Chapter Text
VI.
Durante toda a sua jornada, Percy esteve certo de apenas três coisas: seu próprio nome, o nome de Annabeth e do rosto de um garoto de cabelos cacheados e olhos chorosos. Não era muito, mas era o bastante para lhe dar forças e chegar até ao Acampamento Júpiter na esperança de reencontrá-los. Efetivamente não foi o que aconteceu, mas Percy sabia, assim como sabia que os deuses existiam e que o mundo era infestado por coisas além da compreensão limitada dos mortais, que os reencontraria eventualmente. Nada naquele mundo, divino ou não, o manteria separado das duas pessoas mais importantes de sua vida por muito tempo.
Se não tivesse se concentrado nessa certeza, talvez não tivesse encontrado a força de vontade para enfrentar sua jornada até o Alasca e lutado de frente com tantos seres divinos imprestáveis. Seria tão mais fácil simplesmente permanecer sem memória, lutando ao lado dos romanos e se contentar que isso seria o melhor que ele poderia fazer pelo mundo. No entanto, sempre haveria aquele vazio em seu peito e mente impossível de ser saciado por outras pessoas ou outros lugares. Percy poderia amar novas pessoas e lugares, poderia lutar por eles com a mesma ferocidade que sentia que lutou pelo seu lar original, mas nunca seria capaz de abandonar definitivamente essa parte de si mesmo e toda a história cheia de sentimentos que construiu ao lado dessas pessoas. Porque ele sabia, de alguma forma, que não seria Percy Jackson sem isso e ele não quer ser qualquer outra pessoa além de si mesmo independente das intenções de Hera com esse plano idiota.
Então quando o Argo II flutuou sob os limites do acampamento, Percy sentia seu coração acelerando a cada segundo. A ideia de reencontrar Annabeth e Grover após tantos meses fazia suas mãos suarem e o ar ficar preso nos pulmões. Era algo que ele queria tanto e, ao mesmo tempo, temia quando o momento enfim chegasse. Porque embora soubesse que eles estavam procurando por ele esse tempo todo, será que realmente o querem de volta? E se esse garoto Jason tivesse se mostrado um herói mais competente que ele? Pelos deuses, e se Annabeth ou Grover tivessem feito a ele o mesmo tipo de proposta que recebeu de Reyna? Percy não considerou um cenário como esse se apresentando naquele reencontro e quis se estapear por isso.
Os primeiros a descer foram Annabeth e um garoto que Percy presumiu ser Jason pela postura tipicamente romana. Havia mais dois semideuses a borda escorados na amurada do barco esperando ordens e nenhum sátiro à vista. Pela primeira vez também temeu que Grover não tivesse sido escolhido para partir naquela missão. O coração de Percy afundou com a possibilidade de não vê-lo antes de ter que partir para as Terras Antigas de onde, talvez, nem voltaria.
Quando os olhos de Annabeth o reconheceram em meio a multidão, foi como se a fachada de líder tivesse se esvaído e restado apenas a garota com quem ele cresceu e lutou ao lado por tantos anos. As lágrimas surgiram em seus olhos e antes que qualquer apresentação fosse feita, os braços de Annabeth estavam em volta do seu pescoço. Percy a abraçou com força descrente de que realmente haviam se reencontrado e que ela estava ali, de verdade. Então uma dor dilacerante o acertou no estômago e ele percebeu que havia levado um soco bem ao estilo de Annabeth.
– Você quase matou nós dois de preocupação, seu cabeça de alga!
Percy se encolheu em si mesmo com um sorriso. – Senti sua falta também, sabichona.
– Perdão por isso. – Jason surgiu ao lado de Annabeth e cutucou pouco discretamente o ombro dela. – Por favor, acreditem, ela não é sempre assim.
– Inesperado, mas acho que tudo nisso é, de certa forma. – Reyna parecia bem composta apesar de estar diante do garoto que supostamente gostava após tantos meses. – Você parece bem, Jason.
