápido do que o seu povo, mas o Grande tinha menos de duas décadas em seu nome. O filhote mais novo nos Confins Congelados tinha seis décadas, e era duas vezes maior. Mordegelo conseguiria segurar o Grande com apenas uma mão. Snowdrift exigia pelo menos um braço inteiro.

​— D-desculpe a-aparecer assim de s-supetão, Fr-Mordegelo — o Grande disse, gaguejando enquanto tremia. — Mas os meus poderes m-me deixaram numa f-fria.

​Pela forma como ele enfatizou certas palavras, Mordegelo deduziu que havia uma piada ali, possivelmente até várias. O senso de humor do Grande era um tanto... inescrutável, no entanto. Mordegelo suspeitava que isso se devia a diferenças culturais. O Grande fora criado como humano, afinal de contas.

​O Grande fez uma tentativa fraca de levantar voo para sair da neve, mas acabou afundando nela, exausto, com a pele levemente azulada.

​— Eu a-acho que p-preciso de ajuda. D-desculpe p-por isso.

​— Está tudo bem, Ó Grande! — disse Mordegelo, tentando mascarar a sua preocupação.

​O Grande era forte, assim como seus poderes de gelo. Normalmente, para qualquer outro de seus filhotes, isso seria uma coisa boa, mas o Grande era um meio-fantasma, e seu corpo ainda não havia se adaptado ao frio que conseguia produzir e conter.

​Ele pegou a criança nos braços e decolou do chão, voando de volta em direção à vila. O Grande suspirou e se aninhou no pelo grosso de Mordegelo.

​— Obrigado — ele murmurou.

​


 

​O unicórnio levantou a cabeça do riacho. A água pingava de suas presas à mostra. Ele sentiu alguma coisa. Algo interessante. Uma língua bifurcada chicoteou por entre seus lábios, e sua crina de fogo brilhou em um tom de azul intenso. A fera deu um impulso no chão e saltou para cima, com os cascos arrancando faíscas do próprio ar. Fantasmas tinham o hábito de criar as próprias regras da física.

​Ele parou, com uma delicadeza enganosa, sobre uma minúscula ilha. Olhou de um lado para o outro, com as narinas dilatadas e a língua provando o ar, tentando captar o cheiro. A coisa que estava procurando estava por perto. Ele conseguia sentir.

​Finalmente, determinou uma direção e disparou. Sons de batalha chegaram aos seus ouvidos. Estava perto, agora. Uma refeição o aguardava. Uma refeição e, talvez, algo mais.

​O unicórnio saltitou de forma alegre e mortífera por uma série de ilhas maiores, atravessando um banco de névoa ectoplasmática. Ele fez uma pausa por um momento para observar a batalha. Havia dois fantasmas. Um deles era grande, semelhante a um lagarto, com escamas verde-claras, olhos vermelhos e furiosos e oito pernas finas. O outro era bem pequeno. Humanoide. Preto, branco e verde. Rápido e agressivo. Era esse segundo que possuía aquele algo que atraía o unicórnio.

​A criatura abaixou a cabeça e avançou. Contra o lagarto, é claro. Seu chifre atravessou o cerne do monstro, que foi destruído instantaneamente. O unicórnio deixou o corpo já em desintegração escorregar do chifre e se virou para encarar o outro fantasma. O garoto parecia bastante perplexo com toda a situação, irradiando incerteza.

​O unicórnio farejou o ar. O pequeno fantasma era puro, sim, ainda inocente, mas havia algo... estranho. O unicórnio sacudiu a cabeça e voltou sua atenção para o corpo do lagarto, arrancando tiras de carne ectoplasmática.

​— Certo, então... — disse o pequeno fantasma. — Eu só vou... dar o fora.

​


 

​Era raro para um behemoth perder o seu tesouro, mas fora exatamente isso o que havia acontecido com esta fêmea em particular. Ela estava deprimida. Terrivelmente deprimida. Havia protegido a Chave Mestra por centenas de anos, desde pouco depois de Pariah ter sido trancado. A perda... era insuportável.

​Ela jazia mole, imóvel, sobre um pedaço de rocha flutuante, miserável demais para se mover ou mesmo para retornar ao seu Esconderijo. Se não encontrasse logo outra coisa para proteger, algo precioso, algo valioso — pelo menos tão valioso quanto a Chave fora —, ela definharia enquanto sua Obsessão morria de fome. Mas havia poucas coisas nos Reinos que pudessem se igualar àquilo.

​Em essência, a fera estava apenas esperando a morte.

​Um grito alto, agudo e jovial rasgou o silêncio dos Reinos. A behemoth levantou a cabeça; a curiosidade superando a apatia de forma temporária. Havia dor naquele grito.

​E então:

​— Daniel, Daniel, Daniel. Você nunca aprende, não é?

​Os pelos do pescoço da fera se eriçaram. Aquela voz... Aquela voz. Pertencia àquele que havia roubado a sua Chave! Aquele homem terrivelmente maligno! Ela estava chegando ao fim, mas cobraria a sua dívida de sangue antes disso.

​A criatura alçou voo, reenergizada pelo menos por um momento, e disparou na direção da voz em alta velocidade. O homem surgiu em seu campo de visão e ela rugiu, enfurecida. Os dois fantasmas que batalhavam olharam para cima, surpresos, mas ela só estava interessada no maior deles. Só estava interessada nele.

​— Ah, biscoitos de manteiga!

​Ela o engoliu inteiro. Ah, é claro, ele conseguiria sair de lá eventualmente. Ele havia escapado da última vez, e ela estava mais fraca agora, mas levaria dias, talvez até semanas. Havia levado meses na última vez.

​Houve um gemido baixo, e a behemoth se virou. O fantasma menor estava deitado em uma ilha próxima, segurando os próprios ferimentos — que pareciam graves. O medo estava estampado em seu rosto. E com toda a razão, afinal, ele acabara de vê-la devorar alguém!

​A fera se arrastou para mais perto, hipnotizada por alguma qualidade que o pequeno fantasma possuía. Ele tentou correr, tentou levantar voo, mas caiu de volta no chão, encolhendo-se e protegendo o próprio estômago. Ela aproveitou a oportunidade para chegar ainda mais perto e o cutucou de leve com uma de suas mãos.

​— Por favor, não me come — ele sussurrou. — Por favor, não me come, eu não sou gostoso, por favor, não me come.

​Ela lhe deu uma lambida, provando uma das manchas de ectoplasma. Ele choramingou. Ele estava mesmo muito machucado, não estava? Era uma pena que ela não pudesse fazer nada além de limpar suas feridas, e o fato de ele se encolher não estava facilitando o trabalho. Finalmente, um tanto satisfeita, a behemoth se aninhou ao redor da criança, envolvendo a longa cauda firmemente em volta dele, e cantarolou.

​Talvez, no fim das contas, ela tivesse encontrado algo precioso.

​


 

​Danny precisava admitir: ele muitas vezes ficava confuso com a forma como os fantasmas reagiam a ele. O povo dos Confins Congelados praticamente o idolatrava. Os unicórnios o ignoravam. E agora, aquilo. Mas não era tão ruim assim. Na verdade, ele se sentia meio que... protegido. Igual a quando estava com Clockwork, ou com o Mordegelo.

​Ele suspirou e começou a cantarolar de volta.

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