Chapter Text
Kirishima não podia adormecer, corria o risco de deixar a cabeça cair no ombro de Bakugou ao seu lado e sabe-se lá que tipo de punição receberia por isso. Entretanto o balançar do ônibus era exatamente como o balançar de um berço e, lentamente, o ruivo sentia suas pálpebras tornando-se pesadas — era um momento tão propício para dormir…
— Se babar em mim eu mato você! — exclamou o amigo de cara emburrada olhando pela janela. Só havia árvores lá fora e mal dava para vê-las já que a escuridão da noite caía aos poucos. — Mas que droga de viagem demorada! Já era para termos chegado!
— É… — concordou Kirishima suspirando, queria estar em sua cama quentinha e não no assento velho e duro de um ônibus escolar.
Ele não tinha reclamações quanto à excursão que eles haviam feito no entanto, o passeio no planetário fora bem divertido, superara expectativas na verdade. Todas aquelas coisas sobre a imensidão do universo eram fascinantes e agora, quando Kirishima via-se impossibilitado de cair no sono, elas traziam uma certa reflexão a sua cabeça.
— Hm… Bakugou? — Arriscou-se a puxar conversa.
— Que é? — resmungou o outro.
— Você acha que existe vida em outro planeta?
Kaminari, sentado no assento à frente, logo se virou para trás com a expressão mais iluminada do mundo e, qualquer que fosse a resposta de Bakugou, ela se perdeu no meio do falatório que se seguiu.
— É claro que existe! — exclamou Kaminari. — Acho até que os alienígenas estão entre a gente! Já imaginou como seria legal dar de cara com um, Kirishima…
Blá blá blá blá, foi só o que Bakugou ouviu, estava muito atento a outras coisas para se importar com aquilo. Não queria admitir nem a si mesmo, mas estava preocupado, inquieto, tudo por causa de um sonho idiota que tivera na noite anterior. Sonhara com aquele ônibus, com aquela maldita demora em chegar ao destino e com outras coisas que não sabia como explicar.
Não era do tipo que se sentia intimidado por qualquer coisa, mas o modo como a noite começava a se fazer presente lá fora parecia-lhe um tanto ameaçador. Ele sabia que era uma idiotice tremenda ficar matutando sobre algo tão banal como um sonho, mas não conseguia evitar, nem mesmo conseguia ficar irritado o suficiente para gritar com Kaminari que não parava de falar.
A verdade é que lhe parecia impossível tirar os olhos da janela, pois a certeza de que havia algo lá fora além das silhuetas das árvores invadia-lhe a mente de tal forma hipnótica que as risadas de Kirishima — em outras ocasiões motivo de sua distração constante — mal chegavam aos seus ouvidos.
E então, no momento em que afastava aqueles pensamentos da cabeça e se preparava para mandar Kaminari calar a boca, ele viu. Luzes coloridas dançavam atrás das copas das árvores, acompanhavam o caminho do ônibus.
Bakugou esfregou os olhos algumas vezes para ter certeza de que aquele não era um delírio do sono que começava a atormentá-lo, mas tal ação não fez qualquer diferença, as luzes estranhas continuavam lá movimentando-se em círculos.
— Mas que porra… — murmurou chamando a atenção de Kirishima e Kaminari.
— O que foi? — indagou o ruivo.
Kaminari, por outro lado, já olhava para a mesma direção que Bakugou — sua expressão nem tão mais iluminada assim, pelo contrário, um misto de choque e horror estampava seu rosto.
— O que é aquilo? — questionou, sua voz tremia.
— É só… deve ser um… é.... — Kirishima tentava, miseravelmente, encontrar qualquer resposta plausível que tranquilizasse a ele e a seus amigos. — Um avião?
— Acho que aviões não voam tão baixo, cara — Kaminari disse. — Será que são eles? Eu não estava falando sério quando disse que seria legal dar de cara com um alienígena.
— Cala essa boca! — esbravejou Bakugou. — Não existe essa coisa de alien…
BAM!
O ônibus derrapou um pouco na pista até parar por completo. Gritos foram ouvidos, mas ninguém se feriu, alguns, como Sero que dormia no assento ao lado de Kaminari por exemplo, nem sequer acordaram.
Os únicos três que viram as luzes estranhas lá fora se entreolharam, era impossível determinar qual deles transpassava mais aflição. Bakugou, é claro, tentava provar não ser ele fazendo cara de impaciente e curvando suas sobrancelhas até parecer que estava a ponto de matar alguém.
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— Más notícias, os pneus traseiros do ônibus furaram — explicou Aizawa, o professor que os acompanhara naquele passeio, em seu tom monótono e mais sonolento do que qualquer adolescente presente ali. — Boas notícias, o ônibus parou próximo a um posto de gasolina, uma coincidência, não? Eu e o motorista iremos até lá, vocês, fiquem em seus lugares. Iida está no comando já que é o representante da classe. Tudo será resolvido em breve, portanto colaborem.
Kaminari já estava comendo a ponta dos dedos, pois não lhe restaram mais unhas para roer e Kirishima tentava se convencer de que estava tudo bem. Afinal, olhara pela janela do ônibus umas cem vezes e as luzes estranhas haviam desaparecido.
Não deveria ser nada, eles só estavam impressionados por conta do assunto que discutiam anteriormente, ainda assim seu corpo entrava num estado de calafrios a cada cinco minutos. Ele queria ser como Bakugou que, apesar de também ter visto as luzes, demonstrava indiferença perante os acontecimentos da noite.
— Aizawa-sensei será abduzido e então será a nossa vez — falou Kaminari cheio dos tremeliques. — Como Sero pode continuar dormindo em um momento como esse?
— Como você pode ser tão tagarela a todo instante?! — Irritou-se Bakugou. — Pare de falar bobagens, seu imbecil! Ou melhor, pare de falar!
— Bobagens? Você também viu, Bakugou, aliás foi o primeiro! — rebateu Kaminari. — O que acha que foi aquilo então?
— Eu não sei e não me interessa!
— Vamos lá, pessoal, não há necessidade disso — falou Kirishima pondo a mão sobre o ombro de Kaminari que se inclinava agressivamente para Bakugou. — Tenho certeza de que Aizawa-sensei irá voltar logo. Vai ficar tudo bem, cara, não precisa entrar em pânico.
Kirishima não tinha certeza se estava falando com ele mesmo ou com o amigo.
— Acho também que deveríamos manter isso só entre a gente, sabem — continuou o ruivo —, para não assustarmos o pessoal. Mas não imagino que iriam ficar assustados, apenas tirariam uma com a nossa cara…
As luzes coloridas e rodopiantes não haviam reaparecido, provavelmente nem sequer tinham um significado extravagante como alienígenas e discos voadores, estava tudo bem. Aizawa-sensei voltaria logo, o ônibus seria consertado e em breve todos estariam em casa.
Kirishima olhou para Bakugou na esperança de que este lhe inspirasse um pouco de coragem, no entanto, ao menos daquela vez, o amigo não lhe pareceu tão indiferente a tudo como o esperado.