– Estou sim, obrigado.
– Presumo que o lado grego tenha sido gentil com você.
– Bastante. Espero que o lado romano possa estender a cortesia.
– Por enquanto. Traga o resto da sua tripulação e veremos o quanto essa gentileza pode durar.
Antes que Octavian pudesse protestar, Jason colocou os dedos na boca e assobiou para o navio. Os dois semideuses escorados na amurada assentiram e começaram a descer pela escada. Percy olhou para o navio apreensivo.
– Grover não veio com vocês? – Percy perguntou ainda um pouco sem ar.
Annabeth se virou para ele com uma careta e Percy esperou pelo pior. Que Quíron não pode dispensá-lo por causa de seu posto no Conselho dos Anciãos de Cascos Fendidos ou que ele tenha se apaixonado perdidamente por outra dríade e tenha decidido que ficar no acampamento era melhor do que morrer com seus amigos nas Terras Antigas além do domínio dos deuses.
No entanto, antes que ela pudesse responder, um grito de felicidade ecoou de dentro do navio até a superfície e os cachos desgrenhados de Grover surgiram na amurada. Como se estivesse em um frenesi, ele pulou do navio sem qualquer hesitação e pousou perto deles com seus cascos na grama sem demonstrar qualquer sinal de ter sentido dor. A resistência dos sátiros nunca impressionou tanto Percy quanto naquele momento.
– Percy! – Foi o único aviso que recebeu antes de Grover pular em cima dele com seus braços estendidos e ambos rolarem no chão juntos. – Eu senti tanto a sua falta!
Antes que Percy pudesse se sentar adequadamente para retribuir o abraço, as mãos de Grover subiram para seu rosto e seus lábios se encontraram em um beijo. Seu primeiro instinto foi ficar completamente petrificado, afinal, desde o momento que percebeu que poderia estar apaixonado pelo melhor amigo até alguns instantes atrás, nunca pensou que Grover pudesse retribuir seus sentimentos. Parecia um dos muitos sonhos que teve no ano antes de enfrentarem Cronos em Manhattan, sendo honesto. Porém, no instante que suas mãos tocaram a cintura dele e seu cérebro processou que sim, estava sendo beijado pelo Grover de verdade, nada o impediu de retribuir o beijo.
– Isso explica muita coisa. – Uma voz masculina comentou com uma risadinha.
– Leo! – Uma voz feminina o repreendeu.
– Não, não, ele está certo. Isso explica muita coisa. – Era a voz de Frank? Está bem, talvez Percy devesse deixar essa coisa de beijar longe dos olhos das outras pessoas por enquanto.
Grover parecia diferente desde a última vez que se viram pessoalmente. Seu cabelo estava maior e mais selvagem, com cachos enroscados em flores e gravetos. Ele usava a camiseta do acampamento e bermuda por baixo de um manto verde com bordados de flores amarelas. Seus chifres estavam maiores também, completamente visíveis acima dos cachos e decorados com raízes brilhantes. Percy não conseguiu conter os dedos em segurar um dos cachos com ternura.
– Eu senti sua falta também, Grover.
– Desculpe ter demorado tanto para perceber.
– Eu prefiro um bom e velho antes tarde do que nunca. Estou feliz que você veio. Achei que não viria.
– Como se eu pudesse deixar meus semideuses partirem para as Terras Antigas sem mim.
– Isso é muito comovente, mas vocês estão fazendo uma cena e tanto e nós estamos tentando ter uma conferência de paz aqui. – Annabeth resmungou com a mão na cintura. Só então Percy percebeu que sim, eles ainda estavam no chão e Grover ainda estava em seu colo com as mãos em seu rosto.
– Sim, claro, peço desculpas. – Grover prontamente assumiu uma postura profissional e se levantou em um pulo. Percy o seguiu com um pouco de dificuldade. Ser quase nocauteado pelas suas duas pessoas favoritas uma atrás da outra foi a melhor forma de recepção que ele já recebeu.
Os olhos de Octavian se arregalaram ao olhar para Grover. – Você é uma divindade!
– De certa forma. – Grover respondeu humildemente.
– Uma divindade? – Reyna perguntou cética.
– Da natureza. Um ser antigo o abençoou com a missão de perpetuar seu domínio. – Octavian explicou com a mão no peito como se estivesse sentindo algum tipo de influência externa. Percy acreditava que ele só estava sendo dramático. – O que vocês querem com uma divindade aqui?!
– Ei, eu já disse que estamos em paz. – Jason respondeu com raiva. Annabeth ergueu a mão para ele e Percy o observou recuar sem qualquer hesitação. Parece que o antigo pretor realmente era um cara inteligente, afinal de contas.
– Esse é Grover Underwood, um dos nossos acompanhantes sátiros. Ele foi abençoado por Pã a alguns anos e está tomando conta de seu domínio desde então.
– Pã? – Reyna perguntou se virando para Jason.
– Fauno. – Ele respondeu prontamente.
– E você disse, “um dos”?
Como se fosse uma deixa, um sátiro bem mais velho surgiu na amurada e gritou a plenos pulmões. – Quem vocês pensam que são para ofenderem o novo Senhor da Natureza?! Eu vou acabar com qualquer um que tratar Grover com qualquer coisa além de reverência!
– Está tudo bem Glesson! Ninguém está me desrespeitando! – Grover gritou de volta e suspirou.
– Você tem certeza?! Porque eu posso acabar com todos eles rapidinho!
– Não se preocupe! Se eu precisar de você, eu aviso!
– Está bem! Estou de olho em todos vocês, seus encrenqueiros! – Ele balançou um taco de beisebol ameaçadoramente e, como se tivesse concluído seu trabalho, desapareceu.
– Podemos deixar ele no navio? Se quiser deixar um guarda com ele, tudo bem. É só que embora Glesson tenha as melhores intenções, ele não é muito diplomático e eu acredito que devamos conversar com calma. – Grover sussurrou com um sorriso. Reyna o analisou calmamente como se a ideia de um fauno ser uma divindade digna de merecer proteção ainda fosse muito nova para ela.
– Compreendo. Você gostaria de inspecionar o navio, certo Octavian?
– Acho que é o mais adequado se você realmente insiste em levá-los para a cidade. – Havia desafio em seu tom. Reyna não recuou.
– Então está resolvido. Você fica de olho no navio enquanto eu converso com nossos convidados.
Antes que ele pudesse protestar, Reyna avançou no meio da multidão em direção ao refeitório para o banquete que os aguardava sem hesitar em seus passos. Jason se virou para os dois semideuses atrás deles.
– Vocês se importam de mostrar as coisas para ele?
– Pode deixar com a gente! – O garoto fez a posição de sentido com um sorriso travesso.
A garota deu uma cotovelada nele. – Seja educado, por favor.
– Entendi, entendi. Não precisa ficar me repreendendo, rainha da beleza. – Ele deu um tapinha no ombro dela. – Bom, deixa eu mostrar o meu brinquedinho humilde para você, companheiro.
Octavian fez uma careta, mas aceitou subir primeiro na escada até o navio. A garota, a última a subir, fez um sinal de positivo com o dedão para Jason e Annabeth antes de se empenhar na escalada. De alguma forma, isso fez os ombros de ambos relaxarem. Seja lá quem for aquela garota, tanto Jason quanto Annabeth confiavam que ela saberia lidar com qualquer situação complicada que se desenrolasse no navio.
– Parece que eu perdi bastante coisa. – Percy murmurou pensativamente.
– Eu que o diga. – Grover olhou para sua roupa de pretor. – Combina com você, eu acho.
– Não tanto quanto combina com eles. – Percy se virou para seus amigos romanos que ainda olhavam para o Argo II com um pouco de receio e curiosidade. – Pessoal, esses são Frank e Hazel. Foi com eles que eu cumpri a missão que me tornou pretor.
– Eu me lembro de vocês. São os novatos da Quinta Coorte, não é?
– Ah, não achei que você fosse se lembrar de mim. Eu cheguei só alguns dias antes de você sumir. – Frank coçou o pescoço um pouco envergonhado.
Jason sorriu. – Eu nunca esqueço um rosto.
– E esses são Annabeth e Grover, meus melhores amigos. – Percy continuou com um sorriso.
– Então você partiu em missão com outras pessoas? Estou quase com ciúmes, cabeça de alga. – Annabeth brincou e estendeu a mão para Hazel. – Muito obrigado por manter esse idiota seguro.
Hazel assentiu admirada e retribuiu o aperto. – Na verdade, ele nos salvou mais vezes do que consigo contar.
– Acredite, isso faz parte do trabalho de mantê-lo seguro.
– E você deve ser o famoso Percy Jackson. – Jason estendeu a mão para Percy amigavelmente, embora sua postura demonstrasse um claro desconforto. – Todos falaram muito bem de você no Acampamento Meio-Sangue. Eu agradeço por manter o meu lar seguro.
– Eu digo o mesmo, Jason. – Percy retribuiu o aperto tentando ser amigável.
Ambos assentiram ao mesmo tempo como se tivessem cumprido seu dever e se viraram para Annabeth em busca de aprovação.
– Vamos, não é educado deixar os anfitriões esperando. – Ela respondeu com um sorriso e seguiu caminho até o banquete.
Jason olhou para Grover e Percy com astúcia antes de se virar para Frank e Hazel. – Então, me atualizem das novidades, por favor. – E os guiou para caminhar atrás de Annabeth.
Percy percebeu, de forma súbita e vergonhosa, que era a primeira vez que ficava a sós com Grover desde que eles se reencontraram depois da batalha contra Cronos. Quando sua grande confissão de amor se perdeu em meio a revelação de que Rachel era o novo Oráculo e todo o trâmite envolvendo o exílio de Grover e sua promoção a divindade honorária. Depois disso, tendo que voltar para a cidade para as aulas, eles se encontraram novamente apenas uma vez antes de Percy desaparecer. Era tão estranho realmente ter Grover ao seu lado, com cada traço de seu rosto nítido, quando esteve com os contornos de sua fisionomia no fundo de sua mente por meses.
– Não estou nem de longe reclamando, mas o que foi aquele beijo? Foi meio aleatório, não acha? – Percy sentia a garganta seca ao perguntar.
Grover deu de ombros, mas estava claramente tão constrangido quanto Percy. – Eu meio que percebi de forma aleatória o que realmente existia entre nós, então eu só… agi por instinto? Não sei ao certo, só sabia que queria te beijar e que você gostaria que eu te beijasse.
– Faz sentido. – Percy respirou fundo. – Então você gosta de mim? Tipo, romanticamente e essas coisas?
– Eu pulei de um navio voador só para te beijar. Acho que é meio óbvio, não? – Grover sorriu brincalhão e brincou com a alça da túnica de Percy. – Você ainda gosta de mim assim? Eu admito que minha lentidão não foi favorável para você.
– Eu pensei no seu rosto por meses mesmo sem memória. Acho que isso responde a sua pergunta. – Percy segurou gentilmente a bochecha de Grover. – Somos namorados agora?
– Sim, gosto de como isso soa.
Dessa vez, foi Percy quem iniciou o beijo. Calmo e suave, como as linhas de um bordado delicado e tão doce quanto os biscoitos de sua infância. Porque Grover merece todo o cuidado de um primeiro amor e Percy gostaria de dar a ele cada parte de sua alma que ainda não lhe pertence.
– Devíamos ir. Meu namorado divindade da natureza precisa participar de uma missão diplomática delicada e importante.
– Que engraçado. Meu namorado herói do Olimpo e pretor também.
Ambos riram e caminharam juntos, de mãos dadas, até o banquete. Percy sabia que ainda havia muito a ser feito, principalmente porque a verdadeira missão deles estava prestes a começar, mas ele tinha algumas das pessoas mais importantes de sua vida ao seu lado naquele momento e tudo que havia em seu coração era felicidade e esperança. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentia que poderia ter um futuro e se fortaleceu para os obstáculos em prol desse novo sonho que criava raízes cada vez mais profundas em suas certezas.
Assim como havia previsto, os olhos de Annabeth se maravilharam com a cidade de longe como se pudesse sentir o quão majestosa era sua arquitetura mesmo com a distância. Jason sorriu carinhosamente e cutucou o ombro dela para chamar sua atenção. Ela deu de ombros e bufou emburrada fazendo apenas com que ele sorrisse mais.
– O que está acontecendo entre esses dois? – Percy sussurrou para Grover com uma carranca.
Grover sorriu. – Não fique com ciúmes. É que Jason apostou que ela amaria Nova Roma e Annabeth duvidou com unhas e dentes. Eles ficaram bem amigos nos últimos meses, principalmente porque ele sabia muito sobre romanos e ela sobre gregos.
– Então eles se uniram pela liderança da missão?
– Tipo isso.
– Entendi.
– Você não está com ciúmes do quão bem eles trabalham juntos, está? – Grover tentou esconder a risada atrás da mão com pouco sucesso. Percy sentiu o rosto esquentar com a acusação.
– Não estou! É só… Será que nós ainda funcionamos como uma equipe? Já faz algum tempo…
– Oh, Percy, não se preocupe com isso. O que é alguns meses para uma amizade de anos recheada de incontáveis batalhas de vida ou morte?
– Eu sei, mas não consigo parar de pensar que… você sabe… eu meio que peguei o lugar dele no Acampamento Júpiter, então não seria irracional pensar que ele pegou o meu no Acampamento Meio-Sangue. – Percy deu de ombros como se não fosse importante ou o motivo para tirar seu sono desde que recuperou completamente sua memória.
– Ninguém pode substituir Percy Jackson e você deveria saber muito bem disso. Além de que, Jason chegou com seu próprio conjunto de semideuses gregos, então duvido que ele tenha realmente pego seu lugar em qualquer momento. – Grover apertou a mão dele com carinho.
– Os dois que ficaram no navio?
– Sim, Leo e Piper. Filhos de Hefesto e Afrodite, respectivamente.
– Considerando que ele deu a entender que construiu o navio e ela era linda de fazer os olhos saltarem do rosto, acho que dava para adivinhar.
Grover deu um beliscão no ombro de Percy de brincadeira. – Continuando o meu papo motivacional, você não tem que se preocupar com isso. Annabeth tem espaço o bastante para arquitetar planos com todo o tipo de pessoas e acredite, ela é muito boa em administrar isso. Você não tem ideia de até onde ela foi e com quem falou quando estava procurando por você.
– Entendi. Vou manter isso em mente.
– É bom mesmo.
O banquete foi, de início, tão amigável do que se espera de dois grupos que estiveram em guerra por séculos. A verdadeira disputa de vontades parecia acontecer entre Annabeth e Reyna, enquanto Jason e Percy intermediavam a forma romana e a forma grega de ver as coisas. Grover observava atentamente o desenrolar da conversa e tocava os dedos de Percy por baixo da mesa quando sentia que as coisas se complicavam. A profecia era clara e o que deveria ser feito também, mas claramente havia algo que era do conhecimento de todos, menos de Percy, que impedia a animosidade de ser superada completamente. Sempre que Reyna insinuava o assunto, Annabeth ficava tensa e Jason intervinha a seu favor. Percy sentiu um pouco de pena de Reyna, vendo o garoto que era tão bom como seu parceiro em liderar tomando o partido de outra pessoa e tendo que manter a postura. Talvez eles fossem mais parecidos do que ele havia dado crédito a princípio.
Em algum momento, Don surgiu ao lado da mesa deles e encarou Grover penetrantemente com e sem o óculos como se não pudesse realmente acreditar no que estava vendo.
– Eu ouvi rumores de um suposto novo Senhor da Natureza, mas não consegui acreditar até ver por mim mesmo. – Ele parecia encantado e coçou o peito com os dedos agitados. Percy se perguntou se aqueles sensíveis a forças externas realmente sentiam algo diferente emanando de Grover, porque não importa sob que ângulo olhasse ou o quanto procurasse, ele ainda era o Grover de sempre sem tirar nem pôr. Um pouco mais bonito e confiante, é claro, mas os mesmos olhos gentis e sorriso fácil de sempre.
– Tecnicamente, ainda não sou o Senhor da Natureza. Estou em período de teste. – Grover sorriu amigavelmente.
– Mas você foi abençoado por Fauno, certo? Você realmente o viu? – Don se aproximava a cada palavra e seu nariz se agitava como se estivesse perseguindo um cheiro bom. Grover recuava delicadamente como se já estivesse acostumado com esse tipo de aproximação.
– Eu vi a versão grega, o grande deus Pã, mas de certa forma, sim, fui abençoado por ele.
– Pelos deuses! – Don deu um pulinho animado. – Você daria a honra aos faunos do Acampamento Júpiter de falar um pouco sobre a sua missão? Nós estivemos esperando por alguém como você por muito tempo!
– Claro, eu adoraria. – Grover se virou para a mesa. – Com licença, eu já volto. – Deu um beijo na bochecha de Percy e se levantou em um pulo. Conforme saiam do refeitório, Don pulava em torno de Grover como se ainda não pudesse acreditar que realmente estava andando ao lado dele e falava animadamente sobre algo que fazia Grover rir.
– O amigo de vocês parece bem importante. – Reyna comentou despretensiosamente.
Annabeth sorriu. – Digamos que tratamos os sátiros e os faunos de formas diferentes. Grover é bem mais do que um pedinte, pode acreditar.
– Eu adoraria que você me falasse mais a respeito de sua forma de ver as coisas, se puder me dar a honra de caminhar comigo pela cidade.
Não foi um convite feito com pretextos amigáveis e isso estava claro, no entanto, não era do feitio de Reyna atacar pelas costas. Então quando Annabeth olhou para ele em busca de conselho, Percy assentiu levemente assegurando sua segurança.
– A honra seria minha de conhecer a sua bela cidade.
Reyna sorriu pela primeira vez desde que a reunião começou e se levantou. Annabeth lançou um olhar para Jason antes de segui-la. Hazel cutucou Frank discretamente e com uma desculpa esfarrapada ambos se retiraram também. Percy ergueu o olhar para Jason que também parecia tenso e desconfortável por terem ficado sozinhos.
– Então… – Jason começou secando as mãos na bermuda.
– Sim?
– Você e Grover…
Percy ergueu a postura ereta e estufou o peito. – Estamos namorando.
– Entendo. Que bom. – Havia alívio em sua voz e instintivamente Percy relaxou.
– Você e Annabeth…
– Apenas amigos. – Jason respondeu sem qualquer hesitação. – Ela é uma parceira de equipe incrível, mas eu gosto de outra pessoa.
– Entendi. – Percy se perguntou se era o tal garoto Leo ou a garota Piper, mas achou que não deveria ser tão intrometido quando nem conhecia o cara direito.
Ambos ficaram em um silêncio desconfortável por alguns instantes antes de Jason se levantar em um pulo e sugerir que eles caminhassem pela cidade. Percy não achava que caminhar resolveria aquele silêncio, mas era melhor do que ficar parado sem saber o que dizer ou fazer. Embora, em retrospectiva, ele queria ter caminhado mais por Nova Roma antes de sua missão. As coisas sempre acontecem tão rápido que Percy raramente tinha momentos para aproveitar de verdade o ambiente ao seu redor. Porque a cidade era uma mistura majestosa de antiguidade com modernidade e a sensação de pertencimento preenchia cada pedaço de seu ser conforme caminhava pelas ruas de pedra. A certeza de que queria construir sua vida naquele lugar se consolidava a cada segundo que permanecia em Nova Roma.
– Você e Grover se conhecem a muito tempo, não é? – Jason perguntou inocentemente.
Percy deu de ombros. – Somos melhores amigos a anos.
– Melhores amigos são próximos. Imagino que tenha sido difícil perceber que estavam apaixonados um pelo outro.
Lentamente as peças foram se encaixando na mente de Percy e ele olhou para Jason como se olhasse pela primeira vez. Era tão estranho ver um cara tão perfeito sentir qualquer resquício de insegurança. Mais ainda que ele estivesse buscando conselhos de um cara que nem conhecia direito e que supostamente havia roubado seu lugar.
– Eu conheci Grover quando tinha 12 anos, mas acho que comecei a me apaixonar por ele só dois anos depois. – Percy sorriu ao se lembrar da sensação de ter um Grover choroso em seus braços e perceber que não queria que ele buscasse conforto nos braços de mais ninguém. De detestar uma dríade que não havia feito nada além de conquistar o coração de seu melhor amigo. Em retrospectiva, Percy se sentia um pouco infantil por isso, mas o ele de 14 anos que se sentia condenado por um fim iminente tão próximo teve pouca oportunidade de ser infantil. – Não sei quando ele começou a se apaixonar por mim, mas percebeu apenas nesses últimos meses em que ficamos separados. Quando ele pulou do Argo II e me beijou, foi o nosso primeiro beijo. O que eu quero dizer é que essas coisas levam tempo quando é com amigos. Sabe, quando você se importa muito com uma pessoa e percebe que pode se importar de outra forma também. Mas quando você percebe e sente que a outra pessoa percebeu também, então você não deve hesitar. Eu me arrependeria mais de não ter tentado e não ter vivido do que de ter tentado e perdido. A vida é curta demais para um semideus, você não acha?
Jason parecia pensativo. – Sabe, você é um cara bem mais esperto do que eu imaginava.
– Vou considerar isso um elogio.
Eles sorriram e continuaram seu caminho. Percy passou os olhos pela praça distraidamente e se animou ao ver Grover sentado na fonte com vários faunos ao seu redor. Eles pareciam hipnotizados por algo que ele falava com emoção e suspiravam quando ele gesticulava perto de seus rostos. Ele sabia que os espíritos da natureza se sentiam atraídos pela aura de Grover tanto quanto o açúcar atrai as formigas e que os faunos estão em uma situação ainda mais desesperadora do que os sátiros, mas estava meio surpreso com a popularidade do namorado – namorado – entre a população local.
– Você se importa se eu… – Percy gesticulou para o grupo.
Jason sorriu. – Fique à vontade. Vou ver como as coisas estão no Argo II.
Foi um pouco difícil para Percy atravessar a pequena multidão de faunos sentados e de pé ao redor de Grover. Quando seus olhos se encontraram, o sátiro se levantou com um sorriso e estendeu a mão graciosamente. Percy foi rápido em segurá-la e puxar Grover para perto antes que algum fauno engraçadinho se intrometesse entre eles.
– Você está se divertindo? – Percy perguntou em um sussurro.
– Isso é mais trabalho do que diversão, mas estou bem. – Grover sussurrou de volta. Sua atenção voltou para os faunos. – Pensem no que eu disse e escolham o que querem fazer. São criaturas livres, mas liberdade não significa falta de propósito se vocês realmente desejarem um. Vocês sabem onde me encontrar ou aqueles que trabalham comigo se aceitarem a minha proposta. Preciso ir agora, mas meu espírito estará presente dentro de cada um de vocês a todo o momento.
Os faunos suspiraram encantados e acenaram conforme Percy e Grover se afastavam de mãos dadas. Aos poucos eles se dispersaram da ponte e pareciam pensativos demais para continuar com suas travessuras em troca de moedas tão cedo.
– Eles gostam mesmo de você.
– Não os culpo por isso. Eles não possuem utilidade para os romanos e tão pouco um deus para servir. Os sátiros pelo menos tinham Dionísio para ditar algum caminho e Ártemis para se inspirar e admirar. Baco é completamente sem propósito e Diana é muito rígida e nenhum dos dois parece ter interesse por eles. São apenas criaturas que existem e morrem sem terem vivido realmente. Liberdade para fazer o que querem, mas não podem pelas regras ao seu redor. A ideia de uma divindade da natureza é como um jarro de água no deserto para a maioria deles. – Grover suspirou. – Bom, não estou reclamando de ter mais criaturas da natureza para ajudar a restaurar o domínio de Pã, principalmente em tempos como esses com a Mãe Terra fazendo promessas que definitivamente não cumprirá.
– Como assim?
– Ela promete proteger os espíritos da natureza e todas as criaturas que a servirem, mas se ela acabar com toda a vida desse mundo, o que os Titãs vão comer? Os sátiros e os faunos vão ser os primeiros, sem sombra de dúvidas! – Grover estremeceu.
– Ei, isso não vai acontecer. Nós vamos enfrentar ela e impedir que desperte. – Percy apertou a mão dele com determinação.
– De você, eu espero qualquer coisa.
Grover se virou para beijá-lo, mas antes que seus lábios se tocassem um estrondo soou não muito longe deles. Percy puxou Grover para perto e procurou pela origem do som. Parecia um ataque, mas foi tão súbito que não conseguia imaginar que eles não perceberam um inimigo se aproximando. Então, como se respondesse todas as suas perguntas, ele viu um dos canhões do Argo II disparar contra outra parte da cidade.
– O que eles estão fazendo?! – Grover esbravejou incrédulo.
– Eu não sei, mas nós temos que sair daqui rápido! Os romanos não vão deixar isso barato!
Dito e feito, a retirada deles foi apressada e um tanto violenta. Quase acertaram Jason com um tijolo quando ele se estendeu pela amurada para ajudá-los a subir a bordo, mas pelo menos Percy teve a oportunidade de ver Octavian cair de cara no chão. Pequenos prazeres são tudo que importa nessa vida.
– Parece que agora começou de vez a Profecia dos Sete. – Grover comentou encolhido em um canto do convés enquanto eles sobrevoavam em alta velocidade o lugar que poderia ser o futuro deles. Percy tinha firmemente seus braços em volta dos ombros dele.
– Já está arrependido de ter vindo? – Percy gracejou.
Grover bufou com um sorriso. – Como se eu pudesse evitar uma aventura com você. – Sua expressão ficou séria. – Vamos ter que descobrir o que aconteceu. Isso complicou bastante as coisas para nós.
– Quando as coisas não são complicadas? – Percy suspirou. – Mas vamos descobrir como navegar por isso, de um jeito ou de outro. É uma missão, afinal. Não deve ser tão difícil depois de tantas outras.
– Você e a sua boca grande ainda vão nos colocar ainda mais em perigo. – Grover resmungou. – Vem, vamos descobrir o que aconteceu. Eu conheço Leo e ele não atiraria nos romanos sem motivo.
– Como você sabe que foi ele? Octavian não é o que eu chamaria de confiável.
– Acredite, ele nunca deixaria alguém tocar nos controles deste navio nem se a vida dele dependesse disso.
Percy concluiu que como o grande encontro entre gregos e romanos e união de todos os semideuses citados na profecia, as coisas poderiam ter sido bem piores. Ainda havia muito a ser resolvido e parecia que os desafios estavam longe de terem terminado, mas Percy Jackson é o melhor quando se trata de lidar com essas coisas e, bem, rumo a vitória ou o que quer que estivesse aguardando por eles nas Terras Antigas. Porque ele teria seu futuro, custe o que custasse.
